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maio 20, 2010

Improviso em resposta a um questionário íntimo...

1. Desmarquei todas as consultas
para não saber a data precisa da minha morte
2. e para não ter de renovar
o guarda-roupa
3. a cor das paredes ficou fantástica
não fora a cegueira das mãos
4. os manuais escolares os jornais e
as revistas velhas não couberam no papelão
5. as estantes da sala não celebraram ainda
o milagre da ressurreição
6. os brinquedos do quarto do espelho
continuam à espera de pilhas novas
7. as velas deixaram de contar
o fogo que as silenciou
8. e as flores que entretanto murcharam
também.

Ademar
20.05.2010

maio 19, 2010

Improviso (mais um) para pedra tumular...

Se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
voltaria por exemplo a escrever sonetos
quase perfeitos
para a Deolinda
que virginava entre as capelas da Sé
e para a Sameiro
de quem guardo ainda uma fotografia
naturalista
a preto e branco
e para a Conceição
que me acompanhava sempre em silêncio
ou em latim
se calhar já morreram
ou continuam ainda a ler-me em segredo
já sexagenárias
se renascesse
repetiria tudo outra vez
e acompanhar-me-ia ao piano
sem partitura
que já me saberia de ouvido
ou de cor
e regressaria sempre
à lenta memória das teclas
e dos dedos
que tocaram todas as palavras.

Ademar
19.05.2010

maio 18, 2010

Improviso para epopeia e contrafacção...

Hoje morreram em Portugal
até às vinte e três horas
contei-as uma a uma
duzentas e oitenta pessoas
e nasceram
duzentas e setenta e duas
tenho uma hora
uma hora apenas
para inverter o contador da demografia
e suster o défice
pela pátria
como o primeiro-ministro
faço tudo.

Ademar
18.05.2010

maio 17, 2010

Improviso para metáfora convencional...

O universo
tem muita gente
que anda à procura
de uma casa
em que caiba
e nunca encontra
pelo menos
no tempo de uma vida
os gatos
ao invés
têm muitas vidas
e nunca desistem
pelo menos
antes da última.

Ademar
17.05.2010

maio 16, 2010

Improviso sobre uma tela desta noite... *

luavenus.jpg

poema1605.jpg


* Fotografia de Maria Alonso Seisdedos.

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maio 15, 2010

Improviso para perguntar afinal o teu nome...

Tanto ou tão breve destino
entre as minhas palavras
e o teu olhar tão fiel
é aqui
todas as noites
neste bar de desterrados
que nos cruzamos
e por nenhuma porta
entramos ou saímos
entre comungarmos
o arbítrio das sombras
numa tela com a forma
de uma cama
ou de uma mesa
sobre a qual sempre adormecêssemos
antes mesmo de nos cuidarmos
a poesia tem as fronteiras exactas
deste silêncio compartilhado
encontramo-nos aqui
como em tempo algum
e seremos sempre felizes
assim.

Ademar
15.05.2010

maio 14, 2010

Improviso gastronómico e muito popular...

Maria de Todas as Alheiras
Bruna Real
no esplendor da nudez mais pedagógica
de Portugal
José Gama
da geração mais antiga dos Gamas
e também a mais sacerdotal
Isaltino Morais
o imortal de Oeiras
(a aguardar presidio)
Jesualdo Ferreira
Luciano Cordeiro
de tão pedestre memória
e
mais célere e celebrado de que todos os demais
o Professor Doutor
por extenso
Ambrósio Asdrúbal Piruças de Aragão e Castela
todos
cidadãos ilustres de Mirandela.

Ademar
14.05.2010

maio 13, 2010

Improviso para desesteriotipar...

Dizias de tudo o que te fazia vibrar
fossem cordas de uma harpa
ou de uma guitarra
ou de um violoncelo
que era romântico
e eu replicava sempre
nenhum adjectivo pertence às coisas
mas a cada um de nós
e tu ficavas confusa
porque não entendias
julgavas talvez
que as flores nascessem românticas
por força de uma lei qualquer
da natureza
um dia saberás que os adjectivos
são a única e exacta medida
da subjectividade
tudo o mais
repartimos com o universo.

Ademar
13.05.2010

maio 12, 2010

Improviso para sobreviver à escola...

Fui à educação e voltei
nenhum fogo me reteve
tão próximo da água
das matrizes
como o fogo
de me saber interior
a todos os vulcões
em que cresci.

Ademar
12.05.2010

maio 11, 2010

Improviso para explicar por que não abro a porta de minha casa a todos os comediantes...

Tens todo o ar
meu velho salafrário
de sorriso nazi
de quem foi comido
em segredo
por Pier Paolo Pasolini
e gostou muito
na cruz
obviamente
em technicolor
e de braços bem abertos
como impõem os evangelhos.

Ademar
11.05.2010

maio 10, 2010

Improviso antes de dizer que não sei nadar...

Não tenho
carta de marinheiro
até três milhas do porto de abrigo
mais próximo
navego sempre nas águas interiores
do esquecimento
e nunca me reconheço na memória dos dias
nem na sua opulência
de embarcações e potências instaladas
nada sei
e o mar é apenas o sufixo
em que viajo
antes de todos os naufrágios.

Ademar
10.05.2010

maio 09, 2010

Improviso para amanhecer contigo...

Se visse menos
ver-te-ia melhor
a luz ambiciosa
transpira-me do olhar
e cega-me para a tua verdade
que a tens tão próxima do chão
ou das nuvens
ou do sol
se visse menos
ver-te-ia maior
muito maior do que o silêncio
com que te dizes
nesse dialecto tão antigo.

Ademar
09.05.2010

maio 08, 2010

Improviso para distrair o lirismo...

Abro e fecho agora janelas
para que o pensamento respire
e transpire
todas as casas são universos contidos
e em nenhuma sombra doméstica
perscruto a confidência de uma luz
que nos conjugue na distância
o equilíbrio de todas as memórias é tão precário
que até as palavras tropeçam na tela
quando apenas o silêncio as conduz
se amanhã não chover
subirei os estores
e voarei por aí.

Ademar
08.05.2010

maio 07, 2010

Improviso para explicar a luz...

Imaginai a largueza dos olhos
quando os olhos adormeciam apenas
nas palavras
e todos os horizontes tinham
a narrativa dentro
e todas as imagens
eram tão falsas ou verdadeiras
como as rugas das mãos domesticadoras
imaginai a largueza dos olhos
quando tudo o que se podia saber
cabia na perfeição do pensamento
e nenhum futuro era mais urgente
do que a memória.

Ademar
07.05.2010

maio 06, 2010

Improviso masculino e muito democrático para maiores de trinta e seis anos...

Farfalha a nação
que tão cabrestamente representas
farfalha-me
se tiveres ainda tesão para tanto
furta-me tudo
menos os testículos
preciso deles
para te foder.

Ademar
06.05.2010

maio 05, 2010

Improviso antes do ponto (final)...

Não acrescento véus
ao teu rosto
nem luzes
em que ardesses devagar
no abismo dos meus olhos
todas as imagens são falsas
nada te pertence
nem mesmo as palavras
com que te vestes
sobre a nudez do silêncio
digo
esse tão antigo pudor do Génesis
quando todas as mulheres morriam
no pecado original da imperfeição das serpentes.

