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August 10, 2008

Retomando um poema escrito sobre Walk on by...

Improviso geracional, escrito sobre "Walk on by", de Isaac Hayes (1969)...

isaac.jpg

Li Marcuse
mas cheguei atrasado a Berkeley e a Nanterre
comecei por acreditar em Dubcek
mas Kafka reteve-me no aeroporto de todas as dúvidas
e já não apanhei a tempo
o avião para Praga
tentei ainda Woodstock (depois de ir à Lua)
mas a lotação estava esgotada
e quando finalmente
desci em Coimbra B
até o Alberto já tinha sido mobilizado
para a guerra colonial
e não fui além do Easy Rider
entre baladas de protesto
tenho andado sempre um passo atrás
da história que me destinaram
mas continuo a recusar a amnésia
com Walk on by.

Ademar
01.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

September 13, 2006

Antologia poética (34)...

Improviso erótico...

De vez em quando apetece-me a reciclagem
deposito-me num contentor
e fico à espera que me levem
para a incineradora mais próxima
sinto que adoeço do lixo acumulado
depuro-me no fogo.

Ademar
20.03.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

September 12, 2006

Antologia poética (33)...

Improviso (em prosa?) sobre um acordeão esquecido...

Há um instrumento musical em que sempre tropeço,
quando me levam pela mão a ouvi-lo: o acordeão.
Sento-me na soleira da porta da casa dos meus pais
fecho os olhos para fingir de cego
(ou fixo-os num ponto qualquer ausente em mim)
e toco.
Toco aquele velho e trôpego acordeão,
enquanto as beatas de mantilha negra
a caminho do ofício do terço (ou seria da verbena?)
deixam a moeda distraída no chapéu virado do avesso,
como agora a minha memória.
Os homens não levam a mão ao bolso.
A caridade é feminina.
E eu continuo a tocar para ninguém
o acordeão que me escorre dos dedos
(ou será da alma?).
Hei-de procurar-me lá:
na soleira da casa onde nasci.
Talvez me encontre
(ou a partitura)...

Ademar
15.03.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (32)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (3)...

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Há sempre em mim
uma criança que te espreita e procura
regresso no fim ao princípio de tudo
para que me acolhas e rejeites.

Ademar
18.03.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (31)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (2)...

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A metade da mulher que eu não reconheço
pertence à imaginação
é a parte que brinca
com a liquidez marítima dos meus olhos.

Ademar
18.03.2005

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Antologia poética (30)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (1)...

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Não sei se saio do teu corpo
ou das vestes que o prolongam
escondo-me sempre atrás do desejo
para parecer ausente.

Ademar
18.03.2005

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Antologia poética (29)...

Improviso sobre a eutanásia...

Não quero que me mates
se fores capaz de entender a diferença
pedir-te-ei simplesmente
que me ajudes a morrer.

Ademar
25.03.2005

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Antologia poética (28)...

Improviso ao estilo de Manoel de Barros...

Hei-de crescer com as silvas
e morrer entre elas
predestinei-me para erva daninha.

Ademar
27.03.2005

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September 11, 2006

Antologia poética (26)...

Improviso sobre a gaguez do silêncio...

Perguntas-me pelo libreto
como se as árias que arrisco nesta descontínua partitura
já não fossem suficientes
para me cantar
digo-te
não tenho a paciência interior
dos maratonistas da alma
continuo fechado no quarto da infância
entre dicionários cromos e legos
a minha mãe ainda bate à porta
e zanga-se com a chave por dentro
continuo a improvisar os medos da infância
já escrevi e reescrevo aqui
hei-de morrer de inibições
ainda que te desiludas
negar-me-ei sempre o libreto
talvez eu sofra
de uma patologia estranha e quase arcaica
este silêncio sôfrego
e tantas vezes gaguejante.

Ademar
24.02.2005

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Antologia poética (25)...

Improviso sobre a arte da caça...

A pele
arranhada dos tigres ausentes
(ou seria a alma da mobília?)
a floresta tem tantos silêncios felinos
os segredos é que ainda não estão
ao alcance de todos.

Ademar
30.03.2005

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September 10, 2006

Antologia poética (24)...

Improviso em forma de uivo...

Há quem se canse de latir em segredo
outros ladram para calar o silêncio das noites
desenhas-te na alma
o mapa das solidões animais.

Ademar
31.03.2005

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Antologia poética (23)...

Improviso sobre um desenho de Almada (2)...

almada2.jpg

Talvez não fosses tu quando mordesses
talvez não fosses tu quando arranhasses
talvez não fosses tu quando gemesses ou gritasses
talvez não fosses tu quando lambesses
talvez não fosses tu quando cheirasses
talvez não fosses tu quando saltasses e fugisses
talvez não fosses tu quando aninhasses
talvez não fosse tu quando escorresses
talvez não fosses tu quando montasses
talvez esse animal que trazes pela coleira
dependurado do instinto.

