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setembro 30, 2006

Improviso com bolinha encarnada à direita alta...*

misterio2.jpg

Fecho os olhos
para não me ver
abro os óculos.

Ademar
30.09.2006

* Este improviso não deve ser visto por menores de 18 anos. Fotografia de autor(a) não identificado(a).

O desejo para prosa e poesia...

misterio1.jpg

Podias ser tu. Podias ser... ninguém. Uma silhueta é apenas uma silhueta. Uma sombra que passeia diante do desejo. E que o desejo raramente alcança. O desejo nasceu órfão de pai e de mãe...

Ou...

Podias ser tu
podias ser... ninguém
uma silhueta
uma silhueta apenas
sombra passeando diante de um desejo
que raramente te alcança
sei-me por ti
órfão de pai e de mãe...

Ademar
30.09.2006

Improviso sobre a confiança...

Confiei-te provavelmente o que não devia
a confiança
há quem viva debaixo do palco
como os ratos
há quem viva debaixo de si
confiei-te a ilusão da verdade
e tu desiludiste-te
a mentira destrói apenas quem a transporta.

Ademar
30.09.2006

Antologia poética (137)...

Improviso sob a forma de algemas...

Confesso que não sei
o que é ir preso
mas já experimentei
todos os estados de prisão
há algemas
que nos prendem por dentro
a berços imaginários.

Ademar
09.11.2005

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Antologia poética (136)...

Improviso sobre uma tela de Guilhermina Suggia...

Guilhermina_Suggia.jpg

Há telas que não passam de espelhos
como essa da Tate Gallery
interpretarias talvez
a Suite para Violoncelo nº4
de Johann Sebastian Bach
ou segurarias apenas entre as coxas
o instrumento erecto sobre o espigão
o arco suspenso sobre as cordas
naquela pose altiva de amante
que os braços prolongam
em direcção ao desejo ambíguo do pintor
violoncelavas-te.

Ademar
03.11.2005

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Sexo! (diz ela)...

Entrou-me pelo gabinete com passo decidido e a fogueira da delação no olhar: "Professor Ademar: estão uns meninos nos computadores a ver sexo!..." Como faço sempre nestas circunstâncias, fingi, para ganhar tempo, que não tinha percebido muito bem o sentido da observação e pedi-lhe que repetisse. Fê-lo exactamente nos mesmos termos: "Estão uns meninos nos computadores a ver sexo!". E ficou à espera da minha reacção. Levantei-me da cadeira e pedi-lhe que me conduzisse ao local do crime. Atalhou imediatamente que não valia a pena, porque eles já tinham fugido. Para não a frustrar, pedi-lhe que me dissesse quem eram os meninos. Ela pôs um ar muito zangado e respondeu-me: "Acha que eu sou queixinhas? Só quis que soubesse que eles estavam a ver sexo. Mas não lhe vou dizer quem eram." E saiu porta fora, tão resolutamente como entrara.
O sexo, na adolescência, é um excelente pretexto para o jogo do gato e do rato...

Novembro.2005

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Antologia poética (135)...

Improviso crepuscular...

Um whisky talvez no fundo de um copo transparente
que não discute marca nem procedência
um cigarro por queimar
um daqueles que matam
entre a esterilidade e a disfunção eréctil
o fumo do clarinete
no horizonte do jazz
e a memória do bailado das palavras
na voz incendiada do Fernando Alves
ele escreveria incendiária
há um sopro de poesia selvagem
nesta trôpega desordem dos dias
que caminham para o crepúsculo
hoje já não espero mais notícias de Bogotá
senão pela posta-restante
abrirei o livro esquecido de mim
numa página qualquer
e retomarei o enredo
exactamente no ponto em que
a vírgula me perdera.

