Main

julho 13, 2009

Pausa dupla...

anasssr09aa11.jpg


QUINTOANNN09AA.jpg

março 07, 2009

Loucura...

pensa na loucura que é morrer sem ver a alegria da avó que levaram à praia
pensa na loucura que é não ver o mar
nem poder levá-lo
mais tarde

Ana Saraiva

março 05, 2009

Aguarela...

quadroou09aaa111.jpg

à mercê dos olhos
estava um homem
e o seu mar
sentei-me e olhei
ele nada disse
descalcei-me
esperei uma onda
um azul antigo
e a onda veio
transparente
o azul,
terás de o ir buscar
ao fundo do mar
sorrimos
e entrámos na tela.

Ana Saraiva*

* Com a colaboração (pontualíssima) do autor do blogue.

fevereiro 27, 2009

Teias...

meço-te as palavras
e com elas peso o teu ser
num gesto
abre-se uma nova espécie de flor
ainda sem cheiro
nem cor
trarei os lápis
e um pedaço da manhã
e com a chuva ou a saliva
veremos da botânica
a dor

Ana Saraiva

fevereiro 18, 2009

Voilà, la vie est une comédie!...

Pour Monsieur Molière
qui a pris soin de quatre pèlerins

on traverse, alors, le pont
vers Moïse et les anciens
regardez en bas
et écoutez
non, pas la vérité
elle noircit le coeur
mais la rumeur
qui rend le prophet humain
sur ce trottoir, c'est la Seine qui coule librement
vers mon propre océan
vous regardez peut-être la pierre et vous vous dites
que la Seine est ailleurs
que l'eau est en bas
encore plus en bas que moi?
écoutez la rumeur
qui nous rend humains
je vous laisse passer

Ana Saraiva

fevereiro 15, 2009

Radiografia...

o fio enredado que torna o novelo num mistério
revela enfim o vazio das tuas mãos
e o calor do teu corpo

Ana Saraiva

fevereiro 01, 2009

Aniversário...

quando te conheci
eras equilibrista
pousavas cerejas
em bolos festivos
e nas horas vagas
fazias conservas
compotas e pickles
com as convenções
naquele dia,
deste-me um frasco de
tranches d'âge e
uma colher furada
com que sorvo os dias

Ana Saraiva

janeiro 24, 2009

Miniatura (2)...

os ideais que nos animam são intraduzíveis
falaremos disso amanhã na mesa-redonda
com os outros seis mil milhões

Ana Saraiva

Miniatura (1)...

poderia amar, sim
alguém que viajasse
pelo mundo em mim

Ana Saraiva

janeiro 20, 2009

Nojo...

vives na rua e todos os dias te lavas nela
cospes como um cão cuspiria
há muito tempo que não ris
falas com as latas
as brigadas de socorro
e um ou outro passante
não sei onde defecas
não sei onde sonhas
sei, às minhas custas
e a expensas biográficas
que rejeitaste a água aberta
por onde passaram os meus lábios
nojo de mim?
nojo de mim!
nojo do teu corpo indefeso
perante a minha clara mundanidade
insisti, menti, que a água era virgem
menti, no meio de restos de massa
de cobertores queimados, de pacotes
e plásticos e tecidos que foram roupa
que a água era virgem e a minha intenção impoluta
não te soube explicar que vinha de uma festa agradável
onde copos e bocas e olhares se tocam ritualmente
não te pude dizer que o nojo nos pertence todo a nós
que nos lavamos compulsivamente da porcaria que fazemos
recusaste e tinhas sede
nojo de mim!

Ana Saraiva

janeiro 19, 2009

Ante-luz...

tanto tempo ainda nesse rosário
dedilhas e percorres cada conta
e os vales sugestivos entre elas
contemplas e entregas-te
ele é incorpóreo e leva-te
até à plena ressurreição
podes morrer um pouco
um pouco mais
nesse íntimo que te perde
dentro das águas
que são as tuas,
mulher-da-luz

Ana Saraiva

janeiro 18, 2009

Maresias...

fio-me numa aparência de verdade
os olhos brilham
sigo-os até à lâmpada e calculo
densidades e ângulos
que aprendi com Stendhal
parecem verdadeiros
os mares que neles se anunciam

Ana Saraiva

janeiro 12, 2009

In...dependências...

a verdade é que dependo totalmente de ti
sem um adjectivo, ainda que único
de permeio

Ana Saraiva

janeiro 08, 2009

Sem abrigo...

é a despachar!
comam depressa que o frio arrefece
a sopa, a boa-vontade, as mãos que guiam o morteiro
e o morteiro que assim fica brando e ineficaz como o sarcasmo
de quem escolhe o pedaço de chão quente para mais aquela noite
e queima os cobertores made-in-china nos fumos que vêm lá debaixo
e os pulmões
que não sofrem de sarcasmo
toca a andar!
durmam depressa que a noite pode ser longa mas o sol raiou
o dia abriu e o ginásio fecha, meus senhores (cães, não), fecha para limpeza
e desinfestação, perdão, desinfecção das partes comuns à humanidade que pernoita
graças à boa-vontade de alguém que vem no "pacote de medidas de emergência"
que poderão chuchar nos intervalos da existência
e
caso morram
quando as mãos aquecem os morteiros
tenham a bondade de sorrir e de facilitar o vosso manuseamento
tomando um banho diário
e
fechando os olhos

Ana Saraiva

dezembro 18, 2008

A praia de Agnès Varda‏

ela é
tal como tu a imaginaste
os espelhos imortalizam a luz da areia
e o mar entra e aprende a nadar em nós

Ana Saraiva

dezembro 11, 2008

Passe-partout...

deixo-me apaixonar pela tua paixão
começa assim uma bela história de amor
ajeita-te apenas um pouco mais para o lado de cá
para caberes nesta fotografia que celebra os meus cem anos

Ana Saraiva

dezembro 09, 2008

Para o Ademar...

haveria algum motivo para não celebrar
um dia como os outros
apenas mais um?
deixaria por cantar
um ano como os outros apenas mais um?
estamos então de acordo no essencial
a vida vive passando, morre parando
últimas notícias da província:
hoje, um desconhecido recomendou-me em plena rua
que assinasse a petição contra a dívida pública
desejou-me uma boa noite e seguiu caminho
eu ainda não assinei mas queria contar-te
isto
da dívida pública
hoje, recomendo eu o título

Ana Saraiva


novembro 30, 2008

Fulminâncias...

pensa que se a vida se consumisse num gesto
eu ficaria eternamente apaixonada
pela água que te fui buscar
e que me deste a beber

Ana Saraiva

Jogo de improvisos...

se por exemplo tivesses um arrojo
um gesto a passar da borda
a borda vertida
momento sempre presente
quando foi que a gota
o dedo
o copo
também não sei
faltam versos
falta tempo

Ana Saraiva

novembro 28, 2008

Unicidade...

só há uma história de amor
e nela há sempre alguém que estava sozinho
e alguém que também

Ana Saraiva

novembro 24, 2008

Circo de pescado...

jacinta levou o óscar da melhor performance
jacinta tirou o carapau da boca da foca
pôs-se a jeito e levou
ai, que estrondo!
palmas, palmas!
é ela!
o carapau, porém, não se conformou
e esperneando com as suas perninhas desafiadoras
que o método socrático destina-se a levar a água ao criador pela boca do bebedor
saltou e nadou velozmente
a foca estava ainda boquiaberta
pensando talvez que sorte teria levado o seu tratador
quando
glup
e pelo ar troou
um belo arroto animal

Ana Saraiva

novembro 20, 2008

Surf...

preparo-me para definir
e logo as excepções
me fazem cócegas
recomponho-me
pego nuns
caracteriza-se por!
e os risos dobram-me
implacáveis, tão jovens
vêm ainda no autocarro nº5
ao fim da tarde a propósito de nada
ríamos de não poder rir do absurdo tão nítido
regresso
proponho uma coça aos ismos
e tirarmos os sapatos
protestam que o chão está frio
e que não se pode perder tempo
alguém explica que o chão é agora areia branca
e logo alguém se espreguiça numa longa comparação
explicito
comendo as solas

Ana Saraiva

novembro 18, 2008

Avalia, cão!...

todos tristes a brincar às normas
não há ninguém que perceba
que as palavras são luz roubada
e que as letras são desenhos
de gente crescida?

