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novembro 29, 2006

Hesitâncias...

estou quase a desistir
tudo é igual a tudo
já toda gente o pressentia
mas só depois o sabem
não há nada que faça a mínima diferença
por mais nuclear que seja o gesto
e no entanto hesito muito
entre o ameixa-sangue e o lacre-da-china
os meus olhos vão de um a outro
e os lábios escurecem
na antecipação
toda a vida nesta indecisão
a vida antes de me arrepender
de não ter levado nenhum
ou de ter molhado os lábios
no pecado errado
impede
que rios e ruas se encham de corpos
onde o sangue já não corre criança

Ana Saraiva

novembro 28, 2006

Improviso sobre uma tela quase de Bruegel... *

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Há véus que nos protegem
oferecemo-nos assim
numa bandeja de olhares cativos
pintamos de cores baças o destino
somos a espera
e espreitamos
caberemos sempre na tela
não há mercado que nos esgote.

Ademar
28.11.2006

* Fotografia de Rosário Tique publicada no Expresso-Revista (nº1195, de 23 de Setembro de 1995)

Diário em forma de silêncio (80)...

Tropeço nas memórias, tropeço em ti. No lugar dos teus olhos, vejo agora uma câmara. Finjo que não reparo nela e dispo-me, porque sei que é o que esperas da actriz. E o teu desejo, tu adivinhas, faz com que eu me deseje. Ninguém conhece melhor o corpo do que quem o transporta. Mostro-te o caminho e tu aprendes. Aprendes depressa. No lugar das minhas mãos imagino as tuas. E os teus lábios. E a tua língua. Sim, é uma espécie de ensino individualizado. Só tu e eu. Digo: só eu...

C.A.

Improviso para guitarra, voz e algemas...

Inclino-me aos teus gritos
Todos os vazios suplicam desertos
as mãos que escorrem pela tua inércia
e simplesmente rastejam
a esperança trocou sempre o destino
não há fadas boas nem fadas más
e a guitarra convida sempre ao corão
o fado é o cárcere em que resides
quando descantas.

Ademar
28.11.2006

Em campanha, todos os políticos são varinos e bicicletam...

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Varinos: Pacheco Pereira e Fernando Nogueira, fotografados por Rui Ochôa.
Fonte: Expresso-Revista, 1195 (23.Setembro.1995)

Modernices educacionais de um pretendente por profissão...

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Duarte dito de Bragança, pretendente não se sabe muito bem a quê, à V., nº0 (Novembro de 1997)

Poses contranatura (124)...

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Poseiro: Freitas do Amaral, fotografado por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1195 (23.Setembro.1995)

Importa-se de repetir?... (15)

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António Lobo Antunes no Público-Magazine (24.Setembro.1995).

Poses contranatura (123)...

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Poseiro: Yasser Arafat.
Fonte: Expresso-Revista, 1110 (5.Fevereiro.1994)

Capas para coleccionar (3)...

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Expresso-Revista, sem número e sem data de edição. Talvez bruxedo, talvez feitiço...

Ensino Superior (prós e contras). Moral...

Os ministros têm sempre solução para todos os males do país. Infelizmente, para eles (e para nós), só eles sabem...
Por favor, desliguem a máquina!

Ensino Superior (prós e contras). Take 6...

O senhor ministro apresentou a lista das coisas que não foram feitas... (António Nóvoa)
O processo de Bolonha não está a ser atamancado. (Mariano Gago)
Senhor ministro, isso não corresponde à verdade! (Seabra Santos)
Eu já garanti aqui que... (Mariano Gago)

Ensino Superior (prós e contras). Take 5...

A política do ministro é nomear comissões? (António Nóvoa)
Os reitores precisam de uma sacudidela. (Moniz Pereira)
Os cortes no orçamento têm, precisamente, essa função: sacudirem os reitores da sua sonolência! (Moniz Pereira)

Ensino Superior (prós e contras). Take 4...

Os reitores das universidades são maus gestores. (Moniz Pereira)
Os reitores têm esperado sentados que a árvore das patacas abane ! (Moniz Pereira)
Tu coças as minhas costas para eu que coce as tuas! (Moniz Pereira)
O senhor ministro fez: nomeou três comissões! (Moniz Pereira)

novembro 27, 2006

Ensino Superior (prós e contras). Take 3...

Senhor Ministro, veja se o informam! (Adriano Moreira)
O sistema de avaliação do ensino superior custava três milhões e meio de euros aos contribuintes. (Mariano Gago)

Ensino Superior (prós e contras). Take 2...

Existem muitos desperdícios no ensino superior. (Mariano Gago)
O ensino superior tem estado a ser mal avaliado. (Mariano Gago)
O sistema de avaliação do ensino superior está errado. (Mariano Gago)
Sinto uma grande incomodidade em que o ensino superior seja discutido numa lógica de cultura das despesas. (Adriano Moreira)
As despesas com o ensino e a investigação são despesas de soberania. (Adiano Moreira)
Estas matérias têm sido tratadas, senhor ministro, com alguma leviandade. (Adriano Moreira)

Ensino Superior: prós e contras... (Take 1)

Portugal chegou tarde ao ensino superior e à educação (Mariano Gago).
Temos mais de mil licenciaturas só no ensino público. Pode ser? (MarianoGago).
Toda a gente devia estar a fazer planos para o futuro. (Moniz Pereira)
O problema não são as palavras: são as políticas. (António Nóvoa)


Ai se ela contasse tudo o que tem visto e ouvido!...

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Lançou e mantém, com uma teimosia singular, a rede de bibliotecas escolares. Lidou com vários ministros e ministras e sobreviveu a todos e a todas. É uma mulher do caraças, como diriam os nortenhos. Guarda a ironia para a intimidade, mas se um dia contasse tudo o que tem visto e ouvido, o país ficaria em estado de choque e exigiria a extinção sumária do Ministério dito da Educação. Tenho muito respeito e apreço por Teresa Calçada, aqui fotografada por Luiz Carvalho, para o Expresso, há mais de dez anos.

Palavras imensas que esperarão sempre por ti...

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YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny de Vasconcelos

Os poetas morrem sempre um pouco mais...

todos dizem que não morreste
a desvantagem de ser poeta
é teres cancro e findares
e haver caixão e flores
o vislumbre da tua face cavada no tempo
já pálida para nunca mais
e todos negarem com os teus poemas na mão
o Cesariny não morreu!
e recitam e citam e lembram
que os poetas não morrem
há o corpo no caixão
serve apenas para dizer
que não morreste
mas eu digo-te que morreste
nunca soube a tua morada e continuo a não saber
suspeito até que já te tinha matado
mas tu não te importaste
e agora muito menos
eu leio-te
eu sou a morte
deixa-me fazer uma pergunta
não sei em que colo a deposite
o teu está tão frio

como é que te dispuseram as mãos?

Ana Saraiva

novembro 26, 2006

Os poetas nunca morrem: em todas as ruas te hei-de encontrar, em todas as ruas te hei-de perder...

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Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny (1923-2006)

Improviso sobre mulheres...

Nunca as mulheres se completam
nascem umas das outras
umas nas outras
e as mãos quase inertes dos homens
passam sempre ao lado delas
nunca chegam a tocá-las
as mulheres não respiram
elas próprias são
atmosferas impartilháveis.

Ademar
26.11.2006

A poesia é um feitiço que se apropria do poeta para sempre...

12
A poesia é a terceira margem do rio de cada um. Mas nenhum poeta regressa mais à margem donde partiu. A poesia é um feitiço que se apropria do poeta para sempre. Os cientistas nada sabem de mistérios e de predestinações. A poesia estranha-os.

Quem quiser penetrar o mundo do poeta, tem de abdicar do seu próprio mundo...

11
A poesia é a terceira margem do rio de cada um. Para quem nela se descobre e se desvenda não há mais retrono possível - a poesia gruda-se à pele interior da alma, projectando-a para a grande viagem em direcção a uma identidade e a um destino. O poeta é, por isso, um ser único e o universo todo. Singular, ele só se reconhece no plural de si próprio, de todos os sentidos que o denunciam. O poeta é o criador de um mundo à sua medida. E não tem outro. Quem quiser penetrar o mundo do poeta, tem de abdicar do seu próprio mundo.

Há uma compreensão primordial da vida que a natureza só consente às crianças - e aos poetas...

10
A mão que embala o berço do poeta. A criança aprende a falar (e a ouvir, e a cheirar, e a tocar, e a ver...) sem que ninguém a ensine. Aprende a adivinhar o mundo e a percebê-lo pelos seus próprios sentidos. Há uma compreensão primordial da vida que a natureza só consente às crianças - e aos poetas. Por isso é que não há escolas de crianças, nem escolas de poetas.

Fazer de cada criança um artesão do imaginário...

9
Na oficina mágica das palavras (da leitura e da escrita) fazer de cada criança um artesão do imaginário - eis a divisa que deveria estar inscrita na alma de todas as escolas. Na oficina mágica das palavras, cada criança tem o seu tempo e a sua medida de ser poeta. E a sua recompensa: o lento reconhecimento dos limites do seu mundo e a consciência de que esses limites podem ser a ponte para outros mundos...

Poeta como domador dos mistérios da vida...

8
A poesia é uma permanente recriação do eu e uma permanente reinvenção do mundo. O poeta é, por isso, o grande domador dos mistérios da vida. Ele é o verdadeiro filósofo, o verdadeiro terapeuta, o verdadeiro educador, o primeiro dos artistas e o primeiro dos sábios. Quem domina os instrumentos da expressão poética está mais próximo da eternidade. A poesia está rigorosamente nos antípodas da morte. É a vida no seu máximo esplendor...

Brinca comigo, apossa-te de mim, faz-te transportar nas asas que te empresto...

7
Antes do texto, são as palavras e antes das palavras, o corpo que as exige. Não há brinquedo com uma maior carga erotizante do que as palavras. Quem aprende a brincar com elas – aprende a brincar consigo, num jogo de permanente descoberta que o poderá introduzir ao conhecimento do mais fundo, reservado e misterioso da sua alma. O texto que vale a pena é sempre um convite a essa viagem. É o texto que se faz desejar, dizendo, ao leitor, simplesmente – brinca comigo, apossa-te de mim, faz-te transportar nas asas que te empresto.

Através do sofrimento, só se aprende...a sofrer...

6
Através do sofrimento, só se aprende...a sofrer. O sofrimento do texto não desperta na criança o desejo do texto, apenas o repele.

A poesia morre na praia da escola...

5
Cada sala de aula é uma morgue, as crianças trabalham sobre cadáveres. Antes da autópsia, é necessário acabar de vez com os ainda moribundos. A escola acredita que, à vista das entranhas dos corpos retalhados, as crianças ganharão amor aos cadáveres, identificar-se-ão com eles, desejarão partilhar o seu destino. A poesia morre na praia da escola, quando a criança é chamada a empunhar o bisturi dos gramáticos e dos linguistas para a estocada final.

Depois do cemitério, o necrotério...

4
Depois do jardim, a escola. Depois do cemitério, o necrotério. A lógica da educação organizada pelos estados é sempre a lógica inversa da vida (ou da morte, sua irmã gémea). Primeiro, enterra-se os cadáveres. Só depois se procede à autópsia. A escola remata o trabalho do jardim. Não basta matar e enterrar a infância – é necessário, sobre os restos mortais da criança, fazer aparecer o adulto. A escola, com uma eficácia cirúrgica, organiza e promove a metamorfose.

A “utilidade” de uma criança não está em ser criança, mas em deixar de o ser...

3
O jardim de infância, o jardim da infância. Mas que árvores e que flores plantam as crianças nos seus jardins...de cimento? A grande mentira da educação começa geralmente no jardim de infância, que de jardim (ainda que apenas simbolicamente) só tem o nome. Mais apropriadamente, deveríamos antes chamá-lo “cemitério da infância”. Porque é disso que verdadeiramente se ocupam os chamados jardins de infância (ou a maior parte deles) – matar e sepultar a criança, para potenciar o adulto.
A “utilidade” de uma criança não está em ser criança, mas em deixar de o ser. Esta poderia ser a epígrafe de quase todos os jardins de infância e de quase todas as escolas. Se pudessem, os governos aboliam a infância...

O primeiro brinquedo...

2
A palavra é o primeiro brinquedo que construímos, mesmo quando não somos capazes ainda de lhe dar uma forma que os outros entendam. Poeta é aquele que jamais deixa de brincar com as palavras e com os sentidos que lhes confia.

Poesia: única liturgia do eu...

1
A poesia é a terceira margem do rio de cada um, a canoa que nos transporta para longe dos olhares que só vêem o que parece. O poeta parece-se – não se parece com ninguém. Os remos do poeta só servem nas suas mãos e na sua canoa. Cada poeta tem a sua gramática e o seu vocabulário. E o seu baú privado de metáforas. A poesia é, verdadeiramente, a única liturgia do eu...

Como a escola, meticulosamente, mata os poetas e os leitores...

Costumo dizer que sobrevivi como leitor (e como poeta) à leitura, análise e interpretação de "Os Lusíadas". Sobrevivi, confesso, porque trapaceei. Sem os professores saberem, li "Os Lusíadas"...em prosa.

O poeta gaúcho Mário Quintana (1906-1994) não fazia por menos: “quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro”. Tenho, efectivamente, para mim que a poesia não se ensina, não se explica, não se interpreta. “Cuidado! (dizia ainda Quintana) A poesia não se entrega a quem a define”.

Tenho um texto publicado (“A poesia é a terceira margem do rio de cada um”), em que vagabundeio sobre os modos como a escola, meticulosamente, assassina os poetas (e os leitores), cadaverizando-os. Recuperarei seguidamente alguns excertos desse texto.

novembro 25, 2006

Diário em forma de silêncio (79)...

Eu sei que estranhavas. Não precisavas de abrir a porta, eu entrava sempre pela fechadura. Entrava e mal me fazia anunciar. Nenhuma mulher entra assim na casa do homem que pratica. Entrava eu. Nada de beijos cinematográficos. No minuto anterior, não estava. No minuto seguinte, já estávamos os dois, como se nada, entretanto, tivesse acontecido. Era o estilo da minha inibição, reserva (creio) que nunca chegaste a entender. Reserva de gestos, reserva de sentimentos. Disse-te muitas vezes, nunca te enganei: não havia paixão no olhar que, através de mim, te procurava. Apenas conforto. E delicadeza. A mão que me deste... era a mão que eu sempre buscara. A mão e o braço que a prolongava. Que tantas vezes, carinhosamente, me almofadaram. O mais foi retribuição...

C.A.

Improviso com todas as teclas...

O alimento das imagens que me serves
teclas que vais tocando à distância
com os olhos
este piano de tantas palavras
que te engravidam
dizes tu ou eu adivinho
devolvo por metáforas o toque
dos teus olhos
metaforizo-me
para que não me confundas com o silêncio.

Ademar
25.11.2006

Poses contranatura (122)...

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Poseiro: Cavaco Silva, fotografado por Adelino Meireles.
Fonte: Público-Magazine, 251 (31.12.1994)

A geração que nos enrascou...

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Fotografia de Ilídio Teixeira, publicada no Expresso-Revista nº1156, de 24 de Dezembro de 1994.

Há um tempo, na vida, para tudo, até para se ser adolescente. Estes jovens terão hoje à volta de trinta anos e, provavelmente, sentir-se-ão agora mais enrascados do que em 1994. Só que já não se manifestam. Andam por aí, mais ou menos discretamente, a tentar fazer pela vida. E como ela lhes deve pesar...

Poses ou posses de Estado...

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Boris Ieltsin e Bill Clinton.
Fonte: Expresso-Revista, 1156 (24.Dezembro.1994)

A poesia devia vacinar contra a velhice, a decadência e a morte...

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Sophia de Mello Breyner, fotografada por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1158 (7.Janeiro.1995)

Sempre muito "livres" e de perfil...

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A "liberdade" de perfil, fotografada por David Burnett.
Fonte: Público-Magazine, 1 de Novembro de 1992

Um verdadeiro artista do amor e do sexo!...

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O Sol, na edição de hoje, atribui a Luís Filipe Menezes esta extraordinária proclamação.
Convém reconhecer que o presidente da Câmara de Gaia é capaz disto (muito amor com muito sexo) e de muito mais. Pena que ele não tenha contado...
Como o Porto que conhece a família Menezes deve estar a rir depois de ler o Sol...
Até parece que estou a ouvir Léo Ferré: "la musique se meurre, madame!"

Capas para coleccionar (2)...

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Le Nouvel Observateur, 587 (15 de Fevereiro de 1976)

Capas para coleccionar (1)...

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Vida-Independente, 423 (21 de Junho de 1996)

Tortuosos serão sempre os caminhos do Senhor...

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É a grande manchete da edição de hoje do Sol. A Quinta da Marinha está com problemas de saneamento social. O país e o mundo estremunham e o pânico alastrará...
Receio que, na próxima edição, o Sol nos traga notícias fresquinhas e retumbantes sobre a intimidade sexual de José António Saraiva. Ou sobre o estado da horta de José António Lima...
Já se sabia e, uma vez mais, se confirma: Deus não dorme em serviço. E não castiga com paus, nem com pedras...

Patologias. Um caso terrível de depravação social: Carmona Rodrigues...

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Revista Sábado, edição de anteontem. Página 66. Reportagem de uma tal Maria Henrique Espada sobre Carmona Rodrigues, presidente da CML. Título: O homem que diz sim a tudo".
Repare-se na abertura do "destaque" que serve de "lied" à peça: "Arrasta as reuniões para não calar ninguém e é simpático até com os motoristas."
Extraordinário: Carmona Rodrigues até consegue ser simpático com os motoristas! Certamente, um caso de depravação social!...
Em Lisboa, a "arraia-miúda" trata-se a pontapé. Ou à espadeirada...
Estes jornaleiros...

novembro 24, 2006

Diário em forma de silêncio (78)...

Dei-te a provar das minhas fantasias, deixei-me embalar no teu corpo encarcerado, aceitei partilhar a tua reclusão. Não me defendi, nem mascarei. Chamaste-me para o palco, para o teu palco, e eu fui. Não sei se estavas lá, mas eu fui. A tentação das tuas luzes era o último espelho a que eu me via. Ou o primeiro. Fizeste de mim o que quiseste. Fiz de ti o que quis. Não sobrou nada de nenhum para o outro...

C.A.

Improviso para dizer que cego...

Não sei com que olhos me vês
entre tantos reflexos
o pescoço que parece prolongar-te
no atrevimento da proa
e o cabelo
o teu cabelo
que voa
e eu com ele
partindo os lábios ausentes
dos mamilos falsos que me ofereces.

Ademar
24.11.2006

Antologia poética (420)...

Improviso para desver ao longe...

De imagens e de palavras
como tijolos
se faz em mim o desejo
raramente encaixam e fecham
sobram sempre frestas muitas frestas
para espreitar o mundo
e do lado de fora
já não existo
não consigo ver-te.

Ademar
08.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Importa-se de repetir? (14)...

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Frederico Cunha, fugitivo da justiça dos homens e servo de deus, ao Expresso (22.Junho.1996).

Antologia poética (419)...

Improviso para azulejo...

Não preciso de muito
para ter sido feliz.

Ademar
09.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Como o tempo nos deposita no que fomos...

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Augusto Santos Silva, há dez anos atrás, fotografado por Sérgio Granadeiro.
Fonte: Expresso-Revista, 1234 (22.Junho.1996)

Antologia poética (418)...

Improviso lunar...

Sugeres-me a praia
em vez do alto-mar
não sei se a terra
começa ou acaba em ti
mas há ainda vestígios de lua
nas ondas que me trazes.

Ademar
09.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

"Escrevo para me distrair do amor"...

"Infelizmente, aos oitenta anos, pode estar-se apaixonado. É tarde para os outros, mas não para nós. Escrevo, precisamente, para me distrair do amor." (Jorge Luis Borges)

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Jorge Luis Borges com Maria Kodama.

Todos os deuses adoram fazer-se fotografar com o futuro...

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Mao Tsetung, sorrindo entre crianças (que os deuses também sorriem)...

Importa-se de repetir (13)...

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Desabafo atribuído a um tal Manuel Monteiro, então líder do CDS/PP.
Fonte: Vida, 21 de Junho de 1996

novembro 23, 2006

Improviso à guisa de preâmbulo ou de epígrafe...

O meu palco tem paredes estreitas
não vai muito além de mim.

Ademar
23.11.2006

Tiros no escuro...

Não sou caçador. Nunca fui, jamais serei. Não conheço o peso e a forma de nenhuma arma de fogo, não tenho a experiência (e jamais terei) de pressionar um gatilho. Não fui à tropa (nunca, por isso, me fiz homem!), não andei aos tiros, não matei (nem fui morto). Militares... prefiro-os o mais longe possível do horizonte dos meus olhos. Se fosse deus, abolia a espécie. Militares e, aliás, sacerdotes (de todas as igrejas e seitas). No mundo que eu determinasse, a violência e a mentira teriam de inventar outras fardas e outros ritos...
Os únicos tiros que dou são em sentido figurado. De vez em quando, há uma força estranha em mim que me impele a disparar no escuro. Talvez acerte, talvez não. Mas, no acto de atirar, projecto toda a esperança e toda a ilusão que ainda me restam.
Conseguirãs entender-me?...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

A extraordinária fotografia de um morto despedindo-se da vida...

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François Mitterrand, fotografado por Eric Gailland.
Fonte: Público-Magazine, 241 (16.10.1994)

Confissão...

Sofro, entre outras, de uma dependência que me condena ao isolamento. Não consigo viver e escrever (e confundo, permanentemente, as duas dimensões) sem música. As mulheres que acreditaram, um dia, poder mudar-me, desistiram todas (ou eu desisti delas). O "ménage à trois" não funcionava: acresce, ademais, que a música, como a escrita, é feminina. Claro que tenho sempre a esperança de encontrar, um dia, alguém que esteja disponível para me partilhar com ambas. Faço parte, obviamente, da raça dos optimistas...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (121)...

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Poseiro: Truman Capote, fotografado em 1948 por Irving Penn.
Fonte: Pública, 112 (12.Julho.1998)

Antologia poética (417)...

Improviso para dizer a eternidade...

Traz-me num sorriso o Requiem de Brahms
"Denn alles Fleisch, es ist wie Gras"
não importa o que os teus lábios digam
ou cantem
cai simplesmente diante de mim
fulminada por um tiro no escuro
como numa sequência de Hitchcock
e abre-me a porta (ou a janela)
para uma segunda ou terceira vida.

Ademar
10.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Poses contranatura (120)...

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Poseiro: Francis Bacon, fotografado em 1962 por Irving Penn.
Fonte: Pública, 112 (12.Julho.1998)

Antologia poética (416)...

Improviso para epígrafe...

Fala-me da eternidade
dir-te-ei como matarás.

Ademar
11.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (119)...

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Poseiro: Ingmar Bergman, fotografado em 1964 por Irving Penn.
Fonte: Pública, 112 (12.Julho.1998)

Improviso para quatro cordas, um arco e duas mãos...

Um violino sobre a memória
de todos os sons que me habitam
seja o teu
mesmo um falso stradivarius
esse mesmo
que apenas uma vez
arranhaste para mim
um violino quase abandonado
esquecido da delicadeza das tuas mãos
não há cordas que preencham
nem arco
o discreto rumor da tua ausência.

Ademar
23.11.2006

Fotografias que ainda hoje me envergonham...

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Se tivesse de eleger as fotos mais canalhas do século XX, estas fariam, certamente, parte da galeria. Tudo me separa, politicamente, dos fotografados: Alexei, Olga, Tatiana, Maria e Anastasia (não sei por que ordem), os cinco filhos do último czar da Rússia, Nicolau II, e de Alexandra, a czarina. Como é sabido, foram todos executados numa adega de Ekaterimburgo, na noite de 16 para 17 de Julho de 1918, por um pelotão de soldados bolcheviques reunidos à pressa e razoavelmente embriagados. Estas fotografias terão sido feitas no final de 1917 e espelham a humilhação a que os vencedores, frequentemente, sujeitam os vencidos. Eu sei que os Romanov simbolizavam a barbárie, mas recusar-me-ei sempre a aceitar que a barbárie seja punida na mesma moeda. A civilização há-de sempre distinguir-se pela elevação e pelo humanismo com que trata aqueles que considera criminosos. Todos os dias tento ensinar isto aos meus alunos....

O género humano como esterco (1)...

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Augusto Pinochet, assassino fardado.

Mário Viegas, e(ternamente)!...

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Morreu no dia das mentiras. Já passaram 10 anos. Nunca chegaremos a fazer o luto...

novembro 22, 2006

Portugueses que eu admiro (2)...

Alberto Pimenta faz parte, há muito, da minha galeria privada de portugueses excelentíssimos. É o meu “homo sapiens”. Graças a ele, aprendi a distinguir, pelo discurso, todos os filhos da puta que trazem a pátria a tiracolo, neste pais que, como escreveu um dia Almada Negreiros, parece a pátria deles. Devo-lhe também “A magia que tira os pecados do mundo” e tantos “ensaios” exemplares, como este.

albpimenta.jpg

Improviso sobre uma imagem...

egipto.png

Visitas-me quase na morte
esse tempo que teima em adiar
o inadiável
tento o feitiço da estátua
que ainda não abraça
acordo no centro dos teus olhos
e cego
há uma luz que me escapa das mãos
e já não agarro
subo e desço escadas
no museu que serei
explico-te
há uma ala de mim
que ainda não abri ao público
porque é lá
exactamente
que me esperas.

Ademar
22.11.2006

Improviso quase surrealista...

Não sei se no chão ou na mesa
provas-me
serei o prato
serei o rato
ou
o reflexo talvez da escuridão
que te aproxima
iluminando-te
as algas as conchas as sombras
o mar todo depositado no teu corpo
que vem assim à praia
que vem assim a mim.

Ademar
22.11.2006

Saia uma estátua, por favor, para este homem! Ou um peditório...

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A minha costela católica faz-me ter pena deste homem (suponho que poderei tratá-lo assim). Tem uma caução de meio milhão de euros para depositar (e a prisão à espera, se não o fizer) e, pelo que garante hoje o Público, não tem bens em seu nome, é quase, socialmente, um indigente. Há dias, já lhe tinham arrestado o recheio de uma casa que, pelos vistos, não lhe pertence. Agora, ou deposita a caução, ou vai dentro. Em tempos, quando fulgurava no mundo dos negócios da bola e traficava jogadores (Figo, Zidane e tantos outros) por milhões, geria não sei quantas empresas (discretamente ancoradas em paraísos fiscais). Não se sabe que destino deu aos proventos (provavelmente, distribuiu-os pelos pobres). Sabe-se apenas que, patrioticamente, trocou a bolsa (e talvez a vida) pelo Benfica, a sua paixão quase secreta (tão secreta que, até então ,passara por sócio do Porto, do qual, entretanto, foi excluído por não pagar quotas). Confuso? No dia em que a história completa deste homem extraordinário for escrita, suponho que o país chorará de comiseração. Infelizmente, não me ocorre o nome dele. Será João? Será Nuno? Será Luís? Não consigo lembrar-me. E logo o único bem que ainda não lhe foi penhorado.: o nome. Graças a Deus, ainda há homens (suponho que poderei tratá-lo assim) que triunfam sempre sobre o destino, por mais inóspito que ele se apresente. Será Jacinto?...

Improviso para dizer as estações do ano...

O inverno chegará contigo
talvez na fisionomia de uma máscara veneziana
ou embalando-nos num berço
tens nuvens no olhar e choves
não há primaveras que te dispensem
passarei por ti
passarás por mim.

Ademar
21.11.2006

novembro 21, 2006

Memórias...

Sim, claro, ainda não tens idade para escrever memórias, nem para viver delas. Penso-te sempre mais velha e mais madura do que és. Deve ser por, intuitivamente, te aproximar da sabedoria da terra e por vislumbrar sempre nos teus olhos um arco-íris de lucidez que as mãos, tão frequentemente, parecem prolongar. Eu sei: a primavera sorri, misericordiosamente, de todos os invernos...

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Transubstanciações...

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Há objectos que não são apenas objectos; que, por uma espécie de feitiço ou de bruxedo, se apoderam de nós e passam a fazer parte do que somos. Há uma palavra difícil de dizer e de escrever que nomeia o fenómeno: transubstanciação. Literalmente: uma substância transforma-se noutra.
Um cd é, apenas, um cd. Já houve um tempo em que este cd, de Yo-Yo Ma&Bobby McFerrin, era uma substância estranha ao meu corpo, não fazia parte de mim. Até que, um dia, percorri o norte de Itália a ouvi-lo. Deu, comigo, a volta ao Lago Garda, conduziu-me a Verona, a Vicenza, a Bolonha, a Pádua, a Veneza, a Milão... Agora, sempre que regresso a "Hush", regresso ao Véneto...
Os lugares onde fomos felizes acrescentam, geralmente, qualquer coisa ao nosso corpo. Pode ser um aeroporto, um cais, uma auto-estrada, uma via férrea, uma praça ou uma rua, um museu, um teatro, um hotel, um restaurante, um café, até um simples supermercado de bairro. As memórias circulam no nosso sangue e jamais deixamos de as respirar interiormente: passam a fazer parte do que somos. E com elas partimos à descoberta de novos lugares, onde, teimosamente, continuaremos a perseguir a ilusão de nos acrescentarmos...

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Antologia poética (415)...

Improviso na berma da estrada...

De vez em quando vou ao futuro
e já não tenho vontade de voltar
fico por lá a interrogar ausências
distraído das saudades
do que não chegareii a viver.

Ademar
13.07.2006

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Diário em forma de silêncio (77)...

A paixão (desejante) a abrir ou a fechar o caminho ao amor (erótico) . Na fronteira, a intimidade, o teste da intimidade. Quando falam apenas os sentidos do corpo, a paixão morre, mais tarde ou mais cedo, na praia. O amor alimenta-se da palavra e dos gestos que apalavram. O corpo é território estreito para fundar a eternidade dos olhos que se espreitam e aspiram. O sexo adia, simplesmente, a verdade da relação. Escreveste-o um dia e eu pedi-te um autógrafo. Lembras-te?...

C.A.

Improviso para simular um sonho...

Desci do cabelo e eras tu
tão a preto e branco como noutras telas
e distante
quase cadáver quase boneca
os lábios entreabertos
as órbitas vazias
e o corpo perfeito
inanimadamente perfeito
abre agora um pouco mais as pernas
deixa-me espreitar para além de ti.

Ademar
21.11.2006

Escorrega-dor...

esse teu arco-íris onde posso escorregar sem pressas
onde vamos arranjar
essa chuva e esse sol
e que faremos da noite
e do frio agreste
que me faz correr para chegar depressa
para um abrigo que até podem ser todos os outros braços
e que faremos da manhã crua e pálida
e do sangue que nos toma lentamente
haja ou não sol
para queimar as ilusões
continuo?
e onde vamos arranjar
essa atenção
que propões desmedida e fácil como um amor
se os nossos olhos não vão além do mesmo tom
que foge em nuances ou gritos
já o vejo
não sei escorregar

Ana Saraiva

novembro 20, 2006

Diário em forma de silêncio (76)...

Há dias em que não sei mais se continuas à minha espera. Poderemos sempre regressar ao princípio de tudo, como se o futuro já não fizesse parte de nós?... Sim, eu tenho a certeza de que ainda me desejas. Provavelmente, jamais encontrarás uma mulher tão submissa como eu e os homens, no fundo, não aspiram a outra coisa. A submissão das mulheres engrandece-os. De vez em quando, até poderão regatear o silêncio e partir à procura do ruído, mas depressa se cansam da tagarelice. Tu sempre apreciaste a discrição, a desabundância de gestos. O excesso de palco e de pose deprime-te. Sim, tenho a certeza de que ainda me esperas...

C.A.

Poses contranatura (118)...

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Poseiro: Jorge Sampaio, fotografado por Luís Ramos.
Fonte: Grande Reportagem, 88 (Julho de 1998).

A poesia como serviço ao domicílio...

Li algures que, numa cidade qualquer da Dinamarca (não registei o nome), foi recentemente criada uma empresa verdadeiramente extraordinária que se dedica à prestação de serviços poéticos ao domicílio. Nada de confusões: não se trata de prostituição, nem de uma actividade congénere. Os serviços poéticos que a dita empresa "oferece" são mesmo poéticos, por mais extravagante que isto lhe possa parecer. Um exemplo. Admitamos que, esta noite, apetece à leitora receber em casa um homem ou uma mulher com o qual ou a qual, durante uma, duas ou mais horas, possa, simplesmente, partilhar poesia (lendo, ouvindo ler, conversando sobre poetas e sobre poesia e o mais que imaginar se possa). Liga para a empresa, escolhe o "prestador" ou a "prestadora" disponível, ajusta o tipo de serviço e, em pouco tempo, tem em casa a companhia pretendida. Convém notar que o cliente nunca paga, directamente, o serviço ao prestador, mas à empresa, e que esta é escrupulosa na avaliação da qualidades dos serviços prestados pelos seus "colaboradores" (geralmente, escritores em princípio de carreira, professores de literatura, críticos, jornalistas, pequenos editores, etc). Colaboradores que, reiteradamente, tenham uma avaliação menos positiva por parte dos clientes são "dispensados". Assim como são, liminarmente, preteridos os clientes que se portem menos correctamente com os prestadores do serviço...
Eis uma empresa para a qual, em part time (se a Ministra da Educação autorizasse), eu não me importaria de trabalhar.
Grande Reino da Dinamarca!...

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Antologia poética (414)...

Improviso de amor para búzios e dialecto galaico-minhoto...

Não sei em que galizas ou minhos
de uma infância que ainda estranho
entre búzios
treinou a voz trigueira que me canta
vai-te embora marinheiro
que eu não sou o teu amor
de todas as âncoras que regressam ao cais
só senti a falta da tua
quando dei comigo
afogando o alto-mar.

Ademar
13.07.2006

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Importa-se de repetir? (12)...

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Santana Lopes à Única (4 de Novembro de 2006)

Qual delas será a vizinha de Scolari?...

Todos os dias (já vomito o homem) ouço ou vejo Scolari no anúncio da Caixa Fã. O que importa, diz ele, é que sejamos fãs: da mulher ou da vizinha, tanto faz...
A "mulher" de Scolari, já nós a conhecemos. A vizinha, não. Será uma destas? Quem arrisca o palpite?...

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O reencontro com Nefertite...

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Já tínhamos dela o famoso busto polícromo. Parece que acaba de ser localizado, finalmente, no Vale dos Reis, o sarcófago de Nefertite, a apenas 5 metros (imagine-se!) do túmulo de Tutankhamon.
Na câmara agora posta a descoberto, os arqueólogos americanos da Universidade de Memphis terão encontrado mais quatro sarcófagos, todos eles, também, intactos. Talvez Nefertite atraísse a castidade...

12 de Fevereiro de 2006

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Ilusões de óptica...

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Morreu em 2005, com quase noventa anos (nascera em 1918). Em 1997, ainda fazia cinema, conduzida por F.F. Coppola, em "The Rainmaker". Mantinha a beleza e, sobretudo, a expressão dos 25 anos, quando protagonizou "Shadow of a Doubt" (Mentira), de Alfred Hitchcock. Há mulheres que envelhecem mal e há mulheres que envelhecem bem (o envelhecimento nos homens é uma "distinção"). Teresa Wright, com 80 anos, continuava a ter o olhar e a expressão que podeis ver na fotografia.
Enquanto, nos primeiros anos da década de quarenta do século passado, a Europa se matava, nos Estados Unidos faziam-se filmes para a história do cinema: Citizen Kane (em 1941); Casablanca (em 1942); Shadow of a Doubt (em 1943). Numa entrevista concedida a François Truffaut, Hitchcock terá confessado que "Shadow of a Doubt" era o seu filme favorito. Percebo a predilecção do autor.
O enredo resume-se em poucas linhas. Um "serial killer" de "viúvas alegres" (daí a opção de Hitchcock pela famosa valsa de Franz Lehár, que atravessa, musicalmente, todo o filme), perseguido pela polícia, tenta esconder-se e fugir à justiça na casa da irmã, numa pequena cidade da Califórnia, Santa Rosa. Ninguém suspeita, ao recebê-lo, que se trata do famoso assassino de viúvas. A irmã, o cunhado, os sobrinhos - todos lhe dedicam uma admiração que o distanciamento de muitos anos alimentara. Ele era o homem do mundo, aparentemente, bem sucedido, que resolvera, finalmente, descansar, passando uma temporada com a família mais próxima. A sobrinha mais velha, que, de resto, ostenta o seu nome (Charlie), é a mais ingénua e apaixonada admiradora do "serial killer". Será também a primeira e a única a descobrir o lado perverso da história pessoal do tio e a conduzi-lo, involuntariamente, à morte. O tio é Joseph Cotten (que já entrara em Citizen Kane) e a sobrinha, Teresa Wright.
Trata-se de um dos primeiros filmes da fase americana de Hitchcock, quase todo ele rodado numa pequena vivenda "arrendada" e adaptada, para o efeito, em Santa Rosa. Mesmos os exteriores, são, na sua maioria, filmados na cidade (perante multidões, rezam as crónicas, que se acotovelavam nas ruas para acompanhar, in loco, a rodagem do filme). No fundo, "Shadow of a Doubt" é um psicodrama familiar, estruturado sobre uma grande "mentira" e uma "ilusão de óptica": um assassino em série que a cegueira e a credulidade familiares transformam num exemplo admirável de virtudes.
São uma "mentira" e "uma ilusão de óptica" mais comuns do que se poderia julgar. A proximidade e a "paixão", frequentemente, não nos deixam ver a realidade que, diariamente, nos interpela. Como sustentaria Brecht, a "verdade" (pelo menos, a "verdade" ao nosso alcance) requer sempre o necessário distanciamento...

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novembro 19, 2006

Antologia poética (413)...

Improviso para dizer como corres...

O rio que te anuncia
tem correntes silenciosas
que te recusas a ouvir
mas que te arrastam
a margens desejadas
ainda que desenhadas a silêncio
no curso do teu infinito
por isso
não há represa ou açude
que eternamente possa conter
a tua força feroz de transbordamento
um dia sairás de ti
para finalmente te reencontrares.

Ademar
15.07.2006

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Antologia poética (412)...

Improviso em forma de domingo...

Há quem tenha
a exigência da imperfeição
se algum dia tiver de ser escuteiro
sê-lo-ei apenas por ti.

Ademar
16.07.2006

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Poses contranatura (117)...

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Poseiro: Lula da Silva.
Fonte: Público-Magazine, 239 (02.10.1994)

Mulher como natureza-morta...

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Fotografia de Paulo Roberto.
Fonte: Teenager, 38 (Janeiro.1995)

Saudades de Kubrick...

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Eyes Wide Shut, Part II.

Já tivemos 18 anos e fomos caloiros da vida...

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De vez em quando, acontece-me. Passo pelas imagens das pessoas sem as reconhecer. A memória tem muitas portas e muitas janelas que, com o tempo, vamos desaprendendo de abrir.
Folheava distraidamente revistas antigas, quando, numa, o meu olhar fixou-se na imagem sorridente desta mulher. Quem seria? Não a reconheci. O nome estava em baixo: Ana Costa Almeida. Entrei, imediatamente, numa espécie de máquina do tempo, que me fez regressar à juventude e aos bancos da Faculdade de Direito de Coimbra.
Nos primórdios da década de setenta, quase só havia homens em direito; as mulheres eram raríssimas. E, em geral, não se recomendavam à sedução. Num universo que quase sempre as ignorara, tinham de fazer pela vida, tinham de ser muito mais duras, obstinadas e competentes do que os homens, tinham de triunfar sobre mil e um preconceitos e “marrar” o dobro ou o triplo. Recordo, apenas, duas colegas de curso e de turma: a Anabela Rodrigues (que viria a tornar-se uma brilhante académica e actualmente dirige o Centro de Estudos Judiciários) e a Ana Costa Almeida (que dirigiu o IPACA e, mais recentemente, foi chefe de gabinete de Santana Lopes, primeiro-ministro).
Claro que, ao pensar nelas, continuo a vê-las como fomos, nesses anos inesquecíveis de transição da ditadura para a democracia. Os títulos e as obras que fomos acumulando – são nada (ou pouco mais do que maquilhagem). Continuaremos a ser uns para os outros como éramos quando nos conhecemos e, durante cinco anos, diariamente, partilhámos todos os sonhos e todas as ilusões da juventude.
Desculpa, Ana, não te ter reconhecido!...

Importa-se de repetir? (11)...

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Frase atribuída pelo Público, na edição de hoje, ao "historiador" João Medina. É mais uma frase cheia, sem nada dentro. Apenas, irrelevâncias sonantes, para espantar os indígenas...

Boa noite, eu sou a Licenciada Manuela Moura Guedes e este é o...

Prof. Dr. José Rodrigues dos Santos

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Conseguis imaginar um "pivot" do Telejornal a ser identificado em rodapé pelo título académico? O país desataria à gargalhada...
É o que me apetece fazer sempre que alguém, pretensiosamente, se apresenta com um título à cabeça. Como o arcebispo de Braga, por exemplo, que costuma fazer-se anunciar como D.Jorge e não, simplesmente, como Jorge Ortiga. E como todos os bonzos da administração pública que, na correspondência oficial, colocam antes ou depois do nome o respectivo título académico.
Este é o Portugal dos pequeninos, de que a Europa civilizada continua a fazer troça. E como nós... merecemos.

Importa-se de repetir? (10)...

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Luís Filipe Vieira citado pelo Record (edição de 19.11.2006).

Um Guia para insones...

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Este Guia foi distribuído com o Público na passada sexta-feira. Não há melhor leitura para insones. Sugiro, especialmente, o exercício de conferência e contagem de títulos dos indígenas indicados como representantes máximos dos serviços. Há (por extenso ou abreviadamente) os Professores Doutores, os Mestres, os Doutores, os simplesmente Licenciados, os Engenheiros, os Arquitectos, os Embaixadores, os Juízes Conselheiros e Desembargadores e, claro, a tropa toda, com as inúmeras patentes que, tão distintamente, a ornamentam.
Interessante: os presidentes e vereadores das câmaras municipais não são identificados pelos títulos, mas simplesmente pelos nomes. E as Juntas de Freguesia, pelos vistos, já foram extintas, porque não aparecem no Guia.
Ao invés, continuamos a comprovar a existência de centenas
de escolas básicas mediatizadas, que, supostamente, elas sim, já deviam ter sido todas extintas.
Um Guia que é um excelente espelho do pais que somos e do Estado em que estamos...
Não concorda, Senhor Engenheiro?...

Diário em forma de silêncio (75)...

A antropologia, muito especialmente, a antropologia cultural, ensinou-me quase tudo. Por exemplo, que a intimidade tem género, é feminina. Pobres das mulheres que ainda não perceberam que os homens serão sempre invasores... Nós abrimos a porta e eles entram (ou forçam a entrada). Depois saem ou fogem e como que regressamos ao vazio, a um silêncio interior que eles jamais entenderão. Os homens falam para fora, raramente para dentro. Desconhecem e, muitas vezes, estranham a sua própria intimidade. Por isso, é que sempre preferi os poetas. Eles, pelo menos, tentam dialogar com o silêncio. Talvez, de vez em quando, consigam dialogar connosco.

C.A.

novembro 18, 2006

Poses contranatura (116)...

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Poseiro: Brad Pitt.
Fonte: Público-Magazine, 257 (12.02.1995)

A prova definitiva de que o tabaco...mata...

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Defuntos: Hussein, da Jordânia, e Yitzhak Rabin (de Israel).
Fonte: Público-Magazine, 243 (30.10.1994)

Poses contranatura (115)...

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Poseiro: Alberto Polignac (dito Grimaldi), fotografado por Sergey Chirikov.
Fonte: 24Horas, 18.02.2006

Frases cheias, sem nada dentro...

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Kofi Annan ao Expresso (Única, 18.11.1006)

"Bonnie and Clyde", 40 anos depois...

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Bonnie Parker, digo, Ségolène Royal, fotografada (oh, horror!) por Regis Duvignau.
Fonte: Tabu, 10 (18.11.2006)

Improviso para beber de ti...

O mel dizes
escorre dos olhos
mas a tua boca sangra
mesmo quando sorris
a tua solidez liquefaz-se
és mais liquida do que pareces
muito mais
bebo-te gota a gota
quando desces do palco
doce e suave.


Ademar
18.11.2006

Uma questão, simplesmente, de tamanho...

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Rui Rio, com que Sócrates se parece, exemplificando o tamanho da coisa (não me pergunteis que coisa). Fotografia de Humberto Almendra, para o Sol.

Deus como bola ou a grande ilusão...

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Ricardo Carvalho, dividindo a cabeça com uma bola de futebol.
Foto da Associated Press, publicada na edição de hoje de DEZ.

Por que sofres tanto, Rui?...

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Rui Veloso fotografado por José António Domingues (24Horas, 18.11.2006)

Importa-se de repetir? (9)...

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Rui Rio ao Sol (edição de 18.11.2006; fotografia de Humberto Almendra).

Polícias ou ladrões?...

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Quatro putativos dirigentes sindicais da PSP em conferência de imprensa, antecipando o carnaval de 2007. Consta que António Costa, o ministro da tutela, ainda não recuperou do susto...

Fotografia de João Moniz, reproduzida na edição de hoje do Expresso.

Improviso para distrair jibóias...

As tuas mãos
arriscam um novelo de jibóias
quase antecipam
o falhanço do chicote
confundes-te na névoa que me impões
olha que eu vejo muito mais nítido através da névoa
o espelho jamais contará como fraquejas.

Ademar
18.11.2006

Mais share, menos share: entre a névoa e a novela...

Manchete da edição de hoje do 24Horas:
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Portugal está neste estado: enovelado. Digo: tributário de novelas. Vidinhas...
Aposto que Santana ainda vai acamar com a freirinha...

Antologia poética (411)...

Improviso para negar as escrituras... *

Para que o Pai não duvidasse
do sucesso da sua missão
Judas visitou Cristo na cruz
e
temendo que o Messias
pudesse sofrer mais do que estava predestinado
martelou ainda mais os pregos
para apressar a morte e a história
foi então que o sangue do Redentor golfou
sobre os olhos do traidor
e Judas
(que não frequentava urgências hospitalares)
desmaiou
à visão do amigo desfalecido
Cristou não resistiu à tentação misericordiosa
e desceu da cruz para o reanimar
consta que já se tinha arrependido
dos caprichos sádicos do Pai
e só esperava um bom pretexto para negar as escrituras
e gozar a vida
foram ambos dali para os copos
rindo da ingenuidade dos Apóstolos e das Apóstolas
ainda hoje não se sabe
quem ficou na cruz no seu lugar.

Ademar
17.07.2006

* Agradeço à Ana Saraiva a involuntária inspiração.

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

novembro 17, 2006

O "tesão" mais mediático, de todos os tempos, em Portugal...

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Ramalho Eanes, recém doutorado pela Opus Dei, em Navarra. Quase duas mil páginas de tese: irrecusavelmente, um tesão.

Poses contranatura (114)...

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Poseiro: Gianni Versace.
Fonte: Indy, 508 (06.Fevereiro.1998)

Um enredo amoroso e ficcional...

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Suponho que jamais se saberá se Mariana Alcoforado conheceu, efectivamente, o capitão Bouton (futuro marquês de Chamilly) e se chegou a escrever-lhe alguma carta de amor ou de paixão.
A verdade é que, quando Mariana morreu (julga-se que em Julho de 1723), as "Cartas" cuja autoria lhe foi atribuída já tinham sido publicadas, pelo menos, em França, em Inglaterra e em Itália. Se ela, efectivamente, as escrevera, como se sentiria e terá reagido perante a sua divulgação canalha?...
Eis um excelente objecto de ficção, que não consigo perceber por que não foi ainda explorado... Que belo filme não daria...

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Improviso para desinfetichar...

O teu corpo é o meu fetiche
digo-te deste modo
para que não me confundas
com um vulgar adorador de estátuas
principias muito antes de te percorrer
e nunca terminas no meu desejo
sobras sempre para depois
sobras sempre assim.

Ademar
17.11.2006

Antologia poética (410)...

Improviso para dizer da guerra...

Saio indefeso do abrigo
e dou a mão às palavras
seguindo um trilho de pegadas de silêncio
que talvez me conduzam a ti
sejas tu quem fores
estou em guerra
com o que deixei para trás
e recuo apenas
vertigem suicida
há-de haver ainda um campo
em que te encontre
uma sepultura sem lápide
na minha memória
aí ficarei a deslumbrar saudades.

Ademar
18.07.2006

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Saraivadas...

Hoje, tirando, provavelmente, os descendentes, poucos saberão quem foi João Saraiva (1866-1948). No entanto, deixou uma apreciável (em quantidade) obra poética e, no seu tempo, chegou a ser tido "como uma figura de relevo na poesia portuguesa contemporânea". Em Fevereiro de 1935, com grande destaque, a revista "Ilustração" publicava, orgulhosa, três inéditos de João Saraiva. Reproduzo o primeiro, intitulado "Filho de Peixe".

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A rimança esforçada é pobrezinha, mas não é por aí que quero pegar-lhe. Interessa-me apenas a arrogância geracional, velha de séculos, de que o texto dá conta: os filhos nunca estão à altura dos pais. Cada geração tem tendência para lamentar e zurzir a falta de qualidade da geração que lhe sucede. Leia-se hoje, por exemplo, o que certas estrelas mediáticas do pensamento pronto-a-usar decantam sobre o "insucesso escolar", os resultados dos exames e a preparação dos alunos que entram nas universidades. É uma desgraça colectiva: ninguém aprende nada na escola e a ignorância campeia. Falta "disciplina", falta "exigência", falta "rigor na avaliação", falta "espírito de sacrifício", faltam "hábitos de trabalho", falta quase tudo. No tempo deles (ou seja, no meu tempo) é que era bom. Nós é que respeitávamos a autoridade dos mestres, nós é que nos esforçávamos, nós é que estudávamos, nós é que fazíamos exames, nós é que saíamos da escola bem preparados. Esta conversa de treta não tem décadas: tem séculos, talvez milénios. Já o meu pai pensava e dizia o mesmo da minha geração. E já o pai dele, meu avô, contemporâneo de Saraiva, escrevia e publicava no mesmo sentido sobre a geração do meu pai...
Os pais sabem sempre tudo, os filhos, nada. Olha a novidade!
Em 1935, João Saraiva até passava por ser um grande poeta... Fernando Pessoa: quem o conhecia?...

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Antologia poética (409)...

Improviso em forma de haiku para voar...

Se eu soubesse que entrarias por uma janela
aperfeiçoaria as asas
para voar no sentido contrário.

Ademar
20.07.2006

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Poses contranatura (113)...

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Poseiros: Woody Allen e Mia Farrow.
Fonte: Público-Magazine, 249 (11.12.1994)

Poses contranatura (112)...

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Poseiros: Hillary e Bill Clinton.
Fonte: Público-Magazine, 249 (11.12.1994)

Um título sexualmente reconfortante do 24 Horas...

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Nunca me ocorrera a relação entre a mesa e a cama... De facto, quem come devagar e saboreia só pode ser um grande amante (ou não tem dentes).
Como conseguiria eu sobreviver às depressões sexuais sem o conforto dos títulos do 24Horas?...

Ainda o veremos a levitar...

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24Horas, 17 de Novembro de 2006

novembro 16, 2006

O único sociólogo português que os joelhos de Maria Filomena Mónica nunca conseguiram enfeitiçar...

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Boaventura Sousa Santos, fotografado por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1132 (9.Julho.1994)

Santana retoma a carreira de figurão em Hollywood...

Farto da ingratidão dos portugueses, Santana Lopes prepara-se para retomar a sua carreira mediática a partir de Hollywood. Por enquanto, apenas como figurante ou figurão. Ei-lo aqui, rodando, na companhia de Meryl Streep e Glenn Close. É uma "cacha"!
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Fonte: Visão, 5 (22 a 28 de Abril de 1993)

Poses contranatura (111)...

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Poseiros. Mário Soares e António Guterres, fotografados por Gonçalo Rosa da Silva.
Fonte: Visão, 5 (22.Abril.1993)

A eternidade por uma corda...

Gosto muito de Jordi Savall. E mais ainda desde a noite em que, no exacto momento em que ele se preparava para abrir mais um concerto, uma corda da sua viola da gamba rebentou. Quase indiferente à surpresa da plateia, sorriu, abriu tranquilamente a caixa do instrumento, retirou uma corda, esticou-a, colocou-a no lugar da traidora, afinou a viola, pediu desculpa pelo imprevisto e, como se nada de anormal se tivesse passado, deu início ao concerto, um dos mais extraordinários e inesquecíveis a que já assisti.
Relembro a cena, sempre que volto a ouvi-lo ou a vê-lo, como aqui. Há artistas que voam sobre o tempo e a circunstância...

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Poses contranatura (110)...

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Poseiros: Estaline e Rikov (tão amigos e íntimos que eles eram...).
Fonte: Pública, 145 (13.Dezembro.1992)

A mais estúpida concorrência...

Televisões portuguesas. À mesma hora, Santana Lopes na RTP1. Cavaco Silva, na SIC. Uma vez mais, desprezei o "serviço público" de televisão e preferi ouvir o Presidente. Nunca votei em Cavaco, mas continuo a pensar que Cavaco é um excelente presidente. E, sobretudo, um político infinitamente sério e confiável. Como eu, como cidadão portugués, gostava de pensar o mesmo de outros...

Crime! diz ele...

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Este senhor é, hoje, em Portugal, o criminologista de turno. De crimes, percebe ele. Crime é o que ele qualifica como tal. E, prescreva a lei o que prescrever, a interrupção voluntária da gravidez será sempre crime. Diz ele...
Ele... é o 75. Digo: o septuagésimo quinto arcebispo de Braga. Actualmente, também, presidente da chamada conferência episcopal portuguesa. Jorge Ortiga. Ou, como ele gosta, modestamente, de se apresentar: D.Jorge.
Está visto que, graças a Deus, nunca engravidou...

Trocas...

interrompes-me a vida
aquele pensamento que há pouco
me apanhou em pleno esquecimento
e me fará voltar diferente
é o chão dos passos que andam contrários:
como se fosse sempre tempo de estar presente

Ana Saraiva

Improviso sobre uma liquidez de luzes...

Onde começam as tuas pernas brancas
que mergulham na água?
por que as abres assim
escorrendo folhas (ou serão líquenes)?
estou mais próximo da margem
não sei se acoste
se mergulhe contigo
a tua liquidez de luzes
convida-me à submissão dos lábios
e do olhar
sinto que me afogas o desejo
no fundo de tudo o que me escondes.

Ademar
16.11.2006

Hora de ponta...

todos se reconhecem na lassidão
é o fim do dia
um mar de ombros baixos
e a carruagem enche-se ainda mais
todos cada vez mais perto
e nem uma intenção
mulheres, homens
alguém agarra um ombro por engano
um estorvo
todos voltam para o inferno imaginado
ou para o paraíso adiado em 9m2
ninguém amanhece como aquela canção
em que alguém faz samba e amor pela madrugada
os dedos crisparam-se e agora são só úteis
não sabem dedilhar o calor
nem tremer por amor
um amor qualquer
até um pequeno
e que já foi

Ana Saraiva

novembro 15, 2006

A vida humana começa no coito desprotegido, não interrompido e bem sucedido...

Há juízes do Tribunal Constitucional que defendem esta tese absolutamente extra-ordinária *, diria mesmo, primordial. Tendes razão, senhores magistrados, é uma evidência erótica: a vida humana começa no olhar que seduz. E os machos que se masturbam, desperdiçando esperma, são homicidas potenciais. Eu iria ainda mais longe, senhores magistrados: a vida humana nunca começa, está sempre, cosmicamente, em trânsito. Socorro-me da autoridade de Lavoisier: "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". O aborto está no meio de nós, anda mesmo por aí, como Santana Lopes...

* Eu queria mesmo escrever extra-ordinária.

Ainda que mudem os tempos, por que não repetir as capas?...

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Expresso-Revista, 1339 (26.Junho.1998)

Importa-se de repetir? (8)...

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Fonte: Expresso-Revista, 1339 (26.Junho.1998)

Poses contranatura (109)...

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Poseiro: António Lobo Xavier, fotografado por Céu Guarda.
Fonte: Vida, 430 (9.Agosto.1996)

Poses contranatura (108)...

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Poseiro: Frederico Cunha (nome artístico: Padre Frederico), fotografado por Carlos Lopes.
Fonte: Pública, 155 (21.02.1993)

Geração enrascada e nós com ela...

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Fonte: Pública, 155 (21.02.1993)

Diz-me, espelho meu, haverá em Portugal alguém mais iludido do que eu?...

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Fonte: Magazine Regional, 1 (Junho.1993)

Diário em forma de silêncio (74)...

Costumas dizer: os machos desejam, as fêmeas fazem-se desejar. Tens razão: quem domina a relação erótica entre homens e mulheres, não é quem viaja no desejo, mas quem o controla. Sempre senti que te dominava, fazia do teu desejo um instrumento, quase um brinquedo. Mesmo quando, fisicamente, consentia que me dominasses, eu sabia que continuarias a servir-me. Fazia parte do contrato, nem que fosse como cláusula implícita. A servidão do corpo faz-se retribuir com a submissão da alma. O dominador presta, permanentemente, vassalagem à dominada. E nem preciso de te lembrar: só muito colateralmente o sexo entrava nas nossas contas...

C.A.

Improviso a preto e branco...

Desces com a água
e fundes-te com a terra
quando as botas
já não levitam
digo
solidificas
quase enregelas
e nenhum movimento
te pertence
reinventas-te a preto e branco
sob um palco passadiço
passerelle
és apenas a abstracção das formas
que te insinuam
viajas no sentido contrário
de te encontrares.

Ademar
15.11.2006

Alberoni para leigos e leigas...

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1
As mulheres sentem-se atraídas por homens poderosos. Elas gostam de homens que têm algo superior aos outros. Os que são mais belos, ou mais altos, ou mais poderosos, ou mais ricos, ou que correm mais rápido, ou que cantam melhor, ou contam melhores anedotas... Se na história da espécie humana as mulheres sempre tivessem escolhido os mais baixos, os que correm menos, já estaríamos extintos.

