Main

dezembro 31, 2009

Improviso para ti...

syl311209.jpg

Continue reading "Improviso para ti..." »

dezembro 30, 2009

Improviso para simplificar a escrita...

Se me pedisses um conselho
dir-te-ia
não forces as palavras
deixa que elas te visitem
como se simplesmente
regressassem a ti
depois de uma longa viagem
as palavras habitam-nos
quem se escreve
não se procura.

Ademar
30.12.2009

dezembro 29, 2009

Improviso sobre Ausencias, de Astor Piazzolla...


Por que me escreves
se não sei quem és?
por que me falas
se não sei quem és?
por que me olhas
se não sei quem és?
por que me procuras
se não sei quem és?
por que me desejas
se não sei quem és?
por que me tocas
se não sei quem és?
e por que me odeias
se não sabes quem sou?
por que me invejas
se não sabes quem sou?
por que me desprezas
se não sabes quem sou?
por que me persegues
se não sabes quem sou?
por que me agrides
se não sabes quem sou?
etc
aproveitemos melhor o tempo
que o tempo nos consinta
há-de haver no próprio deserto
uma esquina
onde nem na ausência
nos cruzaremos.

Ademar
29.12.2009


dezembro 28, 2009

Improviso exegético...

Sempre achei que Salomão
na abertura do Cântico dos Cânticos
era um depravado
digo
um geómetra do erotismo
recordo
ah
beija-me com os lábios da tua boca
que o teu amor seja mais delicioso
do que o vinho
que os cheiros do teu corpo me embriaguem
e que o teu nome seja para mim
o mais afrodisíaco dos perfumes
todas as donzelas te desejam
quando te procuro
blablablá
se isto não é um apelo à farra
que eu fique
cego surdo e mudo
e tetraplégico.

Ademar
28.12.2009


dezembro 27, 2009

Improviso para dizer a última certeza dos amantes...

Serenissimamente
todos os gestos
que não interrogam
nem afrontam
a sabedoria toma sempre o lugar
do silêncio
ou das palavras tranquilas
já não estamos em guerra
nem à procura de uma casa
em que ainda coubéssemos
ou um livro
a verdade aliás
é que deixámos a literatura para trás
como um deserto
e já não tropeçamos nas personagens
que nos serviam de espelho
agora
temos sempre tudo
exactamente
porque nunca esperamos
mais do que nada.

Ademar
27.12.2009

dezembro 26, 2009

Improviso para Liu Xiaobo...

LiuXiaobo1.jpg

Talvez a literatura não ensine
a tolerar o intolerável
mas na dúvida
haverá sempre uma cela
uma farda
à medida de qualquer pulmão
que respire.

Ademar
26.12.2009

dezembro 25, 2009

Improviso sob a influência de um filme...

Esse rio
que os teus olhos hesitam
tem apenas a largura
de um passo
mas estares de um lado
ou do outro
faz e fará sempre
toda a diferença
nenhuma mulher
tem asas no lugar dos pés
para caminhar eternamente
sobre a água.

Ademar
25.12.2009

dezembro 24, 2009

Improviso para dizer que continuarei a ler-te...

Hoje decidi
arrrumar-te na prateleira
das edições raras
incunábulos
almanaques antigos
tiragens numeradas
e coisas assim
nunca imaginei
que coubesses na estante
e que fosses tão fácil
de acomodar
sem um protesto
sem uma lamúria
sem um suspiro
devíamos ser todos assim
uns para os outros
edições raras
impartilháveis.

Ademar
24.12.2009


dezembro 23, 2009

Improviso para terminar ou iniciar uma tela...

Ainda hoje não sei
se o anel conjugal que deixaste
na casa de banho era teu
e se eras mesmo loira
de nascença
como gostavas de dizer altivamente
lembro-me apenas
da sequência final do último filme
que vimos
podia de facto ter sido o princípio
de uma grande amizade
Rua Mendes dos Remédios
Santa Clara
Coimbra
1975.

Ademar
23.12.2009


dezembro 22, 2009

Improviso para ficar em casa...

Mais rua
menos rua
que o teu corpo
não seja um bairro estreito
que todos percorram
numa noite de lua cheia
e ainda sobrem muitas horas
para deambular a madrugada
pobre de ti
se não tivesses
como Veneza
canais subterrâneos
pontes que nenhum mapa assinalasse
a eternidade morreria depressa
nas mãos de todos os viajantes.

Ademar
22.12.2009

dezembro 21, 2009

Improviso em forma de calendário...

É tão perigoso circular
entre as palavras
numa noite assim
ainda que me desses a mão
e todos os bares abrissem as portas
à evidência do teu olhar
é tão perigoso circular
entre as palavras
numa noite assim
quando todos os verbos
parecem inconjugáveis
e até os pés tropeçam no vento
ou numa fúria ainda mais íntima
o inverno deve ser isto
o último cansaço de nascer.

Ademar
21.12.2009

dezembro 20, 2009

Improviso para cena breve, muito breve...

Perguntas
o que me podes dar
respondo-te assim
tenho tudo
menos tempo para esperar.

Ademar
20.12.2009

dezembro 19, 2009

Improviso mediterrânico...

Falha-me aqui
a disciplina das palavras
sim eu sei
é proibido fumar
e as escadas convidam
a uma lentidão tropical
o mar mais antigo acaba
nesse refúgio em forma de casa
ou poesia
exactamente onde começa
a rota das especiarias
o caminho para Damasco.

Ademar
19.12.2009

dezembro 18, 2009

Improviso para lembrar Gedeão...

Não me digas em patuá
que nunca me esperaste
além da Taprobana ou das Molucas
fala-me em tâmil
ou numa língua que de todo
eu não entenda
e na mais antiga rota das especiarias
usa-me ainda inteiro ou fracção
pimenta noz-moscarda
canela cravo-da-índia
anis estrelado gengibre
mostarda açafrão
cozinhemo-nos à mesa da aventura
e que o excesso de história
jamais nos naufrague
ao largo de Macau
este bar de todas as noites
que só o futuro encerrou.

Ademar
18.12.2009

dezembro 17, 2009

Improviso sobre uma canção perfeita...

Tantos destinos
que nunca couberam no índice
dos mapas das nossas vidas
páginas soltas
partituras em branco
mãos trémulas e ausentes
estavas lá
e eu não sabia
era o tempo de não acreditar
em milagres
nem que as vozes chorassem
estavas lá
e nem tu própria sabias
cantavas apenas
para sorrir nas palavras
e ninguém te ouvia
senão
o universo todo.

Ademar
17.12.2009

dezembro 16, 2009

Improviso para parar, escutar e olhar...

Hoje viajei para trás no tempo
num comboio dos antigos
até à infância do que fomos
inconscientemente feliz
nem pontilhões nem apeadeiros
nem travessas sob os carris
nem locomotivas a carvão
nem aprendizes de caldeireiros
apenas cães envelhecidos
e gestores que nunca picaram
o destino à condição.

Ademar
16.12.2009

dezembro 15, 2009

Improviso mínimo...

Deixa-me existir offline
não me peças uma vida
para pendurar
todos os dias
à janela.

Ademar
15.12.2009

dezembro 14, 2009

Improviso para distrair o termómetro...

Talvez o fogo das palavras
nos aqueça ainda nesta noite de gelo
lá fora
não feches a porta
para podermos arder assim dentro
entre as cinzas
de todos os véus que queimarmos.

Ademar
14.12.2009

dezembro 13, 2009

Improviso quase monogâmico...

Não há como a novidade
para nos cansarmos dela
o corpo precisa
de uma cama certa
e de braços
que não estejam sempre
a mudar de mãos.

Ademar
13.12.2009

dezembro 12, 2009

Improviso para relevar a inutilidade...

poe1212aaa.jpg

Continue reading "Improviso para relevar a inutilidade..." »

dezembro 11, 2009

Improviso pouco misericordioso...

Não chames pela mãe
quando o chulo estiver à porta dela
vai até à igreja mais próxima
ajoelha e reza
o pai que sempre desejaste conhecer
ouvir-te-á.

Ademar
11.12.2009


dezembro 09, 2009

Improviso para futurar...

Nasci hoje outra vez
e já não caibo no berço
apenas sei gritar ainda
para que todos me ouçam
quando as luzes se apagam
e já nem a lua me aconchega
no altar da eternidade
nenhum espelho
conta as viagens que ainda farei
nenhuma memória
hoje dou-me lírios apenas
e rosas também
apenas para que saibas
que já não caibo no berço
onde me adormeces.

Ademar
09.12.2009

dezembro 08, 2009

Improviso policial...

Quis cometer um crime perfeito
mas tu não deixaste
protegeste-te com uma partitura
e aparaste o golpe
muitas palavras depois
invocaste a inteligência
que nunca desarma
e ousaste a nudez
de um ego fortalecido
sim
eu não chegara a feri-lo
acariciara-o apenas.

Ademar
08.12.2009

dezembro 07, 2009

Improviso para desautorizar todos os estudos de género...

Poderás comer do fruto
de todas as árvores do jardim
disse o Senhor
mas ai que comas da árvore
da ciência do bem e do mal
porque
no dia em que comeres
morrerás
era o sétimo dia da criação
e
depois de produzido o macho
à sua imagem e semelhança
o Senhor contemplou extasiado a sua obra
faltava apenas um retoque
uma nota quase de rodapé
e da costela do macho adormecido
para que eternamente o servisse
o Senhor fez a fêmea
em estado já de embriaguez
garantem as escrituras.

Ademar
07.12.2009

dezembro 06, 2009

Improviso quase arquitectónico...

Tenho um lugar no pensamento
onde só recebo quem eu procuro
um lugar a que ninguém mais acede
senão exactamente quem eu procuro
não tem portas nem janelas
nem reconhece os dialectos do tempo
ou da circunstância
um lugar de espelhos
onde primeiro os olhares se encontram
antes de toda a descoberta
segue pelo corredor deste poema
lá me encontrarás à tua espera.

Ademar
06.12.2009

dezembro 05, 2009

Improviso sem misericórdia dentro...

Poupa-nos a banalidades
se não consegues ir além
do que leste ou ouviste
não escrevas
que o teu maior talento seja apenas
a consciência do lugar-comum.

Ademar
05.12.2009

dezembro 04, 2009

Improviso na forma de crónica parlamentar...

Não me faça perguntas
a que eu não queira ou não possa
responder
e se fizer
não espere que eu responda
disse o primeiro-ministro ao deputado
que apenas lhe fazia uma pergunta
há deputados que fingem não perceber à primeira
nem à segunda nem à terceira
que há perguntas a que um primeiro-ministro
não quer ou não pode responder
tem a palavra
para uma interpelação à mesa
o povo.

Ademar
04.12.2009

dezembro 03, 2009

Improviso para dizer que voltarei amanhã...

Hoje não saí de casa
não passei pelo bar
de todas as noites
onde nos costumamos encontrar
brindei simplesmente à tua ausência
tropeçando na memória
de um olhar que parece sempre chamar-me
quis escrever com todas as letras o teu nome
e não fui capaz
hei-de tirar as impressões digitais
da mesa a que te sentas
quando esperas por mim
e eu passo ao largo do desejo
sem te ver.

Ademar
03.12.2009

dezembro 02, 2009

Improviso para tecer a ausência...

Entres pela porta
ou por alguma janela
haverá sempre um lugar
para ti
a esta mesa
um prato
ou um livro
ou uma folha de papel
em branco
para que nela possas escrever
tudo o que nunca te disseste
e ninguém ouviu
e saias pela porta
ou por alguma janela
regressarás sempre a ti
no fio que te tece.

Ademar
02.12.2009

dezembro 01, 2009

Improviso para desrealizar...

A realidade não é
excessivamente importante
e de resto adormece também
como a humanidade
no berço da fadiga
de todas as noites
a realidade que tem
todos os pensamentos dentro
e porém
nenhum mais verdadeiro
do que o berço em que adormece.

Ademar
01.12.2009

novembro 30, 2009

Improviso para taxar a morte...

Há quem não caiba sequer
na cova
em Portugal
de vez em quando
até os coveiros falham
a exacta equação da morte
poderia ser apenas uma metáfora
mas não é
nem todas as medidas de cadáver
entre nós
respeitam a norma
digo
as directivas comunitárias
sobra sempre um pé
ou
o sonho que não chegou
a despertar.

Ademar
30.11.2009


novembro 28, 2009

Improviso escrito num guardanapo de papel...

Já houve um tempo
em que eu te quis
e tu não me quiseste
já houve um tempo
em que tu me quiseste
e eu não te quis
quisemo-nos
e desquisemo-nos
à vez
antes um passado assim
que o futuro todo.

Ademar
28.11.2009


novembro 27, 2009

Improviso para adormecer carochinhas...

Quando eu nasci
não havia ainda televisão em Portugal
nem Sócrates
quando eu nasci
não havia ainda computadores em Portugal
nem Sócrates
quando eu nasci
não havia ainda em Portugal telemóveis
nem Sócrates
hoje
cinquenta e muitos anos depois
há televisão computadores e telemóveis em Portugal
e Sócrates
não há como a tecnologia para perceber
como evoluímos.

Ademar
27.11.2009

novembro 26, 2009

Improviso para descoroar...

Hoje
ao folhear os jornais
tive a intuição
muito pouco poética
de que acabarás numa cela
e não no conselho de administração
da Caixa Geral de Depósitos
como sempre ambicionaste
há destinos assim
aparentemente insondáveis
que só os astros reportam.

Ademar
26.11.2009

novembro 25, 2009

Improviso para dizer adeus a Granada...

Não importa donde tenhas vindo
do outro lado do mar ou do centro da terra
nem para onde sigas
com a noite assim a tiracolo
o universo hoje tem a forma
desta mesa que talvez já tenha sido
canoa ou jangada
e nas margens desta mesa
como nas margens de um rio suspenso
só os nossos olhos iluminarão
a lenta antiguidade que nos trouxe aqui.

Ademar
25.11.2009


novembro 23, 2009

Improviso para começar a reescrever o Génesis...

Hoje arrematei o universo
mas sem nada lá dentro
paguei a crédito
e ofereci deus como fiador
não importa qual
expediente milenar
criacionista
agora poderei dispor do universo
como quiser
infinitamente
digo
dar-lhe finalmente uma utilidade.

Ademar
23.11.2009


novembro 22, 2009

Improviso para telenovelizar...

Frases banais
podes dizer-me
frases banais
hoje não me apetece
literatura
nem filosofia
sim
somos o que acreditamos ser
e mais do que isto
esta noite
já seria poesia.

Ademar
22.11.2009

novembro 21, 2009

Improviso em forma de agenda...

Ao canto da sala um aquário
com todos os espelhos dentro
e macacos em vez de peixes
amanhã Ademar
não poderás esquecer-te
de mudar a água do aquário
antes que turve
e de caminho já agora
aproveita para dar banho
aos macacos.

Ademar
21.11.2009

novembro 20, 2009

Improviso em forma de crença...

Se me disseres que é a primeira vez
eu acredito
também acreditarei
se me disseres
que nunca fizeste outra coisa
acreditar
é um exercício da vontade
e a minha vontade
não vacila
digas o que disseres
acreditarei.

Ademar
20.11.2009

novembro 19, 2009

Improviso para dizer o cosmos...

Não cobres à perfeição
a eternidade
pedras
árvores
rios
mares
todos os lugares
já foram outros
e só te conforte a certeza
do cansaço natural
essa ilha que já foi
um iceberg
e antes uma nuvem
ou ainda menos
sim
o talvez inscrito no fogo
de todas as metamorfoses.

Ademar
19.11.2009

novembro 18, 2009

Improviso ortopédico...

A gravidade
inclina-nos ao centro da terra
e nenhuma viagem
depois do futuro
tem regresso.

Ademar
18.11.2009

novembro 17, 2009

Improviso heliocêntrico...

Chovem almofadas
sobre o silêncio em que te adormeço
nunca chegas a horas
de abrir as janelas da noite
antes do filme
e nunca despertas
a tempo de contar as luzes
que despedem a madrugada
há vidas assim
que nunca acertam o relógio
do destino.

Ademar
17.11.2009

novembro 16, 2009

Improviso felino...

As vozes que na ausência
afinam ainda a harmonia
na luz sempre breve
que a tela recolhe
a intimidade tem tantas janelas
que nem o vento a distrai.

Ademar
16.11.2009

novembro 15, 2009

Improviso fisiológico...

Um joelho sem legendas
pode inspirar o universo
mas abaixo da cintura
todos os argumentos
falam a língua de Babel.

Ademar
15.11.2009

novembro 14, 2009

Improviso para suster o vómito...

Ouço
o que imagino
vejo
o que ouço
um pântano
do tamanho do país.

Ademar
14.11.2009

novembro 11, 2009

Improviso sintético...

Quando te faltar o chão
dorme sobre a mesa
quando te faltar a mesa
já só o silêncio te servirá.

Ademar
11.11.2009


novembro 10, 2009

Improviso para desdizer da democracia...

A poesia
quando não se arrasta
nas tábuas da autocomiseração
é a versão
cenográfica e coreográfica
do silêncio
as palavras pedem
ao palco interior
a exuberância
dos sentidos extensos
a dimensão da festa
a incontinência do sagrado
e do profano
claro que há também
a poesia dos lambedores da alma
esses
que nunca vão além
dos preliminares.

Ademar
10.11.2009

novembro 08, 2009

Improviso para desprogramar a leitura...

Todas as conversas interiores
deixam rasto
nas palavras
e no corpo
entre o desejo e a memória
o mais é literatura.

Ademar
08.11.2009

novembro 07, 2009

Improviso higiénico...