Ademar
05.05.2010

maio 04, 2010

Improviso para harpa e umbigo...

Não conheço gajas boas
boas boas boas
só conheço mesmo
as mulheres
que eu conheço
não sei ainda
se é das barbas
ou das mãos
ou da voz
mas todas as mulheres
que eu conheço
se bem que viajassem primeiro
com George Clooney
(opção hormonal)
à falta de melhor
depois
viajariam comigo.

Ademar
04.05.2010

maio 03, 2010

Improviso para acrescer melodia ao silêncio...

Poderia semear de adjectivos
o chão que pisas
se tivesse a exacta medida
dos teus pés
e neles ainda reconhecesse
o caminho incerto da consagração
mas já gastei todos os adjectivos
neste nirvana de ouvir apenas
ciclicamente
o rumor dos teus.

Ademar
03.05.2010

maio 02, 2010

Improviso para não sentenciar o vento...

Por vezes pedem-me uma opinião
uma crítica
eu respondo sempre
que não comento poesia
não sou professor de literatura
nem aspirante a porteiro da fama
basto-me como as crianças
com gostar ou não gostar
da substância e do cheiro das palavras
e mais não digo
a poesia
respeita-se simplesmente assim
como as mãos sempre únicas
de quem a esculpe
e os seus gemidos.

Ademar
02.05.2010

maio 01, 2010

Improviso para cheirar-te...

Alinho olfactos
em nenhuma parte do teu corpo
a tamanha distância impercorrível
e espero simplesmente que se calem
todos os perfumes
todas as fragrâncias
todos os aromas
dos dias lentamente sobrepostos
na aragem do tempo
para
no fim da vadiagem
escutar apenas a essência
da tua mais íntima e líquida e carismática
metamorfose.

Ademar
01.05.2010

abril 30, 2010

Improviso para pedir esmola...

A despir-me nas palavras
descurei o guarda-roupa
e a nudez visitou-me
entre rasgões e remendos
não
não me sirvas mais
à mesa do desejo
o vinho
nem a antologia
veste-me apenas
como um sem-abrigo
e diz-me depois
antes não
que me queres assim.

Ademar
30.04.2010

abril 29, 2010

Improviso para dizer a inutilidade da poesia...

Nenhum portal
me conduz ao lugar
a que pertences
nenhum destino ou chamada
no bairro que frequentamos
que parece maior do que o universo
todos os desencontros
têm hora marcada
todas as esquinas se perdem
na intemporalidade da matéria
que nos conjuga.

Ademar
29.04.2010

abril 28, 2010

Improviso para prontuário...

Felicidade
é uma palavra com sílabas a mais
e que rima com
idade
e com
saudade
e com
eternidade
nenhuma palavra a rimar assim
tem muito futuro dentro.

Ademar
28.04.2010

abril 27, 2010

Improviso para chatear um filho da puta que passa muito nas televisões...

És uma pessoa importante
eu sei
todos os dias as televisões me dizem
que és uma pessoa importante
presumo obviamente sobre tu
perdão
sobre ti
coisas óbvias
por exemplo
que caminhas sobre três pernas
que comes com duas bocas
e lambes com todas as línguas
que vês por muitos olhos
e que nos enrabas
pela frente e por trás
desculpa a linguagem
tão pouco consentânea
com a importância que te atribuem.

Ademar
27.04.2010

abril 26, 2010

Improviso para estereotipar...

Sim
os homens e as mulheres
as mulheres e os homens
digo
os machos e as fêmeas
as fêmeas e os machos
não importa por que ordem
(mas eu
denunciado no género
serei nesta desordem
certamente suspeito
reformulo então)
as mulheres e os homens
os homens e as mulheres
digo
as fêmeas e os machos
os machos e as fêmeas
não importa por que ordem
mas
(nenhum poema sobrevive
a um tamanho conflito de nebulosas).

Ademar
26.04.2010

abril 25, 2010

Improviso para dizer a cumplicidade...

Se tu espreitares
no mais íntimo
dos meus olhos
ver-te-ás
e nenhum silêncio
será mais
a cerca do nosso refúgio
se eu espreitar
no mais íntimo
dos teus olhos
ver-me-ei
e nenhum silêncio
será mais
a cerca do nosso refúgio
à volta da mesa
que nos destinaram
uma única cadeira
chegará para os três
e ainda sobraremos.

Ademar
25.04.2010


abril 24, 2010

Improviso para liricar...

O teu silêncio cheira bem
mais intensamente do que a primavera
destas noites
que já prometem todos os vagares
o teu silêncio tem
muitas reservas dentro
o pudor e o poder
das origens da sedução
e o treino da sabedoria
que não arde entre os ponteiros
de nenhum medidor do tempo
o teu silêncio
é uma voz de longe
e tão próxima
como o mar
que intimamente nos embarca.

Ademar
24.04.2010

abril 23, 2010

Improviso para consagrar mais um milagre da natureza, à portuguesa...

escara2304b.jpg

Um escaravelho da família dos
rola-bosta ou
(à portuguesa)
vira-merda
chegou a
professor catedrático da
faculdade de direito da
universidade de lisboa
nem kafka antecipou
uma tão extraordinária e medonha
metamorfose
garantem as agências noticiosas
que nunca um escaravelho
oferecera à ciência jurídica
tantas pernas traseiras
e tanto excremento
para definitiva consagração da escola
dita superior
só falta mesmo que o rola-bosta
ou (à portuguesa) vira-merda
junte as apetências biológicas
à ratazana de turno.

Ademar
23.04.2010

abril 22, 2010

Improviso para te dizer ainda Barcelona...

Tens razão
a poesia é a arte superior
da imobilidade
subo e desço as Ramblas
todas as noites
e raramente te encontro
senão nos gestos suspensos
da estátua que todos fotografam
e levam para casa
és tu
e nenhum outro silêncio
tem a eloquência do teu olhar
e uma tão perfeita inexistência.

Ademar
22.04.2010

abril 21, 2010

Improviso para sonata...

Para te colar à memória
de mais uma noite
hesito
entre dois temas
de Johann Sebastian Bach
as mãos e os pés
ou
como se te dissesse
a lua e o sol
há um lugar entre nós
que não nos pertence
essa fronteira
tão apressada na invisibilidade
que só o mistério desenha
na distância e no desejo
das palavras.

Ademar
21.04.2010

abril 20, 2010

Improviso para distrair o olhar do silêncio...

Tomo o teu mundo de empréstimo
mas não me perco nos espelhos
falsamente servidos à interrogação
dos olhares enfeitiçados
nenhuma imagem diz
a incerteza das palavras
com que cativas a mudança
e nela sempre tropeças
confio-te apenas à claridade
das sombras que nos conduzem.

Ademar
20.04.2010

abril 19, 2010

Improviso para despertar...

Os meus santuários
desde a infância
abriram sempre para fora
e todos os cálices que ergui
tinham apenas a forma
de um útero de mãos vazias
com todas as palavras dentro
nos arredores da ausência
falas-me agora de colares
e de aguaceiros azúis
como se a gramática de tantas noites
ainda consentisse entre nós
corrigenda.

Ademar
19.04.2010

abril 18, 2010

Improviso para parêntesis andaluz...

