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fevereiro 28, 2007

Improviso para piano e violencelo...

Há uma varanda para a lua
nos teus olhos
e uma ponte nos meus
que abrevia as margens possíveis
há muitas vozes no teu silêncio
muitos gestos nas tuas mãos ausentes
uma partitura para vaguear
no improviso das noites que não morrem
jazz apenas para dois instrumentos.

Ademar
28.02.2007

O mistério do anúncio da IPSS de Sintra...

O anúncio vem publicado na edição de hoje do Correio da Manhã:

Psicóloga
Para trabalhar em IPSS
Concelho de Sintra
Área da toxicodependência
Telefone: 219188097

Uma psicóloga amiga resolve ligar para a IPSS (que entretanto, pelo telefone, já conseguira identificar):.

Casa do Quero!
Meio Caminho - Associação de Recuperação de Toxicodependentes
Rua Barbosa du Bocage, nº18 cave A
Mira Sintra 2735 Cacém - Sintra
Fax: 219188098
Telefone: 219188097
email: casadoquero@hotmail.com

O diálogo é surrealista. Logo que foi atendida, a minha amiga disse que estava a telefonar por causa de um anúncio para a admissão de uma Psicóloga. Imediatamente, a telefonista respondeu: "Sim, mas a vaga já foi ocupada". E, candidamente, esclareceu que só tinham colocado o anúncio "por ser obrigatório".
Incrédulo, eu próprio liguei para lá... e a telefonista repetiu, mecanicamente, tudo o que já tinha dito à minha amiga.
Portugal, no seu pior, é isto. E a maior parte das IPSS's consegue ser ainda muito pior...
À atenção, naturalmente, da tutela.

Mais um "tabu" para quebrar...

Paulo Portas, acabo de ouvir na SicNotícias, irá amanhã "quebrar o tabu"... às oito da noite, em directo nos telejornais.
Não sei, com a excitação e a consequente ansiedade (Portas a quebrar em directo um tabu...), se conseguirei dormir esta noite...
Vou ali à farmácia e já volto...

E sobre alunos agredidos por professores... não há também números?...

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Público, 28.02.2007

Sou pai e sou professor.
Como professor, nunca fui agredido, nem insultado. E já tive alunos que iam "armados" e "drogados" para as minhas "aulas".
Como pai, não tenho a mesma "sorte". O meu filho Henrique, de 8 anos, já levou (por estar a olhar para o lado) uma sonora e humilhante bofetada na sala de aula, dada por um miserável que passa por professor dos apoios educativos, um cobardola que pôs os olhos no chão quando, perante os outros pais, eu lhe perguntei, cara a cara, cinicamente, se lhe podia devolver ali a bofetada.
Sim, falai dos professores agredidos...

Sacos azuis e... brancos...

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Público, 28.02.2007

Esta OPA da Sonaecom sobre a PT começa a converter-se numa farsa, como a "manchete" da edição de hoje do Público ilustra abundantamente. Uma farsa, de resto, não muito distinta daquela que, penosamente, se vai desenrolando em Felgueiras, com os protagonistas do costume. Parece ser tudo uma questão de sacos: azuis e... brancos.
E vem aí um decisivo Benfica-Porto, para fazer a síntese...

A "autoridade" educacional não se aprende, nem se "recebe" de outorga: tem-se ou não...

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24horas, 27.02.2007

As escolas do Bairro do Cerco, no Porto, estão implantadas (socialmente falando) sobre falhas sísmicas. Deviam, por isso, ter os professores mais experientes, mais capazes e mais sábios, dotados daquela "autoridade" natural que dispensa polícia à porta das "jaulas". Quem mandou para lá uma catraia indefesa de 22 anos... devia ser agora obrigado a ocupar o seu lugar.

fevereiro 27, 2007

Improviso para desenganar dos mapas...

Tenho saudades pendentes
o passado em mim navega sempre para nascente
e estou sempre a voltar do futuro
o meu desejo é um cais
nunca sei quando parto ou regresso.

Ademar
27.02.2007

A virgem de Felgueiras...

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Absolutamente comovedora a declaração de Fátima Felgueiras hoje em tribunal: "Não há nenhum autarca tão preocupado com a lei como eu".
É por estas e por outras que eu não poderia ser juiz. Não conteria a gargalhada...

Ite missa est...

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Foi hoje noticiado que o "santinho" da cobrança fiscal, Paulo Macedo, não está interessado em prolongar a sua missão patriótica à frente da Direcção-Geral dos Impostos e que regressará, brevemente, ao Millennium-bcp, para imenso conforto do Ministro das Finanças.
Espera-se que, a partir de agora, o Millennium-bcp, com missa ou sem missa, passe a liquidar, RELIGIOSAMENTE, os seus impostos.

Haverá ainda alguma universidade privada, em Portugal, que se recomende à decência?!...

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24horas, 27.02.2007

Universidade (privada), em Portugal, rima com... vilania.
Apesar do meu anticatolicismo militante, não envolvo, nestas contas, a Católica.

Médico de família ou... a pudicícia do Público...

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Público, 26.02.2007

Aqui há uns dias, recebi um telefonema de um gajo que fez uma marcação de duas horas. A voz pareceu-me familiar, mas ainda assim pensei que não seria conhecido. O gajo fez reserva da melhor suite do motel. Quando cheguei vi que era o meu médico de família. Mas não tinha mal – até porque ele sabe melhor do que ninguém que eu sou muito saudável.
Primeiro fomos para o banho turco, onde eu aproveitei para começar o broche, enquanto ele me perguntava se já tinha feito análises à urina. Depois passámos para a piscina, onde recebi uma espécie de minete subaquático muito bem feito. Saí da piscina, liguei a aparelhagem e agarrei-me ao varão para um strip. Fomos para a cama, fodemos como coelhos, tomámos banho, vesti-me, dei-lhe dois beijos e disse: “Reparei que arfavas muito quando estávamos na cama. Tens de começar a fumar menos.”

Maria Porto, A Tua Amiga

Quem comparar as duas versões do texto (de resto, muito pobrezinho) notará que o Público, pudicamente, substituiu "broche" por br., "minete" por min. e "fodemos" por f. Esta pudicícia ortográfica (será estilo?) diz quase tudo sobre a tacanhez e a hipocrisia do pensamento dominante em Portugal. Diz-se tudo... fingindo que não se diz. Como Gil Vicente riria à gargalhada lendo o Público...

fevereiro 26, 2007

Que a pátria não se atormente: para estes efeitos, consideremo-lo simplesmente brasileiro...

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24horas, 26.02.2007

Futebol e sexo: é com "manchetes" destas (mais mentira, menos mentira) que os tablóides se vendem. Ontem, era Cristiano Ronaldo. Hoje, Deco. Amanhã será o Cardeal Patriarca ou o Arcebispo de Braga. Ironizo, claro. Eles nem jogam futebol. E corre que praticam a castidade...

Improviso sobre a desorientação das palavras...

Desaprendi de conjugar o advérbio
sempre
já não tenho modo nem tempo
para desgramaticar assim
e danço comigo todos os dias
o medo de falhar o próximo passo
a queda enfim que me prometes.

