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janeiro 31, 2007

Improviso quase medieval...

Amo de amor
amor de amo
cativas-me
para que eu te cative
aprisiono-me
aos teus grilhões.

Ademar
31.01.2007

Céus ambulatórios...

desço em direcção ao rio
e levo-lhe água
entro com traços de céu nos bolsos
que as memórias não são pedras
e os versos calam
em presença da sede
tão recente
bebo-lhe a fonte
sirvo-me abundantemente
volto-me mas encontro-te
e envolves-me
nesse manto de água
agora longo e pesado
não voltarei a ver o céu
ainda bem que o trouxe
descuidado
nos bolsos

Ana Saraiva

Salve, castíssimo Cardeal: os eunucos te saúdam!...

Cito José Policarpo (não trato ninguém por Dom):

"Em termos religiosos ou simplesmente culturais, não haverá verdadeira educação sexual se não abrir para a perspectiva da castidade, concebida como vivência generosa e responsável da própria sexualidade. "

Em que século viverá este senhor José? Treze? Catorze? Quinze? O Código Canónico da Igreja dita Católica não interditará a autistas o exercício do múnus pastoral? Um pastor cego só poderá conduzir o rebanho ao abismo...


Um ministério em rota de colisão com os tribunais...

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Público, 31.01.2007

E nenhuma televisão transmitiu em directo...

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24horas, 31.01.2007

Pinho, Pinho, por que tanto porfiais?...

Manuel Pinho, que passa por ministro da economia, tem a palavra fácil. Na semana passada, ouvi-o dizer que a economia portuguesa tinha dificuldade em atrair o investimento estrangeiro por causa dos elevados custos da nossa mão-de-obra. Agora, na China, ouvi-o dizer rigorosamente o contrário. Já não dá para rir, nem para chorar. Trapaça por trapaça, prefiro as patranhas históricas de José Hermano Saraiva...
Depois admiram-se que o zé povinho associe os políticos à escória...

Por que não abrir solenemente o "ano judicial" no... carnaval?...

O chamado "ano judicial" abre, solenemente, hoje, dia 31 de Janeiro, com a habitual cerimónia que junta, para o fraque e a retórica acaciana, os principais dignitários da coisa. Ninguém, no país, liga patavina a estes salamaleques cultuais, senão os suspeitos do costume. Mas não deixa de ser, simbolicamente, elucidativo que a abertura solene do novo "ano judicial" ocorra no último dia do mês de Janeiro. Eu, no lugar dos promotores, retardaria ligeiramente a cerimónia, para a fazer coincidir com o carnaval.

Será uma maldição salazarenta?...

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Primeiro, um "serial killer"; agora, conta hoje o 24horas, um violador de pinhal. Santa Comba Dão, pelos vistos, não se recomenda nos tempos que correm à segurança das mulheres. Será consequência de uma espécie de maldição salazarenta, que se abateu, inesperadamente, sobre Santa Comba Dão, o berço do ditador? A refinada misoginia de Salazar ter-se-á apossado agora, numa versão psicopata, de alguns dos seus conterrâneos? Santa Comba Dão promete tornar-se num "case study" de patologia social...

janeiro 30, 2007

Morangos com açúcar...

Curtir, andar, namorar…
Hoje, os meus alunos explicaram-me as diferenças entre curtir, andar e namorar. Não sei se percebi...
Curtir é… por um dia (ou umas horas). Pode envolver a máxima intimidade. Ou não. Digo: pode envolver sexo ou só beijinhos. Só?... No dia seguinte, não há lastro. O envolvimento erótico é… circunstancial. Ninguém está à espera de… prolongamento ou compromisso. Curtir é… curtir. Ponto final em vez de reticências.
As férias, dizem, são óptimas para curtir. Entenda-se: são uma… curtição.
Andar… é um estado intermédio entre curtir e namorar. Normalmente, dura alguns dias ou breves semanas. Já não é para curtir: é para testar a possibilidade do… compromisso.
Se pega, resulta em namoro. Se não pega, regressa-se à base e tenta-se com outro ou com outra. E, entretanto, continua-se a curtir. Ponto final.
Namorar… é assunto sério. Implica compromisso. De exclusividade e de fidelidade. E… respeito. Curtição… controlada. Pode durar semanas ou meses. Em situações excepcionais, pode até durar um ano ou dois.
Poderá um cota entender estas… subtilezas?
Esqueci-me de lhes dizer que é assim desde o princípio da criação…

Gargantas pouco fundas...

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24horas, 30.01.2007

Pinto da Costa mostrou-se indignado e, desta vez, terei de lhe dar razão. Eu, no lugar dele, também teria ficado. Como é que a comunicação social, em peso, soube que ele iria ontem à PJ prestar declarações, onde e a que horas? Eu vi, nas televisões, Pinto da Costa, à saída da PJ, rodeado e atacado por um verdadeiro enxame de repórteres. Quem os avisara? Não acredito que tivesse sido ele. A informação saiu, quase de certeza, da PJ ou do Ministério Público. Num país decente, o responsável pela fuga de informação teria de responder por ela e sujeitar-se às consequências. Mas toda a gente sabe que Portugal não é um país que se recomende à decência. Vale tudo...

janeiro 29, 2007

Quando os empreiteiros e as câmaras não ajudam...

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Hoje, vi a tabela classificativa da chamada Liga de Honra (a antiga 2ª divisão do futebol indígena). De baixo para cima: Desportivo de Chaves, Portimonense, Vizela, Varzim, Gil Vicente, Guimarães, Estoril... Todos estes clubes, ainda não há muito tempo, jogavam na Superliga. Desceram de divisão e desceram ao inferno. Os empreiteiros e os autarcas têm quebras de... entusiasmo.

Repulsa...

Hoje chegaram-me às mãos 3 panfletos diferentes do NÃO. Panfletos, todos eles, ligados a movimentos serventuários da igreja dita católica. Panfletos abundantemente distribuídos nas paróquias no passado fim-de-semana, geralmente, no fim das missas, à porta das igrejas. O argumentário é o mesmo de sempre: "MÃE, VAIS-ME MATAR?"
A repulsa impede-me de reproduzir aqui esses vómitos.
Os rebanhos aterrorizados são capazes de tudo. A igreja dita católica tem muitos séculos de experiência de aterrorizar rebanhos. Veremos, no dia 11 de Fevereiro, se ganha, uma vez mais, o terror ou a liberdade civilizadora...

Homens "inteligentes", mulheres nem por isso...

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24horas, 29.01.2007

janeiro 28, 2007

Marcelo e o "tratamento sociológico" compulsivo das mulheres que, "criminosamente", abortarem...

Marcelo Rebelo de Sousa usa o tempo de antena que a RTP lhe proporciona ao domingo para fazer campanha pelo NÃO e defender coisas extraordinárias. A IVG até às 10 semanas (tirando as situações "especiais") continuaria, na lei, a ser crime, mas não haveria tribunais, nem sanções para ninguém. Um crime sem... castigo. As mulheres (coitadinhas!) que abortassem "criminosamente" seriam sujeitas a... tratamento compulsivo (sociológico, psicológico, psiquiátrico, talvez filosófico e religioso). Marcelo consegue dizer estas enormidades com o ar mais cândido da criação e, de certeza, há muita gente neste pobre país que acredita que o que ele diz faz... sentido.
E a RTP, que todos nós pagamos, ajuda à festa da... confusão...
Este país, visto prudentemente à distância, mete nojo...

Um Estado-canalha...

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Neste processo, o que é que não falhou? A Segurança Social, como é escandalosamente habitual, andou aos papéis e continua. Os tribunais, todos eles, acertaram ao lado e não foram sequer capazes de fazer cumprir (felizmente para a criança) as suas infelizes decisões, senão a de meter na cadeia (corajosa e iluminada decisão!) o pai afectivo candidato à adopção. O Ministério Público andou perdido no processo e só agora parece ter percebido o óbvio (que a criança não é uma coisa que possa andar a saltar de mão em mão). A mãe biológica, abandonada por tudo e por todos, entregou a filha e o pai biológico, só encostado à parede, assumiu a paternidade e as respectivas consequências. Pensando nos interesses da criança, a única parte que se portou à altura foi o casal que a acolheu. Imagine-se o que teria sido o destino da criança sem a intervenção dos alegados... sequestradores...
Este processo dá bem a imagem do Estado que temos, um estado-canalha.

janeiro 27, 2007

Deselegâncias...

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Lídia Jorge, que passa na praça por escritora, nunca se distinguiu pela elevação (literária ou outra). Hoje, no Sol, confirma a condição, vomitando, sobranceiramente, deselegâncias preconceituosas sobre o Presidente da República, por sinal, seu conterrâneo.
É desta massa que, em Lisboa, se fazem os intelectuais...

Bastonadas...

Os bastonários da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Advogados partilham a causa do NÃO à despenalização do aborto até às 10 semanas. Ambos aspiram a essa extraordinária magia: que o crime continue na lei, mas não chegue aos tribunais. Não há dúvida de que os médicos e os advogados deste país confiaram os respectivos bastões às pessoas certas...

Pena que não se entendam...

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José António Saraiva, director do Sol e ex-director do Expresso, regressou à adolescência: só consegue falar de si próprio. Para dizer mal ou bem, tanto faz. Hoje, discorre na Tabu sobre os seus putativos... inimigos e detractores. E, masoquista, evoca o testemunho de Eduardo Prado Coelho, que, um dia, o terá catalogado como "atrasado mental". Almas gémeas, está visto...

Em Lisboa, tudo tem mais encanto...

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Durante duas décadas, a Bragaparques passeou em Braga e arredores a sua... generosidade. Foi necessário que aterrasse em Lisboa para que o país começasse a descortinar os seus méritos. O país, o Ministério Público e a Polícia Judiciária. A gula, em Portugal, morre sempre no Terreiro do Paço...
Morre?...

Inês posta em sossego a preferir do que...

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Inês Pedrosa, na Única, escreve hoje... isto. Uma pena que a "cidadã brasileira" não prefira sofrer a ver a filha infeliz...
Subtilezas da língua, que continuam a escapar a Inês Pedrosa, nobilíssima escritora e cronista...

Títulos para maiores de 18 anos...

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Público, 27.01.2007

janeiro 26, 2007

Mais uma candidata ao prémio de melhor professor (inferior)...

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24horas, 26.01.2007

Antologia poética (470)...

Improviso para imaginar a Europa a partir do Picoto...

