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dezembro 28, 2007

Improviso para dizer a sabedoria...

Antes das palavras o silêncio
e depois também
nunca esperei menos
nunca espero mais
há uma sabedoria que não se aprende nos livros
e nenhuma escola ensina
sabedoria
que tu converteste numa espécie de arte
a arte do recolhimento.

Ademar
28.12.2007

dezembro 27, 2007

Improviso para beber-te...

Ninguém reclama tanto das palavras
e nenhuma posição faz justiça à intensidade do teu corpo
e à leveza
há uma perfeição antiga no silêncio em que te escondes
um recato que acolhe uma profusão de mistérios
o mais original e impartilhável dos teus segredos
que continuo à espera que derrames nos meus lábios.

Ademar
27.12.2007

Improviso para parecer de bússola...

Sobram sempre apenas cenários
casas incompletas
silêncios de portas e janelas que já não abrem nem fecham
há nomes de pedras sobre o lodo
que não decifro
e vestigios de rituais que dizes satânicos
talvez nenhum tronco renasça das águas
como o primeiro
na memória dos caminhos que agora se perdem na indiferença de quase tudo o que já foi
há perguntas a que nunca respondes
mistérios que sobram sempre para nós.

Ademar
26.12.2007

dezembro 25, 2007

Improviso sobre a água...

Talvez um dia as palavras se esgotem
de tanto serem usadas em vão
ou talvez um dia deixes de respirar ao contrário
como se apenas vivesses para dentro
nenhuma sombra pode mais
do que a luz que a projecta.

Ademar
25.12.2007

dezembro 24, 2007

Improviso para dizer como bebes...

O liquido acaricia apenas os lábios
as mãos suspendem o gesto
no copo que a lingua trava
não é assim distinto no mais
nenhuma ausência com código que não domines
nenhum verbo que não conjuges no condicional e no singular
a vida em ti sofre de espasmos
há um intervalo entre o que pensas e o que desejas
um intervalo em que não cabe ninguém
senão um deserto de sombras
tenho tantas palavras de vantagem sobre ti
tantos anos tantas certezas
e tão pouco destino
o pensamento fechado numa cela
e as chaves fora.

Ademar
24.12.2007

dezembro 23, 2007

Improviso para sumariar o embaraço...

Deixas sempre a meio a frase e a mão
deixas sempre a meio a vida
tropeças sempre numa consciência
que não te pertence.

Ademar
23.12.2007

dezembro 21, 2007

Improviso para pedir o natal...

Se me deixasses repousar a cabeça na tua fúria
talvez adormecesses
não te peço uma gravidez de melancias
nem o sangue perfeito de um olhar iluminado
contento-me com o trivial
tudo o que já foste capaz de me dar.

Ademar
21.12.2007

dezembro 20, 2007

Improviso sobre a arte do demónio...

Uma ideia apenas
mas que faça parte de ti
com palavras dentro
as palavras necessárias
(não são precisas todas)
mas o corpo inteiro
indivisível
uma ideia que te congregue
que não deixe de fora nenhuma ilusão
nenhuma fantasia
nenhum sentimento
e que sopre tão cortante e definitiva como o vento
na montanha que não contas
uma ideia apenas
mas que seja tua
e revolva todos os ecos
dos precipícios que conjuraste.

Ademar
20.12.2007

dezembro 19, 2007

Improviso sobre um auto-retrato...

Já fui todas as palavras
que não ousaste dizer
as mãos algemadas
numa culpa antiga de gestos
uma quase impotência
finjo que não vejo
o fogo da distância tão próxima
o fogo e o vento gelado
e subo a todas as montanhas
para uivar com os lobos
não lamento nada
escrevo apenas
para que te ouças.

Ademar
19.12.2007

eu.jpg

Que dizem as imagens do que fomos? Que diz esta imagem do que fui? Não importa quando. A memória que retemos das pessoas começa sempre por fixar imagens. Depois, talvez, palavras. Por fim, as vozes. E, porém, são as vozes que prolongam por mais tempo a nossa identidade. Não há duas vozes iguais. Talvez, por isso, a música resista melhor do que a poesia à erosão do próprio tempo. A eternidade dos sons pode sempre muito mais do que a eternidade das palavras. As imagens, essas, estão sempre a mudar. Nós é que, frequentemente, não reparamos. Continuo a falar para ser ouvido. E, se possível, vivido...

dezembro 18, 2007

Improviso quântico...

Sim claro as palavras
as palavras excedem-te
as palavras confundem-te
andas às voltas com as palavras
e desentendes-te sempre
não há silêncios em que caibam
todas as palavras que sangram
tropeças sempre nas palavras
e repetes mecanicamente os mesmos substantivos
como se nenhuma gramática
pudesse ser revista e actualizada
tempo e espaço
espaço e tempo
e a morte que devora tudo
nas entrelinhas ilegíveis de Einstein.

Ademar
18.12.2007


dezembro 17, 2007

Improviso sobre uma tela...

Todos os silêncios que embrulhas e me ofereces
têm a vida dentro a vida toda
essa respiração distraída
nos olhos que se cansam tão depressa de ver
tenho fome de palavras
que não me pertençam
atrapalho as noites
nas duas mãos que te sobram.

Ademar
17.12.2007

dezembro 16, 2007

Improviso ainda gramatical...

Nunca entenderei nunca
repito o advérbio de tempo
para que o verbo
ainda que no futuro
não se sinta tão só
o entendimento
nunca conjuga na primeira pessoa do singular
nunca
mas se me concederes o teu pronome
entenderemos os dois
talvez no presente do indicativo.

Ademar
16.12.2007

Improviso para voltar ao princípio...

Ponte suspensa sobre um leito de cogumelos
e nenhuma margem antes ou depois
não tenho mãos nem olhos para a colheita
apenas um precipício para saltar
se não temesse errar o salto e morrer contigo
cresces não sei de que chão
há fungos de formas que me confundem
silêncios que não ouço dentro de mim.

Ademar
16.12.2007

dezembro 15, 2007

Improviso para completar a ausência...

Morro talvez mais depressa
do que a própria morte contava
errei a janela do tempo
e troquei sem regresso a direcção das asas
quando os pés já tropeçavam
agora nem a voz me pertence
apenas as mãos que ainda escrevem
a distância na noite imprevista
as grades impostas à saudade
a trela tão lassa
dir-te-ei fugitiva que me sinto credor
de uma morte que não suba nem desça montanhas
em silêncio.

Ademar
15.12.2007

dezembro 14, 2007

Improviso para adormecer o silêncio...

Corri quilómetros de palavras
para chegar aqui
à margem menos distante do lago
de todas as sombras
desacorrentei memórias
de outros silêncios
para não ir ao fundo
talvez seja inútil dizer-te
que não há noite
em que a lua adormeça.

Ademar
14.12.2007

dezembro 13, 2007

Improviso para negar a superstição...

Todas as noites servem
para Sherazade
não importa a fase da lua
nem a face
todas as noites
o mesmo eco que respira
o mesmo silêncio
a mesma teimosia
e o mesmo implícito convite à voz do dia seguinte
na distância de todas as noites
talvez morramos amanhã
sem conhecer o fim da história
talvez amanhã seja
a milésima segunda noite
que não chegou a ser escrita
amanhã sexta-feira
mas já não dia treze.

Ademar
13.12.2007

dezembro 12, 2007

Improviso outonal...

Tenho imagens de cogumelos nos olhos
e de azevinho e musgo
como nos presépios da infância
e ainda sinto o frio nos pés da manta morta
adormecida no chão do outono
não sei se todos os cogumelos crescem assim
numa quase indiferença por quem passa e os colhe
ou não
recordo a espontaneidade e o silêncio das sombras
reflectidas na água
diante desse altar em que apetece sempre sacrificar a renúncia
volto a fechar os olhos
e dirijo a mão ao teu peito
que uma vez mais desperta
dois cogumelos selvagens
mais do que perfeitos.

Ademar
12.12.2007

dezembro 11, 2007

Improviso para dizer da técnica de educar os cães...

Tantas palavras desencontradas
tantas pessoas dentro de uma só
tantas esquinas tantas encruzilhadas
a arte ou a sabedoria
de esperar sempre o inesperado
e a paciência e a teimosia
o silêncio de quase todas as horas
e raras vezes a euforia
tantos gestos que naufragam o entendimento
não há rio de caudal mais incerto
não há cais tão cheio e tão vazio de outra gente
podes vir com a multidão
ou ainda mais ausente
mostra-me as mãos
mostra-me os dentes
e fala-me outra vez da educação dos cães
que não ladram nem ganem
como se falasses apenas de uma condição
que ninguém melhor do que tu poderia conhecer
tu
que nasceste ou renasceste entre os lobos
nas vésperas do inverno.

Ademar
11.12.2007

dezembro 10, 2007

Improviso no condicional...

Se a vida fosse tão perfeita como as palavras
se as palavras capturassem a vida
e lhe impusessem algemas
se tudo fosse tão simples
como a noite que não cansa
nem sofre de insónias
se o sol não adormecesse sobre si próprio
se nenhuma manhã parecesse distinta
da anterior e da próxima
e se o metro nunca parasse
diante da janela dos teus olhos
se o medo não tivesse a forma de uma cela
talvez a vida pudesse ser mesmo
uma tapeçaria de palavras inúteis
um supremo desleixo de sentidos.

Ademar
10.12.2007

dezembro 09, 2007

Improviso para dizer obrigado...

Gestos que nunca se completam
palavras que ficam sempre por dizer
a porta que se abre
e um escudo que recolhe as mãos
ou seria um elmo?
há livros que nunca chegam tarde
poemas que viajam clandestinamente
colos que não cansam
por agora (dizes) fica tudo oferecido
agradecerei depois.

Ademar
09.12.2007

novembro 30, 2007

Improviso em forma de haiku para falhar a contabilidade dos meses..

Erro sempre o calendário
das memórias
quando fevereiro não tem trinta dias.

Ademar
30.11.2007


novembro 29, 2007

Improviso para desenfeitiçar a noite...

Talvez a voz me falhe mais logo
quando o sol adormecer nos braços da lua
e a noite andar perdida de bar em bar
à procura da mesa em que ninguém me espera
perdoa-me o último cigarro
o último pedido antes do próximo
ou talvez da morte.

Ademar
29.11.2007

novembro 28, 2007

Improviso para estranhar o cais de que partes...

Entre tantas vozes
talvez reconheças a minha
e se não a voz
pelo menos o silêncio
entre as palavras
a respiração
a verdade irreparável de todos os medos
diante do espectro da fome que te devora
nunca sei a que mesa te sentarás
nunca sei se a montanha terá regresso
e eu estarei à espera
tens o hábito de partir
sempre que eu chego mais perto.

Ademar
28.11.2007

novembro 27, 2007

Improviso para antecipar a planície...

Já fui muitas vezes ao centro da terra
e não voltei

tenho as paredes grudadas à superfície das mãos
e tacteio apenas
erro as janelas e as portas
para sair
e fico sempre aqui
a escorrer pensamentos de clausura
há quem fuja para as montanhas
e não olhe para trás
talvez eu já não caiba em nenhuma tenda
talvez a noite lá fora
esteja ainda mais fria do que as palavras
que enregelam ao vento
talvez eu tropeçasse os caminhos
talvez errasse também os mapas
há passos em que o coração fraqueja
vivo agora mais próximo dos pés
que não troco
sei que nenhuma montanha é eterna.

Ademar
27.11.2007

novembro 26, 2007

Improviso para alvorar...

O medo não tem palavras
sofre de todos os gestos em que tropeças
esse abraço que não ousas
o olhar que recusas
as mãos que o pudor algema
e todos os silêncios que gritam
anoiteces sempre devagar
adiando a morte na alvorada.

Ademar
26.11.2007

novembro 25, 2007

Improviso para lembrar talvez a minha mãe...

Há palavras que convidam à infância
escrevo agora a palavra
puré
e regresso à mesa da Cruz de Pedra
ninguém fazia puré como a D.Laura
talvez fosse das batatas
ou do leite
ou da manteiga
ou do apuro no limite de todos os gestos
não há receita para a perfeição
também ninguém fazia como ela
o arroz de cabidela
dito
pica no chão
(nunca percebi porquê)
talvez um excesso de sangue ou de zelo
esse feitiço
de associar a memória a tudo o que enternece
"só vou porque quero que faças puré"
não fiz e vieste.

Ademar
25.11.2007

Improviso para memória talvez futura...

Poderia agradecer-te os violinos
em vez do piano
o colo talvez ao contrário
de tantas teclas
ou tantas cordas
a serpente enrolada assim
na amnésia da infância
e a fome da montanha que sorri
a outras fomes
poderia agradecer-te a conivência
da mantra
se o Tibete não estivesse tão próximo
ou tão longe.

Ademar
25.11.2007

novembro 24, 2007

Improviso para tela ou algo mais...

Sobre a mesa do tamanho da noite
uma vela
e no olhar que acende a lua
uma chama
talvez faltem sombras na tela
ou luzes ainda
sobram apenas duas mãos.

Ademar
25.11.2007

novembro 22, 2007

Improviso em forma de haiku para dizer a ausência...

Nenhum nevoeiro
dura mais do que o tempo de uma vida
há sempre uma luz que o desvenda.

Ademar
22.11.2007


Improviso em forma de baloiço...

São penas
senhora
são penas
penas que se colam ao corpo
por fora
e por dentro
penas
que nem a escuridão disfarça.

Ademar
22.11.2007

novembro 21, 2007

Improviso erm forma de paleta...

Coloca-se o granito no centro da tela
das nuvens
e o outono parece soluçar
tonalidades distraídas
o nevoeiro nasce nos olhos
e desce lentamente gota a gota
sobre as mãos do pintor
que cega
há um rio que atravessa a tela
de lés a lés
e que ninguém vê
a água inunda tudo
nenhum horizonte distingue depois a solidez do chão
que tropeça.

Ademar
21.11.2007

novembro 20, 2007

Improviso entre margens...

Talvez amanhã não chova
talvez possamos ainda submergir
o universo nunca é tão líquido
como quando o soletramos assim
ouve
talvez não precisemos de mapa
para lá chegar
as mãos e a memória bastarão.

Ademar
20.11.2007

novembro 19, 2007

Improviso para mergulhar o outono...

Sim eu sei
não há coletes salva-vidas que me sirvam
ninguém toca estas cordas
com a exacta delicadeza e precisão
dos dedos das minhas mãos
arranham-me sempre
arranho-me sempre
de vez em quando
há mesmo uma parte de mim que quebra e que rompe
notas que quero dar e não dou
simplesmente desafinamos.

Ademar
19.11.2007

novembro 18, 2007

Improviso em forma de súplica...

Quando eu morrer
não digas por favor a ninguém
ninguém precisará de saber
que falhei
que errei as palavras
que errei os olhos
que errei as mãos e os pés
que errei o corpo
quando esperavas talvez outro
não digas a ninguém
que fiquei à porta
ou que me bateste com ela
diz apenas que tropecei em mim
e não tiveste força para me levantares.