Ademar
26.02.2007

Os negócios de deus dispensam sempre destinatário...

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Notícias de Viana, 22.02.2007

Muito mal fala o governo...

"Preços os mais altos possíveis", dizia há pouco o Secretário de Estado de Transportes, na RTP1.
Confesso que já antecipo a vergonha (patriótica) sempre que um membro do governo abre a boca para falar....
O que não se aprende na escola primária, de facto... nunca mais se aprende.
Este governo é absolutamente incompetente (e atrevido) no uso da língua.

Vesperável......

esta parte do dia a que chamas tarde
leva-me numa grande atenção
já fui manhã
sol nascente
em olhos descrentes
fui semente
quando havia vento
sopro de sul desconhecido
hoje vou pelas tardes
entregar-me sem segredo
à terra molhada de sol
a esta parte do dia a que chamas tarde
sem cuidares se a luz que bate no céu
vai alta
ou desapareceu

Ana Saraiva

Scorcese...

martinscorcese.jpg

É um dos grandes mestres do cinema. Não precisava do Óscar para nada. Não são os prémios que fazem os génios...

fevereiro 25, 2007

Dois versos (os iniciais) de um poema perfeito de Cruzeiro Seixas...

As aparências são uma doença contagiosa
que devora toda a luz.

(...)

Cruzeiro Seixas, Áfricas 60

Improviso para mentir espelhos...

Não há código que explique
os silêncios do teu olhar
tudo é anterior a ti
as palavras já tinham sido inventadas
quando desaprendeste de falar
agora usas as mãos
para dizer simplesmente
que já não há espelho que te minta
a tua verdade
tem um futuro dentro.

Ademar
24.02.2007

De vez em quando, um "foward"...

Pediram-me que divulgasse e faço-o com muito gosto. Quem, como eu, tem filhos adolescentes ou pré-adolescentes, saberá tirar algum proveito do conteúdo deste "foward"...

Tens filhos(as), sobrinhos(as), netos(as) etc.?!?!

Para ler, divulgar e pensar muito bem no assunto

Após deixar os livros no sofá ela decidiu lanchar e entrar online. Assim, ligou-se com o seu nome de código (nick): Docinho14. Procurou na sua lista de amigos e viu que Meteoro123 estava ligado. Enviou-lhe uma mensagem instantânea:

Docinho14:
Oix. Que sorte estares aí! Pensei que alguém me seguia na Rua hoje. Foi mesmo esquisito!

Meteoro123:
Lol. Vês muita TV. Por que razão alguém te seguiria? Não moras num local seguro da cidade?

Docinho14;
Com certeza. Lol. Acho que imaginei isso porque não vi ninguém quando me virei.

Meteoro123:
A menos que tenhas dado o teu nome online. Não fizeste isso, pois não?

Docinho14:
Claro que não. Não sou idiota, já sabes.

Meteoro123:
Jogaste vólei depois das aulas, hoje?

Docinho14:
Sim e ganhamos!

Meteoro123:
Óptimo! Contra quem?

Docinho14:
Contra as Vespas do Colégio da Sagrada Família. LOL. Os uniformes delas são um nojo! Pareciam abelhas. LOL

Meteoro123:
Como se chama a tua equipa?

Docinho14:
Somos os Gatos de Botas. Temos garras de tigres nos uniformes. São impecáveis.

Meteoro123:
Jogas ao ataque?

Docinho14:
Não, jogo à defesa. Olha: tenho que ir. Tenho que fazer os TPC antes que cheguem os meus pais. . Xau!

Meteoro123:
Falamos mais tarde. Xau.

Entretanto, Meteoro123 foi à lista de contactos e começou a pesquisar sobre o perfil dela. Quando apareceu, copiou-o e imprimiu-o. Pegou na caneta e anotou que sabia de Docinho até agora.

Seu nome: Susana
Aniversário: Janeiro 3, 1993.
Idade.: 13.
Cidade onde vive: Porto.
Passatempos: vólei , inglês, natação e passear pelas lojas.

Além desta informação sabia que vivia no centro da cidade porque lho tinha contado recentemente. Sabia que estava sózinha até às 6.30 todas as tardes até que os pais voltassem do trabalho. Sabia que jogava vólei às quintas-feiras de tarde com a equipa do colégio, os Gatos de Botas.

O seu número favorito, o 4, estava estampado na sua camisola. Sabia que estava no oitavo ano no colégio da Imaculada Conceição. Ela tinha contado tudo em conversas online.

Agora tinha informação suficiente para encontrá-la. Susana não contou aos pais sobre o incidente ao voltar do parque. Não queria que ralhassem com ela e a impedissem de voltar dos jogos de vólei a pé.

Os pais sempre exageram e os seus eram os piores. Ela teria gostado não ser filha única. Talvez se tivesse irmãos, os seus pais não tivessem sido tão superprotectores. Na quinta-feira, Susana já se tinha esquecido que alguém a seguira.

O seu jogo decorria quando, de repente, sentiu que alguém a observava. Então lembrou-se. Olhou e viu um homem que a observava de perto. Estava inclinado contra a cerca na arquibancada e sorriu quando o viu. Não parecia alguém de quem temer e rapidamente desapareceu o medo que sentira. Depois do jogo, ele sentou-se num dos bancos enquanto ela falava com o treinador. Ela apercebeu-se do seu sorriso mais uma vez quando passou ao lado. Ele acenou com a cabeça e ela devolveu-lhe o sorriso. Ele confirmou o seu nome nas costas da camisola. Sabia que a tinha encontrado. Silenciosamente, caminhou a uma certa distância atrás dela. Eram só uns quarteirões até casa dela. Quando viu onde morava voltou ao parque e entrou no carro. Agora tinha que esperar. Decidiu comer algo até que chegou a hora de ir à casa da menina. Foi a um café e sentou-se.

Mais tarde, essa noite, Susana ouviu vozes na sala. "Susana, vem cá!", chamou o seu pai. Parecia perturbado e ela não imaginava porquê. Entrou na sala e viu o homem do parque no sofá. "Senta-te aí",disse-lhe o pai, "este senhor nos acaba de contar uma história muito interessante sobre ti". Susana sentou-se. Como poderia ele contar-lhes qualquer coisa? Nunca o tinha visto senão nesse mesmo dia!

"Sabes quem sou eu?" perguntou o homem.
"Não", respondeu Susana.
"Sou polícia e teu amigo do Messenger - Meteoro123".
Susana ficou pasmada. "É impossível! Meteoro123 é um rapaz da minha Idade! Tem 14 e mora em Braga!".
O homem sorriu. "Sei que te disse tudo isso, mas não era verdade. Repara, Susana, há gente na Internet que se faz passar por miúdos; eu era um deles. Mas, enquanto alguns o fazem para molestar crianças e jovens, eu sou de um grupo de pais que o faz para proteger as crianças dos malfeitores. Vim para te ensinar que é muito perigoso falar online. Contaste-me o suficiente sobre ti para eu te achar facilmente. Deste-me o nome da tua escola, da tua equipa e a posição em que jogas. O número e o teu nome na camisola fizeram com que te encontrasse facilmente.

