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janeiro 26, 2007

Antologia poética (470)...

Improviso para imaginar a Europa a partir do Picoto...

Talvez da lixeira do Picoto
ainda se veja a cidade
antes de todas as guerras
a ponte que um dia terá sido romana
sobre o Guadalquivir
ou Rialto de todas as setas
alombando sobre o grande canal
os olhos que mergulham para dentro
cruzam todas as memórias
o flamenco e as máscaras
a certeza da porta fechada
que se abre para a noite
quando tu chegas e já não queres deitar-te
e lá em baixo outro canal
com as suas pontes de cimento
que ninguém atravessa
e Paris que corre entre nós
como se lá tivéssemos vivido
esta ausência de bússulas
que nos viaja
este mapa impossível
de tantas saudades
sem data e sem lugar
já estivemos lá
e perdemo-nos sempre.

Ademar
01.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

janeiro 25, 2007

Antologia poética (469)...

Improviso para Bach (ou para ti)...

Se entrasses agora
por aquela porta
ouvirias Bach
serias Bach
e eu continuaria a desfolhar em vão
a partitura
atento apenas às tuas mãos
vazias sempre de teclas.

Ademar
02.08.2006

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Antologia poética (468)...

Improviso sobre a mentira...

A mentira
é uma aprendizagem
aprendi a mentir
no confessionário
diante de uma sombra
que me interrogava
em nome de um deus fardado
eu confessava espontaneamente
todos os pecados
que ele esperava
os pecados do corpo
e até os pecados da alma
tudo a preto-e-branco
e sem genérico ou legendas
cinema mudo para cegos
foi assim
entre perfis de altares vazios
que eu aprendi a mentir
a mim próprio
pecado
de todos o mais capital.

Ademar
03.08.2006

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Antologia poética (467)...

Improviso para Brecht... *

merchantsofdeath.jpg

Brecht
meu cúmplice de tantos dramas
a guerra por aqui
está pela hora do nosso inimigo de sempre
degrada-se o armamento
com o excesso de uso
e os projécteis
já não matam como outrora
inquieta-me todo este desperdício
hoje dispara-se à toa
falta treino de poupança
aos generais
o crédito sopra a indústria da morte
e a morte coitada
faz horas extraordinárias
para abastecer o mercado
mas a guerra não pára
a guerra não pára
e os orçamentos não chegam
para pagar tanta guerra
acabaremos todos nos braços da banca
essa puta inefável.

Ademar
02.08.2006

* A imagem que ilustra o "improviso" reproduz uma litografia de Mabel Dwight.

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janeiro 17, 2007

Antologia poética (466)...

Improviso para dizer por que fico...

Há viagens
que o meu corpo já não suporta
viagens à volta de mim
comigo ausente
viagens
por onde nunca serei
o meu corpo
exige-me agora raízes
para voar.

Ademar
03.08.2006

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Antologia poética (465)...

Improviso para uma leitora...

Quando todas as vozes
forem uma
regressarei ao cantochão
para morrer.

Ademar
04.08.2006

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janeiro 13, 2007

Antologia poética (464)...

Improviso em forma de arquipélago...

Esperaste comigo
tempo de mais
ou o tempo indispensável
eu era apenas um aeroporto periférico
donde talvez deixassem um dia de partir
(acreditaste)
os aviões para os Açores
um daqueles aeroportos em que só pousamos
por razões de escala
as molduras servem para todos os retratos
mas há retratos que não cabem
na única moldura que somos
sempre te disse (lembras-te?)
que há viagens que eternamente adolescemos
eu era apenas um berço tardio
a mais longínqua e inabitável de todas as ilhas.

Ademar
05.08.2006

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janeiro 12, 2007

Antologia poética (463)...

Improviso para dois cravos e todas as cordas...

Ouve
hoje descobri no fundo de mim
uma lágrima
aproveitei para chorar
inadvertidamente
sobre os vinis em terceira ou quarta mão
que um dia me trouxeste das Canárias
a agulha tropeça como eu nas espiras
como se o andante do concerto de Bach tardasse
em dó menor para dois cravos
BWV 1062
ainda há gemidos que eu ouço
no sofá ao fundo da sala
quando tiravas os óculos
para não veres que era eu
nunca me explicaste
por que eram precisos tantos dedos
para tocar um instrumento tão delicado
Gustav Leonhardt.

Ademar
06.08.2006

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janeiro 11, 2007

Antologia poética (462)...

Improviso para distrair o abandono...

Não há segredos
para explicar o regresso
a vertigem do eterno retorno
a nostalgia
transporta-nos sempre aos embalos iniciais
como se apenas no passado
de todos os abandonos
pudéssemos ainda encontrar algum conforto
para o próprio abandono.

Ademar
06.08.2006

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Antologia poética (461)...

Improviso para violino imaginário...

Se ainda te lembras
foi em Salò
o berço de Gaspare
junto à Piazza Duomo
que comprei
Il Trillo del Diavolo
que agora ouço
tentaste explicar-me a minudência técnica
mas eu não percebi
faltava nas tuas mãos
talvez para a dança da vida breve de Falla
(a aula prática)
um violino
sobrava-nos antes a imaginação de Pier Paolo Pasolini
para todo o horror dos 120 dias de Sodoma
que nos levara àquelas margens tardias do Garda
ainda voltámos a Salò
mas já não a tempo de reescrever a história
a nossa.

Ademar
07.08.2006

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janeiro 08, 2007

Antologia poética (460)...

Improviso sobre o fogo em que ardemos...

Como Marley
poderia também dizer-te
No Woman No Cry
as lágrimas não abrem as janelas
que deixámos fechar
e há manhãs de sumo de laranja
que não voltaremos a beber
as saudades tropeçam no destino
e nós tropeçamos nas saudades
sobra ainda esta fuligem de fogo
que nos sufoca por dentro
como se continuássemos a arder.

Ademar
07.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia póetica (459)...

Improviso sobre "Caro mio ben", de Giordani...

Cecilia
no Teatro Olímpico
de Vicenza
cantando apenas para nós
(ficaste com as fotografias)
Caro mio ben
de Giuseppe Giordani
credimi almen
senza di te
languisce il cor
a voz no palco de todas as máscaras
as estátuas espreitando-nos
a antiguidade ali tão perto de nós
e tu subindo e descendo os degraus
à procura do ângulo que falha sempre
il tuo fedel
sospira ognor
cessa crudel
tanto rigor
caro mio ben
Cecilia Bartoli
Agosto de 2003
(digo: Junho de 1998).

Ademar
07.08.2006

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janeiro 06, 2007

Improviso para vigiar o teu sono...

Nesse sonho viajas por mim
e vais ainda mais longe
do que já te imaginaste
a realidade do teu desejo
tem agora dimensões que desconhecias
e nao há célula do teu corpo
que me vire as costas
como na fotografia
o teu dicionário íntimo soletra palavras
princesa puta escrava
e acrescenta-lhes todos os adjectivos
com que te fantasias
nao há terminologia agora que te termine
renasces sempre em todos os sonhos.

Ademar
06.01.2006

janeiro 05, 2007

Improviso para conjugar o verbo pertencer...

Os meus olhos acrescentam luminosidade ao teu corpo
e quando entro pelas frestas do pensamento que me abres
percebo que já somos um
em vez de dois
o verbo pertencer conjuga-se assim.

Ademar
05.01.2006

Antologia poética (458)...

Improviso para segredar ao ouvido...

Há segredos
que eu não dispo para ninguém
senão para ti
que vives dentro deles
como numa espécie de concha da alma
seria inútil negar-te o que sabes
porque sempre o soubeste
mesmo antes de mim.

Ademar
08.08.2006

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Antologia poética (457)...

Improviso sobre uma ária de J.S.Bach...

Que os meus olhos sempre despertos
só adormecessem por dentro dos teus
que as nossas mãos
não errassem as cordas da guitarra nem a partitura
que não houvesse mais corpo entre nós
para além do pensamento
e que até as palavras perdessem
a noção do tempo
que tudo
fosse simples delicado e perfeito
como nesta ária de Bach
uma nudez de saudades
um silêncio de lágrimas
a eternidade cantada assim
num sorriso sem data.

Ademar
08.08.2006

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Antologia poética (456)...

Improviso para explicar que a poesia deve ser outra coisa...

Depois da morte
a vida deve ter mais
do que intervalos
entre as ausências
perguntas-me se aguento
e eu respondo
que tentarei
não saberia sequer dizer-te
o que espero
ou mesmo se espero
este intervalo
já faz parte de mim
sou uma saudade do que fui
talvez a mesma saudade
que te leva a perguntar-me
se aguento
pudesse eu saber
o quê.

Ademar
08.08.2006

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Antologia poética (455)...

Improviso para adormecer pássaros...

Com a simplicidade dos crentes
contaram-me hoje
que alguém
por amor
fingiu deixar de amar quem amava
só para que a gaiola se abrisse
e o pássaro aprisionado
finalmente pudesse voar
em direcção à gaiola que
por direito da paixão
julgava pertencer-lhe
estórias
que a literatura inventa.

Ademar
08.08.2006

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janeiro 04, 2007

Antologia poética (454)...

Improviso para antecipar o caminho inverso...

Ei-lo
o homem
exactamente à medida da tua paixão
medida de todas as paixões
o primeiro
que riu contigo
que disse talvez que eras única
que te serviu a vida
numa girândola de ilusões
ei-lo
uma vez mais
adolescendo contigo
inventando madrugadas
que jogam a tua ausência
um dia regressarás a ti
pelo caminho inverso.

Ademar
09.08.2006

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janeiro 03, 2007

Improviso sobre Touch Me...

Há pepinos que cheiram ainda às minhas mãos
quando ouves comigo Touch Me
The Doors
lembras-te?
aquela batida que quase se confundia com o coração
e que só parava na espira seguinte do vinil
digo na vida seguinte
e as estrelas que não calavam a chuva
naquela letra que nunca foi de poema
come on come on come on
now touch me baby
e a promessa de todos os céus por azular
e mesmo o sopro que não faltava
não digo o instrumento
porque nunca percebi de metais.

Ademar
03.01.2006

janeiro 01, 2007

Antologia poética (453)...

Improviso para aliviar ausências...

Nunca aprendi a dizer
adeus
destituí-me para renúncias
herdei talvez
de minha mãe
esta incapacidade
a morte
que se sentava sempre à mesa
e entretinha as ausências
e eu que comia depressa
para não ouvir
a única janela era interior
e abria para a cozinha
donde vinham todos os cheiros
e todas as vozes
que transgrediam o silêncio
a infância
naquele tempo
em que ninguém se despedia
e todos voltavam
a memória das pessoas
parecia fazer parte delas
não havia palavras
para ensinar o esquecimento.

Ademar
10.08.2006

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dezembro 31, 2006

Improviso quase para desenfeitiçar...

Nada é mais escuro do que a noite
que me ofereces e porém mais claro
tenho antípodas no pensamento
que te viaja
entre todos os solstícios.

Ademar
31.12.2006

Improviso para não desistir do círculo...

Há muitos anos que acredito que
as mentalidades hão-de mudar
acho mesmo que nasci a acreditar que
as mentalidades hão-de mudar
tenho a certeza de que morrerei a acreditar que
as mentalidades hão-de mudar
mudarei?

Ademar
31.12.2006

Antologia poética (452)...

Improviso sobre Diabaté...

Vivemos em corpos trocados
agora fechamos os olhos para não vermos
há uma fronteira de invisualidade
que ao mesmo tempo nos separa e aproxima
cegámos o desejo
e agora tacteamo-nos.

Ademar
13.08.2006

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Antologia poética (451)...

Improviso para violino, guitarra e medo...

Seria talvez
o último encore
ou o primeiro de todos
mas tu não quiseste arriscá-lo
trocaste o violino pelo medo
e falhaste uma vez mais a partitura.

Ademar
14.08.2006

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Antologia poética (450)...

Improviso para dizer o cais...

Empresto-te a mão
apenas uma delas
a mão de que não preciso
para escrever que não há rostos perfeitos
destinos escritos a fogo
na intensidade dos olhares
uma voz uma pronúncia
e o sangue que corre
por fora de nós
entrando nessa corrente universal
que aproxima e afasta os corpos
que se aguardam no cais
agora já posso desembarcar nos teus silêncios
tocar a imagem
segredar-te ao ouvido os versos
que tu seguramente completarás
como se sempre tivesses adivinhado
as saudades que esperavam
os lábios entreabertos
o sorriso suspenso
e o mais que não vejo
talvez essa íntima fracção
de uma vontade de regresso
que esvoaça imperceptivelmente dos olhos.

Ademar
15.08.2006

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Antologia poética (449)...

Improviso para explicar tudo ao contrário...

A porta abre-se para o mar
e é do mar que tu vens
como se os teus braços fossem ondas
e tudo afinal fizesse sentido
nessa ausência ilíquida de formas
um corpo suspenso sobre um horizonte
de renúncias
a âncora subindo de ti
em direcção às nuvens que te esperam
e a bússola talvez nos teus olhos
parada exactamente nesse ponto
em que tudo começa.

Ademar
15.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 30, 2006

Antologia poética (448)...

Improviso em forma de haiku para me oferecer...

Emprestaria o corpo para realejo
se alguma rua me quisesse
já não tenho serventia para afinador.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (447)

Improviso sobre Yamore...

Vagueias o amor em pedaços
repartes-te assim
ouves quando não vês
se perdesses os olhos
verias com as mãos
se as mãos não vissem
talvez cheirassem
e
ainda que mutilada de todos os sentidos
continuarias a pensar-me
o amor tem silêncios
que só tu ouvirás.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 29, 2006

Improviso para desdizer...

Não invento luzes no teu corpo
nasci desapalavrado para evidências.

Ademar
29.12.2006

Improviso a brincar com palavras e os seus sentidos...

Toda a vida
todavia
toda a vida.

Ademar
29.12.2006

Improviso confidencial...

Confidencias-me diariamente
o medo e o orgulho do sofrimento
lentamente
desapossas-te do corpo que te serviu
e agora serve apenas
espantosa viagem essa
do alto-mar para o cais dos espinhos
o universo em ti todo a nado
metáfora de uma paixão talvez sem falhas.

Ademar
29.12.2006

Improviso oficinal...

Desaparafuso-me do pensamento em emoções
as peças já não me encaixam.

Ademar
29.12.2006

dezembro 28, 2006

Improviso para tatuar futuros...

Ofereces-me as costas
para que eu escreva nelas
frágil território para mãos
tão carentes de narrativa
deixa-me reiventar o dicionário e a gramática
soletra-me depois.

Ademar
28.12.2006

Improviso breve para pedra tumular...

O meu universo foi estreito
só teve dias de 24 horas
e morri na navalha de todos os deuses.

Ademar
28.12.2006

dezembro 27, 2006

Improviso sobre uma imagem...

contorcionista.jpg

Donde sai de ti
o pensamento que finge não ver?
onde começam e acabam os teus braços
e as tuas pernas
e onde se cruzam?
há um sinal no horizonte do corpo
que quase te desvenda
um enigma em forma de vela
uma insinuação de género
uma sombra de antiquíssimo pudor.

Ademar
27.12.2006

Improviso com partitura...

A tua voz vem de muito mais longe
para trás ficam
os limites que te imponho
quando ainda cantavas livremente
e não obedecias a partituras
entras-me agora por todos os ouvidos
e serpenteias-me os braços
em direcção ao peito
o único alvo que não erras.

Ademar
27.12.2006

dezembro 26, 2006

Improviso para voar sobre o atlântico...

Não há mãos que triunfem sobre as palavras
nem as mãos que te acordassem dessa tela
onde quase repousas
não há mãos nem chicotes nem algemas
o teu corpo pede agora viagens imateriais
exige o cárcere sem grades
suplica evidências que neguem a superfície do espelho
já quase obedeces apenas a ti própria
um pouco mais de submissão e
poderás conceder-te finalmente a liberdade
de voares nas minhas asas.

Ademar
26.12.2006

Antologia poética (446)...

Improviso para contar que regressei do Mali...

No deserto
o mar deve dizer-se
como tu o dizes
e eu que nada entendo
do que dizes
embora perceba tudo
até o mar
esse mar eternamente imutável
na voz das mulheres
que desertam contigo.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (445)...

Improviso em forma de haiku para me viajar subúrbio...

Já me circum-naveguei tantas vezes
que perdi a noção do centro histórico de mim
agora viajo-me subúrbio.

Ademar
18.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improviso circular...

No princípio
nunca estão todos
só no fim
nas vésperas de ninguém.

Ademar
25.12.2006

dezembro 25, 2006

Improviso em forma de resposta...

O desejo que te entranha o pensamento
é território demasiado frágil
para frequentar em bicos de pés
não sei dançar sobre pântanos.

Ademar
25.12.2006

Improviso com endereço para lembrar a Andaluzia...

Volta da Andaluzia
para o frio de cá
vem por Córdoba
depois de Granada
e traze-me nas mãos
o clamor do flamenco
e os gemidos na tua voz
não precisamos de mais
para vadiar memórias
volta da Andaluzia por favor
e transporta-me de novo a Sevilha
antes que seja demasiado tarde
para folhearmos calendários.

Ademar
25.12.2006

dezembro 24, 2006

Improviso para vadiar-te...

Vadia de desejos
ofereces-te a tudo
e a ninguém te entregas
não te pesassem tanto as asas
e serias mesmo puta.

Ademar
24.12.2006

dezembro 23, 2006

Improviso para enfeitiçar a má vida...

Talvez os olhos vendados
me convidem a ver nos teus
luas que ainda não foram narradas
noites que começam e acabam em ti
como se nenhum sol as pudesse despertar
talvez o temor do risco
talvez apenas o preço da desilusão
palavras que nos estribam a viagem incerta
vozes quase intocáveis
e a inteligência exactamente aquém de nós.

Ademar
23.12.2006

Antologia poética (444)...

Improviso para fundar a oitava cidade...

Cada verso
uma jangada
cada poema
um transatlântico
nas tuas mãos pequenas
crescem remos.

Ademar
19.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 22, 2006

Antologia poética (443)...

Improviso a benefício da retórica...

Quantas vezes confundiste
a canoa com o cais?
quantas vezes
foste o mar e a terra
sem seres nenhum?
quantas vezes
forçaste o naufrágio
e depois te salvaste?
quantas vezes
erraste o mapa e a bússula
só para ignorares o rumo?
e quantas vezes
adoeceste de mim
fingindo apenas que morrias?