Tenho menos mãos
do que as necessárias
para cruzar as cordas
no andante nocturno
do quarteto nº2 de Borodin
e ainda que te procurasse
em todas as praças e esplanadas
de Sevilha
não te encontraria
que a noite mediterrânica
tão longe dos braços do Guadalquivir
perde-se sempre ou ganha-se
na impaciência das palavras
com que me (a)guardas.

Ademar
18.04.2010

abril 17, 2010

Improviso para dedilhar a última harpa...

Viajar sempre num labirinto de cordas
as mãos suspensas
e intimamente desvendar a fonte
o segredo
da harmonia de todas as vozes
em nenhuma casa
fomos mais felizes do que nessa
e em tempo algum.

Ademar
17.04.2010

abril 16, 2010

Improviso para escala num cais qualquer...

Suspende uma palavra
uma palavra apenas
de todos e de cada um
dos fios do teu cabelo
e sai à vida assim
para que todos te leiam
no sentido das nuvens
ou do céu enfim azul
e que nenhuma rosa
da cor da casa tão longínqua
diga mais sobre o tempo
que te habita
do que o poema
que um dia escreverás
para quem não sabias.

Ademar
16.04.2010

abril 15, 2010

Improviso para epítome de um poema universal (sobre um tema de Eleni Karaindrou)...


Não guardo na mochila
todas as memórias
com que poderia viajar
há um peso limite
para além do qual
já não me pertenço
quero-me leve
nos teus olhos acolhedores
que o nosso segredo
assim dito
nunca nos pese de mais.

Ademar
15.04.2010

abril 14, 2010

Improviso tardio para Mumuki...

Se não morrermos esta noite
digo-te
morreremos amanhã
ou talvez depois
sobre a eternidade em Veneza
a Veneza de todos os regressos adiados
não sei de nenhuma certeza
tão exigente como esta
e tão sábia.

Ademar
14.04.2010

abril 13, 2010

Improviso para Sheherazade...

Concordância e saudades
dizes
e vias de extinção
não peças a nenhum deus
o livro de reclamações
nem o mapa íntimo
de todas as distâncias
escreve antes virtudes e rumores
no lugar da ausência
canções de amor talvez
cânticos celestiais
outros sonharão o vento
certamente
mas será ainda na perfeição
que nos guardaremos
como segredo.

Ademar
13.04.2010

abril 12, 2010

Improviso para paciência e atrevimento...

poe1204.jpg

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abril 11, 2010

Improviso sobre um tema de Louis Armstrong...


Se vivesses
um pouco mais perto
do mundo
dirias talvez
que a felicidade não tem dias
mas átomos apenas
e que não há
na vertigem dos sonhos
costas mais largas
do que as costas
da eternidade
se vivesses
um pouco mais perto
do mundo
talvez soubesses
que o mundo começa e acaba
no olhar com que o abraças.

Ademar
11.04.2010


abril 10, 2010

Improviso para mapa imaginário...

Tão longe das palavras
não sei
por que ainda me lês
nenhum deserto
prolonga as sombras no cais
todas as viagens recomeçam
na esquina mais próxima
da saudade.

Ademar
10.04.2010


abril 09, 2010

Improviso para decantar a dignidade...

Sim
prometi-te não escrever
sobre Zurique
o caminho que acreditavas ainda
reconduzir-te ao paraíso
essa mesa farta de tantas saudades
estarei talvez
a trocar e a confundir
as notas de viagem
mas escrevo de memória
na mesma pele do cão
que te serviu
o fim da linha
o conforto da paz
as portadas da casa grande
agora fechadas para sempre
sobre a infância inviável
e o regresso de Zurique
perdidos todos os comboios.

Ademar
09.04.2010

abril 08, 2010

Improviso imagórico...

Era mulher e
só fotografava vaginas
as vaginas dizia
são os buracos negros
da humanidade
confesso que nunca entendi
nunca entendo aliás
as metáforas do corpo
de resto
eu sei que todas as vaginas
são iguais
mas só durante ou depois
nunca antes.

Ademar
08.04.2010

abril 07, 2010

Improviso para recriar a invisibilidade...


Falhou-me sempre a voz
quando te quis dizer
que morrerias depois de mim
muito depois
e que por isso
já não tínhamos tempo
para esperar pela última cena do filme
aquela em que os amantes
entre lágrimas
se costumam beijar
antes do genérico final
seria uma evidência da luz
um milagre quase
se a luz ainda soprasse
as mãos ou os olhos
com que nos amássemos.


Ademar
07.04.2010

abril 06, 2010

Improviso para recitar o entulho...

Tens os deuses à tua espera
na sala de caracterização
todos os deuses
dizes
e já nenhum tem olhos
com que se veja ao espelho
dizes
nem mãos
com que acaricie a humanidade
dizes
faz-nos esse grande favor
digo
abre a porta aos rebanhos
deixa-os entrar a todos
para o ajuste de contas final
digo
e depois
tranca a porta por fora.

Ademar
06.04.2010

abril 05, 2010

Improviso sobre Brubeck...


As viagens são sempre breves
entre o pensamento da partida
e do regresso
e estão tão gastas as teclas
que já nem o tempo parece caber
em piano algum
nem o mar.

Ademar
05.04.2010

abril 04, 2010

Improviso para dizer por outras palavras "coisa lindíssima"...

Por vezes as mãos dançam
mais lestas e leves do que as palavras
e não há poema musical
que o estranho
digo
o estrangeiro na cidade
não entenda
as ruas não têm
livro de reclamações
e nenhum violino ou violoncelo
ofende a verdade do pôr do sol
quando entardece
no silêncio dos ouvidos distraídos.

Ademar
04.04.2010

abril 03, 2010

Improviso para explicar por que não emagreço as palavras...

Nunca escreveria uma balada
que não tivesses voz para cantar
e que
de dois em dois versos
ou de três em três
não rimasse preguiçosamente
antes da vírgula ou do ponto final
o esquecimento não pede
a sofreguidão
da genialidade
apenas a chama que incendeia
tão ligeira como a luz
o soluço de uma qualquer eternidade.

Ademar
03.04.2010

abril 02, 2010

Improviso para adiar a amizade que tão generosamente me ofereces...

Sim eu já percebi
só falta mesmo que eu adira
para que finalmente
nos tornemos amigos
ou seja
possamos comunicar
partilhar fotografias
organizar grupos e eventos
e muito mais
sim isso eu já percebi
só não percebi ainda
desconhecendo-nos tão flagrantemente
por que haveríamos nós
de fazer parte
do mesmo curral.

Ademar
02.04.2010

abril 01, 2010

Improviso para encaixilhar a última ceia...

Só as crenças
que comem
à mesma mesa farta
todos os dias
engordam
e as mais perenes
são as que se alimentam
do maior dos milagres
e das mentiras
a ilusão do poder
sobre a morte.

Ademar
01.04.2010

março 31, 2010

Improviso para desdizer do novo mundo...

Sós
entre telas
entre teclas
e o universo talvez lá fora
ainda praticável
na esteira da lua
de todas as noites
e cada vez mais distante
como a ausência
são tantos os espelhos
a que nos vemos
amiga
que já não nos reconhecemos
em nenhum.

Ademar
31.03.2010

março 30, 2010

Improviso para retroverter o desconforto...