Ademar
18.11.2007

Improviso para abrir a porta à noite...

Talvez o universo não dure tanto
o tempo encolhe à nossa volta
e dentro de nós
talvez se mergulhasses
eu fosse o peixe abandonado entre as casas
que já deixaram de o ser
a chuva voltará agora a inundar-me
não sei se já nadei mais confiante
tenho dias em que ainda me estranho
em que me peso de mais no fumo do cigarro
que te distrai
palavras em que ainda nos perdemos
quando respiram mais forte do que tu.

Ademar
18.11.2007

novembro 17, 2007

Improviso para desiludir a tristeza...

Agora as pedras têm a morte no rosto
e os meus olhos mendigam o fogo
que a noite enregela
há mil e uma sombras acampadas
neste deserto
que só um silêncio iluminaria
acendo mais um cigarro e tusso
nenhum arco toca as cordas
deste violoncelo esquecido
há um sentimento de abandono
que quase sorri à tua tristeza.

Ademar
17.11.2007

Improviso proactivo...

Não tenho mais perguntas
para te fazer
poupo o silêncio
e a mentira.

Ademar
17.11.2007

novembro 16, 2007

Improviso para muitas teclas e quatro mãos...

Ninguém me trata tão mal
ninguém me trata tão bem
mas o bem que tu me fazes
e o bem que eu te faço
não cabem nas palavras
que nos dizemos
nem cabem nas palavras
que nunca me dirás.

Ademar
16.11.2007

Improviso para lembrar uma aldeia submersa...

Há nocturnos
em que as teclas se misturam com as tuas mãos
nunca sei quando tocas
ou alguém toca por nós
já não te faço perguntas
a que sei que não responderias
tenho apenas olhos para a partitura
de todos os teus silêncios
todos os dias espero
uma espécie de milagre
a chave na porta
o segredo nas palavras
algo parecido com a esperança
ou com o amor
sim essa quase irrelevância
que jamais pronunciaste
sabes bem que não mereço menos do que isso
que nenhuma luz é tão injusta
como o sol de setembro que nos trai
depois da tempestade e da bonança
o regresso ao domingo de todos os inícios
o comboio esquecido no cais da descoberta
e apenas um pouco mais de confiança
na certeza do outro
digo
a tua própria respiração.

Ademar
16.11.2007

novembro 15, 2007

Improviso quase tibetano...

As vibrações entrarão e subirão pelos pés
descalcemo-nos então
para que a morte finalmente relaxe
não importa o que as palavras digam
ou como soem
o chão abraça-nos
no sorriso amarelo da lua
e há marés que nunca desistem
respira por isso ainda mais devagar
não tenhas pressa
que o dia de todas as promessas
está quase a chegar ao fim
e tudo entre nós
voltará sempre ao princípio.

Ademar
15.11.2007

novembro 13, 2007

Improviso para completar a alma...

Vestes sombras
para que nem os olhos te dispam
conheço-te apenas
das evidências do deserto
quando até o sol parece sufocar
no regaço dos teus silêncios.

Ademar
13.11.2007

novembro 12, 2007

Improviso para dizer amores impossíveis...

Há verdades frias sem espelho
que sofrem a injustiça e a brutalidade
com uma venda nos olhos
eu sei e tu sabes
viagens interiores que têm de ser interrompidas
antes que o ar nos falte
e tudo à nossa volta
digo
dentro de nós
desabe e se fragmente
não te enfureças
ninguém entenderá estas palavras
senão tu
tu que te desconstruíste para elas
que ouviste o eco de todos os sintomas
e não choraste
abraçada ao mensageiro da tarde
talvez tardio
eu sei e tu sabes
que a esperança que nos sobra
é a esperança toda que te consintas
pudesse eu aventurar-me nas grutas do teu cérebro
recuar à fonte de todos os silêncios e torpores
pudesse eu apagar a dor o sofrimento a angústia
no quadro preto da tua infância
onde tudo reside
ou pudesse eu simplesmente
deixar de me preocupar contigo
não partilhando mais o teu mistério e a tua condição
eu sei e tu sabes
que este segredo é muito maior do que nós
um pacto de sangue
e de sobrevivência
talvez percebas agora
por que não cabe nele mais ninguém
senão o desespero.

Ademar
12.11.2007

novembro 11, 2007

Improviso diarístico...

De vez em quando um dia assim
em que nos oferecemos
palavras adiadas
palavras suspensas
sobre o esboço das paredes interiores
do labirinto
portas e janelas que só abrem
para dentro
e a luz que raramente respira.

Ademar
11.11.2007

novembro 10, 2007

Improviso para Laika...

O último lugar para mendigo ou cão vadio
como num tango de Piazzolla
a impaciência do violino à porta
sem cordas
e a esmola de nenhuma luz
entre tantas sombras
um cigarro no filtro
uma castanha apodrecida no chão
abandonado
e o amargo silêncio da noite
servido quase sempre em fúria
e a conta-gotas
talvez hoje a Laika
tivesse mais sorte
se uivasse assim.

Ademar
10.11.2007

novembro 09, 2007

Improviso sobre um mandado de busca...

Não bastaria que apreendesses
a caixa das memórias
terias que levar também
os computadores
e todos os papéis
e todos os poemas
os brinquedos
os armários que ainda cheirassem
as secretárias as mesas as cadeiras
as camas e os lençóis e as toalhas
e a casa toda
e ainda assim
sobraria eu.

Ademar
09.11.2007

novembro 08, 2007

Improviso para regressar de Granada...

Até um dia
há sempre um dia
no intervalo de todas as viagens
para fazer escala
e regressar a casa
um dia que ninguém sabe quando será
amanhã ou depois
ou depois ou depois
esse dia talvez de regressar enfim de Granada.


Ademar
08.11.2007

novembro 07, 2007

Improviso para acertar o relógio...

Folheias a vida assim
deixando tantas páginas em branco
no lado mais luminoso de ti.

Ademar
07.11.2007

novembro 06, 2007

Improviso para soletrar a noite...

Hoje não me apetece morrer
porque amanhã será quarta-feira
talvez de cinzas
ou marés ainda mais altas
o meu calendário tem um destino dentro
que não me pertence
antecipo sumários
de aulas que nunca darei
escrevo poemas com chave
para uma única fechadura
e soletro a vida
nesta quase nudez de sentimentos
digo mudez
talvez a noite aqueça nas palavras
ou fique ainda mais fria
no silêncio que sempre nos despe.

Ademar
06.11.2007

novembro 05, 2007

Improviso autobibliográfico...

Acumulo páginas de mim
para leres
ou para apenas desviares o olhar
há dias em que me sinto
um cadáver de palavras
uma voz que o deserto calou
na erosão antiga do fogo.

Ademar
05.11.2007

Improviso quase insignificante...

Desconheço as leis do cansaço
morrerei a viver intensamente.

Ademar
05.11.2007

novembro 04, 2007

Improviso para antecipar um aniversário...

Quatro de novembro
mais dez e serão catorze
trinta e nove
há contabilidades
a que só a poesia dá sentido
e a solidão
essa solidão despida de compromissos
que te cerca por dentro
e que te seca
as mãos vazias de compaixão
os olhos famintos de paz
e o eterno embaraço de existir assim
entre tantas lágrimas que não choram
tantas noites por dormir
tantas camas por fazer e nenhuma
a indiferença que interiormente te mutila
e esse silêncio repleto de nada e de tudo
em que viajas
numa asa apenas de ti
talvez agora já não escrevas sobre precipícios
trocando as silabas
talvez agora não queiras morrer mais assim
errando a gramática e a vida.

Ademar
04.11.2007

Improviso para desesperar milagres...

Todos os passos hoje me doem
arrasto uma parte de mim
em direcção ao que não sei
as mãos viajam nas palavras
e tropeçam nas palavras
e caem nas palavras
as janelas não abrem
para fora nem para dentro
nem as portas
não entra ninguém
e eu espero sempre
devo ter vocação para cais
os barcos morrem lentamente nos meus olhos
soletro uma vez mais o pôr-do-sol.

Ademar
04.11.2007

novembro 03, 2007

Improviso para dizer o fogo...

Há em ti
uma criança que nunca chegou a nascer
e é nessa falha que tudo reside
o medo simplesmente de crescer.

Ademar
03.11.2007

Improviso para massajar as pupilas...

Quando a luz parece cegar-nos
desviamos o olhar
para outras luzes menos instantes
ou simplesmente
fechamos os olhos para não ver
o vício da escuridão enfraquece as asas
para o voo.

Ademar
03.11.2007

novembro 02, 2007

Improviso de sol a sol...

No princípio
éramos apenas nós
no fim
voltaremos a ser
na saudade do berço
não cabem triângulos eternos.

Ademar
02.11.2007

novembro 01, 2007

Improviso para memória futura...

Semeio apenas memórias
no chão tão pouco firme que rastejas
uma balada simplesmente
imagens de fontes e rochas e povoados
que quase se parecem contigo
uma casa abandonada algures
entre carvalhos e pinheiros nórdicos
e castanhas ao alcance de todas as mãos
um pouco aquém do trilho dos ursos
e depois um Bach menos estóico
enquanto a noite acaricia lentamente
as tuas pernas
silenciando-as
sim
não são precisas palavras grandiosas
quando os dias desafiam assim a perfeição.

Ademar
01.11.2007

Improviso retirado dos evangelhos...

Estende-se o corpo sobre a mesa
como sobre um altar
e come-se
não são precisos talheres nem guardanapos
nem toalhas
nem pratos
basta a fome
e o tampo em que o desejo repousa
esso tempo infinito de saudades.

Ademar
01.11.2007

outubro 31, 2007

Improviso no cais...

O eterno retorno
à condição original
esse barco sempre incerto
que se oferece à rebeldia das ondas
como se aspirasse sempre a dobrar os cabos
da boa esperança e da má
o impulso de todos os embarques e desembarques
a insustentável leveza dos seres
que nunca adormecem as noites
que partem quando deviam ficar
barcos que não regressam
porque nunca saem do cais
e atravessam os dias
e atravessam os meses
e atravessam os anos
e a partida é sempre a chegada
e a chegada uma partida
o tempo que não chegou a pertencer-nos
e a vida que parece sempre adiar-nos
o eterno retorno
à condição original
hoje o comboio desesperou por ti.

Ademar
31.10.2007

Improviso tumular...

Quando eu morrer de palavras
faz de todas as saudades uma lápide
e semeia-me todos os dias
de rosas vermelhas
para que sempre renasça.

Ademar
31.10.2007

outubro 30, 2007

Improviso entre lados...

Um lado de ti
em que tudo é muito simples
duas agendas
duas disponibilidades
o encontro possível
entre poucas palavras
e a ilha depois
e o outro lado
em que nenhuma intensidade se desperdiça
duas vidas
e outras tantas exigências de perfeição
o encontro necessário
entre muitas palavras
e as montanhas depois.

Ademar
30.10.2007

Improviso fraternal...

Dá-me o braço
dá-me a mão direita
com que escreves
dá-me um pouco da tua coragem
pousa os dois cotovelos sobre a mesa
à distância certa do teclado
e apoia a vida neles
não haverá luto que te faça.

Ademar
30.10.2007

outubro 29, 2007

Improviso para celebrar a incompletude...

Todas as noites
tirando os enganos
a esquina das palavras
onde sempre nos vemos
nenhum relógio
nenhum compromisso
apenas a certeza de alguém
apenas a certeza de nós
sempre incompletos
assim.

Ademar
29.0.2007

Improviso para antecipar Novembro...

Um dia depois
um ano depois
sim
vivemos todos à beira do precipício
de nós mesmos
saltar
só mesmo para fora
de uma porta
de uma janela
desse tempo breve de sair e voltar
uma vertigem apenas
um quase desmaio
um esquecimento entre memórias sempre voláteis
e o regresso inexorável
ao princípio de tudo
e às grades interiores
palavras calibradas pelo medo
de existir de outra maneira
um dia depois
um ano depois
sim
que dirás?

Ademar
29.10.2007

outubro 28, 2007

Improviso para tentar responder a uma pergunta irrelevante..

Perguntas-me
se é poesia ou prosa
eu respondo simplesmente
é vida ou
são apenas palavras
com o sentido que me dou.

Ademar
28.10.2007

Improviso para dizer 25 horas...

Hoje anoiteceu mais cedo
e tu voltaste a faltar à chamada da lua
o prato sobre a mesa
continua à espera
e a vida também
tens razão
talvez me internem hoje.

Ademar
28.10.2007

outubro 27, 2007

Improviso para explicar a evidência às aves de arribação...

Sim
é muito mais excitante procurar
do que encontrar
mas quem encontra
raramente procura mais.

Ademar
27.10.2007

Improviso para servir de tocha ou de pira...

Não digas a ninguém de que morri
nem que estavas lá
tece apenas o segredo dos improvisos
e das viagens que não chegaste a fazer
e resgata os filmes
ou incinera-os comigo
arderás também um dia.

Ademar
27.10.2007

Improviso madrugador...

Há manhãs no outono em que o sol
viaja trenós de silêncio
parecendo secar todos os ventos
atira agora uma pedra ao espelho da água
e fá-lo explodir em mil e um pedaços de luz
talvez sobre uma imagem
ainda mais nítida de nós.

Ademar
27.10.2007

outubro 26, 2007

Improviso em sol maior...

Ouço na noite o silêncio dos teus passos
a lua cheia
e a memória da serpente que me trouxe a casa
num rasto de sangue que abraçava o horizonte
nenhum futuro é tão certo como esta dúvida
que despidamente me prende às palavras.

Ademar
26.10.2007

outubro 25, 2007

Improviso entre noites...

Tenho os olhos vestidos de imagens
e vou atrás de palavras que me fogem
troco os passeios sim
para não me encontrar na rua
sigo pelo lado mais ausente de mim.

Ademar
25.10.2007

outubro 24, 2007

Improviso para não fugir...

Não vou embora
não saberia sequer de portas ou janelas
para sair de mim
de resto
como sabes
nunca lavo o corpo para os lençóis
entro pela noite dentro
com todos os suores do dia
e ofereço-me inteiro
todas as manhãs
ao teimoso milagre da ressurreição.

Ademar
24.10.2007

outubro 23, 2007

Improviso entrelinhado...

Nenhum diagnóstico poderia ser tão definitivo
digo
tão demolidor
sim é verdade
sofro de intuições
estou sempre muito além de mim
ou muito aquém
nunca vejo o que os olhos me contam
tenho entrelinhas na alma.

Ademar
23.10.2007

outubro 22, 2007

Improviso em forma de bússola...

Há um cais que nunca viaja
entre barcos que fogem ou se distraem
um ancoradouro sempre próximo
ao alcance do mergulho das tuas ondas.

Ademar
22.10.2007

outubro 21, 2007

Improviso para harpa e oboé...

Nenhuma viagem regressa ao cais de partida
mas há viagens que têm tudo
para ser eternas
quando não cabem estreitamente nos mapas do déjà-vu.

Ademar
21.10.2007

outubro 20, 2007

Improviso breve sobre "the best revenge is massive sucess", de Frank Sinatra...

Não sei na verdade
quem mais lamento
mas alguém errou a voz
ou talvez a máscara.

Ademar
20.10.2007

outubro 19, 2007

Improviso sob a forma de talvez...

Talvez tenhas mordido
talvez tenhas silenciosamente interrogado
a confusa intimidade das mãos
talvez agora até duvides e hesites
as esquinas da luz
ou talvez ainda seja cedo para a verdade
a verdade desta poesia sempre presente
na viagem de todos os destinos.

Ademar
19.10.2007

outubro 18, 2007

Improviso para não voltares a dizer essa palavra...

Ninguém vale o que diz de si
mas o que oferece
nenhum substantivo nos esgota
apenas a dor que nos impomos
nenhuma sombra
nenhum silêncio
nenhum engano
só a fúria do deserto nos olhos
e nas mãos.

Ademar
18.10.2007

outubro 17, 2007

Improviso para me dizer talvez muito pouco culto, inteligente e respeitável......

A morte bate-me à porta
e fica à espera
peço-lhe pelo postigo
que deixe a notícia e se vá embora
não
diz ela
tenho de ver como tremem os teus olhos
abro a porta e convido a morte a entrar
nem ela reconhece a máscara de Veneza
sobre o rosto que lhe nego
a proibição do esquecimento.

Ademar
17.10.2007

outubro 16, 2007

Improviso em forma de haiku sobre o engano da fuga...

Nenhuma viagem tem destino de ausências
todos os movimentos de rotação e translação
começam e acabam no centro de cada um.

Ademar
16.10.2007

outubro 15, 2007

Improviso para dizer em francês...

Se me olhasses assim
se me falasses assim
se me cantasses assim
e se me dissesses assim que eras infiel
e porém me amavas
de um amor ouvido apenas ao sábio imortal
se usasses a mão esquerda para não calar apenas
as lágrimas o pudor e as dúvidas
e não cansasses no outono
em que ambos nascemos
se fosses mais do que a superfície das águas
e nadasses muito acima de ti
e não te ajoelhasses diante dos altares
que todos te oferecem
talvez as minhas palavras fossem inúteis
e Novembro e Dezembro
entre nós
não tivessem futuro.

Ademar
15.10.2007

outubro 14, 2007

Improviso para rever o silêncio...

Hoje rastejei aos pés da lua
para que ela não desertasse
hoje arrumei o armário de todos os brinquedos
e teci lentamente uma saudade de odores
hoje lavei toalhas e lençóis
e cozinhei a pescada de todos os domingos
hoje peregrinei imagens e fiz de conta
e quase fui feliz.

Ademar
14.10.2007

outubro 13, 2007

Improviso sobre o espaço e o tempo...

Tempo e espaço
o tempo que mingua da eternidade
e o espaço infinito
que só não cabe no coração falível
o tempo emagrece nos astros minha amiga
e o espaço tem a forma de uma cela
sem grades
esse tempo que já não me pertence
esse espaço que adoeceu mortalmente nas minhas mãos.

Ademar
13.10.2007

outubro 12, 2007

Improviso bipolar...

Entre o fogo e a cinza
entre a nascente e a foz
entre o dia e a noite
entre o instinto e a ternura
entre a presença e a ausência
o sim e o não
entre a culpa e o arrependimento
entre a verdade e a mentira
entre a estátua e a vida
entre a lágrima e o grito
o sim e o não
entre a paz e a guerra
entre a solidão e a multidão
entre o dever e o prazer
entre a fome e o enjoo
entre a coragem e a cobardia
o sim e o não
entre a espera e a viagem
entre a energia e o cansaço
entre a certeza e a dúvida
entre a vertigem e a dedicação
entre a liberdade e o carácter
o sim e o não
entre as duas faces de Juno
entre as duas margens do silêncio
entre dois abraços e duas urgências
entre dois compromissos
entre duas exigências
entre duas paixões
o sim e o não
sempre.

Ademar
12.10.2007

outubro 11, 2007

Improviso para distrair o crepúsculo...

Retenho a data
no rodapé do primeiro filme
há uma porta fechada
e nenhuma sombra
e muitos braços erguidos
celebrando a eternidade
uma espécie de comunhão de luzes
e fios de azeite
revejo os gestos que esvoaçam
e os gritos que não mentem
e não adivinho o outono
todas as janelas estão abertas
sobre o mar
e nenhuma onda nenhuma ameaça
pressagia este crepúsculo.

Ademar
11.10.2007

outubro 10, 2007

Improviso para E..., com Gluck em fundo...

Caminhavas devagaríssimo
como se apenas soletrasses os passos
e já não tivesses olhos ou mãos para ninguém
todos os rios sim têm duas margens
menos o teu
que submerge na corrente
antes de nenhuma foz
soluçavas devagaríssimo
como se apenas soletrasses as lágrimas
e já nenhum arrependimento as pudesse conter
todos os rios sim têm duas margens
menos o teu
que submerge na corrente
antes de nenhuma foz.

Ademar Santos
10.10.2007

outubro 09, 2007

Improviso trovadoresco...

Há nos olhos da minha amiga
persianas
que não abrem nem fecham com a luz
há nos dedos das mãos da minha amiga
impressões de muitas identidades
há no corpo da minha amiga
manchas
que nenhum planisfério localiza
há nas vibrações da minha amiga
um pêndulo interior
que não reconhece as leis da gravidade
há no peito da minha amiga
relevos
que espreitam e desafiam o desejo
há nos cabelos da minha amiga
um cheiro único a flores extintas
há nos silêncios e nos gritos da minha amiga
um desleixo antigo de destinos e de palavras
e há nos gestos da minha amiga
litorais sem água
desertos sem areia
atmosferas sem oxigénio
altares sem deuses
precipícios escritos de qualquer maneira.

Ademar
09.10.2007

outubro 08, 2007

Improviso para iluminar o buraco-negro da lua...

Que a lua complete a sua viagem de rosas
e não descanse sobre o patamar de nenhuma sombra
que todos os sóis a dispam lentamente
e ela reconheça finalmente as fronteiras
da sua própria galáxia.

Ademar
08.10.2007

outubro 07, 2007

Improviso contabilístico...

Arrumou as velas para que ele não visse
arrumou as camas para que ele não coubesse
arrumou os gritos para que ele não ouvisse
arrumou as memórias para que ele não soubesse
arrumou os brinquedos para que ele não brincasse
arrumou o corpo para que ele não batesse
arrumou a alma para que ele não imitasse
arrumou a toalha o pijama as cuecas os chinelos
e continuou a cerzir a paciência
do amante que nunca desiste.

Ademar
07.10.2007

outubro 06, 2007

Improviso para mapear a tua rua...

Da tua varanda deve ver-se a rua
e do outro lado dela
o mundo de que te escondes
entre sombras e grades
e todos os segredos
as costas que ofereces às palavras que sangram
para que ninguém se perca na cobardia dos teus olhos
o pudor doentio dos espelhos
o pânico do lugar da identidade
o desespero de todas as evidências interiores
a vertigem do engano do risco e da fuga
da tua varanda deve ver-se a rua
e pouco mais do que ninguém.

Ademar
06.10.2007

outubro 04, 2007

Improviso para ir ainda mais longe...

Há viagens de que nunca chegamos
ainda que os cais por vezes se encontrem e desencontrem
na linha do destino
há viagens que respiram o exterior das janelas
e que sangram apenas por dentro.

Ademar
04.10.2007

Improviso para iluminar as noites...

Depuro a verdade
até ao osso da evidência interior
e abraço sempre um fio de claridade
no horizonte de todas as nuvens.

Ademar
04.10.2007

Improviso quase outonal...

Adoeço agora das mãos
soletrando mentiras
parece que era um jogo
um jogo de cartas viciadas
e eu andava distraído
o amor distrai.

Ademar
04.10.2007

outubro 03, 2007

Improviso flutuante...

Flutuar sobre um campo de ausências
e não ver mais do que nuvens
ou sombras delas
pouco vale a poesia
quando o instinto viaja
e nenhum compromisso permanece
há mais verdade nos amantes
do que a sua circunstância.

Ademar
03.10.2007

Improviso no lugar do instinto...

Os braços não abraçam todos por igual
não há duas vozes confundíveis no silêncio das madrugadas
nem as palavras são indiferentes
as mãos não agarram e acariciam todas da mesma forma
todos os gestos têm alma e bilhete de identidade
ninguém substitui ninguém
mas só os deuses costumam acertar a saída efémera
no emaranhado labirinto das paixões.

Ademar
03.10.2007

outubro 02, 2007

Improviso para berçar...

Que farei para que a luz
regresse ao lugar de todas as origens?
baloiçarei docemente o berço
para que ninguém caia dele
antes do tempo da saudade.

Ademar
02.10.2007

Improviso para abrir e fechar gavetas...

Dispo o armário
para que as sombras respirem
e volto a beber da vida do fetiche
que deixaste
agora há sempre pouca luz neste quarto de lentas inseguranças
e os fantasmas entretêm as tardes
jogando em castelhano um confuso xadrez de memórias
amanhã já foi quarta-feira.

Ademar
02.10.2007

outubro 01, 2007

Improviso para servir de baloiço...

Escrevi hoje palavras que não leste
palavras que não tiveram destino
afogadas na corrente deste rio
que corre à solta entre nós
não há palavras que salvem as noites
do deserto
mas há palavras que mudam a vida
quando simplesmente baloiçamos nelas.

Ademar
01.10.2007

setembro 30, 2007

Improviso tumular...

Se a vida me perder
não digas a ninguém que morri.

Ademar
30.09.2007

setembro 29, 2007

Improviso sobre uma tela de Paula Rego...

prego3.jpg
Paula Rego, "Girl on a large Armchair" (2000)


Já subiste a todos os altares
e desceste
o teu corpo pequeno cabe em todas as mãos
e não há arrojo
que os teus dentes não mordam
sim eu sei
o chão sempre longe dos pés
e o precipício ao alcance de todos os abraços
serias feliz numa nuvem
se houvesse nuvens sem portas nem janelas.

Ademar
29.09.2007

Improviso para pedir a noite...

Hoje abri a janela para que não fugisses
e retirei as grades
cabem finalmente no horizonte
todas as dúvidas
nenhuma prisão entre nós
será preventiva
nenhuma morte
definitiva
as memórias dançam nos olhos distantes
desafiando a cobardia natural das palavras
não há verdades em cima da mesa
nem por baixo
há apenas espelhos
e pesadelos trocados
e todo o assombro das mãos dadas
que desvendam a noite.

Ademar
29.09.2007

setembro 28, 2007

Improviso recolhido em Sophia...

Nada deveria escrever-se assim
no absurdo mistério das sextas-feiras
como se tudo deixasse de ser
e já só o vácuo nos respirasse
a vida sim
deveria ainda fazer algum sentido
entre a morte e a sua bruma
um sentido poupado à geometria da indiferença.

Ademar
28.09.2007

setembro 27, 2007

Improviso para iludir o rei da Pérsia...

Celebro todas as noites
Sherazade
adiando a lâmina que me degole
e o fim da história
acendo velas
abro e fecho gavetas de tantas memórias
liberto papéis na secretária despida
e danço ainda
a embriaguez das palavras que nos sobram
lentamente
continuando a soletrar as noites.

Ademar
27.09.2007

setembro 26, 2007

Improviso para distrair o cansaço dos dias sem retorno...

Pudesse eu ignorar
que as tuas mãos tropeçam
partituras em dó maior
e mordem as teclas
quando a lua falece
pudesse eu não ver
os palhaços chorando nos teus olhos.

Ademar
26.09.2007

setembro 25, 2007

Improviso apressado...

Tenho menos de meia hora para escrever um poema
uma quase eternidade de palavras
a lua cheia
e a noite desabrigada
antes do silêncio das vozes
hoje não morro
colecciono fins de semana.

Ademar
25.09.2007

setembro 24, 2007

Improviso para E...

Não há morte que te arraste comigo
em deslembranças
tenho nos olhos a perfeição dos teus gestos
e quase poderia dizer
que me embriago todas as noites assim
entre a lua e o teu reverso
hoje tens visitas de lágrimas
chorarei um copo contigo.

Ademar
24.09.2007

setembro 23, 2007

Improviso para uma mosca...

Uma mosca pode resumir o sentido todo do universo
se o universo tivesse sentido algum
ainda assim
na dúvida
deixo-a pousar no meu ombro
e releio a Metamorfose
há uma verdade nesta mosca
que me interroga
uma verdade literária talvez
mas quem me garante
que a literatura não cumpre a vida?

Ademar
23.09.2007

setembro 21, 2007

Improviso ao jeito de antevisão...

As almofadas embalam sozinhas
os cabelos ausentes
o plasma ainda sussurra o grito dos teus olhos
escondendo o espelho de todas as algemas
e sobre a mesa o cinema
e aquém da tela
o braço que adormece lentamente a madrugada.

Ademar
21.09.2007

setembro 20, 2007

Improviso para dizer por que nunca irei à fábrica dos milagres...

Os meus segredos não valem
uma peregrinação a fátima
não escondem nada
não esperam nada
senão o milagre impossível.

Ademar
20.09.2007

Improviso em forma de pedido de desculpa...

Embrulho-me nas palavras
anoiteço nelas
quando só as palavras nos viajam
sim
sei que por vezes as palavras te adoecem
sobre todas as nuvens e precipícios
há muitos embaraços nas palavras
e muitas grutas que espreitam apenas o horizonte
mais do que nos olhos e nas mãos
e nos olhos de todas as mãos
uma espécie de cansaço antigo
quase tão antigo como a mais remota origem
de todos os silêncios.

Ademar
20.09.2007

setembro 19, 2007

Improviso quase laboral...

Irrepetível a chuva
nenhum precipício
a esperança fatigada
e o diário do trabalho
do trabalho
do trabalho
sobre pedras encantadas
o instinto ainda em férias
ou um pouco menos de azul.

Ademar
19.09.2007

setembro 17, 2007

Improviso quase tecnológico...

O antivírus
és tu
nenhum software redime
o caos da tua ausência.

Ademar
17.09.2007

setembro 16, 2007

Improviso para desafiar Hércules...

Há quem peça apenas razões para acreditar
que tempo e eternidade não são sinónimos
e que a noite não adormece apenas cadáveres
há quem sempre acorde na esperança da luz
e nunca desista
que nenhum escultor dispensa
a verdade do cinzel interior.

Ademar
16.09.2007


setembro 15, 2007

Improviso sobre o tempo das marés...