Ana Saraiva

novembro 17, 2008

No lugar do tango...

ao fim da tarde
havia unanimidade sobre a soirée poética
reunirá banalidades ou excentricidades
à volta de uma mesa que não abane
e torne evidente o desconforto
de quem anseia apenas
nudez iluminada
escrevamos
que no verbo correm seivas
possíveis de conter
daquela pessoa que acaba de chegar
nada se sabe do gosto do seu suor
sentados
lambemos nomes com adjectivos
e nada confessamos

Ana Saraiva

novembro 11, 2008

Ditongo ocasional...

sou feliz nos braços quentes de um desconhecido
estamos ali, coincidentes
reincidentes

Ana Saraiva

novembro 09, 2008

Fogo replicante...

com as palmas das mãos bem abertas
esperou que um fogo por elas se ateasse
ao longe, um lume crepitava esquecido
quase adormecido no frio nocturno
lá fora, mãos ardiam como fósforos
ali perto, alguém se consumia
subitamente, por nada
veio o dia
com as palmas das mãos bem abertas
seguiu as linhas da vida e do viver
veio a noite e com ela rumores quentes
de vinho doce e chama

Ana Saraiva

novembro 05, 2008

O poema que partilharei hoje com os meus alunos...

anasaraiva08nov.jpg

Continue reading "O poema que partilharei hoje com os meus alunos..." »

Luz...

não me interessam as tuas aventuras
cheiram a ranço e a exotismo triste
interessa-me o verde no fundo
dos teus olhos castanhos
é um fenómeno de luz
numa manhã que soube estar de sol
andámos em redondo
e rimos
que eu sou uma péssima guia
e o Buttes-Chaumont que nem é grande
mas que a terra é redonda
como o verde dos teus olhos castanhos

Ana Saraiva

novembro 03, 2008

Para Aisha Ibrahim Dhuhulow...

Aisha, Aisha
écoute-moi
Aisha, Aisha
n'y vas pas
Aisha, Aisha
ne parle pas
fuis la Loi
reste avec moi
Aisha
Aisha
Aisha, on en parlera
pour toi
on enlèvera la poésie
on dira
Aisha, tu nous excuseras
si on rime, si on rêve
sous les pierres

Ana Saraiva

Yes...

yes, you are the one
but just how black are you
the first black
bleck-bleck- bleck
do I have a dream
president
be my first hope
my last certainty
that hands, not hearts
will seize that justice
will build that bridge
you are only one
as are all of us
are we together
make it affirmative
we will discuss the rainbow
and any other color
some other day
brother

Ana Saraiva

novembro 02, 2008

Repouso...

todo o protesto pede um desmentido
uma razão que poderia ir a julgamento e ganhar
ou um pedido de clemência
com os pulsos brancos bem à vista
e as veias que neles se precipitam
sento-me ao colo de Júpiter
e entretenho-me com as núvens

Ana Saraiva

novembro 01, 2008

Corrigenda...

não há mistério nem nenhum tesouro
aqui não há nada a não ser corpo e pessoa
o que encontrares será sempre o barro das tuas mãos

Ana Saraiva

Paris, 1 de Novembro...

chove
espero-te deste lado da porta
com uma toalha quente
de corpo inteiro
não chove

Ana Saraiva

outubro 31, 2008

Ora pro nobis...

glória a ti nas alturas
hoje, perdi os óculos
tenho os sapatos rotos
e a chuva está imparável
vós, que sois muito alto
(fostes algum dia poeta?)
vedes alguma melhoria para amanhã?
é que sinto um desamparo
é difícil de explicar
sem me rir
e depois, é difícil não chorar
e sem óculos é tudo mais difícil
nem sei bem quando os perdi
não respondes, bem sei que
se amanhã fizesse sol
ainda assim teria frio
por hoje, fico aqui sentado
muito devagar
espero não ter feito confusão
ouves-me? ainda é hoje?
não me deixes

Ana Saraiva

outubro 30, 2008

Sensibilidades...

je suis sensible
un rien me fait pleurer

e chorou, de uns olhos
redondos e verdes
ainda claros
ainda cheios de espanto
da rua vê-se melhor
quem passa

Ana Saraiva

outubro 28, 2008

Sobremesa...

poderia ser diferente se
a utopia viesse, por uma vez,
jantar connosco
talvez se deixasse seduzir
por tanta iguaria e tanta fome
talvez cedesse
se o linho lhe tocasse os joelhos
e o vinho os lábios
um rubor que a denunciasse
como vencida e disposta
a ficar, por uma noite ou duas
até a um amanhecer

Ana Saraiva

outubro 25, 2008

Poema em vida...

o primeiro verso ficou em branco
e
o último não chegará a ser escrito

Ana Saraiva

outubro 24, 2008

Sintaxe...

claro que haveria muito mais a dizer
a palavra seguinte
talvez acenda rastilhos em leitos de rios
talvez não
a palavra seguinte
cheira a fogo
sabe a humidade
é essa que se acende nos teus olhos
deixa-me ver mais de perto
se é verbo ou substantivo
se tem muitas sílabas
se rima
se ri
vamos conversar

Ana Saraiva

outubro 23, 2008

Simplicidades...

uma mensagem simples
a meio da manhã
qualquer coisa como:
parece-me que gosto de ti
é uma manhã alegre
e de muito sol

uma segunda estrofe
seria absolutamente
desnecessária

Ana Saraiva

outubro 21, 2008

Imobil idade...

esse amor pelo momento presente
é quase engraçado ver-te correr assim
com os sentidos todos em alerta máximo
urgências, angústias
e eu sou ou já fui
passa uma borboleta
talvez de muitas cores
e eu ainda não me mexi
desde que te vi

Ana Saraiva

outubro 20, 2008

Passadiço...

é agora certo que não voltarei a amar
a vida perdeu-se numa certeza
basta ter-se uma
dito isto, adormeceu
e deixou-me a decidir se é para sempre

Ana Saraiva

outubro 15, 2008

Entre gavetas...

muito cedo amanhã de manhã
parto a pé para explorar os lagos do norte do mundo
ficam as mil maneiras de escrever azul na segunda gaveta
diz aos outros que não me enganei e abre a gaveta devagar

Ana Saraiva

outubro 14, 2008

Autumn Leaves...

Ahmad, porque me levas assim pelas mãos
a ver contigo a luz negra da terra
se ela ainda cheira a quente
depois de pensada
descalço-me
entro na roda
haveremos de cair mas por ora
apenas libertamos o mundo
rodamos, rodamos
um nada dito em voz muito baixa
que o mundo é redondo
e infinito
apertas-me mais as mãos
ainda não caio
e era tão fácil
rodamos, rodamos
a vertigem está só nas coisas
ainda sinto os teus dedos
não quero a tua liberdade
porque volto sempre a ti

Ana Saraiva

outubro 13, 2008

Murmúrios...

aquele nomes são geografias
todas tão possíveis, a percorrer
esse é um só passo, o primeiro
o querer
para a frente, o perigo
e o que há-de ficar por perceber
não vás, o mundo espreita
o mar só sabe acabar
a terra apenas calar
esse primeiro, esse passo
não vás, depois é o infinito
depois é não saber
está bem, um primeiro
apenas um
jazido, por viver

Ana Saraiva

outubro 09, 2008

Para o Pedro...

e ali estavas,
encontrei-te a outra vida
accordéon
e um sol maior
mãos curvadas no som
sorriso cantado
a uma voz
e paz

Ana Saraiva

outubro 07, 2008

Herbário...

deixo as frases a meio
há um ou outro botão esquecido
o tempo confunde-se com o desejo
não sei se estás ou estiveste
a roupa está em desalinho
ou serei eu talvez
achei um botão
não sei se da tua camisa
se da minha imaginação
talvez uma rosa ainda fechada
de manhã
é talvez só meu
o tempo que as entreabre
as manhãs
as rosas

Ana Saraiva

outubro 05, 2008

Notações...

sinto-te em vibração interior
tão belo não poder ouvir
ainda que te pudesse ver
(longamente)
seria o arrepio da palavra
a eriçar a pele
e a calar tudo o que sabemos
nada estranho
sou menos ou serei
mais do que podes alcançar?
levo o meu corpo dentro
hesito o gesto e a fala
a vida, não

Ana Saraiva

outubro 03, 2008

Claridades...

ainda não acabei de ler
a tua biografia pouca e dorida
um abandono, os punhos fechados
a condenação dos dias
educaste no companheirismo
pouco menos do que muito violento
a metade mais pequena e mais frágil
de nenhum todo
também assim se cresce
e se chega a alguma verdade
por exemplo,
agora posso sentar-me a ler
a tua biografia
sem que as palavras firam os dedos
agora posso abrir e fechar o livro
sem medo da tempestade
em dia tão claro!
pouso o livro para ver melhor

Ana Saraiva

outubro 02, 2008

Chamas...

cai a chama na água
arde ainda um pouco
e apaga-se
deixando a água quente
acredita e despe-te
alma e tudo

Ana Saraiva

setembro 29, 2008

Nudezes...

sacio-me bem e a gosto
como da minha fome
e bebo da minha sede
na boca que me acolhe
toda tua e eu
sacio-me outra vez
e outra vez tenho fome e sede
e a tua boca toda tua
acolhe-se na minha saciedade
estamos nus e somos pobres