Ademar
19.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (442)...

Improviso, com dedicatória, para desdizer o destino...

Ainda que uma perna ou uma mão
te pese muito mais do que a outra
um dia
terás de voltar para casa
a tua guerra
não tinha mapa
perdeste-a apenas no espelho
dos sonhos.

Ademar
20.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improviso para desdobrar o mapa das tuas ruas...

Mais rua menos rua
o teu corpo
mapa estreito
deixa-se percorrer
numa noite de lua cheia
e ainda sobram horas
para tecer contigo a claridade
como te lamentaria
se não fosses Veneza
canais subterrâneos
segredos quase impartilháveis
asas porventura invisíveis
pressinto-te aquém da superfície das formas
a eternidade morrendo ligeira no teu corpo
e nas minhas mãos.

Ademar
22.12.2006

dezembro 21, 2006

Improviso para que me digas das árvores...

Quando o coração me falhar
ficarei à espera da instrução das tuas palavras
digo
seguirei apenas o eco
o lastro da tua voz
no descompasso da festa que faremos
para que ninguém se atreva a acreditar
que a poesia também falhou.

Ademar
21.12.2006

Improviso para guião de alcova...

Os meus olhos cobiçam a lentidão
de patins tropeçam
sacerdotizo vagares
respirações tensas concentradas
suspiros
gemidos a princípio agrilhoados
não tenho pernas para correr
nem pulmões
nem palavras
teço pudores ofegantes
silêncios quase entesoados
o excesso de ruído faz-me sempre errar o mapa
digo
as pulsações íntimas do teu corpo.

Ademar
20.12.2006

dezembro 20, 2006

Antologia poética (441)...

Improviso para dizer a eterna natureza masculina...

Sim claro
os preservativos
não me esqueci dos preservativos
nem tão pouco dos acessórios
para os preliminares
Álvaro de Campos
Herberto Helder
Almada Negreiros
no fundo da mala
a caderneta incompleta
não colei ainda o teu cromo
superstição
reservei o hotel
sessenta e nove estrelas
duas camas individuais
não vá o diabo tecê-las
(diz lá que não rima!)
pequeno-almoço continental
internet
levo pijama
para as leituras primárias
e o portátil
onde guardo a ficção
não descuides por favor a lingerie
que pode falhar-me o tesão.

Ademar
21.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (440)...

Improviso sacramental...

Na cama e na mesa
até que a morte vos separe
ou a vida.

Ademar
22.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (439)...

Improviso para explicar o banho nocturno...

Sais de ti e voltas a ti
todos os dias
ninguém atrapalha a saída
ninguém atrapalha o regresso
talvez não sejas mais
do que uma plataforma instável
de memórias e de sonhos
abres e fechas janelas
só para te sentires arejável
de vez em quando
deixas a porta aberta
como se convidasses o universo todo
a entrar
e deitas-te com a água
não vá a noite pesar-te de mais
com a água
e com todas as personagens
que te naufragam
há sempre um filme em que te viste
um nome que podias roubar
à literatura
um verso que passou por ti
e não fugiu
um vendaval de ausências
amanhã acordarás
para sair e voltar outra vez
e repetirás um a um
todos os passos em que tropeças.

Ademar
22.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 19, 2006

Antologia poética (438)...

Improviso para descontar os dias...

Um labor de miudezas
o governo desse ancoradouro
os dois braços chegam-te
para desenfunar todas as velas
e não há marinheiros agora
que te distraiam
a faina tem os dias contados
mas as tardes por vezes
ainda são límpidas
entre Santa Maria e São Miguel.

Ademar
23.08.2006

Improviso sobre quatro cordas em forma de mulher...

Se eu coubesse nas saudades
algemar-me-ia apenas ao teu violino
ou seria a caixa dele
caberia em mim
como tu sempre coubeste
mesmo quando transbordavas do leito
agora tens casa
já podes abrir as janelas à madrugada
e dedilhar as cordas desse falso stradivarius
delicadamente
como exigias que eu te dedilhasse
contei apenas três
a quarta corda que nunca cheguei a tocar
eras tu.

Ademar
19.12.2006

Antologia poética (437)...

Improviso ao jeito de post-scriptum...

Rir ou enlouquecer
e
entre uma coisa e outra
sempre o mar
na sua imperceptível nudez.

Ademar
24.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 18, 2006

Antologia poética (436)...

Improviso para apoiar as "salas de chuto assistido"...

Ofereço-te a minha veia
poética
não sei se fica
no braço esquerdo
ou no direito
um pouco mais acima
ou um pouco mais abaixo
da virtude que está no meio
ofereço-te aliás as veias todas
para que não falhes
o "chuto"
naturalmente assistido
que estas intimidades literárias
querem-se públicas.

Ademar
24.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improvisos que cantam...

Um dia, publiquei no abnoxio um poema intitulado "improviso lesa-pátria". Alguém, que eu não conheço pessoalmente, resolveu musicá-lo e interpretá-lo. Podeis ouvi-lo aqui.

Improviso para servir de posta restante...

Há dias em que a tua ausência me conspira
pensar-te sem os olhos e sem as mãos
há mais urgência na cegueira
e menos distância talvez
agora já não conto pontes nem viagens
vagabundeio apenas
entre bairros que me clandestinam
sem portas e sem janelas
para ruas inviáveis
desendereço-me
desendereças-me.

Ademar
18.12.2006

dezembro 17, 2006

Antologia poética (435)...

Improviso para piscar o olho ao Henrique...

Gaveta a gaveta
haverá segredo que te resista?
a novidade não descansa
nos teus olhos
as mãos são culatras
que te disparam
e eu que desejo que me devasses
servirão os pais para coisa distinta?
desvenda-me com essa chave
que é agora o teu tesouro
e não olhes para trás
que eu estarei sempre a ver-te.

Ademar
27.08.2006

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Antologia poética (434)...

Improviso para distrair grilações...

Sim
há noites em que já me faltam estrelas
e em que a própria lua
parece zangada comigo
como se o guião do filme me desconhecesse
há grilos a menos
nas palavras que agora me interpelam
esses grilos cujas vozes
ouvias tão longe
e tão perto de mim
quando as noites não eram assim
há um desejo de grilos
nesta evidência que me perde
nesta saudade de não sei o quê
talvez de nós
quando contávamos estrelas
e interrogávamos a lua.

Ademar
28.08.2006

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dezembro 16, 2006

Improviso para auscultar a lua...

Começavas sempre num silêncio de vozes
há uma quinta corda no violino
que só tu sabes tocar
uma terceira mão que sempre me negaste
o olhar que me atravessava de lés a lés
e repousava muito além de mim
onde eu já não estava nem podia chegar
era já um tempo em que sobrávamos
um tempo que abria portas e janelas
para outros tempos
viagem entre sombras
as luzes murchavam com a noite
que não dormias
e eu namorava a lua que me deras
para me achares ainda acordado.

Ademar
16.12.2006

dezembro 15, 2006

Improviso para não dizer as horas...

Não uso medidores do tempo
ando simplesmente às voltas de mim
como se eu fosse o próprio tempo que me recuso
o universo já não cabe no meu sono
fecho os olhos para ver
e fecho as mãos
para espremer ainda mais as palavras
sofro da nostalgia do adjectivo
já usei paletas e pincéis
para pintar a realidade de outras cores
agora distraio-me da própria realidade
finjo que não tenho mais palavras para ela
ando simplesmente às voltas de mim
borboleta que aspira a regressar apenas
à condição original.

Ademar
15.12.2006

Improviso quase aritmético...

De ciência certa
tens os astros e as moléculas
as ervas distraem-te os saltos altos
e a manta sobre as coxas
tecendo a neve
talvez tenhas poesia a menos nas tuas mãos
ou excesso de carga
digo
de ausências
mas voa de ti um novo corpo
como se apenas te multiplicasses.

Ademar
14.12.2006

dezembro 14, 2006

Improviso para musicar o dano...

E se tudo fosse ao contrário
do que autorizas?
se as sombras mentissem
a tua própria luz?
se todas as ervas daninhas
tocadas pelos teus olhos
não passassem de ervas danadas?
pouco sobra do engano que fomos.

Ademar
14.12.2006

Improviso para insculpir toalhas...

Todos os corpos são perfeitos
não importam as cores nem os caixilhos
nem mesmo o lugar da tela
e todas as cortinas são transparentes
como as luzes
como os olhos
como as mãos que convidam outras mãos
a água ausente
a toalha simplesmente do meu desejo.

Ademar
14.12.2006

Improviso para contar tatuagens...

Abre-me ao princípio da tua alma tatuada
suspende-te dessa fonte de enigmas
para que eu te interrogue
mesmo sabendo que não responderás
nega-me o nome
mas não me negues a valsa
venda-me os olhos
algema os pulsos abertos que te ofereço
mas não silencies a partitura
tenho palavras para o teu corpo
as palavras certas.

Ademar
14.12.2006

Antologia poética (433)...

Improviso para melancolizar...

Como se tivessem morrido
os teus cabelos já não cheiram
agora deserto-me de ti
e perco-me dos demais sentidos
até ao pensamento
fecho a porta e apago a luz
em mais uma cela
neste presídio de ausências.

Ademar
28.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (432)...