Talvez da lixeira do Picoto
ainda se veja a cidade
antes de todas as guerras
a ponte que um dia terá sido romana
sobre o Guadalquivir
ou Rialto de todas as setas
alombando sobre o grande canal
os olhos que mergulham para dentro
cruzam todas as memórias
o flamenco e as máscaras
a certeza da porta fechada
que se abre para a noite
quando tu chegas e já não queres deitar-te
e lá em baixo outro canal
com as suas pontes de cimento
que ninguém atravessa
e Paris que corre entre nós
como se lá tivéssemos vivido
esta ausência de bússulas
que nos viaja
este mapa impossível
de tantas saudades
sem data e sem lugar
já estivemos lá
e perdemo-nos sempre.

Ademar
01.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

O meu Código de Erotismo (16)...

SERVIR

Eroticamente, os amantes servem-se. Cada um diz ao que vem e encontram-se no meio da ponte. Não pode haver esconderijos: a verdade é a sabedoria da relação. De um lado e de outro, precipício e água apenas. Para trás ou para a frente, as margens da separação. A ponte é o palco do encontro. E nada mais existe para os amantes que aspiram à fusão. A confiança e a entrega são totais, incondicionais. Cada um serve o outro integralmente como se servisse a si mesmo. O amor é um serviço, uma dedicação exclusiva que não reconhece limites, nem palavras de salvação.

janeiro 25, 2007

Antologia poética (469)...

Improviso para Bach (ou para ti)...

Se entrasses agora
por aquela porta
ouvirias Bach
serias Bach
e eu continuaria a desfolhar em vão
a partitura
atento apenas às tuas mãos
vazias sempre de teclas.

Ademar
02.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (468)...

Improviso sobre a mentira...

A mentira
é uma aprendizagem
aprendi a mentir
no confessionário
diante de uma sombra
que me interrogava
em nome de um deus fardado
eu confessava espontaneamente
todos os pecados
que ele esperava
os pecados do corpo
e até os pecados da alma
tudo a preto-e-branco
e sem genérico ou legendas
cinema mudo para cegos
foi assim
entre perfis de altares vazios
que eu aprendi a mentir
a mim próprio
pecado
de todos o mais capital.

Ademar
03.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Antologia poética (467)...

Improviso para Brecht... *

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Brecht
meu cúmplice de tantos dramas
a guerra por aqui
está pela hora do nosso inimigo de sempre
degrada-se o armamento
com o excesso de uso
e os projécteis
já não matam como outrora
inquieta-me todo este desperdício
hoje dispara-se à toa
falta treino de poupança
aos generais
o crédito sopra a indústria da morte
e a morte coitada
faz horas extraordinárias
para abastecer o mercado
mas a guerra não pára
a guerra não pára
e os orçamentos não chegam
para pagar tanta guerra
acabaremos todos nos braços da banca
essa puta inefável.

Ademar
02.08.2006

* A imagem que ilustra o "improviso" reproduz uma litografia de Mabel Dwight.

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Depois de todas as reprimendas e castigos... o prémio...

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Foi ontem "lançado", com toda a pompa e circunstância (como relatava hoje, por exemplo, o 24horas), o Prémio Nacional de Professores. A Ministra dita da Educação irradiava felicidade. Ela julga que "compra" os professores "inferiores" deste país com o rebuçado de um prémio. Julga e deverá ter razão: provavelmente, não faltarão candidatos. Os professores "inferiores" deste país nunca se distinguiram pela coluna vertebral e, mendigos como estão, correrão atrás da migalha. Tivessem coluna... e o "concurso" ficaria deserto...

janeiro 24, 2007

O meu Código de Erotismo (15)...

O SOFRIMENTO DO ORGASMO

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Anne Desclos, aliás, Dominique Aury, aliás, Pauline Réage. Três nomes para o mesmo destino: a viagem interior sobre todos os medos e limites do corpo que se oferece ao prazer através do sofrimento (físico e moral). Todos os orgasmos são dolorosos, porque suspendem a vida no exacto momento em que a vida exigiria a eternidade. Todos os orgasmos, por isso, simbolizam a morte, a perda irremediável no transporte mágico da consagração dos sentidos. É no orgasmo que o máximo prazer se funde com o máximo sofrimento. Pauline Réage aspirava, talvez poeticamente, a libertar o orgasmo do ónus do sofrimento, mas poucos a entenderam. Não há erotismo que sobreviva às fardas e ao fardo do pensamento tumular...

Improviso em dó sustenido...

Quando a noite adormece
tu acordas
e multiplicas-te
há um piano dentro de ti
e teclados que se revezam como ondas
sobre um cais demasiado próximo que te convida
e há muitas mãos que te tocam
enquanto a noite cumpre o seu destino de abandono
o comboio em que viajas
não tem horários
nem trilhos por onde chegues ao fim de ti
partes agora
e não terás regresso.

Ademar
24.01.2007

A lógica de Rosário ou... a tentação da quadratura do círculo...

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Pode não parecer, mas Maria do Rosário Carneiro (deputada socialista independente) é partidária e militante do NÃO à despenalização da IVG nas dez primeiras semanas. A pungente declaração da senhora, que comoveu profundamente as pedras de todas as calçadas deste jardim à beira-mar plantado, vem hoje reproduzida no Público. Ainda não me refiz da comoção das lágrimas...

Quando o destino de uma criança se converte em objecto de um "negócio"...

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Curiosa e sintomática a primeira página da edição de hoje do 24horas: o destino de uma criança atira para rodapé a notícia das buscas de ontem da PJ na Câmara Municipal de Lisboa (e na casa de uma vereadora da maioria). O 24horas conhece muito bem o mercado e sabe o que se vende melhor. Os dramas humanos têm sempre muito mais clientes do que os dramas políticos...

Primeiro candidato ao Grande Concurso para a eleição do melhor professor (inferior) de Portugal...

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Em 21 de Fevereiro de 1998, premonitoriamente, a capa da Revista do Expresso antecipava a fotografia daquele que viria a ser, nove anos depois, o primeiro candidato ao Grande Concurso para a eleição do melhor professor (inferior) de Portugal. Já, na altura, o Carnaval estava à porta...

A estatística do "crime"...

"Desde a realização do último referendo ao aborto, em 1998, e até 2004, foram registados pelas autoridades policiais 223 crimes de aborto, resultando em 34 processos concluídos, com 43 arguidos e 18 condenações."

A informação foi revelada ontem por três deputadas defensoras do SIM e vem hoje estampada na edição do DN. A estatística não determina os princípios, mas, de vez em quando, é importante que os números desmintam a hipocrisia.

janeiro 23, 2007

Senhora Ministra: ofereça-se o prémio e deixe de brincar com a gente!...

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A notícia vem hoje no 24horas: o Ministério da Educação decidiu fazer concorrência à RTP e organizar um concurso para eleger (cito) "os melhores educadores de infância e professores dos ensinos básico e secundário". A Ministra dita da Educação, talvez influenciada pelo seu contra-tenor Valter Lemos, deve estar a gozar com o pagode. Eu, professor, recuso-me terminantemente a alinhar nestas palhaçadas. Num país decente, a Ministra teria de se atribuir o prémio a si própria, para o poder entregar a alguém. De facto, só nos faltava mesma esta...
Sinto-me... insultado.

Sugestão de leituras...

A página 5 da edição de hoje do Público é inteiramente dedicada ao referendo sobre a IVG. À esquerda, Vital Moreira, na habitual crónica das terças-feiras, enumera lucidamente 12 razões para votar SIM. À direita, Pedro Vassalo, suposto defensor do não, fustiga as "(in)verdades do sim", concluindo assim: "há várias fórmulas jurídicas de condenar o aborto sem recorrer, necessariamente, à pena de prisão". É verdade: há várias alternativas sancionatórias à pena de prisão. A multa, naturalmente, seria uma delas. A lapidação, outra. Para já não falar no chicoteamento das abortadeiras na praça pública. Infelizmente, Pedro Vassalo não abre o jogo. Suponho que será mais adepto da "pulseira electrónica"...

Quando a decência morre, a humanidade fica sempre um pouco mais pobre...

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Abbé Pierre (Henri Grouès) morreu. A decência perdeu um dos seus.

janeiro 22, 2007

Prós e contras e contras e contras e contras...

Quando fala muita gente ao mesmo tempo e em registos diferentes... o ruído é inevitável.
As crianças que se lixem... Digo: os seus... superiores interesses.


Rebanhos fardados...

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Tenho o maior desprezo por todos os rebanhos, fardados ou não: tropa, igrejas, seitas, universidades praxísticas, confrarias... Não sei se desprezo mais os rebanhos, se os... pastores. Metia tudo no mesmo saco, atirava ao oceano e o mundo ficaria, certamente, muito mais confiável e seguro. E inteligente. Todas as fardas, ainda que mentais, convidam à guerra e à carnifica...

O meu Código de Erotismo (14)...

PUDORES

A cultura comporta grilhões. Talvez por o corpo ser a realidade mais perecível de nós, é na assunção do próprio corpo que se manifesta a nossa pequenez ou grandeza cultural. A maior parte dos mortais, digo, dos seres humanos, carrega até à morte o pudor do corpo e morre com ele, sem jamais experimentar o travo doce da liberdade purificadora. Essa infinita e quase teológica liberdade que nos permite sempre dizer: comei e bebei, este é o meu corpo, etc e tal...
O pudor é um ponto de partida, nunca, de chegada. A chegada no erotismo é a celebração da ausência de todos os pudores, a absoluta transparência do corpo. A entrega ilimitada...

Improviso para dizer que já não caibo no divã...

Alimento-me do silêncio das palavras
calo-me com elas
caso-me com elas
sou um solitário entre palavras
viajo-me em metáforas
digo
sentidos que me revelam e ocultam
já não tenho divã em que me acomode
tresli de todos os manuais
como se já não houvesse palavras que me dissessem
não caibo nessas molduras e já percebi
todas as objectivas me desfocam
há uma imagem de assombro
que verte de mim
quando os teus olhos me fixam
e interrogam assim.

Ademar
22.01.2007

janeiro 21, 2007

Marcelo e a tentação do trapézio...

Marcelo Rebelo de Sousa consegue este feito absolutamente extraordinário: ser a favor da despenalização da interrupção voluntária da gravidez (ocorra ela às 10, às 20 ou às 30 semanas, como acabou de afirmar na RTP1) e, ao mesmo tempo, ser contra a pretensa "liberalização do aborto" até às 10 semanas (ou seja, defender o NÃO no próximo referendo). É difícil imaginar-se uma posição, intelectualmente, mais desonesta. O grande problema da maioria dos partidários do NÃO é que querem, ao mesmo tempo, duas coisas incompatíveis: querem "criminalizar" o aborto e "descriminailizar" as mulheres que abortam. O crime estaria na lei, mas não fora dela: os tribunais, misericordiosamente, seriam poupados à aplicação da lei. Será que os eleitores portugueses ainda "compram" este farisaísmo?...

O meu Código de Erotismo (13)...

TRANSCENDÊNCIAS

As fantasias, como as utopias, são pontes. Poderemos, a meio do trajecto, regressar à margem donde partimos, mas teremos tempre a alternativa de seguir em frente e chegar à outra margem... a caminho, talvez, de outras pontes e outras margens.
Diante do convite ou da tentação do desconhecido, há sempre quem nunca arrisque um passo. E há quem, arriscando, não chegue nunca à outra margem. As fantasias, como as utopias, exigem o máximo de nós. Só lá chega quem se transcende...

A coerência e a justa medida da justiça que vamos... tendo...

Depois de uma manobra "perigosa", um agente da PSP atropelou e fugiu, sem prestar socorro à vítima. Seis dias passados sobre o "acidente", e quando estava iminente a sua "captura" (porque as duas senhoras que viajavam com ele na infausta noite terão, entretanto, dado com a língua nos dentes), apresentou-se à justiça (ou a quem faz as vezes dela). Foi mandado em paz para casa: poderá aguardar em liberdade o julgamento que o espera. Por um triz, ia matando a vítima, que continua no hospital em estado que não se recomenda, nem deseja a ninguém.
Há dias, um sargento da GNR (que, aliás, já estava detido preventivamente) foi, fulminantemente, condenado a seis anos de prisão pelas razões que todos conhecem.
Perante esta extraordinária sintonia de perspectivas e decisões, haverá alguém neste país que confie ainda na... justiça?

Segredo de que justiça?...

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Há muito que se percebeu que no futebol indígena vale tudo. Os advogados do futebol... não são excepção. Para eles (e como eu os conheço!)... vale tudo e um pouco mais...
O "calvário" cívico de Maria José Morgado (indiciado hoje nas páginas do JN)... ainda só agora começou...
Mas eu continuo a apostar nela, apesar de todos os reparos que já lhe fiz aqui, quando ela falava de mais...

Sexo "industrial", diz ela...

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O sexo da "indústria" de que fala a antropóloga Ana Lopes é um sexo que se esgota em si mesmo, numa lógica meramente mercantil de compra e venda. Esse sexo tem muito pouco a ver com o erotismo, que funciona numa lógica de apropriação privada, intimista e quase ontológica. O sexo é apenas um condimento do erotismo. Quem não entende isto, não entende nada...

janeiro 20, 2007

Só nós dois é que sabemos?...

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Expresso, 20.01.2007

Investigadores dementes, escolas que ainda não abandonaram a posição de cócoras e professores que desaprenderam de usar a inteligência...

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Com o tempo, habituei-me a desaprender de me surpreender. Ou seja, já nada neste país me consegue surpreender. Este inquérito demencial do Instituto da Droga e da Toxicodependência, de que o Expresso dá hoje notícia, é apenas mais um inquérito demencial. Todos os anos, aterram nas escolas deste país inquéritos deste jaez, mais absurdos, menos absurdos. E quase todos eles são... aplicados bovinamente pelas escolas e pelos professores. É mais um sintoma do estado em que se encontra o país. Enquanto respondi por um Centro de Formação e por uma Escola, devolvi à procedência ou lancei imediatamente no lixo a maior parte dos inquéritos que ilustríssimas instituições pretendiam aplicar aos indígenas que eu, supostamente, tutelava. Infelizmente, penso hoje, não guardei esses inquéritos: com eles, faria uma publicação de sucesso editorial garantido. Chegaram-me às mãos, por exemplo, "inquéritos" elaborados por mestrandos com o "imprimatur" de distintos professores catedráticos... a abarrotar de erros gramaticais e de graves deficiências de lógica. Foi a partir daí que comecei a perder o já pouco respeito que tinha pelas universidades (ou algumas delas).
O inquérito a que o Expresso hoje alude... é apenas mais um. Não me passou pelas mãos. Se tivesse passado, provavelmente, teria seguido de imediato para o Ministério Público. É uma canalhice, que, pelos vistos, passou despercebida a 800 escolas públicas, que alegremente o aplicaram.
Já o disse e escrevi muitas vezes: se dependesse de mim, fechava este país para balanço...

Ao cuidado da Dra. Maria José Morgado, ilustríssima procura-dora...

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24horas, 19.Janeiro.2007

janeiro 19, 2007

Haverá alguma mulher neste país que não gostasse de cozinhar... este homem?...

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Miguel Sousa Tavares, na cozinha, fotografado sabe-se lá por quem.
Fonte: Indy, 497, 21.Novembro.1997

Pedagogia fardada...

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Duarte dito de Bragança e o filho Afonso, fotografados por António Homem Cardoso.
Fonte: V., nº0, Novembro.1997

Quem quer parecer felina... veste-lhe a pele...

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Nicole Kidman e Matt Dillon, em "Disposta a Tudo".

Improviso para contar dos anjos...

Os anjos vestem assim
e despem assim
num sussurrado despojamento de pudores
os anjos confiam-se apenas
à sabedoria dos mestres
desafiam o movimento de todos os astros
na ânsia de se confundirem com o universo
não há ciência que os force
ao recolhimento do cárcere
não há grades nem frestas
há um olhar absoluto
que espreita o infinito
e é no infinito que os anjos
tomam a forma e a matéria dos deuses
de que emigraram.

Ademar
19.01.2007

Justiça e senso comum...

O sequestro é um crime contra a liberdade pessoal. Pressupõe, pelo menos, uma vítima e , correlativamente, um dano. Quando não há dano (ou o dano não é comprovável), pode haver vítima? Ou seja, pode haver crime?
Esta pergunta, ainda que por outras palavras, foi-me colocada hoje por uma aluna (de Direito).
O senso comum tenderia a responder: não.
O problema é que a justiça, frequentes vezes, não respeita o senso comum. E, por isso, é que o senso comum, frequentes vezes, também não respeita a justiça.

Se a juíza tivesse lido Brecht (especialmente, o "Círculo de Giz Caucasiano") na juventude (devia ser obrigatório para todos os aspirantes a justiceiros), teria ficado certamente com muito mais juízo...

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24horas, 19.01.2007

Sugestões...

Uma boa maneira de começar o dia ou o fim-de-semana: a ouvir Ali Farka Touré, em Diaraby...

Agradeço a sugestão musical à Ana Saraiva, agora finalmente "emancipada"...

janeiro 18, 2007

Um "caso judicial" que será ganho ou perdido na "comunicação social"...

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24horas, 18.01.2007

Infantilidades "universitárias"...

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Que as universidades com pedigree ostentem as vestes que, corporativamente, as distinguem das igrejas e da tropa, é ridículo, mas ainda entendo. Que "universidades" rafeiras (neste caso, a Lusíada *) gostem de fingir uma história e uma "dignidade" que não têm, é simplesmente caricato. Que se poderá esperar de uma "universidade" que finge, na indumentária, aquilo que não é?...

* Foto retirada do semanário famalicense Cidade Hoje.

Morreu Madeleine...

Quem não se lembra de Madeleine, de Jacques Brel?

Ce soir j'attends Madeleine
J'ai apporté du lilas
J'en apporte toutes les semaines
Madeleine elle aime bien ça
Ce soir j'attends Madeleine
On prendra le tram trente-trois
Pour manger des frites chez Eugène
Madeleine elle aime tant ça
Madeleine c'est mon Noël
C'est mon Amérique à moi
Même qu'elle est trop bien pour moi
Comme dit son cousin Joël
Ce soir j'attends Madeleine
On ira au cinéma
Je lui dirai des "je t'aime"
Madeleine elle aime tant ça

Elle est tellement jolie
Elle est tellement tout ça
Elle est toute ma vie
Madeleine que j'attends là

Ce soir j'attends Madeleine
Mais il pleut sur mes lilas
Il pleut comme toutes les semaines
Et Madeleine n'arrive pas
Ce soir j'attends Madeleine
C'est trop tard pour le tram trente-trois
Trop tard pour les frites d'Eugène
Et Madeleine n'arrive pas
Madeleine c'est mon horizon
C'est mon Amérique à moi
Même qu'elle est trop bien pour moi
Comme dit son cousin Gaston
Mais ce soir j'attends Madeleine
Il me reste le cinéma
Je lui dirai des "je t'aime"
Madeleine elle aime tant ça

Elle est tellement jolie
Elle est tellement tout ça
Elle est toute ma vie
Madeleine qui n'arrive pas

Ce soir j'attendais Madeleine
Mais j'ai jeté mes lilas
Je les ai jetés comme toutes les semaines
Madeleine ne viendra pas
Ce soir j'attendais Madeleine
C'est fichu pour le cinéma
Je reste avec mes "je t'aime"
Madeleine ne viendra pas
Madeleine c'est mon espoir
C'est mon Amérique à moi
Sûr qu'elle est trop bien pour moi
Comme dit son cousin Gaspard
Ce soir j'attendais Madeleine
Tiens le dernier tram s'en va
On doit fermer chez Eugène
Madeleine ne viendra pas

Elle est tellement jolie
Elle est tellement tout ça
Elle est toute ma vie
Madeleine qui ne viendra pas

Demain j'attendrai Madeleine
Je rapporterai du lilas
J'en rapporterai toute la semaine
Madeleine elle aimera ça
Demain j'attendrai Madeleine
On prendra le tram trente-trois
Pour manger des frites chez Eugène
Madeleine elle aimera ça
Madeleine c'est mon espoir
C'est mon Amérique à moi
Tant pis si elle est trop bien pour moi
Comme dit son cousin Gaspard
Demain j'attendrai Madeleine
On ira au cinéma
Je lui dirai des "je t'aime"
Madeleine elle aimera ça

Madeleine Z. (a Madeleine de Brel) morreu. Ela já só aspirava, nos últimos anos, a deixar de "não-viver", a morrer com dignidade. Preparou minuciosamente o suicídio, pediu ajuda e matou-se. Hoje, regressei a Brel. Com Madeleine...

janeiro 17, 2007

Antologia poética (466)...

Improviso para dizer por que fico...

Há viagens
que o meu corpo já não suporta
viagens à volta de mim
comigo ausente
viagens
por onde nunca serei
o meu corpo
exige-me agora raízes
para voar.

Ademar
03.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Sugestão de biscate...

É rara a semana em que, na minha caixa de correio postal, não encontro um pequeno "promocional" de... bruxo. Já perdi a conta aos nomes de todos os "professores" (eles intitulam-se todos assim) que me garantem o "milagre". Raramente leio os papéis que mãos enigmáticas me deixam. Hoje, porém, talvez porque me esteja a apetecer um "milagre", resolvi ler. Não interessa o nome "artístico" do bruxo. Basta dizer que ele se apresenta como "astrólogo"e "grande mediúm vidente" (sic), "especialista de todos os trabalhos ocultos" e "com experiência de 18 anos". Promete resultados em 7 dias "rápidos e garantidos" e confessa-se, modestamente, "dotado de dom hereditário". Que problemas resolve? Quase todos, "mesmo os casos mais desesperados: amor, negócios, casamento, impotência sexual, insucessos, depressão, doenças espirituais, sorte nas candidaturas, desporto, exames, atracção de clientela para os comerciantes, dificuldades familiares, protecção, retorno imediato e definitivo de quem amar, harmonia matrimonial e fidelidade absoluta entre casais". Este "bruxo" é honesto: só promete o que pode, de facto, conseguir. E mais honesto ainda: garante que só cobra pelos seus serviços "depois do resultado". Um magnífico exemplo para muitos médicos e advogados que conheço...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (465)...

Improviso para uma leitora...

Quando todas as vozes
forem uma
regressarei ao cantochão
para morrer.

Ademar
04.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Kafka sem mestre...

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Não conheço as minudências do processo e, por isso, não quero ser injusto. Mas a decisão do Tribunal de Torres Novas, aqui reproduzida do Público, parece-me, no mínimo,... insensata, para não dizer... sinistra.
Nas presentes circunstâncias, quem e como defenderá os interesses da criança supostamente sequestrada?..
Lede, por favor, o editorial que Nuno Pacheco dedica hoje no Público a esta decisão que lembra excessivamente Kafka... Subscrevo inteiramente o que ele escreve...

janeiro 16, 2007

Bigodes para a história (ou desafio ao leitor)...

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Quem reconhecerá, 58 anos passados, os portadores ilustres destes quatro bigodes?...

Ainda poderemos ter alguma esperança neste país?...

Eu não quero saber se os meus filhos, na escola, têm 1, 5 ou 10 professores. Quero apenas que a escola e os professores façam, para eles, algum sentido...
Será pedir muito?
Os actuais titulares do Ministério da Educação, pelos vistos, têm o fetiche do... número.
Pobres dos meus filhos mais pequenos, que sempre penaram na escola a... monodocência (solitária ou, supostamente, coadjuvada).
A pobreza do pensamento educativo dos que, nesta altura, decidem a organização do ensino em Portugal... mete dó.
Confesso que já perdi a esperança.

O beijo pré-presidencial...

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Cavaco Silva e esposa, beijando-se, fotografados por Rui Ochôa.
Fonte: Expresso-Revista, 1207 (16.12.1995)

OPções...

monodo.jpg

A infausta "novidade" foi fornecida ao... Diário Económico. OPções...

Improviso para milagrar...

Sinto-me a gerir a tua alma
como se ela já não te pertencesse
suspendo flores diante de cada um dos teus retratos
para dizer que ainda vives
milagro-te
como li a Manoel de Barros
há um labirinto que nos ainda serve de alcova
tenho a memória despida de ti
e porém
continuas a convidar-me à eternidade.

Ademar
16.01.2007

De disparate em disparate...

Estamos sempre a avançar... às arrecuas. Como se já não bastasse a praga da monodocência (ainda que, virtualmente, coadjuvada) no 1ºCiclo do Ensino Básico, o Ministério da Educação anuncia agora a intenção de submeter, a prazo, o 2º Ciclo ao mesmo estimável regime, alavancado no professor-tutor generalista. Pretende-se assim combater um disparate com... outro, sobrepondo-se a lógica de uma docência esgotada às verdadeiras necessidades de aprendizagem e de formação dos alunos . Desgraçadas das nossas crianças e desgraçado do país...

Importante, diria mesmo imprescindível, é que alguém pague...

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24horas, 15.01.2007

janeiro 15, 2007

Aulas de prostituição, digo, de substituição...*

Às quintas e às sextas, sirvo de prostituto na minha escola. Fico à espera de que o telefone toque e alguém me chame para o quarto, digo, para a jaula, onde uma turma (que, geralmente, eu não conheço e não me conhece), supostamente, me espera. Devo dizer que a experiência, apesar da linguagem chocarreira que utilizei, não me deprime e que os alunos "agrilhoados" nem costumam queixar-se muito, depois de estarem comigo. Costumamos falar da quase inutilidade da escola e eles... fazem coro. Outras vezes, falamos dos problemas do dia-a-dia... e eles adoram. Até falamos de amor, de afectos e de sexo... assuntos que eles não estão habituados a falar com ninguém, senão com os pares. A escola é uma espécie de museu: estamos todos parados a olhar uns para os outros, à espera, talvez, de que um aluno mais exaltado atire um ovo à Mona Lisa...
Eu já não tenho idade para me irritar com certas coisas. Brinco, apenas. Servir de prostituto... é a minha definitiva consagração como professor. Sinto-me invejável, quando me chamam para o quarto, digo, para a jaula...

* Este "post" é dedicado à Rute, a colega que partilha comigo, às quintas-feiras, o "room service"...Digo: que alterna comigo...

Uma medalha na minha lapela pedagógica...

mahlerquinta.jpg

Os professores, de vez em quando, têm dias assim. Hoje, um aluno pediu-me que lhe emprestasse a 5ª Sinfonia de Mahler, de que acabara de ouvir o famoso Adagietto. Reprimindo discretamente o orgasmo pedagógico, cedi-lhe em silêncio o cd, que ele guardou, de imediato, no bolso do casaco. Os meus colegas dizem que é o aluno mais insuportável da turma. De facto: quem tem vontade de ouvir Mahler, devia ser poupado à estupidez da escola e de certos professores...

Responda-me, Eminência!...

Aterrou hoje na minha caixa de correio electrónico um powerpoint "terrível" dos partidários do NÃO à despenalização do aborto. Sob o título TESTE DE GRAVIDEZ, perguntam o que teria sido da humanidade se a mãe, por exemplo, de Beethoven tivesse abortado. A pergunta parece demolidora e o argumento implícito... incontraditável.
Vejamos, Eminência! Façamos mesmo um esforço de serena reflexão...
Imaginemos que Deus, o seu Deus, lhe concedia, retrospectivamente, o poder de decidir sobre o prosseguimento de uma gravidez. Permita-me que lhe complique a ética. O feto em causa seria... Adolf Hitler. Decidiria o aborto?...
Cabe-lhe, Eminência, a opção de decidir entre um feto e milhões de seres humanos que viriam a ser vítimas do holocausto nazi. Que lhe ditaria a sua inteligência e o seu sentido de humanidade? Em nome da vida, quem pouparia: Hitler ou as suas vítimas?...
Dir-me-á, certamente, que é uma pergunta estúpida e desonesta. Pois é, Eminência. Tão estúpida e desonesta como a pergunta dos seus acólitos, partidários do NÃO.

janeiro 14, 2007

O meu Código de Erotismo (12)...

A MAIS ANTIGA PROFISSÃO

Basta passar os olhos pela secção dita de Relax de alguns jornais para perceber que a prostituição é uma profissão… esgotada. De resto, sempre foi e sobreviveu até hoje. A ementa da oferta é absolutamente deprimente e dirige-se, como sempre se dirigiu, aos deserdados do erotismo. Ao contrário do que corre, quem vai às putas não vai à procura de… fantasia. Aspira apenas à ilusão de uma satisfação mais ou menos circunstancial que não requer um mínimo de investimento erótico. A prostituição sempre foi a negação do erotismo e talvez, por isso, é que continua a ser tolerada. O erotismo é subversivo; o sexo elementar, não. O senhor padre que frequenta as putas sai de lá como entrou, na graça de todos os deuses. Se tivesse uma aventura erótica, provavelmente, começaria a questionar a sua condição e abjuraria. E, ao contrário também do que costuma ser dito, a prostituição sempre foi, tirando casos patológicos, um esteio do matrimónio. É nas prostitutas que os senhores, sexualmente, mal casados compensam todas as suas frustrações. Não fossem elas e a percentagem de separações e divórcios seria ainda muito mais elevada do que é. Não é preciso ter lido muito livros para saber que assim é ou seria. O sexo atrapalha quase todos os casamentos. Por isso, a igreja católica continua a defender a instrumentalização procriadora do sexo. E se o macho quer mais… que recorra às putas e não aborreça as “legítimas”. Os padres não dizem isto na intimidade dos confessionários… mas pensam e têm vontade de dizer. Dirão?...

Na primeira página, pelas piores razões de sempre...

jnbraga.jpg

Primeira página da edição de hoje do JN. Futebol, imobiliária, corrupção... a trilogia do costume, à moda de Braga. Era assim no fascismo, continuou a ser assim na... democracia. Portugal é isto, mais maquilhagem, menos maquilhagem. Braga marca passo na Madeira, Bragaparques ataca "agente encoberto": onde está a novidade?...

A estória patética do capuchinho vermelho que se associou ao lobo mau...

delfinha.jpg

Durante muitos anos, foi a "delfinha" de Cunhal. Hoje, confessa (em entrevista à Única), que idolatra os EUA. Deputada do PCP, defendia convictamente a despenalização do aborto. Hoje, tem dúvidas e faz campanha pelo não. Zita Seabra é uma ameaça à saúde pública da... democracia. Sempre que a leio ou ouço, vomito...

Alguém saberá dizer-me quem é este palhaço promíscuo?.!..

José Maia, eurodeputado do BE: é assim que aparece identificado neste video o troglodita que, tão libidinosamente, oferece o nariz e a boca à bolinha de um microfone. Claro que se trata de uma brincadeira de mau gosto, porque o palhaço do vídeo não pode ser, de facto, eurodeputado do BE. Miguel Portas não costuma lamber e cheirar bolinhas de microfone.
Sobra, porém, a questão principal: quem será, de facto, o palhaço do vídeo? Será mesmo deputado? Eurodeputado? Terá, ao menos, uma profissão respeitável?...
Peço ajuda!

janeiro 13, 2007

Improviso para distrair o cais...