As marés dançam o tempo
enquanto o cais espera
há vida a menos no cais
e as ondas namoram-no devagar
palavras que despertam manhãs
as mesas incertas na esplanada
o café
o cigarro
os jornais
e o baloiço sempre adiado
são horas de fazer o almoço
que agora o tempo dança sozinho.

Ademar
15.09.2007

setembro 14, 2007

Improviso em forma de haiku sobre o tempo...

Falta-me o tempo que te sobra
há vidas que falham
em contramão.

Ademar
14.09.2007

Improviso sem chave...

São muitas chaves
para uma única fechadura
e em nenhuma porta
há celas que só se abrem por dentro
horizontes que apenas servem de cárcere
a tua liberdade
é uma fadiga de segredos
um bordado de silêncios que gritam.

Ademar
14.09.2007

setembro 13, 2007

Improviso incandescente...

No silêncio cabem as palavras todas
e todos os gestos
como em qualquer sonho
flores ou cinzas
memórias titubeantes
e o tempo que nunca urge na cela
a noite sempre entre grades.

Ademar
13.09.2007

setembro 12, 2007

Improviso para servir de roteiro interior...

Tão poucas horas têm os teus dias
e porém tantos segredos
tantos vagares
os dias são escadas
que desces até ao silêncio
tropeças o tempo
e nem dás conta das horas
que sobram
na mais íntima das tuas grutas
arrefeces.

Ademar
12.09.2007

Improviso fora de horas, na modalidade sacramento...

Na cama e na mesa
até que um amigo talvez nos separe
ou uma amiga.

Ademar
12.09.2007

setembro 11, 2007

Improviso enevoado...

Hoje trovejas
talvez chovam palavras geladas
amanhã será quarta-feira
ainda de cinzas
tomara que alguém te trouxesse
nas nuvens que caem.

Ademar
11.09.2007

setembro 10, 2007

Improviso sobre a pequenez dos gestos diários...

Sobre todas os espantos
sobram sempre a quietude
o pudor e a quase humildade
dos teus gestos
o que é grande
nunca deixou de nascer pequeno.

Ademar
10.09.2007

setembro 09, 2007

Improviso metereológico...

O gelo rebenta sempre no copo
da noite
o vento arrefece o prognóstico
do novo dia
amanhã talvez chova
a semana promete as trovoadas
de sempre.

Ademar
09.09.2007

setembro 07, 2007

Improviso para dizer que quase tudo é perfeito (nós é que ainda não sabemos)...

Outros olhares
espelhos diferentes
não importa o que as palavras mintam
a nossa verdade tem a exacta medida
do que somos.

Ademar
07.09.2007

setembro 06, 2007

Improviso em forma de especiaria...

A mesa está sempre posta
para quem não chega
também o pensamento
e o corpo
ou o que resta dele
todas as tardes morrem assim
devagar
à vista do cais
servirei talvez para nuvem.

Ademar
06.09.2007

setembro 05, 2007

Improviso em forma quase de silêncio...

Não tens palavras
para as palavras
que dirias
se as dissesses
sobram horizontes no teu cais
ou faltam
remos a mais ou a menos
para tão poucas mãos.

Ademar
05.09.2007

Improviso para exigir outra vida...

O tempo passa sim
há evidências tão vulgares como esta
podia ser diferente mas não é
não há palavras que enganem
a natureza das coisas
não há poesia
sobram sempre todas as dúvidas
e as palavras que as carregam.

Ademar
05.09.2007

Improviso de um ateu para Madre Teresa de Calcutá...

Hoje jantei ervilhas e acendi uma vela
celebrando dúvidas
o universo estava convidado
mas não apareceu
nem respondeu ao convite
o corpo de um cristo sobre a mesa
e o sangue
o milagre nas palavras
e a ausência delas
a lua adormeceu num buraco negro
e cantou em albanês outras galáxias.

Ademar
05.09.2007

setembro 04, 2007

Improviso para rebobinar o destino...

As mãos diante dos olhos
sempre
e as nuvens despindo-se
o longe mais próximo e mais íntimo
a orquestra que toca Lehár
como no filme de Visconti
e a tela em que adormeces
sim essas mãos são as tuas
só elas cabem nos teus olhos
e não há mais nuvens assim.

Ademar
04.09.2007

Improviso para adiar o requiem...

O cadáver sem corpo
o caixão que ninguém quer carregar
há mortes embaraçantes indesejadas
berços trocados
balas imperfeitas
que sobram pela culatra
incongruências
estranhezas estranhezas
a importância tão firme nas palavras
há-de valer muito mais do que isto
as pessoas não morrem assim
em nenhuma vida.

Ademar
04.09.2007

setembro 03, 2007

Improviso para distrair Granada...

Talvez do alto de Alhambra
uma harpa
e nenhum fogo nas encostas
desçamos agora novamente Realejo
façamos por exemplo o caminho inverso de Lorca
até à casa de verão
que a vida será sempre breve entre os tristes
que passeiam além de Elvira
e a madrugada que nos espera
entre Sacromonte e Albaicin ou
el amor brujo
de Manuel de Falla.

Ademar
03.09.2007

Improviso entecedor...

Tens teares de mim
rocas e fusos que nunca descansam
um futuro todo por contar
em silêncios que parecem sempre distraídos
poucas luzes e tantas manchas
lua abismada nas suas próprias marés.

Ademar
03.09.2007

setembro 02, 2007

Improviso para absurdecer...

Uma pausa nas palavras
um silêncio quase tonitruante
feitiços enleando-se
bruxarias
há quem brinque assim com o tempo
com a vida
rasgando partituras que pareciam geniais
a areia suspensa na ampulheta
o gelo a ferver
o absurdo da espera que tropeça
todos os segundos.

Ademar
02.09.2007

setembro 01, 2007

Improviso para contar estranhezas...

Já não sei o que estranhe
depois do estampido
abres a porta e dizes que está tudo bem
e eu volto a adormecer na distância da bala
que passou tão perto
ou ainda não chegou
pode ser sempre a última vez
ou a primeira
o destino tem a forma dos dedos da tua mão
hesito entre ser alvo ou gatilho.

Ademar
01.09.2007

agosto 30, 2007

Improviso sobre a covardia...

Os filmes arrumados e alinhados sobre a mesa
e o gestor sempre ausente
o arroz de tomate e a pescada
e o vinho por beber
o ananás que agora apodrece
e a toalha que ainda escorre
de uma porta sempre fechada
as manchas no corpo por cartear
e todos os silêncios originais
é indiferente
a cobardia hesita sempre na segunda consoante.

Ademar
30.08.2007

agosto 29, 2007

Improviso escrito numa parede de Cuenca...

Agora
já nem precisas de me enganar
regressarás triunfante ao engano de que nasceste.

Ademar
29.08.2007

Improviso em forma quase de agenda...

As palavras não dizem as mãos
nem os olhares
nem os gestos
no cofre das palavras
cabe apenas a mentirosa ilusão da consciência
essa imponderável espuma
que nenhuma noite retém
enforcamo-nos nas palavras
asfixiamos nelas
sim
a morte é um débito de palavras erradas
um tumulto interior
uma desordem
uma imprudência.

Ademar
29.08.2007

agosto 28, 2007

Improviso para desresponsabilizar o Tejo...

Todos os dias sinto que partes
ou que já não estás onde te espero
não importa se subiremos ou desceremos de novo
o Realejo
há mais longe do que isso
muitos séculos antes de nós
ainda as madrugadas não soluçavam silêncios
esse autocarro para Madrid que adormeceu no cais
e a porta que se abriu menos depressa do que o olhar
ajudar-me-ás sempre a decifrar o endereço
de luis de ruz
galego de tantas andaluzias
muito depois do dia em que morreu Antonio Puerta
sevilhano do clube da vida
a história pode sempre começar pelo fim
o postre
o coração que desiste de teimar
o precipício sobre que saltas intermitentemente
a atenção sempre dispersa
as mil vozes que te chamam
e a que respondes
tantas margens podem ter o teu rio
e finalmente nenhuma
lembra-te
tudo em Aranjuez é a fingir
menos o Tejo.

Ademar
28.08.2007

agosto 21, 2007

Improviso sem palavras sobre um postre...

postre1.jpg

agosto 20, 2007

Improviso sobre uma porta...

batente1.jpg

Sangue ou água
que importa o que calquem os pés?
alguém que bata à porta
das duas aldrabas
ou as mãos que finalmente conspirem
estas casas não têm rua nem cidade
abrem directamente para o universo
sob os nossos olhos geminados.

Ademar
20.08.2007

agosto 19, 2007

Improviso sobre a água...

cuenca.jpg

Pertence-te a metáfora do dilúvio
eu apenas contei do desespero da água
mendigando talvez aconchego
hoje passou cedo a ronda do lixo
oferecer-me-ei à madrugada para a reciclagem.

Ademar
19.08.2007

Improviso sobre uma imagem de Baeza...

cenariobaeza.jpg

Há crepúsculos em que ainda me crescem
olhos nas mãos
as ruas estreitas circundando a catedral
e o cenário que parece não ter princípio nem fim
da janela do quarto via-se a praça dos mapas
ou seria apenas uma fonte de universos
o hábito que faz os monges
ou a saudade tão próxima
lentamente tecida no tear da lua.

Ademar
18.08.2007

agosto 17, 2007

Improviso para flamencar...

cueva.jpg

Hoje não sei se os olhos dancem
ou chorem
ou sangrem
sei apenas que chegámos tarde
e os pés já não dormiram.

Ademar
17.08.2007

julho 27, 2007

Improviso para desamordaçar...

Há mordaças
anteriores a todas as máscaras
palavras aprisionadas na origem
pudores quase tão antigos
como a invenção da alma
essa mesma mordaça
que todas as noites te respira.

Ademar
27.07.2007

Improviso para regressar sempre a Doñana...

poema1.jpg

julho 26, 2007

Improviso em forma de duna...

Um gomo de uma flor
nunca te daria uma flor inteira
não tens necessidades de jardim
mas de deserto
dou-te pétalas
cobro-te miragens.

Ademar
26.07.2007

julho 25, 2007

Improviso para curar naufrágios...

Sobra sempre uma luz
para que os barcos não se percam
uma estrela talvez em forma de bússula
uma virgula apenas no horizonte
esse sorriso mesmo que esqueceste de pendurar à janela do farol
e só eu vi
há luzes que nunca se apagam
nos olhos naufragantes.

Ademar
25.07.2007

Improviso ao jeito de madrigal...

Mentir ao sol
não embaraça tanto como à lua
a noite desembrulha todos os sonhos
para os despir devagar
a noite cega.

Ademar
25.07.2007

julho 24, 2007

Improviso para explicar o génesis...

Umas vezes falo-te
outras falho-te
na ponte das palavras
nem sempre há lugar para o encontro
o diálogo muitas vezes tropeça
ou afunda
destreinaste a senha
digo
a password.

Ademar
24.07.2007

Improviso em forma de haiku para monossilabar...

Se tivesse monossílabos para te dizer
dir-te-ia em morse
para que nunca os ouvisses.

Ademar
24.07.2007

De vez em quando, uma surpresa que nos comove...

Chamaram-me hoje a atenção para este video disponível no youtube. O poema fui eu que o escrevi e publiquei aqui. Recordo-o em baixo.

Improviso lesa-pátria...

Tenho Portugal atravessado algures em mim
entre o cansaço e a desilusão
pátria género indefinido
macho nas caravelas e fêmea
na vaga espera de todos os solstícios
este excesso de luz que nos cega
esta modorra de negreiros extintos
farsa quase milenar de mascarados
Portugal das cenas do ódio
e de todas as ceias de cardeais
Portugal dos pequeninos
e das mais belas aldeias moribundas
em concurso de sombras
e da padralhada de junqueiro
arena antiga de toureiros e fadistas
e barões ao balcão da mercearia
Portugal também ele exausto
quase tanto como nós.

Ademar
26.02.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

julho 23, 2007

Improviso para forçar a luz...

Suspendo-te de casas
e de gritos
tenho a literatura toda
mas faltam-me as palavras
e os mapas
não sei viajar
antes de partir.

Ademar
23.07.2007

Improviso andaluz...

A noite descansará talvez um pouco mais tarde
por enquanto entardeço
adormecendo a luz que te pertence
respiro palavras a mais
e o coração tropeça a cidade
que escurece
o silêncio podia ser apenas uma ausência de metáforas
um grito sufocado na fronte
uma espécie de cegueira andante
mas hoje não
hoje atrapalho todos os altares em que te deito
e viajo apenas.

Ademar
23.07.2007

julho 22, 2007

Improviso quase líquido...

Uma asa é apenas meia imperfeição
e o olhar sofre amiúde de estrabismo existencial
hoje espero apenas que atravesses a chuva
e regresses a terra firme
para me lavrares.

Ademar
22.07.2007

julho 20, 2007

Improviso para servir de adágio...

Que o desejo todo caiba no cofre
e que o segredo ou a chave não se perca nunca
na tela ou fora dela
nem tudo o que sobra dos dias
se perde na noite.

Ademar
20.07.2007

Improviso para antecipar a tela...

monica.jpg

Bergman em doses moderadas
para quem é demasiado feliz
Mónica sempre e o desejo.

Ademar
20.07.2007

julho 19, 2007

Improviso quase perfeito...

Há respostas para que não tenho perguntas
como uma harpa sem cordas
que ainda se deixasse dedilhar
aquela harpa lembras-te?
que voou do altar da casa das artes
depois de ter perdido a serventia do toque
a ressonância do toque
e que já não chegaste a ouvir
quando os olhos ouvem
respostas que esperam perguntas
harpas que mendigam dedos
a tua harpa
a minha harpa
os nossos dedos.

Ademar
19.07.2007

julho 18, 2007

Improviso para adormecer as sombras...

À distância não me entendo com os gritos
à distância não me entendo com nada
o silêncio a fúria o chicote do monossílabo
o futuro falha aí
o lugar onde se perde a infância
pais nascidos sem mãos
pontes suspensas sobre a indiferença
digo-te
nunca vingarás em ninguém
o tempo e a dor do caçador ausente
por menos que te partilhes
por mais que hesites o ceptro da vassalagem
todos os homens são à medida
desse íntimo sacrário de descrenças
e nenhum afinal cabe inteiramente no desprezo.

Ademar
18.07.2007

julho 17, 2007

Improviso como agenda...

Fecho a janela
mas o ar continua a correr
abro a porta
e ninguém sai
tenho grades no pensamento
grades para fora e para dentro
sou uma espécie de cela intemporal
número de um processo
que nem existe em mim
abro-te os braços
e aperto o silêncio
gritando contigo.

Ademar
17.07.2007

julho 16, 2007

Improviso sob a forma de roteiro...

Perco-me entre cidades
e entre reservas
tenho uma mapa nas mãos
e viajo números
não sei se morresse
se entenderias as garatujas
neste território estreito
em que cruzo enigmas
e fronteiras
encontrar-me-ei contigo
em todas as cidades em que me perdi.