Susana gelou. "Quer dizer que não mora em Braga?". Ele riu-se:

"Não, moro no Porto. Sentiste-te segura achando que morava longe, não é?"

"Tenho um amigo cuja filha não teve tanta sorte: foi assassinada enquanto estava sozinha em casa. Ensinam-se
as crianças e jovens a não dizer a ninguém quando estão sozinhos, porém contam isso a toda a gente pela internet. As pessoas maldosas enganam e fazem-se passar por outras para tirar informação de aqui e de lá online.
Antes de dares por isso, já lhes contaste o suficiente para que te possam achar sem que te apercebas. Espero que tenhas aprendido uma lição disto e que não o faças de novo. Conta aos outros sobre isto para que também possam estar seguros".

"Prometo que vou contar!".

AGORA: Por favor, envia isto aos teus amigos de forma a que não forneçam informações sobre si próprios. O mundo em que hoje vivemos é perigoso de mais.

REENVIA ISTO TAMBÉM A PESSOAS SEM FILHOS PARA QUE O ENVIEM AOS SEUS AMIGOS QUE TÊM FILHOS E NETOS. CUIDADO COM AS INFORMAÇÕES QUE PASSAS NO HI5, NO MSN OU OUTROS.

E o Público... de que é que precisa?!...

mama.jpg
Pública, 25.02.2007

E a França... precisará de um papá (Sarkozy)?...

Madrigais...

não é para te falar das palavras
que vim
é para te falar das coisas úteis
que até poderiam ser
o linho
que ampara o prazer
as flores
do mel que me darás a beber
coisas úteis, assim
como se fosse sem querer
mas não, trata-se de outras coisas
igualmente, até mais
úteis
o tempo, o tempo, o tempo, o tempo
como vês, não são palavras
o que me traz aqui
são minutos, estações, a eternidade
conta, abre as mãos, usa os dedos
e as comissuras entre eles
se te aplicares
ainda voltas de dentro do mistério das coisas
úteis, tão úteis, a tempo de deixar o vinho transbordar o copo

Ana Saraiva

fevereiro 24, 2007

Confessou a quem? Aos... jornalistas?...

confi.jpg
Sol, 24.02.2007

O segredo de justiça no seu máximo esplendor...

Intolerável...

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Foto de José Ventura, publicada na edição de hoje do Expresso

A Madeira deixou de ser um caso de política para passar a ser um caso de... polícia. Isto vai acabar mal, muito mal...

fevereiro 23, 2007

Sim, senhor ministro...

O ministro da agricultura faz tudo o que pode para seduzir os agricultores. Hoje, falando para o país real através da RTP1, disse "póssamos" e logo a seguir "fáçamos". Não retive as lágrimas. Há gente que não conhece limites no afã de servir a pátria(zinha). Iletrada, como diria Alexandre O'Neill...

Principezinhos suicidas...

em qualquer planície fazemos canto
somos a parede e as mãos
a arma e o pelotão
e o morrer
uma bela planície de trigos
e flores
e nunca mais a poderemos ver
fazemos canto nela
e mesmo deitados
não há nada para ver
só o teu rio que corre
em mim estreito

Ana Saraiva

Desoras...

não sei se a mão tremia de igual modo
no desenho cuidadoso das palavras finais
mas quando se tem apenas
um frasco de tinta
uma pena
uma luz
que mal interrompe a noite
os dedos aprendem
e poupam incertezas
pelos vindouros
haverá histórias outras
luxuosamente indecisas
sem fim à vista
sem meio e talvez
sem início
tão longa será a vida

Ana Saraiva

José Afonso: o amor que nunca se enganou...

joseafonso.jpg

Hoje, vinte anos passados sobre a sua morte, só ouvirei José Afonso. E recordarei a última conversa breve que tivemos, em Guimarães. Lembras-te, Zeca? O amor nunca te enganou...

Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

José Afonso

Cirurgia do silêncio...

O silêncio pode ser um ponto de interrogação. Ou de exclamação. O silêncio pode gritar. O silêncio pode gemer. O silêncio pode ter toda uma gramática dentro dele. Ou a poesia toda de um Álvaro de Campos. O silêncio pode desafiar a noite como se fosse a sua pele. O silêncio pode ser íntimo do universo. O silêncio sobre a água. O silêncio de uma sonata. O silêncio do fogo. O silêncio que voa ou que rasteja. O silêncio que abre portas e janelas para eu entrar. O silêncio que sorri no teu rosto e que te percorre. O silêncio que me convida a escrever. O silêncio que te viaja. O silêncio que me espera...

fevereiro 22, 2007

Improviso para acordar do silêncio...

Um carrocel
viaja com os olhos com que te penso
perco-me da bissectriz do teu corpo
quando danço o silêncio contigo.

Ademar
22.02.2007

Cama(ra)lenta... (3)

dás-me Março como uma sentença
ser pássaro ou flor
na via de extinção do amor

Ana Saraiva

Cama(ra)lenta... (2)

passo os dias a esperar que me faças perguntas
muitas perguntas, sobre todos e sobre todas
as que sou do que sobrou de mim
uma até bastava
até uma plana que eu traduziria como sendo sobre
a cor que o céu tomará amanhã
a cor que o céu tomará amanhã
não é uma pergunta
bastava ser amanhã
para ser resposta
a minha

Ana Saraiva

Terrorismo... comercial no Estádio do Dragão...

kinder.jpg

Três seguranças (três!!!) barraram ontem à noite o acesso dos meus filhos Henrique e Francisco (8 e 14 anos, respectivamente) ao interior do Estádio do Dragão, porque eles transportavam nos bolsos... explosivos (junto a imagem do explosivo). Foi inútil que eu, como pai, e o Alexandre, como irmão mais velho, assumíssemos solidariamente a responsabilidade do acto e tentássemos explicar aos seguranças (aliás, civilizados) que eram apenas barras de chocolate. Não podia ser, a UEFA não autorizava. Os adeptos podem entrar nos estádios com telemóveis e atirá-los, certeiramente, à cabeça dos árbitros, mas não podem levar consigo... chocolate. Ou abdicávamos dos propósitos terroristas, ou não entrávamos. Entre a espada e a parede, tivemos de depositar os explosivos nas mãos atónitas dos seguranças e lá entrámos...
Nem quero imaginar o que seria se a UEFA exercesse também a sua autoridade fora dos estádios de futebol...

Cama(ra)lenta... (1)

apertou-se mais para poder caber
as larguezas acabaram
a fala é exígua
o ar não chega
nem para suspirar um sonho
com a parede sempre perto
e o tecto ameaçadoramente baixo
os gestos aprendem a beleza do milímetro
e calam tudo o que não é essencial
pede-se por vezes o impensável:
que a pulsação amordace o coração
que esse tom de vermelho seja
um pouco menos gritante
quando as unhas se cravam
distraídas
na pele por fora da alma

Ana Saraiva

fevereiro 21, 2007

Um "ensaio" fulminante...

corj.jpg
K, Abril.1993

fevereiro 20, 2007

O problema das lâmpadas que, em Portugal, fundem muito depressa...

gen.jpg
K, Novembro.1992

Saudades de uma revista que até publicava manifestos...

manife1.jpg

manife3.jpg
K, Novembro.1992

Eu dialogando comigo próprio ou... messenger sem mestre...