Improviso em forma de haiku para dizer o movimento...

Regresso ao fim
onde me encontrarei
com o princípio de tudo.

Ademar
29.08.2006

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dezembro 13, 2006

Improviso para vadiar eroticamente...

A aridez dos desertos não me faz desejá-los
castro-me de evidências
Eros reclama apenas a insinuação
os holofotes deprimem-no
descreio da realidade que me entra pelos olhos
como um chicote
prefiro a venda
o pressentimento que induz à peregrinação
sinto-me vadio de sombras.

Ademar
13.12.2006

Improviso para violino e saudades...

A imperfeição das palavras agonia-me
quis escrever para ti o poema perfeito
e encalhei em mim
nada sai perfeito
quando aspiramos à perfeição
há um hiato entre o que somos
e o que dizem de nós as palavras
um buraco negro impenetrável intransponível
digo imaterial
fenda quase sísmica de ausências
todas as ausências que nos preenchem
aproximaste-te com um violino adormecido nos braços
e nem dei pelos dedos que me queriam tocar.

Ademar
13.12.2006

Antologia poética (430)...

Improviso para celebrar Aristóteles...

Eu sei
é uma metáfora masculina
o esperma do teu riso
impudor de género.

Ademar
30.08.2006

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Antologia poética (429)...

Improviso quase pornográfico...

Entre a espécie e o género
há lábios em ti a mais
e a menos
o teu excesso de humidade
endurece-me
sinto
que me impeles â metamorfose.

Ademar
30.08.2006

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dezembro 12, 2006

Improviso para dizer que nunca fui à Mauritânia...

Namoro a chuva dentro de ti
bailando miragens
ou talvez prefira manter-me à distância de uma ilusão
que o teu oásis sofre de exuberâncias pré-natais
até engana ou chora desertos.

Ademar
12.12.2006

dezembro 11, 2006

Antologia poética (428)...

Improviso para cremar Woodstock...

Tudo parecia tão
simples
entre nós
nesse tempo
em que éramos só matéria
e as palavras
não engravidavam de metáforas
bastava dizer
amor
e tudo acontecia
deslumbradamente
como
numa eterna primeira vez
ainda te lembras?
era assim
depois adoecemos
de memórias.

Ademar
31.08.2006

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Antologia poética (427)...

Improviso para dizer que os ponteiros pararam...

Se pudesse nascer outra vez
trocaria de casa e de berço
e faria outras viagens
não morreria assim distraidamente
como quem espera no cais deserto
o próximo comboio
e se atrasa sempre.

Ademar
02.07.2006

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Antologia poética (426)...

Improviso para ritual e estremecimento...

A poesia calar-se-á
calar-se-á a música
despirás a bata branca
e não terás mais
para quem olhar
no lado oculto de ti
talvez agora
silenciados os violinos
estremeças finalmente da ausência.

Ademar
02.07.2006

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dezembro 10, 2006

Improviso para uma orelha solitária...

Nessa mão que
como que te ampara a memória
entre colunas e capitéis
existes num tempo que te transporta entre labirintos
ao recolhimento da infância
grécia e roma antigas sempre
ou
a nudez das formas que secaram no teu corpo
esse pescoço interminável
que termina abruptamente
numa orelha solitária
a única mesmo com que te ouves.

Ademar
10.12.2006

Antologia poética (425)...

Improviso sob a forma de antimadrigal...

Habito palavras suburbanas
perdi-me algures numa periferia de mim
viajo agora às arrecuas
no sentido contrário da infância.

Ademar
03.07.2006

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Antologia poética (424)...

Improviso para ser feliz...

Quando lá estive
nunca fui feliz
sou agora
a felicidade
é a ínfima parte da memória
que sobrevive em paixão
ao esquecimento.

Ademar
06.07.2006

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Antologia poética (423)...

Improviso para dizer que talvez não existas...

Saí hoje de mim
à tua procura
não te encontrei
as fotografias dão muito jeito
quando procuramos alguém
que ainda não conhecemos
nem sabemos se existe.

Ademar
06.07.2006

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dezembro 09, 2006

Antologia poética (422)...

Improviso em forma de haiku para nota de rodapé...

O ponto crítico de todas as paixões
não está no comboio que parte
mas no comboio que chega.

Ademar
06.07.2006

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Antologia poética (421)...

Improviso para dizer os olhos e as mãos...

Para me especializar em ti
precisaria de olhos maiores do que os teus
mãos talvez mais argutas
que as mãos que lavram e semeiam no teu corpo
não podem distrair-se assim
entre poemas urbanos
vens de negro
(não consigo ver-te de outras cores)
e porém cheiras a tudo o que sorri
como se a primavera
tivesse adormecido para sempre
nos teus lábios.

Ademar
08.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 07, 2006

Improviso quase em sol...

A água não me conduz à terra de mim
sou bípede da alma
digo
sofro de materialidade vertebral
já não rastejo.

Ademar
07.12.2006

dezembro 06, 2006

Improviso para explicar o bocejo...

Há imagens que me deixam assim
uma quase impotência de palavras
desmetaforizado
quando já nada combina no altar de mim
nem Boccaccio vendido a peso
nessa feira ambulante de novelas
e papéis de alterne
gótico
como agora sói dizer-se
finjo que não vejo a coxa descarnada
finjo aliás que não vejo nada
nem o que sobra das vestes.

Ademar
06.12.2006

dezembro 05, 2006

Improviso em forma quase de passado...

Sobro para mim
quando já não cabes entre as margens
de ti
exalto-me nos teus silêncios
viajo-me nas tuas inércias
vou pelo lado contrário do destino
na ilusão de te encontrar
o mais longe possível de nós
essa proximidade que nos cega.

Ademar
05.12.2006

dezembro 02, 2006

Improviso para dizer a raridade...

Não sei como me perca nas tuas palavras
antes delas
perder-me-ei sempre nos lábios que te silenciam
essa boca que instintivamente me viaja noutras condições
menos retóricas
e que me transporta ao universo aquém do teu corpo
a raridade de todos os alvos
que em ti espreitam e desafiam o desejo especular
o teu mapa reservado
tratado de anatomia impublicável
e as mãos que te folheiam
as únicas aliás que até hoje
não tropeçaram as páginas inumeradas.

Ademar
02.12.2006

Improviso sobre nenhumas vestes...

O meu desejo perdeu as vestes
está nu neste inverno de dentro
treme de frio quase enregela
todas as correntes o levam
todas as correntes o trazem
e não há sofrimento que o distraia
o meu desejo não tem
encontro marcado com a morte
confunde-se com ela.

Ademar
29.11.2006

novembro 28, 2006

Improviso sobre uma tela quase de Bruegel... *

bangladesh.jpg

Há véus que nos protegem
oferecemo-nos assim
numa bandeja de olhares cativos
pintamos de cores baças o destino
somos a espera
e espreitamos
caberemos sempre na tela
não há mercado que nos esgote.

Ademar
28.11.2006

* Fotografia de Rosário Tique publicada no Expresso-Revista (nº1195, de 23 de Setembro de 1995)

Improviso para guitarra, voz e algemas...

Inclino-me aos teus gritos
Todos os vazios suplicam desertos
as mãos que escorrem pela tua inércia
e simplesmente rastejam
a esperança trocou sempre o destino
não há fadas boas nem fadas más
e a guitarra convida sempre ao corão
o fado é o cárcere em que resides
quando descantas.

Ademar
28.11.2006

novembro 26, 2006

Improviso sobre mulheres...

Nunca as mulheres se completam
nascem umas das outras
umas nas outras
e as mãos quase inertes dos homens
passam sempre ao lado delas
nunca chegam a tocá-las
as mulheres não respiram
elas próprias são
atmosferas impartilháveis.

Ademar
26.11.2006

novembro 25, 2006

Improviso com todas as teclas...

O alimento das imagens que me serves
teclas que vais tocando à distância
com os olhos
este piano de tantas palavras
que te engravidam
dizes tu ou eu adivinho
devolvo por metáforas o toque
dos teus olhos
metaforizo-me
para que não me confundas com o silêncio.

Ademar
25.11.2006

novembro 24, 2006

Improviso para dizer que cego...

Não sei com que olhos me vês
entre tantos reflexos
o pescoço que parece prolongar-te
no atrevimento da proa
e o cabelo
o teu cabelo
que voa
e eu com ele
partindo os lábios ausentes
dos mamilos falsos que me ofereces.

Ademar
24.11.2006

Antologia poética (420)...

Improviso para desver ao longe...

De imagens e de palavras
como tijolos
se faz em mim o desejo
raramente encaixam e fecham
sobram sempre frestas muitas frestas
para espreitar o mundo
e do lado de fora
já não existo
não consigo ver-te.

Ademar
08.07.2006

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Antologia poética (419)...

Improviso para azulejo...

Não preciso de muito
para ter sido feliz.

Ademar
09.07.2006

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Antologia poética (418)...

Improviso lunar...

Sugeres-me a praia
em vez do alto-mar
não sei se a terra
começa ou acaba em ti
mas há ainda vestígios de lua
nas ondas que me trazes.

Ademar
09.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

novembro 23, 2006

Improviso à guisa de preâmbulo ou de epígrafe...

O meu palco tem paredes estreitas
não vai muito além de mim.

Ademar
23.11.2006

Antologia poética (417)...

Improviso para dizer a eternidade...

Traz-me num sorriso o Requiem de Brahms
"Denn alles Fleisch, es ist wie Gras"
não importa o que os teus lábios digam
ou cantem
cai simplesmente diante de mim
fulminada por um tiro no escuro
como numa sequência de Hitchcock
e abre-me a porta (ou a janela)
para uma segunda ou terceira vida.

Ademar
10.07.2006

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Antologia poética (416)...

Improviso para epígrafe...

Fala-me da eternidade
dir-te-ei como matarás.

Ademar
11.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Improviso para quatro cordas, um arco e duas mãos...

Um violino sobre a memória
de todos os sons que me habitam
seja o teu
mesmo um falso stradivarius
esse mesmo
que apenas uma vez
arranhaste para mim
um violino quase abandonado
esquecido da delicadeza das tuas mãos
não há cordas que preencham
nem arco
o discreto rumor da tua ausência.

Ademar
23.11.2006

novembro 22, 2006

Improviso sobre uma imagem...

egipto.png

Visitas-me quase na morte
esse tempo que teima em adiar
o inadiável
tento o feitiço da estátua
que ainda não abraça
acordo no centro dos teus olhos
e cego
há uma luz que me escapa das mãos
e já não agarro
subo e desço escadas
no museu que serei
explico-te
há uma ala de mim
que ainda não abri ao público
porque é lá
exactamente
que me esperas.

Ademar
22.11.2006

Improviso quase surrealista...

Não sei se no chão ou na mesa
provas-me
serei o prato
serei o rato
ou
o reflexo talvez da escuridão
que te aproxima
iluminando-te
as algas as conchas as sombras
o mar todo depositado no teu corpo
que vem assim à praia
que vem assim a mim.

Ademar
22.11.2006

Improviso para dizer as estações do ano...

O inverno chegará contigo
talvez na fisionomia de uma máscara veneziana
ou embalando-nos num berço
tens nuvens no olhar e choves
não há primaveras que te dispensem
passarei por ti
passarás por mim.

Ademar
21.11.2006

novembro 21, 2006

Antologia poética (415)...

Improviso na berma da estrada...

De vez em quando vou ao futuro
e já não tenho vontade de voltar
fico por lá a interrogar ausências
distraído das saudades
do que não chegareii a viver.

Ademar
13.07.2006

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Improviso para simular um sonho...

Desci do cabelo e eras tu
tão a preto e branco como noutras telas
e distante
quase cadáver quase boneca
os lábios entreabertos
as órbitas vazias
e o corpo perfeito
inanimadamente perfeito
abre agora um pouco mais as pernas
deixa-me espreitar para além de ti.

Ademar
21.11.2006

novembro 20, 2006

Antologia poética (414)...

Improviso de amor para búzios e dialecto galaico-minhoto...

Não sei em que galizas ou minhos
de uma infância que ainda estranho
entre búzios
treinou a voz trigueira que me canta
vai-te embora marinheiro
que eu não sou o teu amor
de todas as âncoras que regressam ao cais
só senti a falta da tua
quando dei comigo
afogando o alto-mar.

Ademar
13.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

novembro 19, 2006

Antologia poética (413)...

Improviso para dizer como corres...

O rio que te anuncia
tem correntes silenciosas
que te recusas a ouvir
mas que te arrastam
a margens desejadas
ainda que desenhadas a silêncio
no curso do teu infinito
por isso
não há represa ou açude
que eternamente possa conter
a tua força feroz de transbordamento
um dia sairás de ti
para finalmente te reencontrares.

Ademar
15.07.2006

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Antologia poética (412)...

Improviso em forma de domingo...

Há quem tenha
a exigência da imperfeição
se algum dia tiver de ser escuteiro
sê-lo-ei apenas por ti.

Ademar
16.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

novembro 18, 2006

Improviso para beber de ti...

O mel dizes
escorre dos olhos
mas a tua boca sangra
mesmo quando sorris
a tua solidez liquefaz-se
és mais liquida do que pareces
muito mais
bebo-te gota a gota
quando desces do palco
doce e suave.


Ademar
18.11.2006

Improviso para distrair jibóias...

As tuas mãos
arriscam um novelo de jibóias
quase antecipam
o falhanço do chicote
confundes-te na névoa que me impões
olha que eu vejo muito mais nítido através da névoa
o espelho jamais contará como fraquejas.

Ademar
18.11.2006

Antologia poética (411)...

Improviso para negar as escrituras... *

Para que o Pai não duvidasse
do sucesso da sua missão
Judas visitou Cristo na cruz
e
temendo que o Messias
pudesse sofrer mais do que estava predestinado
martelou ainda mais os pregos
para apressar a morte e a história
foi então que o sangue do Redentor golfou
sobre os olhos do traidor
e Judas
(que não frequentava urgências hospitalares)
desmaiou
à visão do amigo desfalecido
Cristou não resistiu à tentação misericordiosa
e desceu da cruz para o reanimar
consta que já se tinha arrependido
dos caprichos sádicos do Pai
e só esperava um bom pretexto para negar as escrituras
e gozar a vida
foram ambos dali para os copos
rindo da ingenuidade dos Apóstolos e das Apóstolas
ainda hoje não se sabe
quem ficou na cruz no seu lugar.

Ademar
17.07.2006

* Agradeço à Ana Saraiva a involuntária inspiração.

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novembro 17, 2006

Improviso para desinfetichar...

O teu corpo é o meu fetiche
digo-te deste modo
para que não me confundas
com um vulgar adorador de estátuas
principias muito antes de te percorrer
e nunca terminas no meu desejo
sobras sempre para depois
sobras sempre assim.

Ademar
17.11.2006

Antologia poética (410)...

Improviso para dizer da guerra...

Saio indefeso do abrigo
e dou a mão às palavras
seguindo um trilho de pegadas de silêncio
que talvez me conduzam a ti
sejas tu quem fores
estou em guerra
com o que deixei para trás
e recuo apenas
vertigem suicida
há-de haver ainda um campo
em que te encontre
uma sepultura sem lápide
na minha memória
aí ficarei a deslumbrar saudades.

Ademar
18.07.2006

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Antologia poética (409)...

Improviso em forma de haiku para voar...

Se eu soubesse que entrarias por uma janela
aperfeiçoaria as asas
para voar no sentido contrário.

Ademar
20.07.2006

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novembro 16, 2006

Improviso sobre uma liquidez de luzes...

Onde começam as tuas pernas brancas
que mergulham na água?
por que as abres assim
escorrendo folhas (ou serão líquenes)?
estou mais próximo da margem
não sei se acoste
se mergulhe contigo
a tua liquidez de luzes
convida-me à submissão dos lábios
e do olhar
sinto que me afogas o desejo
no fundo de tudo o que me escondes.

Ademar
16.11.2006

novembro 15, 2006

Improviso a preto e branco...

Desces com a água
e fundes-te com a terra
quando as botas
já não levitam
digo
solidificas
quase enregelas
e nenhum movimento
te pertence
reinventas-te a preto e branco
sob um palco passadiço
passerelle
és apenas a abstracção das formas
que te insinuam
viajas no sentido contrário
de te encontrares.

Ademar
15.11.2006

novembro 14, 2006

Antologia poética (408)...

Improviso para lembrar o movimento de uma gazela...

Quando te penso
assim indefesa
para servir de todos os alvos
só me ocorre um clichet
alma selvagem
talvez um dia recuperes o corpo
na clareira onde o perdeste.

Ademar
21.07.2006

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novembro 13, 2006

Improviso para S.Martinho...

Hoje
atrasadamente
magustei
digo
magostei
não sei
se em português
se em castelhano
as castanhas
quando se deixam assar
iberizam-me.

Ademar
13.11.2006

Antologia poética (407)...

Improviso para dizer a circunstância do lugar...

Sei que esta noite não serei bombardeado
nem amanhã
nem depois
nem depois
nem depois
faça Condoleezza Rice o que fizer
viaje para onde viajar
diga o que disser
sei que não serei bombardeado
é uma sabedoria que não faz parte de mim
mas do lugar a que pertenço
e da sua história
uma espécie quase de imunidade
(humanidade).

Ademar
23.07.2006

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Antologia poética (406)...

Improviso para explicar por que tardo...

Já só tenho tempo
para as palavras que não me exigem a eternidade
sinto agora a alma colada ao corpo
a noção de transcendência
transporto-a nos sapatos
sempre que dou um passo
coxeio na metafísica.

Ademar
24.07.2006

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Antologia poética (405)...

Improviso para entardecer...

É sempre tarde para alguma coisa
para te lembrar o horário
do comboio ou do avião que perdeste
para dizer-te que Rameau
teria escrito aquele bailado para ti
ou que nascemos nos antípodas do tempo
ou das divindades
é sempre tarde
para anunciar que te espero
por mais cedo que possa parecer-te
os ponteiros dos nossos relógios
não acertam o sentido nem o movimento
da chamada
somos asteróides vagabundos
num cosmos que nenhuma lei habita
verbos que desconhecem as pessoas
em que devíamos ser conjugados
é sempre tarde para alguma coisa
para te dizer simplesmente
que tardamos.

Ademar
25.07.2006

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novembro 12, 2006

Antologia poética (404)...

Improviso para dizer nada ou quase tudo...