Não é muito inteligente
carregar a vida toda
numa mala
e viajar com ela
entre embarques e desembarques
quem não se depura
nunca chegará a sair do cais.

Ademar
07.11.2009

novembro 06, 2009

Improviso matrimonial...

Chegaram atrasados à rotina
estavam nus e cansados
era sexta-feira
e o código civil impunha
o dever conjugal
adormeceram mais depressa
do que reproduziram
cada um para seu lado
que a humanidade fica sempre
no meio.

Ademar
06.11.2009

novembro 05, 2009

Improviso para dizer adeus ao Luís, da Fani...

Estiveste sempre presente
e porém só te conheci
de esse conhecimento de nos olharmos nos olhos
quando já começavas
sempre em silêncio
a bordar a morte
não sei para que filha
o Luís fez
o Luís disse
o Luís ficou de me vir buscar
o Luís o Luís o Luís
o Luís eras tu e eu não sabia
agora até te posso dizer
que houve mesmo um tempo
em que cheguei a pensar
que não existias
ou seria apenas ciúmes das mãos
que a Fani dizia sempre perfeitas
contaram-me hoje ao ouvido
que morreras esta manhã
e eu acreditei
e contaram-me mais
que pediras que te cremassem
porque simplesmente não querias
depois de morto
ocupar demasiado espaço
num universo tão estreito
e eu acreditei também
sim Luís
todas as pessoas morrem
exactamente
da mesma forma como viveram
ouve
foi um imenso prazer
desconhecer-te.

Ademar
05.11.2009

novembro 04, 2009

Improviso para dizer adeus ao Miguel Monteiro...

mig0411d.jpg

Continue reading "Improviso para dizer adeus ao Miguel Monteiro..." »

novembro 03, 2009

Improviso para dizer por que prefiro o sarcasmo à choradeira...

O provincianismo mental
pede sempre esmola
à esquina do beco dos mal-amados
entre a avenida do ciúme
e a rua da inveja
quem muito chora
sobre a indiferença da luz
cega depressa no seu próprio destino.

Ademar
03.11.2009

novembro 02, 2009

Improviso para explicar o novo testamento às criancinhas...

Quero que Ele me ame
digo meame mame
não importa em que língua
com que língua
ou género
será uma sagração
uma com sagração
Ele amar-me-á
e eu amá-Lo-ei
e serei Nele ainda mais
maiúsculo
mais músculo
mais másculo
ai como Ele me excita
e me incita
ao pecado contranatura.

Ademar
02.11.2009

novembro 01, 2009

Improviso para confundir a matilha...

Sim dir-me-ei sempre inocente
até que proveis a minha culpa
e mesmo que me condeneis
continuarei a dizer-me inocente
não há culpa mais cobarde
do que a negação da própria inocência.

Ademar
01.11.2009


outubro 31, 2009

Improviso para dizer simplesmente boa noite...

O recolhimento tem horas
e silêncios
e ponderações
e depois da meia-noite
já não entra ninguém
na casa das musas
nem para lamber
os pés da Cinderela.

Ademar
31.10.2009

outubro 30, 2009

Improviso para distinguir evidências...

Os ilusionários
caminham sempre à frente das ilusões
as ilusões
fazem o caminho dos ilusionistas.

Ademar
30.10.2009

outubro 29, 2009

Improviso romântico...

Hoje imaginei-te numa versão
promo
tudo devia ser assim
disponível para experimentar
antes de comprar e usar
há ideias que eu nunca teria usado
se tivesse experimentado
e livros muitos livros
que nunca teria lido
só os masoquistas da literatura
compram por exemplo
um romance de José Rodrigues dos Santos
depois de lerem o prólogo
todas as mulheres deviam ter uma versão
promo
e todos os homens naturalmente
no mercado das seduções
o problema da humanidade
está sempre no recheio
hoje abri um abacaxi perfeito
que estava podre por dentro
quase tão podre como tu
como eu.

Ademar
29.10.2009

outubro 28, 2009

Improviso para golear a canalha do futebol...

Uma mulher ou um travesti
nem sempre é o que parece
mas um vintém é sempre um vintém
e três vinténs
os lendários três vinténs
muito mais
pelo menos enquanto o são
sim
o futebol é um palco de trolhas
e de professores que nunca chegarão
a titulares
mas um cretino é um cretino
um idiota um idiota
um laurentino um laurentino
um madaíl um madaíl
há coisas que nunca mudam
nem quando muda o governo
evidentemente
são valores absolutos.

Ademar
28.10.2009

outubro 27, 2009

Improviso sobre um texto de Rubem Alves...

Viver é muito perigoso quando
teologicamente
se vive sobre o princípio de um ovo
o impossível sobrevive-nos
a fotografia foi inventada
para impedir que o tempo passe
e até Roland Barthes percebeu
que a única coisa que há nas fotografias
foi a morte
digo
o corpo o gesto a expressão
para sempre irrepetíveis
só a preguiça dos gatos nos conduz
ao mundo mágico de dentro
todos os cães que ladram
ladram para fora
à meditação e à filosofia
ela perguntava a todos os pretendentes
o que fazes de noite?
só encontrou finalmente quem procurava
quando reformulou a pergunta
o que fazes de dia?
o sol dura sempre muito mais
do que a lua
a recepcionista quer saber o que faço
digo-lhe que sou psicanalista
fica assustada e confessa
já fiz terapia estou resolvida
e quando se deu o óbito? contrapus
as únicas pessoas resolvidas que eu conheço
estão todas no cemitério
ou nas escolas
li em Bachelard
descobrir um ninho regressa-nos à infância
hoje trago comigo essa alegria
de os pássaros terem feito um ninho
no meu jardim.

Ademar
27.10.2009

outubro 26, 2009

Improviso no passado...

A geometria dos acasos
é tão variável
como a geometria dos destinos
o tempo não reconhece
nenhuma.

Ademar
26.10.2009


outubro 25, 2009

Improviso para mudar de rua ou de cidade...

Muitas esperanças andam trocadas
neste bar que a indiferença encerrou
e até o pianista adormece as mãos
sobre as teclas
como se repousasse nelas
a noite
tem as portas e as janelas trancadas por dentro
e até o rio que imaginas lá fora
parece ainda mais distante
quando a surdez de todos os gestos prolonga
o íntimo silêncio das vozes
que nele submergem
não
não revivas nenhuma esperança
neste bar que a indiferença encerrou.

Ademar
25.10.2009

outubro 24, 2009

Improviso (mais um) para epígrafe...

Recolhe numa mala
a parte do pensamento que te ajoelha
e despacha-a para muito longe
para onde saibas que jamais viajarás
essa é a parte de ti que não te pertence
mas ao rebanho que te oprime.

Ademar
24.10.2009

outubro 23, 2009

Improviso para abandalhar a sagrada literatura...

Antes de cristo
todos os homens tinham duas
ou mais mulheres
porque deus distribuíra
desigualmente
o desejo sexual
entre machos e fêmeas
e à tribo cumpria suprir
as falhas da natureza
reportadas ao criador
foi só porque cristo
viciosamente
renunciou à tradição
que os apóstolos o seguiram
sempre por trás.

Ademar
23.10.2009


outubro 22, 2009

Improviso para dizer a noite ou, talvez, as galinhas...

Não há mordaça
que amordace
o silêncio do desejo
os gritos adormeceram
na infância
agora
ressonam apenas
por vezes poeticamente.

Ademar
22.10.2009

outubro 21, 2009

Improviso para perder o último comboio...

Sul ou norte
onde tu quiseres
a vida tem uma rota circular
volta sempre ao princípio
como a rosa dos ventos
nascente ou poente
descerás na estação
de todos os cais
e não voltarás a subir.

Ademar
21.10.2009

outubro 20, 2009

Improviso brechtiano...

Que ninguém diga
da derrota e da vitória
que estavam escritas
a fortaleza dos fortes é sempre
uma condescendência
dos fracos.

Ademar
20.10.2009

outubro 19, 2009

Improviso para roque...

Fazes-me todos os dias
a mesma pergunta
e todos os dias eu te respondo
da mesma maneira
o xadrez que jogamos
tem apenas duas peças
e nenhuma vencerá
por ausência de todas as outras.

Ademar
19.10.2009

outubro 18, 2009

Improviso hermenêutico...

Sim
minto todos os dias
só para poder
mudar de verdades
como quem muda
de roupa interior
morre-se sempre nas certezas
do dia seguinte.

Ademar
18.10.2009

outubro 16, 2009

Improviso sobre uma inspiração de Brecht...

Hoje decidi submeter-me
a uma cirurgia plástica
para corrigir a memória
o excesso de memória
comprime-me a consciência
preciso de emagrecer
para voltar a dormir
todos os dias
recordo o louvor do esquecimento
de Bertolt Brecht
"a fraqueza da memória dá
fortaleza aos homens".

Ademar
16.10.2009

outubro 15, 2009

Improviso para lembrar Alberto Caeiro...

Não há flores
que tenham mais natureza
do que a natureza que me ofereço
quando viajo no interior delas
o olhar floresce
na ambição do pensamento
e nenhum jardim nenhum canteiro
tem mais realidade
do que a evidência do universo alheio
a que pertenço.

Ademar
15.10.2009


outubro 14, 2009

Improviso simplificado...

Abro a janela apenas
para que me possas ver
não importa que me vejas
efectivamente
basta que me saibas ou pressintas
na linha do horizonte interior
dos teus olhos
é no pensamento que nos vemos
sempre
e no desejo que nos prolonga
a morte não tem janelas
nem o esquecimento.

Ademar
14.10.2009

outubro 13, 2009

Improviso para ensinar o padre nosso ao vigário...

Talvez não acredites mas
antes da televisão
já havia quem quisesse
governar os pategos
o que não se sabia
é que fossem tantos
e tão pategos ou mais
como os demais
observa a democracia local
e perceberás
como os pategos elegem
e se fazem eleger
e terás aprendido quase tudo.

Ademar
13.10.2009

outubro 12, 2009

Improviso (mais um) para epígrafe...

Não sejas
nem te pretendas
o princípio e o fim de ninguém
olha que há muitas esquinas e encruzilhadas
em todos os caminhos da vida.

Ademar
12.10.2009

outubro 11, 2009

Improviso para maiores de 900 anos, mais coisa, menos coisa...

O povo tem sempre razão
eroticamente falando
vota
em quem melhor o fode.

Ademar
11.10.2009

outubro 10, 2009

Improviso para ajudar à reflexão...

Vota com os dentes caninos
jamais com os molares
quem quer ser lobo
veste-lhe a pele
e a dentição
e não te dobres em quatro
para caber na urna
na hora do escrutínio
só os votos inteiros contarão.

Ademar
10.10.2009

outubro 09, 2009

Improviso para terapia eleitoral...

Dizes-me que os cães não votam
e se votassem
votariam noutros cães
repara
sempre foi assim
cão vota cão
se dás o teu voto
a quem te mija nos pés
votas em quatro patas
se dás o teu voto
a quem te põe a trela e a coleira
votas em quatro patas
se dás o teu voto
a quem te rouba o osso e a carne
votas em quatro patas
sim
cão vota cão
e quem não quer ser cão
não abre a porta ao canil
votas em corruptos?
corrupto és
votas em ladrões?
ladrão foste ou serás
o voto é um cartão de identidade
cada cão vê-se ao espelho
da sua própria caninidade.

Ademar
09.10.2009

outubro 08, 2009

Improviso para memória futura...

Uma valsa na grafonola antiga
imprestável
uma música de caixa
ou
uma caixa de música
um tango adiado por muitas vidas
um contrabaixo um violoncelo
um violino uma violeta
um jogo íntimo de cordas e de mãos e de arcos
o palco no deserto de todas as noites
e um silêncio depois quase arqueológico
que mais parece um alheamento.

Ademar
08.10.2009

outubro 07, 2009

Improviso com múltiplo endereço...

Nada enfurece mais
os filhos da puta
do que a indiferença
desesperadamente
eles reclamam a atenção
que a infância lhes negou
quando as mães procuravam nas ruas
o frágil e amargurado sustento
os filhos da puta
são capazes de tudo
para vingar o destino
até negarem as mães
a politica de resto
não costuma servir para outra coisa
nem a caixa de comentários
dos blogues.

Ademar
07.10.2009

outubro 06, 2009

Improviso para hino das autárquicas...

Vota na Rita
que é mais catita
vota no Pedroso
que é mais cremoso
sejas homem ou mulher
vota num filho da puta qualquer
cumpre o teu dever de cidadão
vota no Encarnação
se não tens ponta de tino
vota no Isaltino
e nunca digas
desta água não beberei
que pode estar a ouvir o palerma do rei
vota em inconsciência
de preferência sobranceira
que já não há paciência
para votar de outra maneira.

Ademar
06.10.2009

outubro 05, 2009

Improviso para epígrafe...

epi0510.jpg

Continue reading "Improviso para epígrafe..." »

outubro 04, 2009

Improviso recorrente...

Ele há tantos milhões de olhos
que vivem à janela
com o universo tão longe
das mãos e dos pés
essa janela sempre aberta
sobre o mesmo destino dos anjos
que nunca deixarão de o ser
ele há tantos milhões de olhos
que se cruzam todos os dias no lugar do silêncio
e nada dizem
nem das palavras a cegueira.

Ademar
04.10.2009

outubro 03, 2009

Improviso para litoralizar..

Esperas em vão que as ondas
te tragam palavras de muito longe
com o vento
mas nem os barcos arriscam o cais
quando o pensamento te retém no alto-mar
esperas em vão.

Ademar
03.10.2009

outubro 02, 2009

Improviso para desconsolar...

Já deste para todos os peditórios
e agora és tu que pedes esmola
a esmola simplesmente da decência
este país deixou de ser para crédulos
e já não há princípio de salubridade
que nos preserve da contaminação geral
sim a nossa história
devia ser contada ao contrário.

Ademar
02.10.2009

outubro 01, 2009

Improviso para saudar, na intimidade, Mário Cesariny...

Um sacrário pode ser isto
as caixas
em que se conservam as tuas cinzas eternas
cartas poemas e outros escritos
tudo à espera ainda de quem te desvende
e interrogue
e esta foi a tua caligrafia
e todos estes objectos que animaram
a casa onde morreste
e estes eram os livros
que impacientemente anotavas
nos intervalos de pintares a vida
a intimidade dos artistas
nenhuma sonata nos amarra assim
à enxuta autoridade de uma memória.

Ademar
01.10.2009

setembro 30, 2009

Improviso para natureza quase morta...

Nunca cabes inteira na tela
sobra sempre um braço uma mão
uma perna um pé
o horizonte do olhar
a esperança dividida
o pensamento rebelde
a vida voa sempre pela janela
quando as paredes te estreitam.

Ademar
30.09.2009

setembro 29, 2009

Improviso para desguionar...

Nunca tires os sapatos
entre dois passos de dança
olha que a orquestra
poderá desafinar.

Ademar
29.09.2009


O poema que partilharia hoje com os meus alunos...

ale2909.jpg

Manuel Alegre, Livro do Português Errante

setembro 28, 2009

Improviso em forma de escrutínio...

A mesa comprida
a mesa farta
há quem se sente à mesa
e quem se sinta
preterido
os cães ladram ou rosnam
entre patrióticas lambidelas
tu chegas à porta e perguntas
se ainda cabem mais chupistas
a mesa comprida
a mesa farta
a democracia
fecha a porta por fora Cecília
eles que saltem pela varanda
depois do festim.

Ademar
28.09.2009

setembro 23, 2009

Improviso para responder a uma observação desumana...

Queixas-te do fel
terás razão
mas anota
há poucas coisas que ainda me consolem
neste país suspenso do televisor
que parece apenas habitado por idiotas
e filhos da puta
eu sei que à distância de Paris
não vês a coleira e a trela
e os cães são relativos
mas podes estar certa
nunca o canil foi uma metáfora tão exacta
do país
como agora
todos ladram e todos se lambem
eu sempre te disse
que os cães não se queriam castrados.

Ademar
23.09.2009

setembro 22, 2009

Improviso para cinismo e gaita de beiços...

Ele dá graças a Deus por ter chegado
a primeiro
ministro
de facto
só num pais assim
abaixo de cão
é que ele poderia ter chegado a primeiro
ministro
antes Lhe agradecesse
a namorada
putativa
e a caninidade da pátria.

Ademar
22.09.2009

setembro 21, 2009

Improviso (mais um) pedagódico...

Inscreve-te no PS miúdo
inscreve-te no PS ou no PSD
não precisas de saber conjugar os verbos
poderás até licenciar-te ao domingo
por correspondência
se queres garantir o futuro
inscreve-te no PS ou no PSD
cola cartazes
insulta anonimamente os bloguistas do reviralho
entra nas coreografias de campanha
e faz-te pau de todas as bandeiras
ladra à oposição
sê um cão atrevido
inscreve-te no PS miúdo
inscreve-te no PS ou no PSD
e se fores miúda
experimenta o poder da horizontalidade
escolhe apenas bem o patrono
ou a patrona
em dez anos garanto-te
estarás na assembleia
a caminho do governo
ou de um conselho de administração.

Ademar
21.09.2009

setembro 20, 2009

Improviso sugerido pelos meus filhos adolescentes...

Na casa dele
na casa dela
no acampamento no Gerês
na escola
no carro
em Espanha
nas férias da Páscoa
educação sexual
não há sumário
em que caiba
nem programa
usa este preservativo
rapaz
obriga-o a usar este preservativo
rapariga
e fazei o vosso próprio caminho
como todos os que vos antecederam.