Ana Saraiva

setembro 14, 2008

Quimicidades...

por que estranho fenómeno químico
cheiro agora sempre a ti?
o que sabe a pele
o que sabe o corpo
o que sabe o íntimo
que à palavra não chega?
todas, talvez respostas
a perguntas que já não ouves

Ana Saraiva

setembro 13, 2008

Rodapé...

se duvidas da importância do momento presente
como te sentes agora?
é como te vais sentir sempre

Ana Saraiva

setembro 09, 2008

Agenda...

a espera gelou à espera de esperar
o mundo fez-se branco
depois transparente
depois inexistente
e acabou por acabar à espera de esperar
o tempo passou
passou tanto que acabou
ainda ficou um silêncio
mas sucumbiu
a um pássaro que tinha de voar

Ana Saraiva

setembro 07, 2008

Telegramando...

se vieres para ficar
traz um pouco de solidão
e ama-a também e sempre

Ana Saraiva

setembro 04, 2008

Columbarium, 848

sei que és cinzas
como as palavras
antes da memória
dou-me, árvore
dou-me, voz
não vives
eu, sim
passei por ti hoje
comemorei os teus cem anos
nas ruas do nosso exílio
my wonder
et tes pas

Ana Saraiva

agosto 31, 2008

A...gosto...

é provável que tenhas acertado o tempo
por outras mãos
tementes porque vivas
eu pego nas tuas como posso
e naquelas outras que de ti falaram
a tua trança foi todo o meu corpo
e nele o lembrar-me de ti sem o dizer
não terias aprovado
nada disto seria aprovado
mas não há lei nem cânone nem gente que saiba
porque encerro Agosto no dia em que nasceste

Ana Saraiva

julho 18, 2008

Reentrâncias...

fecho-me para que me abras
não tenho mais mistério
nem mais segredos
do que este
abres-me
não
és vontade de abrir
aperto-me ainda mais
sempre mais, nunca aprendes?
e se me abrisses toda verdadeiramente
quantos redutos ainda teria a mente
quantos atalhos e caminhos descalços
para lado nenhum?
ainda que te diga que minto
ainda que te force a mão
a pensar como punho

Ana Saraiva

julho 10, 2008

Ensaio da Criação...

e deus criou o homem
à sua imagem e semelhança
dura e imaterial
pura questão de fé
a existência do amor
quem nunca abriu os olhos
continua a adorar lá dentro
e a destruir estátuas
um sopro
a pedra

Ana Saraiva

junho 20, 2008

Talvez...

também é gente quem de poesia é feito
refaz o que de eterno há no sentir
até parecer que está alguém

Ana Saraiva

junho 18, 2008

Espanto...

o espanto é haver quem não ame
vindo ou só passando
quem nunca ficou?

Ana Saraiva

junho 09, 2008

Agradecimento...

ainda hoje hei-de voltar
se não for pelo mar
é num fio de corda
na voz travada
neste dia que agora
faço meu
agradeço aos teus poetas
todos os azuis
todos os nomes
para te poder chamar
pudesses tu acreditar assim
em mim

Ana Saraiva

junho 08, 2008

Para a Irene...

encontraram-se os poetas
passava o sol pela tarde
e a tarde pelo tempo
fez-se noite
de muitos luares
de muitas línguas
é bela a geografia
interrompo
(poeticamente)
para se ouvir o silêncio peculiar
dos pés descalços dos romanos
e do pousar das armas, devagar

Ana Saraiva

junho 06, 2008

Rodapé...

era um homem, um homem
desapareceu no metro
depois de encontrado
é distinto
de olhos curiosos
sérios
despudorados
falou um dia a minha língua
em cabo-verde
é misturado
procura-se

Ana Saraiva

junho 02, 2008

Rastos...

leio no meu corpo o teu olhar
o amor não é, se fosse,
algo melhor
mais perfeito
mais uma qualidade
mais uma soma de ideais
mais um requisito preenchido
o santo graal é apenas um cálice
e os lábios de Jesus
empalidecem eternamente
o amor é, se fosse,
aquele que volta sempre
para fazer uma última pergunta
a arte da ressureição
inacabada

Ana Saraiva

maio 30, 2008

Fados do lar...

pouso a roupa e o dia a meio
para pensar
se amanhã é um segredo melhor do que ontem

Ana Saraiva


maio 27, 2008

Satie...

gosto da parte de ti
que come laranjas ao pé do rio
e se atrapalha num olhar
mas gosto mais ainda
desta parte de mim
deste acreditar
em laranjas
e pés descalços
e rios cheios de água

Ana Saraiva

Entre o sal e a saliva...

a tua língua pode-me ser desconhecida
mas é humana
tu sorris
e comes algo estranho
mas comes
és humano
e isso deve ser algo
que está no mundo
isso que comes
e que mastigas
como quem tem dentes
que brilham de saliva
se falasses comigo
e eu te entendesse
nada poderias contar-me
pela primeira vez

Ana Saraiva

maio 24, 2008

Natureza morta...

não era preciso dizeres que eu não sei quão amargo é o limão na tua boca
também não é preciso saberes da doçura do mel conjurada na imagem
duas imagens não perfazem uma metáfora
faço de conta que percebo
a estilística da divisão

Ana Saraiva

maio 23, 2008

Copas de vento...

um dia, espreitámos os dois por uma fechadura
lembro-me que estava do lado de fora
e não havia ninguém no quarto
sim, havia fantasmas
mas deixei de os contar
lembro-me que estavas do lado de fora
e encontraste-me lá dentro
a seguir com as olhos
as correntes de ar
ainda se fossem portas ou janelas
a abrir e a fechar
mas não
houve apenas um copo de água
que estremeceu de cheio
dentro

Ana Saraiva

maio 20, 2008

Aconchegos...

se a verdade é que tenho na palma da mão
uma concha minúscula e perfeita
para quê fazer dela um poema?
dei-a
mudando-lhe o tempo
para poder fazer dela um poema

Ana Saraiva

maio 16, 2008

Natureza imortal...

descubro-me:
em veneza
vi uma rosa nocturna que descia o canal
uma estaca vagamente vegetal
iria para sul?

Ana Saraiva

maio 15, 2008

Evidências...

claro que nos mataremos todos uns aos outros
assim como nos têm amado
a vida é um gesto
mal pensado

Ana Saraiva

maio 12, 2008

Estilhaços...

meu caro esperto, parabéns!
no peido de desprezo
e no sorriso de gala
vê-se como vai à frente na vida!
você casa a causa com a consequência
e ainda recebe o dote!
o que está entre o começo e o fim?
a corda de pontas unidas em nó!
os seus dedos são hábeis
e há tanto pescoço frágil...
parabéns, merecidos!
você atingiu a cúpula da vida
merece um riso farto
e a luz de tudo o que brilha
e o que brilha é ouro!
parabéns, a sério!
mas, antes de me ir embora
gostava de lhe ler as linhas da mão
descanse, é coisa boa!
não as esconda nos bolsos!
não se vá embora!
é uma boa sina, de certeza!
volte, não seja supersticioso,
de onde você está
nunca se vê a falha
dê-me a mão

Ana Saraiva

Nota de desatracagem...

os espelhos caíram
e com eles os ídolos e os pregões
resta o vazio
e o vazio é
uma pedra e um caminho
talvez um vislumbre de céu
e umas gotas de água
e com elas o aviso
de todas as cores
é pouco
é tudo

Ana Saraiva

maio 10, 2008

Depois da pastelaria...

difícil é dizer-te
da facilidade
da normalidade
das tuas mãos
e do bolo que cresce
e se torna tão doce
e apetecível
nenhuma confissão
nenhuma despedida
tem o metal da morte
tudo é água e açúcar
e dedos sujos de chocolate

Ana Saraiva

maio 04, 2008

Conversão a Veneza...

Todos os cursos de água são navegáveis,
até as lágrimas.

Ana Saraiva

fevereiro 29, 2008

Por mais que Alice...

eu nunca me abandonarei
se me perder, recolho-me
e olho muito
até achar o fio de luz
e depois sigo-o
a algum lugar
sem medos
até o abismo
tem fundo
e se no fundo do abismo
se esconder a dor
a outra dor
quem desmente Alice?

Ana Saraiva

fevereiro 04, 2008

Nós no singular...

olhando para as tuas mãos
até parece que há redenção
imagino que me teces
um nó que se desfaz
em laço

Ana Saraiva

dezembro 21, 2007

O azul, o sangue...

poderá ter sido um acaso,
Eva, Maria?
resgato-vos do céu
a pensar no mar de mil cores
e de dores esquecidas em porões calados
sepultadas no fundo de um mistério
porcelanas, sedas
pedras preciosas que ainda brilham
na dureza do tempo
caladas, vivas
húmidas
palavra e elemento
(vê, por favor, a união
rima-lhe amor em
ab
ba)
não terá sido um acaso
este titubear de tempos e modos
língua, ventre
húmidos
Eva, Maria
de que cor é o azul
o sangue do mar?

