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outubro 31, 2006

Poses contranatura (48)...

lepen.jpg

Poseiro: Jean-Marie Le Pen.
Fonte: Expresso-Revista, 1174 (29.Abril.1995)

Antologia poética (377)...

Improviso a contracorrente...

Sofro de cuidados paliativos
tarda o diagnóstico
e não quero mais adiar-me assim.

Ademar
27.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Poses contranatura (47)...

dois.jpg

Poseiros: Benito Mussolini e Adolf Hitler, garbosamente desfilando, entre cadáveres.
Fonte: Expresso-Revista, 1174 (29.Abril.1995)

Poses contranatura (46)...

mussolini.jpg

Poseiros: Benito Mussolini e Clara Petacci, expostos na Praça do Mercado, em Milão.
Fonte: Expresso-Revista, 1174 (29.Abril.1995)

Antologia poética (376)...

Improviso em forma de epitáfio para não dizer saudades...

Não tenho saudades do que fui
nem do que foi em mim
tenho apenas saudades da humanidade inteira
que nunca chegarei a ser.

Ademar
28.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (45)...

pacheco.jpg

Poseiro: José Pacheco Pereira (abruptamente deputado), fotografado por Luiz Carvalho.
Fonte: Expresso-Revista, 1174 (29.Abril.1995)

Antologia poética (375)...

Improviso sobre a submissão...

Antes de colocardes flores
interrogai sempre os altares
não há um único sacerdote
que não convide ao medo
e que espere de vós
um pouco menos do que a renúncia
a linguagem de todos os deuses profanos
será sempre a linguagem da morte.

Ademar
29.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (44)...

almodovar.jpg

Poseiro: Pedro Almodóvar, fotografado por Karl Grant.
Fonte: Expresso-Revista, 1203 (18.Novembro.1995)

Antologia poética (374)...

Improviso por Scheherazade...

scheherazade.jpg

Não me obrigues
todas as noites
a recontar a mesma estória
corta-me a cabeça
ou finalmente
deixa-me repousá-la em paz
no teu colo.

Ademar
30.06.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (43)...

eles.jpg

Poseiros: Francisco Franco e Adolf Hitler, em 1940.
Fonte: Expresso-Revista, 1203 (18.Novembro.1995)

Antologia poética (373)...

Improviso para náufragos...

Se os teus olhos adivinhassem os meus olhos
quando me lês
se o teu desejo fosse mais do que uma ínfima parte do meu desejo
se as nossas mãos se cruzassem
e eu pudesse ainda tocar-te
se não voltasses a dizer-me
que já morreste
ou que nunca chegaste a nascer
se o medo não fosse a única palavra do teu breviário
e finalmente sorrisses para dentro
os nossos dias não teriam o cheiro ácido deste silêncio
que nos naufraga.

Ademar
30.06.2006

publicad em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (42)...

tenis.jpg

Poseiro: Arantxa Sanchez, fotografada (digamos assim) por Rui Oliveira.
Fonte: Expresso-Revista, 1187 (29.Julho.1995)

Registos de avaliação no 1º Ciclo do Ensino Básico: a estupidez como culto...

O que me deprime nas escolas portuguesas não é o "eduquês", mas a estupidez. O "eduquês" é uma espécie de poalha dialectal, que só os tolos são capazes de promover a inimigo do que quer que seja. A estupidez, não: é uma espécie de "tique cultual", disseminado por todo o "sistema" (do superior ao inferior) e que (lamento desiludir Nuno Crato) é muito anterior ao... "eduquês" (seja lá isso o que for)...
A estupidez está um pouco por todo o lado: nos currículos, nos programas, nos manuais, na formação inicial e contínua dos professores, nas práticas de ensino e de avaliação, na organização das escolas...
Nos últimos anos, tenho-me entretido a coleccionar disparates. Por exemplo: fichas de registo de avaliação no 1º ciclo do ensino básico. Quase não há escola que, período a período, não ofereça aos "encarregados de educação" uma folhinha idiota com cruzinhas de um lado e d eoutro.
No momento em que escrevo estas linhas, tenho uma folha dessas à minha frente. Destaco alguns parâmetros de avaliação e as respectivas notações.

Língua Portuguesa (note-se que a ficha em causa reporta-se a um aluno do...1º ano);
Compreende e aplica o vocabulário activo (notação: satisfaz);
Compreende os aspectos fundamentais da estrutura e do funcionamento da Língua (notação: satisfaz bastante)
Compreende e aplica as regras elementares da comunicação oral (notação: satisfaz bastante).

Estudo do Meio
Compreende os princípio elementares do Meio Social (notação: satisfaz bastante);
Conhece a sua identificação (notação: satisfaz bastante);
Conhece o património histórico - local e regional (sem notação).

Expressão Plástica
Compreende as formas, cor, técnicas (notação: satisfaz);
É capaz de organizar superfícies (notação: satisfaz bastante).

Expressão e Educação Físico-Motora (sic)
Revela espírito desportivo (notação: satisfaz);
Revela adaptação ao contexto e espírito desportivo (notação: satisfaz).

Matemática (repito que a ficha que estou a citar respeita à avaliação de um aluno do 1º ano)
Domina as técnicas de cálculo (notação: satisfaz bastante)
Adquiriu as noções básicas de geometria (notação: satisfaz bastante);
É capaz de criar situações problemáticas (notação: satisfaz).

Atitudes (sic)
Realiza as diversas tarefas do dia a dia com gosto (notação: satisfaz);
Revela características de liderança (notação: satisfaz bastante);
Demonstra confiança nos adultos com quem se relaciona (notação: satisfaz bastante).

Estudo Acompanhado
Demonstra atenção e interesse pelas diversas actividades escolares (notação: satisfaz);
Utiliza os métodos de trabalho e estudo eficazes (notação: satisfaz).

Formação Cívica
É capaz de utilizar o sentido crítico para melhorar situações (notação: satisfaz);
Respeita o meio envolvente (notação: satisfaz);
Usa técnicas simples de troca de ideias/opinião (notação: satisfaz bastante);
Reconhece o direito da diferença - ideais, raça, religião... (notação: satisfaz bastante).

Área de Projecto
Participa nas várias fazes de realização de um projecto (notação: satisfaz bastante);
Colabora na pesquisa, recolha e tratamento de informação (notação: satisfaz bastante);
É capaz de organizar as ideias para apresentar um trabalho (notação: satisfaz bastante).

Nada disto, obviamente, é para ser levado a sério. Não se trata, repito, de um problema de excesso de "eduquês", mas de estupidez. Os professores do 1º ciclo do ensino básico que avaliam, nestes termos, um aluno do 1º ano - limitam-se a cumprir um ritual cujo sentido nem eles próprios entendem. Faz-se assim, apenas, porque alguém determinou que devia fazer-se. E a estupidez vai, impunemente, circulando de escola para escola, de turma para turma, de professor para professor.

Hei-de partilhar convosco outras fichas de registo de avaliação, que venho, divertidamente, coleccionando. Pobre país...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (41)...

jsoares.jpg

Poseiro: João Soares (fotografado por Luiz Carvalho).
Fonte: Expresso-Revista, 1187 (29.Julho.1995)

Antologia poética (372)...

Improviso sobre uma circunstância...

O silêncio reclama
o recolhimento inodoro dos corpos
mãos que cheiram
distraem.

Ademar
02.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

E mudar de neurónios...não se pode?!...

seios.jpg

Fonte: 24Horas, 30.10.2006

Morrer em Portugal: truísmos...

port.jpg

Em Portugal, sempre se morreu lenta e dolorosamente. Os perigos do tabaco nada acrescentam à circunstância e à condição...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

outubro 30, 2006

Cumplicidades que muito poucos entendem...

lobo.jpg

Fonte: Pública, 545 (29.Outubro.2006)
António Lobo Antunes fotografado por Enric Vives-Rubio

Antologia poética (371)...

Improviso sobre a tentação...

Há qualquer coisa no imprevisível
que me dói
preferia morrer por catálogo
ao balcão talvez do google
deus
debruçado sobre o universo.

Ademar
04.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (40)...

birmania.jpg

Poseira:Aung San Suu Kyi (fotografada por Moyer Robin).
Fonte: Expresso-Revista, 1205 (1.Dezembro.1995)

Antologia poética (370)...

Improviso retrospectivo...

Não há memória que o fogo não queime
já fui o teu senhor e o teu escravo
numa gramática com normas
que só nós próprios conhecíamos
e já fui muito mais do que isso
um pedaço mesmo da eternidade
quando velozmente te vinhas.

Ademar
06.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (39)...

salazar.jpg

Poseiro: António de Oliveira Salazar.
Fonte: Expresso-Revista, 1186 (5.Agosto.1995)

Diário em forma de silêncio (65)...

Nunca usei para te dizer a palavra mais puta de todas: amor. Foste tu que me ensinaste... e eu aprendi. Há palavras que nos fazem corar por dentro. O amor não anda por aí a servir às mesas da vida fácil. A rotina do alterne desafina-a.

C.A.

Antologia poética (369)...

Improviso sobre a semente da imortalidade...

Não espera por nenhuma primavera
uma dissonância atrai-a
faz-se então ao corpo
semeia-se e deixa-se crescer
um dia
imortalizamo-nos com ela.

Ademar
07.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (38)...

salmon.bmp

Poseiros: Clara Ferreira Alves e Salman Rushdie (fotografados por Luiz Carvalho).
Fonte: Expresso-Revista, 1201 (4 de Novembro de 1995)

Improviso sobre a assinatura de uma rosa...

rosa.jpg

As rosas não reconhecem intimidades
aspiram sempre à condição de moldura
ou de assinatura
eu queria dizer
identidades
a última rosa que te dei
não te murchou
ainda te respiro nela.

Ademar
30.10.2006

Antologia poética (368)...

Improviso com lágrimas ao fundo...

Não há suicídios perfeitos
não há palavras imortais
sobreviveste
quando falhaste
talvez tenhas querido chegar
cedo de mais
ao princípio de tudo
essa nebulosa de ausências
a que faltava simplesmente
a assinatura desejante de uma mãe
digo-te
a morte retroactiva
suspensa dos violinos e dos violoncelos que te tocam
em baixo contínuo
é o mais pesado dos teus fardos.

Ademar
09.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (37)...

walesa.jpg

Poseiro: Lech Walesa.
Fonte: Expresso-Revista, 1201 (4.Novembro.1995)

Poses contranatura (36)...

bosco.jpg

Poseiro: João Bosco Mota Amaral (fotografado por Rui Ochôa).
Fonte: Expresso-Revista, 1201 (4.Novembro.1995)

outubro 29, 2006

Miguel Sousa Tavares: um suave milagre...

Com a mudança da hora, o blogue de autoria anónima que vinha desafiando as pauladas de Miguel Sousa Tavares travestiu-se numa espécie de sucursal louvaminheira da editora de Equador.
Como Lisboa se diverte...

Improviso na forma de esboço sobre uma imagem...

sombra1.jpg

Sei que afinas em sol
mas o teu corpo tem cordas a mais
para tão poucos dedos
e não há arco que te toque
com que vibres ou reverberes
desce pelo interior de ti a partitura
e só tu reconheces na noite
o eco dos teus próprios acordes
falta-me luz nos olhos
para te ouvir.

Ademar
29.10.2006

Poses contranatura (35)...

burmester.jpg

Poseiro: Pedro Burmester (fotografado por Sérgio Granadeiro).
Fonte: Expresso-Revista, 1282 (24.Maio.1997)

Poses contranatura (34)...

paularego.jpg

Poseira: Paula Rego (fotografada por Rui Ochôa).
Fonte: Expresso-Revista, 1283 (31.Maio.1997)

Antologia poética (367)...

Improviso sobre um Allegro de Bach...

Há uma música no fim de tudo
que nos dança
talvez em dois violinos
um violoncelo
e órgão ou baixo contínuo
uma sonata (claro) de Johann Sebastian Bach
digo
um allegro
eroticamente perfeito
orgástico quase.

Ademar
09.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (33)...

trio.jpg

Poseiros: Bill Clinton, Jacques Chirac e Boris Ieltsin (fotografados por Charles Platiau).
Fonte: Expresso-Revista, 1263 (31.Maio.1997)

Poses contranatura (32)...

diana.jpg

Poseira: Diana Spencer.
Fonte: Pública, 2651 (15.Junho.1997)

Diário em forma de silêncio (64)...

Oscilo entre o medo e a tentação. O medo de partir para uma viagem, talvez, sem regresso. A tentação de me antecipar possuída pelas palavras, pelas tuas palavras. As palavras, tu sabes, podem aprisionar muito mais violentamente do que um par de algemas. Podem doer muito mais do que um chicote. O medo, em mim, confunde-se com a própria tentação. Volto a experimentar um pudor que supunha, definitivamente, vencido. Não o pudor que me convoca a ti, mas o pudor que me desafia a mim própria. Talvez eu estivesse demasiado habituada ao habitual. Agora tenho a certeza de que não é o habitual que me espera. E só por isso é que hesito e retardo a viagem...

C.A.

Improviso para contar outros domingos...

Reservo-te para os domingos
em longa-metragem
viajando-nos em flashback
e já não preciso de olhar para dentro
para regressar ao sofá
em que te sentavas e deitavas
fixo agora esse clip
do cigarro que te arde nos dedos
que atrapalhadamente suspendes dos lábios
numa pose quase hollywoodesca
a cinza volta a cair sobre os meus olhos
estou apenas à espera de que acabes de fumar
para ligar a máquina
ou ligar-me à vida
adivinho a sequência seguinte
a digressão espectacular das tuas mãos
que hoje não me apetece amarrar
fico a ver-te e a filmar
como te inclinas sobre o parapeito do meu desejo
e o recreias
como te despes lentamente
como te enrolas nas mãos que te dedilham
como serpenteias
como gemes
o tempo aprisionado na delicadeza dos movimentos
que te ofereces
e eu para sempre cativo do teu tempo.


Ademar
29.10.2006

Antologia poética (366)...

Improviso para distrair o rebanho...

Podias falar por tantas vozes
(e ele há tantas vozes que te falam!)
e falas apenas por uma
que não te pertence
falta oxigénio à tua voz
para que pareça mais
do que um balido.

Ademar
11.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (31)...

jfk.jpg

Poseiro: John Fitzgerald Kennedy.
Fonte: Pública, 60 (13 de Julho de 1997)

Antologia poética (365)...

Improviso sobre as palavras que matam...

Hoje não saí à rua com o cão
que não tenho
levei pela trela algumas palavras que
(julgava eu)
precisavam de me respirar
fiz a experiência
discretamente
distraí-me delas
entre o lixo
e não olhei para trás
regressei a casa
por volta de 1980
são as palavras desoxigenadas
que nos envelhecem.

Ademar
12.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (30)...

alatas.jpg

Poseiro: Ali Alatas.
Fonte: Vida, 446 (29.Novembro.1996)

Antologia poética (364)...

Improviso para chave e orquestra de câmara...

Se a noite se deixasse aprisionar
far-te-ia refém
o desejo
é um cárcere privado
em que me fechaste por dentro.

Ademar
12.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (29)...

troika.jpg

Poseiros: Mário Soares, Jonas Savimbi e Holden Roberto.
Fonte: Vida, 446 (29.Novembro.1996)

Poses contranatura (28)...

mrebelos.jpg

Poseiro: Marcelo Rebelo de Sousa (fotografado por António Homem Cardoso Jr.).
Fonte: Olá!, 671 (28.Setembro.1996)

Quod erat demonstradum...

cruztvi.jpg

Fonte: Expresso-Revista, 1248 (28.Setembro.1996)

Poses contranatura (27)...

ieltsin.jpg

Poseiro: Boris Ieltsin.
Fonte: Pública, 4 (16.Junho.1996)

Felizmente, haverá sempre economistas para nos dizerem como foi, como podia ter sido e como, certamente, será...

economia.jpg

Fonte: Le Nouvel Observateur, 587 (9 a 15 de Fevereiro de 1976)

outubro 28, 2006

Elvira Madigan...

elvira.gif

Estou a ouvir, uma vez mais, o celebérrimo Andante do Concerto para piano em dó maior, nº21 (K 467), de Mozart, datado de 9 de Março de 1765. Durante alguns anos, julguei que Mozart o dedicara a uma misteriosa mulher de quem eu nada sabia. Há muito que o tema aparece associado ao nome de Elvira Madigan e são raríssimas, hoje, as gravações que não estabelecem a relação (reproduzo a capa do vinil que estou, neste momento, a ouvir). Muito longe estava eu de imaginar que Mozart jamais poderia ter conhecido... Elvira Madigan. E muito menos dedicar-lhe o Andante do referido Concerto...
Trata-se, de facto, de uma extraordinária mistificação. Mozart não conheceu Elvira Madigan pela simples razão de que ela viveu um século depois. Foi uma longa-metragem (de 1967) do realizador sueco Bo Widerberg que, talvez para sempre, associou o Andante do Concerto de Mozart a... Elvira Madigan (uma desafortunada equilibrista circense que, com o seu "amante", se suicidou por "amor" em 1889, numa pequena ilha dinamarquesa).
Longe, por certo, estaria também Mozart de poder imaginar que a sua obra, dois séculos depois, seria baptizada com o nome de uma... suicida, na sequência de um filme...
O futuro brinca frequentemente com o passado... e o presente, com o futuro. E a arte é um albergue espanhol, em que não cabe a noção de tempo ou de identidade...

OFERTA PÚBLICA DE VENDA...

Hoje tomei uma decisão, para mim, histórica. Predisponho-me a vender o abnoxio. A necessidade é a mãe de todas as decisões históricas...
Claro que alguns leitores sorrirão, obstando imediatamente que um blogue não é, como os selos, as "antiguidades" ou as chamadas "obras de arte", um bem tangível.
Pode não ser tangível, mas é, seguramente, fungível (adoro este sufixo).
Há muitas maneiras de vender um blogue.
Reparai.
Eu tenho uma certa inclinação para dizer mal da Igreja Católica. Se o senhor Cardeal Patriarca de Lisboa ou o senhor Arcebispo de Braga quiser comprar o abnoxio, oferecendo um preço compatível, eu poderei:
Hipótese 1 (por um preço mais baixo) - deixar, simplesmente, de escrever sobre a Igreja (em regime de auto-censura);
Hipótese 2 (por um preço mais alto) - passar a elogiar a Opus Dei, o Papa e todos os demais dignitários da Igreja (em regime, alternativo, de bajulação).
Quem diz a Igreja Católica, diz o Governo (qualquer um). Ou a Câmara Municipal de Braga. Ou a banca. Ou o senhor professor catedrático, desde 1994, Manuel Maria Carrilho. Ou João Carlos Espada. Ou Nuno Crato e associados. Ou George W. Bush. Ou até o Presidente do Irão, cujo nome não sei de cor. Todos os bonzos que fazem parte da minha lista privada de execráveis poderão ter algum interesse em comprar o abnoxio. Seria menos uma voz a incomodá-los.
Por isso, a partir de hoje, aceito propostas.
E, simultaneamente, imploro aos credores uma moratória...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Diário em forma de silêncio (63)...

Deixa-me ver bem nesse espelho, não quero perder nenhum pormenor de mim, de nós. A alma que me escorre pelo corpo (ou será apenas do desejo?). A roupa que acompanha o despojamento da alma. Peça a peça, a madrugada fica mais próxima. Nada digo: limito-me a fotografar a devassidão das mãos que me despem lentamente, percorrendo-me. As mesmas mãos que me espreitam e que me sondam, como se tivessem olhos. Sei o que me espera, mas finjo ignorar tudo. Foi, afinal, por estes preliminares que cumpri a viagem. Sempre antecipei que seria assim...

C.A.

Poses contranatura (26)...

duarte.jpg

Poseiro: Duarte dito de Bragança com 2 figurantes servindo de timorenses (fotografados por António Pedro Ferreira).
Fonte: Expresso-Revista (Edição Especial), 10.Janeiro.1998

Improviso quase redundante...

A minha poesia
com a noite
sofre de espasmos
as palavras traem-me
e soluçam e tropeçam
estou sempre
muito aquém de mim
ou além
sofro de vertigens
quando tento substantivar-me
caio frequentemente
se eu pudesse
arriscaria apenas a leveza
do adjectivo pré-matinal.

Ademar
28.10.2006

Poses contranatura (25)...

marcelo.jpg

Poseiro: Marcelo Rebelo de Sousa (fotografado por Luiz Carvalho).
Fonte: Expresso-Revista (Edição Especial), 10.Janeiro.1998

Antologia poética (363)...

Improviso para Cassandra...

Naquelas tardes irrespiráveis
cigarro sobre cigarro
ele esperava ainda por ela
como na primeira sequência do filme
que cada um teria escrito
antes da invenção do cinema
ela nunca dizia que sim ou que não
mas faltava sempre
silenciosamente
deixava-o fumar o ciúme
abrindo o desejo a outras mãos.

Ademar
15.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (24)...

belmiro.jpg

Poseiro: Belmiro de Azevedo.
Fonte: Expresso-Revista (Edição Especial), 10.Janeiro.1998

Antologia poética (362)...

Improviso sobre a rotina...

Somos sempre para alguém
insubstituíveis
até ao dia simplesmente
em que deixamos de o ser
a morte transpira cansaço
e rotina.

Ademar
15.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Mulheres...

Há mulheres doces que transpiram amargura e há mulheres amargas que transpiram doçura.
Nunca saberei como as mulheres dizem isto dos homens. Se dizem...

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (23)...

pintodacosta.jpg

Poseiro:Jorge Nuno Pinto da Costa.
Fonte: Indy, 505 (16.Janeiro.1998)

Poses contranatura (22)...

carlos.jpg

Poseiro: Carlos (ele próprio).
Fonte: Expresso-Revista, 1319 (7.Fevereiro.1998)

Miguel Sousa Tavares: a doença infantil da soberba...

tavares.jpg

Miguel Sousa Tavares, majestaticamente, escreve hoje no Expresso sobre si próprio. Confesso que vomitei o exercício de autocomiseração e de soberba moral. E continuo a não perceber uma coisa: Miguel Sousa Tavares, que tem a minha idade, ainda não aprendeu a citar? Pelos exemplos que já vieram a público, parece meridianamente claro que, no romance Equador, ele utilizou (“ipsis verbis” ou com ligeiríssimas alterações) frases retiradas de outro livro. Pelos vistos, ele acha que não tinha a obrigação de sinalizar a autoria alheia, bastando-lhe indicar como fonte (porque se trataria de meras descrições de “factos reais”) o livro a que recorreu. Isto é o que ele hoje, espantosamente, sustenta no Expresso. É uma desculpa esfarrapada de criança apanhada a fazer uma asneira e que persiste em não querer assumir o erro.
Para mim, a “polémica” do plágio resume-se, apenas, a isto. E não enfio a carapuça dos “blogues anónimos”. Há mais de dois anos que dou a cara neste blogue e já tive de suportar muita canalhice anónima. Mas não confundo factos com... descrições “históricas”...
Miguel Sousa Tavares, para mim, vem de carrinho...

Antologia poética (361)...

Improviso sobre o esquecimento...

O esquecimento ressuscita-me
não há desilusão
não há cancro
não há dívida ou dúvida
de que o esquecimento não me proteja
a mãe que aconchegava os lençóis
quando a noite em fúria
prometia pesadelos.

Ademar
16.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (21)...

agustina.jpg

Poseira: Agustina Bessa-Luís (fotografada por Paulo Ricca).
Fonte: Pública, 179 (31.Outubro.1999)

Poses contranatura (20)...

georgew.jpg

Poseiro: George W. Bush (fotografado por Natalee Waters).
Fonte: Veja, 1613 (1.Setembro.1999)

Poses contranatura (19)...

jpaulosegundo.jpg

Poseiro: João Paulo II (numa escultura-instalação de Maurizio Cattelan).
Fonte: Expresso-Revista, 1409 (30.Outubro.1999)

outubro 27, 2006

Poses contranatura (18)...

clarafa.jpg

Poseira: Clara Ferreira Alves (A Pluma Caprichosa).
Fonte: Única, 1754 (10.Junho.2006)

Poses contranatura (17)...

clara.jpg

Poseira: Clara Ferreira Alves (A Pluma Caprichosa).
Fonte: Expresso-Revista, 1235 (29.Junho.1996)

Antologia poética (360)...

Improviso renascentista...

No princípio
é sempre o fim de alguma coisa
a nossa história tem muitas páginas
e estão todas numeradas
a morte renasce-nos sempre
até não haver mais princípio.

Ademar
16.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (16)...

alelencastre.jpg

Poseira: Alexandra Lencastre (fotografada para uma publicidade da Gás Natural).
Fonte: Visão, 341 (23 a 29 de Setembro de 1999)

Antologia poética (359)...

Improviso para desprezar o silêncio...

Se eu tivesse lágrimas
para chorar contigo
talvez
não me improvisasse assim
tanto por dentro das palavras
e sempre tão fora de mim.

Ademar
18.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (358)...

Improviso sobre uma fotografia de Carmel Skutelsky...

miste.jpg

Já fui o tronco
que te arrancou ao silêncio da terra
já imobilizei os teus braços
e lentamente desenhei nas minhas mãos
as raízes do teu corpo
morres agora de excesso
por todo o tempo que te fizeram perder
e eu volto a ser o monstro ou a fera
que te espreita e protege
à direita da tela
entre os olhos perfurantes da noite
talvez o leão que ainda não conseguiste desvendar
dentro de ti.

Ademar
19.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Apontamento sobre o absurdo, com dedicatória implícita...

O fim nunca deve estar no princípio ou no meio, mas no...fim. Parece um truísmo, uma daquelas evidências ao alcance do entendimento de qualquer criança, mas não é. Nas relações humanas, sobretudo nas relações amorosas, o fim, muitas vezes, confunde-se com o princípio, o processo do encantamento contém, em si, o próprio gérmen da desilusão, que rapidamente o destrói.
O problema é quando o gérmen, aparentemente, está ausente do processo e o fim prematuro, ainda assim, surpreende a relação, fulminando-a. Para quem vive estas situações, deve ser insuportável a consciência do absurdo.

Maio.2006

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (357)...

Improviso para libelo acusatório...

Que a culpa sobre toda
para quem talvez
tenha descido na estação errada
da história ou da vida
tu ou eu
digo
tu e eu
em nós
a humanidade inteira
a culpa toda.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (356)...

Improviso para cadáver e trompa...

Se olhares bem para dentro de mim
verás
sou um cemitério de corpos
um daqueles castelos abandonados
da bretanha
que já só os fantasmas habitam
entre retratos sem moldura
assinaturas quase ilegíveis
um cheiro intenso a mortalidade
que a memória distraída vai desfolhando
talvez ainda me pertenças
neste rasto de imprecisões
perdi-te algures
morri nos teus braços.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (355)...

Improviso na forma quase de epitáfio...

Se pudesse reescrever-me
contar-me-ia ao contrário
de dentro para fora
e nunca de fora para dentro.

Ademar
21.05.2006

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Antologia poética (354)...

Improviso para compor na forma de moteto...

Há corpos em que embarcamos
para nos perdermos no alto-mar
e corpos em que morremos
antes de sabermos nadar.

Ademar
22.05.2006

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Antologia poética (353)...

Improviso a benefício do medo...

Voltarás a ouvir o silêncio
e arrumarás talvez o cachecol
na gaveta das intimidades impartilháveis
para que não sintas mais vontade
de te cheirar
faltar-te-á uma voz
do outro lado da cidade
mas ainda do mesmo lado de ti
uma voz entre o inverno e a primavera
que bordava simplesmente murmúrios
e morrerás um pouco mais
todas as noites
prisioneira dos medos que geraste
e de todas as mãos ausentes.

Ademar
22.05.2006

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I put my car...

barreiros.jpg

Descobri hoje, na Wikipedia, que Quim Barreiros "is a Portuguese pimba poet and singer".

Fiquei também a saber que "one of Quim Barreiros' biggest hit was "A Garagem da Vizinha" (The Neighbour's Garage), but he is also known for hits such as "A Cabritinha" (The Little Goat) about a man who enjoyed sucking his little goat's tits and "Mariazinha", when he asked this woman, "Maria" (or Mary), to let him go to the kitchen to smell her "codfish"... most of his songs are full of ambiguous words, often filled with an obvious sexual conotation, very notable in the song "A Garagem da Vizinha".

Confesso que não conhecia a letra (perdão: o "poema pimba") de "A Garagem da Vizinha". A Wikipedia reproduz o estribilho da coisa, primeiro, na língua original e, depois, em inglês. Fiquei rendido ao tesão metafórico do autor...

Ponho o carro, tiro o carro, à hora que eu quiser
Que garagem apertadinha, que doçura de mulher
Tiro cedo e ponho à noite, e às vezes à tardinha
Estou até mudando o óleo na garagem da vizinha!

I put my car, I take out my car, anytime I want to
What a tight little garage, what a sweet woman
Take it early and put it at night, and sometimes in the evening
I'm even changing the oil in the neighbour's garage!

Não sei como isto se canta, até porque desconheço completamente a obra do autor. Mas percebo agora melhor por que os universitários portugueses gostam tanto de Quim Barreiros e, pelos vistos, de "A Garagem da Vizinha" . A verdade é que, com os parques sobrelotados, eles têm, coitadinhos, de meter o brinquedo nalgum sítio...

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Antologia poética (352)...

Improviso para harpa e duas mãos...

Descobriste muito tarde
aprendeste apenas comigo
que também tinhas duas mãos
e podias ser harpa
a madrugada solitária
transporta-me agora o eco
das tuas cordas
reconheço-te ainda na partitura.

Ademar
23.05.2006

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Antologia poética (351)...

Improviso para cadastro e baixo contínuo...

Não me engoliste
não te engasgaste
foste mãe para mim no pretérito
muito mais do que perfeita.

Ademar
24.05.2006

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Antologia poética (350)...

Improviso para masoquistas...

Talvez rastejar e ajoelhar
sejam apenas verbos
e não atributos
de quem se oferece à submissão
quem rasteja e ajoelha
mais tarde ou mais cedo
levanta-se
com a sabedoria ou a raiva
do chão.

Ademar
24.05.2006

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Antologia poética (349)...

Improviso sobre os dias contados da primavera...

Morrerás um dia
para todos os olhos
e todas as mãos
que te vibraram
mas antes disso
deixarás de te ver ao espelho
as fêmeas borboletas
têm vida efémera
seca-lhes depressa a fonte do desejo
e todas as janelas passam a abrir
apenas para o deserto
a primavera
minha amiga
tem os dias contados.

Ademar
25.05.2006

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Poses contranatura (15)...

carloscruz.jpg

Poseiro: Carlos Cruz (fotografado por Alexandre Almeida).
Fonte: Vida, 444 (15.Novembro.1996)

outubro 26, 2006

Antologia poética (348)...

Improviso pré-arquitectónico...

Todas as casas
são templos de magia
estão cheias de tudo
o que lá não está.

Ademar
26.05.2006

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Poses contranatura (14)...

natalia.jpg

Poseira: Natália Correia (1949).
Fonte: Vida Mundial, 2 (Março.1998)

Antologia poética (347)...

Improviso a benefício da saudade...

Um dia
quando eu já for uma ausência eterna
ler-me-ás talvez com outros olhos
a morte que sempre há-de iluminar-nos.

Ademar
26.05.2006

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Poses contranatura (13)...

figo.jpg

Poseiros: Dora e Figo (fotografados por Gonçalo Rosa da Silva).
Fonte: Visão, 135 (19 a 25 de Outubro de 1995)

Antologia poética (346)...

Improviso em forma de urgência...

Há sempre fantasia a mais
nas palavras com que despimos
esse território que desejaríamos comum
sofremos talvez de excesso de metáforas
ou de uma incapacidade elementar
de aspirar apenas ao possível
como se temêssemos que no possível
já não houvesse mais lugar
para nos agregarmos
a música pela música
com toda a poética lá dentro
ou simplesmente o sexo
essa superlativa evidência dos sentidos
que projecta os nossos corpos
na direcção contrária da morte.

Ademar
27.05.2006

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Poses contranatura (12)...

antvitorino.jpg

Poseiro: António Vitorino (ainda).
Fonte: Visão, 338 (9 a 15 de Setembro de 1999)

Apostila...

Bates à porta e não és ninguém, dizes. Mas enches-me a casa, como se fosses toda a gente. Digo: o pensamento. E já não sei como te tirar de lá. Digo: como te tirar de mim.

Antologia poética (345)...

Improviso fraternal...

Não distingues
entre maldade e imperfeição
e confundes-te com ambas
julgando-te porém acima delas
se as distinguisses
saberias
que a maldade aspira sempre à perfeição.

Ademar
27.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (344)...

Improviso sobre uma pavana de Ravel...

Sim
sobreviveremos
não importa como
nem para quê
sobreviveremos
até que tudo acabe
ou recomece
morreria agora
se ninguém tivesse de pagar
o funeral.

Ademar
28.05.2006

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Poses contranatura (11)...

vitorino.jpg

Poseiro: António Vitorino (antes de chegar a Ministro, Comissário Europeu e Comentador residente da RTP).
Fonte: Vida, 466 (18.Abril.1997)

Antologia poética (343)...

Improviso para cego e bengala...

Vendados
os olhos só vêem para dentro
a intimidade com a noite
tem uma ciência de luzes imperceptíveis
que as tuas mãos iluminam
mas já não há bengala a que me apoie
neste movimento imaginário de passos
que te interrogam
hesitando o destino dos dias.

Ademar
28.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Poses contranatura (10)...

querido.jpg

Poseiro: Kim Jong Il (também conhecido por Querido Líder).
Fonte: Veja, 1.Abril.1998

Antologia poética (342)...

Improviso para ouvires...

Uma voz que escorre pelo teu corpo
e humedece as mãos
uma voz que dança contigo
e quase atropela
uma voz que te penetra
como se fosses apenas tímpano
uma voz que vigia os teus silêncios
e geme e grita contigo
uma voz que ainda semeia rosas
no teu olhar.

Ademar
29.05.2006

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Improviso para dizer um rosto em movimento...

Esse rosto indeciso
voado de uma tela de Modigliani
ou
de um grande plano de Tarkovski
ou
do banho que te desarrumou as madeixas
e agora servem de cortina
aos teus lábios entreabertos
o bilhete da viagem incerta
que não largas da mão
como se fora o último bilhete de identidade
e o carmim que te escorre dos dedos
digo
das unhas frágeis
com que talvez me arranhasses
o vidro de todos os horizontes
em que obliquamente nos espreitamos
e o desejo que irrompe
muito longe de nós.

Ademar
26.10.2006

Poses contranatura (9)...

estrela.jpg

Poseira: Edite Estrela.
Fonte: PM, nº5 (Fevereiro.1998)

outubro 25, 2006

Poses contranatura (8)...

mendes1.jpg

Poseiro: Luís Marques Mendes.
Fonte: Expresso-Revista nº1277 (19.Abril.1997)

Poses contranatura (7)...

barroso.jpg

Poseiro: Durão Barroso (fotografado por Luiz Carvalho).
Fonte: Expresso-Revista, nº1190 (19.Agosto.1995)

Antologia poética (341)...

Improviso para guião e partitura...

Os olhos cerrados
a cabeça baixa
a nudez
e as bengalas à entrada
atravessando o cenário
a escuridão protegida das borboletas
à luz temerária das velas
e quatro metros de corda talvez de sisal
para amarrar a eternidade
uma garrafa de água natural
seis colheres de sopa de mel num prato raso
morangos que nunca foram silvestres
um dedo de whisky num copo de cristal
uma cama feita de lavado antes da morte
e o sofrimento depois.

Ademar
30.05.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Diário em forma de silêncio (62)...


As mulheres, tu sabes, espreitam, espreitam muito, antes de se aventurarem aos horizontes, antes de lhes abrirem os braços e as pernas. Desculpa a aparente rudeza da linguagem, mas é o movimento das pernas que, afinal, nos distingue. Nunca as mulheres dizem para os homens o que homens dizem para as mulheres: abre as pernas! Para que se entendam no círculo estreito do comércio erótico, basta que elas abram. E não convém mesmo à materialidade do acto que vós lhes sigais o exemplo. Quando as mulheres abrem as pernas… é suposto, quase forçoso, que os homens as fechem. É uma metáfora, claro: a mais antiga e a mais animal de todas. Já percebeste, decerto, aonde eu quero chegar: são sempre as mulheres que se abrem para a intimidade, que a tornam possível…

C.A.

Improviso em tons de verde...

Em que margem da sedução
guardas as palavras
esses silêncios com que me interpelas?
por que não libertas as mãos
das algemas e lanças a chave
ou os teus olhos
pela janela da noite mais próxima?
essa fantasia
de te prenderes por dentro
e de me prenderes contigo
estarei onde a chave cair
ou os teus olhos
nesse beco sem saída
cais a que por fim se rendam
todas as distâncias naufragadas.

Ademar
25.10.2006

Palhaços...

bobos.jpg

Que as pitonisas do "politicamente correcto" me perdoem, mas quando vejo "chefes de estado" armados em "caudilhos" e travestidos de palhaços para excitação do circo mediático e da populaça... tenho vontade de emigrar para outro planeta...
Lembrai-vos de Fujimori (que também se vestia de palhaço) e outros que tais?...
A pulsão demagógica deixa-me sempre à beira de um estado de nervos...

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Antologia poética (340)...

Improviso para dizer "talvez"...

Morri no advérbio
talvez
fiquei no meio da ponte
fiquei no meio da estrada
fiquei no meio da vida
fiquei no meio de mim
morri talvez
numa dúvida gramatical
entre existências
que me ignoraram
(ou distraíram).

Ademar
31.05.2006

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Poses contranatura (6)...

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Poseiro: Aníbal Cavaco Silva (fotografado por Carlos Vidigal).
Fonte: Público Magazine nº232 (14.8.1994)

Poses contranatura (5)...

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Poseiro: Alberto Fujimori.
Fonte: Expresso-Revista nº1293 (9.Agosto.1997)

Poses contranatura (4)...

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Poseiro: Lula da Silva (fotografado por Frederic Jean).
Fonte: Veja (10.Junho.1998)

Poses contranatura (3)...

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Poseira: Bárbara Guimarães com Carrilho ao colo? (num anúncio da Valentim de Carvalho)
Fonte: Pública nº29 (8.Dezembro.1996)

Poses contranatura (2)...

bailado.jpg

Poseiros: Manuel Alegre e Jorge Sampaio (fotografados por Rui Ochôa).
Fonte: Expresso-Revista, nº1184 (8.Julho.1995)

A escola que eu rejeito...

farg2.jpg

Há dias, na sequência da leitura e da fruição colectiva de um poema de Brecht, um aluno interrogava-se e interrogava-me sobre Hitler*. Como fora possível?... Como fora possível que um "monstro", um "louco" (como ele dizia), tivesse chegado a chanceler da Alemanha?!...
Tive vontade de lhe responder: de uma escola que, tradicionalmente, só ensina a rastejar... só se pode esperar que produza seres rastejantes...
Num mundo em que as crianças e os jovens, na família e na escola, não fossem educados para obedecer e acreditar cegamente na palavra do "fuhrer" ou de um messias qualquer, num mundo sem deuses e sem teologias, os "monstros" estariam, politicamente, condenados ao insucesso: ninguém os ouviria, ninguém os respeitaria, ninguém lhes confiaria o voto ou a esperança, ninguém desfilaria pelas ruas para os hossanar. Infelizmente, a escola continua (e continuará) a educar para a obediência e para a alienação. E todas as tiranias, em contextos de degradação económica e social, continuam a ser possíveis.
Enquanto for vivo e me pagarem para educar as novas gerações, não serei cúmplice. O conhecimento, o espírito crítico e o humanismo são os únicos antídotos que conheço para a demagogia e as pulsões totalitárias. Por isso, hei-de preferir sempre a contestação e a rebeldia ao conformismo. Na escola e fora dela...

* A imagem representa Hitler numa escultura-instalação do artista italiano Maurizio Cattelan.

Poses contranatura (1)...

jardim.jpg

Poseiro: Alberto João Jardim (fotografado por Rui Ochôa).
Fonte: Expresso-Revista, nº1431 (1 de Abril de 2000)

Respingos da sarjeta (2)...

maldivas.jpg

Sarjeteiro: um tal Mário Esteves.
Fonte: 24 Horas (24.10.2006)

Respingos da sarjeta (1)...

brad.jpg

Sarjeteira: Kirsten Dunst.
Fonte: Notícias Sábado, 40 (14 a 20 de Outubro de 2006)

Crónica...

sempre o presente
não há outro tempo
haver ontem e amanhã
é útil e engraçado
para os deuses
que em nós se riem
fui ou serei, até parece que sim
ou se quiserem, não
e, no entanto

recuerda mi vida

este momento é tudo o que me escapa
para desde sempre alterado
coisa tão pouca
a palavra
que só sabe dizer o tempo

es la tuya

Ana Saraiva

outubro 24, 2006

Des-sentimentos...

este é o segundo verso
apenas para poder haver este
e acabar aqui
ou daqui a uns minutos
de incompreensão e silêncio
mútuos
a poesia mede-se nos batimentos
que não sentes
uma só pergunta te acompanha
é a mesma de sempre
eu respondo:
é tudo o que ficará por saber
e quando acabar
é tudo o que continuarás a ouvir
surdamente

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (61)...

Talvez tenhas razão: o meu desejo só pensa quando me vejo ao espelho, quando as vejo ao espelho, reflectidas em mim. Nos homens talvez procure apenas o pai que me traiu; nas mulheres, a leveza e a interdição do aconchego cúmplice e do prazer. Foste talvez o primeiro a perceber isso, talvez mesmo antes de mim. É certo que me ofereci ao palco do teu olhar, mas tu não sentenciaste – deste-me a mão e ajudaste-me, discretamente, a assumir e a representar um papel que me ardia no corpo e na alma. Devo-te essa ousadia, uma coragem que, sem ti, talvez eu não tivesse arriscado. Não te quero mal por isso: apenas, a mim. Por ter precisado, para andar, da muleta que me estendeste.

C.A.

Antologia poética (339)...

Improviso sobre duas palavras brutais...

Palavras contentor
onde cabe tudo
a vida e a morte da espécie
o desejo
e o medo
palavras sumidas e triviais
amor
deus
por esta ordem
ou a inversa
insignificâncias brutais.

Ademar
01.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (338)...

Improviso sobre a arte de voar...

Nem todas as asas respiram
pelas membranas invisíveis
a arte de voar
reclama muito mais
do que a leveza de um corpo
um filósofo terá dito mesmo
que só os pensamentos voam
a matéria que os conjuga
não.

Ademar
01.04.2006

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Antologia poética (337)...

Improviso apátrida...

Não dou nome de nenhuma pátria
ao território a que pertenço
falta-me a percepção das fronteiras
e entendo-me comigo
em todas as línguas e dialectos
no mesmo pensamento
viajo de continente em continente
sobre todos os oceanos
que me atravessam
e se quero voar para fora de mim
basta-me o desejo de voar
e sou o universo
não tenho ausências de palavras.

Ademar
02.04.2006

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Antologia poética (336)...

Improviso para violino e caixa registadora...

Duro na brevidade de uma chama
(dás-me lume?)
o teu sorriso
que me desconfunde na multidão.

Ademar
02.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (335)...

Improviso sobre a arte de desaprender de esperar...

No tempo em que os barcos acostavam
até cheguei a esperá-los no alto-mar
para fundear com eles
hoje
passeio na direcção contrária de todos os cais.

Ademar
02.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (334)...

Improviso para tecer saudades...

Memórias que me dão a mão
e brincam comigo
o violino que nunca tocaste
naquele terraço que os olhos
pareciam suspender
sobre as nuvens
o lied prometido que calaste
quando não subimos ao palco
do teatro que já fora olímpico
os canais esquecidos de Amesterdão
e aquela tela de Vermeer
que o embaraço do crepúsculo adiou
para um dia que já morreu
um último solo de Yo-Yo Ma
um último acorde de Piazzolla
um último plano de Wong Kar-Wai
e a lolita que não chegou a esperar por nós
no quarto mais húmido do hotel da Ruga Bella
que Veneza desconhece
onde estavas
quando tudo isto não aconteceu?

Ademar
03.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (333)...

Improviso sábio ou suicida...

Arrisco a vida
recuso-me a antecipar a morte
em cada medo.

Ademar
03.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Consultório...

A maior pendência amorosa dos homens e das mulheres é a expectativa e a gula da perfeição. Tenho que vos desiludir: não há amantes perfeitos, seja em que género for. Aperfeiçoai-vos!

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Miguel Sousa Tavares e a pulsão do pau!

Manchete de arromba da edição de hoje do 24 Horas...

mst.jpg

Confesso que devo ser o único português letrado que não leu, nem pensa vir a ler "Equador". É uma questão de feitio e de higiene: os meus olhos não podem com bestas céleres...
Por isso, nesta escandaleira plagial, não tenho opinião. Mas cheira-me a conspiração, malandreca, de Margarida Rebelo Pinto. Deve estar com vontade de levar com o pau...

Natureza (quase) morta...

deveria ter adivinhado que aquela peça de fruta
cuidadosamente descascada
não chegaria a ser comida
só o soube naquele passeio tão gentil
em que as ruas da cidade se encheram de rio
e tu serviste de barqueiro sem querer
só para eu ver
como é bonita a cidade assim navegada
mas um pouco estranha: é dia e não há gente
se me virasse agora
os remos estariam vazios
esforço-me por me lembrar da peça de fruta
agora definitivamente improvável
se me virasse agora
os meus lábios estariam vazios

Ana Saraiva

outubro 23, 2006

Diário em forma de silêncio (60)...

Nada me poderás devolver, porque nada me roubaste. Pertenci-te exclusivamentre, enquanto me quiseste. Regressei à concha, quando desististe. Eu sei, eu sei: era corpo de menos para ti. Não em exuberância de carnes, claro, mas de desejo. Não era de mim que precisavas. A tua voracidade reclamava outros buracos negros, infinitudes que sempre me tardaram. Ofereci-me a tudo, a quase nada me neguei, mas não foi bastante. Quando começaste a chamar-me de “mulherzinha”, eu percebi. O carinho do diminutivo dizia toda a tua desilusão...

C.A.

MERDA! FODA-SE! CARALHO! ...

É o comentário mais poético que algum leitor (neste caso, uma leitora) já depositou no abnoxio...

não é nada contra ti. mas foda-se tou farta desta merda.
estou farta da merda da poesia- MERDA! FODA-SE! CARALHO!

Não sei se conheço ou seria capaz de reconhecer a leitora, mas agradeço-lhe o desabafo. Se a poesia não irrita, servirá para quê, senão para embrulhar castanhas?!...

Improviso sem paciência para metáforas...

Dir-nos-emos
que ainda sobram muitas noites
para nos deixarmos conduzir à extravagância
de todas as manhãs
o poema começa assim
exactamente como acaba.

Ademar
23.10.2006

Um problema de autismo (tributo a Mário-Henrique Leiria)...

No início do ano lectivo, o professor, fervendo de autoridade profissional, entrou musculadamente na sala de aula e, antes que disparassem, atirou logo a matar:
- Aqui, ficais já a saber, quem manda sou eu. Aprendereis o que eu quiser, quando eu quiser e como eu quiser! Esta é a minha pedagogia. Alguma dúvida?...
A turma entreolhou-se ironicamente, ergueu-se à uma, disse em coro "PUTA QUE O PARIU!" e saiu da sala. Ficou, apenas, o Gabriel.
Foi o ano mais feliz da carreira do professor: tinha uma turma com apenas um aluno, que parecia beber em êxtase, todos os dias, os seus acetatos.
Só no final do ano lectivo é que descobriu que o Gabriel, o aluno perfeito, era autista. Deu-lhe 5, a nota máxima. E atirou-se da Arrábida, com os acetatos...
Soube-se depois que já tinha pago as propinas do mestrado em administração escolar...

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Antologia poética (332)...

Improviso na forma de cárcere...

Repito-me semanticamente no singular
e quase sempre na primeira pessoa
não aprendi ainda
a conjugar os verbos no plural
e receio
que já não tenha tempo
para aprender
sinto-me um novelo ilimitado de sentidos
labirinto interior sem portas nem janelas
procuro em vão a gramática impossível
para desamaranhar-me
mas só me enredo ainda mais nas palavras
que me encarceram.

Ademar
05.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (331)...

Improviso para dizer princípios...

Hoje regressámos uma vez mais
ao princípio de tudo
digo
esse exactamente tudo
que não envolve mais ninguém
senão nós
e no princípio desse tudo
não fomos sequer o verbo
mas a metáfora que o precede
as palavras engravidam na imaginação
quase sempre
entre olhares silenciosos e tímidos
que predestinam o berço
a infância nunca nos perde.

Ademar
05.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Amnesiamos...

sabemos que não há mais palavras
se nos espantámos
brevemente o olhar
uns intantes redondo
cairá na rigidez do mil vezes dito
e ali fica
a imitar um doente mental
todos os dias agradeço
esquecer-me tanto
nunca acabo
não me lembro de começar

Ana Saraiva

Sexo, dizem eles...

Como é que pessoas, em geral, deseducadas sexualmente poderão educar sexualmente? E a senhora ministra da educação (por quem, até, tenho apreço pessoal), saberia? Se tivesse à sua volta, numa sala estreita, vinte e cinco adolescentes com as hormonas a ferver e todos os sentidos em fúria- que faria? Que diria? E o senhor secretário de estado da educação?...
Provavelmente, gaguejariam e teriam vontade, a cada provocação, de fugir rapidamente para casa. O que não os impede de considerar que a educação sexual é um imperativo das escolas e uma obrigação dos professores. É uma tonteria, que só a ignorância do país que somos poderá explicar.
Os portugueses, em geral, são "atrasados sexuais". A igreja católica e a cultura judaico-cristã encarregaram-se de os castrar. Sempre que pensam ou falam em sexo, coram, infantilmente, de pudor ou dizem alarvidades, grosserias. Quando os filhos ou os alunos os desafiam, mudam, desesperadamente, de conversa ou dão respostas patetas. As mulheres têm vergonha dos seus "instintos animais"(que nem às paredes confessam) e os homens divertem-se a fantasiar encontros exóticos com prostitutas. A vida sexual dos portugueses é uma trágica anedota, que o Ministério da Educação deseja agora, mui pedagogicamente, estender às salas de aula. Coitados dos alunos e coitados dos professores...

Declaração de interesses: tenho 53 anos, sou pai de três filhos rapazes, dois deles ainda adolescentes (ou quase) e professor. E cada vez tenho menos paciência para "atrasados sexuais"...

Abril.2006

recuperado de abnoxio3.blogs.sapo.pt

A reabilitação do beijo...

Hoje, Judas Iscariotes é o protagonista de uma principais notícias que corre mundo (e continuará a correr nos próximos séculos). Giotto representou-o assim, beijando (e denunciando) Jesus Cristo...

giotto.jpg

Trata-se de um pormenor de um dos 37 extraordinários frescos que Enrico Scrovegni, no dealbar do século XIV (por volta de 1303), encomendou a Giotto para a Capela da Arena, em Pádua, imagens que, para sempre, ficaram a marcar a iconografia cristã.
Significativamente, o fresco dedicado pelo pintor florentino à cena do "Beijo de Judas" faz a capa de quase todos os roteiros da Capela Scrovegni (que visitei há dois anos atrás), como se a traição do discípulo dilecto de Jesus continuasse a ser entendido como o verdadeiro momento fundador do cristianismo.
O papiro cujo conteúdo começa agora a ser revelado promete abalar e sepultar para sempre um dos principais alicerces do anti-semitismo que os evangelhos foram disseminando pelo mundo dito cristão. Judas Iscariotes, afinal, terá sido apenas o agente eleito das pulsões martirológicas de Jesus Cristo (uma espécie de traidor por missão) e estaria mancomunado com ele, quando, com um beijo, o denunciou à multidão.
Quase dois mil anos depois, o beijo de Judas começa a ser reabilitado. É uma excelente notícia para todos os suspeitos de traição de profetas...
Rejubilo em causa própria...

Abril.2006

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Antologia poética (330)...

Improviso póstumo...

Habituamo-nos a tudo
até à esmola de um beijo
que atraiçoa a natureza de quem o sofre.

Ademar
07.04.2006

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Priva-cidade...

bato-me contra a pele dos teus músculos
para ouvir tudo o que calamos
quando o mundo está a olhar

Ana Saraiva

outubro 22, 2006

Improviso para dizer o Génesis...

Vais circulando os meus olhos
no exacto sentido do movimento
dos ponteiros de qualquer relógio
da esquerda para a direita
e depois
da direita para a esquerda
rodas rondas-me
a fantasia agora pinta-se de verde
não cheiras apesar da chuva
a terra molhada
distraio-me nesse horizonte
que me ofereces
ajoelho
para espreitar o universo
e só te vejo a ti
quase tudo
do que sobra de uma mão.

Ademar
22.10.2006

Antologia poética (329)...

Improviso com endereço sobre o medo...

O medo
em português
tem quatro letras
e quatro pernas
exactamente
para andarmos de gatas
ou nos pormos de cócoras.

Ademar
07.04.2006

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Desmapeamentos...

num passeio estreito do bairro da Gràcia
assalta-me ainda uma memória
rodeia-me, encosta-se
e sussurra-me
uma pergunta
sobre o mapa
um ponto no mapa
desenhado por mim
que seguro nas mãos
mas que já não vejo
fecho o mapa e os olhos
e a memória sussurra-me
mas já não ouço
perco-me das ruas
e de mim

Ana Saraiva

Antologia poética (328)...

Improviso desejante...

A saudade
não a sei traduzir em palavras
nem em gestos
sofro-me simplesmente
quando te penso.

Ademar
07.04.2006

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Canseiras...

largo as minhas mãos no chicote
vejo a tua alma ateada ao fogo do corpo
tingem-se as minhas mãos nas tuas
o corpo enrubesce
uma paz
nesse calor
descanso
distraio-me
arrefeces
tenho frio
agarro o chicote todo
entro com as mãos e o corpo outra e outra vez
e mais uma vez
até seres chama
e eu poder descansar


Ana Saraiva

Antologia poética (327)...

Improviso para piano...

Se compusesse para piano
sobrar-me-iam sempre
teclas ou notas
não caberás jamais
nos dez dedos das minhas mãos.

Ademar
08.04.2006

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O grande "artista" afundado no espelho de si próprio...

tenentorum.jpg

Pormenor de uma excelente fotografia da autoria de Daniel Rocha, que hoje pode ser contemplada nas centrais da Pública, a ilustrar uma entrevista a um tal José António Tenente, putativo "criador" de moda. Confesso-me, absolutamente, troglodita: a "moda" dos trapinhos, em geral, só me provoca o sarcasmo. Pela coceira dos rebanhos, essa espécie de tesão social que conduz a carneirada, a quatro patas, a dar o corpinho à pose exigida pelos "pastores" do estrume...
Tenente, na entrevista, dá-se "ares" de eminência. Fulmina o que ele rotula de mau gosto - ou seja, o gosto que ele não vende. A fotografia, de resto, diz tudo do rapaz: ele vive afundado no espelho de si próprio. Um problema de mãe a menos ou a mãe a mais. C'os diabos, podia tratar-se!...

Dominicalmente...

no tempo-corpo
deito-me com vontade de despertar
e todos os sonhos me levam ao mesmo lugar:
haver sempre uma história por dizer
e esquecermo-nos de contar
a última vez que deixámos
a cama por fazer

Ana Saraiva

Para que não digais que sou, completamente, insensível à...moda...

moda.jpg

Não sei a quem pertencem as pernas (nada despiciendas, de resto), nem a quem atribuir a autoria da foto (vulgaríssima de Lineu). Mas a corda de sisal é um desafio à imaginação. Se as adolescentes de todas idades vêem, ainda corre o risco de se converter numa...moda.

Antologia poética (326)...

Improviso para gnósticos...

Cristo ou Ireneu
quem fundou o cristianismo?
há mil e oitocentos anos
que me atrapalho na resposta.

Ademar
09.04.2006

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Um país de conselheiros... de opereta...

opereta.jpg

O Público divulga hoje alguns excertos de um extraordinário acórdão do Supremo Tribunal de Justiça que merece figurar nos anais da jurisprudência educacional. Transcrevo um desses excertos (com a devida vénia ao Público):

"Qual é o bom pai de família que, por uma ou duas vezes, não dá palmadas no rabo dum filho que se recusa a ir para a escola, que não dá uma bofetada a um filho (...) ou que não manda um filho de castigo para o quarto quando ele não quer comer? Quanto às duas primeiras, pode-se mesmo dizer que a abstenção do educador constituiria, ela sim, um negligenciar educativo."

Como não conheço ainda o teor completo do acórdão, não posso responder às dúvidas que alguns leitores estarão, neste momento, a colocar mentalmente. Limito-me a adivinhá-las e a reproduzi-las, porque também as subscrevo:

1- Em que consiste um "bom pai de família"?
2- Se o pai de família não for bom, terá ele legitimidade para aplicar os correctivos?
3- Quantas palmadas é que o "bom pai de família" poderá, de cada vez, aplicar no rabo do filhote que se recusa a ir para a escola?
4- E quantas bofetadas?
5- Relativamente a estas, é indiferente, para efeitos penais, que sejam administradas na face esquerda ou na face direita?
6- Poderá o pai de família mais sensível delegar a aplicação do correctivo educacional na mãe, desde que, naturalmente, também seja boa?
7- E que outros correctivos com impacto físico serão também toleráveis em interacções educacionais?
8- No altíssimo entendimento do Supremo, os professores poderão ser equiparados a "bons pais de família" para efeitos de aplicação dos correctivos educacionais?
9- Os magistrados do Supremo Tribunal de Justiça ainda não coram de vergonha quando se vêem ao espelho dos seus doutíssimos acórdãos?

Isto está transformado num país de opereta...

Abril.2006

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Antologia poética (325)...

Improviso sobre a felicidade...

A felicidade
é o único antídoto para a poesia
não há poetas felizes.

Ademar
13.04.2006

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Antologia poética (324)...

Improviso para me dizer...

Nunca aprendi a tristeza das cores
sou uma espécie rara de deficiência
não me afeiçoo a melancolias
entristeço-me apenas
para vagabundear por dentro das palavras
depois
festivamente
regresso sempre a mim.

Ademar
13.04.2006

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Antologia poética (323)...

Improviso à guisa de nota de rodapé...

O teu corpo
é a única novidade na minha vida
o mais são palavras
que sempre fizeram parte de mim.

Ademar
14.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt


Antologia poética (322)...

Improviso sobre a memória...

Há dias em que tenho saudades de nada
como se a minha memória
estivesse apenas disponível
para sondar o futuro.

Ademar
14.04.2006

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Antologia poética (321)...

Improviso para oboé e papiro...

Nem o fogo caminha sobre as águas
e os pântanos
têm sempre a medida dos pés distraídos
o meu génesis começa assim
um pouco depois da criação do mundo
quando tu apareceste.

Ademar
16.04.2006

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Desabelhando...

como podes imaginar
a flor sem sombra de espinhos
que nunca estremeceu com o prazer das abelhas
que nunca comoveu nenhum passante inesperado
é aquela que adorna a vitrina onde eu nunca páro

Ana Saraiva

outubro 21, 2006

Gare marítima...

já não tenho em que pensar
todos os dias são livres
para me levarem a ver o mar

Ana Saraiva

Antologia poética (320)...

Improviso tendencialmente heterossexual...

Dos homens
dizes
não reza a história
se a história reza ou soluça
o verbo exacto
inalcançável
a minha história
que continuas a escrever assim
no feminino
entre aragens que mal respiram.

Ademar
19.04.2006

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Antologia poética (319)...

Improviso para dançar...

Como numa dança medieval
inclino-me respeitosamente na direcção do corpo
que me estendes
e ofereço-me às tuas mãos
para que hesites comigo
o movimento.

Ademar
19.04.2006

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Em prosa, à guisa de resposta...

Eu não me digo: fazem-me.
Não me enganam: desengano-me sempre.
Há momentos em que não sei responder-me.
Sofro de vertigens
quando as palavras me procuram.

Ademar
22.04.2006

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Antologia poética (318)...

Improviso em forma de petição...

Os gritos dos deuses
ensurdecem-me
agoniado
já enjoo o sangue dos mártires
reclamo
a desintoxicação dos profetas.

Ademar
22.04.2006

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Antologia poética (317)...

Improviso antigramatical...

A minha memória do futuro
não tem páginas em branco
e o enredo da história
em todas as versões
termina num ponto final
irremediavelmente final
há normas de pontuação
que me atrapalham
digo por outras palavras
a gramática é uma mortalha.

Ademar
23.04.2006

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Antologia poética (316)...

Improviso doméstico...

Hoje
passarei a alma a ferro
brunir-me-ei.

Ademar
23.04.2006

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Diário em forma de silêncio (59)...

Hoje tive saudades de gemer para ti. Não devia confessá-lo, porque foste tu que desligaste os microfones… Mas a saudade, pelo menos, em mim, não aspira jamais a ajustes de contas. Alimenta-se da luz – não, das penumbras. Não quer justiça: quer paz. A saudade pacifica-nos. Pacifica-me, quando me sinto de novo a ser passeada pelas tuas mãos e pela tua língua. Quando volto a perguntar-te, retoricamente, se não te importas que me venha. É óbvio que eu já sabia a resposta. Perguntava, apenas, para te fazer feliz. De resto, não esperavas mais…

C.A.

Antologia poética (315)...

Improviso em forma de mão...

Abre a mão
faz do meu olhar
o sentido dos teus dedos.

Ademar
25.04.2006

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Antologia poética (314)...

Improviso elementar...

Deve haver uma razão elementar
para os homens desejarem outros homens
e as mulheres
outras mulheres
uma razão elementar
que não faz parte de mim
terei nascido
com uma deficiência elementar.

Ademar
26.04.2006

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Ensaio breve de antropologia...


Há mãos que falam. Há mãos que fadam. Há mãos que afagam. Há mãos que espreitam. Há mãos que calam. Há mãos que gritam. Há mãos que hesitam. Há mãos que coram. Há mãos que adiam. Há mãos que atrapalham. Há mãos que baralham. Há mãos que desejam. Há mãos que segredam. Há mãos que enfeitiçam. Há mãos que voam. Há mãos que partem. Há mãos que voltam.

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Antologia poética (313)...

Improviso para sacrário e campa rasa...

Nem todas as chaves
abrem
a porta estreita
do teu sacrário de lutos
espreito-te pela fechadura
e ergo-me contigo
da campa rasa
em que dormes.

Ademar
26.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (312)...

Improviso para distrair o cansaço...

Há momentos
em que me apetece dormir
há momentos
em que me apetece morrer
talvez ao mesmo tempo
para ser mais económico
ou no mesmo tempo
dormir ou morrer assim
como quem escreve apenas um advérbio
finalmente
sem uma carta de despedida
sem um último cigarro
sem um requiem
sem um corpo mesmo para cremar
dormir ou morrer assim
imperceptivelmente
só para não ter de acordar outra vez.

Ademar
27.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (311)...

Improviso sobre a lentidão da morte...

Já não tenho vontade
(morreram-se-me as grandezas)
de morrer pelo mundo
hoje
morro apenas por mim
digo
vou-me deixando morrer.

Ademar
27.04.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (310)...

Improviso sobre o anonimato...

Hoje perdi o sentido das estrelas
rastejei incólume entre serpentes
mordi a condição de verme.

Ademar
29.04.2006

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Expresso assaltado por adolescentes!...

tolice.jpg

Escandaliza-se, hoje, na primeira página, o Expresso: UM ANO LECTIVO QUE NUNCA MAIS COMEÇA.
Receio que o Expresso tenha sido capturado por adolescentes. Ou por mentecaptos, mascarados de jornalistas.
Eis um título que nem o 24 Horas se atreveria a reproduzir (e o 24 Horas costuma atrever-se a todas as idiotices)...
O excesso de Sol nunca se recomendou a estagiários do rigor...

outubro 20, 2006

Diário em forma de silêncio (58)...

A relação erótica, dizias, anda muito simplificada. Sim, vamos todos, alegremente, analfabetizando. O que conta, cada vez mais, é a mecânica - e a pose da vida breve. Passamos ao largo da poesia e a prosa... reproduzimo-la de cor, como se ela já nada pudesse acrescentar-nos. Fodemos? Sim, claro, ainda vamos fodendo, já despojados de quase todos os sentidos. Vamo-nos repetindo, soletrando-nos. Até perdermos, completamente, a vontade de ler, digo, o tesão da narrativa...
Tento sobreviver na fantasia que me reinventa. Na memória que me sobra de ti...

C.A.

Disponível para amar? In the mood for love...

mood.jpg

Nunca estão sós, quando se encontram no café, quando se cruzam nas escadas e nas ruas, quando partilham a chuva e dizem palavras de circunstância. Cada um é a luz das suas próprias sombras, conspiram silenciosamente uma paixão talvez impossível, parece que o corpo não entra naquele desejo que, poderosamente, os aproxima e os afasta. Como insinua o título original, eles recreiam mais uma atmosfera do que uma disponibilidade. É possível que estejam disponíveis para amar (signifique o amor, aqui, o que se quiser), mas o que deles captamos é ainda apenas a respiração.
Há traduções que pesam sobre o segredo da descoberta inadiável...

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Antologia poética (309)...

Improviso sobre a conjugação retroactiva do verbo servir...

Servi
serviste
servimo-nos?

Ademar
01.03.2006

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Antologia poética (308)...

Improviso para ninguém...

Ninguém
é uma palavra muito numerosa
mesmo quando significa exactamente
ninguém.

Ademar
01.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (307)...

Improviso geresiano...

As palavras mendigam-te
mas tu ainda não abriste o dicionário
para me traduzires.

Ademar
01.03.2006

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Antologia poética (306)...

Improviso sobre as armadilhas da linguagem...

Se eu te adjectivasse
não estaria a dizer-te
mas ainda e sempre a dizer-me
prefiro pois substantivar-te.

Ademar
01.03.2005

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Antologia poética (305)...

Improviso sobre a silogística do amor...

Quando te desejo
és o que és
mais aquilo que te acrescento
mas
o que te acrescento
não faz parte de ti
é apenas a parte de mim
que te pertence
enquanto desejares
que eu te acrescente
ficas sempre mais tu
quando não te pertenço.

Ademar
02.03.2006

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Antologia poética (304)...

Improviso à condição...

O excesso de perguntas adoece-me
não tenho vocação para testemunha
nem para réu.

Ademar
01.03.2006

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Rifoneiro...

Desde criança que ouço dizer que "para trás mija a burra". Será que os burros se distinguem dos humanos, exactamente, por mijarem para trás? Nunca entendi a metáfora escatológica...

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Antologia poética (303)...

Improviso imperfeito...

O silêncio
não pergunta nem responde
tece apenas
a imperfeição das palavras.

Ademar
02.03.2006

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Antologia poética (302)...

Improviso sobre a demora...

Não há viagens curtas ou longas
todas as viagens
duram apenas o tempo de nos sonharmos.

Ademar
02.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (301)...

Improviso sobre a verdade da noite...

Todas as camas são
de falsos casais
adormecemos sempre
connosco.

Ademar
02.03.2006

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Descalçam(om)entos...

descalço-me e apanho a estrada para Bamako
hei-de dançar um último danzón nesse minuto
que te demorou a chamar-me
descalço-te para que me acompanhes
em todos os regressos que faremos
os pés cobertos de pó, sorris-me

Ana Saraiva

Esquerda e direita: o eterno conflito...

aznar-bush.jpg

Esta fotomontagem, cuja autoria não sei a quem atribuir, tem muita graça. Devo, porém, reconhecer que Aznar, na pose de caudilho (Franco travestido), é muito mais convincente do que Bush, mascarado de nazi (mas Bush não consegue convencer ninguém em papel algum...). Aznar, a gente já tinha percebido há muito, é um sanguíneo. E está sempre com a corda toda...
Hoje, em Espanha, Aznar é notícia por duas razões. Porque terá comprado, em 2005, um apartamento "ilegal" em Marbella e porque devolveu uma caneta, de uma forma politicamente incorrecta, a uma repórter da Cadena Quatro, que o abordara com um pedido de autógrafo. As imagens passaram nas televisões e não são conclusivas. A repórter terá feito, na ocasião, uma pergunta politicamente impertinente e Aznar, com um sorriso malandro, em vez de responder directamente à provocação, terá feito mergulhar a caneta emprestada por dentro da t-shirt da repórter. Coisa de adolescentes tardios, está-se mesmo a ver...
Choveram sobre Aznar as acusações de machismo e, pelo menos, duas ministras mais impertigadas de Zapatero já exigiram que ele apresentasse, publicamente, desculpas à repórter. O ridículo atravessa Espanha do Guadiana aos Pirinéus e os humoristas lá se vão divertindo com a gaguês da cena. Não é todos os dias que as maminhas de uma repórter atrevida sentem, diante das câmaras das televisões, o inesperado contacto de uma caneta que acabara de ser usada por um ex-líder do governo de Sua (deles) Majestade...
Eis a democracia mediática, no seu máximo esplendor!...
Faites vos jeux!

Diário em forma de silêncio (57)...

As homens surpreendem-se com pouco. Descobriste tarde e tropegamente que nem todas as mulheres afinam pelo mesmo diapasão. Há mesmo (oh, suprema ironia!...) quem desafine. Digo: mulheres que não rastejam a condição, mesmo quando, voluntariamente, rastejam. Confesso-te que, muitas vezes, receava que não percebesses. Por isso, com antecedência, prevenia-te. Também porque sabia que exultavas a honra de me conduzires ao orgasmo. Delicadamente, esperavas sempre por mim, mesmo quando eu teria desejado que te antecipasses. Os homens raramente acertam o cronómetro da intimidade...

C.A.

outubro 19, 2006

Os juízes-canalhas da consciência dos outros...*

Não conheço nenhum português que queira mandar para o banco dos réus (e, menos ainda, para a prisão) a filha, a irmã, a "esposa", a sobrinha, a amante, a amiga que aborta.
Mas , pelo que se deduz dos resultados da sondagem da Católica hoje divulgados, ainda há vinte e tal por cento de portugueses que defendem alguma forma de punição pública (por que não umas chicotadas ou a lapidação?) para as mulheres que interrompem voluntariamente a gravidez.
E eu, ingénuo, que supunha que a Inquisição já tinha sido extinta em Portugal...
A hipocrisia e a canalhice continuam, neste país, a ter os seus cultores.

* Declaração de interesses
Eu também já abortei, digo, já fui cúmplice desse "crime horrendo". Nas duas ocasiões, a decisão final foi das mulheres. Eu, no lugar delas, provavelmente, não teria abortado. Hoje, teria cinco filhos, em vez de três. Mas, a partir do momento em que elas decidiram abortar (e a decisão é, sempre, dolorosa), eu apoiei-as e ajudei-as a consumar a interrupção da gravidez. Para vinte e tal por centro de compatriotas meus, eu devia ter ido para a cadeia. Sorte a minha: os meus crimes já prescreveram!

Antologia poética (300)...

Improviso sobre a timidez...

Não padeço de exuberâncias
a timidez contém-me
na exacta proporção do que sou.

Ademar
03.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (299)...

Improviso em forma de lua despertadora...

Hoje distraí-me contigo
da chuva
e namorei
no teu olhar silencioso
a mais antiga e discreta das luas
despertadoras.

Ademar
03.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (298)...

Improviso sobre as mães...

Não há mães absolutas
no desperdício da natureza
e talvez da paixão
que as fez
todas as mães são relativas
menos delas próprias.

Ademar
03.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (297)...

improviso para explicar o movimento das marés...

Todos os meus sonhos
adormecem comigo
quando a noite me viaja
ao dia seguinte
numa espécie de parêntesis lunar
o meu corpo
já só respira com o sol.

Ademar
03.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (296)...

Improviso sobre o lugar onde...

Conduzo-te
por portas, pátios e escadas
que ainda não nos pertencem
caminho diante de ti
protegendo-te a retaguarda
e vou afastando com o olhar
aranhas e ratazanas
o catálogo do nojo de todas as mulheres
por vezes
segues-me de longe
como que resguardando a distância
e sinto que o teu pensamento
interroga os gestos e as palavras
que te conduzem
enquanto as crianças algures
encenam a velocidade da infância
nós tecemos lentamente
a vontade de esquartejar o futuro
que nos atrasa para uma vida
que jamais chegaremos a viver.

Ademar
04.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (295)...

Improviso sobre a imortalidade...

Tenho uma página em branco
para te guardar
desenharia talvez a boca e
o movimento dos lábios
ou o embaraço dos olhos
diante da humidade da luz
se em vez de uma página
fosse uma tela
talvez Vermeer
ficasse apenas suspenso
do silêncio levitante das tuas palavras.

Ademar
04.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (294)...

Improviso sobre um tema de J.S.Bach...

Se eu não te procurasse
não terias existido
ou
dito de outra maneira
fora do que procuro
nada existe
senão o universo.

Ademar
05.03.2006

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outubro 18, 2006

Antologia poética (293)...

Improviso sobre as mulheres...

Há mulheres que começam por dizer
que são mulheres
e há mulheres que começam por dizer
que são pessoas
desejando as primeiras
sempre preferi as segundas.

Ademar
05.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (292)...

Improviso sobre a prudência...

Não me aventuro muito
para além de mim
ainda não aprendi a defender-me
dos atiradores furtivos.

Ademar
05.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (291)...

Improviso para despertar...

Os sonhos não adormecem
é através deles
exactamente
que despertamos.

Ademar
05.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (290)...

Improviso para ti...

Nascemos vivemos e amamos sem prazo
curto médio ou longo
o prazo nunca faz parte
do que somos agora.

Ademar
05.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (289)...

Improviso sobre portas e janelas...

Esta noite as crianças deitar-se-ão mais cedo
porque amanhã já não será domingo
e tu improvisarás a estória
que hoje não será mais de fadas
ou de príncipes e princesas que não chegaram a ser
era uma vez dirás uma mãe exclusiva
que fechara todas as portas e janelas
para não ser vista de fora
não
interromperá Alícia
tu é que perdeste a energia da sedução
eu bem apontei a luz para o espelho mágico
onde tu te visses
mas tu fechaste os olhos
como se não quisesses mais acreditar
na aura dos teus feitiços
dorme Alícia
que hoje quem faz a estória sou eu
era uma vez uma mãe
digo uma mulher
que abriu
todas as portas e janelas que tinha fechado
para não ser vista de fora
Alícia sorriu.

Ademar
05.03.2006

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Antologia poética (288)...

Improviso para Kim...

Há cheiros
e olhares
e mãos
que aproximam as espécies
quero aprender contigo
a latir o desejo
e a lambê-lo.

Ademar
06.03.2006

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Improviso fotográfico...

Nesse pedestal
já não há luzes que te destaquem
és a única sombra
que a si própria se ilumina.

Ademar
18.10.2006

Antologia poética (287)...

Improviso em forma de despertar...

Tenho a inclinação amorosa
de caminhar as manhãs
só nunca tive
com quem
as mulheres cansadas
preferem anoitecer.

Ademar
06.03.2006

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Antologia poética (286)...

Improviso embaraçado...

Há palavras que não doem
podes dizê-las
sem que o corpo adoeça
palavras que parecem
estrelas oceanos marés
que te levam para muito longe
muito para além do horizonte
dos braços
que te pedem apenas
um silêncio humedecido
um quase desleixo
de não teres mais palavras
para dizeres à noite
quando te desejas.

Ademar
06.03.2006

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Antologia poética (285)...

Improviso sobre uma rosa nocturna...

São horas de te dizer
que me espero
nesse espelho emudecido
que te devolve ainda
a alegria do corpo
na nudez que não consentes
a outros olhos
a outras mãos
são horas de te dizer
que viajo nas rosas
que te despertam
para o imprevisto
uma vela com a urgência do sol
talvez cinco linhas
escritas à pressa
numa folha de calendário
e a noite do tamanho da memória
de todos dias
que não te chegaram a ser.

Ademar
07.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (284)...

Improviso peninsular...

Rodeado de mim
por todos os lados
menos por um
esse
por onde tu entras e sais
e ficas.

Ademar
07.03.2006

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Antologia poética (283)...

Improviso sobre a vergonha...

As luzes da noite
não iluminaram os teus olhos
preferiste fechá-los
para não veres a cena seguinte
quando ele voa pela janela
ao encontro dos teus passos tímidos
e quase trôpegos
e caminha ao teu lado
como se fizesse parte de ti
os gestos não têm mazelas
nem as palavras
e ele cuidou da alma
como disseste
para que a alma te recebesse
mais perfumada ainda
do que um jardim de rosas
só abriste os olhos
para dar sentido ao desconforto
de não estares ali.

Ademar
08.03.2006

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Boletim meteorológico...

Há dias em que não me apetece de todo comentar o bairro, o país, o mundo. Repito permanentemente o mesmo olhar e eu não gosto de o cansar. Não há nada que eu possa dizer aqui que mude a orientação do vento ou a intensidade da chuva. Prefiro manter-me abrigado. E, poeticamente, obrigado...

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outubro 17, 2006

Desperturas...

adivinho umas tardes sombrias
e vagamente frias
atrás do vidro grande do café
para ver o calor do teu rosto
a atravessar a praça a pé
Sainte-Marthe
por entre as árvores escuras
e as cadeiras antigas
sentas-te tão perto
como se fosses entrar
hesitamos o pedido
não queremos nada

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (57)...


Fui rainha, joalheira de todos os mimos que me serviram (ou de que eu me servi): como, agora, ajoelharia? Educaram-me para educar, digo, para pastorear os rebanhos, não… para ser pastoreada. O palco é a minha alcova. O único altar que me celebra. E em que eu me celebro. Nutro-me de olhares famintos. De fantasias que só eu sei administrar. De súplicas. Nutro-me do vazio das palavras. Do vazio nas palavras. Nutro-me de tudo o que te falta, nesse palco a que jamais subirás. És demasiado igual a mim, para que nele possamos caber ambos. Lamento: cheguei primeiro…

C.A.

Antologia poética (282)...

Improviso erótico com endereço...

Um sussurro
um quase segredo
uma confidência
uma ameaça
um sorriso nos teus lábios
nos olhos não
uma mão
que desce e sobe por ti
dedos que invadem
reentrâncias protegidas
e te despertam da letargia
de tantos anos
um sorriso nos teus lábios
nos olhos não
um gemido
uma confissão
uma prece
a pressa toda
a armadura que derrete
um corpo que brilha e sua
como o sol
um sorriso nos teus lábios
nos olhos não
uma língua subitamente motorizada
que te endurece
a boca que abres
para outra boca
o ritual da oração ajoelhada
e a hóstia que consagras
um sorriso nos teus lábios
nos olhos não
a nudez diante do espelho
que ignoras
o teu arfar quase canino
o cheiro da terra molhada
no teu corpo reflorescido
e o desespero da espera
e o grito enfim nas tuas mãos
um sorriso nos teus lábios
nos olhos não.

Ademar
09.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (281)...

Improviso para servir de paleta...

Há objectos perfeitos
o teu atrevimento
a tua agressividade
a tua timidez
nada fica por dizer
quando soluças e choras e gritas
a desilusão
de não te teres achado mais cedo.

Ademar
09.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (280)...

Improviso mendicante...

Há aromas que impregnam as palavras
que te evocam
fragrâncias cheiros odores perfumes
que escorrem através dos meus dedos
e te prolongam
hesito no termo
fujo da armadilha do substantivo
alimento-me simplesmente da natureza
da esmola que me deixas.

Ademar
10.03.2006

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Antologia poética (279)...

Improviso sem chave...

A poesia não serve para nada
senão para dizer que existimos
apesar do mistério
dos silêncios que nos impomos.

Ademar
10.03.2006

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Improviso em forma de haiku para dizer do silêncio...

Adianto-me
a todas as sombras
para banhar-me ainda na tua luz.

Ademar
17.10.2006

Confissão de um heterossexual...

As mulheres mais bonitas que até hoje encontrei eram, interiormente, muito mais bonitas do que os meus olhos podiam ver ou imaginar. A beleza que impressiona os sentidos é, frequentemente, um sinal ou um eco - um apelo à navegação...

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Antologia poética (278)...

Improviso sobre uma quase improbabilidade...

Se eu soubesse escrever no tempo
suspendia-o num poema
e renascia nas tuas mãos.

Ademar
11.03.2006

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Tédio...

Por vezes perguntam-me por que deixei de escrever sobre... política. Respondo sempre da mesma maneira: porque prefiro confiar as mãos a ofícios menos efémeros. E porque os protagonistas, aqui e lá fora, já só me inspiram o bocejo ou o sarcasmo. Chego a ter pena de quem ainda acredita na bondade da espécie...

Antologia poética (277)...

Improviso dominical...

Um tema
uma melodia antiga no olhar ausente
entre portas que se abrem e se fecham
sobre ninguém
um violoncelo talvez
do tamanho das tuas mãos registadoras
e um sorriso prematuro
como a primavera lá fora.

Ademar
12.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (276)...

Improviso sobre a chama de uma vela...

Tudo se ilumina
tudo se apaga
e ardemos sempre.

Ademar
12.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (275)...

Improviso sobre duas mãos...

Reconheceria
num catálogo de mãos perdidas
as tuas
há mapas que indicam apenas
o trajecto da viagem
em que nos fazemos.

Ademar
12.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (274)...

Improviso sobre o destino...

Há razões que só o destino conhece
digo
a história interior de cada um
que ainda não foi escrita
a razão por exemplo
de teres esperado por alguém
que até poderia ser eu
o mais improvável dos monstros.

Ademar
13.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (273)...

Improviso sobre as máscaras...

Dispersas a multidão e o rebanho e o grupo
e desvendas simplesmente as pessoas
na sua exacta e solitária dimensão de todos os dias
antes de se esconderem atrás das máscaras
que iluminam e ensombreiam as ruínas do palco.

Ademar
13.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Blogomisantropia...

Escrevem-se uns aos outros, uns nos outros, até parece que há muita diversão e controvérsia no ar. Dizem bem, dizem mal, dizem-se assim-assim ou talvez menos ou talvez mais. A blogosfera é um imenso túnel de espelhos ameaçantes. Por isso, a minha lista de favoritos vai, diariamente, minguando. Espreito, se tanto, meia dúzia de salas, só para confirmar que nada mudou (quero dizer: que os meus amigos ainda não morreram). A repetição do universo cansa-me e distrai-me. Começo a perder a vontade de sair à rua...

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Rodapé para matemáticos existencialistas...

pi.jpg

Descobri hoje que o pi acaba, exactamente, onde eu começo...

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Antologia poética (272)...

Improviso sobre os ponteiros da lua...

O monstro
ainda assim
tem olhos e tem mãos
e fala
como se o pecado falasse por ele
o mesmo pecado que explica
o erotismo de todos os deuses
antes da morte indesejada
antes da margem mais distante
antes do pensamento que distrai
há uma mulher
que se confunde com o monstro
e nele habita
como numa estória de fadas trocadas
uma mulher desviante
que sofre a tortura diária das marés
que arrastam os sonhadores
no sentido contrário dos ponteiros
da lua.

Ademar
14.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Diário em forma de silêncio (56)...

Atrás de quantas sombras te guardas? Quantas máscaras? Quantas pessoas? Sinto que fiquei muito longe de te esgotar. Estás sempre a publicar novas edições de ti – fico a rever-te e a redescobrir-te. Nunca páras de me surpreender. Quando finalmente julgo desejar a face que me mostras... mudas de acorde e acordo-me numa partitura que desconhecia. A tua versatilidade camaleónica chega a assustar-me. Nunca chego a tempo de te conhecer. Voas meteoricamente de todas as garras – ninguém te agarra. Sinto-te réptil... e viajo-te. Já não saberia viver sem ti.

C.A.

outubro 16, 2006

Antologia poética (271)...

Improviso sobre os passos no trapézio...

Ainda sinto nas pernas
o caminho excessivo dos teus passos
um rasto talvez de fuga
um equilíbrio precário
sobre o fio débil do trapézio
adjectivos a mais
os teus passos que já não te pertenciam
e os meus olhos sabedores do regresso
nas palavras atrapalhadas
que nunca explicam o movimento circular
dos astros que se atraem.

Ademar
14.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Herberto Helder...

Herberto-helder.jpg

Só há um poeta português vivo que eu, miseravelmente, invejo: Herberto Helder. Hoje li ou disse (há uma diferença primordial entre ler ou dizer um poeta que amamos) "Canção Despovoada".
"Num tempo sentado em seda, uma mulher imersa
cantava o paraíso. Era depois da morte."
A poesia é um modo de ser, os seus códigos e as suas cifras são interiores. A poesia, como qualquer religião, não é para leigos. Muito menos, para professores...
Ando a dizê-lo há muito tempo: a poesia devia ser poupada à arrogância racionalista dos programas escolares... É, de resto, o único desejo que formulo como poeta, por menor que seja: não ser estudado nas escolas.
As escolas prostituem a poesia...

Março.2006

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Antologia poética (270)...

Improviso sobre duas chaves...

Convidas-me a sair de mim
acaricio as chaves
e tenho vontade de te abrir
porta a porta
uma fechadura mais
e tu estás do outro lado do gesto
que te procura
um sorriso que me abriga
um apelo discreto ao silêncio
não vá o mundo acordar
nas chaves que gritam.

Ademar
15.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (269)...

Improviso sobre o arrojo de Alícia...

Noutro tempo foste tu
agora Alícia precede-te
já rosaste também as faces
já te escondeste assim
dos olhares que perguntavam
todas as filhas espreitam o espelho
nos gestos imensos das mães
que as voaram
e nos cheiros.

Ademar
15.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (268)...

Improviso sobre o regresso...

Talvez tenhas vivido
longe e tempo de mais dos teus próprios pés
ou das mãos
a terra que aramos
tem a exacta consistência
poderia acrescentar imaginária
do berço que nos aspira
estavas pronta para adormecer outra vez
mas não tinhas ainda desvendado
competentemente
a noite certa que te acolhesse.

Ademar
15.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (267)...

Improviso sobre a troca de rotas...

Há noites em que me distraio
para viajar ao teu encontro
vou pelo lado errado da cidade
mas pelo lado certo de mim.

Ademar
16.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (266)...

Improviso sobre Dragonfly, de Huong Thanh...

ac104095.jpg

Do oriente vem tudo
dizias (ou era eu?)
a noite lenta
o canto que parece o murmúrio
a língua de trapos
felizmente indecifrável
o filme que se arrasta
em cenas que a música repete
e o transe hipnótico das percussões
alguém que bate insistentemente
a um coração sem portas
e desiste
para dar a volta ao mundo de si
e eu que agradeço assim.

Ademar
16.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (265)...

Improviso em forma de mote para a lucidez...

De vez em quando
apetece-me interromper a noite
para te lembrar simplesmente
que a lua não faz parte dela
mas de nós.

Ademar
16.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Antologia poética (264)...

Improviso sobre uma canção...

Não sei se a vida chega
para isto
esta vontade de cantar
exactamente
a mesma canção
no mesmo tom
variando apenas algures
os timbres
que por vezes se interpenetram.

Ademar
18.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Caloridades...

subo a noite pelos fundos
as portas abertas, entro em todas as salas
os pés nus que os anjos dormem
visito todos os cantos
com olhos de meio-dia
acordo apenas algumas páginas
para me fazerem companhia
e me levarem pelas mãos
a desamarrar o mundo
mas as palavras agitam-se
e regresso aos passos perdidos
nenhuma parede diminui o calor
e nenhuma janela me dá o ar
as palavras acordaram já todas
e chamam os objectos pelos nomes
ensurdecem-me, ou é o calor?
os anjos dormem e eu escuto
para aprender a esquecer
que ninguém me guarda o dia
se eu adormecer


Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (55)...

Não percebo por que tens vontade de me submeter a alma, se te fujo sempre com o corpo. Há distâncias interiores que nunca aproximaremos, se teimarmos em afastar as margens. A alma convém que não se perca do corpo, para que não nos percamos em nós. E eu já me perdi. Ainda não o perceberas?...

C.A.

Mísia...

misia.jpg

Imagino a frustração dos psicanalistas (que nunca frequentei): eu não gosto de fado. Talvez seja o único português que sofra dessa deficiência patriótica: Não gosto, não ouço e peço, por favor, que não toquem e cantem no meu funeral. Mas adoro... fadistas. Algumas fadistas. Mísia, por exemplo. É uma mulher do caraças, perdoai o plebeísmo. Ademais, nasceu no Porto e redescobriu-se portuguesa em... Barcelona (cidades gémeas). Hoje, no comboio, li o que Bernardo Mendonça escreveu sobre ela na revista do último Expresso. Não sei se lacrimejei ("comovo-me por tudo e por nada"), mas tive vontade de chegar a casa e ouvi-la. Felizmente, tenho a minha musicoteca trôpega de fado e refugiei-me em Bach para escrever este nota. Noutra vida, teríamos sido amantes. Eu a escrever e ela, a cantar...

outubro 15, 2006

Jeanne...

jeanne, sigo os teus olhos na janela
bem vejo que ele não vem
desço contigo as escadas
do teu amor submisso
corro contigo as ruas
agarrada ao ventre
e nada vemos
chegas, calada
um amor criminoso
fez de ti casa
e abriu-te a janela cruel
não queres dizer que não
nunca dizes que não
ouço os teus lábios fechados
com absoluta precisão
durmo nos teus braços
que lhe tiram o calor
e cresço nos teus dedos
que só ele vê estendidos
agarro contigo o gargalo
para lhe dar a beber a noite
jeanne, digo o teu nome
suspendo o meu
deste a tua vida
para levares a dele
e continuas à janela
passa a gente de sempre
jeanne, meu amor

Ana Saraiva

Improviso na forma de encore...

E se batêssemos palmas à vida
quando desafinamos?

Ademar
15.10.2006

Antologia poética (263)...

Improviso para desenfeitiçar a lua...

Não escondo aqui feitiços
não há magias nesta câmara
onde dançam comigo as palavras
que te rondam
segura-me por favor no cigarro
e brilha o rasto dos meus passos
para que eu não me perca na noite
a valsa hoje esperará
pelo sono das crianças
lua cigana
ouve
voltarei a tempo da última passa
da última gota
do olhar definitivo
desaprendido de mim
mas talvez ainda soletrante
para que possas ler-me devagar.

Ademar
18.03.2006

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Antologia poética (262)...

Improviso para mãos e fuga...

Terminas sempre numa harpa
arranhada pelos meus dedos
cordas a mais
ou mãos a menos
sobra sempre corpo em ti
para a minha ausência.

Ademar
18.03.2006

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Imortalidades...

andreas.jpg

Há autores e vozes que me consagram. Por exemplo, Andreas Scholl, interpretando Handel, Hasse, Gluck, Mozart, neste cd absolutamente superlativo: Heroes. Conheço muitas versões de "Ombra mai fu", mas nenhuma que me doa tanto como esta. Conheço muitas versões de "Oh Lord, whose mercies numberless", mas nenhuma que me comova tanto como esta, com o esplendoroso e delicado rodapé da harpa. Conheço muitas versões de "Vivi, tiranno!", mas nenhuma que me faça vibrar tanto como esta. Conheço muitas versões de "Che farò senza Euridice", mas nenhuma que me fragilize tanto como esta. Não há preço, nem palavras que paguem estes exercícios de imortalidade, que Andreas Scholl continua a proporcionar-nos.

Antologia poética (261)...

Improviso sem tradução...

Renasces
em cada sorriso envergonhado
e aprendes a gemer
como se em cada gemido
só viajasses através de ti
sem admitires tradução
não há dicionário de étimos
para a iniciação destes gestos
estamos sempre a improvisar
recriamo-nos eternamente.

Ademar
19.03.2006

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Antologia poética (260)...

Improviso para rodapé...

Trocamos de pijamas
como de corpos
as palavras não têm dono
circulam simplesmente entre nós
nesse redemoinho de sentidos
que nos perde
entre viagens sempre incompletas
viajamos nelas
para nos distrairmos dos olhares
que não calam.

Ademar
19.03.2006

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Antologia poética (259)...

Improviso sobre a velhice...

Lamento lembrá-lo assim
mas tens a minha idade
ou talvez mais
a única medida dos anos
é o medo das palavras
em que não cabemos.

Ademar
19.03.2006

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Antologia poética (258)...

Improviso para um pai que não chegou a valsar...

Talvez houvesse uma forma
de dançar a valsa contigo
se entre nós sobrasse ainda o tempo
de uma valsa para dançar
mas agora
já não te beijo a mão
é tarde
para voltarmos ao princípio
e tentarmos tudo outra vez
ficámos suspensos de uma valsa
que nunca fomos capazes de dançar.

Ademar
19.03.2006

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Esboço de epígrafe...

Em poucas palavras, os poetas captam e desvendam o essencial.
Os filósofos fazem rigorosamente o contrário.

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Antologia poética (257)...

Improviso a cheirar a primavera...

Fecho os olhos
para te ver do lado de dentro
e dentro de mim
não te reconheço imperfeições
habito-te um pensamento depurador.

Ademar
21.03.2006

publicado em abnoxio3.blogs.sapo.pt

Diário em forma de silêncio (54)...

Talvez te surpreendas, talvez não. Há gêneros que não vêm nos livros, mas que existem. Há gêneros que são poemas indecifráveis. Digo: nunca descobrirás o código, a chave, para entrar neles. Está bem, corrijo (respeitando a tua ousadia hermenêutica): talvez nunca descubras o código, a cifra. Talvez. Mas não contes, para ousares, com a minha ajuda. Sou de um gênero que não se dá a ler. Componho-me de contradições incatalogáveis e insanáveis. Não uso e não deixo usar o que me sobra, mas guardo-o, para provar a mim mesma que nasci para não ser catalogada. Escrevo assim no feminino, porque a minha alma não sabe de outros gêneros. Mesmo daqueles em que a natureza me fez caber...

C.A.

Uma dúvida...

Título da edição de hoje do Público:

eleicao.jpg

Tenho andado distraído: não sabia que os "portugueses" iam ser chamados, a partir de hoje, a eleger o seu "maior". Uma dúvida quase metafísica: os percevejos também poderão votar?...

outubro 14, 2006

Antologia poética (256)...

Improviso sobre a memória de uma mesa...

Já fui só palavras
palavras escritas
sem mãos por fora
e sem olhos
agora dizes
já não preciso de te sonhar
há algo em ti
que me engravida
talvez esse teu jeito leonino
de te ofereceres
desejada.

Ademar
21.03.2006

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Antologia poética (255)...

Improviso circular...

As frinchas da noite
espreitam a poesia
no olhar das ausências
era uma vez uma rotunda
que circulavam luzes
e os teus gestos cresciam
convidando a um curso
de gestão de saudades.

Ademar
21.03.2006

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Improviso para distrair a noite...

Não nasceste com asas
mas tu voas
mesmo quando não levantas os pés do chão
tu voas
e só esse poder te permite rastejar
quando voas por dentro de ti
tu
a mais humilde e silenciosa
de todas as corujas que brincam com a noite
sobram-te apenas os gemidos
que não calas
e os mamilos que disparas com eles.

Ademar
14.10.2006

Uma pedagoga...

Começo a desconfiar que todos os brasileiros são pedagogos e pedagogas. É a praga da pedagogia feita curso superior para enganar incautos (e cobrar muito real). Quando perguntei à menininha se era pedagoga ou pedaboba, ela fez um sorriso amarelo e puxou pelos galões: eu sou formada e pós-graduada em pedagogia e já trabalho há cinco anos (ena tantos!, pensei eu). Sorte a de Paulo Freire (acrescentei): era jurista de formação e morreu órfão de todas as pedagogias...
A menininha, do alto dos seus cinco anos de serviço à Pedagogia, não percebeu. Ela deve ainda acreditar que Manoel de Barros (aliás, também jurista de formação) se formou e pós-graduou em poesia...
Poesia e pedagogia - não se ensinam, nem se aprendem. A menininha franziu o nariz e lá com os seus botões deve ter pensado que acabara de se esbarrar com o Diabo...
Reconheço que, no meu transe irónico, estava a exigir de mais da menininha: ela não tem ainda idade para entender que a pedagogia foi a maior mentira universitária do século XX...

Março.2006

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Antologia poética (254)...

Improviso tardio sobre a morte de um filósofo...

Os poetas e os filósofos
também morrem
se bem que a sua morte
tenha uma claridade diferente
quando a madrugada morre com eles
mas não há palavras que digam
como soluçam os dias incertos
neste medo arcaico
de todos os silêncios que eternizam.

Ademar
23.03.2006

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Antologia poética (253)...

Improviso em forma de enredo...

Há uma sequência no filme
em que ela ri
parecendo fingir uma conversa de rua
e gemidos embriagados
a ironia noctívaga circula
entre as mãos e os olhares
e há latidos
que encaminham novamente o desejo
para a cozinha de todos os silêncios forçados
uma cadeira duas cadeiras
pernas que voam sobre elas
uma porta entreaberta
que parece sempre fechada
e as crianças que dormem
no regaço do esquecimento
mulher por uma vez iluminada.

Ademar
23.03.2006

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Desgarrada, quase...

Lá vai ele, magro-chupado
-tão magro, de que padece?
Dizem que é do amor
-quem diz?
Eu não acredito
-você não tem fé?
Acho que é da dor
-onde dói, dói muito?
Daquela dor antiga
-de há quanto tempo?
Em que um homem
É cruz, prego e corpo
-ao mesmo tempo?
E vontade de sofrer
-morreria por mim?
Não, mulher!

Ana Saraiva

Antologia poética (252)...

Improviso para decifração do Génesis...

O erro mais brutal da natureza
o sémen que engravida
no lugar das palavras.

Ademar
24.03.2006

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Antologia poética (251)...

Improviso sobre Piazzolla...

Um nome em cima
um nome em baixo
sobre uma data
que não existe
e o resto da página em branco
o que fica por dizer
fomos nós.

Ademar
25.03.2006

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Antologia poética (250)...

Improviso redundante...

Se tenho saudades
não é do que fui
mas do que nunca serei
dói-me a existência
no futuro.

Ademar
26.03.2006

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outubro 13, 2006

Instâncias...

não se toca na infância
nem beijo nem palmada
nem nenhum outro abuso
não peçam para ouvir,
todas as conversas são proibidas
não falem,
não há nada para dizer
isso já podem saber
cresçam protegidamente sós
depois do grande delito
sim, nascer
pouco mais resta do que
viver
ide em liberdade
para dentro do casulo
o amém do futuro

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (53)...

Não percebeste ainda: não sou território que possas invadir. Poderemos, talvez, brincar noutras dimensões, mas não nessa, em que viajas até mim. Não tenho berço que te receba: só cama de espinhos. Se quiseres experimentar a dor da renúncia, ensinar-te-ei o caminho, desde que me obedeças sem um gesto de enfado, digo, sem lamentos ou recriminações. Aceitarás apenas descobrir-te. E eu serei o instrumento da tua depuração. O instrumento escolhido por ti. E não carregarei o tambor do revólver. Tu próprio o farás, para me provares que percebeste a condição em que te ofereces.

C.A.

Antologia poética (249)...

Improviso sem condição...

Abrir-te-ei a porta
como se não houvesse porta
para abrir
as casas em que cabemos assim
não têm portas
nem janelas
nem paredes
habitam-nos
incondicionalmente.

Ademar
26.03.2006

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Antologia poética (248)...

Improviso alexandrino...

Se não é doutor
é comendador
por extenso
ou abreviado
português é assim
ou assado
à vista desarmada
só difere mesmo
no tesão da gravata.

Ademar
27.03.2006

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Antologia poética (247)...

Improviso em forma de asa...

Duas mãos e
um par de algemas
um dialecto de submissão
entre corpos voadores
e a liberdade sem limites
na paixão desamordaçada.

Ademar
27.03.2006

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Saudades...


"Nunca senti saudades da infância; nunca senti, em verdade, saudades de nada. Sou, por índole, e no sentido directo da palavra, futurista. Não sei ter pessimismo, nem olhar para trás. Que eu saiba ou repare, só a falta de dinheiro (no próprio momento) ou um tempo de trovoada (enquanto dura) são capazes de me deprimir. Tenho, do passado, somente saudades de pessoas idas, a quem amei; mas não é saudade do tempo em que as amei, mas a saudade delas: queria-as vivas hoje, e com a idade que hoje tivessem, se até hoje tivessem vivido. O mais são atitudes literárias, sentidas intensamente por instinto dramático, quer as assine Álvaro de Campos, quer as assine Fernando Pessoa."

Fernando Pessoa, "Nota Biográfica escrita por Ele Próprio em 30 de Março de 1935" (in "Análise da Vida Mental Portuguesa")

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Antologia poética (246)...

Improviso em forma de rua...

Há uma diferença
porventura subtil
entre ser rebanho
e ser manada
o pastor distraído
não voltará a dizê-lo.

Ademar
28.03.2006

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Antologia poética (245)...

Improviso sobre a arte de bem cavalgar toda a sela...

Falta-te a voz
e faltam-te as palavras
sobra-te
o corpo apeado
para o silêncio
digo-te
é uma impossibilidade metafísica
que não sussurres para dentro
quando montas.

Ademar
28.03.2006

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Antologia poética (244)...

Improviso nocturno...

Fujo de um tempo
esculpido em silêncios
ando agora à roda de mim
gritando-me
não quero adormecer
assim
vagueando
subterraneamente
saudades.

Ademar
29.03.2006

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Antologia poética (243)...

Improviso de esquerda sobre quotas de género ou diga 33(%)...

Dois machos
uma fêmea
dois machos
uma fêmea
dois machos
uma fêmea
dois machos
uma fêmea
ménage a trois
à gauche.

Ademar
30.03.2006

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Uma leitura recomendada a todas as meninas que aspiram a iniciar-se nos vícios do século...

religiosa.jpg

Não resisto a partilhar, sobretudo, com as leitoras, algumas das advertências do Padre Pinamonti (não confundir com o actual Director Artístico do S.Carlos)... Lede e meditai, ó pecadoras que aspirais à licenciosidade das frivolezas carnais!...

"1. Depois de se recolher, antes de adormecer, deve por breve espaço lembrar-se dos pontos da seguinte meditação e propor ser diligente em levantar-se às suas horas.
2. Logo que despertar, torne a cuidar na mesma matéria; e para se mover a maior confusão, imagine ser um réu em prisões, atado à cadeia, convencido e levado ao tribunal para ser julgado; ou como um leproso cheio de chagas: e disposta com esses e outros semelhantes pensamentos para as meditações que correspondem àquele dia se irá vestindo.
3. Antes de dar princípio à oração, estando em pé, trará à memória que Deus está presente e que atende ao que há-de fazer; e assim humilhe-se com profunda reverência e adore a soberana Majestade.
4. No tempo da meditação, detenha-se, ou em pé, ou de joelhos, ou sentada, ou postrada em terra (se estiver em parte que ninguém a veja), elegendo a postura que mais facilmente a mova à devoção.
5. Acabada a oração, sentada, ou passeando, faça reflexão sobre a oração que tem tido, na forma que se disse acima, no fim do parágrafo terceiro.
6. Fuja com cuidado dos pensamentos que possam mover à alegria, ainda que sejam bons, buscando os que a disponham à compunção.
7. Para esse mesmo fim se há-de privar de toda a luz, tendo, enquanto estiver na cela, a janela cerrada, ao menos quando não ler ou trabalhar.
8. Abstenha-se muito do riso, e de ouvir ou falar palavras que a possam provocar a ele.
9. Guarde com muito cuidado os olhos, tendo-os baixos quando puder, para não distrair o espírito com a sobrada liberdade em olhar.
10. Ajunte às outras obras boas o exercício de alguma penitência, não só interior, arrependendo-se muito dos pecados cometidos, senão também do exterior, que é fruto da interior, castigando-se com alguma obra penal, segundo o conselho do Padre Espiritual."
(...)

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Antologia poética (242)...

Improviso medieval...

Se eu tivesse uma pedreira
não vivia de remar barcos à vela
nem plantava magnólias no deserto
para chamar a tua atenção
semeava-me de pedrinhas
e fazia-me o teu próprio chão.

Ademar
13.02.2006

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Antologia poética (241)...

Improviso inabitual...

Primeiro
enamoram-se
depois
desabituam-se.

Ademar
14.02.2006

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"Ah, qu'elle me intéresse, la jeunesse!..."

jeunesse.jpg

Não sei se comprei num alfarrabista, se herdei da família. É o manual para o ensino do francês nas escolas técnicas portuguesas. 1ª edição, da Sá da Costa, datada de 1939. Autor: António Gonçalves Matoso, "professeur et avocat" (e pai, já agora, de José Matoso, o insigne medievalista).
Matoso é um apelido que a geração que frequentou o liceu antes do 25 de Abril associa aos extraordinários e edificantes compêndios de História e de Geografia de Portugal. Trouxeste o Matoso? Emprestas-me o Matoso? Já estudaste o Matoso?... Só havia, na época, outro apelido tão popular: Bonifácio (autor dos compêndios de Filosofia).
"La Jeunesse Portugaise à l'École" é antecedida de um longo e mui pedagógico prefácio do inesperado autor. E a frase que epigrafa o texto é atribuída (podia lá deixar de ser!) a...Salazar: "Ah, qu'elle me intéresse, la jeunesse!".
Dir-se-ia que, mais do que um manual escolar, "La Jeunesse Portugaise à l'École" é um mostruário (e também um monstruário) do Portugal salazarista. Infelizmente, não é bem assim. Sociologicamente e antropologicamente, continua actual. Tirando as liberdades e o crédito ao consumo, o Portugal de hoje não se diferencia muito do Portugal de 1939...

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outubro 12, 2006

Antologia poética (240)...

Improviso entre cordas vocais...

Talvez seja verdade
que hoje nenhuma mulher gritará
para acordar a minha madrugada
talvez a memória me engane
talvez os gritos venham da rua
de uma festa cigana
que kusturica não filmou
ou talvez eu desça ao rés-do-chão
para fazer parte do coro
há uma parte da humanidade
que respira pela outra parte
continuo a não saber a que parte
empresto os divertículos
das minhas cordas vocais.

Ademar
14.02.2006

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Diário em forma de silêncio (52)...

Desce bem os olhos pelo meu corpo: vês um pénis nesse lugar que crês de ausências? Pergunta-lhe (pergunta-me) se fazes falta. O jogo do macho e da fêmea reclama parceiros incompletos. Eu sinto-me preenchida com o que sou: não tenho corpo, nem alma, para encaixes. Jogo comigo e nunca perco. Algum dia perceberás que há mulheres que nasceram assim, originariamente, completas?...

C.A.

Antologia poética (239)...

Improviso com dedicatória sobre uma fotografia...

vilarinho.jpg

Ainda há lugares nocturnos
que só a lua engana à escuridão
e onde a chuva não desce sobre os olhos
em cascatas de luz
que só as crianças reconhecem
ainda há vales
que nos conduzem ao silêncio transversal
das vidas que talvez jamais viveremos
vejo-te agora debruçada sobre as águas
da aldeia desaparecida
algures entre o gerês e a amarela
e vou interrogando os múltiplos sentidos da saudade
na impossível tradução das palavras
que nenhum dicionário nos ensinará a usar.

Ademar
15.02.2006

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Uma metáfora...

cinema.jpg

Quem vê "Cinema Paradiso", acho que fica para sempre cativo da sequência final, a mais extraordinária metáfora da morte que o cinema, algum dia, me proporcionou. Está lá tudo, sobretudo, esse imenso espelho do que foi a vida, nos sonhos e nos desejos que nos negámos (ou censurámos). Mais do que uma sequência cinematográfica - é uma visão (ou antecipação) do que nos espera, quando, finalmente, nos evadirmos dessa consciência primitiva e primordial que nos prende à circunstância de um corpo. Quando penso na morte, apetece-me beijar-te, como se estivéssemos a nascer.

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Resposta sobre os sonhos possíveis...


Já não tenho o sonho de fugir de mim. E já morri vezes sem conta a procurar-me noutros lugares, noutros altares, onde supus encontrar-me. Hoje, tenho sonhos pequeninos, quase domésticos. Cabem todos em mim.

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Sinais do Portugal equívoco...

Um amigo (que o pudor me impede de nomear) presentou-me hoje com esta fotografia:
picha.jpg

Para que conste (e evitar consultas, potencialmente, embaraçadoras), nem ele, nem eu pertencemos aos órgãos sociais da dita...

Fevereiro.2006

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Antologia poética (238)...

Improviso sobre "Djembe", de Salif Keita...

Se eu fosse capaz de decifrar
a exuberância das tuas palavras
se eu fosse capaz
de agarrar o teu feitiço
e impregnar-me com ele
se eu fosse capaz
de fazer minhas as tuas vozes
e africanizar-me
se eu fosse capaz
de dançar com os espíritos
e chover com a lua
se eu fosse capaz
de abençoar o sagrado de tudo
e sagrar-me ao silêncio albino dos desertos
que cristalizam no teu olhar
talvez
não me visse assim
ao espelho destas lágrimas que não choram.

Ademar
16.02.2006

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Ainda a propósito do "choque de civilizações"...


A diversidade é o berço da luz. Para se elevarem do canto-chão, até os coros precisam de vozes distintas. No género e no timbre.

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Antologia poética (237)...

Improviso sobre a urgência do dicionário...

Há dialectos
que os meus olhos não entendem
falta-me o dicionário
para perceber o que calas.

Ademar
16.02.2006

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Antologia poética (236)...

Improviso sobre as mãos...

Muito mais do que as palavras
as mãos
dizem quase tudo
de quem se prolonga nelas.

Ademar
17.02.2006

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Antologia poética (235)...

Improviso sobre o Serviço Nacional de Saúde...

Há qualquer coisa de
tendencialmente gratuito
na morte
uma irrelevância talvez de
taxa moderadora.

Ademar
17.02.2006

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Antologia poética (234)...

Improviso para enfermeiros da alma...

Nada se trata
nem a impureza da infância
morreremos de todas as ilusões
que não curámos.

Ademar
17.02.2006

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O elogio da blasfémia...


Todos os deuses e todas as religiões me repugam, pela imensa cobardia que embrulham e pelo terror larvar de que se alimentam. Terei o direito de o dizer?
Não respeito os crentes e os praticantes de nenhuma religião, na mesma exacta medida em que todos eles desprezam ou desconsideram o meu cinismo visceralmente ateu. Terão eles mais direito à indignação do que eu?
Não aspiro a proibir igrejas, seitas, rebanhos aureolados, desde que não me seja negado o benefício da reciprocidade. Se os crentes e os praticantes de alguma religião exigem o meu silêncio, eu exigirei o deles. Se me desafiam com olhares amedrontadores ou assassinos, eu respondo no mesmo tom. Estarei, ao fazê-lo, a abusar da liberdade de expressão?
A cretinice dos governantes europeus que se ajoelham perante as ameaças e a chantagem das hordas islâmicas, enche-me de vergonha e de raiva. Enquanto me lembrar desta vergonha, hei-de blasfemar!

Fevereiro.2006

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Antologia poética (233)...

Improviso para colorir...

Há meninas a mais
no caderno de pintura de Alícia
e príncipes a menos
ou o meu olhar é que tropeça
nas mãos que não ousam desfolhar-te
e a princesa afinal sejas tu.

Ademar
18.02.2006

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Antologia poética (232)...

Improviso sobre a intenção do olhar...

Talvez prefira ignorá-lo
se me procuravas
ou simplesmente fugias de alguém
quando me encontraste
na exacta intenção do olhar
está toda a diferença do desejo.

Ademar
18.02.2006

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Antologia poética (231)...

Improviso para que não se diga que não escrevo poemas de amor...

Não há poemas de amor
há apenas amantes que se dão as mãos
poeticamente
antes de se contarem em prosa.

Ademar
18.02.2006

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outubro 11, 2006

Improviso para desdizer o destino...

Prevalece ainda em ti
o desmaio da condição vocacional
soltaram-te a noite
numa floresta de muitas luas vendadas
e tu procuraste o único refúgio
que te garantisse a manhã
o medo
de te deixares aprisionar
noutro corpo
que já não reconhecesses
esse castelo de sombras
que te guarda
até que despertes do desmaio
e possas voltar a sair à rua contigo.


Ademar
11.10.2006

Hora de ponta...

um homem tomba na hora de ponta
a pressa desfaz-se
na ordem natural das coisas
uma mulher chora na hora de ponta
é acompanhada
pela súbita mansidão dos olhares
um casal beija-se na hora de ponta
passaram a idade há muito
fazem-se balanços
há bancarrotas
falências alegres
e melancólicas esperanças
um miúdo ignora a hora de ponta
há um croissant de chocolate
que é preciso vencer
ninguém fica depois da hora

Ana Saraiva

Antologia poética (230)...

Improviso sobre a luz...

Há dias em que vejo melhor
e em que me vejo mais nítido
quando a morte talvez
espreite pelos meus olhos
des-sombreando tudo
por uma última vez restituindo-me
à visão original de todos os inéditos
em que eu não me soube preservar
dias assim
em que morro devagar
iluminado como nunca.

Ademar
19.02.2006

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Antologia poética (229)...

Improviso sobre o lugar do silêncio...

O silêncio
nunca nos pertence
está sempre aquém
ou além de nós.

Ademar
19.02.2006

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Pipi, pau...

cartilha2.jpg

Mais um edificante fragmento da "Cartilha Escolar", de Domingos Cerqueira. Reparai na sequência: "pai", "pipi", "pau", "nené". Não sei se o "pé nu" faria parte da ementa...

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O "anormal"...

cartilha1.jpg

Mais um precioso fragmento da "Cartilha Escolar", de Domingos Cerqueira.
O professor arrelia-se muito com as travessuras do Gonçalo, mas não o castiga: limita-se a dizer que ele é um...anormal.
O texto continua assim:
"Nós não sabíamos o que isto queria dizer. O Marcelino, que, quando não compreende, pede sempre explicações, pediu logo licença para perguntar:
- Ó senhor professor, que quer dizer anormal?
Deu-nos uma larga explicação, ficando eu e todos os condiscípulos convencidos de que ele é um... doente. Coitado!"

Chegado aqui, o leitor deve estar como eu a perguntar: o anormal da narrativa, quero dizer, o doente (coitado!) - é o professor ou o aluno?!...~

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O mistério da tia na mata...

cartilha.jpg

Eis um fragmento da celebrada "Cartilha Escolar" (1912), de Domingos Cerqueira, "inspector do ensino primário". Infelizmente, já não nasci a tempo de aprender por ela. Por isso, continuo a ignorar o que a tia, viúva, ia fazer até à mata... Atacava nota? Tapava tipóia? Tomava pauta?
Desconfio que Cerqueira era um malandrão...

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Antologia poética (228)...

Improviso para prefácio de uma cartilha...

Ensina-me a ler os teus olhos
pode ser pelo método analítico
ou sintético
ou os dois reunidos
letra a letra
sílaba a sílaba
palavra a palavra
frase a frase
por esta ordem
ou a sua contrária
aprenderei
simplesmente
contigo.

Ademar
19.02.2006

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Paixões pichantes...

joana.jpg

Como poderia a Joana esquecê-lo? Ou esquecê-la?...
A paixão que se picha dispensa a ortografia...

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Antologia poética (227)...

Improviso com lágrimas...

Todas as palavras
já foram ditas ou escritas
só falta mesmo vivê-las.

Ademar
19.02.2006

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Antologia poética (226)...

Improviso para servir de embalo ou de abrigo...

Numa rua de Paris um acordeão
talvez as tuas mãos
uma partitura porém incompleta
um olhar que quase pede desculpa
pelo silêncio e pelo pudor
um filamento de palavras
uma melancolia demorada
e o aceno tímido sobrevoando
gestos atrapalhados
enquanto o café arrefece na chávena
e a chuva lá fora reclama um abrigo
que tu traduzes por embalo
se eu parasse aqui o poema
seríamos perfeitos.

Ademar
20.02.2006

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Condição feminina?...

mulher.jpg

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Antologia poética (225)...

Improviso viniciante...

Criminoso de mim
regresso sempre ao local
de todos os deslumbramentos
onde talvez alguém me espere
ou só apenas a ilusão da eternidade
desaprendida com Vinicius.

Ademar
20.02.2006

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Antologia poética (224)...

Improviso sobre as dificuldades da tradução...

Dois livros pousados sobre a mesa
do destino
um aberto em ti
outro em mim
quem nos traduzirá?

Ademar
20.02.2006

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Paixão e sexo...

As pessoas apaixonam-se porque se desejam eroticamente.
Verdade?... Mentira?...
Não tenho a ambição de, numa matéria tão sensível, fazer lei (ou leis), mas tenderia a afirmar que o sexo é o maior equívoco e a maior armadilha de todas as paixões.
Raramente os apaixonados querem sexo. Querem, rigorosamente, o contrário...

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Antologia poética (223)...

Improviso na modalidade de nocturno...

Eis-te aqui
entre espelhos e máscaras
e sombras de velas ou círios
talvez morras ou renasças num gemido
que já não foste a tempo de calar
que há vozes que levitam
todas as camas
têm a forma de berço ou esquife
todos as casas
o destino de mausoléus
o chão é território estreito
para tanta amplitude de pés e de pernas
e as paredes da noite não têm janelas
porque a noite é o tempo inteiro
que se confunde contigo.

Ademar
21.02.2006

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Antologia poética (222)...

Improviso cinematográfico...

Em Verdagio hoje
não se ouvia Callas
nem Bellini
come per me sereno
mas uma borboleta
esvoaçava entre as mesas
com os olhos de Alícia
e o tempo parecia destinado
a parar ali
suspenso eternamente
sobre o perfil do teu silêncio.

Ademar
22.02.2006

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Antologia poética (221)...

Improviso para ti, que vives nos antípodas...

Se eu adivinhasse que me lias
talvez a bissectriz da cidade
já não estivesse ali
enregelada entre camélias
mas num recanto menos público
e menos púdico
mais conforme à simetria das mãos
que nos (a)guardam.

Ademar
22.02.2006

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A benefício de inventário...

Sempre me apaixonei pela mesma mulher, só que em corpos diferentes. Se conseguisse fundi-las, talvez tivesse a mulher perfeita e jamais voltasse a apaixonar-me - o que seria absolutamente trágico...
A perfeição é irmã gémea da morte...

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O grande caçador...

Daniel Campelo, presidente da Câmara Municipal de Ponte de Lima, à ultima edição da Notícias Sábado (NS):

campelo1.jpg

Ora aqui temos um... caçador emérito. De perdizes e de... mulheres. Na reportagem da NS, não fica esclarecido com que instrumento, na universidade, Campelo (mais tarde, celebrado promotor do Queijo Limiano) caçava... mulheres. Seria com o catecismo? Com a bíblia sagrada? Para um dirigente do CDS/PP, seguramente opositor do preservativo e do aborto, não está nada mal...
Trinta e duas "galinhas" - grande caça académica!...

Diário em forma de silêncio (51)...

Movimentas-te numa espécie de círculo interior, entre horizontes que estão sempre aquém do que os teus olhos alcançam e desejam. Com máscara ou sem máscara, as tuas mãos nunca te prolongam o suficiente. Entranhaste uma pulsão cósmica e quase cínica de justiça, que se grudou à pele de tudo o que tu és. Não serves a ninguém, senão a ti próprio. E aspiras a que todas te sirvam, nesse ofício silencioso e tantas vezes tirânico de escultor de obediências. Fizeste do altar um palco e nesse palco…dominas, finalmente, todas as instâncias do processo depurador, não há resistência ou incidente que suspenda ou perturbe o exercício da tua autoridade. Ah! o gozo de te saberes sacerdote de tantas identidades prostradas, que já só aspiram ao arbítrio da tua bênção. O prazer de te celebrares nessa distância impercorrível a que manténs os corpos que aceitam negar-se, unicamente para te servirem…

C.A.

Carvalho Guerra...

carvalho_guerra.jpg

É um dos portugueses mais ilustres e estimáveis que eu conheço. Carvalho Guerra liderou, durante 28 anos, a Universidade Católica, no Porto (que ajudou a criar). Passou hoje a "pasta" a Joaquim Azevedo. Nas raras vezes em que tive o privilégio de conversar com ele, fiquei fã - e aqueles que me conhecem sabem bem como sou, ferozmente, selectivo nos meus apreços.
Carvalho Guerra não é um universitário de aviário. Tem o mundo nos olhos e pressente, quase epidermicamente, o que vale a pena (mesmo quando o que vale a pena não se inscreve no seu mundo ideológico, político, religioso, cultural). Tem uma grandeza de pensamento que reconheço em muito poucos.
Acresce (circunstância que, de algum modo, nos aproximou) que ele pertence a uma família que partilhou espaços e afectos com a minha.
Por isso, neste dia muito especial para ele, digo daqui que o admiro. Parabéns, Professor!

outubro 10, 2006

Antologia poética (220)...

Improviso sobre o inadiável...

Distraídos dos mapas interiores
um dia virás ao meu encontro
quando eu fora ao teu
e um do outro
perder-nos-emos para sempre
há um tempo necessário
para todas as viagens
que nunca se repete.

Ademar
23.02.2006

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Antologia poética (219)...

Improviso em forma de nota de rodapé...

Eram
e continuarão a ser
14 adolescentes enjaulados
era
e deixou de ser
1 travesti sem-abrigo
e toxicodependente
nas esquinas do abandono e da raiva
a violência na morte pode ser
o único diálogo possível.

Ademar
23.02.2006

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Antologia poética (218)...

Improviso sobre um rosto, com Yo-Yo Ma em fundo...

geisha.jpg

Deixei de me servir
para te servir
o meu rosto
desce agora pela pele
em que viajas
e cerro os olhos
para que não vejas
no meu porto
o alto-mar
navego contigo
mas noutras mãos.

Ademar
23.02.2006

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Levezas...

o silvo falhou o chicote
mas as costas dobram
a realidade nunca salvou ninguém
da cicatriz da memória

Ana Saraiva

Diário em forma de silêncio (50)...

Conduzes-me à sala de... execução. Não importa o instrumento, nem a acusação: o movimento (interior) é tudo. Nenhum de nós inventou a culpa: aspiramos, apenas, a sobreviver da distracção (pecado?) original. Tu acusas: eu própria me sentencio. E confio às tuas mãos o exercício da punição depuradora. Tudo se passa, como em Kafka, à porta de uma lei que mais ninguém conhece ou partilha. O nosso tribunal dispensa advogados amanuenses, oficiais de diligências, voyeurs, jornalistas. Aqui, neste palco, somos ambos soberanos. Não, em nome do povo, mas em nome de nós. A justiça é um trato que temos, exclusivamente, um com o outro.

C.A.

Antologia poética (217)...

Improviso sobre algemas...

Um aceno
um grito de acolhimento
e a ponte deixa de ser
uma vaga aspiração de travessia
entre margens imaginárias
não há barcos sem barqueiros
e a âncora reclama sempre do cais
pelo menos
um par de algemas.

Ademar
23.02.2006

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Antologia poética (216)...

Improviso para Ferré...

cover-image-leo-ferre.jpg

Debruço-me ainda
da janela adolescente
para te ouvir
tu
que eras leão
e porém te dizias
doente do outono.

Ademar
24.02.2006

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Antologia poética (215)...

Improviso em forma de gemido...

Escrevo
para distrair as esquinas de mim
no labirinto dos futuros inatingíveis
penso todos os dias a eternidade
na consciência do que não fui capaz
de deixar morrer
e sofro
a teimosia absurda do gladiador
que nunca se rende
mesmo quando tudo está perdido
escrevo simplesmente
para não ajoelhar.

Ademar
24.02.2006

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Antologia poética (214)...

Improviso para invisuais...

Na escuridão
só vejo com as mãos.

Ademar
24.02.2006

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Antologia poética (213)...

Improviso para quem não sabe nadar...

Invento pontes
não para chegar
mas apenas
para fugir.

Ademar
24.02.2006

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Antologia poética (212)...

Improviso para quem desconvive do inverno...

De uma forma ou de outra
regresso sempre a mim
está muito frio lá fora.

Ademar
24.02.2006

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Antologia poética (211)...

Improviso para coleccionadores...

Se fosse coleccionador
coleccionaria caixas de música
tenho
uma indeclinável tendência
para me repetir.

Ademar
24.02.2006

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outubro 09, 2006

Diário em forma do silêncio (49)...

A vida já me ensinou, digo-te, que a sedução não pertence a quem seduz, mas a quem quer ser seduzido (ou seduzida). Não há palavras que eu diga que possam ocupar o meu lugar no processo de sedução. Se queres ser seduzido, deixa-te embalar. E segue a direcção do embalo.

C.A.

Lua...

Uma grande amiga passou esta noite ao largo de minha casa e, por sms, ordenou-me que visse a Lua. Fui à varanda e espreitei. Não a vi assim, mas imaginei-a assim. A Lua é um caso que eu continuarei a ter comigo próprio...

A%20tua%20Lua.jpg

Ivan Vilela...

cdpaisa1.jpg

Hoje, regressei a Paisagens, do meu querido amigo Ivan Vilela. É um guitarrista imenso e um criador que levaria ao êxtase todos os deuses, se eles não fossem, estruturalmente, surdos e bonzos. O Ivan, afora isso, é um ser humano superlativo, um dos homens mais superiormente delicados que eu já conheci. Um dia, dei-lhe abrigo. Jamais esquecerei a vagabundagem nocturna que fizemos por Braga, a falar de música, de poesia, do Brasil e de Portugal, de todos os laços que nos uniam e continuarão a unir-nos. Uma amiga comum informou-me hoje que Paisagens acaba de ser reeditado no Brasil e que continua a ser premiado. Fiquei muito feliz: pela obra (magnífica) e pelo autor. Tenho saudades de ti, Ivan...

Diário em forma de silêncio (48)...

Acrescento-me nestas notas. Não aceito mais a cobardia do esconderijo. Sim, é exactamente como me lês: estou à tua espera, para que me ensines a desnaufragar do que sou. Tudo se pode ensinar, até a respirar da alma para dentro. Uma espécie de nirvana: não recuar perante nenhuma fronteira, vencer a atracção do limite, imergir e emergir num contínuo e quase poético movimento de auto-superação. Estares lá, no degrau da última porta. E, por fim, encontrar-te. E pertencer-te.

C.A.

Antologia poética (210)...

Improviso sobre a ancoragem...

Os barcos que fundeiam
deixam-se agrilhoar pela âncora
renunciando à atracção do alto-mar
eu perdi-me das tuas mãos ancoradoras
e desertei do cais.

Ademar
25.02.2006

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Antologia poética (209)...

Improviso sobre "O Mundo de Cristina" (1948), de Andrew Wyeth...

wyeth.jpg

Quando interrogas a luz
não há mais distâncias
nem silêncios no teu olhar
e tudo volta a renascer
a casa infância
o fumo espesso
os cheiros originários
e todos os mortos
que ainda não morreram
a luz que te responde
perdeu a noção de finitude
penetra-te
para que te engravides dela.

Ademar
26.02.2006

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Antologia poética (208)...

Improviso sobre "O Beijo" (1907), de Constantin Brancusi...

beijo.jpg

Os beijos também arrefecem
e petrificam
por mais que finjamos
enlaçar-nos.

Ademar
26.02.2006

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Antologia poética (207)...

Improviso sobre "Vénus Dormindo" (1944), de Paul Delvaux...

venussleeping.jpg

Estive sempre ausente
dos teus sonhos
nunca fui mais do que o esqueleto
do pai que te adormecia.

Ademar
26.02.2006

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Epígrafe para um domingo de ausências...

As pessoas que amamos (nunca sabemos se com acento ou não) existem fora de nós. Frequentemente, esquecemo-nos disso, julgando que nos pertencem ou prolongam. Talvez a grande armadilha do amor esteja aí, nessa necessidade, quase infantil, de acrescer ao que somos. Ainda não aprendemos a viver com a consciência da nossa própria incompletude. Algum dia saberemos?...

Fevereiro.2006

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Antologia poética (206)...

Improviso desconcertante...

Numa mão
o passado
na outra
o futuro
ofereço-te ambas
não preciso delas
para fugir.

Ademar
26.02.2006

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Relação das marias compostas, segundo o Houaiss...

Maria-barulhenta
maria-besta
maria-boba
maria-branca
maria-cadeira
maria-caraíba
maria-cavaleira
maria-chiquinha
maria-com-a-avó
maria-condé
maria-da-costa
maria-da-fonte
maria-da-mata
maria-da-serra
maria-das-pernas-compridas
maria-da-toca
maria-de-barro
maria-é-dia
maria-faceira
maria-farinha
maria-faz-angu
maria-fecha-a-porta
maria-fedida
maria-ferrugem
maria-fia
maria-fumaça
maria-gomes
maria-gorda
maria-guenza
maria-irré
maria-isabel
maria-já-é-dia
maria-judia
maria-lecre
maria-leite
maria-lenço
maria-leque
maria-luísa
maria-macambira
maria-macumbé
maria-meu-bem
maria-mijona
maria-minha
maria-mole
maria-mulata
maria-nagô-de-penacho
maria-negra
maria-peidorreira
maria-pereira
maria-peteca
maria-pobre
maria-preta
maria-preta-da-mata
maria-preta-do-campo
maria-pretinha
maria-rapé
maria-rendeira
maria-rita
maria-rosa
maria-seca
maria-sem-vergonha
maria-teimosa
maria-vai-com-as-outras
maria-velha
maria-velhinha
maria-vitória
maria-viuvinha.

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Antologia poética (205)...

Improviso para contar até mil...

Novecentos noventa e nove poetas já escreveram
não tenho estrelas para oferecer aos teus olhos
por que terei de ser exactamente o milésimo?

Ademar
27.02.2006

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Antologia poética (204)...

Improviso para mudar de vida...

Há dias em que me apetece
arrumar a memória
como quem arruma a casa
limpar o pó às recordações
mudá-las de baú ou de cela
pôr mesmo algumas no lixo
para a reciclagem
e reordenar tudo outra vez
há dias em que aspiro à impossibilidade
de me ver no passado
por outras janelas ou postigos
peso-me demasiado nas origens.

Ademar
27.02.2006

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Antologia poética (203)...

Improviso sobre uma porta de Siza...

marco.jpg

Talvez te tenha dito
que aquela porta de Siza
não é para entrar
nem para sair
há portas que são imaginadas
para servirem apenas
de epígrafe à ausência
naquela porta
não cabe ninguém
que já tenha entrado.

Ademar
27.02.2006

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Antologia poética (202)...

Improviso sobre o tempo...

Talvez nunca tenhas aprendido
o sabor das palavras
ou eu não tenha conseguido
decifrar os teus silêncios
entardecemos lentamente
numa ambiguidade que nos desconhecia.

Ademar
27.02.2006

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"Eu devia ter o direito de dizer JÁ CHEGA!..."

Chama-se Ana Costa e pede-nos, apenas, que a ajudemos a morrer, condignamente. Como eu a entendo, depois de ter visto a minha mãe morrer, lentamente, como ela jamais desejaria ter morrido...
Claro: vão aparecer os católicos de quase todos os matizes, os católicos que se revêem, miseravelmente, no martírio de Cristo, a dizerem que não, que ela deve sofrer até ao fim, que os cuidados paliativos, que a vida não nos pertence... e outras idiotices do género...
Eu reconheço a Ana Costa o direito de dizer: já chega. E peço também, daqui, que alguém a ajude a morrer, quando ela quiser. Se eu fosse médico, ajudá-la-ia. Morrer em paz na hora certa: haverá morte mais justa?...
Eu faria o mesmo. Eu farei o mesmo.

outubro 08, 2006

Despojos...

do outro lado ainda sou eu
deste, já me sirvo de todas as peles
ou cartões, cobertores, jornais de manchetes acesas
paredes usadas
ou um blusão de um belo tom verde
que não chega para cobrir as manchas
sirvo-me do teu sofá abandonado porque ainda vem quente
e cheira bem como as flores desenhadas
deste lado da barricada corre um vento
esquecido do sol
sirvo-me agora de tudo, de folhas tombadas
um sorriso perdido
uma voz que pareça humana
parece-se tudo com a vida
do lado de lá
caio para não me levantar

Ana Saraiva

Redondéis...

não sabes dançar
só o teu corpo sabe
como depois daquela volta
me há-de apanhar
para me voltar a deixar
dentro desse redondo
dos braços que esperam
a certeza do meu chegar
não sabes temer
a incerteza do meu olhar
ainda não sabes ler
a violência do meu calar
a língua ainda doce
os passos ainda certos
o riso ainda aberto
e a promessa que arranha a voz
sabes dar tempo
ao tempo que quer passar
por nós, devagar

Ana Saraiva

improviso para dizer o fogo que arde por dentro dos teus olhos...

O látex
não tem a consistência nem a espessura
do pensamento
seccionas a alma
espreme-la
e não te sobram para as mãos
nem sangue nem plasma
mas fogo
esse mesmo fogo que arde
por dentro dos teus olhos
quando prendes amordaças e vendas
e esperas a súplica
estás sempre a iniciar-te
nesse movimento interior
de domar a liquidez.

Ademar
08.10.2006

Um poema de António Gancho... *

antonio_gancho.jpg

Música

A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada faria prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

António Gancho (1940-2006)

* António Gancho viveu quase 40 anos, impossivelmente, no "manicómio" onde morreu, diz-se que a gargalhar. Deixou-nos duas obras: "O Ar da Manhã" (1995) e "As Dioptrias de Elisa" (1997). Inéditos, quantos mais poemas ou novelas nos terá deixado?...

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Antologia poética (201)...

Improviso para convalescenças infantis...

Ofereço poemas como rosas
ou aguilhões
por vezes a obra toda
ou quase toda
exceptuando a futura
que um dia morrerá comigo
não escrevo para ti
não escrevo para ninguém
mas estou sempre a pensar-te
no que escrevo
e a pensar-me em ti
digo
pensando-me no que os teus olhos dirão
faltam-me as palavras
que dispensam as mãos
e faltam-me as tuas mãos
asas delicadíssimas
como se fossem as palavras
que aspirassem por fim a voar-me
muito para além dessa janela
que espreita em vão
a neve que não cai.

Ademar
01.02.2006

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Antologia poética (200)...

Improviso sobre a ausência...

Que ignoras tu do desejo
que eu não pudesse ensinar-te?
a ausência
é uma fonte eterna de sabedoria.

Ademar
01.02.2006

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O verdadeiro espírito universitário...

praxe.jpg

As praxes universitárias visam, toda a gente sabe, "a integração" dos caloiros.
O caloiro besunta-se com bosta de boi? Aprende a integrar-se na merda...
A caloira, de cócoras, simula em público o "felatio"? Desenvolve competências brochistas...
O caloiro rasteja na lama? Aprende a sobreviver no lodaçal...
A caloira faz de escrava? Aprende a obedecer à autoridade de quem pode e quem manda...
Submetidos a tais praxes "integradoras", os caloiros ficam aptos a perceber, finalmente, o espírito universitário...
Deve ser, por isso, que há ainda, em Portugal, tantos reitores e professores "superiores" a defenderem a cultura praxística (leia-se: praxis da humilhação)...

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Antologia poética (199)...

Improviso quase tauromáquico...

Transcendo-me em luminosidades
desperdiço-me em sombras
toureio-me a cavalo
para que ninguém descubra
que nasci pégaso.

Ademar
02.02.2006

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Antologia poética (198)...

Improviso sobre o palco em Cabaret...

Quase tudo começa ou acaba assim
num adjectivo imprudente
um romance a quatro mãos
sem teclas partilhadas
um desencontro de metáforas
excesso de luzes
talvez de néones
um chapéu que se tira
um chapéu que se põe
uma cadeira em que ninguém se senta
Cabaret.

Ademar
02.02.2006

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Antologia poética (197)...

Improviso a benefício da lucidez do ateísmo...

Sou inimigo de todos os deuses
como da submissão do terror e da morte
e até prova em contrário
não saberei de outras fontes de barbárie original
não são os deuses que inventam os crentes
mas os crentes que inventam os deuses
à sua imagem e semelhança
todos os altares são lavados com sangue.

Ademar
03.02.2006

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Antologia poética (196)...

Improviso sobre o Benedictus, do Requiem de Mozart...

Tantas palavras
cujo sabor nunca provaste
tantos gestos que iludiste
tantos silêncios acabrunhados
voaste na direcção errada de todos os antípodas
e jamais subiste aos teus himalaias
rastejaste sempre
entre amoras selvagens
e cogumelos assassinos
e a metamorfose que por fim arriscaste
não passou de uma ilusão fátua de borboleta
sem asas
sufocaste enfim
no cárcere doméstico de todos os medos.

Ademar
03.02.2006

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Antologia poética (195)...

Improviso breve para Rosa Púrpura do Cairo...

Por mais que eu dê à manivela
nunca sais da tela
para voares ao meu encontro
sorris apenas.

Ademar
04.02.2006

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Antologia poética (194)...

Improviso sobre o pudor...

Adio-me no teu esfíngico silêncio
suspendo-me da alegria de um bairro
que impossivelmente sorri.

Ademar
05.02.2006

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Antologia poética (193)...

Improviso sobre chamas...

Diante do espelho
já fui para ti uma hipótese de deus
sobrevivi na fogueira do teu corpo
e ardemos ambos.

Ademar
07.02.2006

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Antologia poética (192)...

Improviso quase orgástico...

Três violinos e um violoncelo
os meus ouvidos não precisam de mais
para um orgasmo.

Ademar
07.02.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (191)...

Improviso à procura de dedicatória...

As palavras que nos renascem
são sempre as que ficam por dizer
interrogando-nos no silêncio.

Ademar
08.02.2006

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Antologia poética (190)...

Improviso em forma de berço...

Regresso sempre à condição original
à descoberta do berço das palavras
onde criança ainda me repouso e adormeço
não estás lá
no quarto primeiro de todos os quartos
mas embalas-me o sono desperto
e contas-me histórias ou estórias
que nunca aconteceram
para continuarem a acontecer
se eu pudesse reescrever a minha vida
dir-te-ia simplesmente que já fui o menino
que gemeu talvez nos teus braços.

Ademar
08.02.2006

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Antologia poética (189)...

Improviso vagabundo...

Espreito-me em todas as esquinas
da tua ausência
e dou-te a mão
para sentir apenas
que nos perdemos.

Ademar
08.02.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (188)...

Improviso sobre a memória dos sabores originais...

Outrora
ainda chegámos a saborear
hoje
quase tudo sabe a nada.

Ademar
09.02.2006

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Origens...

procolharum.jpg

A Whiter Shade of Pale (de Keith Reid e Gary Brooker) tem quase 40 anos (foi gravada pelos Procol Harum em 1967)! Sempre que a ouço, como agora, regresso à adolescência, ao espelho, e pergunto-me se sou mesmo aquele que os meus olhos vêem, se não morri entretanto, por algum esquecimento de mim. A música é o único cordão umbilical que, intemporalmente, nos prende às origens do que somos…

Legenda para uma fotografia...

misterio5.jpg

Queres mesmo que eu legende a fotografia que me enviaste?
Noutros tempos, lembras-te, as pessoas escreviam noutros suportes, menos perecíveis. E tinham mais espaço para se dizerem. Agora, o papel é outro. Usamos o próprio corpo para nos contarmos. E oferecemo-nos assim, despojados, aos alfarrabistas da alma...
Hei-de escrever-te com as pontas dos dedos, como se te pintasse apenas...

Antologia poética (187)...

Improviso sobre a agenda de todas as semanas...

Tenho dias a menos
na minha agenda de todas as semanas
sete
são poucos
faltam-me dias exclusivos
dias que não partilhe com ninguém
senão comigo.

Ademar
09.02.2006

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Antologia poética (186)...

Improviso para um Amigo...

Eu não sei esperar por Venezas
tenho a pressa do farol que escreves.

Ademar
09.02.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (185)...

Improviso sobre a lentidão da areia...

Na ampulheta da saudade
em que o olhar morre
escorres de novo com a areia
regresso-me sempre com ela
ao lugar iniciático de todos os poemas
que ainda não escrevi.

Ademar
11.02.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Greve, claro!

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Perguntas-me se farei greve nos dias 17 e 18. Claro que farei. Desta vez, farei. Cansei-me de ser enxovalhado, profissionalmente, por 3 criaturazinhas que a circunstância política colocou à frente do Ministério da Educação. Já não tenho idade, nem paciência, para ouvir e aturar certas coisas. E, excepcionalmente, faltarei nos dias 17 e 18. Para significar, apenas, como diria um grande Amigo, que "quem tolera tudo... é porque não se importa com nada". Eu não reconheço à Ministra da Educação e aos seus Secretários de Estado (logo eles!) autoridade profissional para me(nos) falarem da forma como têm falado. Que regressem às suas universidadezinhas e às suas escolinhas ditas superiores de educação - e nos deixem em paz. Estou farto desta gentinha! E não continuarei a tolerar que me confundam com a floresta...

Antologia poética (184)...

Dois improvisos musicais, simplesmente, sobre a morte...

1
O silêncio foi inventado
para embrulhar a morte
a música corre sempre
por dentro da vida
mesmo quando a morte a reveste
como em Johann Sebastian Bach.

2
Há agendas que eu prefiro não folhear
a da morte por exemplo
recuso-me a marcar encontro com ela
e muito menos a convido para sair à noite
no bar na rua ou na cama
que apareça quando quiser
farei sempre como o violoncelo de Brahms
fingir-me-ei distraído.

Ademar
02.01.2206

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (183)...

Improviso em forma de haiku...

Perdi as impressões digitais
sobrei apenas num dedo
e comecei a mancar.

Ademar
02.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Inclassificáveis (do Público)...


1
A Tita perdeu-se no Marquês. Quem diz Tita, diz também Titânia. Tem 18 meses, pesa 27 kgs e é castrada. Há mais de um mês que a perdigueira não dá notícias, para imenso e pungente desespero dos seus legítimos adoptantes. O anúncio, com fotografia da bicha, vem hoje estampado nos classificados do Público. Quem devolver a Tita aos castradores embolsará 1000 Euros a título de alvíssaras. Não contive as lágrimas: é sempre tão comovedor o amor aos animais!...

2
O senhor Fernando d'Oliveira, residente na Rua D.Francisco de Almeida, nº 32, 2º, em Lisboa (Código Postal 1400-118) está de parabéns. Habilitou-se ao prémio da Gillette e arrecadou-o: "uma viagem a Madrid para conhecer o David Beckham pessoalmente". O prémio compreende ainda a oferta de alojamento num hotel de 4 estrelas por duas noites (não sei se na companhia da quinta estrela) e um cartão de crédito no valor de 200 Euros (suponho que será para sinalizar os serviços de David Beckham).
Já desconfiava, mas hoje tive a certeza: Bechman só podia mesmo ser patrocinado pela Gillette...

3
O anúncio é cortante e misterioso:

DE CORPO E ALMA
Massagem sensual.
Não há sexo.
Tlm.: 939552407
(Porto, das 13 h. às 21 h.)

Pergunto-me se a anunciante que oferece "uma massagem sensual sem sexo" não será a própria Tita ou Titânia - a perdigueira castrada, desaparecida no Marquês...

4
A "Clínica dos Arcos", em Badajoz, dedica-se ao "Tratamento Voluntário da Gravidez". As portuguesas, católicas ou não, que precisem de recorrer aos serviços da Clínica só têm de marcar o 934726208 e agendar o atendimento.
Eu não sei, francamente, em que consiste o "Tratamento Voluntário da Gravidez", mas uma coisa posso garantir: Badajoz fica em Espanha e tem uma bela catedral gótica...

Janeiro.2006

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Antologia poética (182)...

Improviso em forma de chave...

Se alguém tivesse a chave do meu destino
eu oferecia-ma
um deus
à minha única própria medida
a eternidade como projecto
no espelho de todos os altares
a cirúrgica exactidão da morte
no último cais do pensamento.

Ademar
03.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (181)...

Improviso sobre Astor Piazzolla...

Não sei se corro na direcção do teu silêncio
ou se fujo apenas de mim
quando te convido
para esse tango que ainda não dançámos
tenho as mãos geladas dos teus segredos.

Ademar
04.01.2206

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Nota de rodapé a uma proposta de partitura...


Há quem dedique poemas.
E quem se ausente nos poemas.
A poesia é um eco de muitas vozes silenciadas.
A poesia descura a vigilância das mãos.
Há quem se distraia na poesia,
como quem se distrai no silêncio,
enquanto as mãos enregelam.

Janeiro.2006

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outubro 07, 2006

Improviso para diapasão e viola de arco ou talvez menos...

Há uma espira
em que arranhas
uma nota
um acorde
um timbre
ou talvez menos
tropeço na partitura
e nunca caio nos teus braços
tocas-me ligeiramente ao lado
do ponto da harmonia
desafinamos.

Ademar
07.10.2006

Improviso para adorar de joelhos...

Só vejo altares
quando te vejo
não sei de rainhas nem de tronos
mas entronizo-te
quando que me convidas à vassalagem
quase tenho saudades desse tempo
em que acreditava
que a minha vontade podia ser apenas
um instrumento da tua
não precisavas de palavras
bastava o teu olhar
e eu ajoelhava por dentro de mim
digo
por dentro de ti.

Ademar
07.10.2006

Antologia poética (180)...

Improviso sobre o trapézio...

Tenho a consciência premonitória
de que morro e renasço todos os dias
nesta agenda íntima de contradições sem medida
que é o corpo em que viajo
sou uma ausência de redes
um milagre de resistências
um engano que desafia eternamente
a eternidade
um dia desistirei de renascer no trapézio
tanto berço ou desequilíbrio tambem cansa.

Ademar
04.01.2006

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Um país extraordinário (recorrentemente)...

É uma turma irrequieta e indisciplinada. Os alunos não se concentram, nem sabem ouvir em silêncio a professora. Tenho 8 planos de recuperação e dois deficientes e só tenho a ajuda, três dias por semana, de um colega especializado: que posso eu fazer? Os miúdos são mal-educados, até comem de boca aberta e passam a vida a bater uns nos outros e a dizer palavrões. Mas não pensem que eu vou educá-los: a educação dá-se em casa, eu sou professora, compete-me apenas ensinar. Imaginem que até temos na turma um miúdo racista: o S... recusou-se a dar um beijo a uma colega, por ela (disse) ser escura. O A... andou uma semana a chamar-me de puta e eu não lhe bati, (nunca toquei num aluno!), só o pus fora da sala. Nunca corrijo os textos que eles copiam do quadro, porque se não copiam bem é porque estão distraídos a brincar uns com os outros - era o que mais faltava que eu fosse depois fazer o trabalho por eles. A F..., vejam lá, apesar de ser lenta, até teve a distinta lata de dizer que não queria ser ajudada por um colega. Eles passaram para o segundo ano, mas ignoram coisas fundamentais que deviam ter aprendido no primeiro e eu agora é que aguento. Como passo a vida a mandá-los calar, fico muitas vezes sem voz e sou obrigada a faltar. Quando falto, eles são distribuídos pelas outras salas, porque a Escola não os pode mandar para casa, tem de os entreter : são ordens do Ministério. E vocês acreditam no que os vossos filhos contam? Pois ficai a saber que está provado que os miúdos, a partir dos sete anos, mentem com quantos dentes têm!...
Etc, etc, etc...
Mais adjectivo, menos adjectivo, isto (e muito mais) ouvi eu, esta noite, à professora titular da turma de um dos meus filhos, que frequenta, numa escola pública, o segundo ano de escolaridade. Não lhe ouvi um único elogio às crianças - só críticas, reprimendas e censuras. Julguei que tinha recuado ao início da década de sessenta, quando frequentei a escola primária.
Portugal mudou?... Portugal, por dentro, nunca muda. E este é o sistema de ensino que os inimigos "das ciências da educação" e da pedagogia continuam, saudosamente, a defender. Como se ele, alguma vez, tivesse deixado de existir.
Pobres crianças...

Janeiro.2006

recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (179)...

Improviso madrugador...

Acordas em mim
todos as manhãs
e fazes a faina comigo
a vida entre espelhos
dói menos assim.

Ademar
07.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (178)...

Improviso da paixão segundo Piazzolla...

Deste-me um nome na forma de endereço
soletreio-o a medo
letra a letra
porque a paixão exigia que não errasse o código
M-U-M-U-K-I
mumuki
depois explicaste-me
que a cifra reportava a Piazzolla
e viajei para a Argentina
e dancei o tango
e regressei às Lauras
de toda a vida
a minha vida educada entre valsas
trocaste-me as voltas do corpo
um milhão de vezes e vez nenhuma
e fui mais longe
muito mais longe do que alguma vez tinha ido
porque a paixão exigia também
que não recuasse jamais
ao exacto e imperceptível lugar donde partíramos.

Ademar
07.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (177)...

Improviso sobre a paixão...

A vida
nunca começa depressa
a paixão é sempre
um ramo de enganos
um sorriso cego.

Ademar
09.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (176)...

Improviso sobre a inveja dos gatos...

Há manhãs
em que me apetece
simplesmente desacordar
digo
regressar à pré-história das palavras
e dos seus sentidos antropofágicos
à origem mais remota de todos os cativeiros
e voltar a fingir de mim
para me deseducar outra vez
manhãs
em que dou comigo ao espelho
a protestar com o deus de serviço
só porque ele insiste
em distinguir-me dos gatos
das sete vidas.

Ademar
10.01.2006

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Um país extraordinário (eternamente subsidiário)...


Chove de mais? A mão estende-se para o subsídio...
Chove de menos? A voz reclama o subsídio...
Faltam espectadores? Compense-se com o subsídio.
O país arde? Exige-se o subsídio.
A concorrência aperta? Decrete-se o subsídio.
Portugal não é um Estado: é um antiquíssimo e vastíssimo asilo de mendicidade.
Subsidiemo-nos todos uns aos outros...

Janeiro.2006

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Antologia poética (175)...

Improviso sobre a circunstância...

Socialmente
alimentamo-nos da circunstância das palavras
e fingimos a desatenção do olhar
para não sermos tidos
por espreitadores da alma
não sei se tiveste vontade de me dizer
que leste e anotaste todos os poemas
ou que simplesmente os comeste
baralho-me nos silêncios da fome
o pudor embaraça-me na ausência.

Ademar
11.01.2006

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Antologia poética (174)...

Improviso infantil sobre o adultério para manuais de caligrafia e marialvismo...

Pé-ante-pé
papá
pipi
popó
pum.

Ademar
12.01.2006

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Uma nota melancólica sobre a espuma de todos os dias...

Felizmente, não fiz nenhum curso de História; pude, assim, manter intacta a minha paixão de sempre pela História, que a universidade portuguesa, muito provavelmente, teria exterminado.
A História ensina-nos muitas coisas. Por exemplo, que são pouquíssimos os acontecimentos e as "descobertas" que marcam e alteram, significativamente, a maneira como as pessoas (e os povos) vivem e convivem, pensam e sentem. O noticiário de todos os dias está cheio de espuma, uma espuma que tem a consistência da maquilhagem que não resiste a uma noite bem ou mal dormida. Mas a verdade é que continuamos depois a ser como éramos antes - e tudo permanece na mesmice de sempre.
A História ensina-nos a sabedoria do distanciamento crítico e, frequentemente, do cinismo. Sobra a condição e a circunstância de cada um. E nessa exacta condição e nessa exacta circunstância morreremos - como nascemos e vivemos. Há muitos tolos e muitos narcisistas que crêem que mudaram o mundo e fizeram História. São os mais perigosos de todos, porque se deixaram confundir com o espelho, acreditando que alguém, talvez um deus, os fadou para a grandeza intemporal dos salvadores ou dos heróis.
Cada vez tenho mais vontade de os manter à distância. Higienicamente.

Janeiro.2006

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Antologia poética (173)...

Improviso sobre a espera...

Obscurece-me tanto a ideia de morte
que regresso sempre ao princípio de tudo
no que o tudo me contém
e repito o poema
e repito a música
e repito o gesto
e repito o livro
e repito o movimento
e repito a viagem
e repito a memória
compulsivamente
dou à manivela de mim
e volto atrás
à primeira cena
ou à cena ainda anterior a essa
obrigando-me a acreditar
que há sempre uma origem que abre
janela ou postigo
para todas as origens
que ainda nos esperam.

Ademar
12.01.2006

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Uma ponte para Piazzolla ou para a eternidade...

piazzolla_adios.jpg

Talvez jamais te esqueças de que fui eu que te dei a ouvir, pela primeira vez, "Adios Nonino". Depois de eu morrer, viverás ainda, certamente, muitos anos. Mas sempre que ouvires o mesmo piano, o mesmo "bandoneon", o mesmo violino - lembrar-te-ás de mim e, talvez, daquela quarta-feira de inverno, feita como sempre de tantos equívocos, em que me pediste o cd de Piazzolla.
Senti-me no teu gesto um pouco menos volátil ou perecível...

Janeiro.2006

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Antologia poética (172)...

Pretérito politicamente perfeito...

Eu não escutei
Tu não escutaste
Ele não escutou
Nós não escutámos
Vós não escutastes
Eles escutaram.

Ademar
13.01.2006

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Antologia poética (171)...

Improviso em forma de éclair...

Podiam ser rosas ou cravos ou balas
preferes oferecer-te em poemas
como se as palavras abrigassem um corpo
que aspira apenas à ausência
escreves
para te desencadernares.

Ademar
13.13.2006

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Ah! se eu fosse homossexual...

Num dia irritantemente chuvoso (pelo menos, no norte), nada melhor do que uma boa manchete do Sol: esta.

ps.jpg

Se eu fosse homossexual, juro, oferecer-me-ia para adoptar o PS. Sócrates, incluído...

Um coice (ou couce) no destino...

ojogo.jpg

Foi o meu filho Francisco que, entretanto, me chamou a atenção para este título da edição de ontem de O Jogo.
Couceiro desejava resolver na Rússia a eliminatória de acesso ao próximo Europeu de sub-21. Perdeu por 4-1. Resolveu-a, de facto...