Ademar
28.03.2005

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Antologia poética (22)...

Improviso sobre um desenho de Almada (1)...

almada1.jpg

Não tenho medidas para a perfeição dos corpos
aprendi na catequese da intimidade
que todos os corpos são imperfeitos
porque neles projectamos sempre alguma ausência
gestos ou formas que não casam exactamente com o desejo
ou talvez mesmo o imperceptível o movimento
que arranha por dentro o olhar e nos cega.

Ademar
28.03.2005

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September 09, 2006

Antologia poética (21)...

Improviso lesa-pátria...

Tenho Portugal atravessado algures em mim
entre o cansaço e a desilusão
pátria género indefinido
macho nas caravelas e fêmea
na vaga espera de todos os solstícios
este excesso de luz que nos cega
esta modorra de negreiros extintos
farsa quase milenar de mascarados
Portugal das cenas do ódio
e de todas as ceias de cardeais
Portugal dos pequeninos
e das mais belas aldeias moribundas
em concurso de sombras
e da padralhada de junqueiro
arena antiga de toureiros e fadistas
e barões ao balcão da mercearia
Portugal também ele exausto
quase tanto como nós.

Ademar
26.02.2005

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September 08, 2006

Antologia poética (20)...

Improviso sobre ninguém...

Às escondidas eternamente dos meus pais
venho há muitos anos do futuro
a dançar com alguém que desconheço
uma mulher (suspeito)
porque só as mulheres dançam assim
nos meus braços vazios
é em ti que eu me projecto em movimento
quando desejo ninguém.

Ademar
26.02.2005

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Antologia poética (19)...

Improviso para violoncelo e silêncio...

Há dias em que homossexualmente me basto
com as suites para violoncelo de
Johann Sebastian Bach
não preciso de mais
para antecipar a superior e feminina
musicalidade do silêncio que me espera
depois da última nota.

Ademar
27.02.2005

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Antologia poética (18)...

Improviso quase musical...

Não tenho batuta nem maestro que me dirija
quando as palavras descendo pelas mãos
me instrumentam
toco-me de ouvido
eu próprio sou a partitura das notas
que fixam os silêncios do meu corpo
que falam
viajo numa galáxia de vozes
entre mim e todos os outros.

Ademar
08.02.2005

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Antologia poética (17)...

Improviso sobre o regresso...

Com a alma de inverno
fui procurar-me na primavera e voltei
os olhos perfumados de camélias altivas
e as mãos nervosamente suspensas
sobre o tacto prometido
não sou predestinável a viagens impossíveis
tenho o treino e a teimosia dos navegadores solitários
que nunca recuam
perante os mais íntimos horizontes do medo.

Ademar
05.02.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (16)...

Improviso sobre um abandono de camélias...

Tenho um quintal
plantado na saudade da infância
a que subia por uma estreita escada de granito
sofridamente talhada numa vertente de séculos
era lá que eu me esculpia solitário
entre nomes de coisas que pareciam sorrir
à lógica ainda refractária do meu entendimento
eu não sabia ainda de fronteiras marítimas
nem de caravelas galopantes
mas todos os meus sentidos costumavam dialogar em segredo
com o mistério das formas que me renasciam
interrogando a luz e o cheiro
daquelas corolas que a minha mãe
dizia exiladas do oriente
só muito mais tarde compreendi que as japoneiras
precisavam do silêncio dos meus olhos
para florir neste inverno.

Ademar
02.02.2005

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Antologia poética (15)...

Improviso ao jeito de Alexandre O'Neill...

Projectei o poema
a partir de quatro metáforas de garantida originalidade
todas elas tão pessoais
e intransmissíveis
(supus)
que seria improvável
para não dizer impossível
que alguém as tivesse usado antes
com as quatro metáforas
empreitei o poema
depois comovi-me ao espelho
(se o poema não comove o autor
é um poema falhado)
e
orgulhoso da obra prima
partilhei-a com o patologista de serviço
à urgência das literaturas
o diagnóstico foi fulminante
nenhuma das metáforas era original
e o poema não passava de um remendo trôpego
de alarvidades
sujeito-me agora
à expiação do copista intalentado
confesso e assino por baixo
esgotei o baú das metáforas
sobra-me apenas um destino honroso
mudar de ramo
(literário).

Ademar
24.01.2005

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Antologia poética (14)...

Improviso sobre a ruptura...


Sou um novelo de palavras
não sei onde me termino
evito os pontos finais
porque o futuro pode sempre começar
numa recusa
entre frases que não cheguei a ligar
um gesto suspenso sobre o pântano
uma rosa que não completou o feitiço
um livro que não saiu do cais
dos segredos impartilháveis
sou um novelo de palavras
e vivo enredado em mim
à espera talvez de um milagre
a derradeira metamorfose
o regresso à fonte de todos os inícios.

Ademar
30.01.2005

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt