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dezembro 31, 2006

Improviso quase para desenfeitiçar...

Nada é mais escuro do que a noite
que me ofereces e porém mais claro
tenho antípodas no pensamento
que te viaja
entre todos os solstícios.

Ademar
31.12.2006

Improviso para não desistir do círculo...

Há muitos anos que acredito que
as mentalidades hão-de mudar
acho mesmo que nasci a acreditar que
as mentalidades hão-de mudar
tenho a certeza de que morrerei a acreditar que
as mentalidades hão-de mudar
mudarei?

Ademar
31.12.2006

Antologia poética (452)...

Improviso sobre Diabaté...

Vivemos em corpos trocados
agora fechamos os olhos para não vermos
há uma fronteira de invisualidade
que ao mesmo tempo nos separa e aproxima
cegámos o desejo
e agora tacteamo-nos.

Ademar
13.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (451)...

Improviso para violino, guitarra e medo...

Seria talvez
o último encore
ou o primeiro de todos
mas tu não quiseste arriscá-lo
trocaste o violino pelo medo
e falhaste uma vez mais a partitura.

Ademar
14.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (450)...

Improviso para dizer o cais...

Empresto-te a mão
apenas uma delas
a mão de que não preciso
para escrever que não há rostos perfeitos
destinos escritos a fogo
na intensidade dos olhares
uma voz uma pronúncia
e o sangue que corre
por fora de nós
entrando nessa corrente universal
que aproxima e afasta os corpos
que se aguardam no cais
agora já posso desembarcar nos teus silêncios
tocar a imagem
segredar-te ao ouvido os versos
que tu seguramente completarás
como se sempre tivesses adivinhado
as saudades que esperavam
os lábios entreabertos
o sorriso suspenso
e o mais que não vejo
talvez essa íntima fracção
de uma vontade de regresso
que esvoaça imperceptivelmente dos olhos.

Ademar
15.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (449)...

Improviso para explicar tudo ao contrário...

A porta abre-se para o mar
e é do mar que tu vens
como se os teus braços fossem ondas
e tudo afinal fizesse sentido
nessa ausência ilíquida de formas
um corpo suspenso sobre um horizonte
de renúncias
a âncora subindo de ti
em direcção às nuvens que te esperam
e a bússola talvez nos teus olhos
parada exactamente nesse ponto
em que tudo começa.

Ademar
15.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

O feliz encontro do ano velho com o ano novo...

encontrot.jpg

J, 31.12.2006

Garganta Funda...

gargantaf.jpg

Sol, 30.12.2006

dezembro 30, 2006

Antologia poética (448)...

Improviso em forma de haiku para me oferecer...

Emprestaria o corpo para realejo
se alguma rua me quisesse
já não tenho serventia para afinador.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (447)

Improviso sobre Yamore...

Vagueias o amor em pedaços
repartes-te assim
ouves quando não vês
se perdesses os olhos
verias com as mãos
se as mãos não vissem
talvez cheirassem
e
ainda que mutilada de todos os sentidos
continuarias a pensar-me
o amor tem silêncios
que só tu ouvirás.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

A ambiguidade como orientação predominante...

ambiguo.jpg

Única, 30.12.2006

estibordos...

não pinto os olhos porque
podes querer beijá-Los
desocupo-me porque
podes querer os meus dias
recuo em mim infinitamente
porque podes querer
criar-me
encontrar-me um princípio

Ana Saraiva

Apelo talvez humanitário...

por cada assassino assassinado
por cada indiferente indignado
sobram todos os inocentes
calados
legião de honra do sofrimento
avancem, digam os vossos nomes
a história tem pressa de vos rezar

Ana Saraiva

Aviso aos leitores...

Recebi hoje, em comentário, a seguinte mensagem (supostamente provinda de joseefereira@hotmail.com) :

Infelizmente o nosso portal de blogs fai fechar temporariamente. Não sei durante quanto tempo mas espero que rapidamente a situação volte a normalizar.
Em nome da weblog, pedimos as maiores desculpas.

Espero que não passe de uma brincadeira.
Se não for, desde já aviso os leitores que transferirei o abnoxio para outra plataforma.
Como utilizador-pagador, estou farto!
Se a transferência se efectivar, regressarei ao sapo, aqui.
Passai por lá!

Os grandes abalos da história...

abalos.jpg

24horas, 30.12.2006

Regresso...

dispo-me da noite
ficas no chão
na roupa que jaz quente
em São Vicente é assim, assim, assim
ouço as tuas palavras na minha boca
os olhos ajeitam-se à tua doçura
embarco em tudo o que não se pode dizer
sim, é assim
adormeço num corpo novo
parece-me novo
cheiro-o novo
assim

Ana Saraiva

Genocidas de todo o mundo, uni-vos!...

sadnaforca.jpg

Imagem retirada do video da execução de Saddam. Não há-de tardar muito que o possamos ver, na íntegra, no You Tube, talvez comentado por George W. Bush. Descemos mais um degrau...

dezembro 29, 2006

Improviso para desdizer...

Não invento luzes no teu corpo
nasci desapalavrado para evidências.

Ademar
29.12.2006

Improviso a brincar com palavras e os seus sentidos...

Toda a vida
todavia
toda a vida.

Ademar
29.12.2006

Improviso confidencial...

Confidencias-me diariamente
o medo e o orgulho do sofrimento
lentamente
desapossas-te do corpo que te serviu
e agora serve apenas
espantosa viagem essa
do alto-mar para o cais dos espinhos
o universo em ti todo a nado
metáfora de uma paixão talvez sem falhas.

Ademar
29.12.2006

Fados...

resgatados, todos
a tempo de serem velados
que a morte é um corpo inerte
e a vida uma garganta rouca de dor
havia um marinheiro com o nome de António.

Ana Saraiva

Susana Baca...

susanabaca.jpg

Já falei aqui, em tempos, do meu enamoramento pela cantora peruana Susana Baca. Chegou-me hoje pela posta restante (obrigado, Ana!) o último cd dela, Travesias (ela já não gravava desde 2001). Não tenho palavras para dizer do fascínio, para contar do doce feitiço. Ouvi, se puderdes...

Referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez - um testemunho que todos deveriam ler e meditar...

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"As mulheres que pedem o aborto fazem-no sempre a chorar. E, em geral, a razão que apresentam não é egoísta, pelo contrário. Dizem: "Não sou capaz de criar um filho em boas condições".

Recomendo a todos a leitura desta entrevista que a Visão publica na edição desta semana. Se todos os eleitores portugueses meditassem sem preconceitos religiosos o depoimento de Elisabeth Aubény, médica ginecologista e obstretra francesa, estou certo de que o SIM, no próximo referendo, ganharia por unanimidade.
Permiti que reformule a pergunta a que teremos de responder: concorda que uma mulher que decida abortar até às dez semanas deve ser levada a tribunal e, eventualmente, condenada a uma pena de prisão?
Se houver um único português que responda SIM a esta pergunta - considerá-lo-ei, simplesmente, um canalha!
Alguém avança e dá a cara?...

Quanto irá ganhar? O patriótico desporto da inveja lusitana...

figolandia.jpg

A Bola, 29.12.2006

O pagador de promessas...

fatimapc.jpg

24horas, 29.12.2006

Improviso oficinal...

Desaparafuso-me do pensamento em emoções
as peças já não me encaixam.

Ademar
29.12.2006

Em-baraços...

já se foram todos
só tu ficaste parada em mim
até os que ficam depois dos últimos
já partiram
que fazes aí?
não vês que a música se calou?
todos já regressaram
todos têm morada
que fazes ainda aí?
a noite virá e a poeira não serve de manto
terás fome que nenhuma sobra matará
porque me olhas?
não sou água nem pão nem abrigo
já esvaziei todas as minhas veias de milagres
e saio dos sonhos alheios pelo meu próprio pé
fica. afinal, que importa o lugar?

Ana Saraiva

dezembro 28, 2006

Capas para coleccionar (11)...

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Notícias Magazine, 363 (9.Maio.1999)

Diário em forma de silêncio (83)...

Os homens, em geral, desconhecem essa evidência de séculos: as mulheres trocam quase tudo (até a sua própria liberdade) por segurança. Não digo, necessariamente, segurança familiar, económica ou de estatuto social; digo segurança, simplesmente. Terra firme e previsível, cais certo para todos os regressos. A paixão dura pouco, o amor tem dias, só a confiança é eterna. As mulheres aspiram a entregar-se a quem as segure, prenda e amarre. A metáfora é muito mais real dos que as realidades de ficção que costumam passar por verdades de género.

C.A.

Improviso para tatuar futuros...

Ofereces-me as costas
para que eu escreva nelas
frágil território para mãos
tão carentes de narrativa
deixa-me reiventar o dicionário e a gramática
soletra-me depois.

Ademar
28.12.2006

Uma das razões para o meu apreço por Rui Rio...

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A Câmara do Porto já teve como presidentes (convém, de vez em quando, recordá-lo) Fernando Gomes e Nuno Cardoso, duas personagens absolutamente execráveis que o Partido Sociaista converteu em autarcas. Como Mesquita Machado, em Braga, como Narciso Miranda, em Matosinhos, como Mário Almeida, em Vila do Conde, e tantos mais. O nojo cívico que eu sinto por toda esta gente vem de longe, dos tempos em que fui jornalista e investiguei, para o Expresso, alguns cruzamentos de interesses entre o futebol, a construção civil e certas câmaras municipais. Nunca mais consegui levar esta gente a sério e lamento ter de viver no mesmo país. Alguns já foram corridos a pontapé pelo mesmo rebanho que os sacralizara; outros, ainda permanecem no posto (há rebanhos mais lentos a perceber o óbvio).
Nuno Cardoso será, talvez, o elo mais fraco deste grupo de autarcas e ex-autarcas socialistas, porque é, manifestamente, o menos esperto (ou espertalhão). Sempre que abre a boca coloca mais um tijolo na sua própria câmara mortuária, como se poderá verificar consultando a edição de hoje do Público. O homem convenceu-se de que é impune. Desconfio que não terá uma reforma política muito tranquila...
Pobre país, confiado a gente tão desprezível...
Rui Rio, apesar de todos os disparates que eu lhe possa apontar, é um príncipe no meio deste bordel. Os eleitores portuenses perceberam-no a tempo. Tiro-lhes o chapéu!

Improviso breve para pedra tumular...

O meu universo foi estreito
só teve dias de 24 horas
e morri na navalha de todos os deuses.

Ademar
28.12.2006

Lisboa sempre em cuecas...

cuecas.jpg

24horas, 28.12.2006

dezembro 27, 2006

Quem veste assim não é Gago...

gagoecompanhia.jpg

Esta fotografia, da autoria de Luís Forra (Lusa), aparece estampada na página 6 da edição de hoje do JN. A legenda não identifica os patuscos que ladeiam Mariano Gago. Pelo vestuário, parecem membros de uma confraria qualquer em traje de excursão etnográfica. O problema é que a legenda fala de "reitores das universidades portuguesas", sugerindo que estes patuscos possam ser académicos e talvez mesmo, (Deus nos acuda!), reitores. É caso para dizer que quem veste assim não é Gago...
Ao pé dos patuscos da foto, até o Ministro do Ensino Superior consegue ter um ar respeitável...
A universidade portuguesa, vestida assim, só pode mesmo ser confundida com uma confraria...

Piergiorgio Welby: leitura recomendada...

Excelentes e indispensáveis os textos que o Luís Mourão * resolveu dedicar ao caso Welby, que podereis ler aqui. Não resisto, porém, a salivar-vos a leitura, transcrevendo de imediato um deles.

Piergiorgio Welby # 5: não sou eu que estou contra o exercício da vossa liberdade, mas vós que estais contra o exercício da minha liberdade

A asserção é conhecida: não penso como você, mas morrerei pelo direito a você poder pensar diferente de mim.
Porque é que as autoridades eclesiásticas são incapazes desta afirmação, por exemplo relativamente à eutanásia ou ao aborto? Porque é que anteriormente o foram também relativamente ao divórcio?
Por mais que procure outra resposta, apenas encontro esta: é-lhes praticamente impossível reconhecer que não têm o direito de legislar sobre o todo da sociedade. Seria admitir a posição relativa das suas crenças, quando elas parecem enraizar-se na fé de um absoluto. E sobretudo, seria consumar uma efectiva separação da esfera do religioso do todo da sociedade civil, remetê-lo ao privado de um clube. A Lei do clube tem de ser a Lei da sociedade porque ontologicamente, segundo a crença do clube, o clube é primeiro por relação à sociedade. É precisa alguma desconstrução, e uma efectiva distância face à ilusão de alguns poderes demasiado humanos, para estar na religião e continuar civilmente democrático.
É legítimo esperar que as autoridades eclesiásticas mudem? Para pessoas dentro do clube, sim. A minha solidariedade para com elas. Mas para pessoas fora do clube, não é expectável nem é sensato esperar que mudem. Nunca mudaram por iniciativa própria, sempre foram obrigadas a mudar. Porque haveria agora de ser diferente? Esta luta é, mais uma vez, uma luta contra a imposição de regras religiosas ao todo da sociedade. Uma luta em que muitos crentes participam, seja a partir de um outro entendimento da religião, seja a partir de um entendimento do que é a liberdade de consciência. Mas uma luta, claramente, pelo reconhecimento da liberdade individual perante qualquer corpo doutrinário acerca do sentido último da existência. Respeito quem me pretende catequizar: com a máxima gentileza, digo que não estou interessado, e cada um segue o seu caminho. Mas resisto fortemente a quem quer pôr a polícia atrás de mim para me obrigar a viver de acordo com os princípios da sua catequese.

* Declaração de interesses: o Luís Mourão é meu cunhado.

Improviso sobre uma imagem...

contorcionista.jpg

Donde sai de ti
o pensamento que finge não ver?
onde começam e acabam os teus braços
e as tuas pernas
e onde se cruzam?
há um sinal no horizonte do corpo
que quase te desvenda
um enigma em forma de vela
uma insinuação de género
uma sombra de antiquíssimo pudor.

Ademar
27.12.2006

Improviso com partitura...

A tua voz vem de muito mais longe
para trás ficam
os limites que te imponho
quando ainda cantavas livremente
e não obedecias a partituras
entras-me agora por todos os ouvidos
e serpenteias-me os braços
em direcção ao peito
o único alvo que não erras.

Ademar
27.12.2006

Será esta a famosa vizinha?!...

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Pormenor do anúncio da CGD inserto hoje na edição do Público. Quatro homens e uma mulher. Será esta a famosa vizinha de que Scolari é fã?...

Chausson...

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Não é um compositor de "top". Viveu apenas 44 anos (entre 1855 e 1899) e não deixou obra abundante, em quantidade. Mas é um autor que me toca intensamente. A Chanson perpétuelle, o Poème de l'amour et de la mer e, sobretudo, o Concerto em ré maior, Op.37, para violino, piano e quarteto de cordas... são obras que me reconciliam sempre com o melhor da vida. Como eu, também Ernest Chausson começou por estudar direito e só chegou à música e à composição muito tarde. Foi aluno de Massenet e de César Frank e, em pouco tempo, suplantou os mestres. Se pudesse, partilharia agora convosco o 2º andamento (Sicilienne) do Concerto em ré maior, que estou, uma vez mais, a ouvir. Raio de feitiço...

Que ninguém desespere: para o ano haverá mais!...

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19 mortes, pelo menos, nas estradas; famílias cada vez mais endividadas (vem tudo na primeira página da edição de hoje do JN). Graças a Deus, para o ano haverá mais!
Festas felizes!

dezembro 26, 2006

Improviso para voar sobre o atlântico...

Não há mãos que triunfem sobre as palavras
nem as mãos que te acordassem dessa tela
onde quase repousas
não há mãos nem chicotes nem algemas
o teu corpo pede agora viagens imateriais
exige o cárcere sem grades
suplica evidências que neguem a superfície do espelho
já quase obedeces apenas a ti própria
um pouco mais de submissão e
poderás conceder-te finalmente a liberdade
de voares nas minhas asas.

Ademar
26.12.2006

"Os auspícios são... os melhores possíveis"...

E o insigne professor de direito, Fausto de Quadros, disse em directo, no Jornal das 9 da SicNotícias: "os auspícios são os melhores possíveis".
Quem duvidará, senhor professor doutor (por extenso e atacado)?...
Ah! alguns minutos antes, ele falara dos jovens que chegam tão mal preparados às universidades...

Tirocínios (ou treinos de fogo)...

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Factos, 4 (15 a 21 de Abril de 1998)

Antologia poética (446)...

Improviso para contar que regressei do Mali...

No deserto
o mar deve dizer-se
como tu o dizes
e eu que nada entendo
do que dizes
embora perceba tudo
até o mar
esse mar eternamente imutável
na voz das mulheres
que desertam contigo.

Ademar
16.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (445)...

Improviso em forma de haiku para me viajar subúrbio...

Já me circum-naveguei tantas vezes
que perdi a noção do centro histórico de mim
agora viajo-me subúrbio.

Ademar
18.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Importa-se de repetir?... (20)

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Expresso-Revista, 1336 (6.Junho.1998)

Um "pretendente" excessivamente apalhaçado para gente muito macambúzia...

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Fonte: Expresso-Revista, 1325 (21.Março.1998)

Publicidade "inteligente" para gente muito estúpida...

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Fonte: Pública, 124 (4.Outubro.1998)

Por favor, transmiti a execução de Saddam em directo e, se possível, em horário nobre, para as crianças verem e todos nos envergonharmos..

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A confirmação pelo Supremo Tribunal iraquiano da sentença de morte de Saddam é uma notícia muito pouco nataleira e que me deixa quase em estado de fúria civilizacional. No Iraque, salta à vista, estão todos muito bem uns para os outros. Digo: os assassinos em nome de maomé (em qualquer uma das suas versões) e os assassinos em nome de uma lei e um poder de circunstância...
E pensar que o Iraque antigo foi, antes de todos os monoteísmos, um dos berços da civilização que partilhamos...

Vital Moreira e a exigência, cada vez mais premente, da laicidade do Estado...

Assinaria por baixo (como quase sempre) o artigo de Vital Moreira na edição de hoje do Público, intitulado "O Natal profano de todos nós". Na impossibilidade (que a edição electrónica do Público não consente) de remeter o leitor para o texto integral, transcrevo, com a devida vénia, o penúltimo parágrafo do artigo.

"As sociedades ocidentais proporcionaram ao pluralismo e à tolerância religiosa um formidável instrumento: a separação entre o Estado e as religiões. Quanto mais plurais são as sociedades sob o ponto de vista religioso, mais essencial se torna a laicidade do Estado. A sociedade pode ser religiosa; o Estado, não. Para além do reconhecimento da liberdade religiosa e do respeito pelas convicções dos seus cidadãos, a melhor contribuição que o Estado pode dar à paz religiosa e à tolerância inter-religiosa está uma estrita posição de neutralidade religiosa e um equânime tratamento de todas. O Estado não contribui para a paz religiosa quando confere tratamento preferencial a uma religião, ou quando os serviços públicos tomam posição em matéria religiosa ou promovem cerimónias religiosas."

Nem mais, Vital!

Improviso circular...

No princípio
nunca estão todos
só no fim
nas vésperas de ninguém.

Ademar
25.12.2006

dezembro 25, 2006

Amaresias...

há mais gente no fundo do mar
sem notícias da atlântida
temo já não acreditar
nos meus braços
no meu fôlego
a única embarcação segura
é o trenó do pai-natal
é ser branco
como os ricos
e saber nadar
como os abutres
é melhor ficar
até nos conseguirmos imaginar
ou tremer como a terra
ou surgir como o mar

Ana Saraiva

Instante eólico...

corre aquele vento anunciador
não percebo nada do que diz
mas sei que vou abrir a janela

Ana Saraiva

Mantas...

sentei-me com o al berto nos joelhos
é uma vantagem chegar tarde às coisas
espantar-se
retro
activamente
as pernas inclinam-se
o gozo é certo
amanhã, não

Ana Saraiva

Camaleonices futebolísticas...

camaleoes.jpg

Fernando Santos, quando vestia de azul.
Fonte: Factos, 20 (5 a 11 de Agosto de 1998)

A "ciência" anda sempre a redescobrir evidências com milhões de anos...

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Veja, 22 de Março de 1995

Antípodas civilizacionais no feminino?...

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Gali Gold, israelita, e Iumna Huwari, palestina.

Importa-se de repetir?... (19)

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Visão, 99 (9 a 15 de Fevereiro de 1995)

Improviso em forma de resposta...

O desejo que te entranha o pensamento
é território demasiado frágil
para frequentar em bicos de pés
não sei dançar sobre pântanos.

Ademar
25.12.2006

Droga, diz ele!...

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Quando quero embriagar-me, ouço isto. Raio de droga!...

Improviso com endereço para lembrar a Andaluzia...

Volta da Andaluzia
para o frio de cá
vem por Córdoba
depois de Granada
e traze-me nas mãos
o clamor do flamenco
e os gemidos na tua voz
não precisamos de mais
para vadiar memórias
volta da Andaluzia por favor
e transporta-me de novo a Sevilha
antes que seja demasiado tarde
para folhearmos calendários.

Ademar
25.12.2006

Um piropo muito pouco nataleiro...

Todos os meus dias são dias felizes quando apareces... As palavras que me faltam nascem sempre dentro dos teus olhos...

Por ele, contra todos os rebanhos...

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Devo provavelmente a este homem, que li furiosamente na juventude, o nojo que continuo a sentir pelo cristianismo (e, muito especialmente, pelo catolicismo em que fui "educado"). Higiene moral...
Ah! o homem é (para quem o não reconheça na foto)... Friedrich Nietzsche. Humano, demasiado humano...

Comentário de um leitor...

De vez em quando, tenho vontade de destacar os comentários dos leitores. Como é natal, apetece-me destacar o seguinte.

"O Cardeal Patriarca da Igreja Católica tem direito de antena na noite de Natal porque Portugal é um país maioritariamente Cristão. E o Natal é, na nossa tradição, o nascimento de Jesus.
Pedir que todas as religiões e não religiões (como a sua e a minha, pois também sou ateu) falem em horário nobre é o mesmo que pedir que as televisões portuguesas emitam em português, em chinês, em crioulo, em ucraniano, em russo... ou seja, em todas as línguas minoritárias que se falam em Portugal.
Se achar os imigrantes (ou turistas) não têm direito a ter a sua língua representada na televisão, acrescento o mirandês, que sempre é de portugueses.
Tudo isto para dizer que o canal é um, não há tempo e não é humana nem tecnicamente possível agradar a todos.
E também sou a favor da despenalização do aborto. Mas a ideia de vivermos em democracia é ouvirmos opiniões contrárias e não nos enervarmos tanto."

Não comento o comentário para não ser (ou parecer) deselegante...

Eu, coitadinho, me confesso...

Os católicos, em geral, sofrem de um pecado original (para além do outro): a cruz que carregam às costas desde o baptismo. Talvez, por isso, não gostem de se ver ao espelho. Não suportam (e como eu os entendo!) a sua própria imagem de sofrimento vocacional. Daí que prefiram a despersonalização do rebanho, no seio do qual se sintam menos sós e possam partilhar com outros desgraçados a cruz que carregam. Os católicos têm pavor da solidão. Basta ouvi-los no natal para o perceber. Coitadinhas das pessoas que vivem sós... Coitadinhas das pessoas que “consoam” sozinhas... Sinto-me sempre no natal um... coitadinho...
Boas festas!

dezembro 24, 2006

A palhaçada e o nojo do costume...

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Eu sei que posso mudar de canal e até desligar o televisor. Mas trata-se de um canal público, mantido por uma empresa que é sustentada pelo Estado, ou seja, com os meus impostos. A que título, pergunto, é que, todos os anos, nesta noite, um representante da igreja dita católica dispõe de dez ou quinze minutos para arengar, livremente, às massas, tentar converter os infiéis e, de passagem, (como foi hoje o caso) condenar a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, que vai a referendo brevemente?... A RTP irá também dar tempo de antena (pergunta retórica) aos representantes das demais confissões religiosas e aos cidadãos, como eu, que são ateus e não professam qualquer religião?...
Há tradições salazarentas que continuam, impunemente, a assombrar o país. Esta é uma delas. Até quando?...
A bebedeira do natal não pode justificar tudo.

Instantes de um funeral (laico) que honram a espécie humana... *

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Mina Welby, a viúva de Piergiorgio.

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Duas freiras saúdam a mãe de Piergiogio.

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Fotografias retiradas da edição de hoje de Corriere della Sera.

Cristo descendo da cruz para ajudar Welby a morrer em paz...

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Não sei, francamente, como sugere esta vinheta (recuperada do Le Monde), se Cristo desceria da cruz para ajudar Welby a morrer em paz. Mas reconforta-me que haja ainda católicos, como a minha irmã Laura*, que acreditem nisso...

* No 2º Volume do "Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença", que brevemente estará nas livrarias, a minha irmã, ainda sob o impacto brutal do sofrimento e da morte da nossa mãe, reinventa os evangelhos, imaginando um Cristo capaz de atender ao pedido de ajuda de alguém que apenas pretende morrer em paz e condignamente. Com a autorização da Laura, publico seguidamente essa parte do Diário.

29 de Dezembro 2002
No meu Evangelho de Mateus existe uma versão parecida à da cura da filha de uma mulher cananeia (Mt, 15: 21-28), mas com modificações substanciais à sua letra, que não ao seu espírito. Curiosamente, Elisabeth Fiorenza afirma não se lembrar de nenhuma outra narrativa evangélica em que alguém tenha convencido Cristo a mudar de opinião (cf. Fiorenza, In Memory of Her: 63).
A passagem do meu Evangelho reza assim:
«Jesus, partindo dali, retirou-se para a região de Tiro e de Sidónia. E eis que uma mulher cananeia, daquela região, começou a gritar: “Senhor, filho de David, tem compaixão de mim: a minha mãe é muito velhinha, está reduzida a um amontoado de ossos, não come e sofre horrivelmente. Os médicos dizem que já não podem curá-la ou aliviá-la no seu sofrimento. Pede-me que a ajude a morrer, mas eu não tenho coragem. Foi ela que, ouvindo falar de ti, me mandou vir ter contigo em busca de ajuda!”. Ele, porém, nada lhe respondeu. Então os discípulos aproximaram-se dele e pediram-lhe: “Despede-a, porque ela persegue-nos com os seus gritos”. Mas as discípulas aproximaram-se também dele com um pedido contrário: “Senhor, atende-a! Atende ao sofrimento destas duas mulheres!”. Jesus respondeu: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel”. Mas a mulher cananeia, aproximando-se, prostrou-se diante dele e pôs-se a rogar: “Senhor, socorre-me!”. Ele tornou a responder: “Não fica bem tirar o pão dos filhos e filhas e atirá-lo aos cachorrinhos e cachorrinhas”. Ela insistiu: “Isso é verdade, Senhor, mas também as cachorrinhas e os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos e donas!”. Diante disso, Jesus disse-lhe: “Mulher, grande é a tua fé! Seja feito como queres! Mostra-nos o caminho para tua casa”.
À medida que se iam aproximando, os gritos de dor da mãe ouviam-se cada vez mais distintamente. Quando Jesus chegou ao pé dela, perguntou-lhe: “Mulher, que pretendes de mim?”. Ela respondeu, sobrepondo-se às dores que sentia: “Senhor, sou já muito velha e sofro agora atrozmente. Não te peço a vida, peço-te que me ajudes a morrer em paz e me libertes deste corpo de dor. Tem piedade de mim!”. Então Jesus, comovido, disse-lhe: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E quem vive e crê em mim jamais morrerá”. Disse ela por sua vez: “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o filho de Deus que devia vir ao mundo, a Porta através da qual devemos entrar para termos a vida em abundância”.
Tendo dito isto, Jesus impôs as mãos sobre a sua cabeça e invocou o Pai, para que a recebesse nos seus braços. A mulher morreu imediatamente, de um modo sereno, com um sorriso de confiança nos lábios. A filha, a chorar, abraçou o corpo da mãe. Era a primeira vez, em longos meses, que podia tocá-la sem a magoar. Anteriormente, aquele corpo não aguentava sem dor qualquer contacto que recebesse. Jesus também chorou e afastou-se das discípulas e dos discípulos a fim de orar sozinho num local retirado».

Laura Ferreira dos Santos, Diário de uma Mulher Católica a Caminho da Descrença, II (no prelo)


Que morra na cruz quem quiser...

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Piergiorgio Welby (que foi hoje a sepultar) impôs corajosamente a sua própria morte ao Estado Italiano e ao Vaticano. A partir de agora, e mais ainda do que nos últimos meses, passa a ser uma causa e uma bandeira. De dignidade. Era só o que faltava que não pudéssemos morrer em paz ou obter ajuda para morrer em paz quando já nada queremos da vida (nem com "cuidados paliativos"). Que morra na cruz quem quiser.

Igreja Católica Romana recusa funeral religioso a Piergiorgio Welby...

Se dependesse de mim, todas as igrejas e seitas seriam sumariamente extintas por farisaísmo e desumanidade. Por favor, tirai-me deus e o natal (em todas as versões) da frente: consumi e agredi-vos todos uns aos outros sob outro pretexto, menos profano!...

Improviso para vadiar-te...

Vadia de desejos
ofereces-te a tudo
e a ninguém te entregas
não te pesassem tanto as asas
e serias mesmo puta.

Ademar
24.12.2006

Já que não se distinguem na escola, ao menos que se destaquem nas passarelas...

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Pública, 24.12.2006

Natal é quando eles quiserem...

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Carvalho da Silva (CGTP) e Francisco Van Zeller (CIP), fotografados subrepticiamente num tranporte de paz social por André Kosters.
Sol, 23.12.2006

dezembro 23, 2006

Improviso para enfeitiçar a má vida...

Talvez os olhos vendados
me convidem a ver nos teus
luas que ainda não foram narradas
noites que começam e acabam em ti
como se nenhum sol as pudesse despertar
talvez o temor do risco
talvez apenas o preço da desilusão
palavras que nos estribam a viagem incerta
vozes quase intocáveis
e a inteligência exactamente aquém de nós.

Ademar
23.12.2006

Antologia poética (444)...

Improviso para fundar a oitava cidade...

Cada verso
uma jangada
cada poema
um transatlântico
nas tuas mãos pequenas
crescem remos.

Ademar
19.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Quem sabe se, por esta via, Mourinho não chegará ainda a Papa?!...

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A notícia de arromba pode ler-se hoje na revista Dez, do Record. Talvez o Vaticano venha ainda a criar e a patrocinar uma grande equipa de futebol, capaz de ombrear, no totocalcio, com o Milão, com o Inter, com a Juventus....
Sabido que Mourinho, terminada a sua aventura inglesa, deseja treinar em Itália, quem sabe se, um dia, não lhe caberá conduzir a equipa do Vaticano ao céu das grandes vitórias?...
E, se isso acontecer, quem poderá garantir que ele depois não chegará a Papa? Alguém duvida da ambição e da fé de Mourinho?...
Convenhamos que já houve papas mais absurdos e imprevisíveis. O actual, por exemplo...

Trocadilhos à moda do Porto...

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Jornal de Notícias, 23.12.2006

A fúria que sempre trai o enamoramento...

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Boiardo escreveu "Orlando Enamorado". Ariosto, "Orlando Furioso"...
Cinco séculos depois, Cavaco reencarna e revive, fulgurantemente, a epopeia do lendário cavaleiro.
Sócrates faz de Angélica e o Sol, hoje, conta tudo. A benefício, claro, de todos os Sacripantas...

A diferença elementar entre uma mulher autêntica e uma mulher autenticada...

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A segunda página do Expresso, hoje, continua na terceira página do Sol (ainda que a ordem dos factores, aqui, seja arbitrária).
No Expresso, a escritora da moda, C.Salgado, declara "total" a sua "disponibilidade para colaborar com o Estado português", depois de garantir, para espanto do universo, que não tem "memória futura", só "passada" (deduz-se, aliás... muito bem passada).
No Sol, o Director Saraiva (futuro Nobel da literatura) destaca a autenticidade amorosa de Pinto da Costa (também ele, de resto, escritor afamado): " Parecendo ter um coração empedernido, derrete-se às primeiras lágrimas de uma jovem de princípios duvidosos. O duro, o implacável, o invencível Pinto da Costa comporta-se como um adolescente na primeira esquina em que lhe aparece uma donzela disponível."
Quando perguntada se tem "documentos autênticos" para entregar a Maria José Morgado, C.Salgado responde simplesmente, qual Pítia, que se considera "um documento autêntico".
O excesso de autenticidade ainda acabará por devorar o país...

dezembro 22, 2006

Uma dúvida muito pouco caritativa...

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Maria Josefa Sancho de Guerra, depois, Maria Josefa do Coração de Jesus, fundadora, em 1874, da Congregação das Servas de Jesus da Caridade. Duas curas "milagrosas", atribuídas à sua "intercessão", valeram-lhe a beatificação, em 1992, e posterior canonização, em 2000. "Amor y Sacrificio" era a sua divisa. Amou Cristo e sacrificou-se por Cristo. As paixões mais intensas e duradouras reclamam, de preferência, um corpo crucificado. Há ausências absolutas que não admitem companhia ou concorrência...
Pergunto-me se algum dia teríamos sabido de Josefa se, na cruz, no lugar do filho da mãe "imaculada", tivesse ficado Maria Madalena...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (443)...

Improviso a benefício da retórica...

Quantas vezes confundiste
a canoa com o cais?
quantas vezes
foste o mar e a terra
sem seres nenhum?
quantas vezes
forçaste o naufrágio
e depois te salvaste?
quantas vezes
erraste o mapa e a bússula
só para ignorares o rumo?
e quantas vezes
adoeceste de mim
fingindo apenas que morrias?

Ademar
19.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (442)...

Improviso, com dedicatória, para desdizer o destino...

Ainda que uma perna ou uma mão
te pese muito mais do que a outra
um dia
terás de voltar para casa
a tua guerra
não tinha mapa
perdeste-a apenas no espelho
dos sonhos.

Ademar
20.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Testemunho muito pouco nataleiro...

Sou ateu, mas acredito ( o que não me reconforta especialmente) nas pessoas que acreditam num deus qualquer.
Pelos relatos, pelos textos "sagrados" e pelas crenças, não sei de nenhum deus que se recomende. Todos eles fazem a síntese do melhor e do pior da espécie que neles se projecta. O problema, para mim, é que o pior suplanta sempre, largamente, o melhor. Os deuses únicos e omnipotentes - exterminava-os a todos, se pudesse. A tentação do "absoluto" justifica todos os abusos, todas os discursos autoritários e toda a violência. Sempre foi assim e sempre há-de ser. Quem, apaixonadamente, acredita num "criador" e num "salvador" universal está disponível para, em nome dele, praticar toda a espécie de barbaridades. A história (e o presente) são eloquentes a esse respeito.
Eu preferia viver num mundo em que as pessoas não precisassem de um deus qualquer para acreditarem em si próprias e na viabilidade da espécie.

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Saudades de Peter Falk e de "Colombo"...

Nos próximos dias, conceder-me-ei uma "prenda": esta. Haverá antídoto mais eficaz para a depressão nataleira?...

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A imagem mais emblemática do português típico...

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Pormenor de um anúncio de 1996 da British Airways.

Pose de maestro, tem: só lhe faltam a batuta, a partitura e a orquestra...

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A Bola, 22.12.2006

O mais furão dos videirinhos lusitanos...

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Pina Moura, ex-tudo, fotografado por Alberto Frias.
Fonte: Expresso-Revista, 1332, 9.Maio.1998

Improviso para desdobrar o mapa das tuas ruas...

Mais rua menos rua
o teu corpo
mapa estreito
deixa-se percorrer
numa noite de lua cheia
e ainda sobram horas
para tecer contigo a claridade
como te lamentaria
se não fosses Veneza
canais subterrâneos
segredos quase impartilháveis
asas porventura invisíveis
pressinto-te aquém da superfície das formas
a eternidade morrendo ligeira no teu corpo
e nas minhas mãos.

Ademar
22.12.2006

Um secretário de estado da educação que se atrapalha no uso da língua (portuguesa)...

Confesso que não estava muito atento ao jornal da tarde da RTP1; de resto, devo acrescentar, quando a criatura aparece, eu tendo a distrair. Mas o meu filho Francisco, 13 anos, alertou-me imediatamente: ó pai, aquele senhor disse "derrimir" - que quer dizer? Eu também tinha pressentido que o "senhor" dissera, alegremente, uma bojarda. Para ser inteiramente honesto, não sei se disse "derrimir" ou "dirrimir". Para o caso, tanto faz. O verbo escreve-se e diz-se "dirimir". Eu sei que é um verbo difícil e o "senhor" Valter Lemos domina mal a língua portuguesa (e fosse só a língua...). Mas, que raio, um secretário de estado da educação devia, pelo menos, dar o exemplo e não usar verbos que, manifestamente, transcendem as suas qualificações linguísticas! Eu já perdi há muito o respeito por esta gente. A minha mãe, se fosse viva, seria implacável e fuzilaria a espécie com um sarcástico "videirinho". E teria razão: Valter Lemos, de facto, nunca passou disso mesmo, digo, de um... videirinho...

E não poderiam poupar-nos a estas cenas nataleiras de sabujice pacóvia e exibicionista?!...

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24horas, 22.12.2008

Passa dor...

qual será a vista da Conciergerie
eu presa da tua vontade
na torre?
e a que saberá a água do Sena
se por acaso a primavera
vier muito antes
de nos contermos?
se não me responderes, será
que me calaste as perguntas
na boca?
conta-me como foi

Ana Saraiva

dezembro 21, 2006

Finalmente libertado da tortura da vida!...

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Piergiorgio Welby: não encontrou a piedade que reclamava no Estado italiano, mas no médico anestesista que, corajosamente, o ajudou a morrer...
Já não sofre e nós, com ele
...

Sim, pela eutanásia!

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Eis (à direita, na foto) o médico anestesista, Mario Riccio, que confessadamente ajudou Piergiorgio Welby a morrer em paz, ao fim de mais de quarenta anos de sofrimento e humilhação. Espero que o exemplo da sua grandeza humanitária vença agora nos tribunais o farisaísmo dos eternos juízes e carrascos da consciência dos outros.

Foto do ano de 2006: a magia nataleira da reconciliação por que todos esperávamos...

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Sábado, nº137, 14 a 2o de Dezembro de 2006

A admirável submissão do cão de Saraiva (pelo próprio)...

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"Ao contrário dos homens, os cães têm seres de carne e osso a quem podem adorar como se fossem deuses: os seus donos. Para cada cão, o dono é um Deus - por quem ele está disposto a fazer todos os sacrifícios e dar a vida".
José António Saraiva, Tabu, nº14, 16 de Dezembro de 2006

É caso para recear que, depois de ter dedicado uma crónica de duas páginas ao cão, o seu mais fiel amigo (a par do bacalhau), Saraiva passe a escrever sobre os estagários do Sol.

Carlos César e Quim Barreiros ou... as grandes intimidades da história insular...

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Expresso-Revista, 1249, 5.Outubro.1996

O guarda-chuva da democracia ou... era uma vez um arcanjo em campanha...

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Expresso-Revista, 1249, 5.Outubro.1996

Improviso para que me digas das árvores...

Quando o coração me falhar
ficarei à espera da instrução das tuas palavras
digo
seguirei apenas o eco
o lastro da tua voz
no descompasso da festa que faremos
para que ninguém se atreva a acreditar
que a poesia também falhou.

Ademar
21.12.2006

Para Leonor, que ia fermosa e tão segura...

As dores dos meus amigos entranham-se mais pelo meu corpo do que as dores que eu próprio invento. A TSF, hoje, está de luto, porque morreu, imprevistamente, quase insolentemente, uma das suas: Leonor Colaço. Tinha apenas 39 anos e estava grávida, dizem os jornais, de sete meses que já não chegarão a ser. O coração não costuma falhar nestas idades e circunstâncias. Falhou a ela, dois corações em cadeia. Hoje, choro as palavras com o meu querido amigo Fernando Alves...

Quando os jornaleiros tomam o lugar dos jornalistas...

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A minha irmã, na foto, soube hoje pela Visão que é... psicóloga e não filósofa (da educação e não só). Acontece aos melhores: descobrirem (neste caso, aos 47 anos) que erraram a vocação (jornalística)...
Os disparates que hoje campeiam nas revistas e nos jornais ditos de "referência" (dos demais, nem falo) dão bem conta do estado em que se encontra o país. Rigor e profissionalismo, definitivamente, não abundam...

Mete orologias...

alerta laranja
bom dia
hoje descerei ao mínimo
admissível
apenas uma capa de gelo
me revestirá
o aconchego necessário
para me defender de vós
em alerta vermelho
permanente
e depois um dia
emigro arritmicamente
num sonho que terei
e soará o alerta verde
a tua morada aprazível
condiz comigo
já sossego
deito-me na relva
e não me defendo de nada

Ana Saraiva

Improviso para guião de alcova...

Os meus olhos cobiçam a lentidão
de patins tropeçam
sacerdotizo vagares
respirações tensas concentradas
suspiros
gemidos a princípio agrilhoados
não tenho pernas para correr
nem pulmões
nem palavras
teço pudores ofegantes
silêncios quase entesoados
o excesso de ruído faz-me sempre errar o mapa
digo
as pulsações íntimas do teu corpo.

Ademar
20.12.2006

dezembro 20, 2006

Antologia poética (441)...

Improviso para dizer a eterna natureza masculina...

Sim claro
os preservativos
não me esqueci dos preservativos
nem tão pouco dos acessórios
para os preliminares
Álvaro de Campos
Herberto Helder
Almada Negreiros
no fundo da mala
a caderneta incompleta
não colei ainda o teu cromo
superstição
reservei o hotel
sessenta e nove estrelas
duas camas individuais
não vá o diabo tecê-las
(diz lá que não rima!)
pequeno-almoço continental
internet
levo pijama
para as leituras primárias
e o portátil
onde guardo a ficção
não descuides por favor a lingerie
que pode falhar-me o tesão.

Ademar
21.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (440)...

Improviso sacramental...

Na cama e na mesa
até que a morte vos separe
ou a vida.

Ademar
22.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Pesadelos canoros da minha adolescência salazarenta...

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Maria de Lurdes Resende, Artur Garcia, Maria Clara, António Calvário e Simone de Oliveira, fotografados por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1109, 29.Janeiro.1994

Andamos a dizer isto uns aos outros... há quantos séculos?!...

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Público Magazine, 203, 23/01/1994

Entretém publicitário...

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Promovendo o passado, simplesmente...

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Antologia poética (439)...

Improviso para explicar o banho nocturno...

Sais de ti e voltas a ti
todos os dias
ninguém atrapalha a saída
ninguém atrapalha o regresso
talvez não sejas mais
do que uma plataforma instável
de memórias e de sonhos
abres e fechas janelas
só para te sentires arejável
de vez em quando
deixas a porta aberta
como se convidasses o universo todo
a entrar
e deitas-te com a água
não vá a noite pesar-te de mais
com a água
e com todas as personagens
que te naufragam
há sempre um filme em que te viste
um nome que podias roubar
à literatura
um verso que passou por ti
e não fugiu
um vendaval de ausências
amanhã acordarás
para sair e voltar outra vez
e repetirás um a um
todos os passos em que tropeças.

Ademar
22.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Juízes que escrevem mais depressa do que pensam...

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É a principal manchete da edição de hoje do Diário de Notícias. Julguei que estava a ler um "script" dos Gato Fedorento. Abençoada a hora em que decidi abandonar a advocacia e virar as costas aos tribunais. Já teria, por certo, morrido de nojo doutrinal e juris(im)prudencial...

Tripas à moda do Porto (ou de Londres): alterne ou alternância?...

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24horas, 20.12.2006

O "compadre" Mariano Gago, ministro dito da ciência e também muito da tecnologia, posto como merece a ridículo por António Nóvoa, Reitor da Universidade de Lisboa...

Oportuna e contundente a entrevista concedida por António Nóvoa ao blogue viridarium. Adianto-vos um excerto, que Mariano Gago * ainda deve estar a tentar engolir (mesmo abundando-lhe, como se sabe, a garganta).

"Os contribuintes estão a pagar milhões de Euros nessas parcerias (com o MIT), que, aqui, são sobretudo políticas de exibição. Na Ciência internacional, tudo é feito de forma competitiva. Não há verbas dadas à partida para nenhum grupo. Os governos não inteferem nestas coisas. Antes de Portugal, todos os acordos internacionais que o MIT fez nunca foram com governos. É humilhante. Tratam-nos como se fôssemos um país do Terceiro Mundo, e nós comportamo-nos como tal. Depois do acordo entre o Governo e o MIT fez-se então um segundo acordo, agora entre o Governo e as Universidades. No topo está uma direcção, chamada Program Comite Governing, constituída por três pessoas de cada lado, e o lado português não dá para acreditar. São os três da mesma Universidade, dentro da Universidade são do mesmo Instituto, e dentro do Institudo são todos do mesmo grupo. E, por acaso, o José Mariano Gago e o Secretário de Estado são dessa mesma Universidade, desse mesmo Instituto, e desse mesmo grupo! Não acha que já é um excesso de coincidências? O Ministro justifica esta situação com o seu habitual “ a escolha por excelência”, mas no português corrente isto costuma ser considerado compadrio. Digo-lhe mais: o MIT nunca tnha recebido dinheiro directamente de um Governo estrangeiro, e este acordo foi discutidíssimo lá dentro. Só que uma oferta de 32 milhões de Euros não é propriamente possível de ignorar em favor da lisura moral e ética. E eles não têm que fazer nada! Os seus comunicados referem sempre “um acordo extremamente proveitoso para o MIT”, e eles sabem do que estão a falar. "

* Mariano Gago, para quem não associa o nome à espécie, é o actual (pelo menos, ontem ainda era) ministro do ensino dito superior, da ciência, também ela excelentíssima, e da tecnologia, obviamente superlativa.

dezembro 19, 2006

Deambulâncias...

não sei como seria
guardava-te no ninho
ou deixava-te ir com o vento?
nunca mais poderia ser sozinha
teria de te levar na arte da fuga
correr e nunca poder fugir de ti
admitamos que já me habitas
até quando serás um mistério?
não sei se te diga
passei por ti uma vez
e nunca mais parei de correr
não sei o que fazer desses olhos
que mansamente me seguem
são tão castanhos
sabes?

Ana Saraiva

Antologia poética (438)...

Improviso para descontar os dias...

Um labor de miudezas
o governo desse ancoradouro
os dois braços chegam-te
para desenfunar todas as velas
e não há marinheiros agora
que te distraiam
a faina tem os dias contados
mas as tardes por vezes
ainda são límpidas
entre Santa Maria e São Miguel.

Ademar
23.08.2006

Já não falta muito para que voltem a encontrar-se...

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Fidel e Pinochet, no tempo em que este ainda jurava publicamente fidelidade a Salvador Allende...

"O Governo interviu", diz Miguel Sousa Tavares, em directo, na TVI...

Deveremos passar a conjugar assim o verbo intervir? Depois da aprovação da TLEBS, já não estou certo de nada... Mas quase me recuso a crer que Miguel Sousa Tavares, o celebradíssimo autor de Equador, ainda não tenha aprendido a conjugar os verbos mais elementares...

No fundo, no fundo, era um homem bom, um patriota, católico como poucos, impolutíssimo - se a história não lhe fizer justiça, deus abraçá-lo-á como a um menino de coro e abençoá-lo-á, ah!...

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Pública, 130 (15.Novembro.1998)

Capas para coleccionar (10)...

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Expresso-Revista, 1394 (17.Julho.1999)

Alguém poderá ou saberá responder?...

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Há sete anos atrás correu mundo esta fotografia de um estudante universitário iraniano erguendo, em mais uma manifestação de protesto, a camisola de um colega que acabara de ser espancado pela polícia. Ainda estará vivo? O Irão não se recomenda a rebeldias estudantis (nem a quaisquer outras)...

Fonte: Expresso-Revista, 1394, 17.Julho.1999

O SEXO e a Cidália...

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Anabela Mota Ribeiro (fotografada por Alexandre Almeida) à Vida (17.Outubro.1997).

Importa-se de repetir?... (18)

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Maria Carrilho à Notícias Magazine (28.Julho.1996).
Fotografia de Adriana Freire.

Mortos indefesos...

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O que eu mais temo na morte é isto: o voyeurismo canalha dos sobreviventes. Quando eu morrer, que ninguém se atreva a escrever sobre as minhas paixões...

Fonte: Expresso-Revista, 1298, 13.Setembro.1997

Há pedidos que são ordens...

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Notícias Magazine, 215 (7 de Julho de 1996)

Por favor, fazei de conta, nesta quadra nataleira, que eu não existo...

Devo ser o português menos nataleiro que conheceis: não faço compras de natal, não dou prendas de natal e, desde que a minha mãe morreu, passo, alegremente, o natal sozinho. Tenho duas divergências de fundo com o “vosso” natal; sou, irremediavelmente, ateu e herege e abomino rebanhos, muito especialmente, os rebanhos do consumo. Como sou civilizado, devolvo os “votos” nataleiros, mas acrescento sempre (para quem ainda não saiba) que não sou praticante.
Por favor, fazei de conta nesta “quadra” nataleira que eu não existo...

Uma quase confissão de culpa...

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Tom Stephens é hoje, para a polícia inglesa, o principal suspeito do homicídio em série das cinco prostitutas de Ipswich. Em entrevista ao Sunday Mirror, ele proclama-se inocente, mas confessa algo que, objectivamente, confirma a suspeita (retirei a confissão, que reproduzo, do Público de hoje). Considerado, pelos vistos, um homem atraente, ele admite imprudentemente que: “há algo em mim de que as mulheres não gostam”.
Quem fala assim... está a meio caminho de ser condenado por homicida de prostitutas: é quase uma confissão de culpa...
Só os psicopatas (reais ou potenciais) sofrem deste tipo de autovitimização de género...

Improviso sobre quatro cordas em forma de mulher...

Se eu coubesse nas saudades
algemar-me-ia apenas ao teu violino
ou seria a caixa dele
caberia em mim
como tu sempre coubeste
mesmo quando transbordavas do leito
agora tens casa
já podes abrir as janelas à madrugada
e dedilhar as cordas desse falso stradivarius
delicadamente
como exigias que eu te dedilhasse
contei apenas três
a quarta corda que nunca cheguei a tocar
eras tu.

Ademar
19.12.2006

Anne-Sophie Mutter...

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Anne-Sophie Mutter é uma violinista extraordinária. Não me canso de ouvir o Tango Song and Dance, que André Previn, o seu actual companheiro, escreveu para ela, muito especialmente, o segundo movimento, Song...
Há casais que deviam ficar emoldurados para sempre na história da música...
Se pudesse (e se eu fosse praticante), oferecia-vos este cd como prenda nataleira...

E ainda dizem que o sexo não promove...

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Excelente fotografia (de Estela Silva) que aparece hoje publicada em vários jornais da paróquia (reproduzo aqui a do Record). Um autêntico orgasmo social. Ninguém pára o alterne...

Confissão sanguínea...

Desiludirei alguns leitores, mas tenho de confessar que concordo inteiramente com Nietszche. O que não se escreve com o sangue, não passa de impostorice (ainda que literária)...
Eu já não saberia escrever de outra maneira, senão com o sangue...
A vida ocupa-me e interessa-me muito mais do que a literatura...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Nota de encomenda...

que não vos esqueça a condição
homem, sabes como os seios são redondos
mulher, sabes que o desejo molda o dorso
se vos sair a carta inesperada
é tempo de um novo jogo
mas são sempre as mãos
que pegam nas cartas
e por debaixo da mesa
há sempre a vontade
do encontro
não me esqueci, não
há tanto tempo vos amo
Adão, Eva
aceito tudo em nome da criação
não há nada que vos negue
até um filho vos dei
para que me fugisse
pregam-me mentiras na boca
a mim, que nem língua tenho
seria concupiscentemente
indecente
bastardo do Tempo que sou
na minha condição e desmando
ide, sem memória
deve ter sido sempre assim
pobres e mortais

Ana Saraiva

Antologia poética (437)...

Improviso ao jeito de post-scriptum...

Rir ou enlouquecer
e
entre uma coisa e outra
sempre o mar
na sua imperceptível nudez.

Ademar
24.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Luva desbotada...

subo os dedos bem esticados pela parede
ergo-me toda e numa só respiração
liberto as costas do teu jugo
agora durmo
é para que saibas
enquanto esqueço

Ana Saraiva

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DE PUTA MADRE 69...

Cruzei-me com ele numa rua da Baixa, como no poema de Álvaro de Campos. Não posso dizer que o homem tivesse aspecto de pedinte (não me estendeu a mão), nem que desfilasse (pelos meus padrões de nenhuma exigência) mal vestido. Aliás, devo admitir que nem reparei muito bem como ele estava vestido. O meu olhar vadio não foi além da t-shirt, deixando-se hipnotizar pela inesperada e extraordinária "mensagem" que cobria o peito e as costas do homem que passava.
DE PUTA MADRE
69
As palavras entendi; o número, nem por isso. O homem, de aspecto trintão, podia ter, de facto, nascido em 69. Filho da posição... é que não seria, certamente.
Tive vontade de lhe perguntar se conhecia Álvaro de Campos, mas temi que o homem ficasse indignado. De modo que silenciei o poema que lhe digo agora:

Porra!
(...)
Então é esta merda que temos
que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
há puta que os parissse. *

* Para ser inteiramente rigoroso, e não induzir os leitores em erro, devo advertir que omiti, na citação, o segundo e o terceiro versos do poema de Álvaro de Campos. Quem já o leu na íntegra, relevará a omissão...

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dezembro 18, 2006

Belle de nuit...

aconteceu-me achar-te a mais bela da noite
e a mais interessante nos tempos que me atravessam
sabes a erva-doce quando passas pelos meus olhos
e falhas todos os passos com uma elegância perfeita
bebemos Perrier no balcão que dá para o mundo
é o mesmo copo e é o mesmo lugar
se contássemos
mas não contamos

Ana Saraiva

Consta que não tinha muito jeito para nadar...

teresinhade.jpg

Agnès Gonxha Bojaxhiu, vulgo, Teresa de Calcutá, inimiga contumaz do preservativo, fotografada por Raghu Rai.
Fonte: Expresso-Revista, 1298 (13.Setembro.1997)

Os vigários de cristo também sabem nadar, digo, piscinar...

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Piscineiro: João Paulo II, digo, Karol Wojtyla, na piscina olímpica privada de Castelgandolfo (mordomias de papa...) .
Fonte: Mais, 1, 16.Abril.1982

Saudades do verdadeiro alterne...

alterne1.jpg

Capa do Expresso-Revista, 1279, de 3 de Maio de 1997. Hoje, o alterne já não tem mistério: está disponível até nas livrarias...

Uma fotografia diplomaticamente enternecedora...

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Fotografia de Rui Ochôa, publicada no Expresso-Revista, de 3 de Maio de 1997. António Monteiro, que ainda não fora Ministro dos Negócios Estrangeiros (de Santana Lopes), a ser servido pela assessora (digo, conselheira) Ana Gomes, que ainda não fora embaixadora de Portugal, em Jacarta. As desavenças políticas viriam depois...

Antologia poética (436)...

Improviso para apoiar as "salas de chuto assistido"...

Ofereço-te a minha veia
poética
não sei se fica
no braço esquerdo
ou no direito
um pouco mais acima
ou um pouco mais abaixo
da virtude que está no meio
ofereço-te aliás as veias todas
para que não falhes
o "chuto"
naturalmente assistido
que estas intimidades literárias
querem-se públicas.

Ademar
24.08.2006

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O feitiço do cárcere...

natportieren_criterion.jpg

"Portiere di notte", de Liliana Cavani, é um dos meus filmes predilectos. Pelo argumento, pela realização, pela intensidade da narrativa e pelo extraordinário desempenho dos protagonistas: Dirk Bogarde (Maximilian Theo Aldorfer) e Charlotte Rampling (Lucia Atherton).

O filme, de 1973, desencadeou uma fortíssima polémica. Lucia é uma sobrevivente de um campo de concentração nazi que, trinta anos depois da "libertação", encontra, finalmente, em Viena, o seu antigo "torturador", agora um discreto porteiro de hotel. No campo de concentração, Max "afeiçoara-se" a Lucia (então, uma adolescente), forçando-a a manter com ele (em troca da vida) uma relação sadomasoquista. Trinta anos depois, Lucia procura Max para vingar definitivamente a violência de que fora vítima. Mas, na hora do ajuste de contas, Lucia cede à memória do corpo e retoma a relação "amorosa" com Max...

Isto passa-se em Viena, a mesma Viena em que Natascha Kampusch, então com 10 anos, foi raptada e mantida em cativeiro, durante oito anos, por um psicopata. Parece que, nos últimos tempos, o sequestrador, que entretanto se suicidou, levava a sua vítima a passear pelo bairro onde vivia e até a fazer compras. Nunca Natascha procurara fugir ou alertar a vizinhança para a situação em que se encontrava. Dir-se-á que procurava ganhar a confiança do sequestrador, preparando uma fuga fulminante. Não estou nada certo disso. Estou antes convencido de que Natascha, como Lucia Atherton, se convertera afectivamente ao seu sequestrador e que foi um qualquer ruído na comunicação com ele que a impeliu, subitamente, à fuga.

Os jornais falam agora, a propósito deste caso insólito, do "síndrome de Estocolmo". Em Agosto de 1973 (raio de coincidência: o ano em que Liliana Cavani rodou "O Porteiro da Noite"!), várias mulheres foram vítimas, em Estocolmo, de um assalto, seguido de sequestro, que se prolongou por seis dias. Detidos, finalmente, os sequestradores, eles viriam mais tarde em tribunal a ser defendidos por algumas das mulheres sequestradas. Mais: duas dessas mulheres viriam a casar com os próprios sequestradores!

Natascha já não poderá casar com Wolfgang Priklopil, supostamente, o seu raptor e sequestrador. Mas eu não ficaria muito surpreendido se, amanhã, ela viesse publicamente defender a sua memória, dizendo, talvez, que chegara a amá-lo. Provavelmente, não haverá feitiço mais poderoso para desencadear a paixão do que o próprio cárcere...

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Improvisos que cantam...

Um dia, publiquei no abnoxio um poema intitulado "improviso lesa-pátria". Alguém, que eu não conheço pessoalmente, resolveu musicá-lo e interpretá-lo. Podeis ouvi-lo aqui.

Improviso para servir de posta restante...

Há dias em que a tua ausência me conspira
pensar-te sem os olhos e sem as mãos
há mais urgência na cegueira
e menos distância talvez
agora já não conto pontes nem viagens
vagabundeio apenas
entre bairros que me clandestinam
sem portas e sem janelas
para ruas inviáveis
desendereço-me
desendereças-me.

Ademar
18.12.2006

a propósito de uma mãe que diz ter feito o que pôde...*

depois de alguma habituação
todas as ausências passam a ser
as coisas normais de todos os dias
como comida e uma ou duas sílabas
e algo parecido com o calor líquido
antes de nascer dentro da espécie que sabe ser miserável
uma boca espantada de se encontrar vazia
depressa se fecha num arco fino e seco
seguem-se-lhe as mãos
descrentes e tão pequenas
e os olhos
os olhos não cabem em nenhuma angústia futilmente
poética
depois de alguma habituação
parece que um poema chega

Ana Saraiva

* título da autora

dezembro 17, 2006

Antologia poética (435)...

Improviso para piscar o olho ao Henrique...

Gaveta a gaveta
haverá segredo que te resista?
a novidade não descansa
nos teus olhos
as mãos são culatras
que te disparam
e eu que desejo que me devasses
servirão os pais para coisa distinta?
desvenda-me com essa chave
que é agora o teu tesouro
e não olhes para trás
que eu estarei sempre a ver-te.

Ademar
27.08.2006

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Antologia poética (434)...

Improviso para distrair grilações...

Sim
há noites em que já me faltam estrelas
e em que a própria lua
parece zangada comigo
como se o guião do filme me desconhecesse
há grilos a menos
nas palavras que agora me interpelam
esses grilos cujas vozes
ouvias tão longe
e tão perto de mim
quando as noites não eram assim
há um desejo de grilos
nesta evidência que me perde
nesta saudade de não sei o quê
talvez de nós
quando contávamos estrelas
e interrogávamos a lua.

Ademar
28.08.2006

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Sinais de pós-história: fêmeas agressivas, machos coibidos...

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Vem na Pública de hoje. As mulheres andam a enganar-me...

O verdadeiro espírito natalício...

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Record, 17.12.2006

Petição contra a TLEBS...

Está disponível na internet, para subscrição, uma petição contra a TLEBS. Como não concordo de todo com alguns dos fundamentos invocados, não a subscreverei. Mas associo-me, formalmente, ao objectivo principal dos peticionários: a revogação da Portaria (diria mais, da Porcaria) que "oficializou" a aplicação da Terminologia nos ensinos básico e secundário. Seria um acto de inteligência e de meridiana lucidez pedagógica: já basta o que basta!

Um poema futurista e presciente sobre a TLEBS de Carlos Drummond de Andrade...

Aula de Português

A linguagem
na ponta da língua,
tão fácil de falar
e de entender.

A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?

Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas da minha ignorância.
Figuras de gramática, esquipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.

O português são dois; o outro, mistério.

Carlos Drummond de Andrade, Obra Poética, 7º Volume

TLEBS ou... o cadáver terminológico...

Sobre a famigerada TLEBS, que hoje está na ordem ou na desordem do dia, escrevi e publiquei em 27 de Dezembro de 2004 (ou seja, há quase dois anos!!!!!!!!!!!) o comentariazinho que reproduzo, com o boneco que o acompanhava.

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Hoje, lendo a edição de 24 de Dezembro do Diário da República (I Série-B), senti-me o mais miserável e desprezível dos portugueses letrados.

Explico, com o pudor necessário...

O diário oficial de 24 de Dezembro publica a Portaria nº1488/2004, do Secretário de Estado da Educação, que aprova, ainda que a título de experiência pedagógica, a nova "Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário" (TLEBS).

A referida Terminologia passa a constituir “referência para as práticas pedagógicas dos professores das disciplinas de Língua Portuguesa e de Português, bem como para a produção de documentos pelo Ministério da Educação em matéria de ensino e divulgação da língua portuguesa”.

Inquieto, consultei imediatamente a Terminologia, constante do anexo da Portaria, esbarrando, estrondosamente, na dolorosa consciência da minha incomensurável ignorância linguística. Por mais que force a memória dos tempos em que fui obrigado a decorar a gramática, eu já não consigo descodificar a maior parte dos termos que integram a Terminologia ora aprovada.

Que será, hoje, um “nível segmental”? E uma vogal “média”, “baixa”, “arredondada”, “adiantada” ou “recuada”? Que será uma “consoante fricativa”? E uma “consoante africada”? E uma consoante “alveolar” ou “velar”? Que será um “ataque da sílaba”? Em que consistirá a “defectividade”? E a “parassíntese”? E a “derivação regressiva”? Alguém me saberá explicar o que é uma “amálgama do tempo-modo-aspecto e pessoa-número”, um “adjectivo de possibilidade” e um “verbo incoativo”? Que será um “composto morfo-sintáctico subordinado ou coordenado”? E um “determinante nulo”? E um “quantificador universal”? E uma “conjunção subordinativa concessiva”? E uma frase “sindética” ou “assindética”? Que será, meu deus, um “sujeito nulo expletivo”? E um “morfema lexical”? E uma “holonímia” ou “meronímia”?...

Páro por aqui - a vergonha não me permite ir mais além, na confissão pública de uma tamanha e tão impatriótica ignorância...

Mas começo agora a perceber melhor por que os pobres professores de Língua Portuguesa e Português das nossas escolas básicas e secundárias não conseguem libertar os seus alunos das garras do desfastio linguístico e por que os nossos jovens, sujeitos a uma tal Terminologia, chegam às universidades e aos politécnicos (quando chegam) a escrever e a falar tão mal a nossa (?) língua e a odiar, em geral, os nossos grandes escritores.

Ninguém se apaixona por cadáveres...

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dezembro 16, 2006

Quando a lei e a ética política não casam...

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Fiquei hoje a saber pelo Sol que Maria de Belém, deputada socialista e ex-ministra da Saúde, é avençada do Grupo Espírito Santo. Parece que a "parceria" é, legalmente, compatível. Não discuto. Digo apenas: se eu fosse "eleitor" de Maria de Belém, sentir-me-ia defraudado. A independência dos deputados é um bem político inestimável. E ninguém se vende... gratuitamente.

Improviso para auscultar a lua...

Começavas sempre num silêncio de vozes
há uma quinta corda no violino
que só tu sabes tocar
uma terceira mão que sempre me negaste
o olhar que me atravessava de lés a lés
e repousava muito além de mim
onde eu já não estava nem podia chegar
era já um tempo em que sobrávamos
um tempo que abria portas e janelas
para outros tempos
viagem entre sombras
as luzes murchavam com a noite
que não dormias
e eu namorava a lua que me deras
para me achares ainda acordado.

Ademar
16.12.2006

A sofreguidão das algemas...

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Ainda há mulheres que aspiram a ser objecto e propriedade de alguém. A cumplicidade amorosa, para elas, confunde-se com o cárcere. E até sentem necessidade, como esta, de "tatuar" a escravidão. Podiam, simplesmente, casar, como faziam antigamente as meninas que só tinham o corpo para oferecer como dote...

Ópera-bufa ou... o grande inimigo do senhor Sócrates...

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Alberto João Jardim no palco (como sempre), fotografado por Jorge Simão.
Fonte: Expresso-Revista, 1135 (30.Julho.1994)

Capas para coleccionar (9)...

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Visão, 8 (13 a 19 e Maio de 1993)

Alguém que receba...

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Mourinho confessou à Única que "pagava para não ser famoso". Seguramente que pagaria menos do que lhe pagam para o ser... Ele há pessoas que nunca estão satisfeitas...
Glosando Dario Fo, apetece-me apenas perguntar: quem recebe, quem recebe?!...

O nojo na primeira página do Expresso...

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O Expresso, não sei se por espúria opção editorial, resolveu fazer campanha pelo NÃO. Não o faz abertamente, claro, mas... jesuiticamente, insinuando coisas. Hoje, em manchete, garante que "cinco grandes clínicas recusam fazer abortos". Uma das "grandes clínicas" citadas é a Clínica de São Lázaro, em Braga, relativamente à qual o Expresso afiança que "os obstretas de serviço votaram por unanimidade contra as práticas abortivas"...
O pudor impede-me, como bracarense, de falar da Clínica de São Lázaro, que eu, aliás, julgava extinta. Fiquei agora a saber pelo Expresso que ainda existe, é "grande" e tem... "obstretas de serviço" (espero que não em acumulação com o Hospital vizinho).
A manchete do Expresso transportou-me ao início dos anos oitenta, quando o cónego Melo (logo ele!) resolveu convocar uma "grandiosa" manifestação "a favor da vida" e "contra o aborto". Na altura, eu trabalhava para o Expresso e acompanhei a manifestação. À frente dela, agitava-se furiososamente a mais conhecida "abortadeira" de Braga, para quem os "obstretas" então de serviço à consciência dos outros remetiam, discretamente, as mulheres obrigadas a abortar e que não tinham posses para ir a Espanha ou a Londres (ou ao Porto). Nessa tarde, vomitei... de nojo. Pela hipocrisia da padralhada católica e dos "obstretas" de serviço...
O mesmo nojo que senti hoje quando abri o Expresso. Portugal, definitivamente, não se recomenda à decência...

A insustentável leveza da consciência de Pinto da Costa...

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Nos últimos dias, só lhes tenho ouvido dizer que a consciência não lhes pesa: Valentim Loureiro, Lourenço Pinto, agora Pinto da Costa (em declarações estampadas na edição de hoje do Sol, que reproduzo com a devida vénia). Pergunto-me se a consciência não lhes pesa ou se, pura e simplesmente, já não sabem como pesá-la...
A bola é redonda e gosta de ser pontapeada..

O cântico da barbárie...

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A história vista do lado dos seus principais protagonistas raramente passa de uma farsa. Os dirigentes nazis entrevistados por Leon Goldensohn em Nuremberga, em 1946, eram pusilânimes e insuportavelmente medíocres e cobardes. Como foi possível que tivessem feito tanto mal a tanta gente em tão pouco tempo?...
Os rebanhos tresmalhados aceitam tudo, até o conforto ilusório do matadouro. E a pulsão da barbárie habita todos os seres humanos (mais os "machos", deve reconhecer-se), como a história já se cansou de demonstrar. Basta que nos incendeiem o rastilho: transformar-nos-emos rapidamente em carniceiros. Tendo lido Kant ou Nietzsche, tanto faz...

dezembro 15, 2006

Improviso para não dizer as horas...

Não uso medidores do tempo
ando simplesmente às voltas de mim
como se eu fosse o próprio tempo que me recuso
o universo já não cabe no meu sono
fecho os olhos para ver
e fecho as mãos
para espremer ainda mais as palavras
sofro da nostalgia do adjectivo
já usei paletas e pincéis
para pintar a realidade de outras cores
agora distraio-me da própria realidade
finjo que não tenho mais palavras para ela
ando simplesmente às voltas de mim
borboleta que aspira a regressar apenas
à condição original.

Ademar
15.12.2006

Saudades de Orson Welles ou de Stanley Kubrick...

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Há vários manicómios no planeta travestidos de estado. A Coreia do Norte é um deles. O cenário e as poses da fotografia parecem retirados do extraordinário Dr.Strangelove, de Kubrick. O "Grande Líder" e o "Querido Líder": estou a imaginá-los representados por Peter Sellers (ou Orson Welles). O drama é que há milhões de seres humanos que vivem neste manicómio e que estão condenados a morrer nele. E nós quase nada podemos fazer para os salvar...

O filho dourado de um dos grandes apitadores...

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João Loureiro, fotografado por Sérgio Granadeiro.
Fonte: Expresso-Revista, 1134 (23.Julho.1994)

Publicidade criminosa...

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Rocalhadas sportinguistas...

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Título da edição de ontem do Record. Percebe-se agora por que o futebol do Sporting anda tão pouco fiável, digo, de fiar...Falta de roca...

A procissão dos "íntegros": quem mais quer colocar-se na bicha?...

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24 horas, 15 de Dezembro de 2006

Apito Dourado: "A hora é de trabalhar e não de falar"...

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É evidente que todos os portugueses decentes querem acreditar no Ministério Público, na polícia e nos Tribunais, aderindo ao apelo de Maria José Morgado, a procuradora-geral adjunta que irá coordenar a partir de agora o combate à corrupção no futebol.
Falta saber se esse voto de confiança não será uma vez mais traído...

Improviso quase aritmético...

De ciência certa
tens os astros e as moléculas
as ervas distraem-te os saltos altos
e a manta sobre as coxas
tecendo a neve
talvez tenhas poesia a menos nas tuas mãos
ou excesso de carga
digo
de ausências
mas voa de ti um novo corpo
como se apenas te multiplicasses.

Ademar
14.12.2006

A eterna maravilha do humano...

Vede, por favor, este video de Jerome Murat. Agradeço ao A.R. a sugestão.

dezembro 14, 2006

Improviso para musicar o dano...

E se tudo fosse ao contrário
do que autorizas?
se as sombras mentissem
a tua própria luz?
se todas as ervas daninhas
tocadas pelos teus olhos
não passassem de ervas danadas?
pouco sobra do engano que fomos.

Ademar
14.12.2006

Improviso para insculpir toalhas...

Todos os corpos são perfeitos
não importam as cores nem os caixilhos
nem mesmo o lugar da tela
e todas as cortinas são transparentes
como as luzes
como os olhos
como as mãos que convidam outras mãos
a água ausente
a toalha simplesmente do meu desejo.

Ademar
14.12.2006

Improviso para contar tatuagens...

Abre-me ao princípio da tua alma tatuada
suspende-te dessa fonte de enigmas
para que eu te interrogue
mesmo sabendo que não responderás
nega-me o nome
mas não me negues a valsa
venda-me os olhos
algema os pulsos abertos que te ofereço
mas não silencies a partitura
tenho palavras para o teu corpo
as palavras certas.

Ademar
14.12.2006

Ó mar Salgado, quanto do teu sal são náuseas de Portugal!...

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Sábado, 137 (14 a 20 de Dezembro de 2006)

Alguém consegue imaginar a náusea colectiva que se apoderaria do país se todos os portugueses e todas as portuguesas passassem a "resolver" em público as suas desavenças conjugais, presentes e passadas?...
Portugal não seria mais um país habitável por gente decente, mas um imenso aterro sanitário, para vagabundagem de cães vadios. Os mesmos que hoje correm às livrarias para comprar um dejecto em forma de livro, ajudando a credibilizar, mediaticamente, uma canalhice...

Antologia poética (433)...

Improviso para melancolizar...

Como se tivessem morrido
os teus cabelos já não cheiram
agora deserto-me de ti
e perco-me dos demais sentidos
até ao pensamento
fecho a porta e apago a luz
em mais uma cela
neste presídio de ausências.

Ademar
28.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (432)...

Improviso em forma de haiku para dizer o movimento...

Regresso ao fim
onde me encontrarei
com o princípio de tudo.

Ademar
29.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


dezembro 13, 2006

Improviso para vadiar eroticamente...

A aridez dos desertos não me faz desejá-los
castro-me de evidências
Eros reclama apenas a insinuação
os holofotes deprimem-no
descreio da realidade que me entra pelos olhos
como um chicote
prefiro a venda
o pressentimento que induz à peregrinação
sinto-me vadio de sombras.

Ademar
13.12.2006

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (6)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (5)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (4)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (3)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (2)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O sofrimento de quem interrompe uma gravidez... (1)

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Veja, 17 de Setembro de 1997

O grito de mulheres que abortaram...

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Veja, 17 de Setembro de 1997

Capas para coleccionar (8)...

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Veja, Ano 30, nº37 (17 de Setembro de 1997)

Improviso para violino e saudades...

A imperfeição das palavras agonia-me
quis escrever para ti o poema perfeito
e encalhei em mim
nada sai perfeito
quando aspiramos à perfeição
há um hiato entre o que somos
e o que dizem de nós as palavras
um buraco negro impenetrável intransponível
digo imaterial
fenda quase sísmica de ausências
todas as ausências que nos preenchem
aproximaste-te com um violino adormecido nos braços
e nem dei pelos dedos que me queriam tocar.

Ademar
13.12.2006

Antologia poética (431)...

Telegramando...

Não me esperes do outro lado da sebe stop
Não me obrigues a saltar sobre o muro
que posso cair e partir a bússola stop
Vem ao meu encontro procura-me stop
Estarei onde tu quiseres stop
e trarei comigo um sinal de luz
nos olhos cansados mas ainda abertos stop
para que me distingas na noite stop
no cinzento baço da penumbra dos bosques
por entre os pirilampos stop

Ademar

publicado em "Descansando do Futuro - Reserva de Intimidade", Edições Asa, 2003

Capas para coleccionar (7)...

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Pública, 73 (12.Outubro.1997)

Abortai-vos uns aos outros, como deus vos abortaria!...

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Estimativas são estimativas... Mas não há estudos, por mais "científicos" que se apresentem, que se substituam à realidade. E a realidade do aborto "clandestino" em Portugal é conhecida. Até a própria igreja católica a conhece (oh! se não conhece...).
O número projectado no título da edição de hoje do Público é pouco relevante. 350.000? 500.000? Haverá, em Portugal, alguma família que não tenha ainda experimentado ou vivido de perto o drama de um aborto (à margem da lei) imposto pelas circunstâncias?...
Teríamos de transformar o país num imenso campo de concentração para presidiários e presidiárias, se a penalização do aborto fosse para levar a sério...
Felizmente, vivemos num país esquizofrénico: ninguém quer castigar as mulheres e os homens que abortam; há apenas uns maduros que entendem que o crime deve continuar na lei, desde que ela não seja aplicada...
Isto não é uma nação... é uma expiação...

Pão e circo, para as criancinhas...

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Manchete da edição de hoje do Correio do Minho (um pasquim deprimente que se publica, diariamente, em Braga). Mesquita Machado, presidente "socialista" da câmara há quase 30 anos, foi ontem com crianças ao circo (não sei se para servir de palhaço). De acordo com a notícia propagandística do órgão oficioso do Partido Socialista à moda do Minho, serão seis mil as crianças que, durante esta semana, sairão dos jardins e das escolas "primárias" para ir ao circo, sob o alto patrocínio do pelouro da educação do município bracarense e dos hipermercados Feira Nova, que oferecem o lanche (o antiquíssimo conúbio entre o pão e o circo, não sei por que ordem). Presumo que o meu filho mais novo será um dos "felizes" contemplados, embora, até à data, não tenha trazido da escola a respectiva "convocatória"...
Não há município em Portugall que, por ocasião do natal ou da páscoa, não leve as criancinhas ao circo. Os jardins da rede pública e as escolas "primárias" podem viver na indigência, mas a esmola do circo pelas "festas", hélas!, nunca falta. E os presidentes camarários aproveitam sempre a ocasião para se fazerem fotografar ao lado das criancinhas... para o boletim municipal.
Esta é a verdadeira "magia" da política educativa a nível local. Tudo o que não proporcione uma boa fotografia... não presta. O dia-a-dia esforçado dos jardins e das escolas não tem préstimo iconográfico. E o que não vale uma imagem de arromba... não justifica o sacrifício do orçamento municipal.
É para estas autarquias (as excepções são raras) que o governo se prepara para transferir ad hoc mais competências no âmbito da educação. Que a terra nos seja leve...

Antologia poética (430)...

Improviso para celebrar Aristóteles...

Eu sei
é uma metáfora masculina
o esperma do teu riso
impudor de género.

Ademar
30.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (429)...

Improviso quase pornográfico...

Entre a espécie e o género
há lábios em ti a mais
e a menos
o teu excesso de humidade
endurece-me
sinto
que me impeles â metamorfose.

Ademar
30.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

dezembro 12, 2006

Improviso para dizer que nunca fui à Mauritânia...

Namoro a chuva dentro de ti
bailando miragens
ou talvez prefira manter-me à distância de uma ilusão
que o teu oásis sofre de exuberâncias pré-natais
até engana ou chora desertos.

Ademar
12.12.2006

Um pesadelo chamado weblog...

O weblog, creio, é uma plataforma nacional. Digo: montada e alimentada por portugueses. Quando, ao fim de mais de dois anos, decidi abandonar o sapo e confiar o abnoxio a outra plataforma, optei patrioticamente pelo weblog, apesar dos conselhos de alguns amigos que prognosticavam a desgraça. Fiz orelhas moucas: ainda sou daqueles que acreditam que os portugueses são tão bons ou melhores do que os outros, quando querem. Pelos vistos, e uma vez mais, enganei-me. Nos últimos dias, nunca sei quando poderei “postar”. Há sempre uma avaria ou um percalço que me impede de aceder ao motor de edição do weblog. Ainda por cima acresce que pago para alojar o abnóxio: sou um utilizador-pagador. E nem uma justificação ou um pedido de desculpas por parte dos administradores da plataforma. Para quem é, pelos vistos, bacalhau basta...
Este é o portugal que eu, francamente, abomino. Um pais onde nada parece funcionar como deveria. E onde os “clientes”, por princípio, nunca têm razão para se indignar.
Se não tivesse pago, já teria pedido refúgio aos americanos. Pobre país, triste circunstância...

Propaganda munixipal...

O senhor presidente inaugurando. O senhor presidente discursando. O senhor presidente visitando. O senhor presidente recebendo. O senhor presidente, o senhor presidente, o senhor presidente...
A maior parte dos boletins municipais portugueses não passa disto: uma provinciana vitrina da vaidadezinha e da soberba dos autarcas que, impunemente, à escala concelhia, vão delapidando os parcos recursos do país.
Se os portugueses soubessem quanto, todos os anos, os seus queridos autarcas esbanjam em propaganda pacóvia, provavelmente, deixariam de votar.
Perder-se-ia alguma coisa?...