Uma fotografia...

espelho

Uma fotografia de autor desconhecido. Uma mulher sem nome, nem circunstância. Duas mãos que parecem querer vendar-nos os olhos. Uma nudez para iniciados. Quase perfeita. Convite a muitas fantasias de castidade, na distância de uma fronteira inacessível. O teu banho: o nosso mistério...

outubro 06, 2006

Antologia poética (170)...

Improviso minimal...

Se me deres a mão
sentirei a minha.

Ademar
14.01.2006

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Utilidade social...


Não sei se já vos terá ocorrido: os sábados, os domingos e os "feriados" não são dias úteis. Ou seja, são dias... inúteis.
A utilidade social é um conceito com grades, restritivo e culpabilizador.
O prazer é inútil.
O descanso é inútil.
A diversão é inútil.
A aventura é inútil.
A cultura é inútil.
A vida é inútil.
Só o trabalho com horário certo e produção garantida nas contabilidades do PIB é útil.
São os economistas e os banqueiros e os empresários e os juristas ao serviço de todos eles que fazem as leis que ditam os contornos e os limites da utilidade social.
Há uma parte da sociedade que não me pertence e não me reconhece. E que me aliena.
Tenho 53 anos e ainda não consegui perceber por que devo sentir-me útil às segundas, terças, quartas, quintas e sextas (quando não coincidem com feriados) e inútil, aos sábados e aos domingos.
Vou ali passear a minha inutilidade e já venho...
Ou talvez não.

Janeiro.2006

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Antologia poética (169)...

Improviso sobre um tema de The Doors...

Se te gingares para o balcão
e pedires uma mesa com duas pedras de gelo
eles servir-te-ão provavelmente
um whisky travestido de soda
ou uma cadeira sem assento para equilibristas
e chamarão a segurança de serviço
aos sanitários do purgatório
(que a caminho do inferno só há mulheres)
choverá e tu despirás a pele
antes de subires para o balcão
e começares a discursar ou a beber
então ouvirás riders on the storm
e dançarás com as estrelas
como se fosses ninguém
fora do bar
a noite seguirá viagem contigo
solitariamente.

Ademar
16.01.2006

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Antologia poética (168)...

Improviso sobre a urgência da imitação de deus...

Deus
memória vagueante da perfeição
vejam-no ali sentado discretamente
entre o lixo
caderno em punho
anotando todos os desvios
todas as fraquezas
todos os pecados
dir-se-ia
esgaravatando na putrefacção
o seu olhar
nunca se concentra directamente
no objecto da intimidação
é um olhar disperso
talvez vesgo
humanamente estrábico
Deus vigia
pelo postigo da norma
que ele próprio fixou
alguns ainda acreditam
que é vocação ou imanência
engano
causa ou consequência
é-lhe indiferente
ele regista apenas
as pulsações do mito
para que ninguém o enterre
antes de exarada assinada e autenticada
a certidão de óbito
perante o destino da sua obra
Deus reserva-se sempre
a sentença definitiva.

Ademar
16.01.2006

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Antologia poética (167)...

Improviso sobre o Ave Maria, das Vésperas...

Tenho as mãos sujas
de todo o pó acumulado
das noites e dos dias
que caíram em mim nesta cela estreita
inclino-me agora sobre as grades
e ouço num tumulto de vozes
o Ave Maria das Vésperas
de Sergei Rachmaninov
ouço-me com elas
e finalmente purifico as mãos.

Ademar
17.01.2006

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Testemunho com endereço...


Conheci-te carregada de medos. Tanto que, quando andavas, parecias antes voar ou fugir. Não sei se algum dia conseguirás libertar-te deles. Os medos revestem-te, como se fossem uma espécie de segunda pele, transparente e invisível, sobre a pele que todos vêem.
Algures, num tempo em ti muito remoto, deves ter estado aprisionada num quarto escuro. Uma vez, duas vezes, muitas vezes. Ficarias então atenta aos ruídos e aos movimentos prenunciadores da aproximação de quem te abrisse a porta e deixasse sair. Ficaste lá sempre. Continuas perscrutadora e observadora e sempre, sofridamente, ansiosa e inquieta. O tempo passou por ti, mas não chegaste a sair do quarto escuro. Os teus olhos permanecem fixados na porta que não se abre, restituindo-te à claridade. Os teus olhos não escondem nunca a aflição e suplicam a segurança e o afecto que os carcereiros da infância te negaram.
Vives acantonada num quadrado de culpas antigas, originais. O quarto escuro entendia-lo como uma punição que talvez merecesses. Talvez porque sentisses, simplesmente, que te tinham desejado de outro género e tivesses, eternamente, de pagar a culpa de seres fêmea, em vez de macho. Há uma parte de ti que, ainda hoje, se recusa a ser mulher, a parte, precisamente, que continua a lutar contra o cárcere do quarto escuro. Ofereces o corpo desprotegido à luz transbordante, como se nunca tivesses conhecido o pudor da intimidade. Mas atrás da pele ou da porta, no quarto escuro que se confundiu com a tua natureza, és infinitamente reservada, há uma timidez em ti que está sempre em conflito com a leveza e o descaramento do corpo. Fundes e confundes-te nos antípodas de uma identidade que, freudianamente, oscila entre o superego e o id.
O medo de falhar resume em ti quase todos os demais (medos). Porque o preço do falhanço há-de continuar a ser o quarto escuro, a punição que te faz regressar, entre culpas, ao cárcere da infância.

Janeiro.2006

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Antologia poética (166)...

Improviso sobre a delicadeza de mãos do silêncio...

Há silêncios que se fazem
de muitas palavras
de todas as palavras
que não tivemos mãos para dizer.

Ademar
18.01.2006

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Antologia poética (165)...

Improviso para o meu candidato...

A voz
pode ser um dom
uma espécie de feitiço
o mistério
fala muitas vezes
pelas vozes
que não se deixaram amordaçar
nem formatar
vozes que tocam e queimam
como mãos acesas
há vozes infinitamente alegres
mesmo quando nos arranham na saudade
quero dizer
o contraponto da rebeldia.

Ademar
19.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (164)...

Improviso sobre a tristeza...

Há dias em que me entristeço
deixo-me conduzir por Piazzolla
e danço longamente comigo
um tango que parece apenas querer chorar
não tenho companhia para o espelho
não tenho companhia para a lágrima
e o violino sai para a rua sozinho
e eu saio com ele
atrás de uma memória de festas
que ainda não escrevi.

Ademar
20.01.2006

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Platão...

Escreveste, talvez distraidamente: "Existo, mas não sei o que acontece quando durmo..."
Os sonhos, mesmos silenciosos e clandestinos, despertam sempre algures na madrugada. Ou na manhã.
Ou nunca...

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Habilitações necessárias para exercer a prostituição...

an.jpg

Este anúncio vem hoje estampado nas páginas do Público.
Num país em que tantos professores ou candidatos a professores estão condenados ao desemprego ou ao subemprego por muitos anos, é inevitável que alguns acabem, em desespero, por recorrer à prostituição para sobreviver.
Serei o último a censurá-los. Cada um faz do seu corpo o que quer ou pode.
Guardo, antes, a censura para quem a merece, os responsáveis por este estado de coisas: Universidades, Politécnicos, Ministério da Educação. Há muitos anos que sabemos que as escolas do país jamais conseguirão absorver todos aqueles que continuam a ser atraídos para os cursos de ensino (e menos ainda a partir de agora, com a elevação da idade de reforma). Todos os anos saem das Universidades e Politécnicos centenas de jovens candidatos à docência que tão cedo não conseguirão exercer a profissão. Que farão entretanto?...
Se estivesse no lugar deles e não tivesse quem me sustentasse, entre a caixa de um supermercado e o serviço de "massagens", não sei, francamente, se não optaria pelas "massagens".
Valha-nos a Autoeuropa ou o M.I.T.!...

Janeiro.2006

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Antologia poética (163)...

Improviso quase cinematográfico...

Converti-me à delicadeza
das tuas mãos
em que adormeço
esta não é porém
confissão que importe ao mundo
a poesia de resto
sublima apenas intimidades
matéria volátil e incandescente
instância talvez de criptas e cifras
diria mesmo
numa linguagem de muitas cores
pouco mais enfim
do que amor e vacas
como no filme.

Ademar
23.01.2006

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Antologia poética (162)...

Improviso sobre a teimosia...

Talvez esperes de mim
mais do que palavras
mas eu já não tenho mais
do que palavras
circulo apenas em sangue de metáforas
e vou adiando
o mais que a fantasia ou a teimosia me consente
a oferta do corpo à eternidade.

Ademar
24.01.2006

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Antologia poética (161)...

Improviso sobre a guerra que me pertence...

Transporto a guerra comigo
sou um campo de batalha
morro e ressuscito
todas as ínfimas fracções do tempo
que é a minha vida
e volto a morrer e ressuscito ainda
até me faltar o tempo
até me cansar a vida.

Ademar
24.01.2006

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O Super Mário...

Jardel.jpg

O rapaz da fotografia foi, durante alguns anos, em Portugal e no Brasil, um ídolo (de pés de bola). Em Portugal, jogou no Porto e no Sporting. Depois... emigrou. Fez a via sacra da droga e dos casinos. Afundou-se. Ninguém mais o queria, nem para apanha-bolas...
O Beira-Mar, este ano, decidiu conceder-lhe uma última oportunidade. O treinador, Augusto Inácio (que, por sinal, também jogara no Porto e no Sporting), aceitou-o na equipa. Sabia que corria um risco enorme: que teria de recuperar o homem, antes do jogador. E que todos lhe cobrariam a ingenuidade de acreditar na recuperação de um eterno adolescente, de um vadio. Parece que Jardel aceitou, desesperadamente, a tábua de salvação que encontrou em Aveiro. E que, pouco a pouco, com muito carinho e com muita firmeza, vai recuperando do imenso fosso em que caíra.
Vi hoje a estória na Sportv. E fiquei comovido. Eu e os meus filhotes, que já não se lembravam do Super Mário de há uns anos atrás. Tiro o chapéu ao autor da reportagem: Jaime Cravo. Apesar da selva que o envolve, o futebol pode ser, ainda, um lugar de transcendências. Retenho o título da peça: "Beco com Saída". Espero que a Sportv a repita, para que possais, um dia, comover-vos comigo. E espreitardes também as lágrimas...

outubro 05, 2006

Antologia poética (160)...

Improviso na forma de naufrágio...

Todos os dias desejo e receio
cansar-me um dia deste capricho das palavras
sinto-me
o movimento interior de um naufrágio
que aspira sempre a nadar
a terra ao alcance de duas braçadas
talvez pouco mais.

Ademar
25.01.2006

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Antologia poética (159)...

Improviso sobre a abstracção das garras...

Loba talvez solitária
nasceste a sorrir
com uma súplica no olhar
proposta de rendição e tréguas
mas o maior dos teus enigmas
é a indocilidade
esse jeito felino
de te encarcerares
na abstracção das garras.

Ademar
26.01.2006

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Antologia poética (158)...

Improviso para um lied...

Acreditas que as palavras choram
digo-te que não choram
nem nós choramos nas palavras
as palavras são apenas caminhos de lágrimas
que nos percorrem
quando nos entristecemos nelas.

Ademar
27.01.2006

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Antologia poética (157)...

Improviso sobre um modelo...

Se eu te pintasse
dirias que era uma metáfora
tenho olhos distraídos
para as formas do teu corpo
e para as cores
não sei como fazer existir-te como és
num tela ou num poema
fragmento de mim.

Ademar
27.01.2006

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Antologia poética (156)...

Improviso sobre o cárcere...

Moemos tanto as palavras no silêncio
que até nos destreinamos de falar
a poesia remói e remói as palavras
e à míngua da tua
há dias em que tenho saudades
de ouvir pelo menos a minha própria voz
vou ali gritar-me.

Ademar
27.01.2006

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Maria Ondina, de Braga...

ondina.jpg

Desfolhando a memória iconográfica dos meus mortos, esbarrei nesta fotografia de Maria Ondina Braga. Nascemos na mesma rua da mesma cidade, com vinte anos de diferença (a favor ou desfavor dela). Maria Ondina foi (será sempre) uma daquelas mulheres de que todas as mulheres que não aspiram a ser "cocottes" se deveriam orgulhar. Infelizmente, conheci-a mal, muito mal. Primeiro, pelos escritos ("A China Fica ao Lado", "Estátua de Sal"...), só muito mais tarde a pessoa. Ouvi-a falar da Braga da nossa infância de que ela fugira a sete pés e do oriente que, esplendorosamente, a recebera e protegera. E percebi a imensa solidão e a extraordinária grandeza de uma mulher que sempre se recusou a ser como as outras e que pagou, em dobrado, o preço da coragem dessa rebeldia. Maria Ondina sobrevive hoje nos livros que nos deixou e, discretamente, nas enciclopédias que a vão recordando. Mas continua a passear comigo, de braço dado, pela Rua Direita e pela Cruz de Pedra, a contar-me lentamente estórias da China. E de Maximinos, o nosso berço.

recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (155)...

Improviso sobre a ambiguidade...

Há vozes que dispensam
manual de instruções
vozes lareira
que crepitam até
sob a neve imaginária
vozes que se erguem
da bancada fria
e prometem susurros
e silêncios fervilhantes
há lastros de vozes
que tecem e aquecem
numa ambiguidade feroz
as nuvens descem agora
sobre o horizonte trémulo dos olhares
e as nossas vozes descem com elas
despertando lentamente do sentido da chuva.

Ademar
28.01.2006

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Diário em forma de silêncio (47)…

Já te disse tudo ou o princípio de quase tudo. Falei-te do espelho em que cego. Contei-te das mil e uma vertigens do corpo e da alma. Uma a uma, descrevi-te as grades através das quais espreito o universo. Tu finges sempre desacreditar e passas adiante. Parece que nada reconheces, senão a certeza do teu próprio feitiço. Enganas-te: não sou a bela que adormeceu para ser acordada por ti. Bela ou não, já não há milagre que me adormeça…

C.A.

Improviso para me arranhar...

És parte de uma saudade que não me dói
não me escorres ainda das mãos
como memória líquida e engravidante
tivesses tu a consistência do ovo da serpente
e eu arranharia o desconforto interior da tua ausência
assim
adio apenas em ti o destino incerto.

Ademar
04.10.2006

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (12)

Às 16:00 horas, as luzinhas do meu modem começam, finalmente, a dar sinal de si. Pressinto a presença próximo do meu anjo da guarda. Desço e sou presenteado com a explicação do enigma. Não percebi muito bem as minudências técnicas: parece que houvera uma espécie de conflito entre caixas e linhas, com muito ruído à mistura. Um conflito que o meu interlocutor conseguira, diligentemente, detectar e resolver. Ter-lhe-ia dado um abraço se ele não fosse, indirectamente, pago pela NetCabo…
Agora, entendo o anúncio: ele há coisas fantásticas, não há?!...
Isto é Portugal ao vivo… no seu melhor e no seu pior!...

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (11)

Às 12:30, reparo que alguém está a mexer na “caixa” do "crime". Desço, abordo o técnico e pergunto-lhe… se posso ter esperança. Ele diz que o problema será resolvido, mas lamenta-se: a equipa que fizera a manutenção… só fizera asneiras. Conta-me minudências técnicas. Fala-me de cruzamento indevido de linhas, que provoca ruído. E é esse ruído que me impede de aceder à Internet. Percebo, finalmente, que fui envolvido numa espécie de competição entre empresas subcontratadas da NetCabo (directa ou indirectamente). E descubro que o primeiro técnico que diagnosticara correctamente o problema pertence a uma empresa concorrente daquela que fizera a manutenção. Beckett, finalmente, começa a sorrir-me…
Só há uma solução: diz o meu simpático e pedagógico interlocutor. Procurar nas caixas vizinhas a origem do ruído que me afecta. Ele parte à descoberta e eu regresso à expectativa…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (10)

Às 12:00 horas, recebo, não a visita do piquete prometido, mas uma nova chamada do assistente com que falara duas horas antes. Informa-me que o piquete já “está no terreno” e que detectara, finalmente (!!!), a causa da avaria que me afectava. Fala-me de uma “célula” qualquer que estaria queimada e acrescenta, com garbo, que o problema reportaria à manutenção, que teria sido mal feita. Agradeço muito a informação, mas recordo-lhe que já a tinha desde a tarde de ontem (e que me fora fornecida pelo primeiro técnico que me visitara). O que eu queria agora era apenas que me devolvessem a Internet que, por azelhice, me tinham “queimado”…
Comecei a cheirar… Beckett, com um travo de Kafka.

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (9)

E, de facto, desta vez, não tive de me identificar. Quem me atendeu, já sabia a estória. Mais: disse-me que, afinal, talvez fosse possível resolver ainda esta manhã o problema. Até, o mais tardar, às 13:00 horas (se estivesse alguém em casa, naturalmente). Iriam mandar-me um “piquete” de intervenção rápida, composto por técnicos de serviço interno e técnicos de serviço externo, que, certamente, seriam capazes de diagnosticar e reparar a avaria que me afectava. De mim para mim, não sei se ri, não sei se chorei. Depois de tantas mentiras e promessas dilatórias, poderia acreditar, ainda, nalguma coisa?...
Limitei-me a dizer que não sairia de casa e que esperaria, pacientemente, a visita do “piquete”.Já me cansei de inventariar os prejuízos…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (8)

Quinta-feira, 5 de Outubro. Sem Internet e sem rasto do técnico, decido, por volta das 10:00 horas, ligar uma vez mais para o Serviço dito de Apoio Técnico da NetCabo (sétimo prejuízo: a ligação custou-me mais 4 euros). Claro: tive de repetir, pela enésima vez, as minhas senhas de identificação e a minha estória. A primeira reacção do assistente que me atende é: hoje, feriado, nada pode ser feito. Porque o problema de amplificação que me afecta tem origem no exterior (novidade absoluta!) e porque a intervenção no exterior só poderá ser feita amanhã, sexta-feira. As tais 48 horas invocadas pela assistente que me ligara ontem.
Com a paciência e a calma possíveis, tento explicar ao assistente o óbvio: que a avaria que me afectava tinha sido provocada pela própria empresa, em resultado de uma manutenção mal feita. Que não se tratava de reparar o equipamento do cliente (que sempre funcionou optimamente), mas de corrigir um disparate que seis almas penadas à volta de uma pequena caixa, em nome da NetCabo, tinham consumado no dia anterior. Que uma empresa séria não descansaria enquanto não corrigisse o problema que ela própria causara. Etc, etc, etc…
O assistente ouviu, pacientemente, tudo o que eu lhe disse e, no fim, declarou que iria transferir a ligação para o serviço competente. Eu preveni-o de que não iria voltar a repetir os meus dados de identificação e a minha estória…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (7)

O milagre, naturalmente, não se dá. Pouco depois da meia noite, resolvo ligar, novamente, para o Apoio dito Técnico da NetCabo (sexto prejuízo: a chamada custou-me cerca de 3 euros)). O assistente que me atende (e que, mais uma vez, me pede os dados todos de identificação, antes de ouvir a estória que tenho para lhe contar) acaba por me dizer o que eu já esperava: que já não havia manutenções em curso na área da minha residência e que, se eu não tinha ainda
Internet, o problema só poderia ser resolvido no dia seguinte, ou seja, hoje, quinta-feira. Pediu-me, uma vez mais, um número para contacto e garantiu-me que, por volta das 9:00 horas, seria contactado por um novo… técnico. Eu… que ficasse descansado…
Não fiquei.

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (6)

Às 21:20 horas, toca novamente o telefone. O técnico da NetCabo “destacado” para me prestar ajuda informa-me de que, afinal, já não vem, porque não vale a pena. O problema exterior seria ainda resolvido “esta noite” e já não seria necessário disponibilizarem-me uma ligação provisória à Internet. Mostro-me surpreendido e… céptico. Ele acaba por confessar que as reclamações já eram tantas que a empresa, misericordiosamente, decidira antecipar o termo da manutenção.
Pergunto-lhe, candidamente, se há uma hora previsível para o termo da extraordinária manutenção. Ele arrisca novamente (deve ser um horário fetiche) as 23:30 horas. Digo-lhe que ficarei à espera do suave milagre…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (5)

Regressei a casa às 19:00 horas, convencido de que, finalmente, poderia aceder à Net. Nada! Tudo continuava como antes. Liguei, uma vez mais, para o número do Apoio Técnico da NetCabo: 707288488 (quinto prejuízo: gastei na ligação cerca de… 8 euros).
Atendeu-me um “assistente”, a quem, pacientemente, contei toda a estória. Ele fez-me as perguntas da praxe e prontificou-se a esclarecer, de imediato, a situação, pedindo-me que não desligasse.
Passados cerca de 10 minutos (!!!), a minha “chamada” foi transferida (presumo que por vontade de um deus qualquer) para outro assistente, que, simpaticamente, me disse várias vezes que me queria ajudar. E, uma vez mais, tive que repetir as senhas e as contra-senhas e toda a estória. No fim de a ouvir, o novo “assistente” informou-me de que teria de passar a chamada para outro… serviço, pedindo-me, naturalmente, que não desligasse. E, rapidamente, deparei-me no outro lado da linha com uma terceira assistente, a quem, uma vez mais, repeti os meus dados de cliente e a “minha” estória. Ela prontificou-se a esclarecer o assunto e, claro, pediu-me que não desligasse. Voltou à linha pouco tempo depois, dizendo que, se eu quisesse, me mandaria um “piquete” a casa para tentar resolver o problema.
Nesta fase, eu já estava por tudo. Lembrei à menina que já tinha tido, em casa, a visita de um técnico, que nada pudera fazer, porque a origem dos meus problemas estava no… exterior. Ela insistiu, pediu-me um número para contacto e informou-me de que, no prazo máximo de uma hora, seria contactado por um novo… técnico.
Meia hora depois, efectivamente, recebi uma chamada do… técnico. Que me disse (entretanto, já se tinha informado) que seria inútil visitar-me, porque o problema só poderia ser resolvido no exterior e, agora, (“amanhã é feriado”) só na… sexta-feira… E disse mais: que a manutenção não fora ainda concluída…
Pela segunda vez, passei-me. Devo ter dito tantas e tão poucas ao pobre do técnico que ele prontificou-se a consultar, sobre o assunto, os seus superiores e a ligar-me mais tarde. E ligou, perguntando-me se eu estaria em casa até às 23:30 horas. Pelos vistos, havia uma forma de me ligarem, provisoriamente, à Internet, antes da concluída a extraordinária manutenção que me afectara.

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (4)

O tempo, entretanto, foi passando e as almas penadas tinham regressado, em força, à caixa ou ao armário. A cirurgia, porém, não atava, nem desatava. E eu, pacientemente, diante do computador, à espera do suave milagre do “retorno”, fazendo outras coisas. De vez em quando, espreitava da janela a cirurgia e via as almas penadas a conversar umas com as outras, fumando e rindo. Estariam, presumi, à espera do… cabo (virgem). Que, para mim, seria da… Boa Esperança.
Às 15:20, liga-me uma assistente da TVCabo, a perguntar se eu fora visitado pelo… técnico.Digo-lhe que sim e faço-lhe o ponto da situação. No fim, ela esclarece que, dadas as circunstâncias, a TVCabo só poderia garantir a resolução do problema no prazo máximo de… 48 horas (como se a falha me fosse imputável). Passo-me. Delicadamente, digo-lhe que a TVCabo, a funcionar assim, não é uma empresa: é uma anedota. E garanto-lhe que todo o país ficará a conhecer a dimensão da anedota e que me reservo o direito de pedir uma indemnização, por todos os danos causados. Peço-lhe que informe disso os seus… superiores. Ela… gagueja e só lhe ocorre dizer-me que eu não sou um cliente especial. 48 horas… são 48 horas, para todos os clientes, sem excepção…
Entretanto, as almas penadas continuavam à volta da… caixa (ou do armário), agora, metendo e tirando… cabos. O doente não dava ainda sinais de vida…
Perto das 16:00 horas, tive de sair de casa. Passei pela “brigada” e voltei a interpelar os “cirurgiões” (na altura, apenas 3). Garantiram-me que “estava quase”: mais meia hora e o fornecimento de Internet ficaria restabelecido. Não sei se acreditei, mas fiz um esforço nesse sentido…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (3)

Cerca de meia hora depois, o técnico voltou a bater-me à porta. Para confirmar (terminada a manutenção) se eu já tinha… Internet. Não tinha e ele ficou… estuporado. Não era possível, não devia ser, estava tudo resolvido lá fora. Eu mostro-lhe, metaforicamente, o interior dos bolsos das calças, para provar que não tinha escondido lá a… Internet.
Volta a sair e regressa passados 15 minutos. Simpaticamente, informa-me que a manutenção fora mal feita (não sei se o disse exactamente nestes termos) e que os seus colegas tinham “metido” um cabo queimado. Teriam que o substituir e só depois, finalmente, o problema ficaria resolvido. Eu perguntei-lhe se a TVCabo, como o país, estava em regime de poupança forçada (para “meter” cabos queimados). Ele encolheu os ombros, sorriu e eu voltei a sorrir com ele.
Mas o problema (era um optimista) seria resolvido dentro de pouco tempo…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (2)

Um pouco depois das 11:00 horas, reparei que a brigada já tinha abandonado o local.
Liguei o televisor para confirmar se já havia sinal. Havia. Respirei fundo: poderia, finalmente, trabalhar. Voltei a ligar o computador, mas Internet… nem vê-la…
Contactei imediatamente o Serviço dito de Apoio Técnico da NetCabo (terceiro prejuízo: a chamada custou-me mais de 4 euros). Expliquei o enredo à “assistente” que me atendeu. Ela pediu-me uma série de números, antes de confirmar que a operação de manutenção estava, de facto, concluída e que eu… devia ter Internet. Infelizmente, para mim, as certezas dela não tinham correspondência com a minha realidade. Eu continuava sem Internet.
Delicadamente, informei-a de que, até ao dia de hoje, sempre tivera Internet e que fora só depois da “manutenção” que ficara sem rede. Ela estranhou, mas “prontificou-se” a mandar a minha casa um técnico, para diagnosticar o mal e corrigir o problema. Mas avisou-me de que não poderia garantir uma hora exacta ou aproximada para a visita do salvador. Só poderia garantir que, nas próximas cinco horas (!), eu seria visitado por um técnico. E eu teria, naturalmente, de ficar em casa à espera dele (quarto prejuízo). Eram 12:00 horas quando falei com a menina. O técnico apareceu, armado até aos dentes (ou seja, carregado com duas enormes caixas, suponho, de ferramentas), às 14:45…
Em menos de 5 minutos, o técnico fez o diagnóstico e apurou que o problema estava… no exterior. Falhava, disse ele, o “retorno” (algo ligado à “amplificação”). Ligou para alguém. Esclareceu-me depois que a manutenção ainda não fora concluída, mas que o seu termo estaria para breve. Mais meia hora, estimativamente, e eu teria, finalmente, Internet. Eu… que continuasse a aguardar.
Misericordiosamente, informei-o de que me fora dito, às 11:00 horas, que a manutenção estava concluída. Ele sorriu e disse: nem percebo por que me mandaram cá! Disfarçando a irritação, eu sorri com ele…

NetCabo: ele há coisas fantásticas, não há?!... (1)

Hoje, quarta-feira, levantei-me cedo para “actualizar” o abnoxio, despachar o meu correio electrónico e fazer umas pesquisas. Sentei-me diante do computador às 8:00 horas. Verifiquei que não tinha acesso à Internet (primeiro prejuízo). Testei o televisor: também não tinha sinal. Liguei imediatamente para o número de apoio técnico da TVCabo (segundo prejuízo: a chamada custou-me cerca de 3 euros). Esclareceram-me que estava em curso, na área da minha residência, um processo de “manutenção” que se prolongaria até às 18:00 horas, que obrigaria, de quando em vez, ao corte do sinal. De qualquer maneira, garantiram-me, eu teria, novamente, Internet dentro de pouco tempo. Eu… que aguardasse.
Perguntei por que os clientes atingidos não tinham sido, previamente, notificados da suspensão do fornecimento do serviço. Quem me atendeu, não tinha resposta.
Como, à porta de minha casa, há uma pequena “caixa” (ou armário) da TVCabo, lembrei-me de espreitar à janela. Com espanto, verifiquei que estavam seis almas penadas à volta da caixa (cirurgia sofisticada!, pensei).
Adiei o que me propusera fazer, tomei banho, vesti-me, desci à rua e interpelei a “brigada”. Entre o atrapalhado e o incomodado, um dos “cirurgiões” disse-me que, antes das 11:00 horas, a manutenção estaria concluída.

outubro 03, 2006

Bons ventos...

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Quereis a perfeição? Ouvi Don Quijote de la Mancha, Romances y Músicas. Jordi Savall, Montserrat Figueras e seus eternos companheiros de aventura. Eu já posso morrer, porque os ouvi em palco interpretar Don Quijote. E garanto-vos que é uma experiência única, um longo orgasmo poético-narrativo-musical. De Espanha, quase sempre, só bons ventos...

Improviso para dizer que em Maio...

Crescerás diante dos meus olhos
centímetro a centímetro
sorriso a sorriso
e eu
que nada poderei fazer
para te distrair do destino que escolheste
contar-te-ei simplesmente estórias
que tu adormecerás
noutro berço noutra vida
e dirás vezes sem conta
que nos encontrámos na esquina errada
cais de todas as extravagâncias
chove entre nós
para floresceres em Maio
muito fora de mim.

Ademar
03.10.2006

Antologia poética (154)...

Improviso em forma de haiku...

Tenho um berço por limite
estou sempre disponível
para renascer.

Ademar
29.01.2006

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Antologia poética (153)...

Improviso para Yehudi Menuhin...

Tenho sempre nos ouvidos
o mesmo solo de violino
devo ter nascido a ouvir-me.

Ademar
29.01.2006

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Antologia poética (152)...

Improviso compulsivo...

Repito-me
para jamais me esquecer.

Ademar
29.01.2006

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Antologia poética (151)...

Improviso para uma sessão de protesto...

Se eu tivesse ainda um tecto para pintar
pintá-lo-ia talvez de roxo
a cor católica da minha infância
entre o carnaval e a páscoa
ou a pascoela
que era a páscoa a que atrasara o fluxo da quaresma
se eu tivesse ainda um tecto para pintar
não estaria aqui
nem morreria aos soluços nesta cidade estuporada
de dons engenheiros e monsenhores
que arrendaram o inferno
aos empresários do purgatório
purgo-me nestas palavras
que disputam a trincha e o pincel
e dispensam o andaime
estou a dever pelo menos
três mil anos a Tutankhamon
raio de nome para um faraó
que mal chegou a sê-lo
e estou a dever muitos mais
ao discreto profeta Ulisses
que não teve artes de me ensinar
a técnica de resistir aos enjoos em terra
se eu tivesse ainda um tecto para pintar
pintar-te-ia com todas as máscaras
que fintam o fingimento
e submeter-te-ia ao tesão do camartelo
entre feitiços e frenesins aduladores
para que infinitamente gozasses de cócoras
as delícias que Pasolini
reservava apenas aos memorialistas de Saló
se eu tivesse ainda um tecto para pintar
vestir-te-ia de nuvens em poses gigoladas
e soletrar-te-ia para a imortalidade entre meretrizes
letra a letra
sílaba a sílaba
empreiteiro a empreiteiro
ou menos do que isso
mestre-de-obras
como na idade média
que nunca deixou de ser aqui
se eu tivesse ainda um tecto para pintar
oh glamour
pintá-lo-ia nas estrelas
as mais remotas
porque esta cidade fica demasiado perto do chão
queria dizer
do pântano.

Ademar
30.01.2006

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Os dom(inadores)...

D.Isto e D.Aquilo. D.Duarte. D.José Policarpo. D. Eurico Dias Nogueira. D.Jorge Ortiga. D. Qualquer Coisa de Mascarenhas ou de Menezes. Portugal, republicano e laico (ainda que com fortíssimas intermitências) há quase cem anos, continua pateticamente a abarrotar de gente que não resiste à vaidadezinha do dom. E há jornais, e há revistas, e há televisões, e há agências de notícias que alimentam o circo, antepondo o título pretensamente honorífico ao nome das criaturas (perdão, queria escrever "caricaturas"...).
Mais ridículo ainda: há dignitários da igreja católica que, quando se referem a si próprios, já acrescentam automaticamente o dom ao nome de baptismo. Deixaram de ser, simplesmente, José, João, Jorge, para passarem a ser D.José, D.João, D.Jorge. Eles tomam-se mesmo a sério (coitados!) como "príncipes da igreja" e, pelos vistos, nem têm consciência das gargalhadas que provocam...
Cristo, que nunca aspirou a títulos e a mundanices, não tem nada, de certeza, a ver com isto...

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A bem danação, digo, da nação...

Quando era miúdo, pensava que só os homens extraordinários chegavam ao poder. Salazar, todos os fiéis garantiam, era (hélas!) um homem extraordinário. Como, efectivamente, era ele que mandava no país, pensava eu que, à volta dele, só podia haver gente também extraordinária. Naquela época, eu ainda acreditava, ingenuamente, que as pessoas extraordinárias só aceitavam a colaboração de outras pessoas extraordinárias.
Acho que comecei a perder a fé quando, em 1958, Américo Tomás foi "eleito" Presidente da República. Não, pensei eu, aquele homem não podia ter chegado à condição de "supremo magistrado da nação" pela força dos seus méritos. Comecei a prestar atenção ao que ele dizia e parecia-me estar a ouvir um idiota. Terá sido em mim, provavelmente, o primeiro rebate de uma consciência antifascista ainda primária. Um regime que se fazia representar por um idiota não podia ser grande coisa...
Américo Tomás manteve-se na Presidência da República até 1974. Morreu, entretanto, Salazar, esse homem extraordinário; sobreveio-lhe Marcelo Caetano, o "delfim" dilecto, outro homem também (hélas!) extraordinário. Em Portugal, percebi então, quem quer que chegue à chefia do governo é, por definição e natureza, um homem extraordinário (ou extra-ordinário)...
E comecei também a perceber outra coisa: que, em Portugal, os homens ditos extraordinários têm uma extraordinária tendência para se fazerem reunir de serviçais, em geral, medíocres e lambe-botas...
Ontem, como hoje. E sempre...

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Antologia poética (150)...

Improviso ao jeito de Manoel de Barros...

Nutro-me de insignificâncias
interiormente
afiro por elas as minhas grandezas.

Ademar
05.12.2005

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Antologia poética (149)...

Improviso sobre um certo tipo de messianismo...

Não contrasto a humildade
com a soberba
nem com a arrogância
conheci sínteses
quase perfeitas
há disfarces
que só a persistência penetra
e desvenda
a humildade postiça
é o código de honra
de todas as seitas.

Ademar
06.12.2005

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outubro 02, 2006

Improviso doméstico...

Arrumo a coxinha
digo
arrumo a cuzinha
digo
arrumo a cozinha
estou sempre a trocar a gramática
digo
os estados de alma.

Ademar
02.10.2006

Agenda...

Sobes para o avião desces do avião
entras no automóvel sais do automóvel
carregas as malas
abres a porta de casa entras em casa
sais de casa
voltas a entrar e a sair
abres o livro fechas o livro
não é sempre o mesmo
mas o teu corpo já não distingue capas nem autores
acendes a luz apagas a luz
folheias o jornal folheias a revista
espraias-te pelos títulos
cais na cama levantas-te da cama
atendes o telemóvel desligas o telemóvel
adormeces e acordas
ligas o televisor desligas o televisor
ouves o cd que compraste no último aeroporto
vais ao cinema ao teatro ao concerto à exposição
abres o mail fechas o mail
e escreves no blogue
regressando outra vez à rotina das palavras
nada acontece.

Dezembro.2005

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Antologia poética (148)...

Improviso pouco quixotesco...

Engenhosos ou não
todos os cavaleiros andantes
acabam um dia por adoecer
da criatura e da criação
não há cavalos nem escudeiros eternos.

Ademar
12.12.2005

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Antologia poética (147)...

Improviso sobre "Um sarao de la chacona", de Joan Arañés...

Descuido-me de todos os cuidados
não sei de prudências austeras
nem de cálculos de eternidade
protejo-me das doenças da alma
oferecendo o corpo incerto
à hipoteca de todas as noites.

Ademar
13.12.2005

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Antologia poética (146)...

Improviso sobre uma caixa de música...

Emaranhada entre neurónios
ai
eu acho que devo ter algures
uma caixa de música
uma caixa de música prosélita
que me acompanha desde a infância
clandestinamente
fronteira após fronteira
sei por ela e por mim
que continuo a dar à manivela dos sons
como se ainda não tivesse aprendido
a brincar aos silêncios.

Ademar
14.12.2005

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A noite dos tempos confunde tudo...

"Era la noche algo escura, puesto que la luna estaba en el cielo, pero no en parte que pudiese ser vista, y deja los montes negros. Don Quijote le dijo a Sancho:
- Duerme tú, Sancho, que naciste para dormir; que yo, que naci para velar, daré rienda a mis pensamientos y los desfogaré en un madrigalete que anoche compuse en la memoria."

Miguel de Cervantes Saavedra, El Ingenioso Hidalgo Don Quixote de la Mancha

Sempre houve, em todos os tempos, quem tivesse nascido para dormir e quem tivesse nascido para velar. O ponto é que ninguém jamais desvenda o seu destino. A noite dos tempos confunde tudo.

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Antologia poética (145)...

Improviso sobre as origens da chacona...

Diz-se que a chacona
foi inventada por um cego
tanto que lhe deve o nome
tem lógica
os mais ágeis dançarinos
serão sempre aqueles
que não reconhecem horizontes.

Ademar
14.12.2005

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Mínimos...


Há, em mim, uma natureza estruturalmente agnóstica que me conduz a desconfiar sempre de messias, de salvadores da pátria e de pais dos povos. Quando, no termo da adolescência, cheguei a Coimbra e à política, ser-se de esquerda era um imperativo moral. A decência não nos consentia a dúvida sobre o campo em que, politicamente, nos devíamos alistar.
Mas à esquerda, havia sensibilidades, muitas sensibilidades e outras tantas paixões e crenças. Havia os marxistas-leninistas, uns alinhados pela URSS, outros, pela China; havia os trotskistas; havia os anarquistas e libertários, de todos os matizes; havia os guevaristas e quejandos; havia... sei lá que mais!...
No dealbar da década de setenta, quando comecei a ler os "clássicos" da revolução, não havia porém, na minha geração, socialistas ou sociais-democratas. Tirando os analfabetos (a maioria), os "indiferentes" (que ambicionavam apenas a tratar da vidinha, sem fazer ondas) e os raros cães de guarda do regime salazarista (que depois, em geral, viriam a converter-se aos ideais democráticos), éramos todos ou quase todos da esquerda mais radical. Quando olho para trás e vejo o nosso percurso político e social, já só tenho vontade de rir. Éramos, pelo menos, imensamente ingénuos...
Eu nunca fui marxista-leninista. E se algum dia cheguei a acreditar na "superioridade moral dos comunistas", a chamada Primavera de Praga e a consequente invasão da Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia fizeram de mim, definitivamente, "ateu". Eu não podia acreditar naquilo, eu não podia, no silêncio, ser cúmplice daquilo. A "ditadura do proletariado", à moda de Estaline e de Mao, não era para mim... De resto, confesso, não tinha nenhuma vontade de sair de uma ditadura de direita para entrar, alegremente, numa ditadura de "esquerda"...
O que me provoca algum desconforto nesta memória do que fomos é ter consciência de que os tipos mais brilhantes e convincentes da minha geração acreditaram até muito tarde na bondade das patranhas ideológicas e políticas do marxismo-leninismo. Hoje, estão quase todos no PS e no PSD, uns atrás de Soares, outros, de Cavaco, precisamente, as duas majestades que o regime dito democrático, entretanto, produziu.
No fundo, eles continuam a acreditar numa espécie qualquer de messianismo. Há trinta ou mais anos atrás, eles prestavam ainda vassalagem aos herdeiros de Estaline e de Mao e apontavam o dedo acusador à social-democracia, que, diziam eles, fazia o jogo sujo do imperialismo. Hoje, são socialistas de pacotilha, social-democratas, democratas-cristãos ou liberais. Quando os vejo e quando os ouço, não consigo levá-los a sério. A minha memória impõe-me, moralmente, o cinismo. Há um mínimo de coerência e de decência que eu exijo a quem quer mandar em mim...

Dezembro.2005

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Máxima...

Já não sei quem disse que (cito de memória) "Só há uma maneira de se ser professor: é ser-se sempre discípulo de si próprio".
Quem não é capaz de aprender consigo (e com a experiência) não é capaz de ensinar ou de educar os outros
.

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"Oh Lord, whose mercies numberless"...

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Há músicas que se aproximam de nós muito lentamente e nos invadem, como se apenas pretendessem tocar-nos à superfície da pele e depois fugir. Durante anos, durante meses, durante semanas, os nossos ouvidos como que permanecem cegos ao seu feitiço - não as vemos, quero dizer, não lhes prestamos atenção. Elas estão lá, por vezes, espreitam-nos e sorriem-nos até, mas nós não damos conta. Deve haver um tempo cósmico para a fascinação e o enfeitiçamento. Porque um dia, inesperadamente, a nossa indiferença soçobra. E começamos a perguntar-nos, silenciosamente, como foi possível não termos reparado na beleza e na singularidade daqueles olhos que, tão discretamente, nos interpelavam.
Mil vezes, até hoje, os meus ouvidos tinham passeado pela ária "Oh Lord, whose mercies numberless", da ópera Saul, de Handel. Era como se não a ouvissem. Ainda não chegara o tempo do encantamento. Hoje, fui fulminado por ela e, uma vez mais, tive de render-me à extraordinária magia de um compositor genial, o mais genial de todos. Hei-de morrer a surpreender-me...

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Antologia poética (144)...

Improviso sobre a incerteza...

Talvez tenha desaprendido com os anos
a arte delicada dos primeiros passos
já não sei com que idade
aprendi a andar
agora soletro e descaminho
quase tudo me escapa
como as mãos que outrora
me abandonavam à queda
e depois me ajudavam a levantar
atravesso abismos
sobre cordas esticadas entre margens
e continuo a ignorar o que me espera
do outro lado do horizonte dos olhos
ou se alguém me espera
vivo nas fronteiras antípodas da cidade
e já nem sei como se vai
para o bairro da alegria
ou como dele se regressa.

Ademar
18.12.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (143)...

Improviso sobre o juramento messiânico da mudança...

Dentro de cinco anos já não estaremos em crise.
Dentro de quatro anos já não estaremos em crise.
Dentro de três anos já não estaremos em crise.
Dentro de dois anos já não estaremos em crise.
Dentro de um ano já não estaremos em crise.
Dentro de oito meses já não estaremos em crise.
Dentro de quatro meses já não estaremos em crise.
Dentro de dois meses já não estaremos em crise.
Dentro de seis semanas já não estaremos em crise.
Dentro de três semanas já não estaremos em crise.
Dentro de uma semana já não estaremos em crise.
Dentro de quinze dias já não estaremos em crise.
Dentro de oito dias já não estaremos em crise.
Dentro de sessenta e duas horas já não estaremos em crise.
Dentro de vinte e quatro horas já não estaremos em crise.
Dentro de seis horas já não estaremos em crise.
Dentro de cento e trinta segundos já não estaremos em crise.
Dentro de quarenta e oito segundos já não estaremos em crise.
Dentro de seis segundos já não estaremos em crise.
Dentro de cinco segundos já não estaremos em crise.
Dentro de quatro segundos já não estaremos em crise.
Dentro de três segundos já não estaremos em crise.
Dentro de dois segundos já não estaremos em crise.
Dentro de um segundo já não estaremos em crise.
Crise?!!!!!!!!!!!....................
Tentemos outra vez:
Dentro de cinco anos...

Ademar
21.12.2005

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Enigma...

Vens e eu não chego a perceber por que vens. Há um enigma qualquer na tua vontade de te ofereceres. Um enigma que eu, provavelmente, nunca chegarei a descobrir, a desvendar. Ofereces-me o teu lado menos público, menos profissional. Consentes que eu te viaje, que eu te percorra, que eu te domine. E pareces fazê-lo com uma leveza, um desprendimento... que, de todo, não conjugam com a circunstância, a tua circunstância. As pessoas, de facto, têm sempre mais máscaras do que aquelas que apresentam ou afivelam...

outubro 01, 2006

Improviso para elogiar a distracção...

Tu que me esperas
e eu que te espero
perdemos ambos o avião
exactamente à mesma hora
no mesmíssimo aeroporto
há quem fique em terra
por muito menos
por muito mais
nós
simplesmente
não compráramos as passagens
ignorámos o preço da viagem
inútil.

Ademar
01.10.2006

Esconderijos...

misterio3.jpg

Quem sabe o que eles ou elas... querem? Raramente se chega a saber. Nem os próprios ou as próprias sabem. Cada um, cada uma... tem os seus esconderijos, as suas reservas absolutas de intimidade. Nem tudo cabe no jogo da descoberta e da partilha. Sim, claro, os estereótipos: as mulheres que... os homens que... Como se todas as mulheres ou todos os homens fizessem ou cumprissem um destino de género. O pensamento tem dias e tem horas. Como o desejo de cumplicidade. E nem todos os dias e nem todas as horas são dias ou horas de ser como. Há flutuações de humor e de amor, de sensibilidade (aí tens!), de medo, de angústia, de... A lista que nos distingue do padrão é infinda. Somos, frequentemente, o que nunca fomos. Andamos às voltas da fotografia ou do filme... e divergimos do objecto que os outros viam. E nem nós próprios vemos ou reconhecemos. A natureza humana, por mais que as t-shirts o neguem, será sempre um imenso ponto de interrogação.

O doloroso excesso de realidade...

Gosta de fingir que já deu a volta aos cinco continentes, mas ainda nem sabe sequer o caminho para o cais. Faz de rato, quando cheira o gato e faz de gato, quando cheira o rato. Mas foge da realidade como se ainda não coubesse nela. Há verdades que transcendem a adolescência. Não se evade quem quer, mas quem pode. Essa força interior que nos viaja para o mais longinquo de nós...

Tueu...

isso que tanto escondes
é o sagrado rubor
o assomar do teu interior?
é a infância inacabada
que nunca brincava?
escondes-me o teu lodo
e as escarpas altas?
será que escondes
a boca a saber a nada
apesar da manhã
trazer o cheiro
de um prazer inteiro?
com isso que escondes
cobres-me de vergonha
como estar nua sem querer
num mundo que já não pode ver

Ana Saraiva

Centrifugias...

volta amanhã:
terei mundos novos para te mostrar
riquezas várias
e desconhecidas
que se abrem ao teu mínimo querer
volto amanhã:
trago-te mais navios para naufragar
arcas saídas do dilúvio
e jangadas frágeis
dou-te água:
trago-te ar:

Ana Saraiva

Nota quase de rodapé...

São capazes de sentir o mesmo tipo de inquietação erótica perante homens e mulheres. A inquietação antepara o desejo. Como bom português, invejo-os. Gostava de ser como eles (e elas). Superiores, como eles (e elas). Ambivalentes, como eles (e elas).
Há trinta anos atrás, julgava que não existiam. Há vinte, também. E há dez. A experiência ensina-nos e desvenda-nos muitas coisas. Por exemplo: que Shakespeare tinha razão, quando dizia que há muitas mais coisas no céu e na terra do que aquelas que podem ver os nossos olhos...
Os bissexuais existem. Estão por aí e, na maior parte dos casos, nem eles próprios se levam a sério. Sexualmente, fomos e continuamos a ser educados no preconceito e no medo. A diferença é um estigma. Mesmo que não importe à "sociedade", mas apenas a cada um de nós... Ou deles... Ou delas...
Os mais insondáveis mistérios da condição humana - continuamos alegremente a ignorá-los.
Felizmente, somos infelizes assim...

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Antologia poética (142)...

Improviso sobre um poema de amor ou de saudade...

Há um tempo para as palavras
e outro para as mãos
e para os dedos das mãos
para os lábios e para a língua
e a boca inteira
há um tempo para a poesia
e outro para o corpo
no mesmíssimo tempo
de estar contigo
ou de pensar que seria o máximo
se estivesses.

Ademar
24.12.2005

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Banalidade...


Perto ou longe, o roteiro de viagem não engana. Estamos sempre no mesmo lugar: só mudam (quando mudam) as circunstâncias.
Quem persegue horizontes... foge apenas do espelho ou de si próprio.

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Antologia poética (141)...

Improviso sobre "When Your Lover Has Gone" (1931)...

Persigo o movimento dos pés
para não cair ou tropeçar em ti
o salão não tem paredes
nem portas
nem janelas
e o chão são nuvens
sob um tecto de estrelas e luas
não pertenço a nenhum corpo
quando danço contigo.

Ademar
25.12.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Bem-aventurança...

No pensamento, cabe tudo; no desejo, não. O desejo raramente acompanha o pensamento, tropeça em todos os tabus, em todos os preconceitos, em todos os medos. Felizes daqueles que se encontraram no fim da estrada de si e que pensam o que desejam e desejam o que pensam. Felizes daqueles que não se dividem entre as noites e os dias.

Antologia poética (140)...

Improviso sobre o teu silêncio...

Do teu silêncio sobre as nuvens
não sei se espere o grito da descoberta
ou o tranquilo acolhimento
sei apenas que viajo com os teus olhos
e vou sempre à frente
esperando-te algures no passado
entre palavras
talvez todas as palavras
que um dia iluminaram a tua ausência.

Ademar
27.12.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (139)...

Improviso terapêutico...

Sofres do embaraço do adjectivo
não escorres das palavras
com a mesma leveza
diria o mesmo rigor
como escorres do corpo
quando te esqueces
sobra-te pensamento para as algemas
a alma respira-te
asfixiada na garganta.

Ademar
28.12.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (138)...

Improviso sobre o esquecimento...

Frequentes vezes
finjo esquecer-me de mim
evado-me do corpo
e deambulo pelas suas margens
entre palavras e imagens
que já não me pertencem
provavelmente
perder-me-ei assim
desencontro-me sempre
do destino do regresso.

Ademar
29.12.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Mote para um poema que ainda, um dia, hei-de escrever...

Vou ter saudades de tudo o que não vivi e partilhei contigo.

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Um país extraordinário (continuação eterna)...

Imagine-se uma instituição pública, fundada e mantida com dinheiro de todos nós.
A criatura que preside à instituição (um sujeito medíocre que, desde a juventude, vive da política e do tráfico de influências) arranja maneira de empregar confrades, correligionários, parentes e amigas mais ou menos íntimas, que vai colocando em lugares estratégicos para melhor controlar o funcionamento da coisa. Todos pagos, naturalmente, muito acima dos seus méritos e das suas habilitações.
Um certo dia, não há veniagas eternas, a criatura é corrida (transferindo-se, tranquilamente, para outras "instituições"). Mas os confrades, correligionários, parentes e amigas mais ou menos íntimas a que tinha dado emprego - mantêm o lugar e as correspondentes mordomias.
Portugal é assim e, verdadeiramente, não há quem lhe queira dar a volta. O "centralão" que, há muitos anos, nos governa vai garantindo a perpetuação mais ou mais pacífica do sistema, assente no nepotismo e na lei do compadrio.
Julgais que me refiro a uma instituição imaginária? Não, refiro-me a uma instituição concreta, de resto, muito badalada, actualmente, na comunicação social. A criatura tem nome e devia estar na cadeia, mas não há-de tardar muito que o vejamos no governo. Só as maiorias conjunturais é que mudam...

Dezembro.2005

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