Desaprendo de esperar
habituo-me a errar o tempo
como se jogássemos sempre às escondidas
se alguma coisa fosse certa em mim
seria esta capacidade de estar sempre desatento
a todos os embarques e desembarques
há uma rotina que me conduz ao cais
e uma névoa interior que não me deixa ver
quem chega e quem parte
distraio-me das horas e dos compromissos
sei apenas que desaprendo de esperar
e regresso sempre a mim
interpelando-me na multidão
falo por muitas mais vozes
do que aquela esta que ouves.

Ademar
13.01.2007

Convicções...

Há muitos anos que, todas as noites, quando me deito, antecipo que no dia seguinte morrerei. Até hoje falhei, mas acredito que ainda hei-de acertar...
Sou um optimista...

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Antologia poética (464)...

Improviso em forma de arquipélago...

Esperaste comigo
tempo de mais
ou o tempo indispensável
eu era apenas um aeroporto periférico
donde talvez deixassem um dia de partir
(acreditaste)
os aviões para os Açores
um daqueles aeroportos em que só pousamos
por razões de escala
as molduras servem para todos os retratos
mas há retratos que não cabem
na única moldura que somos
sempre te disse (lembras-te?)
que há viagens que eternamente adolescemos
eu era apenas um berço tardio
a mais longínqua e inabitável de todas as ilhas.

Ademar
05.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

A insidiosa campanha do Expresso a favor do NÃO...

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Há várias edições (como aqui já denunciei) que o Expresso vem fazendo, insidiosamente, campanha pelo NÃO. Basta estar atento às primeiras páginas e aos títulos das notícias e não ser... burro. A notícia de hoje é apenas mais uma. Trata-se de uma falácia (porque o aborto "clandestino", pelos vistos, não tem custos), mas o propósito é passar a ideia de que a despenalização do aborto até às 10 semanas terá uma ressonância financeira incomportável no Serviço Nacional de Saúde. É argumentativamente desonesto, mas, para o Expresso, nesta altura, vale tudo. A opção editorial seria aceitável, se fosse claramente assumida. O problema é que não é.
Neste caso, o Expresso está a vender gato por lebre. Para quem, como eu, já trabalhou para o Expresso, esta metamorfose revolve-me as entranhas. Um dia destes, ao fim de mais de 30 anos, ainda deixo de comprar. Começo a ficar farto...

A espantosa e atrevida ignorância de certos jornaleiros que passam por jornalistas...

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Sonia Ghandi é tão neta de Mahatma Gandhi como o jornaleiro ou a jornaleira da Lusa que pôs a correr pelas redacções o disparate que reproduzo (que o DN e o 24horas, entre outros, acolheram). Como se sabe, Sonia (italiana, de origem) herdou o apelido do defunto marido, Rajiv Ghandi, que, por sua vez, o herdara da mãe, Indira, filha única de Nehru, o primeiro chefe de governo da Índia independente. Nenhum deles "descende", senão politicamente, do fundador da pátria indiana...
Estes disparates não configuram justa causa para despedimento?...

janeiro 12, 2007

Perplexidade gramatical...

Há pessoas que amamos e pessoas que amámos.
Mas a nossa gramática sentimental não distingue acentos, por agudos ou graves que sejam. Como distinguir, então, interiormente, o passado e o presente? Em que tempos ou modos conjugaremos, na cegueira das frases, o verbo amar?...
Quando não reconheço os acentos, confundo-me. Nunca sei se amo ou deixei de amar.

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Antologia poética (463)...

Improviso para dois cravos e todas as cordas...

Ouve
hoje descobri no fundo de mim
uma lágrima
aproveitei para chorar
inadvertidamente
sobre os vinis em terceira ou quarta mão
que um dia me trouxeste das Canárias
a agulha tropeça como eu nas espiras
como se o andante do concerto de Bach tardasse
em dó menor para dois cravos
BWV 1062
ainda há gemidos que eu ouço
no sofá ao fundo da sala
quando tiravas os óculos
para não veres que era eu
nunca me explicaste
por que eram precisos tantos dedos
para tocar um instrumento tão delicado
Gustav Leonhardt.

Ademar
06.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Tudo se gasta...

luisao.bmp

Como Jardel e tantos mais, fala de si na terceira pessoa. Se lhe perguntam as horas, ele responde: o Luisão responde que são nove horas. Ia mesmo a conduzir alcoolizado? O Luisão estava com a família e tinha acabdo de jantar num restaurante e... O Luisão, o Luisão, o Luisão...
Os avançados e os defesas centrais são assim: usam tanto a cabeça (fisicamente falando) que, ao fim de pouco tempo, já lhes sobra pouca...

SIM, claro!

Eu não quero que nenhuma mulher sofra duplamente ou triplamente quando decide interromper, até às 10 semanas, uma gravidez não desejada. Não quero que corra o risco de ser denunciada, processada, julgada e, eventualmente, condenada a uma pena de prisão. Por isso votarei SIM no próximo referendo. Não sou sádico: já basta às mulheres que abortam o sofrimento do próprio aborto.
Espanta-me é que ainda haja gente neste país, supostamente tão católico, que deseje a humilhação e a penalização das mulheres que decidem interromper uma gravidez. Por que não defendem, muito mais evangelicamente, a sua crucificação?...

janeiro 11, 2007

O meu Código de Erotismo (11)...

KINKY

Há pessoas que não se contentam com o trivial, com o “déjà-vu” (francesismo que diz quase tudo). Que aspiram sempre a voar para além dos limites que o horizonte da tradição e da rotina lhes impõe. No jogo erótico, são… “kinky”. Excêntricos, talvez “desviantes”…Não se comprazem com a ementa que o estatuído lhes serve: querem reiventá-la à sua medida ou à medida das suas fantasias, dos seus “devaneios”. Basta que encontrem alguém disponível para as acompanhar e aí vão. Nada as contém. Nenhum preconceito de condição ou de papel, nenhum pudor, nenhuma reserva. O erotismo, para elas, não se escreve com grades ou pontos finais – é um permanente convite à evasão dos corpos e da mente. Substituem o palco pelo altar e trocam e baralham todos os guiões de género ou orientação. A fronteira do possível fica sempre um pouco mais além, nunca se atinge. Nem no Cântico dos Cânticos

Portugueses que eu admiro (5)...

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Conhecemo-nos na condição de professor e aluno… e ficámos amigos. Ainda hoje não sei porquê. Talvez apenas porque sempre o admirei e ele sabe disso. As amizades não precisam da presença dos corpos… e nisso se distinguem dos sentimentos mais voláteis. Já não estou, fisicamente, com o Vital Moreira há muitos anos… mas, sempre que falamos, é como se apenas ontem tivéssemos almoçado na sala capitular, então em ruínas, do Mosteiro de Tibães. Lembras-te? Devo-lhe uma das maiores lições de pedagogia que recebi em toda a vida. Fiquei a admirá-lo, confesso, desde esse dia. E poucas lições determinaram tanto o meu futuro profissional… como essa. Ainda hoje, mais de trinta anos passados, repito essa lição aos meus alunos. A escola não esgota a vida… e há aprendizagens essenciais que a escola jamais nos proporcionará. E quando a escola possa ser um empecilho a tais aprendizagens, que se lixe a escola. Foi isso, na prática, o que o Vital me ensinou… e eu aprendi. Não importam os pormenores da estória. Importa apenas que jamais esqueci a atitude e as palavras do Vital naquele dia. A grandeza das pessoas está sempre presente nelas, não é uma maquilhagem. E o Vital sempre foi e será para mim um dos portugueses mais ilustres que eu tive, tenho a honra de conhecer. Pela inteligência, pela cultura humanista, pela sensibilidade e pelo… carácter. Poderia escrever mil e uma páginas sobre o carácter do Vital. Se eu tivesse de personificar a honradez em alguém, seria nele. Obrigado por existires assim!

Improviso para respirar...

O fio da tua voz
enrola-se-me na garganta
e quase asfixio
prometes-me a boca
sobre todos os tabus
e o silêncio
dos pudores originais
essa jaula tem as grades
que te colocas.

Ademar
11.01.2007

Antologia poética (462)...

Improviso para distrair o abandono...

Não há segredos
para explicar o regresso
a vertigem do eterno retorno
a nostalgia
transporta-nos sempre aos embalos iniciais
como se apenas no passado
de todos os abandonos
pudéssemos ainda encontrar algum conforto
para o próprio abandono.

Ademar
06.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (461)...

Improviso para violino imaginário...

Se ainda te lembras
foi em Salò
o berço de Gaspare
junto à Piazza Duomo
que comprei
Il Trillo del Diavolo
que agora ouço
tentaste explicar-me a minudência técnica
mas eu não percebi
faltava nas tuas mãos
talvez para a dança da vida breve de Falla
(a aula prática)
um violino
sobrava-nos antes a imaginação de Pier Paolo Pasolini
para todo o horror dos 120 dias de Sodoma
que nos levara àquelas margens tardias do Garda
ainda voltámos a Salò
mas já não a tempo de reescrever a história
a nossa.

Ademar
07.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Uma tentação contabilística...

Confesso que nunca me vira noutra. Caminhava, distraidamente, pelo passeio, desfolhando o Público, até que uma voz com sotaque brasileiro, pu favô, me pede uma indicação sobre uma rua qualquer que eu desconhecia. Admiti a ignorância e ela sorriu. O senhor (traduzo) não é professor? Devo ter recuado mentalmente um passo. Ela não esperou pela resposta e contra-atacou. Explica-me: em palavras como carro, os portugueses carregam muito nos érres. Sabes dizer-me porquê?...
Devo ter feito uma pungentíssima cara de idiota. Ela topou o embaraço e rematou:
Ainda não percebeste? Sou contabilista...
A minha compreensão, nestas situações, rasteja sempre. Eu ainda não tinha percebido que ela era contabilista...
Mas já posso regressar ao paraíso do Génesis, para recontar a história da humanidade de outra maneira...

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janeiro 10, 2007

Improviso para contar talvez o vento...

Que te ignorassem os astros
e a noite continuaria ainda a acordar
no teu corpo
já não há poema que nos distraia
do tempo em que seremos
o vento ouves o vento
esse gemido quase animal
que parece confundir no horizonte mais próximo de nós
o íntimo rumor de todos as palavras?
sim
talvez a vida tropece ainda nos teus gestos
esse lastro de imaterialidade
que te projecta muito para além da própria vida.

Ademar
10.01.2007

Circunstâncias lusitanas...