O meu nojo da padralhada católica...

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Capa da última edição do semanário católico "Notícias de Viana". O meu nojo perante manchetes deste tipo é inadjectivável. A padralhada católica, que não concorre para a reprodução da espécie (senão fazendo, clandestinamente, às servas de ocasião, "afilhados" e "sobrinhos" imperfilháveis), acha-se no soberano direito de nos dizer o que é bem e mal em quase tudo o que toca à disposição do corpo. Deviam também interditar-se a masturbação, desperdício de esperma, fonte retórica de vida. A bebedeira religiosa não se recomenda à sanidade moral. Eu estarei sempre, furiosamente, do outro lado: das igrejas e das seitas, independentemente dos deuses e dos altares que nos queiram impingir. E não ficarei cobardemente em silêncio. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para que a hipocrisia e a desumanidade sádicas da padralhada católica não vençam, novamente, no próximo referendo. A vida merece muito mais...

Instrumento quase de sopro...

há um antes e um depois
tens a certeza?
inventemos um deus
tenho medo de chamar
a este bocado de sopro
a que chamo a minha vida
um bocado de sopro
inventemos uma tempestade
o que é uma tempestade
sem olhos que a vejam?
inventemos uns olhos
capazes de ferir e sarar
e uma cicatriz a testemunhar
hoje, a água traz toda sal
levo-ta para que a beijes
se não a fizeres doce
inventaremos um deus
que nos bebe as mágoas
antes de se ir deitar
ele dorme?
inventemos um mar
abre a palma da minha mão
e sopra

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (82)...

Esta é a casa que não chegarás a desvendar. Estás aqui, mas como num cemitério. Todas as rosas que me deste e que eu escondia...com elas, todas elas, estendi a toalha no altar em que te venero. Passaste pela minha vida, lentamente, como uma sombra de um deus qualquer. Eras inatingível, tal como te imaginavas. Eu rondei-te, mas nunca entrei. Ficava à porta a sondar os teus movimentos. À porta da casa, à porta da cozinha, à porta da cama, à porta de ti. Tu eras o centro de uma galáxia a que eu não pertencia. Viajava contigo e nunca saía de mim. Tu não querias e eu não seria capaz de te acompanhar. Há paralelas que não se cruzam, senão no infinito de nós...

C.A.

dezembro 11, 2006

Antologia poética (428)...

Improviso para cremar Woodstock...

Tudo parecia tão
simples
entre nós
nesse tempo
em que éramos só matéria
e as palavras
não engravidavam de metáforas
bastava dizer
amor
e tudo acontecia
deslumbradamente
como
numa eterna primeira vez
ainda te lembras?
era assim
depois adoecemos
de memórias.

Ademar
31.08.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (427)...

Improviso para dizer que os ponteiros pararam...

Se pudesse nascer outra vez
trocaria de casa e de berço
e faria outras viagens
não morreria assim distraidamente
como quem espera no cais deserto
o próximo comboio
e se atrasa sempre.

Ademar
02.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (426)...

Improviso para ritual e estremecimento...

A poesia calar-se-á
calar-se-á a música
despirás a bata branca
e não terás mais
para quem olhar
no lado oculto de ti
talvez agora
silenciados os violinos
estremeças finalmente da ausência.

Ademar
02.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Photo finish...

segura nos olhos as mágoas
e nas mãos um fio de vida
preso como água
ao leito de um farto rio
nenhum pássaro faz ninho
na passagem da água
a vida corre sempre adiante
aos olhos que nela pousam

Ana Saraiva

dezembro 10, 2006

É inteiramente verdade, Jorge: sempre que te vejo e ouço, fico ainda mais ateu, herege e iconoclasta...

Um amigo "da onça" sugeriu-me que espreitasse a 2. Fiz-lhe a vontade. Estava a ser entrevistado o arcebispo dito de Braga e porta-voz da "conferência episcopal" (o grémio da bispalhada católica). Há criaturas que eu não consigo ouvir sem sentir uma profunda e dolorosa repugnância interior. O senhor Jorge Ortiga, que em público e em privado se faz tratar por Dom, é uma dessas criaturas. Os deuses de serviço à humanidade devem fazer muito mal às pessoas, para elas ficarem assim...
A hipocrisia e a patetice deviam ser pecado (ou "crime")...

Um ministro-anedota ou uma anedota de ministro...

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Carlos Borrego, aqui fotografado por Marcelo Buainain para a Visão (3.Junho.1993), ostenta um feito político só ao alcance dos predestinados: era ministro (do ambiente) e foi sumariamente "despedido" do governo depois de ter contado uma anedota. Eu, por acaso, estava lá, na noite infausta e ouvi, ao vivo e em directo, a "graçola" de sua excelência (todos os ministros em Portugal passam a ser excelências, não se sabe bem de quê). Borrego metia dó, como quase todos os ministros neste país desgraçado (digo: politicamente, sem graça)...

Improviso para uma orelha solitária...

Nessa mão que
como que te ampara a memória
entre colunas e capitéis
existes num tempo que te transporta entre labirintos
ao recolhimento da infância
grécia e roma antigas sempre
ou
a nudez das formas que secaram no teu corpo
esse pescoço interminável
que termina abruptamente
numa orelha solitária
a única mesmo com que te ouves.

Ademar
10.12.2006

Antologia poética (425)...

Improviso sob a forma de antimadrigal...

Habito palavras suburbanas
perdi-me algures numa periferia de mim
viajo agora às arrecuas
no sentido contrário da infância.

Ademar
03.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

A propósito de uma sinfonia...

Se me sobrasse tempo para alguns caprichos, coleccionaria coincidências.
Prokofiev (aqui desenhado por Matisse)
matisse.jpg
compôs a sua primeira grande obra (e a minha preferida), a Sinfonia nº1 em ré maior, dita "Clássica", em 1917, ano da revolução bolchevique, que estrearia em Abril de 1918, em S.Petersburgo, perdão, Petrogrado, perdão, Leninegrado.
Depois saíu da Rússia, perdão, da U.R.S.S., e, durante quinze anos, cirandou pelo mundo dito "civilizado" (U.S.A., França., Alemanha, Itália, etc), somando êxitos e prestígio. Apertado entre o nazismo e o estalinismo, preferiu este e regressou às origens em 1936, depois de ter mendigado e esperado a "naturalização soviética" (ele que era russo) durante quase uma década.
A partir de 1938, proibido de sair ao estrangeiro, passou a estar "exilado" no seu próprio país e, dez anos depois, seria uma das vítimas da chamada campanha "antiformalista" de Jdanov, submetendo-se, para poder sobreviver, à indispensável retractação pública e confessando, como outros, os seus crimes estéticos.
Morreria no dia 5 de Março de 1953, algumas horas antes de... Estaline.
Ele há coincidências...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (424)...

Improviso para ser feliz...

Quando lá estive
nunca fui feliz
sou agora
a felicidade
é a ínfima parte da memória
que sobrevive em paixão
ao esquecimento.

Ademar
06.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (423)...

Improviso para dizer que talvez não existas...

Saí hoje de mim
à tua procura
não te encontrei
as fotografias dão muito jeito
quando procuramos alguém
que ainda não conhecemos
nem sabemos se existe.

Ademar
06.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Um anúncio, subliminarmente, salazarento ou... a publicidade ao nível da sarjeta...

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Anúncio da Antena3, inserido na NS. A maior parte da publicidade que se faz hoje em Portugal está ao nível da sarjeta. De mentecaptos para mentecaptos...

Importa-se de repetir?... (17)

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Sara Santos, Miss Playboy TV Portugal 2006, à NS (9.Dezembro.2006),
Fotografia de Luís de Barros (pormenor).

Saudades do portugal salazarento: "quando fores grande, hás-de ser boa dona de casa"...

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O Livro da Primeira Classe, para o Ensino Primário Elementar.

Saudades do portugal salazarento: homem, história, hino...

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O Livro da Primeira Classe, para o Ensino Primário Elementar.

Saudades do portugal salazarento: deus-pai, fonte de toda a autoridade...

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O Livro da Primeira Classe, para o Ensino Primário Elementar.

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dezembro 09, 2006

Saudades do portugal salazarento: deus, pátria e muita autoridade...

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O Livro da Segunda Classe, para o Ensino Primário Elementar.

O ídolo patético da sordidez (ou estupidez) lusitana...

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António de Oliveira Salazar, de serviço ao saca-rolhas, enquanto, de fato às riscas, luvas e chapéu, bebia a pátria pelo gargalo...
Este é o portugal dos pequeninos de que tantos portugueses, pelos vistos, ainda têm saudades. Paz às suas almas, sempre atentas, veneradoras e obrigadas...
Miserere...

Antologia poética (422)...

Improviso em forma de haiku para nota de rodapé...

O ponto crítico de todas as paixões
não está no comboio que parte
mas no comboio que chega.

Ademar
06.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Diálogo profano...

"Tu, ateu, numa igreja? Que fazes aqui?!..."
"Eu? Nada. O mesmo que todos os deuses."

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (421)...

Improviso para dizer os olhos e as mãos...

Para me especializar em ti
precisaria de olhos maiores do que os teus
mãos talvez mais argutas
que as mãos que lavram e semeiam no teu corpo
não podem distrair-se assim
entre poemas urbanos
vens de negro
(não consigo ver-te de outras cores)
e porém cheiras a tudo o que sorri
como se a primavera
tivesse adormecido para sempre
nos teus lábios.

Ademar
08.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

O carácter que ilumina as pessoas...

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Visão, 10 (27 de Maio de 1993).

Quase tudo me distanciava de Álvaro Cunhal, mas sempre o respeitei: o carácter iluminará sempre as pessoas...

Um país que está sempre a voltar ao princípio de tudo e de nada...

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Visão, 10 (27 de Maio de 1993).

Capas para coleccionar (6)...

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Visão, 10 (27 de Maio a 2 de Junho de 1993).

Passaram 13 anos. Aconteceu alguma coisa? Em Portugal, a História escreve-se sempre com as letras do Destino...

Por que não vão alternar para outra freguesia?!...

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Sol, 8 de Dezembro de 2006

Prova dos nove...

nunca percebi a prova dos nove
parece que se tiram nove e fica nada
e a conta está certa e inteira
e não sobra nada
arreliei-me
fiz outras contas
e contei
contei até não haver números sós
contei pelos meus dedos e pelos teus
quando estavas distraído a pensar
no atento que estavas a tudo
estou inteiramente certa
se tirarmos nove
sobra-nos a vida toda para contar

Ana Saraiva *

Há leitores do abnoxio que continuam a crer que Ana Saraiva é um heterónimo (como outros) do autor deste blogue. Não é. Ana Saraiva é uma grande amiga, também professora e poetisa. Trabalhando actualmente em Paris, concede-me a honra de partilhar comigo os seus poemas, que me autoriza a publicar aqui. Temos, ademais, em comum o dia do aniversário: nascemos ambos a 9 de Dezembro. Parabéns, Ana!

Aniversário...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o eco...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


Álvaro de Campos

dezembro 08, 2006

Capas para coleccionar (5)...

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K, 19 (Abril.1992)

Inviolados...

daquela vez, a natureza cansada
hesitou muito e não se decidiu
pôs-lhe uma viola nos braços
e disse-lhe para se esconder
armou-o de melancolia
e banhou-lhe a pele
de algo macio
como o peito
que não alimenta
bate apenas da surpresa
de haver tanto som no mundo
e é palco de rumores insistentes
falam do beijo
e tingem-se os lábios sempre
a natureza, já a surpreendi
deixa-o calçar as grossas botas devagar
e leva-lhe os dedos aos lugares
que tu e eu não sabemos
a natureza, desta vez
apartou-nos

Ana Saraiva

Eduardo Lourenço e o pasmo da Fénix Renascida...

lourenco.bmp

Página 10 do Público de ontem. Titulo: Ségolène France Royale. Autor: Eduardo Lourenço. Desconfiado, fui lendo e contando espantos, quero dizer, galanterias. Anotei:
Bela...
Imperiosa e, por fim, imperial...
Elegante...
Sedutora...
Musa...
Imaculada...
Visualmente encantadora...
Não há dúvida: quando as mulheres entram na política pela porta grande, a racionalidade dos homens (até mesmo dos “mestres pensadores”) vacila. Eduardo Lourenço reencontrou em Ségolène... o lugar do Anjo...
Que a paixão não o devore e a baba não o afogue...

dezembro 07, 2006

Uma poderosa metáfora de Portugal...

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Um amigo (obrigado!) fez-me chegar esta fotografia. Não sei (lamento) quem é o autor, mas tiro-lhe o chapéu. Há muitos anos que não via uma imagem que tão bem representasse e simbolizasse este país.

Improviso quase em sol...

A água não me conduz à terra de mim
sou bípede da alma
digo
sofro de materialidade vertebral
já não rastejo.

Ademar
07.12.2006

Rio...