Ademar
20.09.2009

setembro 18, 2009

Improviso para adiar ainda a poesia...

A aridez das palavras
no nevoeiro interior
a obediência do caos
a incerteza da noite
que naufraga no medo
o pântano
e as mãos que o secam
o pensamento.

Ademar
18.09.2009

setembro 16, 2009

Improviso escolar...

Tudo pode falhar nos contentores
desde que não falhe o dossiê
das planificações
e dos critérios de avaliação
pergunta a directora de turma
e a gripe as instruções
arquivo-as antes ou depois
das planificações?
e tosse e espirra
para cima do secretário que
numa acta falhada
perdão
num acto falhado
desinfecta a caneta
e o tédio.

Ademar
16.09.2009

setembro 15, 2009

Improviso para parabenizar...

Quandos os amigos chegarem
beberei um uisque
e direi o seu nome
esta noite muito longe daqui
alguém me celebrará
na memória da Boa Esperança
e o meu sangue
saberá a malte
não sei a quantos graus
de quantos anos
a poesia
esse copo distraído sempre
entre tantas saudades.

15.09.2009

setembro 14, 2009

Improviso pedagógico...

Ela sabia que Clair de Lune
era uma composição de Debussy
e já fora a Veneza
donde trouxera uma pequena máscara
que moldou logo ali com as mãos
num gesto quase iniciático
e sorriu a Galuppi
e à consequente evocação de San Marco
e a Pier Paolo Pasolini
de tantas estórias que ela sabia malditas
dezassete anos apenas
e tanta cultura nos olhos e nas mãos
e tanta fome de saber mais
não retive o teu nome miúda
mas conseguiste reconciliar-me
em dois tempos lectivos
com o triunfo da humanidade.

Ademar
14.09.2009

setembro 12, 2009

Improviso com endereço humanitário...

Já perdi há muito a vontade
poderia dizer o tesão
de governar o país
talvez porque admita
como disse alguém
que o país detesta ser governado
e eu (confesso) não gosto
de ser maltratado
nem de maltratar
quem pudesse ainda confiar em mim
eis o que me conduz a perguntar
porque nem todos são assim
ou sentem assim
perguntar por exemplo
por que uma quase septuagenária
tem ainda a ambição de governar o país
ele há tantas maneiras de fechar uma vida
e eu não sei de nenhuma mais deprimente
nenhuma mais infeliz.

Ademar
12.09.2009

setembro 11, 2009

Improviso sobre a infinitude...

Hoje procedi à reprogramação
do meu software
reiniciarei em três mil e dezoito
e estaremos novamente
todos vivos
poderemos então falar
da eternidade
e de todos os deuses que nos mentiram
e amar também o espelho
de cada um
como se nele coubesse
infinitamente
toda a humanidade.

Ademar
11.09.2009

setembro 09, 2009

Improviso para dizer ainda da minha admiração por Espanha...

Amanhã fui à zarzuela
como quem vive devagar
ou para trás
e fumei e bebi numa espécie de Barafonda
algures entre a Roma de Fellini
e a Arena de Verona
só os espanhóis seriam mesmo capazes
de abandalhar assim
com tanta graça
o teatro lírico.

Ademar
09.09.2009

setembro 08, 2009

Improviso sobre a certeza da dúvida...

Um dia saberemos
que pouco
muito pouco terá valido a pena
tarde muito tarde
para trocarmos de cais de partida
ou de chegada.

Ademar
08.09.2009

setembro 07, 2009

Improviso ainda ao jeito de Alexandre O'Neill...

As formas perfeitas
têm um problema intrinsecador
aliás
como qualquer neologismo
duram tão pouco
e são tão fugazes
que só mesmo o tesão dos rapazes
as perdura.

Ademar
07.09.2009

setembro 06, 2009

Improviso para fixar o movimento...

São tantas as palavras
que passeiam as noites
que nenhum mapa faz silêncio
sobre as margens desavindas
e sobre as ruas que as estrelas
abandonaram
a ponte agora está deserta
e os olhos que viajam nela
parecem ter os pés cansados.

Ademar
06.09.2009

setembro 05, 2009

Improviso com endereço...


Não exiba uma expressão tão grave e delicada
engenheiro
não fixe assim o olhar no cenário
como se as lágrimas há tanto tempo retardadas
lhe pudessem garantir ainda o perdão eleitoral
dos idiotas
não force a máscara
que a máscara pode derreter
ou o nariz em vez dela
um animal feroz castrado
é ainda mais patético
do que um animal feroz
hormonalmente perfeito
evite por isso esses trejeitos
de virgem ofendida
num país de tantas putas
que nunca o foram
seja plástico até ao fim
respeite ao menos a sua própria natureza.

Ademar
05.09.2009

setembro 04, 2009

Improviso sobre a memória...

Não arriscou o dialecto
quando entrou no bar
levou apenas a mão à boca
simulando
o movimento de um isqueiro breve
sobre os lábios
e ateou um grande plano
no olhar
foi quanto bastou
para que o universo
lhe indicasse o destino nocturno
à direita do balcão
as palavras
todas as palavras
deviam ser usadas assim
na irrefragável sabedoria do silêncio.

Ademar
04.09.2009

setembro 03, 2009

Improviso sobre a clarividência...

A mentira cabe nas palavras
mas não cabe no olhar
se todos os dominadores fossem cegos
digo-vos
seriam eternos.

Ademar
03.09.2009

setembro 02, 2009

Improviso para descoreografar...


As noites que se despem devagar
nos antípodas do pensamento
que envelhece
o avião que parte e que chega
sem levantar voo
o desejo que já não adormece
e as imagens repetidas
as memórias repetidas
as frases repetidas
a incerteza de todas as viagens adiadas
o preto contra o cenário da luz
as mãos que ainda prometem alucinações
o piano
a voz
e um corpo que dança à distância
de todos os olhares
como se aguardasse renascer.

Ademar
02.09.2009

setembro 01, 2009

Improviso talvez sobre Piazzolla...

Há quem diga
tangamente
não de tanga
mas de tango
e na noite
como se nela coubessem
todos os clones
todos os disfarces
há quem diga
tangamente
e não dance
há quem diga
tangamente
e soluce apenas
ou tropece nas mãos.

Ademar
01.09.2009

agosto 31, 2009

Improviso fracturante...

De vez em quando
há homens por dentro das mulheres
e mulheres por dentro dos homens
a poesia reinventa
as regras da natureza
e há homens que sofrem
por dentro das mulheres
e mulheres que sofrem
por dentro dos homens
como se nada os distinguisse
o sofrimento é uma linguagem avençada
do prazer
e há quem espere eternidades
na eternidade da espera
e quem ame devagar
porque o coração bate sempre
mais depressa do que a saudade.

Ademar
31.08.2009

agosto 30, 2009

Improviso quase erótico...

Hoje posso escrever para ti
que não existes
exactamente para ti
como se jamais tivesse escrito
para uma mulher
sei que não me lerás
porque não existes
senão num pensamento muito breve
em que comesses chocolates
e eu te desse no fim
os dedos a lamber.

Ademar
30.08.2009

agosto 29, 2009

Improviso para iludir o cansaço...

Algures seria perfeito
se eu estivesse lá
o meu pensamento tem sempre
paraísos dentro
em que não caibo.

Ademar
29.08.2009

agosto 28, 2009

Improviso sobre um filme ou sobre a vida...

Como que suspendia a existência
para o ouvir ler
ou ser lida
o corpo das mulheres
tem o desejo das palavras
e ela submissa esperava-o
todas as tardes
inclinando-se à nudez
assim o recompensava
da dedicação da voz
e de todas as noites adiadas
que a serviam.

Ademar
28.08.2009

agosto 27, 2009

Improviso para explicar a um jovem que há profissões duras...

Dizes que queres ganhar a vida
honestamente
a vender poemas de amor
e pedes-me que te ensine a escrever
poemas de amor
sim
há quem ganhe a vida
a vender poemas de amor
mas não honestamente
todos os poemas de amor
já foram escritos
para poderes ganhar a vida
a vender poemas de amor
terás de os roubar
ou contrafazer
seja como for
talvez o crime compense
na verdade
se olhares e ouvires bem à tua volta
talvez possas concluir
que raros são os crimes de palavras
que não compensam.

Ademar
27.08.2009

agosto 26, 2009

Improviso para frustrar a humanidade...

A felicidade
anda sempre em viagem
e não tem casa
nem ancoradouro
e quem a espera
seguramente desesperará
a felicidade
anda sempre em viagem
por não caber
em nenhum destino sabido.

Ademar
26.08.2009

agosto 25, 2009

Improviso heurístico...

Sim Adélia
não queiras a faca
nem o queijo
mas apenas a fome
o verbo e a rima não enganam
só a fome
come.

Ademar
25.08.2009

agosto 24, 2009

Improviso para "trailer"...

Uma marca no chão
que tem o exacto tamanho dos teus pés
uma evidência
que perfila o pensamento
faltam apenas as legendas
para que o silêncio caiba na saudade
essa toalha esquecida
nas costas do olhar.

Ademar
24.08.2009

agosto 22, 2009

Improviso lido num coruchéu imaginário...

Pela porta das culpas
só passam os que regressam
a ambição só reconhece muralhas
quando as luzes apodrecem
o fim de todas as viagens
está inscrito na lápide da partida
ainda ninguém atrelou às pernas
o tempo que brinca sempre com a vida.

Ademar
22.08.2009

agosto 21, 2009

Improviso quase trovadoresco...

Pago a quem me cante
mesmo dentro do coração
e ainda agradeço
ou a quem me espante
numa voz que viaje apenas sofreguidão
na saudade já não adormeço
pago a quem me cante
sobre um violoncelo entristecido
e ainda agradeço
e a quem do esquecimento me levante
como sabendo que fosse do conhecido
que sempre adoeço.

Ademar
21.08.2009

agosto 20, 2009

Improviso para servir de rodapé a Eugénio de Andrade e Herberto Helder...

O corpo das mães rainhas
é mais íntimo ainda do que o pensamento
da própria maternidade
e mais secreto
e só na morte
as mães rainhas se desapossam dos filhos
confiando-os finalmente à integridade
de um destino sem ventre
tudo o mais
sobre as mães rainhas
já foi escrito.

Ademar
20.08.2009

agosto 19, 2009

Improviso para Lorca...

O universo
cabe todo num altar
ou numa essa
dá-me a mão da noite
e leva-me assim
até uma manhã que nos receba
ainda que apodreças madrugadas
e já não saibas ler bússolas
nas estrelas
dá-me a mão da noite
e leva-me assim
o universo
cabe todo num olhar
e nesse silêncio
que é agora a tua dádiva
dá-me a mão da noite
e leva-me assim
até uma manhã que nos receba.

Ademar
19.08.2009

agosto 18, 2009

Improviso para dizer o que poucos sabem...

Quando o lobo marinho folga
a vida apodrece nas lojas
e nas casas
o monopólio não tem a humanidade dentro
mas apenas bandidos
há um imenso e longínquo Portugal
que continua capturado pelos bandidos do mar
noutras eras
chegariam a reis
e fariam a história que costuma contar-se
nas escolas
às criancinhas.

Ademar
18.08.2009


agosto 17, 2009

Improviso muscular...

Com muita frequência
tenho tido ultimamente
cãimbras na alma
reparai
não escrevi
cãimbras no pensamento
cãimbras no pensamento
são próprias do pensamento
toda a gente tem
desde que começa a pensar
as cãimbras na alma
são outra coisa
não têm descrição científica
só literatura
e ainda que inesperadas
como as outras
são contracções tão assintomáticas
que nem parecem contracções
creio que é
o excesso de sensibilidade acumulada
que predispõe a alma ao sofrimento muscular
tenho a certeza de que Dali
Salvador Dali
sofreu a vida inteira de cãimbras na alma
e só por isso se eternizou
magra esmola
para tamanho desconforto.

Ademar
17.08.2009

agosto 16, 2009

Improviso asturiano...

No princípio de tudo
nem o verbo nem o território
mas o castelo
digo
o eu fortificado
o próprio inimigo que se acantona
entre as muralhas.

Ademar
16.08.2009


agosto 15, 2009

Improviso a contado...

Hoje
tinha apenas onze palavras
para escrever um poema
desperdicei-as assim.

Ademar
15.08.2009

agosto 14, 2009

Improviso escrito em Fuente Dé...

Ainda há noites com estrelas
e nos cabos do pensamento
teleféricos que parecem voar
em direcção às estrelas
ou para além delas
os historiadores garantem
que foram estas estrelas que conduziram
os reconquistadores asturianos
confesso que ainda não percebi
o que reconquistaram.

Ademar
14.08.2009


agosto 12, 2009

Improviso sobre uma imagem porventura mitológica...

mn1108a.jpg

Não estou certo
de que o ferrugem
transporte a imortalidade
talvez não
os poetas antigos diziam
que nenhuma musa suporta
a corrosão do tempo
no olhar que a treme
por vezes tenho vontade ou necessidade
de inventar
uma fábrica de musas
uma oficina pelo menos
uma espécie de produção artesanal
de musas
há direitos de que jamais abdicarei
por exemplo esse
o direito de cada homem
digo
o direito de cada ser humano
à sua própria mitologia.

Ademar
12.08.2009


agosto 11, 2009

Improviso sobre Cinecittà...

Dom Pepito?
pergunto
Tio Pepito
responde
e
descendo o olhar sobre a mesa
acrescenta
Tio Pepito
como o vinho
na calle Alonso Garrote
em Astorga
o bar de Tio Pepito
Roma não morreu
com Federico Fellini.

Ademar
11.08.2009

agosto 10, 2009

Improviso de Astorga para o universo...

Napoleão
o mais minúsculo e temerário dos bonapartes
dormiu aqui
garante o folheto promocional
e eu acredito
acredito apenas esta noite
porque estou a ver o quarto
onde ele terá dormido
e apetece-me acreditar
que ele dormiu nesta casa
em cuecas ou bragas
os quartos aqui não têm número
mas nomes
a mim por exemplo
calhou-me o quarto de
Manuel García Prieto
o mais ilustre dos antigos proprietários desta casa
o folheto garante
que o governo de Espanha
chegou em férias a reunir aqui
sob a presidência de Manuel García Prieto
não ponho as mãos no fogo
por nenhuma história que me vendem
mas hoje apetece-me acreditar em tudo
porque a água que corre da fonte que embala estas palavras
parece-me verdadeiramente melodiosa.

Ademar
10.08.2009

agosto 09, 2009

Improviso para contar Valladolid aos adolescentes...

Em Zorrilha
como aliás em Aranjuez
nada existe numa escala
que tenha a humanidade como padrão
digo
a humanidade comum
gente com duas pernas e dois pés
e todo o cansaço de uma vida
acumulado no olhar
e no pensamento
em Zorrilha
como aliás em Aranjuez
a história é o cenário de muitas grandezas sem futuro
a ostentação da Espanha imperial
o velho reino de Castela atrelado
à memória e à vaidade de todos os campeadores
Colombo
diz a legenda
morreu aqui
mas continua ainda à espera de que o sepultem.

Ademar
09.08.2009

agosto 08, 2009

Improviso escrito entre Zamora e Tordesilhas...

Hoje
em Tordesilhas
em nome do estado português
(o engenheiro que se lixe!)
firmei
(como dizem os espanhóis)
um novo tratado
com o rei de Castela
(não sei se de Espanha)
a partir de hoje
o Tratado de Zamora
passará a designar-se por
Tratado de Tordesilhas
e o Tratado de Tordesilhas
por Tratado de Zamora
nunca
em mais de quinhentos anos de história
se foi tão longe
na reescrita do destino dos povos peninsulares
posso garantir-vos que o rei chorava
depois da solenidade
eu
ria apenas.

Ademar
08.08.2009

agosto 07, 2009

Improviso para restaurar o Tratado dito de Zamora...

É improvável
que tenha vindo de barco
no século XII
ainda nenhum governo garantia
a navegabilidade do Douro
nem consigo imaginar tão pouco
como nessa época a cavalo
a mala diplomática vencia
montes e vales sempre tão desavindos
a verdade porém (dizem) é que
ele veio aqui
a Zamora
e acima da rua dos notários
como agora se chama
assinou com o primo um tratado
que nos fundou
ele dizia-me ontem que não foi bem assim
que nem atendia o telemóvel a Peculiar
mas não importa
a história dos povos faz-se de patranhas
desde que verosímeis.

Ademar
07.08.2009

agosto 05, 2009

Improviso para começar a contar a história de Portugal...

Portugal nasceu entre rios
de uma confusão de amantes
e nem Viriato
atirava pedras aos fiscais do ambiente
como constou depois
Teresa era para ser muito macho
e primogénito
mas esqueceu-se da pila
na barriga da mãe
que aliás tinha um nome impronunciável
quase tanto como a irmã primeira
que respondia por Urraca
e não é certo que Covadonga
tenha reunido tão poucos espadários
para o combate da civilização
como dez séculos mais tarde
contariam os cronistas de Cluny
quem inventou Portugal
de certeza que usava saias e falava francês
não me reporto a Henrique
mas a Geraldo
não posso asseverar que fossem primos borgonheses
mas tenho fortes razões para suspeitar
que partilharam Teresa na alcova
algures entre Braga e Astorga
digo-vos
a história das origens de Portugal
deve ser poupada por decoro às criancinhas.

Ademar
05.08.2009

agosto 04, 2009

Improviso infinitesimal...

Não planeeis o futuro
o futuro é masculino
odeia ser antecipado
sede prudentes
lembrai-vos sempre
de que o tempo
dos relógios de sol
não é o tempo da luz
mas o tempo das sombras.

Ademar
04.08.2009

agosto 03, 2009

Improviso quase minimalista...

A tela
reparai
acrescenta-lhes atributos
que só os espelhos reconhecem
mas fora da tela
coitados
têm a finitude inscrita
na pequenez do umbigo
que eles frequentemente
confundem com os testículos
o onanismo hoje
tem a forma de uma tela
do tamanho do universo
e é diante dela
democraticamente
que os povos riem e bocejam
confundindo tudo
o ouro e os bandidos
a banha da cobra e os vendedores.

Ademar
03.08.2009

agosto 02, 2009

Improviso para explicar por que os rios foram as primeiras auto-estradas...

Foi apenas
quando começaram a viajar
que os homens fixaram a noção de
tempo
antes não precisavam
porque a lua nascia todas as noites
no mesmo lugar da evidência
e nenhum chefe prometia mais
do que a incerteza de cada dia
a memória dos viajantes
é o fogo que os persegue
e nenhum regresso
o destino promete
a quem parte.

Ademar
02.08.2009

agosto 01, 2009

Improviso sobre a sobrevivência...

Há pais que se suicidam na prisão
e mães
que alugam todos os dias o corpo
pela dose
e há crianças
entre uma corda e milhares de seringas
que sobrevivem inteiras
só para salvarem a humanidade.

Ademar
01.08.2009

julho 31, 2009

Improviso para viola de arco e disjuntor...

Não fosse tarde muito tarde
para voltar a abrir as portas e as janelas
de todas as casas em que me perdi
e talvez regressasse a mim
com a luz original de quem
nunca tivesse partido.

Ademar
31.07.2009

julho 30, 2009

Improviso para explicar o Martinho da Arcada aos governantes de Lisboa...

arc3007a.jpg

Convida-me para a tua mesa
e que a bebida tarde
até que todos tenham saído
e na noite lá fora
(lotação esgotada)
não possa entrar mais ninguém
conta-me como conseguiste
cruzar no Martinho tantas vidas
na única em que coubeste
conta-me ao ouvido
e a partir de hoje
essa confidência será
o nosso único segredo.

Ademar
30.09.2009

julho 29, 2009

Improviso marítimo...

Esperas na praia
que o mar deposite ainda caravelas
no regaço do teu olhar
já não tens mãos para elas
nem pensamento
e o tempo em que viajas
perdeu-se nas marés
de uma história esgotada
folheias no cais
a página pretérita
do esquecimento.

Ademar
29.07.2009

julho 28, 2009

Improviso ditirâmbico...

Dir-me-ás
do acne e das borbulhas
e dos dentes protésicos
e da barriga que cresce
dir-me-ás
do espelho que cegou
com os olhos castrados
e talvez da celulite
e das mamas suspensas
sobre a gravidade
dir-me-ás
do silicone que já não cabe
em parte alguma do cérebro
e de todas as ideias
que continuarão a desafinar no silêncio
dir-me-ás dos males da adolescência
e das demais idades imperfeitas
e do tempo
que só a eternidade corrigiria
e dir-me-ás porém da beleza
que te pertence
essa beleza
a que nenhuma fotografia
fará jus.

Ademar
28.07.2009


julho 27, 2009

Improviso para descer as persianas...

Gente que pendura o destino
numa fechadura
e entre a tela e o olhar
distrai a vida
em nenhum lugar
hoje
apetece-me simplesmente dizer-vos
boa noite
humanidade espreitadora.

Ademar
27.07.2009

julho 26, 2009

Improviso para dizer uma parte dos outros...

Não têm vida
como nós
não têm manhãs nem tardes nem noites
como nós
não têm um país
como nós
uma cidade um bairro um quarteirão uma rua
uma casa que todos possam visitar
lealmente
como nós
não têm vícios e rotinas comuns
como nós
não têm espelhos desavindos
como nós
não têm sequer sentimentos e melancolias de lusco-fusco
como nós
não têm silêncios
como nós
nem incertezas
nem paixões que virem as horas do avesso
como nós
não têm forças nem fraquezas
como nós
não têm portas e janelas
que abram para fora e para dentro
como nós
não têm ambiguidades
como nós
não têm opiniões
como nós
não têm solidões
como nós
não gritam
não amam
não suam
nem fodem
como nós
não acreditam e desacreditam
como nós
não dizem sequer
filhos da puta!
como nós
não autorizam obscenidades ao pensamento
como nós
não bocejam
como nós
não praguejam
como nós
não hesitam
como nós
têm a natureza do plástico
e a dimensão das telas
em que correm
e nunca serão mais do que isso.

Ademar
26.07.2009



julho 25, 2009

Improviso para dizer que, no fundo, tenho pena de ti...

Sim eu sei
convenceram-te de méritos que não tinhas
e
no concurso das efémeras circunstâncias
até chegaste a acreditar
que poderias construir sobre o destino
uma espécie de predestinação
ainda não tinhas percebido
que tudo em ti era falso
e que acabarias assim
desiludido de todos
tropeçando na imensa ilusão
da tua própria mentira
sim tu sabias
que nada tinhas para oferecer
senão a patética ferocidade de um animal
que o amor dos homens desprezara.

Ademar
25.07.2009

julho 24, 2009

Improviso para dizer uma vez mais adeus a Coimbra...

Dizia-me há dias
que lhe pesava uma dor
nas costas
no ombro
no braço
sequelas de uma queda quase romântica
a colher laranjas
não era bem uma dor
corrigia
seria mais uma indisposição
uma incomodidade muscular
nada
brincou
que impusesse
um internamento hospitalar
hoje
ao princípio da tarde
ligaram-me
o Nuno morreu
a indisposição afinal
era um prenúncio de caso julgado
o último
como na balada do Zeca
o Nuno
não voltará mais a cantar.

Ademar
24.07.2009


julho 23, 2009

Improviso para pedra tumular...

mos2307.jpg

Continue reading "Improviso para pedra tumular..." »

julho 22, 2009

Improviso sobre a inconfessabilidade...

No palco das palavras
no quarto delas
nenhuma máscara serve ao pudor
nenhum silêncio
e não dirás a ninguém
o que te disse
nem a ti própria
no palco das palavras
no quarto delas
o sangue
prepara o esquecimento
da vida seguinte
a memória
de todas
a mais íntima.

Ademar
22.07.2009

julho 21, 2009

Improviso para dizer ainda o país...

O solista virtuoso
tropeçou no mapa da cidade
e perdeu-se na noite
como costumam escrever
os mangas de alpaca
o palco é sempre estreito
para quem não cabe
no espelho da sua própria natureza
o solista virtuoso
finge seguir o rumo que os cães lhe ditam
os cães
e todos os filhos da puta.

Ademar
21.07.2009

julho 20, 2009

Improviso quase perfeito...

Perco-me a pensar
como numa floresta
não tropeço labirintos
nas noites opacas
nem os silêncios que hesitam
a eternidade
perco-me tão só nas clareiras inesperadas
onde a luz parece ainda brotar
do chão
antes de amanhecer.

Ademar
20.07.2009

julho 19, 2009

Improviso para significar, apenas, o possível...

A felicidade
esperar-te-á sempre depois
da próxima esquina
e da esquina seguinte
e de todas as outras
não te poderei ensinar
mais do que isto
nunca encontrarás a felicidade
enquanto a procurares.

Ademar
19.07.2009

julho 18, 2009

Improviso sobre Albeniz...

Este
o silêncio das palavras
e a sua matéria
a porta aberta
sobre o universo
e a noite quase sorrateira
que por ela entrasse
a divagar
este ainda
o mistério da poesia e da música
essa incerteza artesanal
de aragens
que nenhum cais reconhece.

Ademar
18.07.2009

julho 17, 2009

Improviso retardado...

E voava os dias
subindo e descendo aviões
aprendeu o desconhecimento
das altitudes.

Ademar
17.07.2009

julho 16, 2009

Improviso promocional...

Oferta obviamente limitada
a poesia tem as suas próprias lotações
como a vida
e nela não cabem nunca
pleonasticamente falando
todos os que já se perderam da prosa
ainda que hoje
importa recordá-lo
abundem os casos
de travestismo literário
repito
oferta limitada
preços adequados à estação
e à crise
hotel a dez mil metros de profundidade
quartos com ligação à internet
e ao centro da Terra
neste pacote
não pagável a crédito
a lua pode esperar.

Ademar
16.07.2009

julho 15, 2009

Improviso em forma de apostila...

Subtraí a arte à humanidade
e nada restará
do pesadelo de sempre
senão
a rotina exausta de todos os dias.

Ademar
15.07.2009

julho 14, 2009

Improviso escrito entre a Esplanada das Mesquitas e o Muro das Lamentações...

Hoje não há ausência
que me abandone
ainda tenho crédito de saudades
e em Jerusalém
nenhum deus me convida a entrar
no bar mais próximo
de serviço à salvação
sento-me no chão a queimar
sobre um livro sagrado
e finjo beber
distraidamente
à conformidade de todos os altares.

Ademar
14.07.2009

julho 13, 2009

Improviso para execrar imitações...

Existencialmente
a minha roupa não serve a ninguém
e ainda que servisse
a quem serviria?
só o rebanho partilha
o espelho de todos
a liberdade não tem medida
nem equivalente.

Ademar
13.07.2009

QUINTOANNN09AA.jpg

julho 12, 2009

Improviso oracular...

Envelheces no medo
não no peito que ofereces às balas
envelheces na mudez da raiva
não no grito com que arranhas
o universo
só te submerge o abismo
quando te deixas atrair por ele.

Ademar
12.07.2009

julho 11, 2009

Improviso transitivo...

Pedes-me
que contrarie o infinito dizes
a vulnerabilidade
que o infinito acrescenta
aos dias que pesam
o ser e o nada
a consciência de não escolher
destino algum
ou a inconsciência disso mesmo
e a cerimónia íntima
absolutamente íntima
de apenas deixarmos correr o tempo
sobre todos os altares
sem nos celebrarmos.

Ademar
11.07.2009

julho 10, 2009

Improviso incomestível...

Palavras que não morrem
e raramente adoecem
sobrevivesse eu apenas
nessa parte do corpo que as palavras animam
e só elas me acrescentassem
intemporalidade
digo
autenticidade
o mais que fosse fogo e cinza
esquecimento
silêncio ainda
entre palavras.

Ademar
10.07.2009

julho 09, 2009

Improviso nostálgico...

Noites houvera
em que só as palavras mais simples
me apetecessem
numa balada sefardita talvez
desses tempos em que
tudo rimava com tudo
e a morte ainda não existia
noites
em que adormecesse tranquilamente
na antiguidade dos sentimentos.

Ademar
09.07.2009

julho 07, 2009

Improviso cinematográfico...

Tenho uma avaria nos olhos
no lugar da tela
muito celulóide antigo interrompido
antes das cenas finais
projecto na memória
filmes que nunca vi
e reconto intimamente destinos
que tropeçam no argumento
mas o que mais me dói
repito
é a avaria nos olhos
adormecer sempre em Casablanca
antes de alcançar o aeroporto.

Ademar
07.07.2009

julho 06, 2009

Improviso sobre "Alabama Song"...

Sobre um mapa não imaginário
tracei duas setas
na mesma direcção
depois vi
o mapa ao contrário
e as setas reconduziram-me
ao cais de partida
a vida
parece que é isto sempre
a matéria do regresso.

Ademar
06.07.2009

julho 05, 2009

Improviso sem cota...

Os livros não têm destino
mas raros são
os que sobrevivem a si próprios
ao tempo em que se medem
com a sua efémera circunstância
entre a água e o fogo
nenhuma Alexandria tem garantida
a eternidade
não há lugar no mundo
onde possam caber ainda
todas as ilusões.

Ademar
05.07.2009

julho 03, 2009

Improviso para licitar a noite...

Dez dedos quase sem unhas
que persistem em sonhar o teclado perfeito
os pulmões cansados de tantas cidades dentro
que já mal respiram
um coração atrapalhado de arritmias
e dois olhos que vêem sempre mais
do que a humanidade merece
hoje
apetece-me adormecer na varanda
adivinhando simplesmente as nuvens
que embaraçam a lua.

Ademar
03.07.2009

julho 02, 2009

Improviso mediático...

E perde-se um cómico
num gesto azarado
um gatilho mal apertado
entre duas mãos que tropeçam
o whisky recomenda-se à noite
antes
é sempre cedo de mais.

Ademar
02.07.2009

julho 01, 2009

Improviso quase oracular...

Tira a vida da tela
e contenta-te simplesmente com
o que retires dela
e quando te quiseres ouvir
não abras as janelas
de par em par
só para que o mar te entre por elas
ilumina-te nos segredos
em que aconteças
recolhe-te entre as sombras
dos dias que ainda não adormeceram
olha que há menos verdade nos rumores
desse universo em que tropeças
do que nas marés do teu silêncio interior.

Ademar
01.07.2009

junho 30, 2009

Improviso sobre a memória de Pina Bausch...

A beleza tem sido sempre
uma empresa de poucos
os predadores de todas as máscaras e condições
governam o planeta
a norte e a sul
cultivando nos desertos o conformismo
ou direi a obediência
ninguém voava como ela
em círculos de fogo tão estreitos
sem tirar os pés do chão
ou sem que o corpo
pesasse tão pouco sobre os pés
ninguém despiu assim a infinitude
da mais física irreverência
em braços e mãos que pareciam apenas
enlaçar a lua.

Ademar
30.06.2009

pinabbbb09aa1111.jpg

junho 29, 2009

Improviso para alinhavar postumidades...

Tento emagrecer poeticamente
poupando nos adjectivos
já basta o que a nudez das palavras
não oculta
essa adiposidade substantiva e verbal
que não poupa o corpo de nenhuma literatura
sim emagreço nas metáforas
mas continuo a engordar na ambição
de me escrever pelas mãos
falharei por certo como esqueleto.

Ademar
29.06.2009

junho 28, 2009

Improviso para se escreverem tratados de filosofia sobre ele...

As mãos não escrevem apenas
folheiam também os lábios
que despertam depois da sesta
quando te aumento
vejo-te menos
a nitidez das formas reclama
o empobrecimento do olhar
nenhuma voz fala mais alto
do que no silêncio.

Ademar
28.06.2009

junho 27, 2009

Improviso para distrair a eternidade...

O aleatório
o aleatório torna-me parte do mistério
do universo ou do tempo
sei que sou uma equação
a milhares ou milhões de incógnitas
mas todos os dias me deixo surpreender ainda
com a fútil irreverência das manhãs
não há fórmula paleativa
que adormeça esta fome esta falha quase
de evidências elementares.

Ademar
27.06.2009

junho 26, 2009

Improviso em cinco linhas para servir de epitáfio...

Ninguém tem tanta verdade nos olhos
que não possa cegar
ninguém tem tanta mentira na pele
que não possa sufocar
e morrer.

Ademar
26.06.2009

junho 25, 2009

Improviso para distrair a agonia insular...

Por motivos profissionais
cresceu tarde
consta que estudou num seminário e
perdidas as ordens metafísicas
casou com um cavalo
é um rapaz meio estranho
não tem filhos
dois gatos apenas
o cavalo até dizem que é bonito
e tem nome de rainha
mas do pescoço para cima
nunca se ri
as origens humildes
convidam sempre à perversão
do olhar
talvez um dia se prove que afinal
era o cavalo que montava o cavaleiro.

Ademar
25.06.2009

junho 24, 2009

Improviso tão breve como a noite...

Com poucas palavras
muito poucas palavras
se escreve um poema eterno
ou ainda mais efémero do que a própria vida
as palavras não têm a medida do tempo
nem dentro delas um sonho
que seja perfeito.

Ademar
24.06.2009

junho 23, 2009

Improviso sobre um vídeo de Nora Louise Kuzma...

Nora Louise Kuzma
tem hoje 41 anos
uma idade quase perfeita na mulher
entre os 15 e os 18
entrou em mais de cem filmes pornográficos
mais tarde disse
que a drogavam
lastro de cocaína
muitos dos que foderam com ela
morreram
Nora Louise Kuzma
sobreviveu
e hoje já não grita
como quando era anjo
e servia a todas as línguas que a serviam
finge apenas de actriz
em filmes de série B
e mexe muito os lábios da boca
como se cantasse
definitivamente
deus é a mais estúpida
invenção dos homens.

Ademar
23.06.2009

junho 22, 2009

Improviso para significar que também li Herberto Helder...

Nunca pagarei suficientemente a felicidade
daqueles instantes em que nada parecia acontecer fora de nós
eram poucas horas
muito poucas
mas só o alarme anunciava
a urgência da realidade que esperava
e então a felicidade passava a memória
entre parêntesis
e alguém recolhia-a
na borda da estrada como lixo
nunca pagarei suficientemente
esse silêncio
e a música toda que vibrava
por dentro desse silêncio
antes da separação inevitável de cada tarde
não sei se algum dia
fui mais feliz
como quando não sabia ainda dessa possibilidade.

Ademar
22.06.2009

junho 21, 2009

Improviso quase comestível...

As páginas da vida
tremem ao mais ínfimo sopro de vento
agora arrefece um pouco lá fora
e a noite parece repousar enfim
na digestão do esquecimento
mas ei-la nas praças e nas ruas
essa espécie de embriaguez solsticial
quando elas levantam ainda mais as saias
para que os olhos machos
não adormeçam nos joelhos
arrisquem o sacrário das coxas
na trémula aproximação a humidades intemporais
é assim há muitos milhares de anos
e ainda não se descobriu
entre medos pudores e desejos vertiginosos
lábios que abram mais discretamente
à lenta depuração das línguas.

Ademar
21.06.2009

junho 20, 2009

Improviso para simplificar destinos...

Estamos todos na fila
à espera apenas de que se cumpra
o mais certo e irreparável
de todos os destinos
escusais de tirar a senha
sereis atendidos antes ou depois
de todos os outros
mas já não reconhecereis
no acto de serdes chamados
o número ou a voz da chamada
inclinar-vos-eis apenas
para um repouso
de que jamais despertareis
seria tudo tão simples assim
se todos os dias nos lembrâssemos
de que estamos na fila simplesmente
para ser atendidos.

Ademar
20.06.2009

junho 19, 2009

Improviso sobre a memória...

Tão pouco peito
para tanto olhar
e se agora quisesse rimar
diria apenas que o universo é estreito
quando me convidas simplesmente
a rasurar.

Ademar
19.06.2009

O poema que partilharia hoje com os meus alunos...

albcae09aaa1.jpg
Alberto Caeiro, Poesia

junho 18, 2009

Improviso para Cronos...

Um dia perguntei ao universo
quanto tempo leva um poema a escrever?
repeti a pergunta por muitos anos
por muitas vidas
e ninguém respondeu
há perguntas porém que só não têm resposta
porque nunca foram feitas
um dia disseram-me
escreve um
e mede em ti o tempo das palavras
não percebi
depois alguém comentou
tu és o poema
e o tempo que te conferes
continuei a não perceber
sei agora que um poema
escreve-se em meia hora
metade do tempo é poesia
a outra metade
o silêncio que a prepara.

Ademar
18.06.2009

junho 17, 2009

Improviso derivado da falta de paciência para aturar certos filhos da puta...

Lava os joelhos todos os dias
para te poderes manter de pé
a dignidade reclama pelo menos
a observância desse princípio de higiene
neste país dos três efes
começado por P
(não importa de quê)
quem não ajoelha
rasteja.

Ademar
17.06.2009

junho 16, 2009

Improviso para um Amigo...

Chega-se por uma linha
a não sei aonde
talvez a uma fotografia antiga
familiar
uma casa abandonada
altares que ruíram
sob o fardo da memória
ou da idade
sobram porém os cheiros
e as luzes originais
e as crianças que ainda brincam
nos lugares onde somos.

Ademar
16.06.2009

junho 15, 2009

Improviso para projectar numa tela...

Por vezes fico suspenso
do eco interior de uma palavra
o substantivo
tarde
o adjectivo
tardio
ou o verbo
entardecer
por exemplo
uma palavra
uma única palavra
pode resumir
um filme inteiro
digo
todo o pensamento
que nela caiba
digo
todo o pensamento
que caiba nele.

Ademar
15.06.2009

O poema que partilharia hoje com os meus alunos...

catav09aaa222.jpg

catav09aa11aaa.jpg
catav09aaa333.jpg

Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin

junho 14, 2009

Improviso para dançar ainda "Hard Is My Fate"...

A dança prometida para um dia
ou talvez para toda a vida
esta ou qualquer outra
uma dança sem verbete
em dicionários de música
mas não menos performativa
apenas dois braços e duas mãos
e todos os olhos que desçam devagar
do pensamento.

Ademar
14.06.2009

junho 13, 2009

Improviso para vigília...

E depois as noites
que não coincidem
no tempo de madrugarem
e depois o gesto que sobra
mais amplo do que a cama estreita
e depois o filme que pára
na exacta evidência do eterno retorno
e depois a água e o cigarro
e a temperatura que incendeia os corpos
adormecidos
uma ressonância poética talvez
dirias antes
um ressono.

Ademar
13.06.2009

junho 11, 2009

Improviso quase maneirista...

Sobre esse silêncio
voam flores e
outras vezes espadas
lá onde tudo cresce
também o nada se contempla
a vida tem
tantas estórias dentro
tropeçando narrativas
notas soltas apenas
projectos de partitura.

Ademar
11.06.2009

junho 10, 2009

Improviso em forma de tesão social...

Usa-se o broche na alma
digo
a comenda pátria
o piercing honorífico
um pouco abaixo do umbigo
exactamente
no lugar onde as coxas desaguam
masculinidades
são raros
muito raros
os que dizem não
a tão mediática felação.

Ademar
10.06.2009


junho 05, 2009

Improviso quase democrático...

Não tenho prateleiras
para mais promessas
e chovem na noite
convicções estreladas
de tectos que já foram azuis
toda a humanidade
sofre agora de disfunção eréctil
e já nem sei por que voto
talvez apenas pela ilusão
de ainda caber na urna.

Ademar
05.06.2009

junho 04, 2009

Improviso para tatuar o corpo nas palavras...

Quando não escrevo
na primeira pessoa
do singular
minto
ou distraio-me
tenho a verdade
a minha verdade
grudada ao eu
essa outra pele
e só em mim escrevo
tatuando-me sempre.

Ademar
04.06.2009

O poema que partilharia hoje com os meus alunos...

eugennnn09aa11111.jpg

Eugénio de Andrade, Os Amantes sem Dinheiro

junho 03, 2009

Improviso para destoar de mim...

Hoje
tentei reler
Psicopatologia da Vida Quotidiana
de Sigmund Freud
falhei a estante ou a prateleira
acto falhado portanto
e dei comigo a folhear novamente
A Psicologia de Massas do Fascismo
de Wilhelm Reich
há quem envelheça
a interrogar um a um
os olhares da juventude
ao invés
eu penso e sinto que nunca fui tão lúcido
como quando os servi.

Ademar
03.06.2009

junho 02, 2009

Improviso quase publicitário...

Maartje enviou-me hoje um e-mail
não sei quem é Maartje
nem onde vive ou o que faz
para ganhar ou perder a vida
mas reconforta-me saber que Maartje
tem o meu endereço electrónico
e pensa em mim como cliente
em potência
como diria Paulo de Tarso
todos os machos adoram ser imaginados
em potência
Maartje porém queria apenas significar-me
que o skype é prático como o caraças
por isso tem
15 milhões de users
em quase 200 países
não a Maartje mas o skype
deduzo então que Maartje usa o skype
para se servir do universo
e espera que eu me converta também à
community
palpita-me que o skype promete
aventuras metafísicas.

Ademar
02.06.2009

junho 01, 2009

Improviso para Brel e não apenas...

O mapa
começa e acaba sempre nas mãos
da memória
de Toledo a Granada
duas horas apenas
um cigarro e um sorriso
e a morte que deixou de ser
quando cantas
esses olhos que parecem ainda acariciar
o futuro ao contrário
como se jamais
ninguém tivesse sorrido ao amor
com tamanha elegância.

Ademar
01.06.2009

maio 31, 2009

Improviso quase biodegradável...

Fecha os olhos
não digas nada
não penses em nada
não tentes sequer
um gesto
um movimento
concede-te por esta vez
a respiração do universo
e ouve apenas o silêncio interior
das estrelas no teu corpo
a noite
como sempre a imaginaste.

Ademar
31.05.2009

maio 30, 2009

Improviso para Hortência...

Exercito assim a memória
primeiro
soletro o teu nome
segundo
conto as sardas no teu rosto
terceiro
interrogo cores e líquidos
e depois o tempo
corrijo
no lugar de
depois
leia-se
quarto.

Ademar
30.05.2009

maio 29, 2009

Improviso para confessar, publicamente, uma fragilidade...

O universo
por vezes estreita-me
entre vozes que tropeçam
o tempo da fala
deixo de me ouvir
para abraçar o vento
morrerei talvez
deste excesso de atenção
ao universo.

Ademar
29.05.2009

maio 28, 2009

Improviso para dizer o princípio dos corpos...

A nudez
que não está nunca na chegada
mas na partida.

Ademar
28.05.2009

maio 27, 2009

Improviso escrito no canil da misericórdia, enquanto esperava que me alugassem o futuro por algumas horas...

Hoje
experimentei no futuro
a trela mais antiga
que guardava no baú dos brinquedos
digo-vos
o futuro deve estar muito doente
emagreceu de tal maneira
que já nem a trela da infância
se lhe ajusta
receio ter hoje confirmado
definitivamente
que já não tenho trela
para o futuro.

Ademar
27.05.2009

Improviso em memória de António Aleixo...

Hoje cruzei-me
com um pensamento pouco cristão
no pequeno ecrã
não há vigarista que se pareça
com o que é
e todavia
para figurante
não sobra quase ninguém.

Ademar
26.05.2009

maio 25, 2009

Improviso para correr apenas uma cortina...

O universo
tem menos olhos
do que palavras
e há noites
em que dois olhos apenas
viajam o universo todo.

Ademar
25.05.2009

maio 24, 2009

Improviso para assistir a morte...

eutannn09aa1111.jpg

maio 23, 2009

Improviso para mapa interior...

Atravessaste muitas vezes
eu sei
a ponte da felicidade
e nunca ousaste margens
que o olhar
e as pernas
não alcançassem
e porque era sempre breve
a viagem
e certa
raramente os teus passos
arriscaram outros caminhos
a ponte da felicidade
foi o teu próprio percurso.

Ademar
23.05.2009

maio 22, 2009

Improviso por conta da agenda...

Teço as palavras
como se a vida
me pedisse todas as noites
uma toalha nova
sobre a mesa
a que me sento
com as estrelas
tomei de empréstimo
à memória das mãos
este tear
e só tropeço nas cedilhas
quando danço contigo.

Ademar
22.05.2009

maio 21, 2009

Improviso para devolver à procedência......

Eu sei que vós
passais bem sem mim
eu
pelo menos
passo bem sem mim
isto que acabei de escrever
não foi eu
sim
não foi eu que escrevi
mas o Luís
e sei lá se o Luís
não foi apenas o último
a escrevê-lo
o grande problema da poesia
é precisamente esse
o da sedimentação
vamo-nos sedimentando todos
uns aos outros
uns nos outros
como se as palavras pairassem apenas
sobre a erosão
e nunca envelhecêssemos.

Ademar
21.05.2009

maio 20, 2009

Improviso para atrair ao conhecimento da Antiguidade as criancinhas...

Na antiga Roma
muito antes de Berlusconi
e Ratzinger
e até dos Bórgia
as órgias eram muito divertidas
digo
as orgias
as meninas despiam-se devagar
enquanto eles
comiam e vomitavam
comiam e vomitavam
comiam e vomitavam
comiam e vomitavam
no fim
depois de vomitarem a mesa
eles passavam à sobremesa
e comiam as meninas
nunca se soube até hoje
se vomitavam depois
também.

Ademar
20.05.2009

maio 19, 2009

Improviso para guardar numa gaveta próxima dos lábios...

Em preto
sim
pode ser
menos o sangue
e o arco-íris
quer-se da cor do silêncio
a mordaça
e o que restar do corpo
para despir
ou guardar.

Ademar
19.05.2009

maio 18, 2009

Improviso para gritar ao ouvido de todos os castradores...


Sexo antes do casamento
não
sexo antes do acasalamento
não
sexo antes do emparceiramento
não
sexo antes do conhecimento
não
sexo antes do enamoramento
não
sexo antes do engravidamento
não
sexo antes do entendimento
não
sexo antes do chamamento
não
sexo antes do juramento
não
sexo antes do refinamento
não
sexo antes do atrevimento
não
sexo antes do adolescimento
não
sexo antes do rejuvenescimento
não
sexo antes do amadurecimento
não
sexo antes do envelhecimento
não
sexo antes do testamento
não
sexo antes do falecimento
não
sexo antes
não
e nunca durante
ou depois.

Ademar
18.05.2009

maio 17, 2009

Improviso para glossário talvez amoroso...

A obscenidade
é também uma dádiva da criação
a moral veio depois
digo
a moral pública
nesse palco onde todos os tangos se dançam
em privado
a obscenidade não é apenas uma dádiva
mas um dom
o nome com que te penso.

Ademar
17.05.2009

maio 16, 2009

Improviso tendencialmente epistemológico...

As palavras e as metáforas
não têm dono
como os cães domésticos
poeticamente
creio mesmo que tudo já foi escrito
de uma maneira ou de outra
isto
que estou agora a escrever
muito provavelmente
já muitos antes de mim
o escreveram
ainda que noutras línguas
apenas tenho a sorte
digo a inconsciência
de o ignorar
se soubesse
não tiraria sequer a viola do saco
comeria cerejas.

Ademar
16.05.2009

maio 15, 2009

Improviso quase semiótico...

Já desaprendi de ler
as costas dos textos
pela frente confesso
apetecem-me mais
digo
há mais metáforas nos olhos
do que no rabo.

Ademar
15.05.2009

maio 14, 2009

Improviso para Franciscar...

Já não sei contar estórias
nem histórias
mas o Francisco pergunta
por que escrevo estória
em vez de história
e história
em vez de estória
e eu conto
o amor não se vende
nem se aluga
oferece-se apenas
não tem mercado.

Ademar
14.05.2009

maio 13, 2009

Improviso para inverter papéis...

Hoje
não te distraias diante do balcão
nem adormeças devagar
passa para trás
e serve-te
todos quererão beber-te
a noite que te ofereças.

Ademar
13.05.2009

maio 12, 2009

Improviso na segunda pessoa do singular...

É ainda possível ser feliz
por dentro das palavras
digo
antes dos lábios ou das mãos
é ainda possível ser feliz
a pensar-te simplesmente.

Ademar
12.05.2009

maio 11, 2009

Improviso para swing e calhau grande...

Digo-vos
1492
é um ano do caraças
caiu Granada nas mãos de Fernando
e caiu Isabel
nos braços de Cristóvão
garantem as escrituras
que foram todos felizes
nas cuevas de Sacromonte.

Ademar
11.05.2009

maio 10, 2009

Improviso antiquíssimo...

A água é o primeiro elemento
de todas as mitologias
há mais água do que terra
e nenhum fogo arde
na combustão da água
quando a terra acaba
depois do cais
donde todos partiram.

Ademar
10.05.2009

maio 09, 2009

Improviso ainda medieval...

No lugar da poesia
há quem amue
e maçãs que apodrecem
no chão
e quem semeie rosas
para primaverar
todo o ano.

Ademar
09.05.2009

maio 08, 2009

Improviso para reconfigurar o sistema simbólico...

Hoje
transferi-me com toda a memória
para um disco externo
a biografia pesava-me
agora nem sinto o chão
debaixo dos pés
e voltei a tropeçar
na linguagem
como quando
não me sabia
esta higiene das origens
reconforta.

Ademar
08.05.2009

maio 07, 2009

Improviso sobre a eterna idade dos poetas...

Um piano e uma voz
e todos os poetas renascem
por vezes
nem o piano é preciso
basta a voz
outras
nem a voz
a poesia que renasce sempre
de si própria
foi eterna.

Ademar
07.05.2009

maio 06, 2009

Improviso mental...

Há uma indiferença de rotas
nos mapas
que apontam ao destino
só o caminho tem dúvidas
e nem o vento as conduz.

Ademar
06.05.2009

maio 05, 2009

Improviso para recontar o mais antigo dos costumes prosaicos...

Os patetas
costumam levar-se muito a sério
se pudessem
em nome da pátria
ou de um deus qualquer
proibiriam o riso
e a ironia que despe
não foi sempre assim?

Ademar
05.05.2009

maio 03, 2009

Improviso num intervalo...

A eternidade tem
poucas horas dentro
vinte e quatro no máximo
e volta sempre ao princípio
como uma caixa de música
só as mãos que dão à manivela
acentuam o tempo que é.

Ademar
03.05.2009

maio 02, 2009

Improviso cartesiano...

O cepticismo
é uma higiene dos sentidos
a humanidade
quer-se todos os dias interrogada
para não encardir.

Ademar
02.05.2009

maio 01, 2009

Improviso sobre o big bang...

O universo começa sempre
num poema
e termina
num poema
os deuses
perguntam apenas
para que servem os intervalos
as mulheres também.

Ademar
01.05.2009

abril 30, 2009

Improviso sobre uma ária de Galuppi...

Os ouvidos
cozinham as palavras
mas é o pensamento
que as serve
à mesa da saudade
uma taça ainda vazia de ti
de todo o champanhe que bebeste
o brinde que tarda
no palco que a voz encena
e o destino da sobremesa
nas mãos líricas que cantam.

Ademar
30.04.2009

abril 29, 2009

Improviso silencioso...

Sobram sempre
teclas para os dedos
cordas
palavras
traições manuais dizes
suores talvez soletrados
numa gramática antiga
escreves lentamente
sobre ti própria
tropeçando por vezes na ortografia
não deixas rasto
apenas as mãos te viajam
duas mãos humedecidas no silêncio.

Ademar
29.04.2009

abril 28, 2009

Improviso para adiar Piazzolla...

Por vezes
a música ensurdece-me
mais do que o ruído
há momentos em que
para respirar
preciso ainda de me ouvir
o silêncio
tem um abismo dentro
e um coração
sempre apressado.

Ademar
28.04.2009

abril 27, 2009

Improviso quase teológico...

Nenhuma igreja
consente o espelho
todos os deuses
são filhos da puta
digo
não se reconhecem na mãe
nem no pai.

Ademar
27.04.2009

abril 26, 2009

Improviso sobre a intimidade da distância...

Há cães que cegam na noite
aos portões das casas que não dormem
mãos ainda suspensas de uma palavra
um gemido
nenhum silêncio
tem tanto corpo dentro
como nesse nocturno rumor.

Ademar
26.04.2009

abril 25, 2009

Improviso para dizer a tua origem...

Pouca carne sobre os ossos
mas toda a substância
nem o fogo do santo ofício
arderia nos teus olhos
a marca de tantas viagens
a diáspora nos teus pés
e as mãos que agarram
a história
que só agora começasse.