Se o teu corpo me apetecesse tanto
como as tuas palavras
talvez tivesse de inventar
outro corpo
ou outras palavras
para renascer.

Ademar
26.07.2006

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Antologia poética (403)...

Improviso para critério de contabilização dos mortos...

Em qualquer guerra
há os mortos bons
e os mortos maus
os bons
morrem de farda
(ainda que invisível)
os maus
não
por isso
para ministro da guerra
eu escolheria
um costureiro
ou
uma costureira
como dizia o outro
o problema está sempre
em vesti-los.

Ademar
27.07.2006

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novembro 10, 2006

Improviso para cegueira e viola de arco...

Falho-me muitas vezes no silêncio
os olhos sussurram apenas
e tu finges que não ouves
finges que não vês
e eu distraio-me
a dizer redundâncias
aquele cego que há tantos anos
repete o mesmo pedido de sempre
exactamente nos mesmos termos de sempre
exactamente naquele mesmo lugar
e deixa as esmolas no chão
quando se levanta e regressa
à intimidade dos olhos
que nunca deixaram de ver.


Ademar
10.11.2006

novembro 09, 2006

Improviso na forma de insónia...

As mulheres não dormem
vigiam a noite
agarram-se às bordas do chão
e resistem assim ao abandono
dos machos inertes
o silêncio nunca chega
para tantos
sobra sempre alguém.

Ademar
08.11.2006

novembro 07, 2006

Improviso para nos contarmos na muralha da china...

muralha.jpg

Talvez entre nós
suba e desça uma muralha assim
encontramo-nos no horizonte dos olhares
um pouco depois ou antes do desejo
que nos distrai
já guerreámos
agora desenferrujamos apenas as armas
para que no museu de nós mesmos
ainda nos vejam limpos
ainda nos vejamos
viajamos por dentro da objectiva
digo
somos parte do objecto
a parte que só nós próprios alcançamos
um dia descobriremos
que não tínhamos fim
nem mesmo entre as duas faces da muralha.

Ademar
07.11.2006


Antologia poética (402)...

Improviso para agradecer a Adélia Prado...

Hoje cheirei-me intimamente os interiores
soube-me a estranho
prefiro que me vejam de fora
ou pelo menos que me espreitem
os espelhos divergem-me
sou outro
quando entras por mim.

Ademar
27.07.2006

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Antologia poética (401)...

Improviso para degredo e mosca...

Espreito o mundo
pela janela ao canto da sala
escondo-me para não ver
neste degredo
só faltam seres vivos
há matemática e poesia a menos
nas emoções que se baralham
sofro de uma espécie de esperança
que morre um pouco todos os dias
o mundo espreita-me
pela janela ao canto da sala
e procuro em vão esconderijos
não há abrigos
para este desconforto acumulado
não há palavras
adoeço de silêncios
e de medos que já não falam
sobra clandestinamente uma mosca
regresso às metamorfoses de Kafka
entendo-me com ela
desentendo-me de tudo o mais
este circo chora-me
viajo em direcção à infância
como se procurasse a fonte primeira
do esquecimento de tudo
não caem lá fora
o míssil que deflagra
fui eu.

Ademar
28.07.2006

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novembro 06, 2006

Antologia poética (399)...

Improviso doméstico...

Uma borboleta inesperada
pousou-me no ombro doméstico
não sei se a mate
se a escravize
receio que sejas tu.

Ademar
01.06.2006

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Antologia poética (398)...

Improviso para chover no molhado...

Há uma palavra
que deves eliminar do teu vocabulário
uma palavra agnóstica
outrora demoníaca
descaradamente subversiva
uma palavra masculina e espúria
que a psicologia e a moral
interditam às mulheres
e às meninas
uma palavra
que deves pronunciar nunca
e menos ainda pensar
ou escrever
prazer.

Ademar
01.06.2006

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Antologia poética (397)...

Improviso mail.telepac.pt...

Mesmo depois de expirar
espero
que me deixeis fazer novamente
o login.

Ademar
01.06.2006

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Antologia poética (396)...

Improviso sobre uma confissão de fiasco...

Talvez o teu fiasco
tenha uma alma virgem lá dentro
um corpo desengravidante
quero dizer
mãos trémulas e nervosas
a pedirem uma pena das antigas
com aparo para molhar a ansiedade
esse sorriso crispado
que diz sim a tudo
antes do não definitivo
como se vivesses ao contrário
numa desordem ainda feminina de entrada em cena
labiríntica ou circular.

Ademar
01.06.2006

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novembro 05, 2006

Antologia poética (395)...

Improviso para emagrecer...

De vez em quando
o ego reclama
uma dieta de emagrecimento
a submissão absoluta
à omnipotência do universo.

Ademar
02.06.2006

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Antologia poética (394)...

Improviso para Bolonha e cinismo...

Confesso fui deficiente
num tempo em que ainda não havia nas escolas alunos com
"necessidades educativas especiais"
(os aterros sanitários serviam então para alguma coisa)
no estudo dos verbos
nunca passei da primeira pessoa do singular
ainda assim
arrematei uma licenciatura e
emoldurei o canudo
Coimbra era muito fácil
muito mais do que agora.

Ademar
05.06.2006

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Antologia poética (393)...

Improviso quase evangélico...

Desaprendi o feitiço da perfeição
banalizei-me
a grandeza amesquinha-me
sofro apenas com os sofredores
presidiei-me
impus-me grades no olhar
e no pensamento
receio só ter aprendido com cristo
o movimento na direcção contrária.

Ademar
05.06.2006

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Antologia poética (392)...

Improviso para saudar-me...

Há dias em que só aspiro a dormir criança
dias em que não me apetece deitar-me contigo
sejas tu quem fores
escrava ou dominadora
dias em que só estou preparado para mim
nesse território que divido com a morte
entre almofadas
antes de me atirar da varanda mais alta
de uma torre qualquer
para o mais fundo do meu esquecimento.

Ademar
06.06.2006

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Antologia poética (391)...

Improviso para Neptuno...

O meu pensamento é uma casa
que ainda não inventei
salas voláteis
quartos vazios de tudo e de nada
despensas armários
muitas estantes de livros ausentes
portas que nunca fecham
janelas que nunca abrem
camas em que ainda ninguém morreu
não tenho ideias
para fingir de arquitecto
o telefone fixo deixou de tocar
a campainha
agora
arranha apenas o silêncio
há mais refúgio nesta clausura
do que na saudade do próprio exílio.

Ademar
07.06.2006

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novembro 04, 2006

Improviso para anoitecer...

Obscureço
inesperadamente obscureço
sobro-me pelo filamento de uma vela
e o horizonte muito próximo
de um cigarro que arde ainda entre dedos
faróis que riscam a noite ausente
um silêncio que quase ensurdece
já só posso ver-me a um único espelho
estas palavras que me tremem nos olhos
que importa que me leias
se não acrescentas luz
à escuridão em que me vagueias?

Ademar
04.11.2006

novembro 03, 2006

Antologia poética (390)...

Improviso para telemóvel e silêncio...

Hei-de gritar-te sempre aos ouvidos
hei-de gritar-me sempre
só para me fazer ouvir
ouve
todos os homens são egoístas
ou surdos.

Ademar
07.06.2006

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Antologia poética (389)...

Improviso sobre a impossibilidade de me ligar ao universo...

Perdi a ligação ao outro lado de mim
e as palavras perdem-me
não sei ainda se regresso ao que fui
antes da viagem que me trouxe aqui
ouço talvez as tuas lágrimas
emparedadas no silêncio
nada é perfeito na memória
quando passamos o filme atrás
nada do que previmos aconteceu
a vida é este cálculo de desenganos
cada um vai pelo seu caminho
e um dia desencontramo-nos
todos os destinos são paralelos
não há sonhos que comunguem as madrugadas.

Ademar
08.06.2006

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Antologia poética (388)...

Improviso evangélico...

Nem todos os apóstolos
dançaram com Maria Madalena
depois da última ceia
alguns só tiveram mesmo vontade
de vomitar
a traição da lucidez
origina-se sempre no estômago.

Ademar
12.06.2006

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Antologia poética (387)...

Improviso para um demente que não sabe que o é...

De deus e de louco
todos temos um pouco
menos tu
és demência apenas
e jamais o saberás.

Ademar
14.06.2006

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novembro 02, 2006

Improviso mais breve do que o pensamento...

Nenhuma nudez será castigada
senão à chegada.

Ademar
02.11.2006

Antologia poética (386)...

Improviso diurno para dizer improbabilidades...

Um último café
um último cigarro
um último gole de whisky
e uma vez mais
Salve Regina
Haydn para amantes silenciosos
e improváveis
como foram sempre todos os amantes
que nunca chegaram a ser
não voltarei a dizer-te os poemas
que nem tu sabias
que tinham sido escritos para ti
não voltarei a acampar nos teus desertos
a fugir das palavras com que me acenavas
da outra margem dos dias envergonhados
morri precisamente na hora em que nasceste.

Ademar
15.06.2006

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Antologia poética (385)...

Improviso para continuar a descansar do futuro...

A mão estendida que não vi
nem o olhar
nem o silêncio dos lábios sussurrantes
e a eternidade morta
naquele instante distraído
em que falharam as luzes
digo
a história possível
que jamais escreveremos.

Ademar
15.06.2006

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Antologia poética (384)...

Improviso para despir profetas...

O labirinto
sem portas nem janelas
sem paredes digo território
o labirinto
essa absoluta ausência de sentidos
construção interior descontruída
de todos os sentidos
seita que desafia
a própria noção de divindade
para consagrar apenas um novo profeta
os rebanhos peregrinam labirintos.

Ademar
16.06.2006

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novembro 01, 2006

Antologia poética (383)...

Improviso sobre uma condição feminina...

Arrastas por vezes o corpo
como se ele te pesasse
e dia a dia
pesas sempre um pouco menos
do que antes
já não é o corpo que te pesa
nem a alma
mas a imponderabilidade do género
nasceste do lado errado
do espelho da humanidade
ou talvez
numa espécie de fronteira interior
entre seres macho ou fêmea
falta-te apenas um sexo
para fundires o desejo em ti própria.

Ademar
18.06.2006

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Antologia poética (382)...

Improviso para te elementar...

Faltam vozes ao teu coro
faltam dedos ao teu corpo
sobra-te apenas na prisão
a condição desejante
fêmea tardia
oferecida assim à vocação
de todas as mulheres que nunca o serão.

Ademar
19.06.2006

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Antologia poética (381)...

Improviso em sete andamentos para dizer o princípio da criação...

Primeiro andamento
adagio
a tua voz
segundo andamento
allegro
o teu sorriso
terceiro andamento
andante
o teu pudor
quarto andamento
vivace
o teu desejo
quinto andamento
largo ma non troppo
o teu medo
sexto andamento
presto
a tua dúvida
sétimo andamento
moderato
o teu silêncio.

Ademar
20.06.2006

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Antologia poética (380)...

Improviso para quem me disse que outros tinham medo...

O medo veste-se
como roupa íntima
ninguêm vê
senão os amantes
que nos despem.

Ademar
22.06.2006

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Antologia poética (379)...

Improviso quase para Dylan...

Disseste-me tantas vezes
que não querias mudar o mundo
só o nome
não tinhas força de braços músculo
o mundo era coisa pesada para se mudar
só não querias que as portas se fechassem
atrás das tuas sombras
e que as mulheres sim as mulheres
não te desencantassem do silêncio
esplanaste a vida entre dois whiskies
que não chegaste a beber
e
papel rastejante
deixaste-te morrer depois.

Ademar
26.06.2006

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Antologia poética (378)...

Improviso na forma de haiku...

Se o meu pensamento
não tivesse grades
como voaria?

Ademar
26.06.2006

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outubro 31, 2006

Antologia poética (377)...

Improviso a contracorrente...

Sofro de cuidados paliativos
tarda o diagnóstico
e não quero mais adiar-me assim.

Ademar
27.06.2006

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Antologia poética (376)...

Improviso em forma de epitáfio para não dizer saudades...

Não tenho saudades do que fui
nem do que foi em mim
tenho apenas saudades da humanidade inteira
que nunca chegarei a ser.

Ademar
28.06.2006

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Antologia poética (375)...

Improviso sobre a submissão...

Antes de colocardes flores
interrogai sempre os altares
não há um único sacerdote
que não convide ao medo
e que espere de vós
um pouco menos do que a renúncia
a linguagem de todos os deuses profanos
será sempre a linguagem da morte.

Ademar
29.06.2006

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Antologia poética (374)...

Improviso por Scheherazade...

scheherazade.jpg

Não me obrigues
todas as noites
a recontar a mesma estória
corta-me a cabeça
ou finalmente
deixa-me repousá-la em paz
no teu colo.

Ademar
30.06.2006

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Antologia poética (373)...

Improviso para náufragos...

Se os teus olhos adivinhassem os meus olhos
quando me lês
se o teu desejo fosse mais do que uma ínfima parte do meu desejo
se as nossas mãos se cruzassem
e eu pudesse ainda tocar-te
se não voltasses a dizer-me
que já morreste
ou que nunca chegaste a nascer
se o medo não fosse a única palavra do teu breviário
e finalmente sorrisses para dentro
os nossos dias não teriam o cheiro ácido deste silêncio
que nos naufraga.

Ademar
30.06.2006

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Antologia poética (372)...

Improviso sobre uma circunstância...

O silêncio reclama
o recolhimento inodoro dos corpos
mãos que cheiram
distraem.

Ademar
02.05.2006

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outubro 30, 2006

Antologia poética (371)...

Improviso sobre a tentação...

Há qualquer coisa no imprevisível
que me dói
preferia morrer por catálogo
ao balcão talvez do google
deus
debruçado sobre o universo.

Ademar
04.05.2006

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Antologia poética (370)...

Improviso retrospectivo...

Não há memória que o fogo não queime
já fui o teu senhor e o teu escravo
numa gramática com normas
que só nós próprios conhecíamos
e já fui muito mais do que isso
um pedaço mesmo da eternidade
quando velozmente te vinhas.

Ademar
06.05.2006

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Antologia poética (369)...

Improviso sobre a semente da imortalidade...

Não espera por nenhuma primavera
uma dissonância atrai-a
faz-se então ao corpo
semeia-se e deixa-se crescer
um dia
imortalizamo-nos com ela.

Ademar
07.05.2006

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Antologia poética (368)...

Improviso com lágrimas ao fundo...

Não há suicídios perfeitos
não há palavras imortais
sobreviveste
quando falhaste
talvez tenhas querido chegar
cedo de mais
ao princípio de tudo
essa nebulosa de ausências
a que faltava simplesmente
a assinatura desejante de uma mãe
digo-te
a morte retroactiva
suspensa dos violinos e dos violoncelos que te tocam
em baixo contínuo
é o mais pesado dos teus fardos.

Ademar
09.05.2006

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outubro 29, 2006

Antologia poética (367)...

Improviso sobre um Allegro de Bach...

Há uma música no fim de tudo
que nos dança
talvez em dois violinos
um violoncelo
e órgão ou baixo contínuo
uma sonata (claro) de Johann Sebastian Bach
digo
um allegro
eroticamente perfeito
orgástico quase.

Ademar
09.05.2006

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Antologia poética (366)...

Improviso para distrair o rebanho...

Podias falar por tantas vozes
(e ele há tantas vozes que te falam!)
e falas apenas por uma
que não te pertence
falta oxigénio à tua voz
para que pareça mais
do que um balido.

Ademar
11.05.2006

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Antologia poética (365)...

Improviso sobre as palavras que matam...

Hoje não saí à rua com o cão
que não tenho
levei pela trela algumas palavras que
(julgava eu)
precisavam de me respirar
fiz a experiência
discretamente
distraí-me delas
entre o lixo
e não olhei para trás
regressei a casa
por volta de 1980
são as palavras desoxigenadas
que nos envelhecem.

Ademar
12.05.2006

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Antologia poética (364)...

Improviso para chave e orquestra de câmara...

Se a noite se deixasse aprisionar
far-te-ia refém
o desejo
é um cárcere privado
em que me fechaste por dentro.

Ademar
12.05.2006

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outubro 28, 2006

Antologia poética (363)...

Improviso para Cassandra...

Naquelas tardes irrespiráveis
cigarro sobre cigarro
ele esperava ainda por ela
como na primeira sequência do filme
que cada um teria escrito
antes da invenção do cinema
ela nunca dizia que sim ou que não
mas faltava sempre
silenciosamente
deixava-o fumar o ciúme
abrindo o desejo a outras mãos.

Ademar
15.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (362)...

Improviso sobre a rotina...

Somos sempre para alguém
insubstituíveis
até ao dia simplesmente
em que deixamos de o ser
a morte transpira cansaço
e rotina.

Ademar
15.05.2006

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Antologia poética (361)...

Improviso sobre o esquecimento...

O esquecimento ressuscita-me
não há desilusão
não há cancro
não há dívida ou dúvida
de que o esquecimento não me proteja
a mãe que aconchegava os lençóis
quando a noite em fúria
prometia pesadelos.

Ademar
16.05.2006

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outubro 27, 2006

Antologia poética (360)...

Improviso renascentista...

No princípio
é sempre o fim de alguma coisa
a nossa história tem muitas páginas
e estão todas numeradas
a morte renasce-nos sempre
até não haver mais princípio.

Ademar
16.05.2006

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Antologia poética (359)...

Improviso para desprezar o silêncio...

Se eu tivesse lágrimas
para chorar contigo
talvez
não me improvisasse assim
tanto por dentro das palavras
e sempre tão fora de mim.

Ademar
18.05.2006

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Antologia poética (358)...

Improviso sobre uma fotografia de Carmel Skutelsky...

miste.jpg

Já fui o tronco
que te arrancou ao silêncio da terra
já imobilizei os teus braços
e lentamente desenhei nas minhas mãos
as raízes do teu corpo
morres agora de excesso
por todo o tempo que te fizeram perder
e eu volto a ser o monstro ou a fera
que te espreita e protege
à direita da tela
entre os olhos perfurantes da noite
talvez o leão que ainda não conseguiste desvendar
dentro de ti.

Ademar
19.05.2006

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Antologia poética (357)...

Improviso para libelo acusatório...

Que a culpa sobre toda
para quem talvez
tenha descido na estação errada
da história ou da vida
tu ou eu
digo
tu e eu
em nós
a humanidade inteira
a culpa toda.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (356)...

Improviso para cadáver e trompa...

Se olhares bem para dentro de mim
verás
sou um cemitério de corpos
um daqueles castelos abandonados
da bretanha
que já só os fantasmas habitam
entre retratos sem moldura
assinaturas quase ilegíveis
um cheiro intenso a mortalidade
que a memória distraída vai desfolhando
talvez ainda me pertenças
neste rasto de imprecisões
perdi-te algures
morri nos teus braços.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (355)...

Improviso na forma quase de epitáfio...

Se pudesse reescrever-me
contar-me-ia ao contrário
de dentro para fora
e nunca de fora para dentro.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (354)...

Improviso para compor na forma de moteto...

Há corpos em que embarcamos
para nos perdermos no alto-mar
e corpos em que morremos
antes de sabermos nadar.

Ademar
22.05.2006

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Antologia poética (353)...

Improviso a benefício do medo...

Voltarás a ouvir o silêncio
e arrumarás talvez o cachecol
na gaveta das intimidades impartilháveis
para que não sintas mais vontade
de te cheirar
faltar-te-á uma voz
do outro lado da cidade
mas ainda do mesmo lado de ti
uma voz entre o inverno e a primavera
que bordava simplesmente murmúrios
e morrerás um pouco mais
todas as noites
prisioneira dos medos que geraste
e de todas as mãos ausentes.

Ademar
22.05.2006

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Antologia poética (352)...

Improviso para harpa e duas mãos...

Descobriste muito tarde
aprendeste apenas comigo
que também tinhas duas mãos
e podias ser harpa
a madrugada solitária
transporta-me agora o eco
das tuas cordas
reconheço-te ainda na partitura.

Ademar
23.05.2006

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Antologia poética (351)...

Improviso para cadastro e baixo contínuo...

Não me engoliste
não te engasgaste
foste mãe para mim no pretérito
muito mais do que perfeita.

Ademar
24.05.2006

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Antologia poética (350)...

Improviso para masoquistas...

Talvez rastejar e ajoelhar
sejam apenas verbos
e não atributos
de quem se oferece à submissão
quem rasteja e ajoelha
mais tarde ou mais cedo
levanta-se
com a sabedoria ou a raiva
do chão.

Ademar
24.05.2006

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Antologia poética (349)...

Improviso sobre os dias contados da primavera...

Morrerás um dia
para todos os olhos
e todas as mãos
que te vibraram
mas antes disso
deixarás de te ver ao espelho
as fêmeas borboletas
têm vida efémera
seca-lhes depressa a fonte do desejo
e todas as janelas passam a abrir
apenas para o deserto
a primavera
minha amiga
tem os dias contados.

Ademar
25.05.2006

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outubro 26, 2006

Antologia poética (348)...

Improviso pré-arquitectónico...

Todas as casas
são templos de magia
estão cheias de tudo
o que lá não está.

Ademar
26.05.2006

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Antologia poética (347)...

Improviso a benefício da saudade...

Um dia
quando eu já for uma ausência eterna
ler-me-ás talvez com outros olhos
a morte que sempre há-de iluminar-nos.

Ademar
26.05.2006

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Antologia poética (346)...

Improviso em forma de urgência...

Há sempre fantasia a mais
nas palavras com que despimos
esse território que desejaríamos comum
sofremos talvez de excesso de metáforas
ou de uma incapacidade elementar
de aspirar apenas ao possível
como se temêssemos que no possível
já não houvesse mais lugar
para nos agregarmos
a música pela música
com toda a poética lá dentro
ou simplesmente o sexo
essa superlativa evidência dos sentidos
que projecta os nossos corpos
na direcção contrária da morte.

Ademar
27.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (345)...

Improviso fraternal...

Não distingues
entre maldade e imperfeição
e confundes-te com ambas
julgando-te porém acima delas
se as distinguisses
saberias
que a maldade aspira sempre à perfeição.

Ademar
27.05.2006

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outubro 20, 2006

Antologia poética (307)...

Improviso geresiano...

As palavras mendigam-te
mas tu ainda não abriste o dicionário
para me traduzires.

Ademar
01.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

outubro 15, 2006

Antologia poética (261)...

Improviso sem tradução...

Renasces
em cada sorriso envergonhado
e aprendes a gemer
como se em cada gemido
só viajasses através de ti
sem admitires tradução
não há dicionário de étimos
para a iniciação destes gestos
estamos sempre a improvisar
recriamo-nos eternamente.

Ademar
19.03.2006

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outubro 12, 2006

Antologia poética (239)...

Improviso com dedicatória sobre uma fotografia...

vilarinho.jpg

Ainda há lugares nocturnos
que só a lua engana à escuridão
e onde a chuva não desce sobre os olhos
em cascatas de luz
que só as crianças reconhecem
ainda há vales
que nos conduzem ao silêncio transversal
das vidas que talvez jamais viveremos
vejo-te agora debruçada sobre as águas
da aldeia desaparecida
algures entre o gerês e a amarela
e vou interrogando os múltiplos sentidos da saudade
na impossível tradução das palavras
que nenhum dicionário nos ensinará a usar.

Ademar
15.02.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (237)...

Improviso sobre a urgência do dicionário...

Há dialectos
que os meus olhos não entendem
falta-me o dicionário
para perceber o que calas.

Ademar
16.02.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

setembro 11, 2006

Improviso sobre todas as mulheres e nenhuma...

Uma mulher é
uma mulher
uma mulher
uma mulher
as mulheres choram
as mulheres gemem
as mulheres sangram
as mulheres não dormem
as mulheres desconhecem o plural
dos substantivos masculinos
e femininos
quando é o caso
as mulheres têm muito mais
do que duas pernas
e dois braços
quando sorriem
sorriem por todos os lábios
e os seus olhos perscrutam sempre
o invisível
mulheres-bruxas
mulheres-feiticeiras
mulheres-absolutas
como diria Herberto Helder
nesse poema contínuo
que nem a morte interromperá
mulheres que nunca jogam em serviço
mulheres que sonham
destinos sempre improváveis
que serpenteiam ausências
através do desejo dos homens
e das outras mulheres
quando é o caso
que silenciam e gritam
que seduzem e fogem
que abrigam e desabrigam
e nunca deixam de amar
mulheres servidas eternamente à poesia
porque só a poesia as serve
nessa fronteira intangível
das palavras que sabem tudo
dizendo nada.

Ademar
11.09.2006


setembro 10, 2006

Improviso para contar cadáveres...

Entre a morte e a ausência
que já mal distingo
vagueio neste labirinto de sombras
rastos vestígios sinais
pijamas que ainda cheiram
chinelos que ficaram órfãos de pés
toalhas de banho distraídas de corpos
que não voltarão aqui a humedecer
dizes
talvez o mel e as tostas integrais
a lingerie esquecida na gaveta dos acessórios
a máquina de filmar
com o desejo todo lá dentro
e as laranjas para o sumo que já ninguém bebe
e o haxixe que já ninguém fuma
e os lençóis e as almofadas que dormem finalmente
a indiferença
amanhã regressarei ao cemitério
para contar de novo os cadáveres
falta um.

Ademar
10.09.2006

setembro 08, 2006

Improviso heterónimo...

Não me falta uma cama para adormecer
falta-me apenas uma almofada
com a forma talvez do teu corpo
e uma voz que secretamente me recorde
que deixei enfim de morrer.

Ademar
08.09.2006

Improviso para provar sentimentos...

Tu
que enfeitiças sentimentos
ensina-me a sentir
e não me deixes morrer
desensinado de ti.

Ademar
08.09.2006

setembro 06, 2006

Improviso para evitar a urgência...

Dói-me a cabeça
na ponta das mãos
deve ser trovoada
lá fora ou cá dentro
hoje vou-me deitar
com santa bárbara.

Ademar
06.09.2006

setembro 05, 2006

Improviso para servir de canoa...

Se não fosses mais do que caudal
eu seria canoa
se rumorejasses apenas
eu faria do silêncio
dialecto
e dir-te-ia palavras
inavegáveis
se não tivesses morrido
em tantas margens
milagrar-te-ia.

Ademar
05.09.2006

setembro 04, 2006

Improviso da cor do tijolo...

São códigos
quase metáforas
muito mais do que um problema de cor
ou de formato
talvez uma intriga de olhares
uma reserva de mãos
memórias de outras telas
quando quase tudo
ainda esperava por mim
lê-me bem nesse tijolo
e faz-me renascer.

Ademar
04.09.2006

setembro 03, 2006

Improviso de escárnio e bem-dizer...

Esbarro sempre
senhora
na metafísica
uma prima da noite aliás
diagnosticou-me há muito a deficiência
défice congénito de glamour
parece que eu devia usar jeans
(escreve-se assim?)
e camisas largonas
diz ela
estampadas à maneira
percebi
com este magro q.i.
que sou completamente destituído
de maneiras
a Caras não vai decerto
com a minha
de resto senhora
acumulo deficiências
nasci no norte
vivo no norte
e não vou a festas
(festas é em casa
dizia a minha mãe)
para tacanho e provinciano
(está a ver?)
não me falta nada
tenho menos serventia
do que um preservativo furado
as melhores pilas da nação
já se sabe
estão em Lisboa
ou em trânsito para o Algarve
e eu perdi-me da minha
agora
já só uso os dedos das mãos
(quando não me atrapalham)
para blogar poesia.

Ademar
03.09.2006