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Não vivo no Porto, não posso dizer o que sentiria e pensaria se vivesse. Tenho alguns grandes amigos no Porto que não podem ver Rui Rio nem pintado. Eu simpatizo com ele, ainda que possa torcer o nariz a algumas das suas orientações e proclamações. Mas parece-me um tipo inteligente, honesto e coerente - e isso, para mim, nos dias que correm, é muito, é quase tudo...
Acabei de ouvi-lo na RTP1. Não mudei de opinião. E subscreveria por baixo muito do que ele defendeu. Sei também como alguma comunicação social não se recomenda à decência. Sei também como a subsídio-dependência (sobretudo, a pecuniária) alimenta todas as perversidades políticas, sociais e culturais. Sei como a promiscuidade entre o futebol e a política degrada a confiança dos cidadãos nos agentes políticos e, principalmente, nos autarcas. Sei tudo isso e sei muito mais: que a política é racionalidade e não apenas... encenação ou manipulação.
Quando me aparece um político com coluna vertebral e que não rasteja diante dos jornaleiros ou dos influentes do bairro mais próximo, eu exulto. Mesmo que possa apetecer-me, de vez em quando, puxar-lhe as orelhas ou insultá-lo...
Rio tem carácter - pergaminho raro nos dias que correm...


dezembro 06, 2006

O grande timoneiro de João Carlos Espada (quando Espada não era ainda católico, catedrático e cavalheiro)...

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Mao Tse Tung, pouco tempo antes de deixar de ser o grande timoneiro de João Carlos Espada, entretanto (ecumenicamente) convertido a Roma e a Oxford.
Fonte: Opção, 21 (16 a 22 de Setembro de 1976)

Como o tempo nos pesa...

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Jaime Gama, em 1976.
Fonte: Opção, 21 (16 a 22 de Setembro de 1976)

30 anos depois, só a designação do Ministério é que, verdadeiramente, mudou...

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Em Setembro de 1976, a revista Opção, dirigida por Artur Portela Filho, dedicava 4 páginas às “mexidas” no Ministério da Educação e da Investigação Científica, como então se designava o monstro. Caíam e rolavam cabeças aos pés do ministro Mário Sottomayor Cardia, falecido há dias (o “menino” da foto). O PCP falava já de “ofensiva global do ministro contra algumas das principais medidas progressistas levadas a cabo no campo da educação desde o 25 de Abril”. 30 anos volvidos, o Ministério só mudou de nome: continua a ser o principal travão a que alguma coisa possa, verdadeiramente, mudar em Portugal na área da educação. Há mais de 20 anos que venho propondo, publicamente, a sua extinção. Espero não morrer sem testemunhar o óbito do monstro...

Capas para coleccionar (4)...

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Capa de Manchete, 8 (Novembro.1993)

A cada gata o seu borralho...

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Hilary Swank (NS, 37, 23.Setemro.2006)

Improviso para explicar o bocejo...

Há imagens que me deixam assim
uma quase impotência de palavras
desmetaforizado
quando já nada combina no altar de mim
nem Boccaccio vendido a peso
nessa feira ambulante de novelas
e papéis de alterne
gótico
como agora sói dizer-se
finjo que não vejo a coxa descarnada
finjo aliás que não vejo nada
nem o que sobra das vestes.

Ademar
06.12.2006

Transparências...

quando te escondes em mim
vejo-me até perder a nitidez
ousa um passo atrás
insuportável
haver ar
tão transparente

Ana Saraiva

dezembro 05, 2006

Improviso em forma quase de passado...

Sobro para mim
quando já não cabes entre as margens
de ti
exalto-me nos teus silêncios
viajo-me nas tuas inércias
vou pelo lado contrário do destino
na ilusão de te encontrar
o mais longe possível de nós
essa proximidade que nos cega.

Ademar
05.12.2006

Diário em forma de silêncio (81)...

Oscilo vagarosamente entre Eros, Tanatos e Tântalo. Dependendo dos dias, ora festejo a vida, ora renuncio a ela, ora me adio, oferecendo-me a todos os sacrifícios. Por vezes, não resisto a perguntar-me sobre o sentido do sacrifício. Era suposto que o aceitasse por Eros, mas quase sempre é Tanatos que me acolhe. O meu corpo, convertido em fetiche, vai perdendo a vontade e a identidade. Imponho-me a obediência, mas é o silêncio que ouço gritar aos meus ouvidos. Já não sei se presto tributo ao prazer ou ao poder. A clausura vai-me pesando na alma cada vez mais. Desaprendo de respirar pelos meus próprios poros. Chego a sentir que já nem a pele me pertence. A escravidão repugna-me, mas é como escrava que me vejo ao espelho. O labirinto aproxima as paredes que me cercam. Apetece-me por vezes fugir, mas já não sei para onde e por onde. O meu corpo cegou e já nem os meus olhos vêem por ele...

C.A.

Importa-se de repetir?... (16)

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Joaquim Azevedo, ao Público (4 de Dezembro de 2006).

Dúvida quase cartesiana: aos seus actores... ou aos seus carrascos?...

A cavalo dado não se troça do dente...

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Santana Castilho, que gosta de se apresentar como "professor do ensino superior" * e derrama, semanalmente, nas páginas do Público, os seus abundantes segredos para a salvação da educação em Portugal, é um patusco. Mancomunado com a Texto Editores para fazer uma "revista especializada", experimentou morder a mão que lhe garantia o pilim. A Texto, que não é masoquista, cortou-lhe a esmola e Santana Castilho, coitado, indignou-se, usando o Público, em causa própria, para denunciar o ultraje e despir a roupa suja. Rigorosamente, uma sujeira...
São estes os "professores universitários" a quem António Barreto quer confiar a monitorização das "escolas inferiores"...

* Uma perversa curiosidade levou-me a procurar no google informação sobre esta criatura, que pomposamente assina "professor do ensino superior". Descobri que é "professor coordenador sem agregação" do Instituto Politécnico de Santarém - Escola Superior de Educação, apesar de não ter mais do que a "licenciatura em educação física". Mais depressa, em Portugal, se apanha um genuíno "professor universitário" do que um coxo...

Portugueses que eu admiro (4)...

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Há uma voz que me reconduz a mim próprio, todas as manhãs, sábados incluídos. Uma voz cheia, aveludada, perfumada, que diz todas as palavras como se fossem as últimas ou as primeiras. Uma voz que, impudicamente, ama as palavras e ama os ouvintes através das palavras e ama a vida e diz-nos tudo como se tudo não fosse mais do que poesia, não fosse menos. Nenhuma morte poderá jamais apagar vozes como esta. Não seria justo, se fosse possível. A voz de Fernando Alves é, para mim, a prova definitiva da inexistência de todos os deuses. Nenhum deus seria capaz de criar uma voz assim e pousar nela o feitiço que a distingue, superlativamente, de todas as vozes do universo. Eu só dou corda à telefonia para te ouvir, Fernando. Para acordar contigo...

dezembro 04, 2006

Um carrasco apaixonado... *

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Chama-se Fernand Meyssonier e foi, durante 14 anos, guilhotineiro (preferível a guilhotinador). Oh! como ele adorava a profissão!..."Agarrar a cabeça depois de a lâmina cair é uma experiência impressionante", diz ele. Tinha 16 anos quando descobriu a vocação. E ainda hoje lamenta que Mitterrand, o mal amado, lhe tivesse interditado o brinquedo. Ele adora guilhotinas: o seu fetiche. Até as constrói em miniatura, para oferecer aos amigos...
Tem, hoje, setenta e tal anos, mas continua a sonhar com o dia em que possa voltar a jogar à bola com a cabeça de alguém, um facínora como ele. Em 2002, publicou em França as suas... Memórias, "Memórias de um Carrasco". Ele há gente, neste mundo, para tudo. Até para hossanar a pena de morte e o método da decapitação. Fernand Meyssonier nunca foi guilhotinado, mas já perdeu, há muito, a cabeça. Eu oferecia-lhe uma, em miniatura...

*Fotografia e inspiração retiradas da última edição de Sábado.

dezembro 03, 2006

António Barreto: o discípulo português de Jonathan Swift...

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Haja Deus! (serve um qualquer): António Barreto também tem uma solução para os males da educação em Portugal... A fórmula vem hoje no Público e ocupa quase uma página inteira (generosidade do autor).
As “propostas” de Barreto são cíclicas. Já lhe li não sei quantas. Por exemplo: entregar o ensino básico e o ensino secundário às câmaras municipais... É uma hipótese, para apressar de vez o enterro do defunto...
Hoje, não. Discorre sobre as doenças do “sistema” (algumas delas são tão visíveis que saltam à vista de qualquer cego) e “propõe” uma solução: a monitorização das escolas básicas e secundárias pelas... universidades.
Excelente! Ainda não tinha ocorrido a ninguém...
As universidades, de facto, é que sabem: são elas que preparam os “desgraçados” e incompetentes professores dos ensinos básico e secundário, são elas que governam o Ministério da Educação, são elas que fornecem ou controlam a formação contínua, são elas que formatam as modas curriculares, pedagógicas e didácticas, são elas que padronizam e vinculam as várias terminologias, foram elas que, a montante e a jusante das escolas “inferiores”, conduziram o “sistema de ensino” ao estado miserável em que ele se encontra. Barreto acha que a solução está nas... universidades. Jonathan Swift não faria por menos...
Conto uma estória. Há alguns anos, um ilustre professor universitário pediu-me que lhe revisse a tese de doutoramento, que a pusesse, pelo menos, em português “decente” (expressão dele). Quando comecei a ler o “tijolo”, ia morrendo de espanto: eu tinha alunos no secundário que pensavam e escreviam muito melhor do que ele. A criatura fez o doutoramento e hoje já é professor catedrático. As universidades portugueses, em geral, não se recomendam à decência, nem à inteligência. Barreto, o salvador, deve viver em Espanha...

Uma piada... patético-notarial...

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Este anúncio "institucional" da Ordem dos Notários (cuja existência eu desconhecia) parece uma candidatura ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Os senhores notários, pelos vistos, aspiram a ser embaixadores: estão no seu pleníssimo direito. Mas conviria talvez que ninguém soubesse...
Não vão os cidadãos que recorrem aos seus serviços pensar, quando eles se atrasam, que mudaram de profissão e partiram também para o Iraque...
A tolice tem as pernas longas...

"Deus disse: "Crescei e tende juízo!" E os homens, finalmente, tiveram: inventaram outro bode expiatório..." (Génesis, versão actualizada).

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Público, 2 de Dezembro de 2006

dezembro 02, 2006

O senhor que é fá (sol, lá, si, dó) da vizinha...

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Este senhor será mesmo... confiável?...

A "Senhora" deles...

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Entrevistam-se uns aos outros, genuflectem-se, admiram-se (nos intervalos da intrigalhada e da sacanice). O jornalismo queque à moda de Lisboa e de Cascais é um permanente convite à gargalhada. Maria João Avillez é o expoente máximo da gelatina nacional. Hoje, a Notícias Sábado entrevista a “entrevistadora da nação”. Escreveram mal o substantivo: eu preferiria a versão “entrevistadeira”. Há vinte e tal anos que vomito, compulsivamente, a “Nossa Senhora”, digo, a Senhora deles...

Portugueses que eu admiro (3)... *

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Há portugueses assim: que não precisam de mais de quatro letras para se destacarem do rebanho. S de Sentido (ou de sentidos), I de inteligência, Z de zénite e A de Arquitectura. SIZA: Siza Vieira. Tenho por ele e pela sua obra uma admiração infinda. Felizmente, não sou só eu. Siza é um dos “príncipes” da arquitectura mundial. E um dos melhores de nós. E dos mais discretos. A grandeza abomina a montra...


* Fotografia de António Pedro Ferreira, publicada no Expresso-Revista (16.Maio.1998)

Quase miudezas...

a miúda perguntou à mãe
se senhoras acima dos 50
mas senhoras a sério!
também podiam ter sida
que não, que ideia maluca!
e o pai, por onde anda
na vida dele
só dele
nossa também
a miúda perguntou à mãe
se o pai ainda a beijava
que não, que ideia maluca!
mas procurava-a ainda
e isso tinha de ser
um dia ela iria entender
de que morrem as mulheres
e tu morres mãe
esqueci-me de mim há muito
isso é morrer
as mulheres morrem meninas
morrem de pé e sozinhas
eu não quero morrer, mãe
põe aí a cruzinha, diz que sim
que senhoras, meninas e putas
têm todas os olhos fechados
quando dizem que sim

Ana Saraiva

Improviso para dizer a raridade...

Não sei como me perca nas tuas palavras
antes delas
perder-me-ei sempre nos lábios que te silenciam
essa boca que instintivamente me viaja noutras condições
menos retóricas
e que me transporta ao universo aquém do teu corpo
a raridade de todos os alvos
que em ti espreitam e desafiam o desejo especular
o teu mapa reservado
tratado de anatomia impublicável
e as mãos que te folheiam
as únicas aliás que até hoje
não tropeçaram as páginas inumeradas.

Ademar
02.12.2006

Jogo de azares...

eu não sou tu
e também não sou eu
hoje ainda menos me sou
que me deitei a perder como dados
e ganharam o jogo, depois de ter durado
para o declararem acabado
saio na açucena da mulher de cabelo preto
é injusta a vida que assim distribui a beleza
e o tempo de a prender
o orvalho é velho, cheira a sótão e a segredos
dispo o vestido e piso as folhas com os pés nus
são os poemas de alguém que se perdeu a olhar por uma janela
sei-os como o sangue que me percorre quando chega Março
abro os olhos para ver
e lá vai a açucena pelo ano de uma graça imensa
presa em mim

Ana Saraiva

Improviso sobre nenhumas vestes...

O meu desejo perdeu as vestes
está nu neste inverno de dentro
treme de frio quase enregela
todas as correntes o levam
todas as correntes o trazem
e não há sofrimento que o distraia
o meu desejo não tem
encontro marcado com a morte
confunde-se com ela.

Ademar
29.11.2006