Ademar
25.04.2009

abril 24, 2009

Improviso do tamanho de um átomo...

Fonte interior a todas as fontes
um pensamento líquido
que a palavra apenas desperta
e as paredes cavernosas
que vertem a origem do universo
nos lábios submissos
todas as bocas aspiram
a nascentes improváveis
uma fonte assim
que a humanidade inteira desconhecesse
e uma sede
ainda mais exclusiva do que o desejo.

Ademar
24.04.2009

abril 23, 2009

Improviso breve no plateau...

A paixão cabe
quase toda numa tela
o mais
são legendas
quando a queremos ouvir
em silêncio.

Ademar
23.04.2009

abril 22, 2009

Improviso para brincar palavras...

Otorrinolaringologista
há poucas palavras que me dêem tanto prazer
a dizer
como esta
repito sempre com verdadeiro deleite
otorrinolaringologista
tem tanta poesia dentro
e quase ninguém a usa
as palavras
(devo ter sido puta noutra encarnação)
merecem sempre uma segunda oportunidade
os políticos
não.

Ademar
22.04.2009

abril 21, 2009

Improviso para desenfeitiçar paredes...

Há um pudor
que me impede de ler
a intimidade
mesmo nas paredes da casa
di Giulietta
em Verona
tudo ali é falso
de uma falsidade
ainda mais verdadeira
do que em Shakespeare
mas ainda hoje me pergunto
como os papéis se agarram à pedra
como se flutuassem nela.

Ademar
21.04.2009

abril 20, 2009

Improviso cinematográfico...

Aquela jukebox
parecia mesmo viciada em Elvis
e não era num filme de Fassbinder
nem de Wim Wenders
mas num bar estreito da ilha
espreguiçado sobre
a memória dos anos sessenta
The Sixties
devo esclarecer que
The Sixties
era o nome do bar
e Elvis servia às mesas
em “traje de luces”
a jukebox
soube-o depois
há mais de vinte anos
que encravara
a música que se ouvia no bar
provinha de um barco
ancorado no cais
que partia
wunderschön!
disseste.

Ademar
20.04.2009

abril 19, 2009

Improviso íntimo...

Cabe-me num dedo
já experimentei em dois
e também coube
há anéis
que só o olhar desvenda
antes do desejo.

Ademar
19.04.2009

abril 18, 2009

Improviso para tecer estrelas...

Noites suspensas da respiração
de um piano e uma voz ou duas
ou seria uma harpa
nas cordas indefinidas
de um sonho de amor
noites molhadas ou apenas húmidas
conforme o género das mãos
ou a natureza
um ensaio de penumbras
na cegueira
e a verdade da ausência
depois.

Ademar
18.04.2009

abril 17, 2009

Improviso para pensar se alguma coisa, verdadeiramente, mudou...

ajoelll09aaa111.jpg

Continue reading "Improviso para pensar se alguma coisa, verdadeiramente, mudou..." »

abril 16, 2009

Improviso sobre "Vaga luna", de Bellini...

Uma melodia
que se queira eterna
não precisa de muitas notas
nem de muitas palavras
a perfeição está na pele da linguagem
não no osso
que as mãos a toquem
que a voz a cante
num Teatro que nunca deixe de ser
Olímpico.

Ademar
16.04.2009

abril 15, 2009

Improviso ferroviário (para uma exposição)...

aveleda09aaaaa22222.jpg

Muitos comboios chegaram e partiram
no cais da minha vida
nem todos me trouxeram ou levaram
mas viajei em todos eles
como se fizessem parte de mim
já não sei o que é uma catenária
mas ainda serei capaz
pelo menos na memória
de me equilibrar sobre os carris
e adivinhar nos pés descalços
o rumor da aproximação das locomotivas
o meu rio da infância
corre entre paralelas de ferro
e desagua numa ponte
que já não existe.

Ademar
15.04.2009

abril 14, 2009

Improviso sobre uma tela triangular...

iiiiiiiiiiiiinnnnt09aaa111.jpg
Tecias a luz devagar
no tear da nudez
enquanto o pintor
tremia na paleta
os dedos húmidos
e a perfeição ousava
a forma de uma boca
as línguas acometidas
ao fogo de uma sabedoria original
que agora dizes inteligência
tantos arcaísmos
que só o timbre enobrece
duas vozes
a quatro mãos
e tantas cordas por tocar
tanta fome e tanta sede
nesse verbo que finalmente te atreveste
a conjugar.

Ademar
15.04.2009

abril 13, 2009

Improviso em forma de minuta de contrato...


Cláusula primeira
uma ária de Strauss
legendada na língua de Descartes

Cláusula segunda
o próprio Discurso do Método

Cláusula terceira
cortinados de cortiça que abrissem como a pele
para dentro do corpo

Cláusula quarta
um secador de caracóis

Cláusula quinta
uma cozinha italiana
e O Mercador de Veneza

Cláusula sexta
mel e laranjas todo o ano

Cláusula sétima
um serviço de taças para champanhe

Cláusula oitava
o teu sofrimento no espelho do quarto
ou na tela

Cláusula nona
Santiago de Compostela (algures)

Cláusula décima
bebermo-nos todos os dias na fonte
e dormirmos depois.

Ademar
13.04.2009

abril 12, 2009

Para ler e recitar todos os dias, até às eleições legislativas... (1)

oraetlabora09aa11111.jpg

gastaooo09aaa1111.jpg

Continue reading "Para ler e recitar todos os dias, até às eleições legislativas... (1)" »

abril 11, 2009

Improviso sobre uma confissão...

Sim a felicidade
pode caber inteira na tua boca
nem palavras a mais
nem palavras a menos
uma felicidade sucinta
mas compulsiva
e saber-te lá
nesse exacto lugar onde me esperas
baloiço em forma de berço
concha de lábios
e um verbo conjugado na vertigem
da primeira pessoa do singular
o teu modo imperativo.

Ademar
11.04.2009

abril 09, 2009

Improviso sobre uma canção napolitana...

Põe-me sobre a mesa
o coração
e serve-te devagar
tanto que todas as velas
se tenham apagado
no rumor das vozes
anoitecidas.

Ademar
09.04.2009

abril 04, 2009

Improviso no cais...

Um alento de fogo
e um pouco de vento
e o mar que ardesse devagar
chamas que não cabem
em nenhuma tela.

Ademar
04.04.2009

abril 03, 2009

Improviso entre memórias futuras...

As marcas dos pés
uma a uma
contei no teu rosto
as marcas dos pés
andavas ao contrário
descalça do desejo
e tinhas formigas no pensamento
em vez de telas
ou cortinas
as marcas dos pés
que não usavas nas palavras gastas.

Ademar
03.04.2009

abril 02, 2009

Improviso sobre a memória de um Teatro Olímpico...

tovic09aa2.jpg

tovinc09aa1.jpg

tovinc09aa33.jpg

Os meigadores do mundo
nunca foram tão felizes como aqui
em Vicenza
no Teatro dos Deuses
o plural explica a verdade do renascimento
a vertigem da escolha dos cenários
a liberdade de abrir a noite
no palco de mãos semeadoras
e o amor que se inventa
esse único que se nos impõe
sobre todos os destinos.

Ademar
02.04.2009

abril 01, 2009

Improviso para segundo andamento (adagio)...

Tantos eus sobrepostos
na superfície dessa tela
onde agora finalmente te reúnes
como num berço
e dormisses
um piano e um violino
duas vozes cruzadas
no exacto lugar onde a mulher
deixou de ser um género
e a infância que já não nasce
nem morre
na sofreguidão de uma partitura
ilegível.

Ademar
01.04.2009

março 31, 2009

Improviso sobre Carlos Gardel, para fintar a memória e a distância do desejo...

Quando fechavas os olhos
e a luz para ouvir Gardel
naquele quarto onde todos
tinham nascido
quantas mulheres
cabiam nos teus braços
sem os teus braços saberem?
aprendi o mistério do tango
no teu silêncio granítico
e nas mãos que eu fingia beijar
quando recolocavas a máscara
e me impunhas a bênção
havia tantos desejos anteriores
ao tempo em que nos perdiamos
nessas noites em que aspiravas apenas
ao perfume de uma rosa
sem a mãe suspeitar.

Ademar
31.03.2009

março 30, 2009

Improviso diante de um espelho cego...

Ainda não acabei de contar
as tatuagens
e já estás a dizer-me
que ainda nem nasceste
como desacreditarei
da bondade da tua pele?

Ademar
30.03.2009

Improviso para dizer dois lírios sobre a mesa...

Não sei mais do silêncio
do que tu me dizes
ou anuncias
barcos esculpidos na água
ventos
que as marés adormecem
são tantas as palavras
que tremem o cais
que nenhuma rosa cabe já
na poesia que me negas.

Ademar
29.03.2009

Improviso para genérico...

Nenhuma coincidência
com a metafísica
entre tantas cortinas
que desces e sobes
com as palavras
uma abundância de sangue
que nenhum dique contém
e as horas que tecem devagar
ou depressa
a agenda do cais
são tantas as telas nesse filme
em que ainda te lês
tão míope e sem legendas.

Ademar
28.03.2009

março 27, 2009

Improviso para a Laura...

Lembro-me bem do dia em que nasceste
27 de Março de 1959
posso garantir-te que não choveu
porque brincámos toda a tarde no quintal
e ninguém nos chamou para lanchar
o que nesse tempo na família
era uma extravagância
talvez por isso tenha sido
ou o recorde assim
o dia mais feliz da minha infância
não por teres nascido
mas por
por algumas horas
todos os adultos se terem finalmente esquecido de nós
só ao princípio de noite tomei consciência
de que eras menina
a primeira.

Ademar
27.03.2009

março 26, 2009

Improviso para dizer um livro e dois filmes...

Chega-te a esta sala
onde a poesia ainda dialecta
serve-te das bebidas
e dos aperitivos
e não grites as palavras
senão na ausência delas
sim eu sei
a lolita já não usa atacadores
e não há no bairro na ilha
quem suspeite
de que já leu Jung
o inconsciente colectivo
nos olhares que saboreiam
agora o teu pudor
essa loucura feita
de tantas personagens
que já não cabem em nenhum palco.

Ademar
26.03.2009

março 25, 2009

Improviso para responder a uma pergunta prosaica...

Sim
guardo a música
dentro da poesia
aliás
não caberia inteira
noutro lugar
nem mais confortadamente
a poesia
tem a dimensão
de um sacrário de partituras
nenhuma musa a contém.

Ademar
25.03.2009

Improviso para mãos e cordas...

Nunca reparei em Veneza
nas estrelas
nunca lhes senti a falta
ou o apelo
as estrelas são almofadas
em que deitamos os olhos
quando os sentimos
ainda mais vazios por dentro
em Veneza
nenhum universo me pareceu mais estreito
do que as mãos
que se recusam a morrer.

Ademar
24.03.2009

março 23, 2009

Improviso para adormecer a primavera...

Decompõe a loucura
como se a cortasses às fatias
e dá-me o miolo
o teu
diz
a loucura cura
todas as palavras adoecem
nos lábios que secam.

Ademar
23.03.2009

março 22, 2009

Improviso sobre Ute Lemper...

Tem tantas esquinas
esse regresso
palavras que já mal acertam
o mapa do corpo distraído
o coração que bate ainda mais depressa
quando a noite demora
e o sangue fermenta
na fonte da vida
como se o tempo o engravidasse
de asas ainda voadoras
tantas esquinas
tantas portas e janelas por abrir
tantos buracos negros
em que se perde a dimensão
do desejo adormecido
brincas agora com um nome
que decompões devagar
e juntas partículas
sobre as teclas de um piano
quatro mãos
todo um território.

Ademar
22.03.2009

março 21, 2009

Improviso portuário...

Sobre alguns arbustos
que a memória secou
ateias no areal uma fogueira
e nenhuma noite se perde
na vaga incerteza de tantos destinos
cruzados no cais
é um farol
e arde como uma espiral de luzes
um orgasmo talvez.

Ademar
21.03.2009

março 20, 2009

Improviso para dizer ainda Ferré...

A liberdade
respondo agora eu
é acordares ainda na sofreguidão
de engravidar do esperma
das manhãs que entardecem
e gota a gota
bebê-lo e bebê-la
como se dos lábios
fluísse a eternidade
o género da natureza
não importa aqui senão à literatura
a talha dourada
que tanto te gosta
e não sabes porquê
a porta dos altares
sempre aberta à metafísica de um sorriso incansável
os pés descalços
das estátuas em que nasceste
e os olhares que vagueiam lentamente
na memória das costas do Tejo
entre a Travessa da Sacristia
e o Adro da Igreja
antes do Inferno
onde te servem todos os cafés em dialecto
um ponto de exclamação falhado
a tecla ainda presa no teu corpo.

Ademar
20.03.2009

março 19, 2009

Improviso entre duas versões de "Ch'ella Mi Creda", de Puccini...


O grito das vozes enclausuradas
que nenhuma ilha contém
ninguém repousa aqui sob as estrelas
em tantas noites que as palavras
deixaram de contar
um perímetro estreito
entre o farol abandonado
e todos os cais que já não dormem
barcos chegando e partindo
de nenhum descobrimento
e o vómito na garganta
que ainda mata a sede impossível.

Ademar
19.03.2009


março 18, 2009

Improviso para Pablo Neruda ou um pouco antes...

Número um
um plátano em Pocinhos do Rio Verde
Minas Gerais
número dois
um braço sobre o oceano
e as ondas que esse dique contivesse
número três
um barco menor
soluçando perfis sobre o Tejo
número quatro
muitas folhas
e o vento dessa ode imperfeita
de Álvaro de Campos
número cinco
a Tabacaria que nunca fecha
sobre os dez minutos do exacto universo
em que ainda cabemos
número seis
sete lágrimas ou oito
suspensas de Cole Porter
número sete
o Gerês no outro lado da ilha
e a Amarela
número oito
um filme que adiasse a morte
do actor que nunca chegou a ser
número nove
o cais onde todos desembarcam
número dez
uma carta
com a poesia toda dentro.

Ademar
18.03.2009

março 17, 2009

Improviso para explicar a quaresma aos penitentes...

Foste à rua comprar Marlboro
e agora por instantes
já posso escrever
não foi com essa miopia delicada
que me viste
naufragar no Tejo
nem eras tão magra
e tão nua
quando me abraçaste
na Tabacaria
e nos salvaste.

Ademar
17.03.2009

março 16, 2009

Improviso sobre uma tela de Dali...

Diz-me em que pensas
quando desces da cruz
se desces ainda das nuvens
com os braços abertos
ou se
por mais que descesses
nunca os teus pés arvorassem a água
diz-me em que pensas
quando ainda mastigas as palavras
que reescreves em maiúsculas
se morresses-me assim
tatuada no punho da mão
com que me guardas.

Ademar
16.03.2009

março 15, 2009

Improviso na esteira do infinito...

Escrevo numa cadeira sem braços
que pesa muito menos do que o infinito
repouso os cotovelos
sobre o tampo da mesa
para ler a tua carta
conto os quilos um a um
adivinho trajectos caminhos rotas
num mapa que parece confundir-se
cada vez mais com o teu corpo
e tento dar-te a mão no claustro
que o fogo queimou
não importa há quantos anos
nenhuma fuga
teve tantos quilómetros de partida
como essa ponte
que agora rabiscas
num caderno de rascunhos
tamanho deslumbre.

Ademar
15.03.2009

março 14, 2009

Improviso para dizer Porto Santo...

Só quem nunca naufragou
guarda o mar nos olhos
ou nas mãos
falho a consciência das correntes
quando a ilha cheira ainda
ao que sempre fui
e os cais não passam
de ancoradouros de palavras
entre estátuas submersas
esse lugar invisível
onde indefinidamente esperas
que me desvende.

Ademar
14.03.2009

março 13, 2009

Improviso para longe...

O labirinto
tem muitas salas arqueadas
muitas paredes
sem portas nem janelas
nem livros
ruas dentro dos olhos
e noites sem tecto
o labirinto
senhora
não tem vistas para fora
e se tivesse
seria apenas o mar
e depois do mar
talvez um passadiço para nenhures.

Ademar
13.03.2009

março 12, 2009

Improviso para natureza morta...

Sentou-se hoje ao almoço
do outro lado da mesa
a vida
há muito tempo que não conversávamos
nem trocávamos sequer um olhar
distraído
temos andado desencontrados
eu e a vida
perdemos talvez o dom da eloquência
ou ensurdecemos
era uma mesa estreita
erguida sobre quatro mãos
que nunca chegarão a tocar-se.

Ademar
12.03.2009

março 11, 2009

Improviso sobre mote...

No princípio senhora
não era o verbo
mas a língua
esse músculo delicado
que nenhuma nudez revela
senão o desejo
na ponta do iceberg.

Ademar
11.03.2009

março 10, 2009

Improviso sobre uma voz...

Uma voz que agora desconheço
lê devagar palavras
que provavelmente terei escrito
não sei há quantos anos
nem em que vida
a voz parece ter a mesma urgência
das palavras
mas nenhuma memória me reconduz
à circunstância dessa íntima leitura
sei apenas que é uma voz de mulher
e diz no fim
como se assinasse um pôr-do-sol ilustrado
“tão lindo”
nunca terei amado essa mulher
que tão intensamente me dizia
continuará a ler-me?

Ademar
10.03.2009

março 09, 2009

Improviso para bandoneon...

Se tropeças nos meus passos
como poderás amparar-me?
abre as pernas
para que eu possa entrar e sair por ti
silenciosamente
abre os braços
fechas as mãos
e os olhos
não procures as sombras dos joelhos
na humidade do chão
esquece a porta no trinco
e dança comigo
antes que a luz fraqueje
nas dobradiças de um fogo amordaçado.