Ademar diz:
Oi
Ademar diz:
Oi
Ademar diz:
Tudo bem?
Ademar diz:
Tudo bem
Ademar diz:
Que tens feito?
Ademar diz:
O mesmo de sempre
Ademar diz:
Ah
Ademar diz:
Pois
Ademar diz:
A vida corre-te mesmo bem
Ademar diz:
Tem dias
Ademar diz:
Pois
Ademar diz:
Sabes?
Ademar diz:
Sim
Ademar diz:
Ando com vontade de emigrar
Ademar diz:
Acontece aos melhores
Ademar diz:
Também tens vontade, pá?
Ademar diz:
Tem dias
Ademar diz:
Ah
Ademar diz:
Pois
Ademar diz:
Isto custa que se farta
Ademar diz:
Isto quê?
Ademar diz:
Viver nesta merda de país
Ademar diz:
Ah
Ademar diz:
Não concordas?
Ademar diz:
Tem dias
Ademar diz:
Ah
Ademar diz:
Pois
Ademar diz:
Hoje não estás muito falador
Ademar diz:
Tem dias
Ademar diz:
Ah
Ademar diz:
Pois
Ademar diz:
Mas tu estás bem
Ademar diz:
Tem dias
Ademar diz:
Ainda bem, pá
Ademar diz:
Obrigado
Ademar diz:
Vou ter de sair, a minha mulher está outra vez a chatear-me
Ademar diz:
Ok
Ademar diz:
Fica bem
Ademar diz:
Tu também
Ademar diz:
Gosto muito de teclar contigo
Ademar diz:
Eu também
Ademar diz:
Ciao
Ademar diz:
Cumprimentos à tua mulher
Ademar diz:
Serão entregues
Ademar diz:
Ciao

Amanhã lá estarei...

portchel.jpg
Record-Dez, 17.02.2007

De vez em quando, apetece-me assistir em directo a um grande jogo de futebol. E se o posso fazer com os meus filhos, tanto melhor . É o que acontecerá amanhã: lá estarei, lá estaremos no Estádio do Dragão, para acompanhar o Porto-Chelsea. Os meus 3 filhos, portistas ferrenhos, torcerão naturalmente pelo FCP. E eu, por eles, farei o mesmo, com a tranquilidade, porém, de quem já não tem paixões clubísticas e é capaz, simplesmente, de saborear o jogo pelo jogo, a obra de arte, independentemente do autor.
Obrigado, Jorge, pelos bilhetes!...

Um pungente testemunho: Saraiva voltou a ser vigarizado...

vigar.jpg
Tabu/Sol, 17.02.2007

Apesar de ter sido director do Expresso durante mais de duas décadas, Saraiva ainda não aprendeu a reconhecer um vigarista. Na última edição da Tabu, ele conta como, recentemente, caiu uma vez mais no "conto do vigário". Não sei o que admirar mais: se a candura do testemunho (Saraiva é completamente destituído de pudor), se a espantosa credulidade do há muito anunciado futuro Nobel da Literatura. Há pessoas assim, que não apenas adoram ser vigarizadas, como adoram ainda mais gritar aos quatro ventos que o foram. Saraiva é um "case study". Desconfio que, noutra encarnação, terá sido Artur Alves Reis. E, nesta, anda a penar a maldição...

fevereiro 19, 2007

Improviso para ouvir a noite...

Sangro as mãos na tua ausência
um sopro de vento interior impele-me
a uma saudade quase póstuma
o pensamento circula por dentro de mim
e eu sangro aquém das mãos
há vozes góticas que me conduzem ao cais
aonde não chegas
um silêncio talvez de luzes
uma viola da gambá um saltério
tenho cordas a mais para tão poucas notas
sufoco de palavras que não lês.

Ademar
20.02.2007

O broche do analista pulhítico...

Delgado.jpg

Alberto João Jardim, afinal, tem um assessor (avençado?) no continente. Chama-se Luís Delgado (exactamente, o indígena da foto). Acabei de o ver e ouvir no Jornal das Nove, da SICNotícias, exibindo orgulhosamente o seu tesão pelo demissionário presidente do governo regional da Madeira. Durante 10 minutos, senti-me o português mais envergonhado de Portugal. Pornografia da mais reles: há muito tempo que não assistia, em directo, a um broche tão descaradamente mal feito.
Delgado honra o apelido, na inteligência analítica e na consistência da coluna vertebral...

A notícia carnavalesca do dia: Jardim demite-se...

jardim.jpg

Aqui há tempos declarou à Única, do Expresso, que não era "uma besta". Até pode não ser, mas esforça-se sempre bastante para o parecer...

Há sempre um tempo para beber e para brindar, antes da quaresma......

brinde.jpg
Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Santana Lopes, fotografados por Rui Ochôa.
Fonte: Expresso-Revista, 1157 (31.12.1994)

Há sempre uma última cena,antes da próxima...

ultim.jpg
Cambio16, 1207 (09.01.1995)

O eterno e sempre ridículo Portugal dos Pequeninos...

altas.jpg

Instante fotográfico de Luís Filipe Catarino.
Fonte: Expresso-Revista, 1354 (10.Outubro.1998)

Hasta la muerte, siempre!...

hasta.jpg
Otelo e Fidel, em 1975.
Fonte: Expresso-Revista, 1355 (17.Outubro.1998)

Ora agora bato eu, ora agora bates tu, ora agora bates tu... mais eu...

profe.jpg
JN, 20.02.2007

Que se surpreenda quem não conheça as escolas e o país...
Frequentei na adolescência um colégio católico cujo director, que já morreu, tinha o salutar hábito pedagógico de chamar os meninos mal comportados ao seu gabinete e seviciá-los, sadicamente, com um cavalo-marinho, até os deixar marcados. Ele nunca me tocou porque eu era aluno "externo" e, de resto, bem comportado. Mas, se o tivesse feito, eu ter-me-ia vingado, de uma forma ou doutra. Dizer isto talvez seja politicamente incorrecto, mas hoje, com 54 anos, já não tenho idade, nem razões para mentir a mim próprio.
Ao longo da minha vida como estudante, conheci professores extraordinários e conheci escroques e sádicos que passavam por professores. Os primeiros, ainda hoje admiro; os segundos, sempre mereceram o meu mais profundíssimo desprezo. Entre uns e outros, ficava a grande maioria do corpo dito docente, gente cinzenta e medíocre (portuguesinha de gema) que fazia o que podia para não ter chatices.
O país e as escolas mudaram? Não. Eu tenho a certeza (já ando nisto há muitos anos) de que todos os dias há, em Portugal, uma criança ou um adolescente chamado ao gabinete do Conselho Executivo ou levado à "casa de banho" para ser, de uma forma ou doutra, seviciado. E sei que muitos desses alunos respondem depois com violência à violência de que foram vítimas, numa espiral de vindicta que ninguém mais está em condições de controlar ou parar.
Só pode ignorar esta realidade... quem não a conheço por dentro. E quem ande distraído do país que somos.