Carrilho, o filósofo, renunciou. Não se sabe bem a quê. O director geral dos impostos, que em breve será beatificado (ou, directamente, canonizado), convocou os trabalhadores para uma eucaristia. Não sei o que agradeceram ao deus de turno. Os partidários do NÃO continuam a dizer, com um sorriso nos lábios, que não querem a penalização das mulheres que abortam, embora persistam em considerar o aborto um... crime. O ministério dito da educação continua a perder nos tribunais e a acumular insucesso. Tudo isto e o mais que ignoro é Portugal no seu melhor, em 24 horas. Não há emenda que nos salve do soneto...

Cristianíssimo...

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24horas, 10.01.2007

O aborto na primeira página: tentações, atentações e assombrações...

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Notícias de Viana, 4.1.2007

janeiro 09, 2007

Improviso sobre a mais presente de todas as ausências...

Dá-me as formas
para eu caber em ti
as medidas não
que eu não respeito medidas
a tua ausência
tem mais presença
do que todos os mortos
há quase uma vida depois de ti
e antes de ti
e no meio do que fui
e do que serei
estás tu
e eu contigo.

Ademar
09.01.2007

A autoridade de um pensamento...

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Hoje por hoje, não conheço ninguém em Portugal que, sobre as questões da eutanásia e do suicídio assistido, tenha uma voz tão autorizada como a minha irmã Laura, como o artigo de ontem no Público, uma vez mais, veio comprovar. Só lamento que o ensaio prometido que ela nos deve ainda não tenha saído do prelo...

O julgamento do Apito Dourado, numa versão futurista de Miguel Sousa Tavares......

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Em A Bola, Miguel Sousa Tavares antecipa hoje o julgamento do processo Apito Dourado. São duas páginas saborosas que valerá a pena guardar... para mais tarde comparar. A realidade, quase sempre, supera a ficção...

Improviso para desejar apenas boa viagem...

Pode ser que o universo
comece e acabe em ti
e que Einstein afinal se tenha enganado
que tudo passe pelo teu corpo
e se submeta a ele
e que te ofereças
a todos os movimentos de translação
sem te confiares a nenhum
pode ser mesmo que não tenhas
fim nem princípio
que comeces onde acabes
e acabes sempre onde comeces
e pode ser que a tua vontade
seja a própria fonte do cosmos
e que nada exista fora de ti
ou dentro
pode ser até que viajes apenas
neste poema.

Ademar
08.01.2007

janeiro 08, 2007

Antologia poética (460)...

Improviso sobre o fogo em que ardemos...

Como Marley
poderia também dizer-te
No Woman No Cry
as lágrimas não abrem as janelas
que deixámos fechar
e há manhãs de sumo de laranja
que não voltaremos a beber
as saudades tropeçam no destino
e nós tropeçamos nas saudades
sobra ainda esta fuligem de fogo
que nos sufoca por dentro
como se continuássemos a arder.

Ademar
07.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia póetica (459)...

Improviso sobre "Caro mio ben", de Giordani...

Cecilia
no Teatro Olímpico
de Vicenza
cantando apenas para nós
(ficaste com as fotografias)
Caro mio ben
de Giuseppe Giordani
credimi almen
senza di te
languisce il cor
a voz no palco de todas as máscaras
as estátuas espreitando-nos
a antiguidade ali tão perto de nós
e tu subindo e descendo os degraus
à procura do ângulo que falha sempre
il tuo fedel
sospira ognor
cessa crudel
tanto rigor
caro mio ben
Cecilia Bartoli
Agosto de 2003
(digo: Junho de 1998).

Ademar
07.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Duas mulheres à... Benfica...

pinhao.jpg

24horas, 08.01.2007

B.B. (Bush e Barroso, posando na sala oval para a caricatura): a fotografia oficial...

brancomais.jpg

Ovalmente, lado a lado. Diferem apenas na cor do cabelo e na tonalidade da gravata. E na posição das mãos.
Sim, claro, Barroso (o "nosso" barrosão) sorri! Dir-se-ia: orgasticamente. Bush, não: consulta temerosamente a cábula, para não trocar a mensagem... e o meio. Ele sabe que Deus (oh! Deus) o espreita...E não o respeita...
Alguém levará a sério estes tartufos siameses?...
Obrigado, Zé!

janeiro 07, 2007

Improviso para refundar a iniciação...

Perder tudo e ganhar tudo
dizes
voltar ao princípio do que seremos
eis o único sentido da viagem
que intimamente nos espreita.

Ademar
07.01.2007

Uma ética de redoma contra a urgência do desespero e do amor...

ashley.bmp

Como sempre, aparecem os trogloditas de uma ética de redoma a dizer que não pode ser, coitadinha da criança cujo crescimento está a ser retardado!...
É o peditório do costume para o qual eu há muito deixei de dar. As razões invocadas pelos pais de Ashley, que poderão ser vistas aqui, merecem-me todo o respeito e toda a compreensão. No lugar deles, não sei se tentaria fazer o mesmo...
Como é sempre tão fácil administrar a consciência e o amor dos outros...

O meu Código de Erotismo (10)...

SUBMISSÃO

Todos os amantes aspiram, pelo menos, inicialmente, à submissão. Por razões antropológicas e culturais, muito mais as mulheres do que os homens. As mulheres ambicionam quase sempre algo muito próximo da fusão. E quando a fusão não é possível, contentam-se simplesmente em submeter-se. Só elas sabem conjugar na perfeição a síntese do prazer com o sofrimento, que os homens deslocam quase sempre para o território pantanoso e, tantas vezes, equívoco do sadomasoquismo. Elas entregam-se e confiam ilimitadamente. Eles, não. Espreitam sempre a fresta por onde possam escapar, na primeira oportunidade que a necessidade imponha. Não sei se haverá homens verdadeiramente submissos; como não sei se haverá mulheres que, de uma forma ou doutra, o não sejam…
A submissão, quase sempre, amplifica o melhor de cada um…

Jovens pintores que prometem muito ou quase tudo...

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pintormel.jpg

JN, 07.01.2007


Se eu fosse herético, até poderia falar de "ménage a trois" na reserva da cripta: Nossa Senhora, João Paulo II (dito Papa) e Eduardo Melo (dito Cónego). Como sou, não falo. Cumprimento apenas o jovem pintor, que promete. A divinizar o profano e a profanar o divino, irá longe! O Senhor esteja com ele! E o Cónego Melo, também. De resto, em Braga, é quase a mesma coisa...

Por que não se põem os três de acordo e resolvem o problema em sintonia, de uma vez por todas?!...

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Caras, 595 (06.01.2007)

Sempre pertinente e demolidor...

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Alberto Pimenta à NS, nº52 (06.01.2007). Fotografia de Augusto Brázio.

A primeira grande revelação de 2007...

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Absolutamente extraordinário o que João Carlos Espada (ex-marxista-leninista-estalinista-maoísta e ex-furioso controleiro da UDP) revelava ontem no Expresso! Ele jantou uma vez com Martin Lipset, em… Washintgon. Não resisto a transcrever a passagem confessional da (hoje) beatíssima e liberalíssima criatura:

“Conheci Martin Lipset há cerca de dez anos, em Washintgon, num memorável jantar em que os meus amigos Marc e Jacqui Plattner reuniram os casais Martin e Sydney Lipset (à esquerda) e Kristol-Himmerfarb (à direita). Passei a frequentá-los em sucessivos jantares animados.”

Para se avaliar da importância desta revelação bastará acrescentar que Martin Lipset morreu no passado domingo, com 84 anos de idade, e que deixou "uma obra que está publicada em mais de vinte línguas". Grande Espada!

janeiro 06, 2007

O meu Código de Erotismo (9)...

INSINUAÇÃO

A insinuição provoca e desperta sempre muito mais intensamente o desejo erótico do que a evidência. Todas as evidências são, potencialmente, castradoras, a não ser que partam, e de muito longe, da insinuição e, depois, a confirmem e a prolonguem. A insinuição condimenta o pensamento desejante. Quem imagina para além do esboço… acrescenta-se. E à medida que se vai acrescentando… antecipa e recria a evidência, apondo-lhe a sua marca. Quem se projecta numa insinuação entranha-se nela e viaja por ela, até ao infinito de si mesmo. O desejo erótico é sempre, tendencialmente, masturbatório, embala-se a si mesmo…

Quem vê Caras nunca vê corações...

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Caras, 557 (15.Abril.2006)

"Foge, cão, que te fazem barão!"...

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Jornal de Notícias, 06.01.2006

Improviso para vigiar o teu sono...

Nesse sonho viajas por mim
e vais ainda mais longe
do que já te imaginaste
a realidade do teu desejo
tem agora dimensões que desconhecias
e nao há célula do teu corpo
que me vire as costas
como na fotografia
o teu dicionário íntimo soletra palavras
princesa puta escrava
e acrescenta-lhes todos os adjectivos
com que te fantasias
nao há terminologia agora que te termine
renasces sempre em todos os sonhos.

Ademar
06.01.2006

Uma prova mais de que o Direito não se recomenda a cientistas (nem a jornalistas)...

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Público, 06.01.2006

2

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Expresso, 06.01.2006

Um macho é um macho, é um macho, é um macho, é um macho!...

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Pedro Reis, "motard" emérito, ao 24horas (06.01.2007)

O menino que quis imitar Saddam...

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Este menino guatemalteco chamava-se Sérgio Pelico e tinha 10 anos. Ficou fascinado pelo vídeo da execução de Saddam e quis entrar no personagem: enforcou-se. Foi o primeiro de que tivemos conhecimento. Quantos mais crianças e adolescentes nao terão visto já no You Tube o famigerado vídeo e sentido vontade de experimentar também a sensação do enforcamento? Pandora anda por aí a brincar com os fantasmas que lhe oferecemos...

janeiro 05, 2007

Improviso para conjugar o verbo pertencer...

Os meus olhos acrescentam luminosidade ao teu corpo
e quando entro pelas frestas do pensamento que me abres
percebo que já somos um
em vez de dois
o verbo pertencer conjuga-se assim.

Ademar
05.01.2006

O meu Código de Erotismo (8)...

PALAVRAS

Não conheço afrodisíaco mais eficaz do que as palavras. São elas, muito mais do que o corpo, que conduzem ao desejo erótico. As palavras, associadas a uma voz calorosa que as domine e transporte, abrem todas as portas e todas as janelas da alma. Pobres daqueles que tropeçam nas palavras e que só têm o corpo para seduzir. Dura pouco a sedução que não se finca e se prolonga nas palavras. Dura o tempo breve de uma encenação e morre e arrefece quando começa a esbarrar nas palavras. Os homens, em geral, ainda são capazes de resistir à desilusão das palavras; as mulheres, não. Pelo menos, as mulheres que se confiam e acrescentam a elas…

Antologia poética (458)...