Se eu soubesse
traduzir do japonês
dir-te-ia talvez
que nenhuma janela
abre tanto para o silêncio
como costumam abrir
os teus gestos
esse silêncio que precisa sempre
de tantas palavras
para se dizer
mesmo quando agradece
simplesmente
o eco de todas as rotinas.

Ademar
30.03.2010

março 29, 2010

Improviso para agradecer, publicamente, um galanteio...


Hoje disseram-me
que ofereço tesouros
e Nat King Cole
voltou a cantar para mim
na memória peregrina
de todas as saudades
que ainda não morreram.

Ademar
29.03.2010

março 28, 2010

Improviso para te dizer dos meus desvios...

A hóstia na boca
e a língua a entretê-la
enquanto a garganta
se demora
na expectativa da deglutição
e tu de joelhos
gregorianamente
oferecendo-te à consagração
nenhum altar reclama
intimidade maior
vem em paz
e que o Senhor
obviamente
seja contigo.

Ademar
28.03.2010

março 27, 2010

Improviso quase contabilístico...

Se me devolvesses
uma a uma
todas as horas
que me roubaste
quantos dias
eu poderia ainda
depois do último
acrescer à eternidade?
a morte não cabe
no tempo que a vida
nos nega.

Ademar
27.03.2010

março 26, 2010

Improviso sobre "From virtue springs each gen'rous deed" (de George Frideric Handel)...


Nenhuma mulher se esgota
no tempo de se abrir
e de se fechar
mas com três sílabas apenas
escrevo no teu corpo
uma partitura de desejos.

Ademar
26.03.2010

março 25, 2010

Improviso para glosar o dilúvio das existências...

Todas as datas
e todos os lugares
são falsos
nenhum poema
nasce fora
ou depois do tempo
da intimidade
que o engravidou
as palavras
disputam sempre o futuro
mesmo quando fingem
enredar-se nos pretéritos.

Ademar
25.03.2010

março 24, 2010

Improviso para documentário...

Sou ainda originário
do tempo das actualidades
trago comigo
cinematograficamente
uma antiguidade a preto e branco
que me arqueologiza
passei por lá
e nada aprendi
os futuros
nunca estiveram inscritos
na memória das imagens.

Ademar
24.03.2010

março 23, 2010

Improviso para o Guilherme...

Se abrisses as feições
fatia a fatia
como num piano sem teclas
que servisses simplesmente
à mesa de todas as saudades
encontrarias talvez o reflexo
dos olhos que adormeceste
entre o que foste
e o que deixaste de ser
ele há tanta grandeza
no que nunca fizemos
e tanta dentro de nós.

Ademar
23.03.2010

março 22, 2010

Improviso à porta da primavera...

As rotinas da combustão do vento
e o fogo que apaga um a um
todos os vestígios do tempo
no círculo da casa
finalmente iluminada
os braços que a cingem
têm a sintonia da fraqueza
e não há já olhar que ateie
no rosto
os fulgores da infância apenas sorrida
a casa treme
na memória de outras mãos
de outros gestos
e é uma violência de chamas
que nenhuma retina fixará
pelo menos
até que o vento adormeça.

Ademar
22.03.2010

março 20, 2010

Improviso para curta-metragem...

Despoluir as palavras
do poder que as impele
e da maldade
e regressar pelo fogo
à elementaridade
das fontes originais da rebeldia
já não há rebanhos que impludam
os palcos da subserviência
hoje
todos os ecrãs servem
a brevidade da exibição
e nenhuma tribo aspira a mais
do que à superioridade das palmas
sempre efémeras.

Ademar
20.03.2010

março 19, 2010

Improviso cínico sobre um incidente parlamentar...

Não troques a fórmula
Trocado da Mata
muito menos em miúdos
se queres palavrar
aos representantes da nação
não importa o género
nem do sexo a orientação
levanta o traseiro douto
do assento governamental
e diz a fórmula
senhor presidente
senhores deputados
dois pontos
etc e tal
na casa da democracia
não vale tudo
apenas Portugal.

Ademar
19.03.2010

março 18, 2010

Improviso para lembrar o cais...

Engrandeço-te
eu sei
o conforto da esperança
de vez em quando
tu sabes
não resisto
à tentação de misturar as palavras
na paleta das paixões
há viagens que nunca descansam
ou terminam
nem na tela em que adormeces
voltas sempre à nascente
de todos os teus destinos.

Ademar
18.03.2010

março 17, 2010

Improviso de género...

Com pedaços de memória
teceria ainda um pensamento
de mulheres perfeitas
sintético na contradição
de todas as circunstâncias
entre a luz e a penumbra
a raiva e o silêncio
a subtileza e a ousadia
o outono e a primavera
nenhuma memória me transporta inteiro
à pluralidade do que fui
nesse espelho em que me perdi.

Ademar
17.03.2010

março 16, 2010

Improviso para rever David Lynch...

Sim tens razão
sou muito estável
e previsível
nunca saio de mim
nem para pescar
Hollywood tem cenários
cada vez mais imprestáveis
e tudo o que eu poderia projectar
numa tela
já não resiste à fragmentação da luz
por isso
agora espero apenas
que me visites na prisão
e de caminho
me tragas o pão
e os jornais
de todos os dias
e a nicotina
as palavras possíveis
a cela não tem número
mas encontrar-me-ás
seguramente
no corredor da morte.

Ademar
16.03.2010

março 15, 2010

Improviso para enganar o índice...

As tuas saudades
doem-me
porque não tenho corpo
para elas
só fitas a marcar
as páginas em que me leste
e nenhuma era
o livro inteiro.

Ademar
15.03.2010

março 14, 2010

Improviso para Jean Ferrat...

ferratpoema.jpg

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março 13, 2010

Improviso sobre Pietà...

pieta1303.jpg


Há dias em que sinto
que morres na cruz
dos meus braços
sem chegares a descer porém
da ausência
em que adoeces
o mármore arrefece
no cansaço de todos os gestos
e nem no ventre da noite
adormeces.


Ademar
13.03.2010

março 12, 2010

Improviso para José Gil...

Deve haver uma razão
para que os sábios
se comportem frequentemente
como idiotas
tenho uma tese
a sabedoria não cabe
em nenhum umbigo.

Ademar
12.03.2010

março 11, 2010

Improviso (quase) fora de horas...

Escrevo directamente na areia
o que nem ao mar ditaria
palavras tão leves
e tão breves
que até o vento
num sorriso
dispersaria
escrevo directamente na areia
para que ninguém acredite
nem tu própria
que no termo das mãos
é para ti ainda
que eu escrevo.

Ademar
11.03.2010

março 10, 2010

Improviso sobre uma ária de Monteverdi...



A duas cores ou dimensões
nenhuma voz mergulha
na tela analógica
do silêncio
nenhuma luz
com tão poucas palavras
diz-se o berço da vida
e nada mais
e se as mãos que te tocassem
fossem cordas
nem a morte te encontraria
no lugar de todos os incêndios
do corpo.

Ademar
10.03.2010

março 09, 2010

Improviso escrito sobre a memória de uma metáfora...

Montada
sobre um cavalo
de espuma
dizias
a minha inexistência
dava um filme
deu.

Ademar
09.03.2010

março 08, 2010

Improviso para F ...

Os outros
parecem-te sempre de mais
ou porque arrefeças
nos corredores sombrios
em que te esperam
ou porque ignorem ainda
a medida mais próxima
dos teus medos imaturos
não têm braços nem mãos
e falam dialectos ilegendáveis
os outros
o teu desespero
com toda a esperança dentro.

Ademar
08.03.2010

março 07, 2010

Improviso em forma de missal...


Ergue-se um altar
no lugar da ausência
as toalhas
recuperadas do baú antigo
que ainda cheiram à mãe
morta devagar
os lençóis
as mantas
os círios
as flores que parecem sempre
artesanais
como a memória da infância
e a respiração do tempo
adormecido
nada
nesta ordem austera
tem a substância do corpo
esse altar erguido
repito
no lugar da ausência.

Ademar
07.03.2010

março 06, 2010

Improviso quase evangélico...

Evitai se puderdes
o trilho dos rebanhos
escolhei lugares mais seguros
e mais íntimos
digo-vos
a crueldade tem os nomes somados
dos membros de todas as tribos
e não há ferocidade maior
maior brutalidade
do que essa
o movimento uníssono
das matilhas.

Ademar
06.03.2010

março 05, 2010

Improviso para descer a poesia do palco...

Ergo o olhar e leio Borges na parede
enquanto espero que as palavras me visitem
traduzo
“a fama é uma incomodidade
não aconselho ninguém a ser famoso
o melhor é ser secreto”
recordo
hoje escrevi no quadro
M-I-S-A-N-T-R-O-P-I-A
e dei um exemplo que a memória me impôs
Herberto Helder
o Daniel perguntou
se era mais um pseudónimo
(queria dizer heterónimo)
de Fernando Pessoa
reconheço
a ignorância tem uma sabedoria dentro
que frequentemente me desconcerta
já não sei exactamente o que respondi
mas confesso que tive vontade
de dizer ao Daniel
Herberto Helder nunca existiu
inventei-o agora.

Ademar
05.03.2010

março 04, 2010

Improviso para Picasso...

Três minutos com a realidade
não preciso de mais
o tempo somente de entrares
e saíres do espelho
a que nunca pertenceste
uma curta-metragem
com Piazzolla em fundo
e a tua imagem
simulando a tela
onde adormeço os olhos
e as palavras
a realidade
tem muitas demências dentro
e o inverno é sempre depois
de termos nascido.

Ademar
04.03.2010

março 03, 2010

Improviso para artefacto...

Tantos objectos
despidos de uma utilidade que me sirva
tantos fios
a cruzá-los
e tanto esquecimento
no meu corpo
cada vez mais perdido dos andaimes
já não tenho alvará
para o restauro dos gestos
que me antecipam
sobra-me confiar na mecânica dos dias
ou fosse a tua esperança
o último óleo da engrenagem
da minha vida.

Ademar
03.03.2010

março 02, 2010

Improviso para dizer a outra metade...

Depura-te nas palavras
não queiras parecer tão impenetrável
a vida
saberás um dia
dói menos
quando a simplificamos
e não me visites em Berlim
no colapso de todas as guerras
que não fiz
a matemática
como a literatura
não explica paisagens
o deslumbramento
é uma biografia interior.

Ademar
02.03.2010

março 01, 2010

Improviso para antecipar a primavera...

Até as palavras por vezes
saem do leito
inundando todas as margens
que ainda respiram
não há forma de conter
a vadiagem da escrita
no corpo que pede apenas
uma medida de redenção
uma viagem feliz
o encantamento sem lágrimas.

Ademar
01.03.2010

fevereiro 28, 2010

Improviso no degrau do desencantamento...

Os perímetros do teu silêncio
têm esquinas
que me convidam ainda à escuta
outras
não
as áreas perfeitas
não cabem
em nenhuma orientação
e a montante do vento
todas os rios
aspiram à foz.

Ademar
28.02.2010

fevereiro 27, 2010

Improviso para cota e violoncelo...

Guarda-me por uma vez na estante
dos teus segredos
que eu seja somente
uma dedicatória
ou nem isso
um livro mais
entre tantos
oferecido
ao tempo furioso das tuas mãos
e tão breve
e lê-me apenas
quando tiveres saudades
dos olhos com que me adormeces
encaderna-me se quiseres
para que eu dure ainda mais
e abre-me devagar
folheia-me lentamente
página a página
na íntima desordem
dos teus pensamentos.

Ademar
27.02.2010

fevereiro 26, 2010

Improviso para explicar Eros às demais divindades...

De vozes e de formas
não guardarei saudades
nem de sorrisos
antes de cheiros
e de húmidos sabores
e ao culto das essências
digo
das especiarias do corpo
prestarei sempre tributo
atento venerador e obrigado
não tenho sentidos
para te desejar
de outro modo.

Ademar
26.02.2010

fevereiro 25, 2010

Improviso sobre a embriaguez da instantaneidade...

Já não és do tempo
em que a poesia era secreta
e fermentava nos baús do amadurecimento
e os poetas só nasciam
para a evidência do culto
na postumidade
a discrição perdeu-se
agora todos aspiram
à celebridade
no milagre efémero da varinha mágica
das palmas
e a autoria só pede um palco
e um espelho
a urgência da consagração
apodrece a levedagem do génio
amanhã amiga
se não te negares nos altares
do umbigo
já ninguém te lerá.

Ademar
25.02.2010

fevereiro 24, 2010

Improviso para afrontar as cosmogomias do medo...

Digo-me
desse tempo antiquíssimo
em que as musas
conspiravam ainda com as liras
e não sobravam cordas
para casamentos que não fossem
contranatura
os castrados vieram depois
e ergueram altares
na sarjeta do medo
entre as ratazanas.

Ademar
24.02.2010

fevereiro 23, 2010

Improviso sobre um desenho de Stuart Carvalhais...


Ilustração Portugueza, 08.04.1922
syu2302aa.jpg

Fosse o olhar somente
uma inexpugnável memória de frescos
Giotto di Bondone
Capela dos Scrovegni
Pádua
lembras-te?
todas as mulheres
tinham o teu perfil
e eram ainda mais secretas
no olhar que negavam
aos mistérios da efemeridade
setecentos anos
passam depressa
mas todos os pintores são eternos
quando o formol da luz
os conserva
todas as mulheres
tinham o teu perfil
e eram ainda mais secretas
nos túneis e nas grutas
em que esperavam as manhãs.

Ademar
23.02.2010

fevereiro 22, 2010

Improviso quase elegíaco...

No índice
de todos os tempos
da música
sobrará ainda a melodia
como quando sorris
nas palavras
e nas palavras
interrompes o inverno
e todas as tempestades
a melodia artesanal
que me trazes
nesse conforto de nuvens
que nem no vento tropeça
nem no silêncio.

Ademar
22.02.2010

fevereiro 20, 2010

Improviso para Sheherazade...

Já não distingo entre
segredos de estado
(estrado)
e segredos de estada
(estrada)
subjuntivamente
já não sei a que segredos
me convidas
nem a que menstruações
suspendo-te do substantivo
diafaneidade
a transparência com que me acolhes
não tem tempo dentro
apenas a luz inteira.

Ademar
20.02.2010

fevereiro 19, 2010

Improviso para dizer nada...

Se a noite
perguntar por mim
diz-lhe por favor
que hoje fui mais cedo.