O verdadeiro cristianismo entre nós...

jn1.jpg
JN, 20.02.2007

Cais de asas...

ainda não deve ser manhã
à luz não responde nenhum pássaro
da parte clara de um dia incógnito
partem dúvidas para um sítio incerto
sem regresso porque não há ninguém
à espera
levantou-se um pássaro pequeno
partiu sem anunciar o dia
ainda não deve ser hoje
amanheceu
um tempo esquecido

Ana Saraiva

fevereiro 18, 2007

Eu, colonialista, me confesso...

A ouvir o inefável e mui carnavalesco Alberto João, senti-me hoje um miserável... colonialista. Confesso o crime: sou. Quero ser castigado. Aliviai-me, por favor, deste fardo...

O meu Código de Erotismo (19)...

INTERNET

Há quem ainda se surpreenda com a poderosa intromissão da internet no jogo erótico. A internet favorece a intimidade confessional e todos os amantes aspiram a ela. A palavra pode sempre muito mais na sedução erótica do que o corpo. Quem ainda não o percebeu... não percebe nada. A palavra é uma espécie de vírus: condimenta o desejo e conduz o pensamento. Não há antídoto para ela. O corpo rende-se quase sempre ao feitiço da palavra e presta-lhe vassalagem. Talvez por isso não exista afrodisíaco mais potente do que a poesia. A poesia é a mais refinada celebração do poder da palavra. Quem lhe resiste... resistirá a tudo. E sufocará encarcerado dentro de si próprio. Sufocará encarcerada dentro de si própria...

Como sobreviveríamos sem as ilusões da "juventude"?...

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JN, 18.02.2007

Eu também já fui "jovem" e acreditei em todos os impossíveis. O tempo ensinou-me a ter saudades...

De vez em quando, o "pecado" da imodéstia...

Talvez por ter nascido e sido educado no seio de uma família espartana (em que não se recompensava nunca o cumprimento do "dever"), convivo mal com o elogio. Mas, de vez em quando, sabe-me bem ler certos comentários. Como o que o Pedro Barroca depositou ontem e que, imodestamente, reproduzo. Obrigado!

Este deve ser o blogue que mais li e que mais prazer me deu a ler.
Descobri-o, há poucos dias. Na pesquisa que fazia sobre alguém pouco digno, aqui vim ter por esse acaso. Por ironia, lendo posts recentes e do histórico, descobri que tudo aqui é sublime, sóbrio e inteligente.
Pessoalmente subscrevo a maioria das suas opiniões. Quando isso não acontece, as suas opiniões também não me indignam.
Há aqui poemas e textos que mereciam mil comentários. Fiquei tão surpreendido pela qualidade do blogue quanto pela escassez de comentários.
Se considerar que não comentar é consentir que se gostou, aceite o silêncio e acredite no prazer que a sua escrita proporciona.

Os meus sinceros parabéns.

A maldição de ser ou parecer travesti...

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Notícias Magazine, 18.02.2007

Tenho o maior respeito pelos travestis. Porque estão no meio de uma ponte sem margens. E são, em geral, desprezados por todos aqueles que abarrotam (e arrotam) certezas. Por isso me emocionei ao ler a reportagem que a Notícias Magazine hoje lhes dedica. Quando passa um ano sobre a morte de Gisberta, assassinada às mãos das feras que uma certa Igreja Católica continua, impunemente, a "educar" à sombra dos evangelhos e da lei.
Como Cristo se envergonharia de tantos dos seus putativos discípulos...

O Portugal dos Pequeninos...

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Público, 18.02.2007

Somos, definitivamente, um país fadado para a overdose e para a eterna adolescência da "laracha". Já não há pachorra para tanto Gato Fedorento. Agora, até nas páginas do Inimigo Público. Perdão: do Público. Aos domingos. Não há maior maldição do que ter graça. Dura muito pouco...

fevereiro 17, 2007

A propósito do carnaval: a minha máscara veneziana predilecta...

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Apaixonei-me por ela à primeira vista e comprei-a. Veneza é o mais espantoso cenário de máscaras que a humanidade já produziu. O carnaval não podia ter sido inventado noutro lugar...

O meu Código de Erotismo (18)...

MANIPULAÇÃO

Tu manipulas-me, eu manipulo-te: que sobra, no fim, para as mãos? A sedução erótica é um jogo sempre de manipulação, antes que as mãos comecem a prolongar e a humanizar o desejo que aproxima. A manipulação é uma espécie de antecâmara da dominação. Não há parceiro no jogo erótico que não aspire a dominar, com o corpo ou com a mente (a parte do corpo mais refractária à submissão). A minha estratégia de manipulação passa por aceitar a tua e por te fazer acreditar que, efectivamente, me manipulas. Ainda não te deste conta de que são as minhas mãos que desenham e antecipam sempre o movimento das tuas...

A beatífica opinião do cardeal dos santinhos e das santinhas...

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Sol, 17.02.2007

Como é possível ter algum respeito pro gentinha desta, intelectualmente tão primária e desonesta?...

Mais vale um envelope na mão do que dois a voar...

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Record, 17.02.2007

Conheci esta peça numa reunião de... pais. Não sabia quem ele era. Ele não costumava aparecer nas reuniões. Ao fim de pouco tempo, o homem começou a atamancar palavras e, como todos os ignorantes pretensiosos, a ditar sentenças sobre tudo o que, manifestamente, ignorava. Arrotava importância e poder. Pensei, pelo estilo boçal e videirinho, que fosse empreiteiro, mais um empreiteiro à moda de Braga. Ou autarca do Partido Socialista (a diferença, em Braga, é quase nenhuma). Enjoei de tal forma a criatura que, para não me irritar e estragar a reunião de pais, abandonei rapidamente a sala, deixando o atrevidote a falar sozinho. Mais tarde, procurei saber quem era a criatura. O meu interlocutor ficou espantado: então não conheces o Augusto Duarte? Sabia lá eu quem era o... Augusto Duarte...
Hoje... fiquei um pouco mais esclarecido. Maria José Morgado vai achar muita graça ao maganão...

Um problema de daltonismo erótico...

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Sol, 17.02.2007

E Judite de Sousa, a esposa do ilustríssimo e benfiquíssimo autarca, também padecerá do mesmo "handicap" erótico?!...


Títulos quase carnavalescos...

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Sol, 17.02.2007

Cavaco "rouba" o aborto ao Governo e os homicídios por encomenda... disparam. E Maria José Morgado não faz nada?!...

Estribilho quase...

faço de tudo para que não saibas
como a vida acaba daqui a tão pouco
partiremos completamente distraídos
com o mundo
ou numa mera canção

Ana Saraiva

fevereiro 16, 2007

O próximo presidente da Câmara de Lisboa...

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Ainda não foi, formalmente, escolhido como candidato, ainda não foi a votos, mas eu sei... que Jorge Coelho será o próximo presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Alguém quer apostar?!...
Fontes, fontes...

O país... pulhítico...