Ana Saraiva

dezembro 19, 2007

Post-it (roubado, malevolamente, a uma amiga)...

tirar as minhocas da cabeça
tirar a cabeça

(poupo no champô e poupo o mundo)


Ana Saraiva

dezembro 18, 2007

Quase nada...

sim, percebo bem que esse rochedo
é o sedimento do medo
e essa lâmina
as lágrimas da infância
mas, este sangue
é apenas feito de sangue
e nunca lhe descobriste
um único segredo
eu,
em diálogo póstumo
e monólogo perene
conto-te um:
espinho ou flor
quase nada é amor
quase nada
gota-dor
gota

Ana Saraiva

dezembro 09, 2007

Aniversários...

já viu o céu hoje?
é, você!
quem sou?
sou eu, de sotaque
bem emprestado
que lhe pergunto
se já viu o céu hoje
eu juro
juro pela próxima ração de amor!
que se o apanhar
olhando as mãos
rasando as nervuras
de lágrimas
campas cheias de dó
sem viola nem beijo
p'ra disfarçar
eu juro:
coso uma nuvem
ao chão do luar
prego no sol
uma gota de ar!
e agora, ouve
vesti-me de festa
vim para cantar
e vou cantar!
importas-te
de me acompanhar?

Ana Saraiva

dezembro 03, 2007

Madrugar...

tira-me da cabeça aquele velho tão frágil
que pergunta pelas horas
é uma da manhã
e está tudo fechado
até a pena está a cadeado
repito três vezes
antes do último metro
abro a porta e sento-me
não lhe dei nada
ele não me pediu nada
mas eu queria dar-lhe o momento
deve ter havido um momento
em que nunca mais se volta a casa
seriam então duas da tarde
e o sol entrava na loja
um cumprimento
uma conversa banal
um pedido prontamente satisfeito
fiquemos aí
para podermos seguir caminho
ainda que eu continue a falar
cá dentro

Ana Saraiva

novembro 26, 2007

Roubado a uma amiga...

Se eu um dia tiver de morrer, que me escape a solenidade do momento. Como se diz por aí agora: "olha, fui!"

Ana Saraiva

novembro 16, 2007

Aniversário talvez...

as velas apagaram-se
consumiram-se
mas, qual brevidade, qual existência!
a tua vida dura
e nunca a acendeste!

Ana Saraiva

novembro 13, 2007

Rastos...

todos os nomes mudam a natureza do teu chamamento
é por isso que eu sigo sempre em silêncio
o teu rasto em mim lavrado
diz
a terra
encontrou-me a mão

Ana Saraiva

novembro 05, 2007

Pretéritos ou presente?...

cada dia é um passo a menos
de cabeça, que se façam as contas
que não se subtraia
a um pequeno prazer
o seu espinho
a uma grande dor
um maior amor
se ainda não chegámos
faço de cabeça a conta
é por termos todo o tempo do mundo
ainda
que faremos das nossas mãos?

Ana Saraiva

novembro 04, 2007

Uma quase rigidez...

cerveira.jpg
Escultura de Carlos Silva.

chamas-me? é que sinto uma tensão insuportável
os músculos apertam-se tanto que a coluna protesta
arqueando e erguendo a rigidez branca contra o calor
que a segue agora como pele
um solo de piano
um grito
quebra-se o tempo nos joelhos flectidos
fecho, enfim, os olhos

Ana Saraiva

novembro 03, 2007

Os demorados outonos...

se fosse já Inverno
cosia-me num casulo de lã
e tecia um breve renascimento para Março
pegava nos acordes de uma pequena orquestra
e ensaiava a luz e os predadores
uma chuvada ou um luar
tudo é música
tudo espera o fim
sou de um calendário de estações e desejos
nada de eternidades, apenas uma certa duração
cada um a si torna
caiba ou não caiba
pousa a contagem dos dias
é já Inverno
dormias, claro

Ana Saraiva

Natureza quase morta...

sabes o que acontece às rosas
vermelhas?
apodrecem na água
aquela frescura do início
do gesto que corre enérgico
onde está a jarra? e ela que estava ali
quase triste, no canto da espera
e nenhum dos dedos subitamente belos
se lembra
da água morta e das flores secas
aquela frescura do início
é não saber

Ana Saraiva

outubro 31, 2007

Sempre tarde ou demasiado cedo...

chego pelas horas de Cesariny
três, quatro, por aí
não é para ser feliz
é para que me vejas
assim e só
às quatro da tarde
pouco importa quem chega
pouco importa se te deixei feliz
desde as três
ou se fui eu
que fiquei
leio, apressada
os espaços por entre os versos
importa-me mais estar nua
caso nos queiramos amar
dispo ontem de uma só vez
e não tenho frio
são quase as quatro da tarde
chegas, como um homem
arrumo Cesariny
visto-me
leio-te
ainda não bateram as quatro
mas é quase tarde

Ana Saraiva

outubro 30, 2007

O tempo das sombras que viajam nas pedras...

levantaste a mão
nela havia uma pedra
e na sombra o seu tempo

Ana Saraiva

outubro 09, 2007

Vibracções...

vibram-me os teus pensamentos
nos nós dos dedos
a mão em punho
é o ar que nos rodeia
empresto as rotas
para que nenhum dos barqueiros se perca
a mão aberta
é o rio por onde sairemos
totalmente livres
totalmente sós

Ana Saraiva

agosto 17, 2007

Grutas...

a esta preferência exagerada
chamo-lhe resignação
e o coração
braviamente
debate-se e ensurdece-me
não tarda
chamo-lhe amor

Ana Saraiva

Trova brevíssima para desespantar...

faleceu hoje pela primeira vez
o homem que só tinha uma vida
e é para mim que olham?

Ana Saraiva

Mortalidades...

onde está a memória do teu rosto
que lhe quero tocar
os olhos atrás das mãos
e as mãos atrás dos dias
serás outro já
fiz-te outro
quando?
sei de ti como se fosses ar
espero-te com mãos de oleiro
certo é que chegas
em mãos ou em sonhos
proeza semi-mortal

Ana Saraiva

julho 23, 2007

Asma-me...

retiro-me de cena
desço as escadas e é fácil de ver
está sempre tudo à espera de acontecer
atrás de mim, o teu olhar
sigo-o

Ana Saraiva

julho 13, 2007

Posta restante...

hoje há baile na Bastilha
gostava de te convidar
para te ver os olhos a dançar

Ana Saraiva

julho 12, 2007

Rodapé...

usa-me
sou infinitamente reciclável
desfaço-me harmoniosamente
em todos os elementos
naturais ou pensados
calo a dor e o mundo dorme
escondo o sangue e o mundo sonha
não há leito de rio se eu não chorar
não há montanhas se eu não amar
tenho uma condição a cumprir
e uma memória por estrear
e um só desejo
usa-me, agora, sempre
curvo-me

Ana Saraiva

julho 03, 2007

Berlindar...

nenhum dos meus sonhos tem asas
todos querem calcar o céu
enchê-lo de cimento e lama
dejectos, folhas mortas
flores ainda vivas
os pés de um piano velho
enfim, chão
e brincar ao berlinde com a terra
e assim treinar a mão para a sensibilidade

Ana Saraiva

Salvo o amor...

basta uma sílaba ríspida
um olhar repassado a frio
e o fim instala-se
a porta que se abre
depois de fechada
é a mesma porta que se fecha
atrás de quem parte
tudo no mundo parece ser sólido
salvo o amor
salvo o amor
ainda mais uma vez
salvo o amor
lamento-o
precisa tanto de gente para viver
até os deuses se condoem
cravados, Eros,
de tanta humanidade

Ana Saraiva

junho 27, 2007

Piratarias...

um poema é um sítio tão seguro
ali, as palavras não cortam a pele
pode-se ser homem ou mulher
gente, quase ninguém
pode-se afagar o tempo
dizer-lhe que está bem ter de morrer
ou ter de viver
pode-se fingir
interminavelmente
e até chegar a acreditar
que até se podia ser crente!
imagina:
umas quantas palavras e um não-dito
alguém há-de escavar
eu empresto a pá
e mostro o mapa
será sempre o começo de uma bela aventura
pensa já em ilhas e tesouros
e no mar
é aqui que quero chegar

Ana Saraiva

junho 25, 2007

Lição...

faz como te fizeram a ti
ser livre
e rir disso
não é para todos

Ana Saraiva

junho 13, 2007

Mnemónica...

nada
nem uma vibração
nem uma corda
nenhum dedo
ninguém
nem um som
nem um acorde
nenhum bater
ninguém
não ficou nada
desse além
nem uma sobra de nada
de quem foi alguém
ninguém
faz-te ao mar
ou ao vento
ao abraço
do tempo
diz ao que vens
talvez te aceitem
aqui é perto
e hoje é agora
talvez te aceitem
começa.

Ana Saraiva

maio 21, 2007

Post-it...

como a vida não é uma tangerina
nem o nosso tempo um gomo
deixa as comparações
absurdas e impoéticas,
por favor!
para uma terça-feira de manhã
sem brilho nem rumor de alegria
e limpa o sumo do queixo,
por favor.

Ana Saraiva

Metástases...

este nodo é apenas um leve roçar
não aperta nem se lhe vêem pontas
não se sabe de onde vêm as partes
nem porque se tocam
é tudo o que me prende à vida
tem cuidado quando me olhares

Ana Saraiva

Aparências...

tudo e todos se parecem
levam o mundo dentro
e sonham para fora

Ana Saraiva

Suturas...

voltaram os dias largos
duram sempre o mesmo tempo
padecem de uma finitude exagerada
já sabemos, há um fim e depois um começo
mas, temos mesmo de sentir a costura entre eles?

Ana Saraiva

maio 19, 2007

Índice...

salvo erro do destino
começo pelo fim da história
desconhecendo o nosso paradeiro
e até a história
sei apenas que chegámos
sem desprezar nenhum dia
sem contar nenhuma hora
ao largo
ao largo
ao largo passam navios
ancorados em água
ou serão pássaros
pregados ao céu?
sempre temi
a mentira de liberdade
e acreditei
ao largo há um silêncio
e nenhum ar
sempre esteve escrito
tu e eu
e talvez o mar

Ana Saraiva

maio 09, 2007

Antecipações...

torno-te em hábito
só para te poder repetir
faço-te vício
para me desculpar
desta tão grande desatenção
a todas as coisas outras
um dia morrerei
só para não te ver partir

Ana Saraiva

maio 02, 2007

Finalmente a desordem...

ardemos já numa pira
ainda invisível
dentro do fulgor da chama
jazem todas as cinzas
e nenhuma boca sorri
a prometer o amanhã
ou o silêncio do mar
no peso líquido nos olhos fechados
há um instante de pânico e uma onda
que não mais baixará a descobrir a areia
finalmente a desordem
perco a tua mão de vista
perco-me de tudo
nem sono nem amor
nem palavras
o futuro nunca tarda

Ana Saraiva

abril 25, 2007

Anos-luz...

conto os anos-luz até ti
não sabia de todas estas vidas
não sabia que o tempo se acende
em ínfimas suspeitas
habitáveis
um planeta a estrear
habituado ao segredo
de quem não sabe
medir ou viver
amar ou perder
o tempo que não vem
atrás de outro, como mãos dadas
e um passo ligeiramente atrás
conto-te em anos-luz
para nunca mais me perder

Ana Saraiva

abril 19, 2007

Intermitências...

avancemos um pouco mais
o amor não é uma casa
não é uma árvore
não é nada que possas ver
como se me percebesses o olhar
mais à frente está um verso gasto
nas noites sem tempo para pensar
gosto dele
não tem raízes nem portas
e nunca o poderei alcançar
gosto do tempo
que demora a não chegar
avancemos até ao fim
para nos podermos contar

Ana Saraiva

abril 18, 2007

Retalhos...

olho para as tuas mãos cobertas de sangue
e ainda assim não imagino a minha morte
tudo é matéria
e cabe nas letras
um imenso nada ao abrigo de um rectângulo
com os lados desencontrados
alguém mediu mal
entra sempre uma nesga de luz
e o sopro da memória de ti
antes do engano
avidamente entendido
olho para as minhas mãos cobertas por ti
e vejo como tudo cabe nelas
pareço-me com o som do cinzel
e não há pedra nenhuma
apareço em sonhos
que te pertencem
desfeitos
na minha morte
estarão todos os meus dias

Ana Saraiva

março 29, 2007

O luto de Eurídice...

o pouco que falta para morrer
é o passo entre saber que hoje me contas
em quem me tornarei
e o dia que afinal já não vem
anunciar-me como tudo é novo
eu não sabia
pensava que era apenas ter medo
pintar, concentradamente,
todos os calendários de luto
enchê-los de branco
e não ver lírios
só silêncio
falta tão pouco que não sei como dizer-te
talvez me cale
e envenene apenas a minha água
e procure a tua fonte
e volte
como se Eurídice fosse capaz
de olhar para trás

Ana Saraiva

março 27, 2007

Além pés...

quando sentires que há chão
debaixo dos teus pés nus
quando souberes
da solidez da terra
e suspeitares raízes
quando todo o teu corpo repousar
dentro desse equilíbrio perfeito
a terra
um homem
uma metade
vem um pouco de vento
que o mundo não sente
as folhas parecem dormir
dentro de um tempo parado
só os meus olhos o ouvem
estremecidos
encantados
far-me-ei sempre pássaro
ou vontade de voar

Ana Saraiva

março 22, 2007

Cantabile...

vem pó dos quatro cantos do mundo
é o meio do dia em chatelêt
é o meio do caminho
o meio do mundo
o ar respira transparente
em nós
como nunca
como sempre
além dele, parece haver mundo
parece haver gente
poderíamos ser a pedra
que o poeta deixou para contarmos
tudo o que não é pedra e caminho
ou aquela que alguém olhou devagar
e não quis dizer amorosamente
poderíamos ser o fim do tempo
que ninguém ousa tocar
uma linha escondida
nas ervas altas
e a cancela definitiva:
daqui não passar!
mas, não
há tempo a começar

Ana Saraiva

março 04, 2007

Desconcerto de rosas...

escondo-te pelos cantos da casa
entre as pregas grossas de um tecido
certamente de muitas danças
ninguém te vê, nem mesmo
quem me olha para a boca
rosa amarga na noite do baile
e pensa: desoladora
e pensa: encantadora
já é outra canção e outra mão se estende
inquieta-me saber que ninguém crê
que só me visitas quando durmo
os braços nus e eu fechada neles
inquieta-me trazer tantos segredos
ainda que tenham um só nome
que me vem ao corpo
se as rosas escuras de sombras
entram no baile para me beijar

Ana Saraiva

março 02, 2007

Estremeções...

esgotei todas as vidas apenas por te ter pressentido
bem vês a inutilidade de me dizeres
que tudo é um bocado impossível
terias de morrer primeiro
ou nascer depois
eu sou possível
e irreal

Ana Saraiva

Calendiários...

deixei passar a data improvável
ao largo dos meus olhos
no fundo dos teus
água ou chão
de tanto passar
parece que ainda lhe posso tocar

Ana Saraiva

fevereiro 26, 2007

Vesperável......

esta parte do dia a que chamas tarde
leva-me numa grande atenção
já fui manhã
sol nascente
em olhos descrentes
fui semente
quando havia vento
sopro de sul desconhecido
hoje vou pelas tardes
entregar-me sem segredo
à terra molhada de sol
a esta parte do dia a que chamas tarde
sem cuidares se a luz que bate no céu
vai alta
ou desapareceu

Ana Saraiva

fevereiro 25, 2007

Madrigais...

não é para te falar das palavras
que vim
é para te falar das coisas úteis
que até poderiam ser
o linho
que ampara o prazer
as flores
do mel que me darás a beber
coisas úteis, assim
como se fosse sem querer
mas não, trata-se de outras coisas
igualmente, até mais
úteis
o tempo, o tempo, o tempo, o tempo
como vês, não são palavras
o que me traz aqui
são minutos, estações, a eternidade
conta, abre as mãos, usa os dedos
e as comissuras entre eles
se te aplicares
ainda voltas de dentro do mistério das coisas
úteis, tão úteis, a tempo de deixar o vinho transbordar o copo

Ana Saraiva

fevereiro 23, 2007

Principezinhos suicidas...

em qualquer planície fazemos canto
somos a parede e as mãos
a arma e o pelotão
e o morrer
uma bela planície de trigos
e flores
e nunca mais a poderemos ver
fazemos canto nela
e mesmo deitados
não há nada para ver
só o teu rio que corre
em mim estreito

Ana Saraiva

Desoras...

não sei se a mão tremia de igual modo
no desenho cuidadoso das palavras finais
mas quando se tem apenas
um frasco de tinta
uma pena
uma luz
que mal interrompe a noite
os dedos aprendem
e poupam incertezas
pelos vindouros
haverá histórias outras
luxuosamente indecisas
sem fim à vista
sem meio e talvez
sem início
tão longa será a vida

Ana Saraiva

fevereiro 22, 2007

Cama(ra)lenta... (3)

dás-me Março como uma sentença
ser pássaro ou flor
na via de extinção do amor

Ana Saraiva

Cama(ra)lenta... (2)

passo os dias a esperar que me faças perguntas
muitas perguntas, sobre todos e sobre todas
as que sou do que sobrou de mim
uma até bastava
até uma plana que eu traduziria como sendo sobre
a cor que o céu tomará amanhã
a cor que o céu tomará amanhã
não é uma pergunta
bastava ser amanhã
para ser resposta
a minha

Ana Saraiva

Cama(ra)lenta... (1)

apertou-se mais para poder caber
as larguezas acabaram
a fala é exígua
o ar não chega
nem para suspirar um sonho
com a parede sempre perto
e o tecto ameaçadoramente baixo
os gestos aprendem a beleza do milímetro
e calam tudo o que não é essencial
pede-se por vezes o impensável:
que a pulsação amordace o coração
que esse tom de vermelho seja
um pouco menos gritante
quando as unhas se cravam
distraídas
na pele por fora da alma

Ana Saraiva

fevereiro 19, 2007

Cais de asas...

ainda não deve ser manhã
à luz não responde nenhum pássaro
da parte clara de um dia incógnito
partem dúvidas para um sítio incerto
sem regresso porque não há ninguém
à espera
levantou-se um pássaro pequeno
partiu sem anunciar o dia
ainda não deve ser hoje
amanheceu
um tempo esquecido

Ana Saraiva

fevereiro 17, 2007

Estribilho quase...

faço de tudo para que não saibas
como a vida acaba daqui a tão pouco
partiremos completamente distraídos
com o mundo
ou numa mera canção

Ana Saraiva

fevereiro 09, 2007

Chuva côncava...

não lhe chames quadrado de chuva
é um duche, o que esperavas?
já me fartei de poesia
é água que não chega a molhar
parece suspensa mas está morta
as palavras sepultam
tudo o que vive fora delas
nem o silêncio poupam
nem o indizível deixam em paz
e hoje não choveu
ou não houve água
ou não chorei
nem sei
agora, por exemplo,
falta-me o ar
o que lhe vais chamar?

Ana Saraiva

janeiro 31, 2007

Céus ambulatórios...

desço em direcção ao rio
e levo-lhe água
entro com traços de céu nos bolsos
que as memórias não são pedras
e os versos calam
em presença da sede
tão recente
bebo-lhe a fonte
sirvo-me abundantemente
volto-me mas encontro-te
e envolves-me
nesse manto de água
agora longo e pesado
não voltarei a ver o céu
ainda bem que o trouxe
descuidado
nos bolsos

Ana Saraiva

janeiro 19, 2007

Sugestões...

Uma boa maneira de começar o dia ou o fim-de-semana: a ouvir Ali Farka Touré, em Diaraby...

Agradeço a sugestão musical à Ana Saraiva, agora finalmente "emancipada"...

dezembro 30, 2006

estibordos...

não pinto os olhos porque
podes querer beijá-Los
desocupo-me porque
podes querer os meus dias
recuo em mim infinitamente
porque podes querer
criar-me
encontrar-me um princípio

Ana Saraiva

Apelo talvez humanitário...

por cada assassino assassinado
por cada indiferente indignado
sobram todos os inocentes
calados
legião de honra do sofrimento
avancem, digam os vossos nomes
a história tem pressa de vos rezar

Ana Saraiva

Regresso...

dispo-me da noite
ficas no chão
na roupa que jaz quente
em São Vicente é assim, assim, assim
ouço as tuas palavras na minha boca
os olhos ajeitam-se à tua doçura
embarco em tudo o que não se pode dizer
sim, é assim
adormeço num corpo novo
parece-me novo
cheiro-o novo
assim

Ana Saraiva

dezembro 29, 2006

Fados...

resgatados, todos
a tempo de serem velados
que a morte é um corpo inerte
e a vida uma garganta rouca de dor
havia um marinheiro com o nome de António.

Ana Saraiva

Em-baraços...

já se foram todos
só tu ficaste parada em mim
até os que ficam depois dos últimos
já partiram
que fazes aí?
não vês que a música se calou?
todos já regressaram
todos têm morada
que fazes ainda aí?
a noite virá e a poeira não serve de manto
terás fome que nenhuma sobra matará
porque me olhas?
não sou água nem pão nem abrigo
já esvaziei todas as minhas veias de milagres
e saio dos sonhos alheios pelo meu próprio pé
fica. afinal, que importa o lugar?

Ana Saraiva

dezembro 25, 2006

Amaresias...

há mais gente no fundo do mar
sem notícias da atlântida
temo já não acreditar
nos meus braços
no meu fôlego
a única embarcação segura
é o trenó do pai-natal
é ser branco
como os ricos
e saber nadar
como os abutres
é melhor ficar
até nos conseguirmos imaginar
ou tremer como a terra
ou surgir como o mar

Ana Saraiva

Instante eólico...

corre aquele vento anunciador
não percebo nada do que diz
mas sei que vou abrir a janela

Ana Saraiva

Mantas...

sentei-me com o al berto nos joelhos
é uma vantagem chegar tarde às coisas
espantar-se
retro
activamente
as pernas inclinam-se
o gozo é certo
amanhã, não

Ana Saraiva

dezembro 22, 2006

Passa dor...

qual será a vista da Conciergerie
eu presa da tua vontade
na torre?
e a que saberá a água do Sena
se por acaso a primavera
vier muito antes
de nos contermos?
se não me responderes, será
que me calaste as perguntas
na boca?
conta-me como foi

Ana Saraiva

dezembro 21, 2006

Mete orologias...

alerta laranja
bom dia
hoje descerei ao mínimo
admissível
apenas uma capa de gelo
me revestirá
o aconchego necessário
para me defender de vós
em alerta vermelho
permanente
e depois um dia
emigro arritmicamente
num sonho que terei
e soará o alerta verde
a tua morada aprazível
condiz comigo
já sossego
deito-me na relva
e não me defendo de nada

Ana Saraiva

dezembro 19, 2006

Deambulâncias...

não sei como seria
guardava-te no ninho
ou deixava-te ir com o vento?
nunca mais poderia ser sozinha
teria de te levar na arte da fuga
correr e nunca poder fugir de ti
admitamos que já me habitas
até quando serás um mistério?
não sei se te diga
passei por ti uma vez
e nunca mais parei de correr
não sei o que fazer desses olhos
que mansamente me seguem
são tão castanhos
sabes?

Ana Saraiva

Nota de encomenda...

que não vos esqueça a condição
homem, sabes como os seios são redondos
mulher, sabes que o desejo molda o dorso
se vos sair a carta inesperada
é tempo de um novo jogo
mas são sempre as mãos
que pegam nas cartas
e por debaixo da mesa
há sempre a vontade
do encontro
não me esqueci, não
há tanto tempo vos amo
Adão, Eva
aceito tudo em nome da criação
não há nada que vos negue
até um filho vos dei
para que me fugisse
pregam-me mentiras na boca
a mim, que nem língua tenho
seria concupiscentemente
indecente
bastardo do Tempo que sou
na minha condição e desmando
ide, sem memória
deve ter sido sempre assim
pobres e mortais

Ana Saraiva

Luva desbotada...

subo os dedos bem esticados pela parede
ergo-me toda e numa só respiração
liberto as costas do teu jugo
agora durmo
é para que saibas
enquanto esqueço

Ana Saraiva

dezembro 18, 2006

Belle de nuit...

aconteceu-me achar-te a mais bela da noite
e a mais interessante nos tempos que me atravessam
sabes a erva-doce quando passas pelos meus olhos
e falhas todos os passos com uma elegância perfeita
bebemos Perrier no balcão que dá para o mundo
é o mesmo copo e é o mesmo lugar
se contássemos
mas não contamos

Ana Saraiva

a propósito de uma mãe que diz ter feito o que pôde...*

depois de alguma habituação
todas as ausências passam a ser
as coisas normais de todos os dias
como comida e uma ou duas sílabas
e algo parecido com o calor líquido
antes de nascer dentro da espécie que sabe ser miserável
uma boca espantada de se encontrar vazia
depressa se fecha num arco fino e seco
seguem-se-lhe as mãos
descrentes e tão pequenas
e os olhos
os olhos não cabem em nenhuma angústia futilmente
poética
depois de alguma habituação
parece que um poema chega

Ana Saraiva

* título da autora

dezembro 12, 2006

Instrumento quase de sopro...

há um antes e um depois
tens a certeza?
inventemos um deus
tenho medo de chamar
a este bocado de sopro
a que chamo a minha vida
um bocado de sopro
inventemos uma tempestade
o que é uma tempestade
sem olhos que a vejam?
inventemos uns olhos
capazes de ferir e sarar
e uma cicatriz a testemunhar
hoje, a água traz toda sal
levo-ta para que a beijes
se não a fizeres doce
inventaremos um deus
que nos bebe as mágoas
antes de se ir deitar
ele dorme?
inventemos um mar
abre a palma da minha mão
e sopra

Ana Saraiva

dezembro 11, 2006

Photo finish...

segura nos olhos as mágoas
e nas mãos um fio de vida
preso como água
ao leito de um farto rio
nenhum pássaro faz ninho
na passagem da água
a vida corre sempre adiante
aos olhos que nela pousam

Ana Saraiva

dezembro 09, 2006

Prova dos nove...

nunca percebi a prova dos nove
parece que se tiram nove e fica nada
e a conta está certa e inteira
e não sobra nada
arreliei-me
fiz outras contas
e contei
contei até não haver números sós
contei pelos meus dedos e pelos teus
quando estavas distraído a pensar
no atento que estavas a tudo
estou inteiramente certa
se tirarmos nove
sobra-nos a vida toda para contar

Ana Saraiva *

Há leitores do abnoxio que continuam a crer que Ana Saraiva é um heterónimo (como outros) do autor deste blogue. Não é. Ana Saraiva é uma grande amiga, também professora e poetisa. Trabalhando actualmente em Paris, concede-me a honra de partilhar comigo os seus poemas, que me autoriza a publicar aqui. Temos, ademais, em comum o dia do aniversário: nascemos ambos a 9 de Dezembro. Parabéns, Ana!

dezembro 08, 2006

Inviolados...

daquela vez, a natureza cansada
hesitou muito e não se decidiu
pôs-lhe uma viola nos braços
e disse-lhe para se esconder
armou-o de melancolia
e banhou-lhe a pele
de algo macio
como o peito
que não alimenta
bate apenas da surpresa
de haver tanto som no mundo
e é palco de rumores insistentes
falam do beijo
e tingem-se os lábios sempre
a natureza, já a surpreendi
deixa-o calçar as grossas botas devagar
e leva-lhe os dedos aos lugares
que tu e eu não sabemos
a natureza, desta vez
apartou-nos

Ana Saraiva

dezembro 06, 2006

Transparências...

quando te escondes em mim
vejo-me até perder a nitidez
ousa um passo atrás
insuportável
haver ar
tão transparente

Ana Saraiva

dezembro 02, 2006

Quase miudezas...

a miúda perguntou à mãe
se senhoras acima dos 50
mas senhoras a sério!
também podiam ter sida
que não, que ideia maluca!
e o pai, por onde anda
na vida dele
só dele
nossa também
a miúda perguntou à mãe
se o pai ainda a beijava
que não, que ideia maluca!
mas procurava-a ainda
e isso tinha de ser
um dia ela iria entender
de que morrem as mulheres
e tu morres mãe
esqueci-me de mim há muito
isso é morrer
as mulheres morrem meninas
morrem de pé e sozinhas
eu não quero morrer, mãe
põe aí a cruzinha, diz que sim
que senhoras, meninas e putas
têm todas os olhos fechados
quando dizem que sim

Ana Saraiva

Jogo de azares...

eu não sou tu
e também não sou eu
hoje ainda menos me sou
que me deitei a perder como dados
e ganharam o jogo, depois de ter durado
para o declararem acabado
saio na açucena da mulher de cabelo preto
é injusta a vida que assim distribui a beleza
e o tempo de a prender
o orvalho é velho, cheira a sótão e a segredos
dispo o vestido e piso as folhas com os pés nus
são os poemas de alguém que se perdeu a olhar por uma janela
sei-os como o sangue que me percorre quando chega Março
abro os olhos para ver
e lá vai a açucena pelo ano de uma graça imensa
presa em mim

Ana Saraiva

novembro 29, 2006

Hesitâncias...

estou quase a desistir
tudo é igual a tudo
já toda gente o pressentia
mas só depois o sabem
não há nada que faça a mínima diferença
por mais nuclear que seja o gesto
e no entanto hesito muito
entre o ameixa-sangue e o lacre-da-china
os meus olhos vão de um a outro
e os lábios escurecem
na antecipação
toda a vida nesta indecisão
a vida antes de me arrepender
de não ter levado nenhum
ou de ter molhado os lábios
no pecado errado
impede
que rios e ruas se encham de corpos
onde o sangue já não corre criança

Ana Saraiva

novembro 27, 2006

Os poetas morrem sempre um pouco mais...

todos dizem que não morreste
a desvantagem de ser poeta
é teres cancro e findares
e haver caixão e flores
o vislumbre da tua face cavada no tempo
já pálida para nunca mais
e todos negarem com os teus poemas na mão
o Cesariny não morreu!
e recitam e citam e lembram
que os poetas não morrem
há o corpo no caixão
serve apenas para dizer
que não morreste
mas eu digo-te que morreste
nunca soube a tua morada e continuo a não saber
suspeito até que já te tinha matado
mas tu não te importaste
e agora muito menos
eu leio-te
eu sou a morte
deixa-me fazer uma pergunta
não sei em que colo a deposite
o teu está tão frio

como é que te dispuseram as mãos?

Ana Saraiva

novembro 21, 2006

Escorrega-dor...

esse teu arco-íris onde posso escorregar sem pressas
onde vamos arranjar
essa chuva e esse sol
e que faremos da noite
e do frio agreste
que me faz correr para chegar depressa
para um abrigo que até podem ser todos os outros braços
e que faremos da manhã crua e pálida
e do sangue que nos toma lentamente
haja ou não sol
para queimar as ilusões
continuo?
e onde vamos arranjar
essa atenção
que propões desmedida e fácil como um amor
se os nossos olhos não vão além do mesmo tom
que foge em nuances ou gritos
já o vejo
não sei escorregar

Ana Saraiva

novembro 16, 2006

Trocas...

interrompes-me a vida
aquele pensamento que há pouco
me apanhou em pleno esquecimento
e me fará voltar diferente
é o chão dos passos que andam contrários:
como se fosse sempre tempo de estar presente

Ana Saraiva

Hora de ponta...

todos se reconhecem na lassidão
é o fim do dia
um mar de ombros baixos
e a carruagem enche-se ainda mais
todos cada vez mais perto
e nem uma intenção
mulheres, homens
alguém agarra um ombro por engano
um estorvo
todos voltam para o inferno imaginado
ou para o paraíso adiado em 9m2
ninguém amanhece como aquela canção
em que alguém faz samba e amor pela madrugada
os dedos crisparam-se e agora são só úteis
não sabem dedilhar o calor
nem tremer por amor
um amor qualquer
até um pequeno
e que já foi

Ana Saraiva

novembro 13, 2006

Salvo conduto...

basta uma palavra
para dizer o corpo como pão
ou o sangue como vinho
não é a mesma que diz da fome
e da sede sem comparação
não sacia
a que posso comparar
a tua ausência?
até ela é só minha
e só por rima fácil
recuso dizer
sozinha

Ana Saraiva

novembro 11, 2006

Retro-acções...

uma vida a declamar aos gritos
cenas gastas do tempo e do uso
e a outra a fugir das palavras
que são pedras ou abismos e nenhuma traz aviso
e o corpo cai sempre na dor ou no esquecimento
hoje
desejo
permito-me desejar
um ponto de interrogação
que não saiba a resposta
que não semeie a resposta
que não esconda a resposta
que não recuse a resposta
um ponto de interrogação que parta do princípio
uma vontade de vir cá para fora
que não saiba que está a ver-se nascer
a surpresa é toda minha
e respondo

Ana Saraiva

novembro 10, 2006

Penúltima vontade...

só quero não morrer por enquanto
e querer ainda menos
antes de pensar amanhã
um sono sincero
um copo de água limpa
um pão de trigo
o teu sorriso
a dar-me passagem
para onde eu quiser
e eu quero ficar nele
a conjugar o querer
tudo é maior do que morrer

Ana Saraiva

Operação stop...

a noite vem
ele parte no abraço interior
a noite fica
bloco de silêncio surdo
a paz é breve nas terras de lá
não há uma frase sossegada
todas temem o grito
e o silêncio
e desfazem-se em murmúrios
que se abeiram dos poços longos
à espera do riso sem destino
ele volta-se
as costas desmentem
coisas que passam pelo rosto
o rosto não arde
está muito frio para sonhar
os lençóis estão dormentes
com o peso do sono branco
a claridade aumenta
ele volta-se
prepara-se para regressar
mas antes
sai numa paragem só dele
antes que seja tarde
para nada

Ana Saraiva

novembro 05, 2006

Sem-tença...

não consigo que olhes para mim
surjo de todos os lados
como se houvesse muito mundo
e o centro fosse rondar
o teu favo interior
a gravidade é imensa e ri-se
não me deixa dançar assim
grito em todas as línguas
mas já não és irmão dos homens

coso sílabas apertadas
bem juntas, fazem calor
e o calor abre e fecunda
tenho medo de morrer como tu
estátua bem conservada
num último gesto glacial

faço-me memória
há uma hora atrás
nem sei se estava
há sempre um declive atrás das costas
resta-me emboscar-te num tempo por vir
correr muito para chegar primeiro
e depois sentar-me a tecer as horas certas
em que te esperarei
com todo o vagar
com toda a vileza
de que o amor é capaz
não é verdade o que dizem,
também te poderia matar
se olhasses para mim

Ana Saraiva

novembro 01, 2006

Para as Sete *

que brevemente irão deliciar
as mãos que já sentem o peso doce
das pedras imortais
pequenas por lei humana
que o prazer demore
é justo e bom
bem apertadas, as pedras
animam-se
como ventres prontos a parir
e no gozo supremo da antecipação
as sete noviças
gozam o prazer milenar
de purificar a culpa do mundo
irão
perder-se na vertigem
desse bondage último
a dádiva pública
do corpo apertado na terra
e da cabeça rodeada de ódio
tão real que parece ficção
o cordeiro não tira o pecado do mundo
a mulher é o pecado do mundo
do mundo
sentado em cima da terra relativa
irão
totalmente submissas
para a última iniciação
gozemos, meus irmãos!

Ana Saraiva

*Parisa, Iran, Khayrieh, Shamameh, Kobra, Soghra e Fatemeh, sete mulheres condenadas à morte por lapidação.

outubro 25, 2006

Crónica...

sempre o presente
não há outro tempo
haver ontem e amanhã
é útil e engraçado
para os deuses
que em nós se riem
fui ou serei, até parece que sim
ou se quiserem, não
e, no entanto

recuerda mi vida

este momento é tudo o que me escapa
para desde sempre alterado
coisa tão pouca
a palavra
que só sabe dizer o tempo

es la tuya

Ana Saraiva

outubro 24, 2006

Des-sentimentos...

este é o segundo verso
apenas para poder haver este
e acabar aqui
ou daqui a uns minutos
de incompreensão e silêncio
mútuos
a poesia mede-se nos batimentos
que não sentes
uma só pergunta te acompanha
é a mesma de sempre
eu respondo:
é tudo o que ficará por saber
e quando acabar
é tudo o que continuarás a ouvir
surdamente

Ana Saraiva

Natureza (quase) morta...

deveria ter adivinhado que aquela peça de fruta
cuidadosamente descascada
não chegaria a ser comida
só o soube naquele passeio tão gentil
em que as ruas da cidade se encheram de rio
e tu serviste de barqueiro sem querer
só para eu ver
como é bonita a cidade assim navegada
mas um pouco estranha: é dia e não há gente
se me virasse agora
os remos estariam vazios
esforço-me por me lembrar da peça de fruta
agora definitivamente improvável
se me virasse agora
os meus lábios estariam vazios

Ana Saraiva

outubro 23, 2006

Amnesiamos...

sabemos que não há mais palavras
se nos espantámos
brevemente o olhar
uns intantes redondo
cairá na rigidez do mil vezes dito
e ali fica
a imitar um doente mental
todos os dias agradeço
esquecer-me tanto
nunca acabo
não me lembro de começar

Ana Saraiva

Priva-cidade...

bato-me contra a pele dos teus músculos
para ouvir tudo o que calamos
quando o mundo está a olhar

Ana Saraiva

outubro 22, 2006

Desmapeamentos...

num passeio estreito do bairro da Gràcia
assalta-me ainda uma memória
rodeia-me, encosta-se
e sussurra-me
uma pergunta
sobre o mapa
um ponto no mapa
desenhado por mim
que seguro nas mãos
mas que já não vejo
fecho o mapa e os olhos
e a memória sussurra-me
mas já não ouço
perco-me das ruas
e de mim

Ana Saraiva

Canseiras...

largo as minhas mãos no chicote
vejo a tua alma ateada ao fogo do corpo
tingem-se as minhas mãos nas tuas
o corpo enrubesce
uma paz
nesse calor
descanso
distraio-me
arrefeces
tenho frio
agarro o chicote todo
entro com as mãos e o corpo outra e outra vez
e mais uma vez
até seres chama
e eu poder descansar


Ana Saraiva

Dominicalmente...

no tempo-corpo
deito-me com vontade de despertar
e todos os sonhos me levam ao mesmo lugar:
haver sempre uma história por dizer
e esquecermo-nos de contar
a última vez que deixámos
a cama por fazer

Ana Saraiva

Desabelhando...

como podes imaginar
a flor sem sombra de espinhos
que nunca estremeceu com o prazer das abelhas
que nunca comoveu nenhum passante inesperado
é aquela que adorna a vitrina onde eu nunca páro

Ana Saraiva

outubro 21, 2006

Gare marítima...

já não tenho em que pensar
todos os dias são livres
para me levarem a ver o mar

Ana Saraiva

outubro 20, 2006

Descalçam(om)entos...

descalço-me e apanho a estrada para Bamako
hei-de dançar um último danzón nesse minuto
que te demorou a chamar-me
descalço-te para que me acompanhes
em todos os regressos que faremos
os pés cobertos de pó, sorris-me

Ana Saraiva

outubro 17, 2006

Desperturas...

adivinho umas tardes sombrias
e vagamente frias
atrás do vidro grande do café
para ver o calor do teu rosto
a atravessar a praça a pé
Sainte-Marthe
por entre as árvores escuras
e as cadeiras antigas
sentas-te tão perto
como se fosses entrar
hesitamos o pedido
não queremos nada

Ana Saraiva

outubro 16, 2006

Caloridades...

subo a noite pelos fundos
as portas abertas, entro em todas as salas
os pés nus que os anjos dormem
visito todos os cantos
com olhos de meio-dia
acordo apenas algumas páginas
para me fazerem companhia
e me levarem pelas mãos
a desamarrar o mundo
mas as palavras agitam-se
e regresso aos passos perdidos
nenhuma parede diminui o calor
e nenhuma janela me dá o ar
as palavras acordaram já todas
e chamam os objectos pelos nomes
ensurdecem-me, ou é o calor?
os anjos dormem e eu escuto
para aprender a esquecer
que ninguém me guarda o dia
se eu adormecer


Ana Saraiva

outubro 15, 2006

Jeanne...

jeanne, sigo os teus olhos na janela
bem vejo que ele não vem
desço contigo as escadas
do teu amor submisso
corro contigo as ruas
agarrada ao ventre
e nada vemos
chegas, calada
um amor criminoso
fez de ti casa
e abriu-te a janela cruel
não queres dizer que não
nunca dizes que não
ouço os teus lábios fechados
com absoluta precisão
durmo nos teus braços
que lhe tiram o calor
e cresço nos teus dedos
que só ele vê estendidos
agarro contigo o gargalo
para lhe dar a beber a noite
jeanne, digo o teu nome
suspendo o meu
deste a tua vida
para levares a dele
e continuas à janela
passa a gente de sempre
jeanne, meu amor

Ana Saraiva

outubro 14, 2006

Desgarrada, quase...

Lá vai ele, magro-chupado
-tão magro, de que padece?
Dizem que é do amor
-quem diz?
Eu não acredito
-você não tem fé?
Acho que é da dor
-onde dói, dói muito?
Daquela dor antiga
-de há quanto tempo?
Em que um homem
É cruz, prego e corpo
-ao mesmo tempo?
E vontade de sofrer
-morreria por mim?
Não, mulher!

Ana Saraiva

outubro 13, 2006

Instâncias...

não se toca na infância
nem beijo nem palmada
nem nenhum outro abuso
não peçam para ouvir,
todas as conversas são proibidas
não falem,
não há nada para dizer
isso já podem saber
cresçam protegidamente sós
depois do grande delito
sim, nascer
pouco mais resta do que
viver
ide em liberdade
para dentro do casulo
o amém do futuro

Ana Saraiva

outubro 11, 2006

Hora de ponta...

um homem tomba na hora de ponta
a pressa desfaz-se
na ordem natural das coisas
uma mulher chora na hora de ponta
é acompanhada
pela súbita mansidão dos olhares
um casal beija-se na hora de ponta
passaram a idade há muito
fazem-se balanços
há bancarrotas
falências alegres
e melancólicas esperanças
um miúdo ignora a hora de ponta
há um croissant de chocolate
que é preciso vencer
ninguém fica depois da hora

Ana Saraiva

outubro 10, 2006

Levezas...

o silvo falhou o chicote
mas as costas dobram
a realidade nunca salvou ninguém
da cicatriz da memória

Ana Saraiva