Ademar
09.03.2009

março 08, 2009

Improviso quase libertino...

O umbigo
senhora
tanto sobe
como desce
a barrriga é apenas o sacrário
que o transporta
entre todos os altares
o olhar
acompanha-o apenas
no movimento vertical
não tem baixo nem cima
nem pressas nem vagares
o umbigo
senhora
é um feitiço e um assomo
nenhum pousio o adormece
nenhum vento o desperta
tem nuvens dentro
e os abismos todos.

Ademar
08.03.2009

março 07, 2009

Improviso a pedido...

Retiro a venda
senhora
e faço-me à noite
digo
ao labirinto
são tantas as luzes
que ainda rasgam o medo
e nenhum tango
nenhuma valsa
que a lua pudesse dançar
ruas e avenidas e becos e atalhos
tantas portas e janelas
tantos silêncios e tantos rumores
e há bares que são máscaras
e máscaras que são bares
e tabacarias que já não servem
corpos adormecidos
a noite cresce diante dos meus passos
e tropeço nas sombras
esse cais adiado.

Ademar
07.03.2009

março 06, 2009

Improviso para pólen ou algo mais...

Já não tenho casa
dentro dos olhos
para mais altares
não me peças estátuas
nem toalhas de linho
desce do palco
e oferece-me simplesmente a humanidade
de um retiro sem luzes
um perfil sereno
uma maçã de rosto
que a primavera trincasse devagar.

Ademar
06.03.2009

março 05, 2009

Improviso para explicar Alberto Caeiro aos pássaros que ainda voam sobre a Cruz de Pedra...

Na soleira da porta da casa
onde nasci
cresceu na minha memória
um acordeonista
se não morreu
ainda lá deve estar
suspenso de um fole
era cego
como eu sou agora
e só por isso é que o imagino
na soleira da porta da casa
onde nasci
a minha infância
tropeçava nele todos os dias
agora tropeça apenas
em mim.

Ademar
05.03.2009

março 04, 2009

Improviso para licitar o pouco que ainda resta do que fui...

oculos09aa111.jpg

Hoje comprei
um secador de sentimentos
em segunda mão ou mais
e amanhã tentarei
os óculos de Gandhi
nunca fiz um negócio perfeito
mas arrisco sempre
confesso que não sei como se usa
um secador de sentimentos
nem para que poderão servir
os óculos de Gandhi
mas já desisti há muito de interrogar
a utilidade das coisas
colecciono-me apenas
sentimentos e olhares
que nunca hão-de caber-me.

Ademar
04.03.2009

março 03, 2009

Improviso para reter um olhar...

Espera por mim um pouco
vou ali ao farol
comprar uma dose ou meia
de morfina
e volto já
hoje
não me apetece coreografar
tenho espinhos nas mãos
e doem-me por dentro as palavras
que não me disseste.

Ademar
03.03.2009

março 02, 2009

Improviso para eucaristia...

Quando cortares os pulsos
deixa as mãos de fora
para os cuidados paliativos
nunca prometas menos
do que o mistério da transubstanciação
o brinde a sangue fermentado
a palavra que transforma o poema
na última ceia
o pão ázimo de séculos
e o mel que ainda escorre do corpo
na humidade tardia da tela.

Ademar
02.03.2009

março 01, 2009

Improviso para renegar a lua partida ao meio...

Nessa casa a que me conduziste
só havia mulheres e fêmeas
disseste
aqui
estão as mulheres
que já só aspiram a ser cortejadas
além
as fêmeas que se oferecem ainda
ao desejo
escolhe a sala e a circunstância
e entre o espelho e o corpo
serei a tua amante indecisa
não entrei.

Ademar
01.03.2009

fevereiro 28, 2009

Improviso sobre o passado irrepetível...

Ninguém dirá que desisti
quando a loucura parecia tomar a forma
de um borrão na tua alma
e as mãos se desintegravam
nas palavras e nos gestos
que o vulcão implodia
ninguém dirá que desisti
quando mais precisaste de mim
na fronteira do que nunca se diz.

Ademar
28.02.2009

fevereiro 27, 2009

Improviso para iniciação...

tib09aaa127.jpg

Não sei se fotografaste
ou se pintaste
tantos troncos e ramos entrelaçados
e os frutos suspensos da nudez
do nenhum olhar
no princípio da humanidade
não foi o verbo
mas esta orgia de formas.

Ademar
27.02.2009

fevereiro 26, 2009

Improviso para a Cláudia, filha do Zé Henriques Coimbra...

Se eu ainda fosse a tempo
oferecer-lhe-ia
a lua partida ao meio
não importa em que dialecto
nem se em forma de queijo
ou de nuvem branca
os amigos que morrem em segredo
têm sempre mais urgência
mas eu sei que ele me devolveria
a metade da lua
mais próxima da copa das árvores
e me daria um abraço
para que eu não mais a deixasse.

Ademar
26.02.2009

fevereiro 25, 2009

Improviso para explicar que rosa rima com tudo...

Libertinos ou libertários
deixa-nos apenas ser secretos
como as luzes que retocam
as margens
quando o canal adormece
não abras de mais as janelas
não chames o vento
não ergas a voz
a fama
lembra-te
é uma incomodidade
o universo que cruza as arcadas
da praça maior
esgotou a lotação do silêncio.

Ademar
25.02.2009

fevereiro 24, 2009

Improviso para dizer apenas duas frases...

ppppoe09aa1.jpg

Continue reading "Improviso para dizer apenas duas frases..." »

fevereiro 23, 2009

Improviso entre amanheceres...

O universo virado do avesso
nos pés que desaprenderam
de caminhar sobre o fogo
as palavras suspensas
sobre a terra que arde
enquanto a matéria levita
este tango tem a forma
de uma girafa voadora
e há conchas que bebem
suores adormecidos
o mar que funde no teu corpo
e as mãos que te recolhem
e guardam.

Ademar
23.02.2009

fevereiro 22, 2009

Improviso místico...

Dessa janela de que me falas
vês o mar
e as algemas
e há vozes de crianças
que dançam a rotina das ondas
ignorando a tua condição de barco
ou de bóia
e todos os tédios servidos à mesa
de Tântalo
nas noites desabrigadas de luar
dessa janela de que me falas
vês o mar ou o que imaginas dele
e talvez na linha do horizonte
eu seja ainda o sol
que se ajoelha ao fim da tarde
para rezar a todos os deuses impossíveis.

Ademar
22.02.2009

Improviso quase carnavalesco...

Pessoas pessoas pessoas
máscaras de cera
que o futuro derrete
já ignorei a cor dos teus olhos
quando apenas voavas
depois entrei por eles
e adormeci
adormecemos todos
digo
derretemos no fogo
tão depressa quanto ardemos.

Ademar
22.02.2009

fevereiro 21, 2009

Improviso para urgência...

Este veneno
infecta a alma
não há sangue
que o conduza
entre os vários sentidos
é quase uma pré-existência
um projecto de destinos interrogados
e sempre inviáveis
este veneno pede a picada da eternidade
nos teus lábios ausentes
uma implosão de metáforas
entre rios de lavas
que nenhuma margem contém
este veneno
tem o princípio activo de um poema
escrito a fogo na porta sempre fechada
da tua loucura.

Ademar
21.02.2009

fevereiro 20, 2009

Improviso ainda para segredar...

Vens e vais
e nunca ficas
este é o único lugar no universo
que te pertence por inteiro
exactamente
porque não lhe pertences
e nada aqui te pertence
senão o tempo
essa urgência de fogo
em que ardemos
antes de todas as noites
que nunca serão
o nosso amor
deixa-me dizer assim para que todos entendam
é um segredo.

Ademar
20.02.2009

fevereiro 19, 2009

Improviso quase geométrico...

As palavras mais lentas
caminham devagar como as mãos
arroteando a pele
há um sétimo sentido
que recolhe as palavras
no eixo do encantamento
e as devolve ao silêncio
agora o tempo parece
tropeçar sempre nos ponteiros
do corpo
que as mãos adiantam
é tarde para regressar
ao desconhecimento
as palavras mais lentas
lambem o desejo
nos teus ouvidos
e o universo tem orelhas
que gritam.

Ademar
19.02.2009

fevereiro 18, 2009

Improviso para piano e arco excêntrico...

Eis-te suspensa das teclas
de uma loucura quase normal
nenhuma partitura tem tantas garras
como a tua obsessão pelo arco-íris
não há esperança que sirva de almofada
à fragmentação
milagre é que ainda consigas
caminhar sobre os pés
sem tropeçares nos passos
ele há tanta gente entrincheirada
na memória do que serás
um poema ainda perfeito
um gelado de fogo
uma luz esculpida no silêncio
um mapa de camélias doces
e cruas
no lugar das mãos.

Ademar
18.02.2009

fevereiro 17, 2009

Improviso intimista...

Escreveste
corro para os teus braços e confesso
quando te dei a minha alma
não foi por não saber que ela era grande
foi antes por saber
que nunca ninguém a desejara
e continuaste
ao contrário do meu corpo
que todos os homens cobiçam
a minha alma reclama a tua assinatura
e só por isso te pertence
e eu respondi
assino por baixo.

Ademar
17.02.2009

Improviso para registar uma cumplicidade...

Uma vez por década
circunstancialmente
troco um sorriso
e um olá com a Gabriela
e ela comigo
nunca parámos para conversar
há bairros assim
em que a morte passeia devagar
entre ruas e casas que parecem sempre desabitadas
ou talvez não tenhamos mesmo nada
para dizer um ao outro
a urgência é um tempo que morre na indiferença
de todos os gestos desencontrados
mas todos os meus amigos adolescentes
estiveram perdidamente apaixonados pela Gabriela
e não sei quantos poemas de amor
a pedido
escrevi para ela
e não sei quantos ela chegou a ler
aprendi entre a Avenida Central
e a Justino Cruz
a declinar o poder da palavra
e o seu feitiço
a Gabriela nunca soube
que o poeta era eu.

Ademar
17.02.2009

fevereiro 16, 2009

Improviso para amante secreta...

Nenhuma pele tem tantas ondas
como a voz com que sorris
e tão frequentemente adoeces
o teu corpo que já não cabe
no antigo colete de forças
tão grande e tão pequeno ainda
para a loucura em que anoiteces
a menina do gelado que nunca derrete
a mãe do universo inteiro
entre tantas ruas e tantas casas
que só tu mesmo poderias habitar.

Ademar
16.02.2009

Improviso a quatro mãos...

quatromaos09aa1.jpg

Continue reading "Improviso a quatro mãos..." »

fevereiro 15, 2009

Improviso para recontar La Traviata...

Todas as mulheres foram margaridas ou violetas
num capítulo qualquer de um libreto
para Verdi
e trouxeram no peito uma camélia
e deram a beber do seu vinho
a todos os homens com sede
e a nenhum
senão o único
tiro tudo de casa dizes
pinto o tecto e as paredes
deixo apenas uma tela no lugar do corpo
onde os teus olhos repousem
e uma jarra que anuncie a primavera
e um berço talvez por estrear
tenha a forma que tiver
dois poemas podem cruzar-se
num.

Ademar
15.02.2009

fevereiro 14, 2009

Improviso para dizer que a mãe adormeceu...

Já desisti de querer governar o mundo
a partir do meu bairro
já desisti mesmo de querer governar o mundo
em que cabe o meu bairro
o poder é uma puta irrespeitosa
e confia-se mais depressa a quem mais o merece
quero apenas amar-te
como se não existisses
digo
como se fizesses parte de mim
nesse espelho em que viajo
à perfeição só falta mesmo
o género que me acrescentes.

Ademar
14.02.2009

fevereiro 13, 2009

Improviso para sopa e sobremesa...

Todos os segredos têm
a urgência compassiva dos dedos
das tuas mãos
nesse chicote que golpeia a distância
na fronteira
entre os lugares que imaginamos
o contágio adoece por dentro
as ondulações do desejo irrespirável
há uma luz que ferve ainda mais no pudor
no silêncio
portas que se abrem e se fecham
sobre a imaterialidade da memória
nada na vida se repete
nascemos para renascer
todos os dias.

Ademar
13.02.2009

fevereiro 12, 2009

Improviso para lembrar que o inverno desfalece...

Uma sopa
a sobremesa
ou a mesa posta sobre a metáfora
a servir de altar
a toalha de rendas
que a mãe teceu
e o pai sempre ausente
traído no desconhecimento
da perícia das mãos
essa mulher que nunca deixou de arder
no silêncio
e que põe rosas
no lugar da alma
como se já cheirasse a primavera.

Ademar
12.02.2009

fevereiro 11, 2009

Improviso a cores...

Hoje foste ainda a única na sala
digo
no plateau centenário
nem os meus olhos dançaram contigo
quando as janelas se iluminaram
e ajoelhaste
entre espelhos e memórias
o teu corpo que ondulava
entre todas as ausências
a espera de um milagre de orgasmos
um pedaço esquecido de carne
talvez o mais ínfimo ou invisível ou lento
essa casa em que não cabe já o teu corpo
desaprendido de soletrar as asas
originais.

Ademar
11.02.2009

fevereiro 10, 2009

Improviso fulminante...

As palavras tropeçam
como as mãos
na felicidade sempre efémera
hoje
já ninguém tece eternidades
no rodapé das paixões
a sofreguidão fulmina
como o estalido de um raio
e as noites dormem depressa
na insónia dos amanheceres
sempre iguais
a morte ou a revolta
tão próxima de tudo.

Ademar
10.02.2009

fevereiro 09, 2009

Improviso para Eurídice...

Todos os olhos têm dentro
a imperfeição
se apenas as mãos vissem
nenhum espelho seria mais cruel
do que a ausência
o desejo tropeça sempre
na urgência das formas.

Ademar
09.02.2009

fevereiro 08, 2009

Improviso para não agitar antes de usar...

Dia sim
dia não
dizes-me adeus
o estranho
é que não me lembro
de te ter conhecido.

Ademar
08.02.2009

fevereiro 07, 2009

Improviso entre segredos...

Todas as mulheres que não existem
foram perfeitas
dizes que me adoras
no plateau das cordas que faltam
para completar a sonata
a imaterialidade projecta
caixilhos na memória
e quando os espelhos não contam
contam as vozes
que salgam o silêncio
nas salinas do cais
onde te espero
depois das palavras.

Ademar
07.02.2009

fevereiro 06, 2009

Improviso cigano...

Aposentei-me de almocreve
já não faço feiras
nem vendo salvados a retalho
e se ainda uso o megafone
é apenas
para chamar as estrelas
quando te escondes
agora vivo das esmolas
dos pobres
e empobreço com eles
nenhuma condição é tão perfeita
como não ter nada para vender.

Ademar
06.02.2009

fevereiro 05, 2009

Improviso em forma de uma varanda sobre a infância...

Cresci nos olhos do último cais
onde todos chegavam
e donde todos partiam
desaprendi de esperar
quem não embarcasse
a viagem só começa
quando todos já entraram
ou saíram.

Ademar
05.02.2009

fevereiro 04, 2009

Improviso para encaixilhar uma frase...

Os olhos por vezes
também pedem algemas
e a volúpia de um chicote
sem pontas
na pele do destino
os libertinos senhora
não escrevem apenas frases tumulares
as mulheres adoram despir os segredos do universo
os olhos ainda vêem através das algemas que gritam
e o chicote
tem a forma de um arrepio
esculpido no desejo.

Ademar
04.02.2009

fevereiro 03, 2009

Improviso para Eluana...

eluana00aa22.jpg

Hoje neste dia derradeiro
antes de todos os outros
apetece-me recordar as mulheres de Atenas
não importa em que língua
ou precedência
as mulheres que Roma sempre negou
e que todos os vigários de Cristo
condenaram à fogueira
no útero de Pandora
já não tiveste tempo
para viajar de Roma para Atenas
morreste menina
antes que o barco passasse pelo cais
e te abraçasse na água
mulher
como todas as outras
só foste na cruz
um prego cravado em cada mão
ainda aberta.

Ademar
03.02.2009

fevereiro 02, 2009

Improviso para tecer devagar...

Talvez o amor seja breve
e ainda assim artesanal
em Casablanca
mas todos os cenários foram tardios
e nenhuma lua
verdadeira
talvez o amor tenha um piano
à boca de cena
ou uma harpa
quinze dias passam depressa
quando o tempo se conta em séculos
e outras espécies se extinguirão
antes que a luz regresse
ao exacto território de todas as sombras.

Ademar
02.02.2009

fevereiro 01, 2009

Improviso sobre Invierno Porteño, de Piazzolla...

Tinhas pássaros nas asas
quando vieste
nessa manhã que ainda mal nascera
da madrugada
não contei as tatuagens na tua voz
mas sei que cantaste em segredo
e só eu te ouvi
o espaço é um tempo breve
nas gaiolas sem grades
ainda mal acordaras
e já partias
para a mais longa viagem
que nos prometêramos.

Ademar
01.02.2009

janeiro 31, 2009

Improviso para contornar a impaciência de Álvaro de Campos...

Um fósforo pode acender-se
no pavio da esperança
e apagar-se antes da chama
antes que arda
os comboios passam
e todos os cais são de saída
e de entrada
há multidões que viajam
na ilusão de um encontro inesperado
e que tropeçam apenas
no degrau do vento.

Ademar
31.01.2009

janeiro 30, 2009

Improviso sobre uma inspiração de Klimt...

klimt09aa22.jpg

Despes a altivez devagar
enquanto sobraças a cabeça
do homem que chegou cedo de mais
ao teu regaço
há momentos em que te sentes ainda
mais real do que isto
em que nenhum olhar se eleva
acima do teu
e os braços e as mãos
já não parecem pertencer-te
a nudez só é perfeita
quando já não tens mais palavras
para dizer o silêncio
e te devolves à servidão.

Ademar
30.01.2009

janeiro 29, 2009

Improviso pessoano...

Hoje abriste finalmente o baú
e estendeste sobre a cama
todos os ventos
não há memória de uma viagem assim
tão íntima
e tão lenta
esse corpo já não tem a inocência nem o pudor
dos berços originais
mas ainda treme
na vibração das cordas intocadas
na impaciência dos dedos acariciantes
que dominam a sofreguidão do tempo
que envelhece enquanto renasces
regresso ao álbum da infância
e pergunto se já lá estiveste.

Ademar
29.01.2009

janeiro 28, 2009

Improviso mais do que sagrado...

Agora
somos muitos na família
mãe
e ainda há na família
quem sorria
como se ela fosse
dizes
sagrada
talvez o sorriso que nos reúne
seja uma mesa do tamanho do universo
à volta da qual todos nos pudéssemos ainda
sentar e aquecer
como diante de uma lareira adormecida
hoje reavi as tuas mãos de linho
mãe
e voltei a pôr a mesa
para a família
de novo reencontrada
os poetas fingem sempre
que não sabem sorrir
mãe
mas é só por fora das palavras.

Ademar
28.01.2009

janeiro 27, 2009

Improviso epistemológico...

Ouço-te ainda sobre
o ruído das espiras e
c’est si bon
os leões costumam descansar assim
sobre o repouso das presas
e só a fome os desperta
a natureza oposta à poesia
e a poesia oposta à natureza
e todos os adjectivos
na fronteira.

Ademar
27.01.2009

janeiro 26, 2009

Improviso sinóptico...

Ainda é cedo para cortar a noite às fatias
e servir-me de todas
ou servir-te
nenhuma noite cabe inteira na boca
mesmo a retalho.

Ademar
26.01.2009

janeiro 25, 2009

Improviso nostálgico sobre uma fotografia... *

aveleda09aaa1.jpg

Morreram ambos ali naquela casa
um pouco além da ponte centenária
que morreu depois deles
em quartos diferentes
que os homens e as mulheres não foram feitos
para morrer exactamente no mesmo lugar digo
na mesma cama
sobre a mesma nuvem
as mães morrem sempre devagar
porque têm um coração maior
sem o retoque da neve
e sem a via dupla
e sem a ponte centenária que já lá não está
esta fotografia poderia ser ainda
a da minha infância
a ver passar os comboios
que golfavam jornais
naquele tempo
o Primeiro de Janeiro
o Comércio do Porto
o Norte Desportivo
de quando em vez
aterravam no meio das silvas
ou ficavam suspensos do valado
e as notícias então demoravam mais a chegar
e o meu avô protestava
eu sentia-me por ele o guardador do mundo
nada acontecia que as minhas mãos não soubessem
dormi muitos anos na cama
onde morreu o meu pai
no quarto da última janela
ou seria porventura outra cama
mas o quarto era esse
a cama ainda lá está
a porta agora é que já quase nunca se abre
a casa é uma necrópole
como a memória que a retém
os comboios ainda passam ao largo
cada vez mais rápidos e silenciosos
mas já nenhuma criança
adiante daquela curva
os espera
também morri.

Ademar
25.01.2009

* Agradeço ao Dario Silva a gentileza da fotografia.

janeiro 24, 2009

Improviso ferroviário...

Da varanda do quarto da minha infância
todos os comboios chegavam
todos os comboios partiam
e só eu ficava
a minha infância era uma cidade
que os comboios não atravessavam
nessa idade
eu tinha mapas nos olhos
que soletravam viagens
e ainda não sabia
que todos os cais terminavam
nos braços infinitos da água.

Ademar
24.01.2009

janeiro 23, 2009

Improviso na sombra de Apollinaire...

Sim confesso há palavras
que eu não sei ainda traduzir
palavras que me caem das mãos
como anéis desiludidos
e que me antecedem no tempo
de te imaginar
uma harpa sem cordas
talvez apenas o caixilho de uma ilusão
que entretém o pensamento
antes do desejo.

Ademar
23.01.2009

janeiro 22, 2009

Improviso sob Ferré...

Sonhas-me mãos de veludo
nas esquinas sombrias da imaginação
e eu que tenho mãos
em que apenas circula um sangue antigo
que nunca enregela
nem na memória do veludo
mãos que viajassem por ti devagar
se ainda fosses um território
em que se pudesse viajar
mais de que um deserto
ou um campo de mistérios
ou o mar sempre indolente
que nem a lua desperta
é preciso saber navegar
para não perder o rumo das almas
quando as almas se encontram
no convés do desespero
se o desespero não fosse
uma forma superior do medo
como dirias
se não tivesses pensado exactamente
o contrário
sonhas-me gestos derramados de uma voz
que nunca ouviste
nas esquinas sombrias da imaginação
e eu que tenho uma voz
em que apenas circula um sangue antigo
que nunca enregela
nem na infinitude do teu silêncio.

Ademar
22.01.2009

janeiro 21, 2009

Improviso para voltar a dizer carpe diem...

Antes temia o convite
da página em branco
ou da tela vadia
hoje dos olhos
que despem lentamente as palavras
e as suam por dentro
as perguntas
os silêncios
as paixões soletradas
ainda ao ritmo do desejo
escrevo talvez para que ames
apenas a poesia
que todas as noites te visita
nesta casa que agora pertence a ninguém
e já foi tua.

Ademar
21.01.2009


janeiro 20, 2009

Improviso em forma de banda desenhada para Barack Obama...

Hoje falo contigo
de homem para homem
digo
de branco para branco
ou se preferires
de preto para preto
nenhuma cegueira é mais cívica
do que esta
que não distingue a cor das epidermes
imagina
sou ainda do tempo de Harry Truman
já não puxei o lustro a Enola Gay
nem embalei o Little Boy
nasci depois
quando os comunistas começaram a comer criancinhas
à mesa do Senador
e devo em parte ao avô Dwight
ironia das ironias
ter sobrevivido ao feitiço das bruxas
embora ainda hoje esteja a pagar o crédito
das migalhas do general
fui adolescente com John
brinquei com ele na sala oval
aos meninos e às meninas
e chegámos até a projectar uma viagem secreta
à Indochina com Marguerite Duras
que Dallas abortou
foi com o tio Lyndon
que descobri finalmente Hollywood
e aprendi a soletrar à portuguesa Vietname
Watergate como sabes veio depois
com a liberdade de imprensa
e o 25 de Abril
e andei tão entretido por cá
que nem dei conta de que a Ford
entretanto
nacionalizara a Casa Branca
acordei a comer amendoins
mas foi uma experiência efémera e patética
depressa descobri
que o western saloon era a mais perfeita metáfora
da América dos pais fundadores
e um qualquer Charles Wilson
a partir do Texas digo do Congresso
era capaz de derrubar em dois tempos o império do mal
e foi assim que chegámos à família Bush
pai e filho armas e petróleo e betão armado
e não falo do espírito santo
porque a mulher do espírito santo
encomenda-te agora ao universo
de homem para homem
digo
de branco para branco
ou se preferires
de preto para preto
peço-te
quando te lembrarem que és
o quadragésimo quarto presidente
dos Estados Unidos da América
refugia-te humildemente numa tela
de Andrew Wyeth
esta por exemplo
Andrew Wyeth.jpg
e sorri.


Ademar
20.01.2009

janeiro 19, 2009

Improviso antes que amanheça...

Há uma medida de luz
para o olhar
fora do corpo
nenhuma claridade se abre assim
ao excesso dos diafragmas predadores
escrevo entre as sombras
e aí descanso e distraio as palavras
para não perder nunca
a certeza do meu próprio horizonte
esse lugar onde me descubro sempre
desatento e imprestável ao sol.

Ademar
19.01.2009

janeiro 18, 2009

Improviso confidencial...

Os machos em geral não entendem
que quando uma fêmea confessa
que anda com muita energia
isso não significa
pelo menos necessariamente
que ande com tesão e com vontade de foder
os machos aliás
também em geral
percebem muito pouco de fêmeas
e dos seus estados ou estádios de alma
refiro-me ao râguebi naturalmente
já imagino que vais dizer
que o teu amante parcial
esse que tem uma casa de mulher
e só veste roupa azul e conservadora
palavras tuas
merecia uma entrada porventura
menos gongórica
e que o sangue pedido
tarda a escorrer da tela
se queres mesmo sangue
dir-te-ei que ainda não percebi
quando me fazes certas confidências
sobre sindicalistas aéreos
se estás a tentar-me ao ciúme
ou ao ménage à trois
com legendas em japonês.

Ademar
18.01.2009

janeiro 17, 2009

Improviso para renegar o esquecimento...

Na idade em que comecei a oscilar do umbigo
todos os meus amigos eram da extrema-esquerda
quando ser de esquerda não era mais do que um imperativo ético
ou uma pulsão libertária
alguns diziam-se em segredo comunistas
porque naquele tempo de tantas surdinas e censuras
o comunismo que o tempo nos consentia
não passava ainda de uma trincheira de desprendimentos
uma bondade uma coragem
e no dialecto marxista que então usávamos
éramos todos burgueses
digo
inimigos de classe de nós próprios
hoje
já quase não tenho amigos de esquerda
estão todos entretidos a coçar o umbigo
à porta do bordel da democracia
servindo de proxenetas.

Ademar
17.01.2009

janeiro 16, 2009

Improviso pedagógico...

Regressas sempre ao ventre da fera
o lago onde adormecem os cisnes
que um dia já foram patos
nenhuma luz se abre
à metamorfose do corpo
e há cansaços mais antigos do que a água
que enrugam destinos
nas veias das tuas mãos.

Ademar
16.01.2009

janeiro 15, 2009

Improviso quase corânico...

Abdullah morreu
nas costas de Monet
sem assinatura nem dedicatória
um punhal apenas cravado
na memória de Montmartre
e uma certa saudade do monte dos vendavais
que sempre foi de sarilhos
as fotografias porém eram lindíssimas
dizes
África
a norte ou a sul do equador
de todas as literaturas
fica sempre tão bem na parede.

Ademar
15.01.2009

janeiro 14, 2009

Improviso quase criacionista...

O esforço é inútil
e a crença
algo patética
os macacos estão geneticamente preparados
para ser macacos
e nunca serão outra coisa
senão macacos
por mais que Darwin os incentive
à antropológica superação
na república ou no reino dos macacos
mandará sempre quem primeiro
chegar à bananeira.

Ademar
14.01.2009

janeiro 13, 2009

Improviso para viola d'arco e superego...

Nunca até hoje
me apaixonara por um nariz
mas a verdade é que há
irrelevâncias perfeitas
e o objecto do desejo pode ser mesmo
uma irrelevância
um nariz
quando fui menos velho
não me deixava seduzir
senão pela tela inteira
depois passei a usar óculos
para ver ao longe
e fui perdendo
a noção de proximidade
digo a visão
agora
deve ser da idade
já só atendo aos pormenores
e dou comigo até
a erotizar o nariz
o teu nariz
só depois
confesso
reparei na aliança
como o tempo da paixão
ou do desejo
pode ser tão breve.

Ademar
13.01.2009

janeiro 12, 2009

Improviso recessivo...

Nem o Místico
uma conveniência de bairro
resistiu à crise
hoje
um aviso na porta
antecipava a solução final
encerrado para obras
(de falência)
confesso que não sei
o que são obras
(de falência)
mas espero que o governo
intervenha depressa
para salvar o Mistico
no Místico
eu encontrava todos os vizinhos
que me interessam
o pregoeiro de Fausto
a gueixa que ainda está a dever-me
uma matiné a três dimensões
o sr. Manuel
que nunca me recusava a dose de morfina
e um cego que traduzia Maiakovski
a partir do original em braille
e dançava o tango masoquista
com Florbela Espanca
no Místico eu era feliz
e pagava sempre em libras
esterlinas.

Ademar
12.01.2009

janeiro 11, 2009

Improviso de ontologia...

A infantaria das almas
não há batalha que não perca
nem guerra
as sombras
fazem ainda parte dos corpos
que ajoelham
e nenhuma luz é mais ávida
do que o vento
quando o vento revolve
os interstícios da terra.

Ademar
11.01.2009

janeiro 10, 2009

Improviso em forma de carta...

Antes do arejo
não sei se do tango ou da salsa
pedes-me de Paris
um improviso suculento e lento
talvez na voltagem de Debussy
esqueceste com a pressa de acrescentar
como quem não quer a coisa
dar-te-ei notícias de Portugal
sem vírgulas e com as orações despenteadas
como preferes
eu sei nós sabemos que Portugal cabe
numa fotografia de corpo inteiro
e não sobra muito mais
talvez um quarto uma biblioteca
um rio ou as suas margens
e toda a música dessas partes do mundo
que já só nós conhecemos e amamos
como diria Álvaro de Campos
o suco da distância por estes dias é a neve
ao ritmo do fogo em que ardemos sempre devagar
ainda não sei de que lado da fronteira
ficam os Pirinéus.

Ademar
10.01.2009

janeiro 09, 2009

Improviso quase coloquial...

Faça o favor de limpar os pés
antes de pensar
ou calce as sandálias ou as pantufas
não imagina como a burrice deprime
a humanidade
para já não falar na falta de higiene
e não apenas a mental
faça pelo menos um esforço
para cheirar a ironia
lembre-se de que
nem todo o pensamento é binário
ou rasteiro
e a estupidez tem sempre
medidas curtas
mais curtas ainda do que os seus próprios pés
seja como for
de uma forma ou de outra
faça o favor de ser gente
pelo menos um pouco mais.

Ademar
09.01.2009

janeiro 08, 2009

Improviso ferroviário...

Recordo esses dois comboios
na estação terminal de Braga
aquele em que chegaste
e aquele que perdeste
até hoje não percebi
se seriam o mesmo
ou eu nunca existi.

Ademar
08.01.2009

Improviso para Gaza...

gaza09aa1.jpg

Parai a guerra please
por razões humanitárias
três horas apenas
três horas bastam
mais não é preciso
para enterrar em segurança as mulheres e as crianças
e alimentar as próximas vítimas
uma guerra sem intervalos humanitários
é uma violência
enquanto não morrem
os soldados também precisam de foder.

Ademar
08.01.2009

janeiro 07, 2009

Improviso a caminho...

A selva no lugar do jardim
é lá que te encontro e te perco
nas horas de nos cruzarmos
as jaulas são as casas
que nunca adormeces
ou adormeces sempre mais tarde
conto nas sombras do teu corpo
os passos que me sobram
para atravessar a fronteira
e sigo a luz mais próxima do sol
treslendo as cartas que confundo com a bússola.

Ademar
07.01.2009

janeiro 06, 2009

Improviso para tresler o antigo testamento...

Hoje escrevi
imagino o céu uma imensa chicoteria
dez graus negativos em Paris
e uma braseira na faixa de Gaza
notoriamente
as trombetas estão desafinadas.

Ademar
06.01.2009

janeiro 05, 2009

Improviso para relicário...

Já não sei como conserve
fora do congelador
o pénis de Napoleão Bonaparte
sim sou eu que o tenho
o santo lenho
o corpo de São Tiago
e a própria arca de noé
são relíquias a mais
para um condomínio tão estreito
sinto a alma
cada vez mais quadrada
e não encontro comprador.

Ademar
05.01.2009

janeiro 04, 2009

Improviso colateral...

Dizes que o azul morre sempre
nas costas do luar
para que eu interrogue a memória das noites
e procure a chave no vento
onde as manhãs férteis se escondem
talvez na linha do horizonte mais íntimo
as janelas se abram ainda para o mar
e a terra não termine sempre
preguiçosamente
num cais.

Ademar
04.01.2008

janeiro 03, 2009

Improviso para posta restante...

Exibe com fluência fetichista
os pés e as pernas
e os adereços correlativos
e salta e dança muito sobre si própria
para que todos percebam
que perdeu o rabo antigo
na guerra dos sexos
e a vergonha em Lisboa
ou algures em Bruxelas de alcova
jardins incluídos
tem muitas amantes e admiradoras
nos intervalos de cheirar o labrego pátrio
entre duas pedradas de fado da Deolinda
e chá de tia
que já foi de tília
nas horas de ócio do espelho
padece de vertigens literárias
e então escreve a néon em catadupa
como se receasse ainda perder-se
na floresta das cores que já foram palavras
há mulheres que sofrem assim
e eu em verdade vos digo
sofro muito com elas.

Ademar
03.01.2009

janeiro 02, 2009

Improviso de amor ou ainda não...

Nunca escrevi poemas de amor
porque nunca aprendi a escrever
poemas de amor
e nunca me ensinaram a escrever
poemas de amor
e de resto se bem me lembro
nunca ninguém esperou de mim
que escrevesse poemas de amor
confesso porém que tentei
por imitação
escrever poemas que fossem de amor
ou pelo menos parecessem
poemas de amor
falhei sempre
ainda hoje não sei porquê.

Ademar
02.01.2009

janeiro 01, 2009

Improviso sem arreios...

Hoje fui visitado por Deus
que me concedeu o exclusivo da Sua palavra
a partir de agora
a Sua verdade
serei eu a proclamá-la
primeira revelação
só os cegos reconhecem a divindade
nas cores do arco-íris
segunda revelação
nenhum orgasmo tem arestas.

Ademar
01.01.2009