Na Madeira, eleições antecipadas (para testar os testículos dos madeirenses). Em Lisboa, eleições intercalares (para testar o masoquismo doa alfacinhas). O país político (pulhítico)... agita-se. O povo, esse... deve tapar o nariz, para não cheirar a porcaria. Marques Mendes anda em maré de infortúnio...

fevereiro 15, 2007

Saudades de Ferré...

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É uma das canções mais antigas de Léo Ferré. Uma das mais simples e, para mim, uma das mais comovedoras. Hoje passei a noite a ouvi-la. Digo: nunca me canso de mim...

NOTRE AMOUR

Tant que nous écrirons nos noms
Sur les arbres malades de l'automne,
Les oiseaux pourront chanter,
Nous pourrons nous aimer.

Je suis celui que tu attends
Je suis celui qui t'aime tant
Depuis longtemps
Ô si longtemps
S'il t'arrivait de m'oublier,
Tu sais que moi, je n'oublierai jamais...

Lorsque nos noms seront fanés
Sur les arbres malades de l'automne,
Les oiseaux pourront partir,
Nous pourrons en mourir.

J'étais celui que tu attends
J'étais celui qui t'aimait tant
Depuis longtemps
Ô si longtemps
S'il t'arriva de m'oublier,
Tu sais que moi je n'oublierai jamais...

Car notre amour est plus fort que l'amour.

Improviso para balada triste...

Foste aquela
que eu não tive tempo para aprender a amar
esse verbo imenso em que não caberia sequer
a agulha do teu olhar
foste aquela
que gemeu apenas as madrugadas
quando as manhãs até pareciam possíveis
e cada vez mais próximas
foste aquela
que deixou de sorrir numa noite assim
que se apagou com a campainha de uma porta
que trocou o universo
por um meteorito
um poema por uma frase
uma onda pelo oceano
foste aquela
que disse um dia
eu
e morreu.

Ademar
15.02.2007


Improviso sobre o vento em que viajas...

Nesse cais de princípio de todas as noites
as vozes já não cantam
o vento esvoaça as partituras
e as vozes cegam
tresmalhadas das cordas e dos arcos
diz-me porém que ainda cantas
ainda que o vento te dispa a garganta
diz-me que viajarás a cantar
só porque estou à escuta
e o universo te pede
a madrugada adormecerá na tua voz
e calará o vento.

Ademar
15.02.2007

Quando as mulheres desligam o cérebro...

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Sábado, 146 (15 a 21 de Fevereiro de 2007)

A "ciência", é sabido, explica tudo, até o inexplicável: por exemplo, que as mulheres "desligam o cérebro durante o orgasmo". A Sábado descobriu e exultou com a descoberta. Dir-se-ia mesmo que teve um... orgasmo.

fevereiro 14, 2007

A balada da praia dos autarcas...

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Correio da Manhã, 14.02.2007

fevereiro 13, 2007

Improviso para desfatimizar...

Esconde a boca
oculta os olhos
cobre os cabelos e as orelhas
que do teu rosto escorra apenas
a linha oblíqua do nariz
e as mãos
as mãos que em ti
prolongam o rosto
frágeis asas de género.

Ademar
13.02.2007

Dever de cidadania...

Sei que estou em minoria, mas sempre defendi a obrigatoriedade do voto. A cidadania não pressupõe apenas direitos, mas também deveres. Quem, sem uma justificação atendível, se abstém de votar... está, implicitamente, a significar que não quer saber do destino do seu país. Poderá a democracia tolerar este... desprezo?

fevereiro 12, 2007

A vitória do...SOL...

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Sol, 10.02.2007

De vez em quando, um título feliz...

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24horas, 12.02.2007

fevereiro 11, 2007

Ninguém perdeu!...

No referendo de hoje, não perdeu ninguém. Nenhuma mulher será obrigada a abortar. Nenhuma mulher será humilhada se o fizer. Ganhámos todos.

SIM!...

Como se esperava, ganhou o SIM. Portugal, a partir de hoje, cheira um pouco melhor. A decência cheira sempre bem.

A variável metereológica...

Há oito anos foi o "bom tempo" que distraiu os eleitores das assembleias de voto. Hoje, será o "mau tempo"?!...
A lei referendária deveria contemplar a variável metereológica. Sempre que o tempo não estivesse de feição, adiava-se o acto para o domingo seguinte. Acidadania não é, todos sabem, o nosso forte. E o clima não ajuda...

Um "cartoon" infeliz...

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Público, 11.02.2007

Confesso que nunca fui um grande apreciador de Vasco. Falta-lhe em subtileza o que lhe sobra em retórica. O cartoon da edição de hoje do Público, que reproduzo com a devida vénia, comprova-o uma vez mais. A imagem da mulher avançadamente grávida na cruz, pregada pelo SIM e pelo NÃO, convida às leituras mais perversas e equívocas. Na verdade, não estamos hoje a referendar, ainda que simbolicamente, uma crucificação de género. Estamos, simplesmente, a votar um princípio legal: se a mulher que decide interromper a gravidez até às 10 semanas deve ou não ser considerada criminosa e responder, nos tribunais, pelo seu crime. Tudo o que se acrescente a este dilema é poeira ideológica para confundir os espíritos menos clarividentes.
Na cruz do cristianismo, não está um homem, nem uma mulher. Está, simplesmente, um corpo humano, miseravelmente “convidado” à submissão e ao sofrimento. O SIM no referendo de hoje não tem nada a ver com esta cruz. Vasco, uma vez mais, errou o alvo…

Uma capa malandra...

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Não sei se se trata apenas de um convite à participação no referendo, se é uma mensagem subliminar de apelo ao voto no SIM ou no NÃO. A capa da edição de hoje de A BOLA é uma malandrice...

fevereiro 10, 2007

"O mal dos portugueses está em que, manifestamente, não regulam bem da cabeça"...

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Público, 10.02.2007

Vasco Pulido Valente, de vez em quando, passa-se. Um problema de... auto-regulação...

Como o país ficaria muito mais suportável se, um dia, todas as putas falassem...

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NS, 57 (10.02.2007)

Como a medicina, a advocacia, o sacerdócio e outras profissões que “exploram” as fragilidades da espécie humana, a prostituição tem também as suas regras... deontológicas. Os prostitutos e as prostitutas... não falam. Se falassem e “abrissem o livro”, o país ver-se-ia, por fim, ao espelho (da dilacerante intimidade de todos os tabus e preconceitos) e a sexualidade e o erotismo passariam, inevitavelmente, a ser entendidos de outra maneira.
Andreia Soares (digo, Maria Porto), aos 19 anos, decidiu romper a muralha de silêncio e falar, escrevendo e publicando um livro. Eu já conhecia o blogue que ela mantém desde Novembro de 2005 e sabia que, mais tarde ou mais cedo, o seu espantoso diário de uma prostituta se converteria em livro, que será, seguramente, um sucesso editorial (num país habitado por atrasados sexuais).
Cada um faz do seu corpo o que quer e vende-se como pode. Eu vendo o meu corpo e a minha inteligência ao Estado, cinco dias por semana, e pelo preço da tabela que o próprio Estado impõe. Andreia Soares tem mais sorte: vende o corpo a quem quer, quando quer e pelo preço que quer. E, muito provavelmente, não pagará impostos. Dizei: entre nós, quem tem mais razões para ter pena de quem?...

fevereiro 09, 2007

A arruada final do NÃO...