2
Excepto os artistas, ou os fotógrafos, os homens não são sensíveis à beleza feminina. Só vêem os pormenores. A forma como cruza as pernas, como exibe os seios.

3
Uma das fontes de sofrimento das mulheres hoje em dia é não encontrarem homens superiores. O aumento do poder feminino fez com que seja difícil a elas encontrarem um homem que lhes seja superior, que as dirija. A maior parte das mulheres de 30 anos diz que não encontra um verdadeiro homem.

Excertos de uma entrevista de Francesco Alberoni a Paulo Moura (Pública, 547 / 12 de Novembro de 2006). Fotografia de Enric Vives-Rubio.

Examinemo-nos todos uns aos outros...

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Na edição de 1 de Agosto de 1934, a revista Ilustração dedicava três páginas à "actualidade" dos "Exames" (72 anos depois, os exames, em Portugal, continuam a fazer a "actualidade"). As fotografias que acompanham o texto (não assinado) são deliciosas. Não menos, as respectivas legendas. Repare-se na fotografia que reproduzo. A legenda (dicotómica) reza o seguinte:
"INSTRUÇÃO PRIMÁRIA, 2º GRAU - Um acto sério que abre ao pequeno estudante as portas do liceu...ou da vida prática..."

Ao contrário do que, por vezes, a ignorância enfatuada pretende fazer crer, a questão dos exames nunca foi pacífica. Ainda não havia "ciências da educação" e "eduquês" e já se discutiam, acaloradamente, as vantagens e as desvantagens dos exames.
Note-se, por exemplo, o que o redactor não identificado da Ilustração escrevia, sobre o assunto, em 1934:

"A questão dos exames reveste aspectos complexos de psicologia e pedagogia. Numerosos são os argumentos invocados para demonstrar as vantagens ou os inconvenientes dessas provas em que os examinadores devem apreciar, no decurso de um interrogatório, os conhecimentos adquiridos pelo aluno.
Para muitos, os inconvenientes sobrelevam as vantagens. Há que atender, acima de tudo, ao factor psicológico, sistematicamente desprezado nos exames. Na realidade, um cérebro bem organizado e dotado de faculdades de assimilação pode ser servido por nervos impressionáveis que o atraiçoem. É facto averiguado que excelentes estudantes fazem no exame medíocre figura, pela simples razão de se perturbarem com o ambiente excepcional que à sua volta se estabelece.
Há ainda a circunstância de o lapso de memória ou de conhecimentos que justifica a reprovação nada representar, muitas vezes, na formação mental do aluno. Mas, neste ponto, a questão torna-se mais complexa ainda, porque contende com os sistemas de educação correntes. Em vez de preparar os espíritos para as múltiplas exigências da vida, o programa de estudos determina uma série de conhecimentos a fixar. Desenvolve-se deste modo a memória em detrimento da inteligência. Ora é princípio axiomático em psicologia que as inteligências mais maleáveis possuem uma maior capacidade de assimilação, mas que o seu poder de fixação varia na razão inversa dessa capacidade. Assim, um espírito dotado de restrito poder de compreensão fixará com mais dificuldade os conhecimentos, mas retê-los-á por mais tempo que outro mais favorecido. Num exame, esta circunstância não pode ser também atendida. Como regra geral, o examinador tem de se limitar a verificar os conhecimentos arquivados na memória, sem poder investigar a preparação mental do aluno.
Estas razões bastam para demonstrar que a instituição dos exames não está acima das críticas e que a sua reforma é um facto a encarar num futuro mais ou menos distante."

Quem lê e ouve, hoje, os partidários dos exames poderá pensar que está neles (entenda-se: nos exames) a salvação dos males do sistema de ensino, em Portugal. Desconhecem o a-b-c da história da educação: nunca os exames foram garantes da qualidade do ensino e da aprendizagem. Em 1966, Rui Grácio "arriscou" uma interessante analogia entre os exames e o atletismo: "Comprar cronómetros de alto quilate, mantê-los afinados, e preparar cronometristas competentes, não alteraria a qualidade do nosso atletismo, apenas permitiria verificar com maior precisão a mediocridade do seu nível". (cf. António Nóvoa, "E vid ente mente - Histórias da Educação", p.53)

Ontem, na Assembleia da República, discutiu-se acaloradamente a questão dos exames do secundário. Estranhamente, nenhum deputado, remontando à origem de todas as trapalhadas, questionou a própria existência dos exames. A ignorância, o oportunismo e a demagogia continuam a pautar o discurso político em Portugal.
Pobres deputados, pobre ministra, pobre país e pobre "educação"...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Que falta que nos fazes, neste país de espertalhões...

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novembro 14, 2006

Contra-rifoneiro...

Não há amor como o primeiro? Permito-me discordar.
A minha sabedoria, talvez pouco popular, diz-me que não há amor como o próximo.

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (408)...

Improviso para lembrar o movimento de uma gazela...

Quando te penso
assim indefesa
para servir de todos os alvos
só me ocorre um clichet
alma selvagem
talvez um dia recuperes o corpo
na clareira onde o perdeste.

Ademar
21.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Importa-se de repetir? (8)...

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Mário Soares em entrevista a Magazine Regional (Junho.1993).

Importa-se de repetir? (7)...

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Fonte: Maria, 776 (22 a 26 de Setembro de 1993)

O problema é que raramente cheira mal...e a banca lava sempre mais branco...

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Poses contranatura (107)...

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Poseiro: Manuel Pinho, fotografado por Tiago Petinga.
Fonte: Expresso, 11 de Novembro de 2006

O meu nojo da padralhada...

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Como era de prever, a igreja católica começa a acirrar os ânimos, tentando manter unido e submisso o rebanho inquieto. Pouco lhe importa que o argumentário seja, intelectualmente, desonesto: em tempo de "guerra", não se limpam armas. Vale tudo!
Hoje, até o Público deu voz, na primeira página, a uma criatura que acumula as funções de arcebispo de Braga e presidente da conferência episcopal portuguesa, um tal Jorge Ortiga (Dom Jorge, como ele gosta, aristocraticamente, de se apresentar aos indígenas). Jorge opina que o aborto, por natureza (supõe-se que divina), é crime e que o "poder constituído" não pode, por isso, "despenalizá-lo". O "crime" seria anterior à lei...
Confesso que já me vai faltando a paciência para aturar os bonzos da igreja dita católica. Sobretudo, quando se incham de soberba moral, para apontar o dedo recriminador à consciência dos outros. Nestas alturas, apetece-me reler a "Velhice do Padre Eterno" e, a cavalo de Guerra Junqueiro, pôr a ridículo, uma vez mais, a hipocrisia da padralhada.
Ainda me lembro da "grandiosa" manifestação que a diocese de Braga organizou no dealbar dos anos oitenta contra o "aborto". À frente do cortejo, alguns passos à frente ou atrás do inqualificável cónego Melo, ululava a mais conhecida e bem sucedida (financeiramente falando) abortadeira de Braga. E, na manifestação, davam a cara (sem pingo de vergonha) alguns padres que toda a gente sabia (Braga pouco passava de uma aldeia) que já tinham recorrido aos prestimosos serviços da dita aliviadora de fetos inconvenientes. O nojo que eu senti nessa tarde acompanhar-me-á até à morte.
Jorge Ortiga devia ficar calado. Por pudor.

Declaração de interesses: sou bracarense de há muitas gerações, "católico" baptizado, ateu confesso e pai, orgulhoso, de três filhos.

novembro 13, 2006

Hoje sonhei que todos os políticos e todos os banqueiros e todos os cardeais e todos os juízes e todos os generais usavam piercing na língua...

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Cartoon de Haderer
Fonte: Super Interessante, 1 (Maio.1998)

Diário em forma de silêncio (73)...

Nunca senti que me dominasses, mesmo quando me algemavas. Diz-se que os corpos voam com a morte e eu, apenas, morria nas tuas mãos, voava contigo, mas regressava sempre. E esse era o problema. Regressava sempre a mim e não, a ti. Por mais que aspirasses a dominar-me, eu nunca me rendia. Depois do último grito, e antes mesmo de me libertares, já eu me libertara. Corrias atrás de mim, mas nunca me alcançaste. Um dia, fugi de vez.

C.A.

Improviso para S.Martinho...

Hoje
atrasadamente
magustei
digo
magostei
não sei
se em português
se em castelhano
as castanhas
quando se deixam assar
iberizam-me.

Ademar
13.11.2006

A verdadeira fonte do atraso português...

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Salvador Dali, Persistência da Memória, 1931


Percebi hoje (tardei, mas cheguei) por que os portugueses, em geral, são tão pouco pontuais. Porque não têm na vida, como na escola, uma campainha que os chame. Se pensardes bem, descobrireis na escola portuguesa (antes e depois do “eduquês”,) a fonte de todos os nossos atrasos. Um a um.
A escola portuguesa até desconfia do relógio (de professores e alunos). E quem é tratado na escola como atrasado em potência, atrasar-se-á sempre... Basta que falte a campainha de Pavlov...
Os rebanhos precisam sempre de um pastor (ainda que electrónico)...

Poses contranatura (106)...

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Poseira: Pina Bausch, fotografada por Silvia Lelli Masotti.
Fonte: Vida Mundial, 4 (Maio.1998)

Antologia poética (407)...

Improviso para dizer a circunstância do lugar...

Sei que esta noite não serei bombardeado
nem amanhã
nem depois
nem depois
nem depois
faça Condoleezza Rice o que fizer
viaje para onde viajar
diga o que disser
sei que não serei bombardeado
é uma sabedoria que não faz parte de mim
mas do lugar a que pertenço
e da sua história
uma espécie quase de imunidade
(humanidade).

Ademar
23.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (105)...

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Poseiro: Macário Correia, fotografado por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1243 (24.Agosto.1996)

Antologia poética (406)...

Improviso para explicar por que tardo...

Já só tenho tempo
para as palavras que não me exigem a eternidade
sinto agora a alma colada ao corpo
a noção de transcendência
transporto-a nos sapatos
sempre que dou um passo
coxeio na metafísica.

Ademar
24.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (104)...

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Poseiro: Jerónimo de Sousa, "peloteiro", fotografado em grupo por Jorge Simão.
Fonte: Expresso-Revista, 1209 (30.Dezembro.1995)

Antologia poética (405)...

Improviso para entardecer...

É sempre tarde para alguma coisa
para te lembrar o horário
do comboio ou do avião que perdeste
para dizer-te que Rameau
teria escrito aquele bailado para ti
ou que nascemos nos antípodas do tempo
ou das divindades
é sempre tarde
para anunciar que te espero
por mais cedo que possa parecer-te
os ponteiros dos nossos relógios
não acertam o sentido nem o movimento
da chamada
somos asteróides vagabundos
num cosmos que nenhuma lei habita
verbos que desconhecem as pessoas
em que devíamos ser conjugados
é sempre tarde para alguma coisa
para te dizer simplesmente
que tardamos.

Ademar
25.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (103),,,

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Poseiro: Tony Blair.
Fonte: Indy, 520 (30 de Abril de 1998)

Salvo conduto...

basta uma palavra
para dizer o corpo como pão
ou o sangue como vinho
não é a mesma que diz da fome
e da sede sem comparação
não sacia
a que posso comparar
a tua ausência?
até ela é só minha
e só por rima fácil
recuso dizer
sozinha

Ana Saraiva

novembro 12, 2006

Antologia poética (404)...

Improviso para dizer nada ou quase tudo...

Se o teu corpo me apetecesse tanto
como as tuas palavras
talvez tivesse de inventar
outro corpo
ou outras palavras
para renascer.

Ademar
26.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Portugueses que eu admiro (1)...

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Eu tenho a sorte de admirar muitos dos meus amigos. É o caso do António Nóvoa. Conhecemo-nos há mais de 30 anos e nunca lhe anotei uma atitude de soberba intelectual ou de arrogância científica. E é um académico excelentíssimo, com reputação amplamente firmada no exterior. Nunca ambicionou o poder e nunca se inscreveu no PS e talvez, por isso, ainda não tenha chegado a Ministro da Educação. Mas não conheço, neste país, ninguém mais bem preparado para desempenhar essas funções, opinião que é, seguramente, partilhada por todos aqueles que o conhecem e o lêem, incluindo alguns ex-ministros da educação (que tiveram a modéstia de mo confessar). É um conforto saber que há, em Portugal, na área da educação, um universitário, um estudioso e um pensador da estirpe de António Nóvoa. Só falta que o país, e não apenas a Universidade de Lisboa, o aproveite melhor...

Antologia poética (403)...

Improviso para critério de contabilização dos mortos...

Em qualquer guerra
há os mortos bons
e os mortos maus
os bons
morrem de farda
(ainda que invisível)
os maus
não
por isso
para ministro da guerra
eu escolheria
um costureiro
ou
uma costureira
como dizia o outro
o problema está sempre
em vesti-los.

Ademar
27.07.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (102)...

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Poseiros: José Mourinho e Bobby Robson, fotografados por Jorge Simão.
Fonte: Expresso-Revista, 1310 (6.Dezembro.1997)

Poses contranatura (101)...

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Poseiro: Jorge Coelho, fotografado por Gonçalo Rosa da Silva.
Fonte: Visão, 273 (9 a 17 de Junho de 1998)

Referendo sobre a despenalização do aborto: comentário de um leitor...

Um leitor devidamente identificado escreveu, em jeito de comentário, o seguinte:

"Realmente estariamos todos melhores na URSS com pessoas como você a defenderem a morte de pessoas adultas além dos embriões indefesos. Porque toda a vida é sagrada eu pertenço ao "1%" de pessoas "desumanas" que não estão dispostas a fazer estabelecer compromissos em princípios básicos."

O leitor precipitou-se. Nunca fui adepto da defunta URSS, sou visceralmente contra a pena de morte e não sou partidário do aborto (não conheço, de resto, ninguém que o seja). Apenas não sou defensor da penalização dos homens e das mulheres que decidem interromper uma gravidez indesejada. Meio país, pelo menos, já teria passado pelo banco dos réus e pela cadeia, sabe-se lá se o próprio leitor (ou uma irmã, uma filha, uma prima, uma tia, uma cunhada, uma namorada, a própria mãe...). Nesta matéria, convém que sejamos prudentes na proclamação urbi et orbi dos "sagrados"... "princípios básicos"...

Poses contranatura (em jeito de legenda)...

Vivem numa espécie de vitrina. São políticos, são jornalistas, são actores, são “artistas”, são “personalidades”. Tivessem eles consciência de que não há nada de mais de efémero e traiçoeiro do que uma imagem... Mas deixam-se fotografar em todas as poses, vão até ao baú da infância e prostituem a memória familiar, oferecendo para publicação fotografias que se supunha serem íntimas e reservadas. Vivem da exposição e do eco e não têm pejo em fazer o pino para aparecerem, retumbantemente, na capa da revista ou do jornal. De vez em quando, alegam hipocritamente o direito à imagem, mas estão quase sempre disponíveis para se “vender” à luxúria dos media. Esta é a sociedade em que, pelos vistos, eles querem viver. Uma sociedade em que as fronteiras do público e do privado estariam permanentemente a confundir-se. Talvez expostos aqui ao ridículo, alguns deles comecem a retardar a pose e a negar o baú...

Poses contranatura (100)...

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Poseiro: António Guterres, fotografado por Acácio Franco.
Fonte: Visão, 274 (18 a 24 de Junho de 1998)

Referendo sobre a despenalização do aborto: take two!... *

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Num país com políticos corajosos e sensatos, isto já tinha sido resolvido há muito tempo. A cobardia e a hipocrisia, infelizmente, vão levar-nos a votar, uma vez mais, em referendo. Espero que, desta vez, seja mesmo para valer, embora eu não confie excessivamente na inteligência e na humanidade dos eleitores portugueses. Há perguntas que, pela carga emocional que, naturalmente, lhes é acrescentada, nunca deveriam ser feitas em referendo. Esta, por exemplo. A democracia é mesmo o pior dos regimes políticos, exceptuando todos os outros...
Nesta matéria, eu preferia não ter de votar. Embora, para mim, a resposta seja óbvia. Claro que sou partidário da despenalização. Como 99% dos portugueses decentes...

* Capa da Visão, nº274 (18 a 24 de Junho de 1998).

Portugueses que eu desprezo (1)...

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Há trinta anos, pelo menos, ela tem actualmente sessenta e três, que Maria Filomena Mónica escreve sobre tudo e sobre nada, ex catedra. Não sei se, alguma vez, lhe li um elogio ou uma observação mais afectuosa (incluindo sobre a família ou os amantes). Passa a vida a dizer-nos que foi muito bonita e que, quando jovem, os homens (que ela, supostamente, dominaria com um chicote mental) rastejavam à sua passagem: "o truque consistia em usar o cinto muito apertado, a fim de enfunar a parte de baixo, de forma a poder mostrar os meus joelhos, a parte da anatomia que, a seguir aos tornozelos, considerava ser a mais interessante do meu corpo" (Bilhete de Identidade). E que, apesar de loira, sempre foi (e presume-se que continua a ser) muito inteligente. Maria Filomena Mónica é, em todos os sentidos, um permanente convite à impotência. Sempre que a leio, regresso a Almada Negreiros e à Cena do Ódio: “Mãe exilada do Mal/Hóstia d’Angústia no Claustro/freira demente e donzela/virtude sozinha da cela/em penitência de sexo”. Ou a Brecht: “É só porque toda a gente é tão estúpida/ Que há necessidade de alguns tão inteligentes”.
Numa eleição para o português vivo mais desprezível, eu, provavelmente, votaria em Maria Filomena Mónica.

Poses contranatura (99)...

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Poseiros: Joaquina e Valentim Loureiro.
Fonte: Expresso-Revista, 1236 (6.Julho.1996)

Poses contranatura (98)...

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Poseiro: José Luís Arnaut, fotografado por António Pedro Ferreira.
Fonte: Expresso-Revista, 1250 (12.Outubro.1996)

Poses contranatura (97)...

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Poseiro: António Costa.
Fonte: 24 Horas, 16 de Abril de 2005

novembro 11, 2006

Diário em forma de silêncio (72)...

Não há medida para o sofrimento, nem fronteira universal que o delimite do prazer. O amor é um jogo permanente entre contrários, como o sexo (que, tantas vezes, se confunde com ele). Oscila, pendularmente, entre a felicidade e a infelicidade, estados de corpo e de alma que nenhum breviário de psicologia consegue caracterizar. Todas as aproximações contêm a incerteza do mistério que somos e nunca chegaremos a desvendar. Entre o sofrimento e o prazer não há nada: o nada pertence sempre, exactamente, a uma dessas margens de nós.

C.A.

Margarida Rebelo Pinto e o sexo à pila, à moda de Cascais......

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Margarida Rebelo Pinto escreve no Sol sobre... sexo ou algo afim (no conceito dela). Escreve mal e escreve curto, soletrando banalidades. “O organismo não só está preparado para o prazer como precisa deste para se desenvolver. Negar os diferentes tipos de prazer ao ser humano é o mesmo que lhe pedir para deixar de ver o mundo a cores, deixar de sentir o perfume das flores, privar-se do que a vida tem para lhe oferecer.” Lindo, não achais? E a prosa esforçada até consegue rimar: prazer com desenvolver e oferecer; cores com flores... Margarida é, salta à vista, uma poetisa envergonhada. Devia dedicar-se mais às quadras. Talvez descobrisse nelas a sua verdadeira vocação literária...
Há mulheres, na vida e na escrita, muito mal aplicadas...

Poses contranatura (96)...

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Poseiro: Rui Rio.
Fonte: Grande Reportagem, 238 (30.Julho.2005)

Poses contranatura (95)...

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Poseiro: Belmiro de Azevedo, fotografado por Rui Duarte Silva.
Fonte: Única, 1668 (16.Outubro.2004)

Importa-se de repetir? (6)...

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José Sócrates à Única (24.Julho.2004)

Importa-se de repetir? (5)...

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Santana Lopes à Única (30 de Julho de 2005)

Poses contranatura (94)...

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Poseiro: José Sócrates, fotografado por Vítor Cupertino.
Fonte: 24 Horas, 16 de Abril de 2005

Poses contranatura (93)...

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Poseiro: Luís Amado (consta que é o actual Ministro dos Negócios Estrangeiros), fotografado por DR.
Fonte: 24 Horas, 16 de Abril de 2005

Importa-se de repetir? (4)...

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Clara Pinto Correia ao 24 Horas (16 de Abril de 2005)

Poses contranatura (92)...

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Poseira: Maria de Lurdes Rodrigues, fotografada por Daniel Rocha.
Fonte: Pública, 499 (18.Dezembro.2005)

Cabeças por rapar...

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Fonte: Expresso, 11 de Novembro de 2006

Retro-acções...

uma vida a declamar aos gritos
cenas gastas do tempo e do uso
e a outra a fugir das palavras
que são pedras ou abismos e nenhuma traz aviso
e o corpo cai sempre na dor ou no esquecimento
hoje
desejo
permito-me desejar
um ponto de interrogação
que não saiba a resposta
que não semeie a resposta
que não esconda a resposta
que não recuse a resposta
um ponto de interrogação que parta do princípio
uma vontade de vir cá para fora
que não saiba que está a ver-se nascer
a surpresa é toda minha
e respondo

Ana Saraiva

Poses contranatura (91)...

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Poseiro: Jorge Nuno Pinto da Costa, fotografado por Raquel Wise.
Fonte: Tabu, 9 (11 de Novembro de 2006)

novembro 10, 2006

Improviso para cegueira e viola de arco...

Falho-me muitas vezes no silêncio
os olhos sussurram apenas
e tu finges que não ouves
finges que não vês
e eu distraio-me
a dizer redundâncias
aquele cego que há tantos anos
repete o mesmo pedido de sempre
exactamente nos mesmos termos de sempre
exactamente naquele mesmo lugar
e deixa as esmolas no chão
quando se levanta e regressa
à intimidade dos olhos
que nunca deixaram de ver.


Ademar
10.11.2006

Poses contranatura (90)...

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Poseira: Marlene Dietrich.
Fonte: O Jornal Ilustrado, 672 (8 a 14 de Janeiro de 1988)

Penúltima vontade...

só quero não morrer por enquanto
e querer ainda menos
antes de pensar amanhã
um sono sincero
um copo de água limpa
um pão de trigo
o teu sorriso
a dar-me passagem
para onde eu quiser
e eu quero ficar nele
a conjugar o querer
tudo é maior do que morrer

Ana Saraiva

Poses contranatura (89)...

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Poseiro: Fernando Mascarenhas, fotografado por Inácio Ludgero.
Fonte: O Jornal Ilustrado, 672 (8 a 14 de Janeiro de 1988)

Operação stop...

a noite vem
ele parte no abraço interior
a noite fica
bloco de silêncio surdo
a paz é breve nas terras de lá
não há uma frase sossegada
todas temem o grito
e o silêncio
e desfazem-se em murmúrios
que se abeiram dos poços longos
à espera do riso sem destino
ele volta-se
as costas desmentem
coisas que passam pelo rosto
o rosto não arde
está muito frio para sonhar
os lençóis estão dormentes
com o peso do sono branco
a claridade aumenta
ele volta-se
prepara-se para regressar
mas antes
sai numa paragem só dele
antes que seja tarde
para nada

Ana Saraiva

novembro 09, 2006

The Gathering Party...

cartaz10.jpg

Leio e reproduzo o programa (com a devida vénia):

11.Novembro.2006 - 22 horas
Santiago Alquimista
Rua de Santiago, 19
Lisboa

Dress Code obrigatório!
€15, oferta de 2 bebidas
The Gathering Bus
Autocarro que fará a ligação Porto - Lisboa, passando por Coimbra, directamente para a Gathering Party.
Custo da viagem ida/volta: €20!

Programa:
Domination Show
Fetish Ballet
Escravo na casa de banho
Shibari
Miss Saltos Altos
Música: DJ LadyStarLight

Tenho amigos e amigas envolvidos neste ritual e respeito-os muito, porque é gente boa (essa gente, exactamente, que eu conheço), gente cuja ousadia só posso admirar. Mas... o lado ateu e profano que me protege distancia-me, ironicamente, destas comunhões coreográficas que, a meu ver, têm muito pouco de pagãs.
Eu sei que todas as lojas abençoam os seus aventais. E que o sentimento de pertença a um tribo (mais a mais, marginal) é suficientemente poderoso para determinar todas as metamorfoses. Mas... a etnografia do chamado BDSM, definitivamente, não me seduz. Domination Show? Fetish Ballet? Escravo na casa de banho? Shibari? Miss Saltos Altos?... Tudo isto, para mim, configura a aproximação a uma espécie de pesadelo social. Há jogos íntimos que o palco amesquinha e ridiculariza. O teatro em excesso, fundindo-se na caricatura, esgota-se em si próprio.

Infelizmente, não sou homossexual. Se fosse, teria ficado apaixonado!...

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De quando em vez, reconcilio-me com Portugal e com os portugueses ou alguns deles. A inteligência comove-me. E quando a inteligência me comove, não discuto direitas, nem esquerdas. Foi o que me sucedeu há pouco, diante do televisor. Vagabundeava, distraidamente, pelos canais disponíveis, quando duas mãos me surpreenderam. Só ao fim de alguns minutos percebi que aterrara na Grande Entrevista, de Judite de Sousa. RTP1. As mãos que me enfeitiçaram pertenciam a um português “emigrado” em França há duas décadas, que dá pelo nome de José Pinto dos Santos. Confesso que nunca ouvira o nome, nem conhecia a figura. Apanhei a entrevista no exacto momento em que ele pedia a Judite de Sousa que não o tratasse por “Senhor Professor”, mas, simplesmente, por José. O pedido pareceu-me genuíno e fiquei atento. Não me arrependi. Ouvi-o dizer coisas extraordinárias. Que Portugal não pode rever-se na ladainha dos baixos salários. Que os poetas, os filósofos, os antropólogos têm lugar nas grandes empresas. Que a globalização só pode exponenciar as potencialidades culturais e idiossincrásicas de um povo como o português. Que há “um saber que anda no ar” e que é esse saber que distingue as empresas e as instituições. Etc…
Mas não foram, apenas, as palavras do professor do INSEAD que me seduziram. Comecei por ficar fascinado pelos gestos, pelo olhar, pela dicção, pela elegância. Infelizmente, não sou homossexual. Se fosse, teria ficado apaixonado!
Fiquei agora a perceber melhor por que Cavaco ganhou as presidenciais…É muito mais arguto do que parece…

Diário em forma de silêncio (71)...

O pensamento ousou-me. Depois, aninhei. O pensamento, muitas vezes, não rima com o corpo. Ou com alma, por mais submissa que ela seja. A viagem era longa de mais e não havia horário, nem agenda que me servissem. O medo está sempre a surpreender-nos. A surpreender-me. A vantagem do espelho é que não responde. Posso dominá-lo, submetê-lo. Até posso enfeitiçá-lo. A noite entra comigo pela madrugada e adormece, minuciosamente, no meu colo. Um dia, penso, será diferente. Um dia farei a viagem. Ainda estarás à minha espera?...

C.A.

Infelizmente, não fui que escrevi isto...

Ela: És um amante maravilhoso!
Ele: Pois.Tenho treinado muito sozinho!

Woody Allen

Improviso na forma de insónia...

As mulheres não dormem
vigiam a noite
agarram-se às bordas do chão
e resistem assim ao abandono
dos machos inertes
o silêncio nunca chega
para tantos
sobra sempre alguém.

Ademar
08.11.2006

novembro 08, 2006

Morituri te salutant!...

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Donald Rumsfeld , caído em combate (eleitoral). Requiescat in pace!

Bancos portugueses ameaçam fazer greve ao crédito!...

Os portugueses que estejam a planear recorrer ao crédito nos próximos meses poderão ter, em breve, notícias muito desagradáveis. Com efeito, é muito provável que, depois da aprovação do Orçamento Geral do Estado para 2007, a banca portuguesa, como medida de retaliação, decida suspender a concessão de crédito por um período de tempo que nunca será inferior a doze meses.
A greve ao crédito da banca portuguesa respeitará, porém, os serviços mínimos. A Região Autónoma da Madeira, as Câmaras Municipais e os clubes de futebol poderão, livremente, continuar a endividar-se.
Até à hora do fecho deste "post", não consegui obter a confirmação oficial da greve junto do Presidente da Associação Portuguesa de Bancos, João Salgueiro. Fá-lo-ei, evidentemente, logo que ele me atenda o telemóvel.

Os jogadores de futebol vão a Fátima a pé, sentados ou de gatas?...

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Fonte: Record, 8 de Novembro de 2006

Um treinador que aspira ao Nobel da Literatura...

Fernando Santos, que já foi engenheiro do penta no FCP e hoje treina o SLB, também é escritor. Revela-o hoje o Record, na primeira página. Escreve bilhetinhos durante os jogos e manda-os, por um estafeta de ocasião, para dentro do campo. Esquemas, simplesmente esquemas. Claro que a sua complexidade tem de ser ínfima, para poderem ser entendidos pelos jogadores. Eis a extraordinária mensagem contida num desses bilhetinhos, que hoje o Record desvenda.

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Não sei o que admirar mais nesta mensagem: se a subtileza dos movimentos sugeridos (absolutamente imprevisível), se o rigor onomástico da identificação dos jogadores envolvidos no esquema (repare-se no escrúpulo com que Santos escreve os nomes dos jogadores). Não há dúvida de que o treinador do SLB, com estes bilhetes, está a colocar-se na corrida para o Nobel da Literatura...

Poses contranatura (88)...

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Poseiro: Woody Allen.
Fonte: O Jornal Ilustrado, 652 (21 a 27 de Agosto de 1987)

Importa-se de repetir? (3)...

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Carlos Pimenta, Grande Reportagem, 15 (15 a 21 de Marlo de 1985)

"O que importa não é haver muita gente com fome porque assim como assim ainda há muita gente que come"...


Mário Cesariny? Pastelaria? Nobilíssima Visão? Sim.
E também Mário... Soares. Em 1985, à Grande Reportagem (numa entrevista conduzida por José Júdice):
"Há pessoas em Portugal que vivem mal? Pois há! E não houve sempre?".
Deixo-vos a prova do truístico dislate...

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Fonte: Grande Reportagem, 15 (15 a 21 de Março de 1985)

novembro 07, 2006

Improviso para nos contarmos na muralha da china...

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Talvez entre nós
suba e desça uma muralha assim
encontramo-nos no horizonte dos olhares
um pouco depois ou antes do desejo
que nos distrai
já guerreámos
agora desenferrujamos apenas as armas
para que no museu de nós mesmos
ainda nos vejam limpos
ainda nos vejamos
viajamos por dentro da objectiva
digo
somos parte do objecto
a parte que só nós próprios alcançamos
um dia descobriremos
que não tínhamos fim
nem mesmo entre as duas faces da muralha.

Ademar
07.11.2006


Antologia poética (402)...

Improviso para agradecer a Adélia Prado...

Hoje cheirei-me intimamente os interiores
soube-me a estranho
prefiro que me vejam de fora
ou pelo menos que me espreitem
os espelhos divergem-me
sou outro
quando entras por mim.

Ademar
27.07.2006

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Violinistas do diabo...

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Fará 50 anos no próximo mês de Dezembro. Foi aluno e protegido de Yehudi Menuhin e, em 2002, seguiu as pisadas do mestre, ao assumir a direcção artística da Orquestra de Câmara Polaca (Polish Chamber Orchestra). Nigel Kennedy é, a par de Fabio Biondi (com quem partilha, aliás, a paixão de Vivaldi) e alguns mais, um virtuoso do violino. Vi-o e ouvi-o hoje no Mezzo, num concerto em França, em que interpretou, para além das "Quatro Estações"... Jimmy Hendrix. Fiquei pregado ao televisor e não consegui mais almoçar. Hei-de morrer assim, a viajar com violinistas possuídos pelo demónio. E tive vontade, claro, de regressar contigo a Cremona, a pátria de Stradivarius...

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Poses contranatura (87)...

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Poseiros: Eurico Guterres, Xanana Gusmão e Ramos Horta, fotografados por Andre Kosters.
Fonte: Grande Reportagem, 101 (Agosto de 1999)

Poses contranatura (86)...

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Poseiro: João de Deus Pinheiro, fotografado por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1392 (3.Julho.1999)

Antologia poética (401)...

Improviso para degredo e mosca...

Espreito o mundo
pela janela ao canto da sala
escondo-me para não ver
neste degredo
só faltam seres vivos
há matemática e poesia a menos
nas emoções que se baralham
sofro de uma espécie de esperança
que morre um pouco todos os dias
o mundo espreita-me
pela janela ao canto da sala
e procuro em vão esconderijos
não há abrigos
para este desconforto acumulado
não há palavras
adoeço de silêncios
e de medos que já não falam
sobra clandestinamente uma mosca
regresso às metamorfoses de Kafka
entendo-me com ela
desentendo-me de tudo o mais
este circo chora-me
viajo em direcção à infância
como se procurasse a fonte primeira
do esquecimento de tudo
não caem lá fora
o míssil que deflagra
fui eu.

Ademar
28.07.2006

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Poses contranatura (85)...

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Poseira: Hillary Clinton, fotografada por Ruth Frenson.
Fonte: Expresso-Revista, 1392 (3.Julho.1999)

Poses contranatura (84)...

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Poseiro: Andre Agassi.
Fonte: Expresso-Revista, 1392 (3.Julho.1999)

Antologia poética (400)...

Improviso para dizer que coxeio...

Quando as palavras me sobram
atropelo-me na poesia
a exuberância de sentidos
encandeia-me
prefiro-me em estado de carência.

Ademar
31.07.2006

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novembro 06, 2006

Diário em forma de silêncio (70)...

Há noites em que ouço vozes. Vozes que, estranhamente, não estranho. Vozes que parecem ser apenas modulações da minha (ou deveria, antes, escrever… modelações?). Vozes que me chamam, que eu chamo. E, sobre todas elas, a tua. Uma voz que aprendi, entre tantos ecos interiores, a beber e a comungar, como numa última ceia de apóstolos. A tua voz que me ardia por dentro, só de a imaginar. Era por ela que eu fazia a viagem. Nunca tive coragem para to dizer. Era por ti que eu fazia a viagem…

C.A.

Poses contranatura (83)...

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Poseira: Bárbara Guimarães, fotografada por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1387 (29.Maio.1999)

Antologia poética (399)...

Improviso doméstico...

Uma borboleta inesperada
pousou-me no ombro doméstico
não sei se a mate
se a escravize
receio que sejas tu.

Ademar
01.06.2006

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Poses contranatura (82)...

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Poseiros: Manoel de Oliveira e Geraldine Chaplin.
Fonte: Expresso-Revista, 1387 (29.Maio.1999)

Antologia poética (398)...

Improviso para chover no molhado...

Há uma palavra
que deves eliminar do teu vocabulário
uma palavra agnóstica
outrora demoníaca
descaradamente subversiva
uma palavra masculina e espúria
que a psicologia e a moral
interditam às mulheres
e às meninas
uma palavra
que deves pronunciar nunca
e menos ainda pensar
ou escrever
prazer.

Ademar
01.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (81)...

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Poseiro: Fidel Castro, fotografado por Alberto Frias.
Fonte: Expresso-Revista, 1397 (7.Agosto.1999)

Antologia poética (397)...

Improviso mail.telepac.pt...

Mesmo depois de expirar
espero
que me deixeis fazer novamente
o login.

Ademar
01.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (80)...

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Poseira: Simone de Beauvoir.
Fonte: Expresso-Revista, 1384 (8.Maio.1999)

Antologia poética (396)...

Improviso sobre uma confissão de fiasco...

Talvez o teu fiasco
tenha uma alma virgem lá dentro
um corpo desengravidante
quero dizer
mãos trémulas e nervosas
a pedirem uma pena das antigas
com aparo para molhar a ansiedade
esse sorriso crispado
que diz sim a tudo
antes do não definitivo
como se vivesses ao contrário
numa desordem ainda feminina de entrada em cena
labiríntica ou circular.

Ademar
01.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (79)...

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Poseiros: Alberto João Jardim e Durão Barroso, fotografados por Gregório Cunha.
Fonte: Pública, 167 (1 de Agosto de 1999)

novembro 05, 2006

Diário em forma de silêncio (69)...

O meu corpo está sempre a mudar: morrem células, nascem células. E luta permanentemente com o universo, para não se desintegrar no universo. Se não o acompanho, escapa-me; se não cuido dele, atraiçoa-me. O movimento interior do meu corpo exige o meu próprio movimento. Resisto à fixação do absoluto. Renuncio à ambição do cárcere. Não aspiro a algemar-te, nem ofereço a alma às algemas com que tentas seduzir-me. É provável que, um dia, deixemos de nos reconhecer, mas o temor do futuro não acrescenta grandeza, nem conforto ao que somos. Partindo do pressuposto da mudança, não fico à espera que ela me surpreenda. Dar-nos-emos, pois, livremente as mãos enquanto quisermos. Um dia, pelo menos, de cada vez. Até que elas se calem e outras falem. Ou a morte, por nós. Sempre…é tempo de mais.

C.A.

Poses contranatura (78)...

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Poseiro: Vale e Azevedo.
Fonte: Factos, 10 (27 de Maio a 2 de Junho de 1998)

Antologia poética (395)...

Improviso para emagrecer...

De vez em quando
o ego reclama
uma dieta de emagrecimento
a submissão absoluta
à omnipotência do universo.

Ademar
02.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Importa-se de repetir? (2)...

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José Sócrates, Factos, 21 (18 a 14 de Março de 1998)

Simplex...

Ligo para um serviço da administração pública, supondo que é a maneira mais expedita de obter a informação que pretendo.
Atende-me A, a quem explico a razão do meu telefonema.
Reencaminha-me para B.
Explico a B.
B diz que não é consigo, mas com C e reencaminha-me para A, que, supostamente, me ligará a C.
Felizmente, não preciso de explicar novamente a A. Ela, já instruída internamente, faz imediatamente a ligação a C.
Explico a C o que pretendo. Diz-me que fui mal orientado - terei de falar com D. E reencaminha-me novamente para A.
A desculpa-se: está há pouco tempo no serviço e não sabe ainda quem decide sobre quê. Mas liga-me simpaticamente a D.
Explico a D, que me ouve com uma infinita paciência. Quando chego ao fim, informa-me que terei de falar com B. Rio. E explico que já falei com B, que me reencaminhou para C, que me reencaminhou para D. Deve haver alguma confusão, diz, talvez não tenha explicado bem. E reencaminha-me novamente para A, que me reencaminha novamente para B. Volto a explicar. Muito devagarinho.
B reconhece que não tinha percebido bem o que eu pretendia. Mas pede-me que envie um fax ou um e-mail, porque, pelo telefone, não pode responder.
Sabeis quanto tempo gastei desde que marquei o número do serviço e, finalmente, me informaram de que teria de enviar um fax ou um e-mail? 18 minutos.
SIMPLEX...

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Poses contranatura (77)...

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Poseiro: Benito Mussolini.
Fonte: Expresso-Revista, 1404 (25.Setembro.1999)

Antologia poética (394)...

Improviso para Bolonha e cinismo...

Confesso fui deficiente
num tempo em que ainda não havia nas escolas alunos com
"necessidades educativas especiais"
(os aterros sanitários serviam então para alguma coisa)
no estudo dos verbos
nunca passei da primeira pessoa do singular
ainda assim
arrematei uma licenciatura e
emoldurei o canudo
Coimbra era muito fácil
muito mais do que agora.

Ademar
05.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (76)...

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Poseiros: Luc Besson e Milla Jovovich.
Fonte: Pública, 183 (28.Novembro.1999)

Antologia poética (393)...

Improviso quase evangélico...

Desaprendi o feitiço da perfeição
banalizei-me
a grandeza amesquinha-me
sofro apenas com os sofredores
presidiei-me
impus-me grades no olhar
e no pensamento
receio só ter aprendido com cristo
o movimento na direcção contrária.

Ademar
05.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (75)...

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Poseiro: António Guterres.
Fonte: Expresso-Revista, 1407 (16.Outubro.1999)

Antologia poética (392)...

Improviso para saudar-me...

Há dias em que só aspiro a dormir criança
dias em que não me apetece deitar-me contigo
sejas tu quem fores
escrava ou dominadora
dias em que só estou preparado para mim
nesse território que divido com a morte
entre almofadas
antes de me atirar da varanda mais alta
de uma torre qualquer
para o mais fundo do meu esquecimento.

Ademar
06.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.po

Poses contranatura (74)...

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Poseira: Amália Rodrigues (1953).
Fonte: Expresso-Revista, 1407 (16 de Outubro de 1999)

Antologia poética (391)...

Improviso para Neptuno...

O meu pensamento é uma casa
que ainda não inventei
salas voláteis
quartos vazios de tudo e de nada
despensas armários
muitas estantes de livros ausentes
portas que nunca fecham
janelas que nunca abrem
camas em que ainda ninguém morreu
não tenho ideias
para fingir de arquitecto
o telefone fixo deixou de tocar
a campainha
agora
arranha apenas o silêncio
há mais refúgio nesta clausura
do que na saudade do próprio exílio.

Ademar
07.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Quem administrará a Saddam o cianeto?...

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Hermann Goering, em Nuremberga, também foi condenado à morte por enforcamento. Os carrascos consentiram que ele se suicidasse, duas horas antes de subir ao patíbulo. Cumpriram-se, há dias, 60 anos sobre a farsa...
Tudo me separa de Goering, como tudo me separa de Saddam, dois carniceiros abomináveis. Mas jamais confundirei justiça com ajuste de contas. E continuarei a bater-me contra a pena de morte, em nome de um resto de decência civilizacional.
Provavelmente, os carrascos de agora também consentirão a Saddam um suicídio honroso...
Quem lhe administrará o cianeto?...

Sem-tença...

não consigo que olhes para mim
surjo de todos os lados
como se houvesse muito mundo
e o centro fosse rondar
o teu favo interior
a gravidade é imensa e ri-se
não me deixa dançar assim
grito em todas as línguas
mas já não és irmão dos homens

coso sílabas apertadas
bem juntas, fazem calor
e o calor abre e fecunda
tenho medo de morrer como tu
estátua bem conservada
num último gesto glacial

faço-me memória
há uma hora atrás
nem sei se estava
há sempre um declive atrás das costas
resta-me emboscar-te num tempo por vir
correr muito para chegar primeiro
e depois sentar-me a tecer as horas certas
em que te esperarei
com todo o vagar
com toda a vileza
de que o amor é capaz
não é verdade o que dizem,
também te poderia matar
se olhasses para mim

Ana Saraiva

Seremos todos enforcados, com Saddam...

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A condenação à morte de Saddam, ao arrepio dos princípios mais elementares do direito internacional, é um caso de polícia. A farsa tribunalícia terminou como começou. Também me apertará na garganta a corda que enforcar Saddam.
A barbárie continua...

novembro 04, 2006

Improviso para anoitecer...

Obscureço
inesperadamente obscureço
sobro-me pelo filamento de uma vela
e o horizonte muito próximo
de um cigarro que arde ainda entre dedos
faróis que riscam a noite ausente
um silêncio que quase ensurdece
já só posso ver-me a um único espelho
estas palavras que me tremem nos olhos
que importa que me leias
se não acrescentas luz
à escuridão em que me vagueias?

Ademar
04.11.2006

Diário em forma de silêncio (68)...