Ademar
16.07.2007

julho 15, 2007

Improviso em forma de haiku para dizer por que voltarás...

Os gatos não acariciam pianos
deixam-se apenas tocar
entre partituras.

Ademar
145.07.2007

julho 13, 2007

Improviso entre quedas de água...

Hoje as palavras como as teclas
não têm pressa
a noite não tem hora marcada
e Chopin já mandou dizer
que chegava tarde
deambulo o piano entre sombras e silêncios
e nenhuma cadeira ascende à altura
da lua
hoje há uma viagem que fica
por fazer
há palavras que regressam à infância
e adormecem talvez serenamente.

Ademar
13.07.2007

julho 12, 2007

Improviso à moda de Chopin...

Nunca te perguntei
se namoras os nocturnos
se as teclas te tocam
nesse incerto lugar da alma
que só os poetas e os amantes viajam
hoje não foste a sítio algum
nem a mim
ficaste talvez no cais
à espera do metro
a contar as sombras que escorrem
desse aqueduto de silêncios
que nos sobrevoa.

Ademar
12.07.2007

Improviso andaluz...

Os olhos antecipam
a viagem dos pés e das mãos
adormeces sobre os mapas vagabundos
e nada agora é proibido na tela
nem isto nem aquilo
nem isto naquilo
nem aquilo nisto
as mãos já não pagam o impudor
das inquisições.

Ademar
11.07.2007

julho 10, 2007

Improviso para arejar...

Não serão talvez já as mesmas pedras
e os mesmos barcos
e os cheiros nunca regressam à infância
mas assisto à turbulência dos pés
que aspiram novamente a caminhar
e relembro o mapa das descobertas
quando não conhecia ainda Veneza
e tudo parecia começar e acabar ali
naquelas praias onde corria apenas a aragem
do iodo milagreiro
e a noite sempre efémera
embrulhava naufrágios
de que só nós nos salvávamos.

Ademar
10.07.2007

Improviso breve para rimar...

É mais inteligente adormecer longe do mar
e só vir a terra para despertar.

Ademar
10.07.2007

julho 09, 2007

Improviso para saudar o vento...

Há quem tenha nas mãos e nos dentes
a agilidade do vento
e a ousadia
digo
a imprevisibilidade do vento
a nenhuma lógica dos seus rasgos
a vida em estado de expansão permanente
a fúria incerta dos elementos
com o destino dentro
um destino mais forte do que a vontade
há quem tenha no corpo
todas as manchas do universo
e não peça a nenhuma estrela a cura inútil
e há quem sangre em silêncio
três ou quatro dias por mês
antes de ventar outra vez.

Ademar
09.07.2007

julho 08, 2007

Improviso higiénico...

Coloco agora as perguntas na máquina
e deixo a lavar
sem detergente
água apenas
e uma dose de silêncio
ouço as respostas uma a uma
tantas palavras esquecidas
no labirinto da descrença.

Ademar
08.07.2007

julho 07, 2007

Improviso para servir de sétima arte...

Uma imagem suspensa na tela do aniversário
o sorriso que antecipa a noite
que não virá
o filme adiado
e o silêncio imposto
não há nuvens que disfarcem o desconforto da lua
nem palavras
apenas um desfile de violinos que não tocam
e a mudez da madrugada.

Ademar
07.07.2007

julho 06, 2007

Improviso para fintar o tempo...

Não há palavras nem pensamentos
que nos distraiam do tempo
faltam sempre segundos
para outras vidas.

Ademar
06.07.2007

Improviso para soletrar a vingança...

De tanto esperares em vão
desaprendeste de esperar
percebo agora por que nada esperavas
ou esperavas sempre tão pouco
quando tudo parecia tardar
no compromisso da mentira
morreram tantas vidas na tua vida
em tantas esperas cansadas
que só podias mesmo desistir de morrer
eis quando acordaste
para vingar o destino
the best revenge.

Ademar
06.07.2007

julho 05, 2007

Improviso para servir de toalha...

As palavras rastejam gramáticas
mesmo quando emudecem
todas as noites viajo no silêncio
da tua voz
depois do banho
e é sempre nele que me adormeço.

Ademar
05.07.2007

Improviso aquífero, em forma de haiku...

Tantas vezes fui à fonte
e não estavas lá
eu só tinha sede e queria beber-te.

Ademar
05.07.2007

julho 04, 2007

Improviso para dizer cumplicidade...

Um xeque-mate distraído de cavalo e bispo
e um gestor sempre adiado
na insolidez do mito
ouve
esse tempo morreu
agora já não esperas ausências
no outro lado da mesa
há sempre alguém que sorri.

Ademar
04.07.2007

julho 03, 2007

Improviso sobre um tema de Astor Piazzolla...

Nem sempre estás do outro lado de mim
quando abro e fecho o bandoneon
e quatro cordas não chegam para te tocar
ainda que o arco tantas vezes chegue ao fundo de ti
nem sempre as teclas sorriem nos meus dedos
digo tantos botões
a chuva o desleixo do convite o esquecimento
ele fica à espera que a tarde canse
e o violino acorde ou o piano
e o poema milagre a viagem enfim surpreendente
agora as compras antes o trabalho
e depois do trabalho o trabalho sempre
as palavras repetidas o hábito da inércia
o pedido quase de desculpa o medo elementar
e o filme que não arranca na partitura original
ele está só e espera apenas que a chuva passe
e que passe com ela o tempo dessa espera
que não cabe na chuva.

Ademar
03.07.2007

Improviso espeleológico...

Poema a poema bicarbornato de cálcio
estalactitas-me em ti liricamente
amparas-te nas colunas que deposito
e os teus subterrâneos têm grutas
que só as minhas palavras iluminam.

Ademar
03.07.2007

julho 02, 2007

Improviso para publicitar o mel do Gerês...

São tantas salas
são tantos quartos e tantas camas
são tantas casas
a viagem parece interminável
até ao cais
mas há sempre um cais
onde tudo acaba e tudo começa
talvez as primeiras iniciais de um nome
o mesmo mel que te sirvo
na bandeja de todas as manhãs.

Ademar
02.07.2007

Improviso fulminante...

Vales tudo
já não falta quase nada.

Ademar
01.07.2007

junho 29, 2007

Improviso concelebrante...

Há pensamentos vedados à palavra
talvez por isso tu fales tão pouco
pensamentos em que intimamente tropeçamos
que nos baralham por dentro e por fora
pensamentos nus porventura indecentes
ainda que em corpo ausente
essa ideia talvez tardia de uma outra família
que não passeie numa caixa de madeira
uma família profana
gente que simplesmente reúne e brinca
e celebra a vida reinventando novos altares
como ela merece ser celebrada.

Ademar
29.06.2007

junho 28, 2007

Improviso redundante...

Como dizer
que já não há portas fechadas?
que tudo afinal é tão simples e tão previsivel
como ficares simplesmente?

Ademar
28.06.2007

Improviso em forma de recolhimento...

Casas que sofrem de ausências
lugares quase abandonados
acendo a luz e vejo apenas as sombras
cadeiras que dialogam o silêncio
sobram os chinelos e as almofadas
e um vago rasto de intermitências
o palco convida à presença dos actores
e há papéis invertidos
a espera que deixou de ser feminina
a incerteza
a teimosia
a intranquilidade.

Ademar
28.06.2007

junho 27, 2007

Improviso gramaticável...

Na portagem do tempo
não há sentidos ocultos
ficar e voltar
podem ser apenas futuros imperfeitos.

Ademar
27.06.2007

Improviso para rever o código penal...

Toda a liberdade é condicional
mesmo depois de cumpridos dois terços da pena
o pensamento é uma cela sem portas
e sem grades.

Ademar
27.06.2007

Improviso quase geográfico...

Todas as ilhas já foram desertos
não há poder de milagre que a água desconheça
um gole de ti
e o verde acontece
a essa ilha
sei apenas que ainda ninguém chegou
o quarto quase escuro da infância
uma espécie talvez de cela antiga
iluminada a medos e assombrações

ninguém te diz que és uma merda

onde tudo obedece ao silêncio das tuas mãos
e ao cansaço
nenhuma ilha é eterna
nenhum deserto.

Ademar
27.06.2007

junho 26, 2007

Improviso para harmonizar...

O espaço entre as sombras de tanta presença
e o pensamento que nunca descansa
e raramente adormece
os brinquedos descuidados
as gavetas que abres e fechas
como se eu não estivesse lá dentro
e as mãos sujas de tanto pó acumulado
tanta vida de ausências
o pequeno livro de Catherine
no lugar de Babel
a voz em que repousas
no antebraço do sono
e o corpo em que foges
em direcção ao precipício mais próximo
nenhuma verdade é tão elementar como esta
gestos que reinventam a cumplicidade da harmonia.

Ademar
26.06.2007

junho 25, 2007

Improviso para encontrar dois peões...

O pensamento que nos transgride
tantas esquinas silenciadas
tantos segredos quase despidos
a perfeição tão longe de nós
e porém tão perto
quando a distância abate as suas sombras
e tudo parece tão próximo tão íntimo
como numa comunhão de luzes matinais
a persiana que sobes
o pequeno almoço servido na cama
as revistas da semana
o carinho sempre atrapalhado
e o pudor das palavras e dos gestos que hesitam
vimos de muito longe
saltámos sobre tantos precipícios
perdemo-nos em labirintos que pareciam não ter saída
e sempre sobrevivemos
agora sobram a tua fúria
e a minha dúvida
os dois peões que faltavam no tabuleiro do nosso xadrez
se os encontrarmos
ganharemos ambos o jogo.

Ademar
25.06.2007

junho 24, 2007

Improviso sob a forma de engano...

Hoje
enganei-me uma vez no teu nome
hoje
hesitei e tremi diante de uma fotografia
há segredos em que tropeço
aspiro sempre à coutada da intimidade.

Ademar
24.06.2007

Improviso para servir de oráculo...

Nunca te disseram que as semanas adiadas
têm muito mais do que sete dias.

Ademar
24.06.2007

Improviso na esteira de Elvis...

Há um modo imaterial de tocar as teclas
de um piano
ainda que o piano seja o teu corpo
intocável
mais os gramas que correspondem
ao contrapeso da alma
isso a que os poetas mnemónicos chamam de amor
love me tender.

Ademar
24.06.2007

junho 22, 2007

Improviso para dizer nós...

Atrapalhas a vida tropeças nela
adia-la sempre para um tempo seguinte
esquecendo que
cada noite é uma ponte que te regressa
à margem em que já não estás
não cabe a humanidade inteira na tua cela
mas cabe a parte dela
que talvez comece simplesmente em ti.

Ademar
22.06.2007

junho 21, 2007

Improviso para micar...

Um barco de fumo
na planície da infância
abro as janelas e as portas
para que não respires apenas o silêncio do fogo
e ingresso na noite
que virá contigo e com a lua
ei-los
os brinquedos tardios
ainda inanimados
antecipo a vida toda que lhes concederás
e declino intimamente esse verbo
que só conjuga no teu mapa.

Ademar
21.06.2007


junho 20, 2007

Improviso para me dizer o mundo...

Sei que te cansam as palavras gastas
sei que te gastam e bocejam
por isso
preferes tantas vezes o silêncio
esse conforto despido de grandezas
esse tão íntimo desporto
de te saberes despossuída
quando todos te querem.

Ademar
20.06.2007

Improviso enfeitiçador...

A fauna das máscaras
a experiência da selva
e o paraíso entre tantos desertos
sobes comigo ao palco
e esquecemos as horas
ou esqueço eu apenas
e as luzes e as outras vozes
nessa espécie de bailado de azuis
que eu agora escrevo e repinto
os dias e as noites que cozinham
o sentido contrário do tempo
esta jaula de metáforas
tanto feitiço por dizer.

Ademar
20.06.2007

junho 19, 2007

Improviso breve em forma de extintor...

Quarto de fogo
quarta de cinzas.

Ademar
19.06.2007

Improviso quase sweet...

Gosto mais de sweet
do que de doce
e sei também que preferes o inglês
para viajar pelas palavras
so sweet sim
muito mais do que doce
tão doce
há dias em que não percebo mesmo
a língua em que falas.

Ademar
19.06.2007

junho 18, 2007

Improviso quase surdo e mudo...

As palavras emergem do silêncio
na ponte dessa viagem que não cansa
conto os quilómetros que fazes
e nunca acerto a distância
é mais fácil marcar nove algarismos
e ouvir o vento ou a brisa do mar
quando não desces ao canil
mordes as palavras que ficam sempre por dizer
mordes o silêncio
passeio as noites na marca dos teus dentes
ensurdeço quando gritas
grito para não emudecer.

Ademar
18.06.2007

junho 17, 2007

Improviso adverbial...

De uma voz chega-se a outra
e há pianos para todas as vozes
e muitos azuis
e verbos que tropeçaram
no sentido que lhes dás
viajas agora entre margens
entre casas
atravessando a noite que chove
e regressas à máscara de todos os dias
continuo a ignorar
onde.

Ademar
17.06.2007

junho 15, 2007

Improviso quase medieval...

Conto os dias
conto as noites
e perco a conta aos dias
e perco a conta às noites
contabilizo ausências
antecipo regressos
desconto-me nos dias
desconto-me nas noites
ando às voltas de ti
e raramente me encontro.

Ademar
15.06.2007

Improviso cardiográfico...

Algures uma dor no peito
fumo talvez o último cigarro
o gelo no copo estremece
entretenho o medo
distraio as palavras
a memória aterra na língua
como um barco voador naufragante
e desembarco num labirinto de silêncios
dizia-te há pouco do cansaço
disfarçando o pânico
uma dor no peito
talvez uma falha sísmica
um protesto
algures um músculo que se contrai
espero que seja ainda
no lado certo do corpo
no lado certo da vida.

Ademar
15.06.2007

junho 14, 2007

Improviso surpresa...

Desfolho o álbum sempre adiado
sim aqui estão as nuvens eu vejo
sobes por elas ao balcão
e desces depois pelo luar
além parece uma tartaruga
talvez rondando o canil
ou as linhas da tua mão
e essa saia de folhos
que parece despir o universo
a preto-e-branco
faltam grutas faltam cordas faltam braços
há um excesso de luz nestas fotos
e uma ruidosa
estranhíssima
ausência de saudades.

Ademar
14.06.2007

junho 13, 2007

Improviso para enganar calendários...

Resides numa ausência de mim
como se o teu algures
não coubesse na parte do planeta
a que pertenço
vagueio os olhos pelo mapa
e sinto-me ainda mais estrangeiro
e mais ainda quando me negas
a silenciosa rotina dos teus ciclos
a mais íntima verdade dos teus dias longínquos
por vezes duvido-me nas palavras
persigo pensamentos que me despem e me doem
tropeço em enigmas
sei onde estás e nunca sei onde estás
sinto-me a viver nos subúrbios
e que a cidade todos os dias te convoca
para experiências que me estranham.

Ademar
13.06.2007

junho 12, 2007

Improviso a destempo...

Nesse outro lado da infância
onde se formam as saudades que nos esperam
gruta quase impenetrável
labirinto de silêncios e de ausências
lá nos encontraremos sempre
para que ninguém se perca.

Ademar
12.06.2007

Improviso sobre Passion, Grace & Fire...

Simples como as tuas mãos
incontáveis os dedos entre as cordas da guitarra
subindo e descendo e apertando
uma espécie de corpo que poderia ser o meu
não há morte para explicar os sons
respiras pelos dedos e vibras sempre
antes que a noite adormeça
na ressonância da lua
as nuvens hoje parecem manchas esquecidas
no teu rosto.

Ademar
12.06.2007

junho 11, 2007

Improviso quase sobre a liberdade...

A repugnância tem um rasto muito antigo
mergulha no pântano da infância
lá onde florescem todos os preconceitos
e todas as vergonhas
só a coragem triunfa sobre ela
a coragem de nos sabermos mais eternos
do que a própria sombra que nos encarcera.

Ademar
11.06.2007

junho 10, 2007

Improviso quase meteorológico...

Já não me lembro da especialidade do azul
que trazias
reconheço apenas que me enganei
e que choveu
o altar prometia veraneios
mas preventivamente nem saímos de casa
as previsões do tempo só acertam
dentro de cada um.

Ademar
10.06.2007

junho 08, 2007

Improviso para dizer uma espécie de degredo...

Que nada fosse tão certo
como o cansaço ou a lentidão das tuas dúvidas
que nada fosse tão pesado
como o trabalho que diariamente engrena as tuas mãos
fechas por dentro todas as portas
e atiras a chave pela janela mais estreita
para que não possas sair de ti
senão voando
tenho tantas palavras antigas para te dizer
antes que a noite adormeça.

Ademar
08.06.2007

junho 07, 2007

Improviso para distrair do trabalho...

Por uma sopa
oferece-se a fome
e a sede
por um verde branco
alvarinhado
entre lençóis de luzes
à mesa
e sonhos muitos sonhos
almofadados
agora a nudez da tarde
descobre a dança dos corpos
e há uma mão que corre as cortinas
para não veres
uma boca que morde
uma língua que brinca
pernas e braços entrelaçados
segredos inaudíveis à distância
vozes que apenas sussuram
depois ergues-te sobre o silêncio
e montas o pudor a toda a cela
tão leve como uma pena da infância
há intervalos que as palavras não dizem
porque neles acontece simplesmente
o que de mais íntimo e frágil nos doamos.

Ademar
07.06.2007



junho 06, 2007

Improviso quase contabilístico...

O prazer como serpente
que chega sempre depois da cabeça
e do rasto dela
o prazer depois do prazer
a esplanada
o cão namoradeiro
as luzes inúteis
as sombras ausentes do crepúsculo
fora e dentro
dizes que nunca viverás o suficiente
para pagar o que deves
e tens razão
há contas que não cabem numa vida apenas.

Ademar
06.06.2007

junho 05, 2007

Improviso para alindar os dias...

Um adjectivo
uma quase trivialidade
pode pesar mais do que a alma
tu nunca aprendeste a distinguir as palavras
pelo peso
porque nunca te amestraram nesse trabalho delicadíssimo
de ponderação das substâncias simbólicas
sim
a magia do adjectivo
está na metamorfose
nesse truque que o transforma na evidência da coisa iluminada
o substantivo ele mesmo.

Ademar
05.06.2007

junho 04, 2007

Improviso redundante...

Intimidade
entre nós
escreve-se com poucos nomes
o teu e o meu
o mais
acontece apenas.

Ademar
04.06.2007

Improviso em forma de coisa...

Se quisesse irritar-te diria
que és uma coisa simples
coisa
não há palavra maior
no universo da língua portuguesa
cabe tudo nela
o mais íntimo
o mais ínfimo
como se o próprio infinito não passasse
de uma sequência de coisas
a noite que nos surpreendesse
em flagrante delito
e eu diria apenas como sempre
que a culpa era tua.

Ademar
04.06.2007

junho 03, 2007

Improviso para distrair o espelho...

Mordes o labirinto
como se apenas quisesses marcar o futuro
na minha pele
fecho os olhos para distrair
o espelho
na calorosa certeza dos teus dentes.

Ademar
03.06.2007

junho 01, 2007

Improviso para explicar o Himalaia...

O desejo circulante
o desejo entre todos os sentidos
o desejo que contagia
nem tu própria imaginaras
que podia ser assim
que no teu altar
outrora esse balcão
caberia a humanidade inteira
de rastos ou de joelhos
como numa qualquer coroação.

Ademar
01.06.2007

maio 31, 2007

Improviso quase perfeito...

Muitas palavras
Quase todas as frases
começam por
se
certo certo certo
só mesmo o que escreveste
nesse diário
que nunca ninguém lerá
as palavras que afogam
no teu silêncio antigo.

Ademar
31.05.2007

maio 30, 2007

Improviso em forma de rodapé...

Tranquilamente
o tempo de dizer
podes vir
e o olhar que te acompanha
na fuga
há quem se afogue em perguntas
há palavras que queimam no corpo
indeciso
e há sofreguidões
que embaraçam a tarde
afasto-me para perceber
como o silêncio dialoga com a intimidade
e quando regresso
procuro a boca abandonada
que finalmente corresponde
a transgressão aproxima
tenho agora a certeza
continuas a saber a mim.

Ademar
30.05.2007

maio 29, 2007

Improviso em cima do balcão...

Não há precipícios
como os mais íntimos
esse mistério sobre que saltas
sem amarras nem algemas
apenas por que confias
na orientação dos ventos
abres o cofre dos teus segredos
numa tarde interminável
ainda não desceste do balcão da infância
ainda sentes nos braços
as mãos antigas que te agarram e projectam
o chão parecia então muito longe
às tuas pernas tão curtas
nesse tempo em que todos te imaginavam
tão próxima do céu.

Ademar
29.05.2007


maio 28, 2007

Improviso em forma de binóculo...

Há labirinto a mais nas tuas mãos
portas e janelas entreabertas
esquinas mal iluminadas
saio à rua e convido-te a entrar no bar
de todas as ausências
onde ninguém nos reconhece
eu próprio te sirvo um cálice de lua
para que não tropeces na noite
há uma cidade ao longe
e tão perto de nós.

Ademar
28.05.2007

maio 27, 2007

Improviso para acreditar que ainda há uma vaga para deus...

No princípio da sedução
era a serpente
digo
no princípio do mito ou do verbo
e talvez não exactamente uma serpente
mas a maçã
uma maçã
ninguém sabe que maçã
e tu que dizes
que já não poderei aspirar à condição de deus
porque o lugar está ocupado.

Ademar
27.05.2007

maio 25, 2007

Improviso para espreitar pela fechadura...

As chaves também abrem e fecham por dentro
a porta que abre e fecha para fora
há um sinal à entrada de nós
um amuleto em forma de fechadura
um espelho antigo em que ninguém se vê
os passos que seguem as cinzas da memória
e tropeçam nela
essa voz que se eleva do silêncio
entre tantas vozes
esses braços que abraçam toda a gente
e voltam sempre à inércia original
e esses soluços que as palavras não contam
simplesmente
porque já não reconhecemos o lugar da porta
entre nós.

Ademar
25.05.2007

maio 24, 2007

Improviso para fazer o roque...

No nosso tabuleiro
nunca há peças a mais
nem peças escondidas
para lances subterrâneos
há um jogo íntimo de feitiços
peões assombrando reis
cavalos velocíssimos montando rainhas assustadas
bispos laicos
torres que nunca tiveram ameias
é nesse tabuleiro
que jogamos os dias
entre duas mãos
e uma miríade de fantasias.

Ademar
24.05.2007

Improviso para madrugar...

Dá as cartas e vai a jogo
não duvides da mesa nem do olhar
não há cadeira em que não caibas
não há trono nem altar
todo o tempo te pertence
todo o corpo e o seu lugar.

Ademar
23.05.2007

maio 22, 2007

Improviso para tecer a noite...

Uma ampulheta de sangue ou de fogo
o teu corpo
em que o desejo circula
na razão inversa da gravidade
segredos que não partilhas
ousadias silenciadas
há um tempo em ti que cansa a dúvida
que causa a dúvida
um tempo íntimo que viaja palavras
emigradas clandestinas
há fronteiras em ti
que exigem visto e passsaporte
talvez um exame sempre adiado
a entreter os dias da espera
uma consulta
uma apresentação
o salto imprevisto
a imolação na surpresa
tenho as mãos húmidas do teu sangue
escorro sombras
madrugo silêncios.

Ademar
22.05.2007

maio 21, 2007

Improviso em forma de antídoto...

Sobras da rotina
tudo o mais tem a agenda do previsto
para o marasmo
só conheço o teu antídoto
essa ousadia discreta
que disfarça uma volúpia antiga
quase mitológica
não há salto que recuses
não há risco que te acobarde
escreves muito mais do que
por palavras
só hesitas no código dos dias
esse ínfimo segredo que nos pertence.

Ademar
21.05.2007

maio 20, 2007

Improviso soletrante...

Janelas que abrem apenas para dentro
portas aferrolhadas
grades no lugar dos olhos e das mãos
há um lugar próximo de ser mulher
nesse destino de sombras e de medos
uma espécie de cela
um lugar antigo e ermo
sedimentado de ausências e de esperas
condição diria quase irrenunciável
adivinho quase a imperfeição nos teus gestos
uma revolta silenciosa
uma esperança sempre inconfessada
e a atracção do precipício
no princípio de todas as metáforas.

Ademar
20.05.2007

maio 19, 2007

Improviso entre olhares ...

Com as mesmas mãos
afastas o corpo
que nunca antes tocaras
e escondes os olhos
e sufocas os gritos
há um músculo um pedaço de carne alheia
que afunda agora no teu pântano
espreito à distância o vaivém
do compressor
e há um barco em que viajas
a quatro remos
e há suspiros e marés que acordam a tarde
nos meus ouvidos
fecho a porta do lado de fora
e fumo um cigarro
perscrutando o silêncio.

Ademar
19.05.2007

maio 18, 2007

Improviso em forma de fechadura...

Nada é mais certo do que a dúvida
que me visita nestas noites
essa espera do fumo e do fogo
como se nada estivesse ainda escrito
na partitura dos dias adiados
sobram planos de viagens e precipícios
e a íntima evidência
de duas chaves por usar.

Ademar
18.05.2007

maio 17, 2007

Improviso à proa...

A montante dos dias
arrendo o futuro
se pudesse antecipar o outono
diria os pólenes os cheiros as folhas
a manta morta de tudo o que ficará por dizer
essa amálgama de pensamentos trocados
que sempre nos transportará
ao cabo da boa esperança
abro a porta ao carteiro
que me traz notícias caiadas
arrisco a assinatura na chamada
e a casa finalmente sorri.

Ademar
17.05.2007

maio 16, 2007

Improviso para desgramaticar...

Guardo as palavras para algemas
porque todos os dias te recomeço
entre o silêncio e o esquecimento
nessa quase incandescência de memórias traidoras
como se ainda soletrasses a gramática do compromisso
esse antiquíssimo saber íntimo no outro
que sempre dispensará as palavras.

Ademar
16.05.2007

maio 15, 2007

Improviso em forma de postigo...

As palavras batem à porta
espreitas-me pela postigo
e disfarças as grades
entre as sombras das mãos
o teu olhar esconde uma gramática
de metáforas
no princípio era o verbo
e no fim
também.

Ademar
15.05.2007

Improviso para rever a ordem do universo...

Se escolhesses o sol
para fazer o turno da noite
seria sempre manhã
e acordarias mais cedo
reinventas o movimento
de translação íntima dos astros
nada é tão certo como o teu silêncio
há mais cores em ti
do que no arco-íris.

Ademar
15.05.2007

maio 14, 2007

Improviso para enganar esquinas...

Nunca precisarás mais de outonos
para sorrir
agora tens as chaves e o pensamento
para entrar em casa
pouco importa a geometria das asas
cabes em todas as janelas
e em todas as portas
e todas cabem em ti
conhecemos ambos o caminho de volta
mas as esquinas tropeçam-nos
há viagens que só se cumprem
na recusa do regresso.

Ademar
14.05.2007

maio 13, 2007

Improviso retroactivo...

Seria mais fácil viajar contigo
se não sentisses e pensasses labirintos
uma janela uma porta um postigo
e todas as grades que fazem uma cela
esse tempo de nem saber
que tudo nos conduz ao horizonte
do que seremos.

Ademar
13.05.2007

maio 10, 2007

Improviso oracular...

Tenho dias assim
em que o silêncio me desarranja
e avaria
o que não alimenta o pensamento
emagrece no desejo
temo sempre que emagreças
quando emudeces e descuidas
os ladrões de colheitas
têm fome de deserto.

Ademar
10.05.2007

maio 09, 2007

Improviso para fechadura...

Não sei se deixe as chaves na porta
se a porta
nas chaves
entra pela janela.

Ademar
09.05.2007

Improviso para guião...

Há uma fogueira que arde
entre as palavras que trocamos
uma maneira distinta de combinar
os fumos da vida
no nosso plateau
não cabem ausências nem sombras
a luz chega para todos.

Ademar
09.05.2007

maio 08, 2007

Improviso entre arrepios...

Suspende o silêncio
na parábola dos sentidos
faz o caminho inverso da saudade
regressa por onde te perdeste
e não sigas o rasto das sombras
nem arrombes as portas do deserto
amanhã é quarta-feira
e maio em nós sorri milagres.

Ademar
08.05.2007

maio 07, 2007

Improviso sobre a maturidade...

A maturidade tem cordas
tem amarras
e é tão leve como os sonhos que não temem
a maturidade diz chega diz basta
mas tenta sempre um último salto
e não há precipícios que a detenham
a maturidade viaja sempre com Bach
num violoncelo sem cordas
entre arcos imaginários
a maturidade tem a perfeição do teu corpo
e a perfeição dos teus gestos
e fala a todas as vozes pela tua voz.

Ademar
07.05.2007

maio 06, 2007

Improviso desconcertante...

Há líquidos que escorrem
de uma solidez ausente
no princípio era
um labirinto de palavras
esse tempo anterior
a todos os precipícios
e a todas as asas
não sei de margens em que te ocultes
nem de caudais
engrossas agora na vertigem do salto
tens uma estátua por dentro de ti
uma via láctea de fragmentos
um rasto antigo de torpores
e de cansaços
o berço embala-te no meu peito
e adormeces.

Ademar
06.05.2007

maio 04, 2007

Improviso para contar precipícios...