Improviso para segredar ao ouvido...

Há segredos
que eu não dispo para ninguém
senão para ti
que vives dentro deles
como numa espécie de concha da alma
seria inútil negar-te o que sabes
porque sempre o soubeste
mesmo antes de mim.

Ademar
08.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Antologia poética (457)...

Improviso sobre uma ária de J.S.Bach...

Que os meus olhos sempre despertos
só adormecessem por dentro dos teus
que as nossas mãos
não errassem as cordas da guitarra nem a partitura
que não houvesse mais corpo entre nós
para além do pensamento
e que até as palavras perdessem
a noção do tempo
que tudo
fosse simples delicado e perfeito
como nesta ária de Bach
uma nudez de saudades
um silêncio de lágrimas
a eternidade cantada assim
num sorriso sem data.

Ademar
08.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Gratidão...

Conheço muitas pessoas excelentes, mas poucas pessoas extraordinárias. Distingo-as de uma forma muito simples: as pessoas extraordinárias são aquelas que, aconteça o que acontecer, estão sempre ao nosso lado e nos dão sempre a mão (pode ser à distância e da forma mais discreta, mas nós sentimo-la). Que nos amparam, quando nos sentimos completamente desamparados. Sem aproveitarem a nossa fragilidade para nos cobrarem um passado de falhas. Sem nos exigirem a humilhação. Sem calcularem o que vão ganhar ou vão perder. Sem darem, sequer, por adquirida a nossa gratidão.
Há pessoas dessas. Eu tenho a sorte de conhecer, pelo menos, uma. Nunca serei capaz, por palavras, de significar o quanto lhe estou grato e o quanto lhe devo. A fronteira entre a amizade e o amor deve passar por aí, por essa disponibilidade quase ilimitada para dizer presente, quando todos estão ausentes.
São as pessoas extraordinárias que dão sentido à humanidade... É por elas que ainda me apetece teimar.

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (456)...

Improviso para explicar que a poesia deve ser outra coisa...

Depois da morte
a vida deve ter mais
do que intervalos
entre as ausências
perguntas-me se aguento
e eu respondo
que tentarei
não saberia sequer dizer-te
o que espero
ou mesmo se espero
este intervalo
já faz parte de mim
sou uma saudade do que fui
talvez a mesma saudade
que te leva a perguntar-me
se aguento
pudesse eu saber
o quê.

Ademar
08.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

A "marida"...

O meu cinismo (a idade não perdoa) já só consegue elencar duas motivações para um homem se dedicar, a tempo inteiro, à actividade política (nos partidos, naturalmente, que aspiram a salvar-nos): a ambição de poder ou de protagonismo social; a necessidade de ter um bom pretexto para estar longe, o mais possível, da mulher "legítima".
Este pensamento apanhou-me distraído quando, há pouco, me cruzei num café com a "esposa" de um dos políticos bracarenses mais conhecidos e influentes. Assustei-me. Com todo o respeito pelas verdadeiras profissionais do ramo, julguei, por instantes, que estava perante uma bem sucedida empresária da noite. A "madama" (assim como as acompanhantes) tinha tudo no sítio errado: a roupa, a maquilhagem, os implantes, os adereços, o cheiro, até os gestos e a voz. Só ao fim de alguns minutos de discreta observação é que me apercebi de que conhecia, há muitos anos, a criatura - e não era dos bares de alterne (que, por sinal, nunca frequentei). Era a... (não digo o nome, porque não sei se algum assessor do "esposo" terá a missão pouco patriótica de ler o que vou aqui escrevendo).
Imaginei-a em casa à espera do marido (aliás, um dos políticos mais corruptos deste país). E imaginei, simultaneamente, o marido a invocar mais um jantar ou uma reunião de trabalho fora de horas para ter um pretexto para chegar a casa o mais tarde possível. Há pesadelos domésticos que eu não desejo a ninguém, nem ao meu mais encarniçado inimigo...
As leitoras que me perdoem esta deriva tão pouco poética e feminista...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (455)...

Improviso para adormecer pássaros...

Com a simplicidade dos crentes
contaram-me hoje
que alguém
por amor
fingiu deixar de amar quem amava
só para que a gaiola se abrisse
e o pássaro aprisionado
finalmente pudesse voar
em direcção à gaiola que
por direito da paixão
julgava pertencer-lhe
estórias
que a literatura inventa.

Ademar
08.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

janeiro 04, 2007

Um Presidente que (ao contrário do que se diz) não é de pau...

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Cavaco Silva e Beatriz Costa, fotografados por Leonardo Negrão.
Grande Reportagem, 58 (Janeiro de 1996)

O meu Código de Erotismo (7)...

GEMIDOS

Alguém escreveu (terei sido eu?) que os homens e as mulheres se distinguem na intimidade erótica pelo uso das cordas vocais: enquanto elas gemem, eles grunhem e, por vezes, gritam. O gemido feminino tem o cunho intenso da ambiguidade: nunca se sabe muito bem se denota prazer ou sofrimento (ou uma síntese emoliente dos dois). O grunhido masculino exprime quase sempre atonia ou dissonância. A superioridade erótica está, incontestavelmente, do lado das mulheres. A sua ambiguidade é um dom, que elas gerem, frequentemente, com maestria. E não haja dúvidas de que têm razão: os homens, em geral, são uns toscos. E têm cera nos ouvidos…
Avance uma mulher que não me credite, pelo menos, a lucidez do testemunho…

Ao jeito de ladainha...

Há os que correm e os que vêem correr. Há os que saltam e os que vêem saltar. Há os que jogam e os que vêem jogar. Há os que matam e os que morrem.
Há os que cantam e os que ouvem. Há os que escrevem e os que lêem. Há os que sofrem e os que hão-de sofrer. Há os que matam e os que morrem.
Há os que ensinam e os que aprendem. Há os que partem e os que ficam. Há os que gritam e os que calam. Há os que matam e os que morrem.
Há os que se aproximam e os que se afastam. Há os que acreditam e os que descrêem. Há os que lutam e os que desistem. Há os que matam e os que morrem.
Há os que se mostram e os que se escondem. Há os que mandam e os que obedecem. Há os que procuram e os que fogem. Há os que matam e os que morrem.
Há os que acertam e os que falham. Há os que tentam e os que desistem. Há os que acarinham e os que magoam. Há os que matam e os que morrem.
Há os que amam e os que odeiam. Há os que exigem e os que consentem. Há os que vivem. De uma forma ou doutra. No palco ou em lugar nenhum. E há sempre os que morrem.

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (454)...

Improviso para antecipar o caminho inverso...

Ei-lo
o homem
exactamente à medida da tua paixão
medida de todas as paixões
o primeiro
que riu contigo
que disse talvez que eras única
que te serviu a vida
numa girândola de ilusões
ei-lo
uma vez mais
adolescendo contigo
inventando madrugadas
que jogam a tua ausência
um dia regressarás a ti
pelo caminho inverso.

Ademar
09.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Um problema de sinalização de portas...

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Público, 04.01.2006

O Gabriel Alves (em versão ainda mais rasca) da antipedagogia primária...

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É difícil imaginar um exercício de desassombração mais pateta e tacanho do que este, assinado por Desidério Murcho na edição de hoje do Público. A criatura que assina a prosa passa por "filósofo analítico" e académico. A universidade portuguesa, com "intelectuais" deste calibre, só pode mesmo ser a vergonha que é. Tenho dito, para não me irritar muito mais...
Cresce e aparece, ó Murchão!

O meu Código de Erotismo (6)...

FELICIDADES

Nunca Fernando Pessoa, publicista, foi tão recomendável. Será sempre uma evidência interior que primeiro estranha-se, depois entranha-se. Pobres daqueles que nunca entranham, porque sempre estranham. A vivência erótica não se compadece com figurinos: não há medidas, nem padrões para o prazer de cada um. E como há prazeres espantosos, que nenhuma narrativa seria capaz de imaginar!...
Conheço uma mulher que, a esta hora, está a sair de casa para ir ao encontro do seu Amo, do seu Dom. Sabe o que ele lhe fará e sabe que vai doer. Mas vai. Masoquista? Ela nega, brincando com o sentido oculto das palavras que dizem tudo e dizem nada. Fá-lo por “amor”? Nem imaginado. Então, perguntareis, por que vai? Simplesmente, porque escolheu ser feliz assim (os católicos perceberão). Há práticas de felicidade erótica que não cabem em nenhum manual, que não casam com a racionalidade circulante.
Regresso sempre a Shakespeare : de facto, há muito mais coisas no céu e na terra do que aquelas que podem ver os nossos olhos…

janeiro 03, 2007

Improviso sobre Touch Me...

Há pepinos que cheiram ainda às minhas mãos
quando ouves comigo Touch Me
The Doors
lembras-te?
aquela batida que quase se confundia com o coração
e que só parava na espira seguinte do vinil
digo na vida seguinte
e as estrelas que não calavam a chuva
naquela letra que nunca foi de poema
come on come on come on
now touch me baby
e a promessa de todos os céus por azular
e mesmo o sopro que não faltava
não digo o instrumento
porque nunca percebi de metais.

Ademar
03.01.2006

Rock agora à moda do Porto...

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Notícias Magazine, 299 (03.12.1995)

O meu Código de Erotismo (5)...

FAZER AMOR

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Notícias Magazine, 359 (11 de Abril de 1999)

Eu sei que a linguagem (desculpai o "clichet"!) é uma fonte de equívocos, mas o amor é um “negócio” das almas - dispensa os corpos e, sobretudo, a atracção erótica. O amor não se faz, já nasce feito. É por não entenderem isto que tantos amantes eternos morrem prematuramente e se deixam sepultar em vida…

O meu Código de Erotismo (4)...

FANTASIAS

O pensamento erótico não obedece a nenhuma linha de pronto-a-vestir ou pronto-a-despir. O pensamento das pessoas é quase sempre insondável, vive intimamente com elas, morre com elas. E o corpo raramente obedece ao pensamento. Felizes daqueles que, realizando-os, ficam sempre a um passo de satisfazer os seus desejos. O pensamento erótico alimenta-se do vazio do corpo. Digo: da sua insatisfação. As fantasias são o território pessoal e intransmissível onde o pensamento se encontra com o corpo e o prolonga.
Todos os amantes deveriam partilhar as suas fantasias. O silêncio do pensamento erótico corrói e destrói todos os relacionamentos, projectando os amantes para fora deles. A intimidade dos corpos exige a intimidade do pensamento que os ilumina. Quando falha o diálogo das fantasias, falha tudo. Não há transporte erótico que resista ao segredo da ocultação. Todas as sombras geram desconfiança e convidam à deserção dos corpos.
O silêncio do pensamento procurará sempre a voz que o redima…

A maldição de Tomás Taveira...