Soube pelas televisões que Braga foi o palco escolhido por alguns movimentos apologéticos do NÃO para o simbólico encerramento da campanha referendária. Ouvi o rufar de tambores e fiquei assustado. Por momentos, imaginei que se preparava na minha cidade mais um auto de fé. Depois, as câmaras mostraram os rostos de alguns manifestantes e fiquei mais tranquilo. O pífio ajuntamento não passava de uma arruada do... CDS/PP. As farsas à direita baixa terminam quase sempre em comédia...

Chuva côncava...

não lhe chames quadrado de chuva
é um duche, o que esperavas?
já me fartei de poesia
é água que não chega a molhar
parece suspensa mas está morta
as palavras sepultam
tudo o que vive fora delas
nem o silêncio poupam
nem o indizível deixam em paz
e hoje não choveu
ou não houve água
ou não chorei
nem sei
agora, por exemplo,
falta-me o ar
o que lhe vais chamar?

Ana Saraiva

O palco da morte...

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Acho que todos os actores ambicionam uma tal coroação: morrer em palco. Jimmy Justice alcançou-a em Barcelona, no Teatro Tivoli, no passado dia 1. Convido-vos a ler aqui a notícia da coroação...

fevereiro 08, 2007

Improviso sobre todas as noites adiadas...

A lua fala pela tua voz
fala ou rumoreja
na medida do silêncio interior das noites adiadas
a vida tem as manhãs da tua entrega
quando os sons escorrem da partitura que te desfolha
e o olhar do sol desfaz todas as nuvens
há uma palavra enfeitiçada
que corre vales entre nós
para que nenhum se perca.

Ademar
08.02.2007

À míngua de palhaços, todos acham graça ao maganão...

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Sábado, 145 (8 a 14 de Fevereiro de 2007)

A criatura está sempre a... jeito. Conta tudo, fala de tudo, precisa do alimento mediático para sobreviver. Ei-lo, em mais uma entrevista de... fundo. Pergunto: não haverá mais palhaços neste país?...

Não somos todos pelo SIM? Não somos todos favoráveis à despenalização das mulheres "forçadas" a interromper uma gravidez?...

Os resultados das sondagens hoje divulgados confirmam uma percepção que, suponho, será largamente partilhada: o SIM vencerá, claramente, no referendo do próximo domingo. A desonestidade intelectual e a hipocrisia política de muitos dos partidários do NÃO têm sido de tal modo ofensivas da inteligência dos portugueses (até eles, agora, desejariam "despenalizar" a IVG) que só poderiam, de facto, merecer uma "recompensa": uma estrondosa derrota nas urnas. Estou certo, vivendo no norte, que isso acontecerá.

fevereiro 07, 2007

Improviso para chamar o arco-íris...

Os teus muros desenham
o território que nos pertence
há uma imaterialidade nos teus gestos
que conduz o meu desejo à levitação
espero um raio
espero a chuva
espero o arco-íris
e caminho na direcção do pântano
que me ofereces
esse pântano adiado
mil vezes escrito e reescrito
em viagens de palavras silenciadas
o tempo faz uma pausa
para que a primavera não carregue cinzas
de fogos ausentes
prometes berços
prometes pétalas
calendários de folhas por usar
era uma vez uma menina
que aprendeu a andar.

Ademar
07.02.2007

Quando a Gentileza aborta na marquesa da ignomínia...

"A mulher que engana o marido irá abortar ao Serviço Nacional de Saúde? Claro que não vai!..."
Gentil Martins, ex-bastonário da Ordem dos Médidos e especialista em adultério e consciência alheia, ao Jornal das Nove, da SICNotícias.

A náusea da campanha dos partidários do NÃO...

Ontem, em Braga, ia sendo abalroado por um carro que, ruidosamente, fazia campanha pelo NÃO. Fiquei indisposto para o resto do dia. Há matérias referendárias que deveriam dispensar este tipo de campanhas. Diz muito da sensibilidade humana e social dos partidários do NÃO que recorram, nesta campanha, ao estardalhaço dos carros sonoros e à propaganda mais desonesta e mentecapta (como aquela que oferece a despenalização aos eleitores que recusarem o SIM à despenalização). Só por isto... o NÃO já perdeu, moralmente, o referendo.

Prego (por favor)... diga-nos, Excelência excelentíssima, como se salvam a educação e o ensino em Portugal!...

É político (na reserva ou no activo)? É jornalista (travestido ou não de outras "qualidades")? É... académico? Investigador? Editor? Publicitário? Empresário? É... comentarista (de primeira, segunda ou terceira)?...
Se preenche estes requisitos, diga-nos, por favor e misericórdia, como se salva a educação em Portugal. E o ensino. A sua opinião será escutada e registada e todos dirão... assim teremos de as salvar (à educação e ao ensino).
Não se esqueça, naturalmente, de falar de... exigência e rigor. E de autoridade. E, principalmente, de exames, muitos exames. A receita da salvação, mais clichet, menos clichet, é simples. O que importa é que seja... convincente, peremptória, definitiva. Não tenha medo do ridículo. A ignorância e o atrevimento, nestas matérias, fazem lei.
E, mais indispensável ainda, diga o pior possível dos... especialistas. E goze com o... eduquês. A educação e o ensino não precisam de... especialistas. Precisam, apenas, de si.

fevereiro 06, 2007

Não achais que chegou a hora de conceder a independência à Madeira!...

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24horas, 06.02.2007

Começa a ser deprimente o caudal de notícias politicamente "arrepiantes" que nos chegam da Madeira. Esta... é apenas mais uma. Ando eu, andamos todos (aqueles que andam) a pagar impostos para alimentar o regabofe jardinesco? Eu... concederia imediatamente a independência à Madeira. Digo: compulsivamente.

fevereiro 05, 2007

A canalhice na primeira página...

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24horas, 05.02.2007

Este tipo de notícias apenas alimentam o voyeurismo nacional e a... inveja. Quem pode estar interessado em saber os rendimentos dos... conselheiros de estado?...
Miserere...

Quando nojo rima com NÃO...

Antevendo ou pressentindo a vitória do SIM, alguns partidários do NÃO resolveram atirar poeira aos olhos dos portugueses, tentando aliciá-los (ludibriá-los) com uma proposta desonesta. Se o NÃO ganhar, dizem eles, prometem a quadratura do círculo: na lei penal, a IVG continuará como crime...mas sem castigo (só umas chibatadas morais, para consolo dos proprietários da consciência dos outros). Há muito que me habituei, porque nasci e cresci no meio deles, ao inexcedível farisaísmo dos católicos tridentinos. São capazes de tudo para impor a sua tão decantada... "moralidade" (e como eu a conheço bem!). Durante muitos séculos, jogaram com a ignorância e o medo do povo e ainda hoje não suportam a perspectiva de que o rebanho... tresmalhe...
Propostas deste jaez... não são para ser levadas a sério, nem respeitadas. São lixo e como lixo devem ser tratadas e denunciadas.

Quando o pudor queima nas mãos...

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Uma jovem de vinte e poucos anos acerca-se de mim e estende-me, quase envergonhadamente, um jornal. Temo que seja publicidade e resisto a aceitar a oferta. Ela, porém, insiste e eu pergunto-lhe de que se trata. Ela diz que não sabe e o jornal parece queimar-lhe os dedos da mão. Não sabe?!... Ela olha silenciosamente para o chão e continua com o jornal estendido. Aquele "pudor" surpreende-me e lá acabo por aceitar a oferta. Espantado, verifico que se trata de um jornal do Partido Socialista a apelar ao voto no SIM no próximo referendo...
Definitivamente, os partidos políticos e os movimentos "cívicos" estão a transformar esta campanha numa náusea colectiva...
Do lado do SIM é isto, do lado do NÃO é o que se sabe...

fevereiro 04, 2007

O prolongamento natural de um grande futebolista...

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Record, Dez, 03.02.2007

Uma frase para tecer sentidos...

As mulheres não são belas pelo corpo que ostentam, mas pelo uso que lhe dão.

A eterna adolescência dos poetas...

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Fotografia inédita de Alexandre O'Neill, inserida na obra "Alexandre O'Neill - uma biografia literária", de Maria Antónia Oliveira (Publicações Dom Quixote), que brevemente será posta à venda. A foto reproduzida retirei-a da edição de hoje da Pública, que antecipa a publicação. Já passaram 20 anos sobre a morte de Alexandre O'Neill, mas a sua poesia continua a interpelar-nos diariamente. Portugal continua a "feira cabisbaixa" de sempre...

Portugal

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Feira Cabisbaixa, 1965

fevereiro 03, 2007

Alguém ainda acredita na Justiça em Portugal?...

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Jornal de Notícias, 03.02.2007

Quem tramou o Presidente?...

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A anedota que faz hoje a grande manchete do Expresso é bem ilustrativa do estado em que se encontra o país e, muito especialmente, a administração judicial. O Presidente foi levado (espera-se que, um dia, se saiba por quem) a indultar um sujeito que anda há muito fugido da justiça. A ocorrência não merece um comentário, mas uma gargalhada apenas. Tudo isto é patético de mais (perdão, queria escrever "pateta") para ser levado a sério...

O sacrifício da pele, segundo Fernando Santos...

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O Jogo, 02.02.2007

Fernando Santos, que já foi o engenheiro do penta e agora é o engenheiro do NÃO (à despenalização da IVG), sempre impressionou pelo sofrimento que, em todas as expressões, evidencia. É um homem que vive permanentemente na cruz. Eu julgava-o simplesmente masoquista, mas depois de ler ontem O Jogo sou obrigado a concluir que deve ser bi, ou seja, sado-masoquista. Deixar a pele em campo? Nem Cristo exigiu tanto aos seus apóstolos...

Tortura de Tântalo...

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A notícia pode ser lida na edição de hoje do Público. O Ministério da Educação, actualmente, não ganha uma causa nos tribunais. Num país decente, a Ministra e os seus acólitos já teriam pedido a demissão e sido exonerados. Os alunos vítimas da química trapalhada que não recorreram aos tribunais foram duplamente penalizados. Quem os indemniza? Evidentemente, ninguém. Quem responde, politicamente, pelo prejuízo que lhes foi causado? Ninguém. A Ministra da Educação acha-se... irresponsável. E, provavelmente, terá razão.

Um cartoon deslumbrante de António...

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Há muitos anos que o melhor do Expresso são... os cartoons de António. O da edição de hoje, que excepcionalmente me atrevo a reproduzir (espero, meu caro António, que me releves o atrevimento!), promete correr mundo e fazer correr rios de tinta. Uma vez mais, António dá cartas...
Falta, apenas, saber quem irá a jogo...

As leviandades do Expresso (1)...

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As leviandades do Expresso (2)...

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Esta reportagem do Expresso, com chamada retumbante à primeira página, é um... "flop". O Expresso podia repeti-la todas as semanas, que estaria sempre... actual. As "praxes" militares, independentemente do género dos "praxados", produzem quase sempre os mesmos efeitos. A única diferença é que nem todos os "praxados" precisam, imediatamente, de tratamento médico ou psicológico. A reportagem só existe porque, neste caso, a vítima foi uma... mulher. Se fosse um homem, o título de primeira página provocaria uma gargalhada: "HOMEM VIOLENTADO EM PRAXE MILITAR"...
As opções editoriais do Expresso nunca desceram tão baixo...

fevereiro 02, 2007

O meu Código de Erotismo (17)...

CORPO

Não é o corpo que acorrenta as pessoas, mas o cárcere a que o corpo as convida. Há corpo a mais nas pessoas. Corpo excessivamente centrado em si próprio, corpo reificável, apropriável. O teu corpo pertence-me. O meu corpo pertence-te. E tudo o que sou, tudo que és... projecta-se num corpo. Um corpo que cansa. Um corpo que não terá jamais a plasticidade do pensamento que o ilumina e o conduz. A liberdade das pessoas subentende a liberdade do corpo. Desejo-te muito para além do corpo que me ofereces e que eu ofereço. O erotismo evade-se das amarras de um corpo e transcende-o. Está em pensar-te sem ele.

As malandrices de Scolari...

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24horas, 02.02.2007

fevereiro 01, 2007

Uma capa mistificadora...

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Esta não é, evidentemente, a questão. Ninguém vai ser chamado a decidir, no próximo dia 11, quando a "vida" humana começa. Vamos decidir uma coisa muito mais simples e menos "ontológica": se as mulheres que abortam até às 10 semanas devem ser tratadas como criminosas. A Visão, pelos vistos, ainda não percebeu.

E se os "pais afectivos" não tivessem protegido Esmeralda da... justiça?!...

O Tribunal Constitucional precisou de dois anos para decidir se os pais "afectivos" de Esmeralda (que cuidam da criança desde os 3 meses de idade) poderiam ou não intervir no processo de regulação do pater paternal, ou seja, se seriam, legitimamente,"parte interessada" no processo. A Relação de Coimbra achara que não, que os "pais afectivos" de Esmeralda não tinham legitimidade para intervir no processo (quando eles é que cuidavam da criança). Agora, ao fim de dois anos, o processo corre o risco de regressar à estaca zero, como se nada, entretanto, se tivesse passado. Felizmente, a criança está a salvo da justiça...
Para tornar a novela ainda mais picante e rocambolesca, soube-se hoje pelo Público que o MP junto do Tribunal da Relação de Coimbra defenderia a libertação do pai afectivo, "considerando que perdeu "interesse ou utilidade" para a justiça a sua prisão preventiva pelo sequestro da criança de cinco anos que acolhe desde os três meses de idade". Soube-se isto no exacto dia em que o Supremo Tribunal de Justiça se prepara para decidir sobre o pedido de "habeas corpus".
Felizmente, repito, a criança está a salvo, protegida da justiça...