Procurei-te porque já desesperava da mecânica rudimentar do sexo a martelo. Doía-me que tudo fosse sempre tão breve e previsível. Que nem, ao menos, um rasto de prazer tatuasse o meu corpo e a memória dele. Cansara-me, simplesmente, de abrir as pernas e lubrificar, para que, sem erosão, alguém entrasse. Revoltei-me. Exigi um altar só para mim. E tive-o...

C.A.

Poses contranatura (73)...

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Poseiros: Mário Soares, Rui Alarcão e companhia, fotografados por Jorge Simão.
Fonte: Expresso-Revista, 1253 (1 de Novembro de 1996)

Poses contranatura (72)...

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Poseiros: Santana Lopes e companhia.
Fonte: Caras, 55 (21.Setembro.1996)

Poses contranatura (71)...

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Poseiro: Manuel Monteiro, fotografado por Rui Ochôa.
Fonte: Expresso-Revista, 1260 (21.Dezembro.1996)

Poses contranatura (70)...

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Poseiro: José Sócrates, fotografado por António Xavier.
Fonte: Visão, 260 (12 a 18 de Março de 1998)

Poses contranatura (69)...

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Poseiros: Paula Teixeira da Cruz, Luís Marques Mendes e Carmona Rodrigues, fotografados por Inácio Rosa.
Fonte: Expresso, 4 de Novembro de 2006

O próximo Ministro (em acumulação) da Educação e do Ensino Superior...

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Fonte: Record, 4 de Novembro de 2006

Poses contranatura (68)...

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Poseiro: José Pacheco Pereira, fotografado por César Santos.
Fonte: JN, 4 de Novembro de 2006

Cabritada à moda do Porto ou de Pinto da Costa...

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Quem antecipou um “furo” jornalístico, sentiu-se, seguramente, defraudado. Saiu um... frete à moda do Porto. As 15 páginas que a revista do Sol dedica hoje a Jorge Nuno Pinto da Costa (e que são, apenas, a primeira parte da “encomenda”) cheiram a biografia autorizada, quase a panegírico. Felícia Cabrita, uma das co-autoras do “perfil”, faz o que pode para bater a pala ao presidente do FCP *. Claro que Cabrita já não é uma jornaleira estagiária e percebe da poda, mas a manha escorre abundantemente da prosa louvaminheira e só os leitores mais ingénuos não cheiram o frete.
O Sol ufana-se de “não oferecer brindes, nem fazer promoções”. Por favor, José António Saraiva: explique lá isso, devagar, aos seus jornaleiros!...

* A fotografia reproduzida mostra Pinto da Costa, menino e moço, a bater a pala não se sabe a quem, talvez à própria Felícia Cabrita. Na edição de hoje de Tabu, o leitor encontrará mais 15 fotos seguramente provenientes do arquivo pessoal do "perfilado". Não há dúvida de que Pinto da Costa engraçou com Felícia e abriu-lhe, de par em par, as portas da intimidade iconográfica...

Poses contranatura (67)...

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Poseiros: Brigite Bardot e um cão vadio.
Fonte: Olá!, 743 (14.Fevereiro.1998)

Poses contranatura (66)...

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Poseiros: Deng Xiaoping e a viúva oficial.
Fonte: Visão, 249 (23 a 29 de Dezembro de 1997)

Poses contranatura (65)...

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Poseiros: Cherie e Tony Blair.
Fonte: Visão, 249 (23 a 29 de Dezembro de 1997)

novembro 03, 2006

Importa-se de repetir? (1)...

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Fernanda Serrano (Factos, 12 - 14.Janeiro.1998)

Poses contranatura (64)...

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Poseiro: Teixeira dos Santos.
Fonte: Factos, 12 (14.Janeiro.1998)

Antologia poética (390)...

Improviso para telemóvel e silêncio...

Hei-de gritar-te sempre aos ouvidos
hei-de gritar-me sempre
só para me fazer ouvir
ouve
todos os homens são egoístas
ou surdos.

Ademar
07.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (63)...

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Poseiro: Duarte dito de Bragança (pretendente de profissão).
Fonte: Expresso-Revista, 1316 (17.Janeiro.1998)

Antologia poética (389)...

Improviso sobre a impossibilidade de me ligar ao universo...

Perdi a ligação ao outro lado de mim
e as palavras perdem-me
não sei ainda se regresso ao que fui
antes da viagem que me trouxe aqui
ouço talvez as tuas lágrimas
emparedadas no silêncio
nada é perfeito na memória
quando passamos o filme atrás
nada do que previmos aconteceu
a vida é este cálculo de desenganos
cada um vai pelo seu caminho
e um dia desencontramo-nos
todos os destinos são paralelos
não há sonhos que comunguem as madrugadas.

Ademar
08.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (388)...

Improviso evangélico...

Nem todos os apóstolos
dançaram com Maria Madalena
depois da última ceia
alguns só tiveram mesmo vontade
de vomitar
a traição da lucidez
origina-se sempre no estômago.

Ademar
12.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Paixões...

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Com nove anos, dizem as crónicas, deu o primeiro concerto. Com nove anos, terá muito provavelmente começado a despertar a paixão (que viria a revelar-se arrebatadora) daquele com quem, mais tarde, viria a partilhar o apelido, a inspiração e uma parte da vida: Schumann. Clara Wieck, aqui com 17 anos. Filha de Friedrich Wieck, talvez o mais influente professor de piano de Robert Schumann (pelas melhores e piores razões). Clara era, na juventude, dizem hoje os meus olhos, uma mulher muito atraente. Imagino-a, delicadamente, debruçada sobre as teclas de um piano. Quem não se apaixonaria por ela?...

recuperado de abnoxio3.blogs.

Poses contranatura (62)...

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Poseiro: Marlon Brando.
Fonte: Pública, 1 (26.Maio.1996)

Antologia poética (387)...

Improviso para um demente que não sabe que o é...

De deus e de louco
todos temos um pouco
menos tu
és demência apenas
e jamais o saberás.

Ademar
14.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (61)...

ferro.jpg

Poseiro: Eduardo Ferro Rodrigues.
Fonte: Expresso-Revista, 1289 (12.Julho.1997)

novembro 02, 2006

Improviso mais breve do que o pensamento...

Nenhuma nudez será castigada
senão à chegada.

Ademar
02.11.2006

Poses contranatura (60)...

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Poseira: Beatriz Batarda, fotografada por Adriana Freire.
Fonte: Notícias Magazine, 208 (19.Maio.1996)

Antologia poética (386)...

Improviso diurno para dizer improbabilidades...

Um último café
um último cigarro
um último gole de whisky
e uma vez mais
Salve Regina
Haydn para amantes silenciosos
e improváveis
como foram sempre todos os amantes
que nunca chegaram a ser
não voltarei a dizer-te os poemas
que nem tu sabias
que tinham sido escritos para ti
não voltarei a acampar nos teus desertos
a fugir das palavras com que me acenavas
da outra margem dos dias envergonhados
morri precisamente na hora em que nasceste.

Ademar
15.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (59)...

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Poseiros: Wallis Simpson e Eduardo.
Fonte: Notícias Magazine, 208 (19.Maio.1996)

Diário em forma de silêncio (67)...

Visto-me, claro, para ti, a imaginar os teus olhos e a antecipar o movimento das tuas mãos. Visto-me como se já estivesses a despir-me, como se a roupa que me acrescento fosse apenas um puzzle para tu desfazeres. Já sei que me preferes pouco produzida, ou seja, nada de aditivos. Desejas-me quase reduzida ao estado selvagem e eu quero oferecer-me a ti, assim: selvagem. Desprovidamente, selvagem. Não abdico, já sabes, da roupa interior - mas escolho a lingerie mais discreta, menos ostensiva. Talvez opte pelo preto, a cor que mais contrasta com a pele. E que melhor esconde outras sombras, as sombras que mais luminosamente procurarás. Descansa: depilar-me-ei apenas dos joelhos para baixo. Farás do resto de mim... o que desejares. Se me quiseres menina, oferecer-me-ei à cobiça do teu imaginário e serei menina. E submissa, infinitamente fêmea.

C.A.

Poses contranatura (58)...

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Poseiro: António Guterres.
Fonte: Magazine, 323 (19.5.1996)

Antologia poética (385)...

Improviso para continuar a descansar do futuro...

A mão estendida que não vi
nem o olhar
nem o silêncio dos lábios sussurrantes
e a eternidade morta
naquele instante distraído
em que falharam as luzes
digo
a história possível
que jamais escreveremos.

Ademar
15.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (57)...

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Poseiros: George Bush e Ronald Reagan.
Fonte: Sábado,188 (17 a 23 de Janeiro de 1992)

Antologia poética (384)...

Improviso para despir profetas...

O labirinto
sem portas nem janelas
sem paredes digo território
o labirinto
essa absoluta ausência de sentidos
construção interior descontruída
de todos os sentidos
seita que desafia
a própria noção de divindade
para consagrar apenas um novo profeta
os rebanhos peregrinam labirintos.

Ademar
16.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (56)...

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Poseiro: Félix Rodriguez (assassino de Che, a soldo da CIA), fotografado por T. Muller.
Fonte: Veja, 1503 (9.Julho.1997)

novembro 01, 2006

Improviso para dizer que cego...

Caminho na direcção do teu vulto
mas as luzes que te seguem
cegam-me
fecho os olhos para ver.


Ademar
01.11.2006

Poses contranatura (55)...

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Poseiro (involuntário): Che Guevara (1967).
Fonte: Veja, 1503 (9.Julho.1997)

Antologia poética (383)...

Improviso sobre uma condição feminina...

Arrastas por vezes o corpo
como se ele te pesasse
e dia a dia
pesas sempre um pouco menos
do que antes
já não é o corpo que te pesa
nem a alma
mas a imponderabilidade do género
nasceste do lado errado
do espelho da humanidade
ou talvez
numa espécie de fronteira interior
entre seres macho ou fêmea
falta-te apenas um sexo
para fundires o desejo em ti própria.

Ademar
18.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (54)...

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Poseira: Bjork.
Fonte: Expresso-Revista, 1290 (19.Julho.1997)

Antologia poética (382)...

Improviso para te elementar...

Faltam vozes ao teu coro
faltam dedos ao teu corpo
sobra-te apenas na prisão
a condição desejante
fêmea tardia
oferecida assim à vocação
de todas as mulheres que nunca o serão.

Ademar
19.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

O medo na capa...

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Mas haverá alguma igreja ou seita que não assuste? Basta um raio para transformar um rebanho, aparentemente, remansoso numa manada assassina...
Todos os que duvidaram já foram atropelados...

Antologia poética (381)...

Improviso em sete andamentos para dizer o princípio da criação...

Primeiro andamento
adagio
a tua voz
segundo andamento
allegro
o teu sorriso
terceiro andamento
andante
o teu pudor
quarto andamento
vivace
o teu desejo
quinto andamento
largo ma non troppo
o teu medo
sexto andamento
presto
a tua dúvida
sétimo andamento
moderato
o teu silêncio.

Ademar
20.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (53)...

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Poseiro: Vicente Jorge Silva, fotografado por Pedro Loureiro.
Fonte: Vida, 419 (24.Maio.1996)

Antologia poética (380)...

Improviso para quem me disse que outros tinham medo...

O medo veste-se
como roupa íntima
ninguêm vê
senão os amantes
que nos despem.

Ademar
22.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (52)...

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Poseiro: Jacques Chirac.
Fonte: Valor, 238 (23 a 29 de Maio de 1996)

Antologia poética (379)...

Improviso quase para Dylan...

Disseste-me tantas vezes
que não querias mudar o mundo
só o nome
não tinhas força de braços músculo
o mundo era coisa pesada para se mudar
só não querias que as portas se fechassem
atrás das tuas sombras
e que as mulheres sim as mulheres
não te desencantassem do silêncio
esplanaste a vida entre dois whiskies
que não chegaste a beber
e
papel rastejante
deixaste-te morrer depois.

Ademar
26.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

LapidaCão!...

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Recito...

“Os homens são responsáveis pelos assuntos das mulheres porque Deus favoreceu uns em relação aos outros, e porque eles gastam parte das suas riquezas em favor das mulheres. As boas esposas são as devotas, que guardam na ausência o segredo que Deus ordenou que fosse guardado. Quanto àquelas de quem suspeitais deslealdade, admoestai- as, abandonai os seus leitos, castigai-as; porém, se vos obedecerem, não procureis meios contra elas. Sabei que Deus é Excelso e Magnânimo.” (Q4:34)

Mais pedra, menos pedra, todos os deuses aspiram a submeter e a castigar as mulheres....
Elas, eternamente crédulas, é que ainda não perceberam...

Poses contranatura (51)...

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Poseiro: Jorge Sampaio.
Fonte: Expresso-Revista, 1212 (20.Janeiro.2006)

Antologia poética (378)...

Improviso na forma de haiku...

Se o meu pensamento
não tivesse grades
como voaria?

Ademar
26.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (50)...

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Poseiros: Jorge Sampaio e Maria José Rita, fotografados por Alberto Frias.
Fonte: Expresso-Revista, 1212 (20.Janeiro.1996)

Para as Sete *

que brevemente irão deliciar
as mãos que já sentem o peso doce
das pedras imortais
pequenas por lei humana
que o prazer demore
é justo e bom
bem apertadas, as pedras
animam-se
como ventres prontos a parir
e no gozo supremo da antecipação
as sete noviças
gozam o prazer milenar
de purificar a culpa do mundo
irão
perder-se na vertigem
desse bondage último
a dádiva pública
do corpo apertado na terra
e da cabeça rodeada de ódio
tão real que parece ficção
o cordeiro não tira o pecado do mundo
a mulher é o pecado do mundo
do mundo
sentado em cima da terra relativa
irão
totalmente submissas
para a última iniciação
gozemos, meus irmãos!

Ana Saraiva

*Parisa, Iran, Khayrieh, Shamameh, Kobra, Soghra e Fatemeh, sete mulheres condenadas à morte por lapidação.

Para que não digais que não falei de mortos, nem de bruxarias...

Um amigo recomendou-me e eu, que não sou esquisito, sugiro.

Poses contranatura (49)...

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Poseiro: Nagisa Oshima.
Fonte: Expresso-Revista, 1174 (29.Abril.1995)

Diário em forma de silêncio (66)...

Repito imagens. Imagens com cheiro. Continuo a cheirar-te, quando te vejo e reconheço em mim. Talvez fosse suposto que te esquecesse. Que te apagasse. Seria esquecer e apagar uma parte de mim. E as mulheres não se destroem assim. O tempo não passa por elas, não passa por nós, não passa por mim. O passado foi sempre ontem e ontem… é quase hoje. Continua a ser-nos. Continua a ser-me. Nunca aprenderei a conjugar os advérbios de tempo. Nunca saberei dizer que morreste. Que talvez tenhas morrido.

C.A.