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24horas, 03.01.2006

janeiro 02, 2007

Palavras escritas apressadamente num guardanapo esquecido...

Quase tudo nos separa, menos nós. Se não fosse os antípodas, seríamos o casal perfeito.

A minha antiga e irreparável inveja dos... críticos...

Os críticos têm uma imensa vantagem sobre os outros mortais: sabem como se faz. Confesso-me completamente inabilitado para crítico: não sei como se faz. E acho mesmo que nunca aprenderei. A inspiração e a sabedoria são bens que reclamam auréola…

Improviso a benefício de inventário...

Já retirei as cortinas
as persianas
e as janelas
o universo poderá agora
cavalgar livremente por ti
nesse único horizonte
que te impões
ah
deixei ficar apenas as grades
para que jamais te esqueças
de onde vieste.

Ademar
02.01.2007

O meu Código de Erotismo (3)...

CHARLOTTE RAMPLING

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Nunca fui de me apaixonar por actrizes ou modelos. Os papéis e as narrativas interessaram-me sempre muito mais do que a evidência momentânea dos corpos iluminados. Se algum dia me tivesse apaixonado por uma actriz teria sido por Charlotte Rampling, a espantosa “submissa” de “O Porteiro da Noite” (1974), de Liliana Cavani.
Era (e acho que ainda continua a ser, mau grado os sessenta e tal anos que já carrega) uma mulher belíssima. A meus olhos, naturalmente. O pensamento faz e refaz a beleza e o fascínio das pessoas…
Charlotte orgulha-se muito da mulher que recriou em “O Porteiro da Noite”, já tendo dito que considera ter sido essa a interpretação mais conseguida e intensa de toda a sua carreira. Não vi todos os filmes em que ela entrou, mas faço fé e assino por baixo. Charlotte, com os seus olhos verdes e o corpo felino que sempre vagabundeou pelas telas, é a mais inesperada e imprevisível submissa da história do cinema.
Um poderoso e quase irrecusável convite à dominação…

Como funcionaria o erotismo com sal e azar?...

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Sabe-se que o poder, a todos os níveis, é afrodisíaco. Quem tem mais poder… tem também mais capacidade de atracção erótica. A história conta-nos e a psicologia explica-nos. Foi sempre assim - assim sempre será. Com uma diferença. Dantes, eram os machos que, quase a título exclusivo, detinham as cordas do poder. Hoje, o “afrodisíaco” já respeita quotas. Salazar, sempre me pareceu, tinha voz de contra-tenor…

O meu Código de Erotismo (2)...

MONEY-SLAVE

Confesso que não fui eu que inventei o anúncio que segue.

Procuro um homem com profunda consciência do poder feminino.
Educado, inteligente, imaginativo, maduro, generoso.
Que saiba o que quer.. e que não tenha dúvidas.
Que seja autónomo e participante.
Que ambicione mais do que tudo saber-me e fazer-me feliz e confortável. Com todos os meios. Money-slave dentro desse contexto.
Diligente e disciplinado..
Honesto acima de tudo. Comigo e com ele.

Há mulheres que adoram escravizar os homens e que aspiram, ademais, a que eles ainda paguem por isso. Como eu, sabendo o que sei, as entendo!
As mulheres, finalmente, começam a descobrir os degraus que conduzem ao altar de si próprias...


O meu Código de Erotismo (1)...

BAUNILHA

"Não tenho dúvida: sexo é S&M, o resto é baunilha".
Esta proclamação (em código) podereis lê-la aqui, sob o título "O catecismo da vara na bundinha".
O sexo-baunilha é o sexo... convencional. Sim, para grande escândalo do Papa, dos Cardeais, dos Bispos e de toda a padralhada católica (exceptuando o exército da Opus Dei, que percebe destas subtilezas), há um "sexo convencional" e um "sexo não-convencional"!... Claro que eles não entendem a diferença, porque o sexo será sempre para os vaticanistas uma pulsão demoníaca, um "não-dito", um "interdito"...
Conheci a expressão há pouco tempo, quando me comecei a interessar (o pensamento não conhece passaportes, nem aeroportos) pelas práticas eróticas... alternativas. Digo "eróticas" e não "sexuais" porque a fronteira entre o erótico e o sexual é uma daquelas (fronteiras) em que cabe a vida toda e, portanto, a poesia...
O sexo-baunilha, escrevo agora para os leigos, é a rotina da intimidade erótica, centrada no pénis e no clitóris (quando os amantes já evoluíram do paleolítico inferior) ou em dois pénis e dois clitóris (conforme a orientação sexual dos praticantes). É uma equação a muito poucas incógnitas, apesar da miríade de posições que os livros da especialidade gostam de ilustrar, para imenso espanto dos iniciados...
Confesso que, de início, tive dificuldade em perceber, na expressão cada vez mais consagrada, o elemento... baunilha. Só o associava às bolachas que devorava na adolescência. Gostava, mas não sabia porquê. E gostaria muito mais de outro tipo de bolachas se me dessem a provar...
Percebi então que o sexo-baunilha era isso: o sabor erótico da adolescência. Um sabor... primário, como costuma dizer uma amiga minha, quando fala do "companheiro": o meu "gajo" é muito "primário". Entenda-se: ele contenta-se com meter a piça na cona dela. Sei que escandalizo os leitores mais dados à literatura, mas, na linguagem informal dos amantes, ninguém usa "pénis" e "vagina", vocábulos que o erotismo corrente, declinado em privado aos ouvidos do parceiro ou da parceira, desconhece...
A baunilha é uma planta muito respeitável. Se lerdes, por exemplo, o verbete que o Houaiss lhe dedica, percebereis porquê. Dá para quase tudo e para quase todos os sentidos. Mas é... instrumental. O erotismo reclama muito mais do que piças e conas complacentes...

"Putativa é a tua mãe!"...

Hesitei durante algumas horas se deveria ou não "autorizar" a publicação de um comentário (anónimo) que recebi nestes termos: "putativa é a tua mãe!". O "post" que indispôs o leitor, intitulado "Os "embriões promissores" de Policarpo...", rezava assim:

"Hoje comecei mal o dia e o ano. Liguei o televisor e apanhei logo com Policarpo, o putativo patriarca de todos os católicos portugueses, perorando sobre “embriões promissores”. O senhor fala de ouvido. De falsas promessas está o inferno cheio…
Só ele, por parca ou nula experiência da via terrena, é que ainda não descobriu..."

Decidi publicar o comentário porque tenho a impressão de que o prezado leitor não estudou latim e nunca, como eu, declinou na adolescência o verbo puto, putas, putare, putavi, putatum...pensar.
Putativo é aquele se pensa...
As putas do leitor fazem parte de outra história etimológica...

O meu Código do Erotismo (introdução)...

Uma amiga (obrigado, uma vez mais, Ana!) aproveitou o embalo nataleiro para me oferecer esta obra.

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Dedilhei-a apenas, como quem dedilha uma harpa invisível que toca apenas dentro de nós. Cheirei o índice e não passei dele, porque não gosto de repetir exercícios alheios e cada um tem o seu código. Muitas vezes tenho escrito que é o erotismo que me distancia, radicalmente, de todas as igrejas e de todas as seitas, digo, de todos os rebanhos a caminho do matadouro. Sempre me recusarei a morrer antes de tempo…
A Ana, que me conhece o suficiente, sabe disso e, consciente ou inconscientemente, lançou-me um desafio: escreve o teu!
Arrumei na estante das obras que talvez ainda um dia leia “100 mots pour jouir de l’érotisme”, de Jean-Clet Martin, e decidi passar a escrever e publicar aqui o meu Código do Erotismo.
Camões morreu por muito menos. Espero sobreviver…

janeiro 01, 2007

Antologia poética (453)...

Improviso para aliviar ausências...

Nunca aprendi a dizer
adeus
destituí-me para renúncias
herdei talvez
de minha mãe
esta incapacidade
a morte
que se sentava sempre à mesa
e entretinha as ausências
e eu que comia depressa
para não ouvir
a única janela era interior
e abria para a cozinha
donde vinham todos os cheiros
e todas as vozes
que transgrediam o silêncio
a infância
naquele tempo
em que ninguém se despedia
e todos voltavam
a memória das pessoas
parecia fazer parte delas
não havia palavras
para ensinar o esquecimento.

Ademar
10.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Drácula, finalmente, entre nós!...

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A partir de hoje, passa a fazer parte da família (europeia). Há quanto tempo te esperávamos, Conde!

O pagador intemporal de todas as promessas...

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José Sócrates à Visão (nº261, de 19 a 25 de Março de 1998).

Os "embriões promissores" de Policarpo...

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Hoje comecei mal o dia e o ano. Liguei o televisor e apanhei logo com Policarpo, o putativo patriarca de todos os católicos portugueses, perorando sobre “embriões promissores”. O senhor fala de ouvido. De falsas promessas está o inferno cheio…
Só ele, por parca ou nula experiência da via terrena, é que ainda não descobriu...

Improviso para reiniciar a história...

Amor é negócio de almas
poupai-o à circunstância dos corpos.

Ademar
01.01.2007

As pessoas correntes precisam apenas de um pretexto qualquer para festejar o que quer que seja...

Sobrevivi e não dei por nada, mas parece que o novo ano nasceu de cesariana, entre urgências bebidas a champanhe e palavras de nenhuma circunstância. Claro: os brasileiros entrevistados pelos repórteres de turno continuaram a dizer que é "lindo" e "maravilhoso"; os portugueses em bicos de pés reclamaram, apenas, paz e felicidade, por esta ordem ou pela contrária; na Madeira, rebentaram não sei quantas toneladas de preservativos e dois turistas italianos gostaram muito; em Viseu, alguém andou aos tiros e não matou ninguém; nas estradas, honrando a tradição e o pundonor da GNR, morreram mais uns tantos; no Porto e em Gaia, como é costume, o fogo concorreu; o patriarca, até ele, sonhou com embriões promissores e, consta, não cobiçou a vizinha de Scolari; no casino do Estoril, até as viúvas eternas dançaram...
Digo: aqui e em toda a parte, as pessoas correntes precisam apenas de um pretexto qualquer para festejar o que quer que seja...