Não dividi a lua
não multipliquei a noite
pela tua ausência
principiei-me algures em ti
nessa janela debruçada sobre o além de nós
em que nos vimos
códigos apenas
extensões dirias
factor para dividir por quantos
entre tantos precipícios e fantasias?

Ademar
04.05.2007

maio 03, 2007

Improviso para enfeitiçar precipícios...

A surpresa tem as horas e os passos trocados
não há precipício que te engula
porque é nele que sonhas
todas as vertigens do salto.

Ademar
03.05.2007

maio 02, 2007

Improviso sobre uma data...

14 de Novembro de 2005
esburaco a memória e não te encontro lá
chove talvez
num fragmento da tua vida
há chuva a mais nessa tela em que passeias
devagar
uma porta talvez que se fecha ou se abre
sobre mais um mistério
um aniversário soluçado
uma ponte ausente entre margens
esse silêncio que respira uma mudez antiga
em ti quase original
talvez as palavras que escreveste nesse dia
expliquem tudo o que tem ficado por dizer.

Ademar
02.05.2007

abril 30, 2007

Improviso quase psicanalítico...

Uma casa de segredos
feita talvez de muitos quartos
e de camas agora vazias
há luzes há sombras
nessa memória que não contas
há gritos intervalados de silêncios
quase mortuários
esperanças desiludidas
sonhos tropeçados na esquina mais próxima
que nem vinha no mapa
e muitos verbos inúteis que aprendeste a conjugar no imperativo
quando a noite só prometia manhãs solitárias
ainda mais frias.

Ademar
30.04.2007

abril 29, 2007

Improviso para explicar o inexplicável...

Perguntas-me
aonde vou buscar os poemas que lês
há um baú algures em mim
uma mala uma mochila talvez
uma viagem por fazer
é mesmo assim
imigro-me para escrever.

Ademar
29.04.2007

Improviso entre ameias...

Que viajes pelas palavras ou pela chuva
que apenas o pensamento te leve
e te traga
aqui fica o castelo que deixaste
entre ameias que espreitam o que foste
e o que serás
vens e vais
vais e vens
e tudo parece acontecer
como estava escrito
ou escreveremos.

Ademar
29.04.2007

abril 27, 2007

Improviso para evocar a surpresa...

Entreabro a porta e desfoco a objectiva
para entrar discretamente no quarto
com Sarah Vaughan
round midnight
não sei se ouves as mãos
teclando a liquidez em que viajas
não sei se o altar
tem mesmo a forma do piano
que idealizaste
há sussurros
gestos
e
movimentos que antecipas
antes de entrares pelo buraco negro
de todos os pudores
everything happens to me
don’t explain.

Ademar
27.04.2007

abril 25, 2007

Improviso coloquiante...

Hoje não levanto a louça da mesa
não arrumo a cozinha nem as sensações
não faço a cama para dormir sozinho
não tomo banho
nem grito à janela
hoje não quero saber da noite
nem esperarei a carreira dos sonhos
na estação de todas as insónias
hoje não celebro calendários
não vou à missa
nem a jogo
hoje estou exausto do que fui
e prometi a mim mesmo descansar
de mim.

Ademar
25.04.2007

abril 24, 2007

Improviso de véspera...

Choves
quando as noites são o deserto
o relógio anda ao contrário
mendigando luzes ausentes
no contorno da madrugada
sobram os dias na ampulheta
faltam milagres de papel
faltam palavras
faltam presenças
dou as cartas para uma mesa distraída
e ninguém vai a jogo
jogo sozinho
e faço batota

ademar
24.04.2007

abril 23, 2007

Improviso para desenredar...

Encomendo-te à fantasia
nas páginas do calendário
já não cabes no pensamento
respiro-te na partilha das sombras
quando deixas de ver
e saltas apenas.

Ademar
23.04.2007

abril 20, 2007

Improviso eucarístico...

Ouve
o rumor
das necessidades
que enfunam
o meu desejo sem sigla
as cartas que as mãos escondem
entre um rei e uma rainha
dá-me lume
acende-me o olhar
hoje a batota é proibida
tens que ir a jogo
não podes passar
ouve
o rumor
dessas marés
que te tentam
convoca todas as fantasias
para o cais
todos os barcos adiados
todas as velas que ainda respiram
e faz a pergunta sacramental
nestas tardes e nestas noites
a eucaristia tem um nome
soletra-te.

Ademar
20.04.2007

abril 19, 2007

Improviso para soletrar monossílabos...

Monossilabicamente
desengradas-te do silêncio
esse recolhimento interior
tecido de tantas palavras exaustas
mordidas por dentro
sofridas por dentro
despidas por dentro
monossilabicamente
saltas sobre o cais e tropeças
nas amarras do pára-quedas
enquanto danças
enquanto foges e cais
entre o sim e o não
és o próprio pêndulo que te suspende
sobre a vida
antes de emigrares com as nuvens.

Ademar
19.04.2007

abril 18, 2007

Improviso regressante...

Longe longe longe
há um advérbio que aproximo da ausência
essa ponte que me regressa a mim
antes mesmo de todos os regressos.

Ademar
18.04.2007

abril 17, 2007

Improviso quase sanguíneo...

Repito a caixa das vozes
e acendo na noite
a luz com que por dentro te iluminas
essa espiritualidade que rasteja
no exercício das sombras e dos ecos
as palavras que dançam no desejo delas
o convite sobre a mesa
a viagem sempre adiada
e a toalha que agora arde nas velas
que ninguém apagou.

Ademar
17.04.2007

abril 16, 2007

Improviso para brincar bússolas...

Já houve um tempo em que tudo era simples
nas esquinas do verso e da vida
tudo rimava
pudor com amor
prazer com dever
paixão com relação
depois a poesia embranqueceu
e a vida com ela
a rima perdeu-se no imprevisto
das palavras que não conjugam destinos
e cansou-se
a simplicidade agora espreita o infinito
de todas as probabilidades
e amadurece na primavera
já não há esquinas para rimar a vida
apenas auto-estradas.

Ademar
16.04.2007

abril 14, 2007

Improviso para descontar palavras...

A mesa o quarto a cama
tão poucas palavras sobre a toalha
e tanta ausência nelas
a noite mostra enfim as mãos vaziaso
os olhos escorrem o pudor das sombras
e o desejo parece em ti uma esfinge
aquele busto talvez debruado nas pedras
entre silêncios e ventos que já não voam
a mesa o quarto a cama
por esta ordem ou nenhuma
a vida desleixada
o chão demasiado perto de tudo.

Ademar
14.04.2007

abril 12, 2007

Improviso consonante...

A fechadura que rasga o espanto
o vulcão que o pântano derrete
o sacrifício digo a tortura da espera
no altar de todas as toalhas de linho
guardadas para a cerimónia
e finalmente o toque ansiado
o gemido de uma porta que se abre ainda mais
sobre o silêncio
os passos lentos a respiração
os segredos partilhados ao ouvido
as mãos invisíveis que te percorrem
que te penetram
há palavras em que viajas por dentro delas
agora já não duvidas
o universo centrou-se finalmente no teu lugar
e tu sorris discretamente
antes de gritares
o mais ousado de todos os teus saltos.

Ademar
12.04.2007

abril 10, 2007

Improviso em forma de pára-quedas...

Não me convides ao silêncio
grita-me aos ouvidos
para que todo o universo ouça
e não venhas devagar
salta breve sobre a ausência
como se o tempo voasse
há uma harpa que escorre das tuas mãos
pedindo um arco impossível
digo-te
a música é anterior
a todos os instrumentos
a todas as escalas
a todas as partituras
respira simplesmente contigo.

Ademar
10.04.2007

abril 09, 2007

Improviso para saltar sobre a luz...

O pensamento que te amarra
à fantasia
as teclas que adias
os números
as letras atrás das palavras
uma data uma hora
o improviso depois
a memória que regressa sempre
ao tempo de todos os fascínios
quando tudo em ti desafinava
a via láctea agora da vertigem
a ponte suspensa sobre as águas em que corres
o temor e o tremor do pudor
a viagem quase proibida
e o salto raso sobre a luz
a tua própria sombra.

Ademar
09.04.2007

abril 08, 2007

Improviso para desembrulhar saudades...

Escorrem de nós estas imagens
embrulhadas sempre numa película de saudade
as cordas de alpinista por que trepaste à lua
e a tábua pára-quedas que te desceu
o escadote que parecia tão instável e não cedeu
aos tremores do corpo incendiado
aquele busto antigo de Handel adornado no granito
que a tarde arrefeceu nas encostas do teu desejo
os pés sem número
as mãos subitamente descalças
e os olhos entreabertos para dentro
como se apenas no fundo dos teus pântanos
pudesses encontrar o eco das algas à superfície
esse imperativo a adiar a urgência de todos os gritos e de todos os gestos
esse sofrimento permanentemente silenciado
as amarras do dever em que desleixas a vida
à distância apenas de um voo
é nestas imagens que me envolvo e visto
quando a noite adormece a tua ausência.

Ademar
08.04.2007

abril 06, 2007

Improviso sobre a arte da submissão...

No princípio não eras o verbo
mas o silêncio interior
e o pudor
esse embaraço de mergulhar no universo
dos fluidos e dos cheiros que nos estranham
começava e terminava em ti
a humanidade
digo a aventura da intimidade
submissa
ofereceste-te então ao altar
dos desejos que te rondavam
e disseste que não as mãos
e disseste que não os lábios
e disseste que não a língua
aprendeste simplesmente a arder
nas chamas que te despiam
e deixaste de ser o fósforo
eras agora apenas
o combustível de ti mesma.

Ademar
06.04.2007

abril 03, 2007

Improviso para escrever a noite...

Que a noite não sobre para mais ninguém
senão para nós
e que tudo fique por explicar
nesse mesmo princípio de mistério
que toca tudo o que não se diz
como foste fácil ou difícil
dócil ou rebelde
os gritos e os gestos com que me traíste
e foste ainda mais fiel.

Ademar
03.04.2007

abril 02, 2007

Improviso simples para balada...

Aqui podes fumar
até podes cantar ou gritar
aqui fica aquém do infinito
ou ainda além de ti
aqui podes folgar
entre a urgência e a eternidade
aqui já não há cidade
e o subúrbio mudou de lugar
aqui até podes fugir
apenas com o olhar
não tens horas nem tens noites
e o sol levanta-se contigo devagar
aqui rimas e ris como antigamente
e nunca chove lá fora
porque as paredes não têm grades
aqui podes falar de tudo
mesmo do que te proibiste
aqui até podes amar
como se o amor finalmente te acolhesse
sem exigir nada em troca.

Ademar
02.04.2007

março 29, 2007

Improviso quase eucarístico...

Se as portas gritassem
seriam janelas
no princípio do verbo imperativo
todos os corpos mendigam altares.

Ademar
29.03.2007

março 27, 2007

Improviso para acender a lua...

As palavras dançam
entre as mãos
escorrem quase pelo corpo
como um fio de azeite
tento apoiar-me nelas
e tropeço em mim
soletrando os pés
corro atrás de sombras
ou de luzes peregrinas
acendo um fósforo para ver ao perto
e a chama distrai o olhar
perdendo-me em todas as esquinas
agora ouço a ausência dos teus gestos
e atravesso descalço a memória das cordas
que ainda tocam e amarram
caminhando na tua direcção
o chão arrefece nestas palavras
que transpiram o tempo.

Ademar
27.03.2007

Improviso para câmara mortuária...

A vida em pó
de arroz
para maquilhar a morte
e o que resta dela.

Ademar
27.03.2007

março 26, 2007

Improviso em forma de ampulheta...

Silenciosamente
esse gesto que te amarra a uma sombra
de palavras
não há olhos no teu sorriso
não há mãos que te distraiam
a areia corre por dentro do teu corpo
despido de tempo
direi talvez indevidamente o verbo
nada corre por ti
tudo se acomoda à lentidão dos passos que tremem
monossilabas-te.

Ademar
26.03.2007

março 24, 2007

Improviso ao jeito de Alexandre O'Neill...

Morremos assim antónio de oliveira
assalazarados
contando cerejeiras e policarpos
entre hóstias benzedelas e muito sexo a martelo
aos domingos e dias santos de guarda
e o senhor engenheiro que deixou de sê-lo
e o major das batatas corruptas que fala grosso e fala só
e o beirão quase branco que não bate em mulheres
e o serviçal do papa que passeia em vida a castidade e as filhas pela tela
chulos da pátria de fato às riscas e laçarote no antigo lugar da honra
cobradores profissionais de senhas de presença e pensões de reforma
empreiteiros e autarcas
autarcas e empreiteiros
e ministros quase analfabetos
togas e becas à discrição
e putas muitas putas digo
empresárias sociais e socialites
que o povo adora as boas maneiras
de ser esfolado pelo próximo
e o rebanho na primeira página dos telejornais
a três euros o figurante
que o foguetório é sempre de borla
paga a comissão fabriqueira
com os juros das esmolas.

Ademar
24.03.2007

março 23, 2007

Improviso em forma de travesseiro...

Atravessas-te no travesseiro
imaginário
atravessas-me
acolchoas-te
talvez seja inútil escrever
o feminino de morfeu
quando a noite sofre das luas
que não dormem
há uma luz a que me abraço
para não cair da cama
uma luz que não respira
que não ressona
que adormece a própria ausência.

Ademar
23.03.2007

março 22, 2007

Improviso sem pára-quedas...

Sofres de evidências cíclicas
um certo jeito de quereres a sala
à tua medida
o quarto e a cama
sem janelas para o interior
sem grades
sem amarras de alpinista
abre-se a porta e tu atiras-te
numa quinta-feira assim
a morte é uma indiferença dos sentidos
um certo olhar oblíquo sobre a terra
lá em baixo
um olhar sem escadas
sem patamares
sem linhas de fuga
directo ao que sobra dos abismos de ti
uma superfície quase inquieta
um dorso sem embalos
ficas suspensa sobre um grito
quase uma oração
espero-te do outro lado da rua
do outro lado da lua
enquanto desces.

Ademar
22.03.2007

março 20, 2007

Improviso para Maria José Nogueira Pinto...

Se eu fosse branco senhora
seria de chicote beirão
um pouco abaixo da
santa casa da misericórdia
ou talvez mesmo no pelouro.

Ademar
20.03.2007

março 19, 2007

Improviso para dizer a novidade da lua...

Hoje marquei falta à lua
porque só tu a vias.

Ademar
19.03.2007

março 16, 2007

Improviso anoitecido...

Para desarmar a lua
nos teus olhos
talvez só mesmo a indiferença do arco-íris
num desleixo diurno.

Ademar
16.03.2007

março 13, 2007

Improviso circunstante...

Há quem se deite na fotografia
para parecer menos vertical
e quem tenha livros para folhear
e não lhe apeteça
recomendo sempre a mesma terapêutica
levanta-te e deixa-te ler
terapêutica rima sempre com hermenêutica
só os livros que nos lêem
são mesmo inadiáveis.

Ademar
13.03.2007

março 12, 2007

Improviso testamental...

Não te reconheço o direito de decidir sobre a minha morte
a minha morte pertence-me
peço-te apenas
se um dia a natureza me negar o direito
que me ajudes a morrer serenamente
quando eu quiser.

Ademar
12.03.2007

março 11, 2007

Improviso para fechar o dia...

Tropeço agora na partitura da noite
nas amarras de um violino
e nos arcos esquecidos pelo chão
há um piano que pede distraído
a ordem dos sons
e imagens que galopam entre portas entreabertas
como planícies
os olhos agora descansam
nas mãos que flutuam ausências
e a lua finalmente adormece.

Ademar
11.03.2007

março 10, 2007

Improviso desconcertante...

Nem violino nem violoncelo
era apenas uma viola de arco
entre os géneros
há espécies assim
que devassam fronteiras
mais talvez do que duas mãos distraídas
o pano de cena fechava-se
sobre os ecos do teu silêncio
e havia lugares interditos
no teu corpo
lugares dizias
que não iam a jogo
só faltava mesmo que eu arrumasse as cartas
e não apostasse mais sobre a mesa o teu destino
sobre a mesa ou sobre a cama
entre fólios tão antigos
palavras quase indecifráveis.

Ademar
10.03.2007

março 09, 2007

Improviso para crucificar a humanidade...

Crucifique-se alguém
para que possamos continuar a benzer a humanidade
não importa quem morra
se morrer eternamente pela nossa causa.

Ademar
09.03.2007

março 07, 2007

Improviso sobre a improbabilidade do reencontro...

Talvez numa esquina inesperada
talvez num cais
sem nenhuma viagem dentro
talvez numa rua qualquer
de uma cidade que jamais visitaremos
talvez numa casa improvável
entre sombras de salas desabitadas
talvez num concerto a muitas vozes
talvez num filme que não chegou a ser destruído
talvez num ficheiro que não chegámos a abrir
talvez numa página em branco
esquecida de todas as narrativas que fomos
o reencontro improvável.

Ademar
07.03.2007

Improviso pós-kantiano...

Haverá algures um lugar
onde não caibam as grades desse dever
que te retarda para a vida
um lugar talvez no pensamento
uma última reserva de lucidez
antes da morte
há grilhões ouve
que não têm a forma dos teus pulsos
há ecos que desconhecem o timbre da tua voz
há mesmo fontes
que ficarão sempre a jusante da tua foz
e há rimas antigas e rimas insuspeitas
no pêndulo com que te ofereces à dúvida
antes de renasceres todas as manhãs.

Ademar
07.03.2007

março 06, 2007

Improviso para descer de pára-quedas...

Há quem se atire
e quem se deixe simplesmente cair
há quem abra ainda mais os olhos
e quem os feche
na confiança das amarras
endurecem as asas de quem salta
sim
os pés nunca se reconhecem à superfície
há sempre terra
para além de todas as raízes que cabem nela
o pensamento até perfura
os limites interiores do medo
e não há cálculo que o confunda
a descida é uma vertigem
quando apenas sabes que te esperas.

Ademar
06.03.2007

março 05, 2007

Improviso para desmanchar...

Procuras uma catedral
com a sonoridade íntima do teu corpo
vozes que conjuguem com a tua
em silêncios assim imprecisos
altares talvez manchados
de muita história por contar
conto as manchas e não tens fim
nem princípio.

Ademar
05.03.2007

março 04, 2007

Improviso cinematográfico...

Um fio quase de azeite
duas pernas descendo das amarras incertas
rebobino o filme e regresso ao guião
como se no princípio de tudo
ainda fosse o verbo no imperativo
pára
chega
deixa
nessa esquina onde as vontades se cruzam
acende-se uma luz e outra luz e outra luz
e a noite já não chove
ali terminavam as muralhas da cidade
que agora adormece
e nós com ela
sim
são horas de regressar ao cais
e partirmos
o fio quase de azeite
ainda não secou
e as pernas continuarão a descer das amarras incertas.

Ademar
04.03.2007

março 03, 2007

Improviso para piano e todas as mãos...

O pensamento tem todos os filmes dentro
e é assim que antecipo a tela em que te projecto
no embalo talvez de um poema musical de Ravel
à viagem do corpo ainda lhe falta a luz
mesmo que o piano te anuncie
os pulsos amarrados à consciência da lua
a devassa dos dedos
e o rito da espera
o sofrimento e o prazer da espera
quando os segundos parecem eternos
e a cegueira desvenda o segredo de todos os sons
ainda sentes as mãos
antes de te despirem.

Ademar
03.03.2007

março 02, 2007

Improviso para harpa e silêncio...

Nenhuma nascente te pertence
na intimidade dos sonhos há muito desabitados
tens em Março cavalos nos olhos
digo planícies em carris
comboios que partem por ti a todas as horas
e um cais que te espera incertamente
entre memórias que viajam
Álvaro de Campos sobrando prematuramente de uma ode
e uma voz repetindo com ele
folhas que voam.

Ademar
02.03.2007

março 01, 2007

Improviso para brincar metáforas...

Tudo se pode dizer por palavras
até que os teus olhos abrigam
chamas de fogo
ou
que ardem desertos dentro deles
nada que antes não tivesse sido pensado
por quem te viajou
faltava apenas decifrar o mapa das palavras
esse código quase das tuas mãos.

Ademar
01.03.2007

fevereiro 28, 2007

Improviso para piano e violencelo...

Há uma varanda para a lua
nos teus olhos
e uma ponte nos meus
que abrevia as margens possíveis
há muitas vozes no teu silêncio
muitos gestos nas tuas mãos ausentes
uma partitura para vaguear
no improviso das noites que não morrem
jazz apenas para dois instrumentos.

Ademar
28.02.2007

fevereiro 27, 2007

Improviso para desenganar dos mapas...

Tenho saudades pendentes
o passado em mim navega sempre para nascente
e estou sempre a voltar do futuro
o meu desejo é um cais
nunca sei quando parto ou regresso.

Ademar
27.02.2007

fevereiro 26, 2007

Improviso sobre a desorientação das palavras...

Desaprendi de conjugar o advérbio
sempre
já não tenho modo nem tempo
para desgramaticar assim
e danço comigo todos os dias
o medo de falhar o próximo passo
a queda enfim que me prometes.

Ademar
26.02.2007

fevereiro 25, 2007

Improviso para mentir espelhos...

Não há código que explique
os silêncios do teu olhar
tudo é anterior a ti
as palavras já tinham sido inventadas
quando desaprendeste de falar
agora usas as mãos
para dizer simplesmente
que já não há espelho que te minta
a tua verdade
tem um futuro dentro.

Ademar
24.02.2007

fevereiro 22, 2007

Improviso para acordar do silêncio...

Um carrocel
viaja com os olhos com que te penso
perco-me da bissectriz do teu corpo
quando danço o silêncio contigo.

Ademar
22.02.2007

fevereiro 19, 2007

Improviso para ouvir a noite...

Sangro as mãos na tua ausência
um sopro de vento interior impele-me
a uma saudade quase póstuma
o pensamento circula por dentro de mim
e eu sangro aquém das mãos
há vozes góticas que me conduzem ao cais
aonde não chegas
um silêncio talvez de luzes
uma viola da gambá um saltério
tenho cordas a mais para tão poucas notas
sufoco de palavras que não lês.

Ademar
20.02.2007

fevereiro 15, 2007

Improviso para balada triste...

Foste aquela
que eu não tive tempo para aprender a amar
esse verbo imenso em que não caberia sequer
a agulha do teu olhar
foste aquela
que gemeu apenas as madrugadas
quando as manhãs até pareciam possíveis
e cada vez mais próximas
foste aquela
que deixou de sorrir numa noite assim
que se apagou com a campainha de uma porta
que trocou o universo
por um meteorito
um poema por uma frase
uma onda pelo oceano
foste aquela
que disse um dia
eu
e morreu.

Ademar
15.02.2007


Improviso sobre o vento em que viajas...

Nesse cais de princípio de todas as noites
as vozes já não cantam
o vento esvoaça as partituras
e as vozes cegam
tresmalhadas das cordas e dos arcos
diz-me porém que ainda cantas
ainda que o vento te dispa a garganta
diz-me que viajarás a cantar
só porque estou à escuta
e o universo te pede
a madrugada adormecerá na tua voz
e calará o vento.

Ademar
15.02.2007

fevereiro 13, 2007

Improviso para desfatimizar...

Esconde a boca
oculta os olhos
cobre os cabelos e as orelhas
que do teu rosto escorra apenas
a linha oblíqua do nariz
e as mãos
as mãos que em ti
prolongam o rosto
frágeis asas de género.

Ademar
13.02.2007

fevereiro 08, 2007

Improviso sobre todas as noites adiadas...

A lua fala pela tua voz
fala ou rumoreja
na medida do silêncio interior das noites adiadas
a vida tem as manhãs da tua entrega
quando os sons escorrem da partitura que te desfolha
e o olhar do sol desfaz todas as nuvens
há uma palavra enfeitiçada
que corre vales entre nós
para que nenhum se perca.

Ademar
08.02.2007

fevereiro 07, 2007

Improviso para chamar o arco-íris...

Os teus muros desenham
o território que nos pertence
há uma imaterialidade nos teus gestos
que conduz o meu desejo à levitação
espero um raio
espero a chuva
espero o arco-íris
e caminho na direcção do pântano
que me ofereces
esse pântano adiado
mil vezes escrito e reescrito
em viagens de palavras silenciadas
o tempo faz uma pausa
para que a primavera não carregue cinzas
de fogos ausentes
prometes berços
prometes pétalas
calendários de folhas por usar
era uma vez uma menina
que aprendeu a andar.

Ademar
07.02.2007

janeiro 31, 2007

Improviso quase medieval...

Amo de amor
amor de amo
cativas-me
para que eu te cative
aprisiono-me
aos teus grilhões.

Ademar
31.01.2007

janeiro 24, 2007

Improviso em dó sustenido...

Quando a noite adormece
tu acordas
e multiplicas-te
há um piano dentro de ti
e teclados que se revezam como ondas
sobre um cais demasiado próximo que te convida
e há muitas mãos que te tocam
enquanto a noite cumpre o seu destino de abandono
o comboio em que viajas
não tem horários
nem trilhos por onde chegues ao fim de ti
partes agora
e não terás regresso.

Ademar
24.01.2007

janeiro 22, 2007

Improviso para dizer que já não caibo no divã...

Alimento-me do silêncio das palavras
calo-me com elas
caso-me com elas
sou um solitário entre palavras
viajo-me em metáforas
digo
sentidos que me revelam e ocultam
já não tenho divã em que me acomode
tresli de todos os manuais
como se já não houvesse palavras que me dissessem
não caibo nessas molduras e já percebi
todas as objectivas me desfocam
há uma imagem de assombro
que verte de mim
quando os teus olhos me fixam
e interrogam assim.

Ademar
22.01.2007

janeiro 19, 2007

Improviso para contar dos anjos...

Os anjos vestem assim
e despem assim
num sussurrado despojamento de pudores
os anjos confiam-se apenas
à sabedoria dos mestres
desafiam o movimento de todos os astros
na ânsia de se confundirem com o universo
não há ciência que os force
ao recolhimento do cárcere
não há grades nem frestas
há um olhar absoluto
que espreita o infinito
e é no infinito que os anjos
tomam a forma e a matéria dos deuses
de que emigraram.

Ademar
19.01.2007

janeiro 16, 2007

Improviso para milagrar...

Sinto-me a gerir a tua alma
como se ela já não te pertencesse
suspendo flores diante de cada um dos teus retratos
para dizer que ainda vives
milagro-te
como li a Manoel de Barros
há um labirinto que nos ainda serve de alcova
tenho a memória despida de ti
e porém
continuas a convidar-me à eternidade.

Ademar
16.01.2007

janeiro 13, 2007

Improviso para distrair o cais...

Desaprendo de esperar
habituo-me a errar o tempo
como se jogássemos sempre às escondidas
se alguma coisa fosse certa em mim
seria esta capacidade de estar sempre desatento
a todos os embarques e desembarques
há uma rotina que me conduz ao cais
e uma névoa interior que não me deixa ver
quem chega e quem parte
distraio-me das horas e dos compromissos
sei apenas que desaprendo de esperar
e regresso sempre a mim
interpelando-me na multidão
falo por muitas mais vozes
do que aquela esta que ouves.

Ademar
13.01.2007

janeiro 11, 2007

Improviso para respirar...

O fio da tua voz
enrola-se-me na garganta
e quase asfixio
prometes-me a boca
sobre todos os tabus
e o silêncio
dos pudores originais
essa jaula tem as grades
que te colocas.

Ademar
11.01.2007

janeiro 10, 2007

Improviso para contar talvez o vento...

Que te ignorassem os astros
e a noite continuaria ainda a acordar
no teu corpo
já não há poema que nos distraia
do tempo em que seremos
o vento ouves o vento
esse gemido quase animal
que parece confundir no horizonte mais próximo de nós
o íntimo rumor de todos as palavras?
sim
talvez a vida tropece ainda nos teus gestos
esse lastro de imaterialidade
que te projecta muito para além da própria vida.

Ademar
10.01.2007

janeiro 09, 2007

Improviso sobre a mais presente de todas as ausências...

Dá-me as formas
para eu caber em ti
as medidas não
que eu não respeito medidas
a tua ausência
tem mais presença
do que todos os mortos
há quase uma vida depois de ti
e antes de ti
e no meio do que fui
e do que serei
estás tu
e eu contigo.

Ademar
09.01.2007

Improviso para desejar apenas boa viagem...

Pode ser que o universo
comece e acabe em ti
e que Einstein afinal se tenha enganado
que tudo passe pelo teu corpo
e se submeta a ele
e que te ofereças
a todos os movimentos de translação
sem te confiares a nenhum
pode ser mesmo que não tenhas
fim nem princípio
que comeces onde acabes
e acabes sempre onde comeces
e pode ser que a tua vontade
seja a própria fonte do cosmos
e que nada exista fora de ti
ou dentro
pode ser até que viajes apenas
neste poema.

Ademar
08.01.2007

janeiro 07, 2007

Improviso para refundar a iniciação...

Perder tudo e ganhar tudo
dizes
voltar ao princípio do que seremos
eis o único sentido da viagem
que intimamente nos espreita.

Ademar
07.01.2007

janeiro 02, 2007

Improviso a benefício de inventário...

Já retirei as cortinas
as persianas
e as janelas
o universo poderá agora
cavalgar livremente por ti
nesse único horizonte
que te impões
ah
deixei ficar apenas as grades
para que jamais te esqueças
de onde vieste.

Ademar
02.01.2007

janeiro 01, 2007

Improviso para reiniciar a história...

Amor é negócio de almas
poupai-o à circunstância dos corpos.

Ademar
01.01.2007