Ademar
19.02.2010

fevereiro 18, 2010

Improviso para leiloar num mercado de virtudes...

A única certeza em que caibo
mais do que as tuas palavras
são as batidas deste coração
que nunca ouviste
esse esforço sobre-humano
de tantos anos
que só o orgasmo recompensa
extraordinária invenção essa
da física e da mecânica animal
digo-te
todos os poemas pesam muito mais
do que os vinte e um gramas
da tua incerteza.

Ademar
18.02.2010

fevereiro 17, 2010

Improviso (mais um) para pedra tumular...

Experimentei
todas as modas de viver
e não acertei a vida
com nenhuma
esgotado o catálogo
reconheço-me agora
finalmente
no desacerto que fui.

Ademar
17.02.2010

fevereiro 16, 2010

Improviso sobre uma tela de Helena Berardo...

cadhb1602.jpg


Uma teia de sombras
na cave estreita
que só uma luz antiquíssima
suspende
a memória inventa caixilhos
no lugar da ausência
e nenhum gesto proclama
a metamorfose das janelas imaginárias
nem palavras
o olhar que humedece
e emudece
o repouso enfim no centro da tela
e o orgasmo das cores
tanto tempo adiado.

Ademar
16.02.2010

fevereiro 15, 2010

Improviso carnavalesco ao contrário...

A máscara do avesso
a frágil tirania da pele
mas é ainda do corpo
que sobram as evidências
de todos os sinais que te desenham
morres ou renasces nas palavras
e entre a nascente e a foz
nada mais acontece
a montante o silêncio
a jusante o esquecimento.

Ademar
15.02.2010

fevereiro 14, 2010

Improviso para dizer antes do fim...


Na parte de fora dos olhos
a parte em que nenhuma cegueira
adormece
ou quando os lábios acordam ainda
na consagração da tela
o tempo da memória e do desejo
a luz que voa na bissectriz do espaço
entre a nascente e a foz
de todas as viagens interiores
e saber que serei sempre o caminho
o caminho de tantos outros olhos
de não ter regresso ao princípio de mim.

Ademar
14.02.2010

fevereiro 13, 2010

Improviso ainda mais do que mínimo...

Um dia de cada vez
um dia apenas
sem futuros dentro
um dia de cada vez
não queiras mais
nem queiras menos
um dia inteiro
sob a inconstância da luz
um dia de cada vez.

Ademar
13.02.2010

fevereiro 12, 2010

Improviso tropeçado nas mãos...

poe1202.jpg

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fevereiro 11, 2010

Improviso clandestino...

A voz como que sussura
na pele que anoitece
e nenhuma distância a triunfa
ou distingue
senão no tear das ondas
que desancoram todas as proas
esse grito quase selvagem
que treme no olhar da clandestinidade
digo
o teu sotaque.

Ademar
11.02.2010

fevereiro 10, 2010

Improviso ainda mais íntimo sobre Debussy...

Já ensaiei muitas vezes
a dança da saudade
os pés deslumbram o horizonte
de outros olhos
tenho ainda mãos para todas as cordas
e não há altar em que desperte
dos rumores que o mar me traz
na antiguidade de tantas partituras
a intimidade que expira a sede
nos vapores que te antecipam.

Ademar
10.02.2010

fevereiro 09, 2010

Improviso para Selma...

bbbb0902.jpg

Diz-me com que vogais
escreverei o teu nome
e com que imagens
do álbum do que foste
viajarei para a ilha dos teus gestos
que ainda dizes rascunhos
ou península
diz-me dos altares
a que sobes para dançar
quando a voz te quebra
e com que braços
e com que mãos
teces as ondas que mergulhas
antes do pôr do mar
ou do sol.

Ademar
09.02.2010

fevereiro 08, 2010

Improviso para plátano e mundo...

pla0802a.jpg

A primavera tem sempre o relógio atrasado
na memória do tempo
floriremos sim
quando a vida retomar o seu antiquíssimo enredo
e renascermos de novo
então os pássaros emigrarão
nos nossos braços
e serão tantos
que nem sobrarão palavras
para dizer o vento.

Ademar
08.02.2010

fevereiro 07, 2010

Improviso para dizer ainda Aveleda...

A casa
essa casa precisa e exacta
sarcófago de gestos incinerados
no forno de pedra há muito arrefecido
a água de todas as minas
que a atravessam ainda
o plátano que conduz o olhar
em direcção à chuva
e todos os sacrários abandonados
nos altares da memória
que ainda tropeça no tempo
a casa
essa espécie de emanência do corpo
em todas as escadas íntimas
que a sobem e a descem
e tantas chaves
para portas que já não abrem
e tantas janelas
fechadas por fora
como um pensamento engradeado
a casa
essa casa precisa e exacta
labirinto de muros que escorrem lágrimas
mas não como se chorassem.

Ademar
07.02.2010

fevereiro 06, 2010

Improviso para Sylvia Beirute...

Se quisesse fazer-te uma confidência
em forma ainda de ensaio
dir-te-ia que já só saio à rua
digo de mim
com as palavras pela trela
falta-me inspiração para correr
atrás das palavras velozes
já reparaste por certo
que quase não uso maquilhagem
sirvo-me no osso
e assim me adio na putrefacção
todos os poetas que morrem
apodrecem mais depressa
nas tatuagens da literatura.

Ademar
06.02.2010

fevereiro 05, 2010

Improviso em dez passos ou sequências...

TAKE ONE
o regedor não recebe
lições de democracia de ninguém
nem de um amigo de infância
que já foi negreiro
TAKE TWO
o regedor tem
sobre todas as outras
uma paixão arrebatadora e ex-citante
a arquitectura
TAKE THREE
o regedor não tem mulher
nem homem
oferece o corpo inteiro
à mãezinha desvalida
que já trabalhou para fora
TAKE FOUR
o regedor fuma apenas às escondidas
como ademais em tudo o mais
TAKE FIVE
o regedor sabe de cor
quatro versos melancólicos de Cesário Verde
e dois de Vinicius
indiciariamente eróticos
com que costuma surpreender as viúvas
e os lolitos
TAKE SIX
o regedor não engraxa na baixa
porque sua dos pés
e da alma
TAKE SEVEN
o regedor tem um pacto secreto
com o colesterol
e os paparazzi
TAKE EIGHT
o regedor não dobra a língua
em nenhuma que seja de usar
TAKE NINE
o regedor adora a posição de joelhos
e não apenas para encrespar
TAKE TEN
o regedor sofre de azias
quando a próstata não lhe aperta
no carácter.

Ademar
05.02.2010


fevereiro 04, 2010

Improviso para heterobiografia...

Se houvesse um lugar possível
onde as palavras ainda se amassem sem protecção
seria aí que eu te esperaria
talvez entre ruínas
ou entre pântanos de metáforas
para que os pés não firmassem
promessas de eternidades
magras as biografias
que apenas as palavras suportam.

Ademar
04.02.2010

fevereiro 03, 2010

Improviso para explicar por que, muitas vezes, sinto que as escolas têm professores a mais...


Mais do que tudo
é a maldade que me dói
entendo a humanidade
na ignorância
na estupidez
na ambição
na hipocrisia
entendo a humanidade
na loucura
em todas as suas formas
entendo até
a cobardia
a fraqueza
a inveja
e a vaidade
mas mais do que tudo
é a maldade que me dói
essa vontade selvagem
de matar os outros pelas costas
impunemente.

Ademar
03.02.2010

fevereiro 02, 2010

Improviso em forma de tango...

Movimentam-se na tela
como num palco maravilhoso
que só as nuvens adivinhassem
caminham dançam esvoaçam
entram e saem da tela
como de uma imagem em que nunca coubessem
e escrevem em todas as línguas
no regresso de todas as viagens
as mulheres a que me abandono
têm uma tela dentro delas
e são ainda mais perfeitas
do que o mistério que as conduz.

Ademar
02.02.2010

fevereiro 01, 2010

Improviso para folgar as costas a Fernando Pessoa e a Cesário Verde...

Este poema não tem
primeira pedra para inaugurar
senhor primeiro-ministro
é uma imaterialidade monumental
não tem orçamento
nem plano de estabilidade e crescimento
e mais-valias não cobra
nem para distrair o défice
este poema digamos assim
é da oposição
mas diga-o se quiser
senhor primeiro-ministro
numa próxima inauguração.

Ademar
01.02.2010

janeiro 31, 2010

Improviso para traduzir, em linguagem que todos entendam, Tantum Ergo...

Dizes que falo sozinho
não é verdade
falo comigo
quando tu não estás
dizes que canto no banho
gregorianamente
não é verdade
nunca cantei
dizes que penso mil e uma mulheres
quando me distraio da eternidade
não é verdade
penso uma de cada vez
dizes que vivo
no conforto de um pacto com o diabo
não é verdade
o diabo sou eu.

Ademar
31.01.2010

janeiro 30, 2010

Improviso citadino...

Um prestamista ambulante
quis hoje vender-me na rua dois pensamentos
a prestações
disse-lhe que já não estava comprador
porque não tinha onde guardar
hoje mais depressa me dou ou empresto
do que compro
tentei significar-lhe
numa linguagem talvez artesanal
que esgotei há muito
a capacidade pré-instalada de armazenamento
de destinos que não me pertencem
não sei se ele chegou a ouvir
a cidade inteira entretanto
saíra à rua para comprar.

Ademar
30.01.2010

janeiro 29, 2010

Improviso com uma nação de destinatários...

Sim a poesia destreina-se
como qualquer intimidade
e ainda ninguém inventou uma máquina
de fazer higienes
em vez de espanhóis
a literatura por vezes pendura-se
de uma frase
ou de uma luz
e retoma a infância
há quem escreva em minúsculas
simplesmente
para se engrandecer.

Ademar
29.01.2010

janeiro 28, 2010

Improviso, mais um, para epígrafe...

Aprendi a cavar trincheiras
quando percebi que nenhum rebanho
se distinguia dos demais
e que o tropel falava todas as línguas
montado nas quatro patas traseiras
a minha guerra
não a perdi nem ganhei
na Piazza Loreto
mas nenhum rebanho sobrevoou
garanto-vos
as trincheiras que cavei.

Ademar
28.01.2010

janeiro 27, 2010

Improviso para talvez desamarrar...

À infância já não vou por preço algum
nem à borla
dizes
compra-me um carrossel
em que caibamos de pé ou de joelhos
como se tivéssemos voltado a andar
ou a rezar
à infância já não vou por preço algum
nem à borla
dizes
confia-te na mão esquerda
para que nela me suspenda
das nossas amarras.

Ademar
27.01.2010

janeiro 26, 2010

Improviso para máquina de fazer gentios...

Hoje apetece-me
repetir aqui uma frase banal
tão banal como esta noite que me embrulhas
na palavra foder
uma frase escrita um milhão de vezes
em todas as línguas e dialectos
a vida é um carrossel digo
uma caixa de música a que nem precisamos
de dar corda para tocar na infância
uma montanha de sons e de silêncios
uma lembrança talvez da Suíça
e lágrimas ainda a descer pelos olhos.

Ademar
26.01.2010

janeiro 25, 2010

Improviso para iluminar o tempo interior...

Administro no silêncio
um tear de saudades
tudo o que me falta
transborda-me do pensamento
tenho remendos
no lugar do desejo
e da memória
uma porta para o futuro
sem fechadura nem chave
podeis vir quando quiserdes
sobro-me da agenda
para todos os reencontros.

Ademar
25.01.2010

janeiro 24, 2010

Improviso para enganar as noites...

Uma fita vermelha entre as páginas
de uma vida remarcável
só depois do ofício da leitura
e o silêncio que espreita sempre por dentro
o rumor pleonástico das palavras
dizes
que tudo depois da poesia é uma merda
e eu assino por baixo
entre esse mesmo chão
e o tecto das estrelas.

Ademar
24.01.2010

janeiro 23, 2010

Improviso para dizer a primeira palavra...

As mãos que me toquem
não esperarão stradivarius
apenas teclas de um órgão antiquíssimo
talvez irrestaurável
que ainda respire e sorria.

Ademar
23.01.2010

janeiro 22, 2010

Improviso para legenda da procura...

Ocorre-me agora escrever
a urgência como medida introspectiva do tempo
não saberia dizê-lo noutra língua
nem de outra forma
antecipo pois os fotogramas da viagem
segredos e mistérios com toda a sabedoria dentro
e a incerteza do destino
de mais uma promessa por cumprir
redigo
a urgência como medida introspectiva do tempo.

Ademar
22.01.2010

janeiro 21, 2010

Improviso para tributo a João Guimarães Rosa...

Há quem escolha a terceira margem do rio
para não ter de voltar a nenhuma ou a si
e quem escolha as outras margens
todas as outras antes ou depois da terceira
para não ser água nem canoa nem corrente
os rios mais profundos são porém
os que não têm margens
na humanidade que os conduz.

Ademar
21.01.2010

janeiro 20, 2010

Improviso para desprometer...

A memória sabes tem tantos filmes dentro
e tantas palavras e tantas partituras
bates à porta e tudo parece antigo nos gestos
foi sempre assim que tudo começou
desde que cegámos para a urgência do tempo
e nunca mais nos prometemos.

Ademar
20.01.2010

janeiro 19, 2010

Improviso quase geresiano...

Se eu te dissesse que a caminho da junceda
parava sempre entre as rochas a ouvir nessun dorma
e fitzcarraldo parecia ainda mais próximo das nuvens
quando na linha da erosão nem já os garranos
confundiam o trote entre caruso e pavarotti
como se tivessem crescido a servir-se da mão de puccini
e toda a poesia não fosse mais do que um chamamento
se eu te dissesse que fui o sol a caminho da junceda
e nunca os meus pés tropeçaram numa ponte suspensa
sobre o homem.

Ademar
19.01.2010

janeiro 18, 2010

Improviso para Sylvia...

Encontrei-a hoje por acaso
num bairro de sótãos desejantes
(o acaso é o nosso único destino)
vendia poemas com palavras dentro
e tocava bandoneon
pareceu-me Homenagem a Córdoba
mas não garanto
perguntei-lhe se era edição de autor
e foi então que ela me reconheceu
Astor Piazzolla
ninguém vende poemas assim na rua
onde todos passam.

Ademar
18.01.2010

janeiro 17, 2010

Improviso atmosférico...

Não tenho corpo para te servir
à mesa das palavras
apenas memórias de gestos
que ainda poderiam tocar-te
numa península onde só coubéssemos nós
descontados de todas as sombras
há destinos excessivos
que nos atravessam nas âncoras
do tempo
e nos morrem nas mãos
como ondas imaginárias
não tenho corpo para te servir
à mesa das palavras
apenas essa ausência.

Ademar
17.01.2010

janeiro 16, 2010

Improviso em forma de península...

Não memorizo o nome das ruas
ou das praças
não importa pois que tenhas lá estado
ou nunca
mas lembro-me dos grafitos
das pichagens
das pinturas murais
dos pedidos de silêncio
no bairro gótico
e das cervejas adormecidas
entre o Reno
e o Guadalquivir
não importa pois que tenhas lá estado
ou nunca
concedemo-nos a geometria do tempo
na certeza plural
de que só as palavras eternas
se chamam e se tocam.

Ademar
16.01.2010

janeiro 15, 2010

Improviso para longa-metragem...

O menino
também mata saudades
embora nunca fale
das saudades que mata
não abre a porta
nem fecha a porta
não diz olá
nem diz adeus
o filme é o pensamento
que nenhuma tela projecta
um dia virás
e o menino morreu
todos os filmes acabam assim
genericamente.

Ademar
15.01.2010

janeiro 14, 2010

Improviso para que ninguém entenda...

Hoje percebi
que não tenho mais lixo
para baladas
esgotei a reserva de marijuana.

Ademar
14.01.2010

janeiro 13, 2010

Improviso para dizer, discretamente, ao ouvido de um filho...

Para o Francisco, que hoje perfaz 17 anos...


Todas as pessoas
até os pais
são seres imaginários
ninguém fora de nós
faz inteiramente parte de nós
há muitas estranhezas
que cobramos ao pensamento
quando batemos à porta
de tudo o que está para além
do que podemos tocar
um dia perceberás que só a poesia diz
o que o olhar não fala.

Ademar
13.01.2010

janeiro 12, 2010

Improviso para explicar a poesia aos pássaros...

Apago sempre as estrelas
para escrever
tu sabes
o excesso de luz
distrai-me do tesão das palavras
o corpo quer-se
uma matéria delicada
um cheiro muito antigo
o mais próximo do berço
e nessa quase irrelevância
quando todos os outros cheiros da vida
se erguem da penumbra
é então
que os dedos da poesia nos agarram.

Ademar
12.01.2010

janeiro 11, 2010

Improviso para desleixar grandiosidades...

Nunca pensei que soubesses
conjugar o verbo
amar
mesmo no particípio passado
ou numa versão pronominal
eu só conheço como sabes
a voz passiva
e tenho uma tendência empírica
para tropeçar nos tempos dos verbos
costumo dizer
por exemplo
que a poesia de Manoel de Barros
são conchas em vez de palavras
e não há luz que a penumbre
como se fosse ainda mais antiga
ou vegetal do que a via láctea
coisas assim
que nenhum nexo reconhece
e nenhum mestre aprovaria
lamento pois dizer-te
já não sou capaz de trocar Ravel
por Debussy
ou Treviso por Veneza
tenho fome de tudo
o que me alimenta.

Ademar
11.01.2010

janeiro 10, 2010

Improviso à volta de uma frase...

Uma frase mais
como uma fotografia a preto e branco
ou um telegrama dos antigos
contado letra a letra
stop
uma frase
tenho de escrever mais uma frase
e meter-te lá dentro
de preferência de pé ou de cócoras
stop
evidentemente
não posso deixar o espaço em branco
tu exiges pelo menos uma frase
uma fórmula
farei batota talvez
juntarei palavras
que ninguém entenda
stop
a falta que nesta hora me faz
o manual do avaliador
que não comprei.

Ademar
10.01.2010


janeiro 09, 2010

Improviso de género...

Talvez tenhas razão
talvez a loucura seja
como dizes
uma propriedade feminina
um excesso de luz
um encandeamento dos sentidos
deixas de ver
e enlouqueces
há mulheres
que se desintegram assim
numa espécie de névoa interior
como se
simplesmente
adormecessem por dentro.

Ademar
09.01.2010

janeiro 08, 2010

Improviso para saudar numa ca(u)sa um grande Amigo...


Para o Henrique Barreto Nunes


Deixa que nesta noite polar
a memória ocupe o pensamento todo
e não sobre lugar na mesa
para mais ninguém
foi aqui (lembras-te?)
que interrrogámos o destino
e o ganhámos
talvez tudo o mais tenha sido em vão
menos aqui
nesta antiquíssima liberdade
que nenhuma ruína calou
nenhum esquecimento.

Ademar
08.01.2010

janeiro 07, 2010

Improviso para orquestra de cordas...

Deixa-me pelo menos coleccionar as mãos
nas tuas palavras
e que não me falhe um
de todos os dedos com que me abraças
que nenhuma intimidade
a poesia nos autorize
senão a intimidade das mãos
e de todos os seus dedos.

Ademar
07.01.2010

janeiro 06, 2010

Improviso para servir ainda de lápide funerária...

A vida foi a minha criação
e até na morte assinei
com o corpo que me coube
a sabedoria não pede muitas palavras
senão exactamente as que lhe pertencem
nunca escrevas de mais
lembra-te sempre de que nenhum poema
esgota a poesia.

Ademar
06.01.2010

janeiro 05, 2010

Improviso para Arianna...

O sangue no lugar da água
em todas as fontes
e no corpo que te pertence
a harpa
se a dor tocasse assim a beleza dos homens
todos os homens seriam eternos.

Ademar
05.01.2010

janeiro 04, 2010

Improviso desconcertado...

Desconheço a arte de
abrir portas fechadas por
dentro
e o meu olhar não
cabe em todas as
fechaduras
tenho janelas nas
palavras
e só as abre quem acolhe o
vento.

Ademar
04.01.2010

janeiro 03, 2010

Improviso para dizer da imitação do mundo...

Excertos de cidades e de lugares
que junto à toa
para fazer um filme sem sentido
com todos os sentidos
de uma ausência em que coubéssemos
um coreto algures
onde não chegámos a tocar
uma gruta um bar um museu
que só abririam no dia seguinte
casas suspensas
sobre os ombros de um Atlas
que não fui eu
uma nebulosa de fogo
sobre um tecto de Verdi
e o mar sempre distante
entre passadiços de nuvens
e azúis incandescentes
o futuro num tear
com toda a memória dentro.

Ademar
03.01.2010

janeiro 02, 2010

Improviso para ir além de Florença...

Nunca jogues sobre a rede
a rede quer-se
ao alcance da metáfora
não do olhar ou das mãos
não sigas pois o movimento físico
das palavras
nem te exijas a certeza da resposta
pronta
fulminante
definitiva
essa tela que salpicas de lágrimas incolores
nunca terá a luz toda
lembra-te de que os carris
conduzem a Veneza
por Mestre
e que nenhuma ponte abraça
as margens do Adriático
quando morres ou adormeces
na linha do horizonte.

Ademar
02.01.2010

janeiro 01, 2010

Improviso para ressuscitar...

Não basta que acendas um fósforo
na escuridão
para que te tornes visível
tens de te deixar possuir
pela luz
ou arder no pavio
de um pensamento que te ilumine.

Ademar
01.01.2010