Ademar
11.11.2005

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Poetas cantantes...

cd8117.JPG

Em bom rigor, não é galego, porque nasceu no antiquíssimo reino de Leão, mas sempre associei a sua fala tão próxima da nossa à Galiza, até porque o primeiro vinil que comprei de Amancio Prada (ainda nos anos setenta) era um tributo à grande poetisa galega Rosalía de Castro.
Amancio Prada é, de facto, um cantor de poetas, poetas de todas as idades. Neste cd, que vos recomendo, ele canta Cunqueiro, Lorca e García Calvo, o extraordinário García Calvo que foi quase tudo na vida: poeta, dramaturgo, filólogo, filósofo, académico...
Retirei-o ontem, por acaso, da estante dos discos esquecidos e voltei a apaixonar-me por ele. Há amores que são e nos fazem eternos...

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Antologia poética (134)...

Improviso em forma de nocturno...

Há quem durma fora das noites
e desperte apenas para dentro
sei de janelas que não abrem
para horizonte algum
entram e saem por todas as manhãs.

Ademar
08.11.2005

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Antologia poética (133)...

Improviso sobre a infância...

Excedo-me de brinquedos que já não brincam
mas ainda me acrianço
quando voo as noites em pensamentos
que sonham
a infância é apenas
este tempo de recreio interior
um pátio abrigado um quarto longínquo
que já nem a memória habita
onde solitariamente
continuo a coleccionar palavras
como feitiços
nascem-me assim os poemas.

Ademar
08.11.2005

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Frases...

Vamo-nos embriagando com frases, mais ou menos feitas (ou refeitas). O problema é que nós já existíamos antes das frases e existiremos sempre (enquanto existirmos) depois delas...
Frequentemente, as frases distraem-nos da vida...

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setembro 29, 2006

Improviso para algemas ou corda de sisal...

Para que te servem os pulsos
perguntavas
passeei a metáfora
para segurar as mãos
para prolongar as mãos
o óbvio
multiplica a realidade
seguro-me
no que me prolonga
prolongo-me
no que me segura
sobra a metáfora
tu.

Ademar
29.09.2006

Além rio...

rio? está bem,
deixa-te ser mar
importa nada todas as correntes
e todos os cadáveres jovens que trago
uma profundidade enganadora
de espelho que dança tudo o que vê
serás sempre o destino do meu nascimento
depois, quando já nada se distingue,
é isso a morte?
não haver margens
em sítios com nome
não poder extravasar
e tocar mais mundo
para depois voltar
é isso a morte,
ser impossivelmente mais
do que comporto?

Ana Saraiva

Contrartes...

deixa escorregar a roupa e mostra os pulsos nus
corre neles o ímpeto que não deixa dormir
recebem os lábios
que pousam
perdidos
água que lambe a sede
pão que enche de fome
despem-se as horas devagar
na pele que estremece
sangue que chama
terra que se humedece
toma-se o corpo da vertigem divina
todos os deuses são convocados
e as mãos abrem-se
deixam sair todos os segredos
dormiam à flor da pele
agora,
comprazem-se no calor do mundo

Ana Saraiva

Descaminhos...

Tenho pena das pessoas que, mudando de ideias e de convicções, mudam simultaneamente de sensibilidade política e social, sobretudo daquelas que, com a idade, passam da esquerda para a direita (estou a lembrar-me, por exemplo, de um João Carlos Espada ou de uma Zita Seabra). As ideias e as convicções são voláteis e fungíveis e têm, em nós, cronologia: a sensibilidade envolve todas as inteligências do corpo. Quem muda de sensibilidade é como se mudasse de corpo e como se negasse ou travestisse uma parte importante de si. Deve ser muito doloroso fazer esse caminho. Uma dor, ademais, que eu não respeito...

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Viver não custa...

Tomei hoje uma decisão de inequívoca amplitude patriótica: vou fundar-me, quero dizer, criar uma Fundação. A designação (Fundação Ademar Santos) poderá parecer-vos algo narcísica, mas a verdade, verdadinha é que me limito a seguir o exemplo de Calouste Gulbenkian, Cupertino Miranda, António de Almeida, Eugénio de Andrade, Mário Soares, António Champalimaud, meus ilustres predecessores e inspiradores. Não sei ainda que património legarei à Fundação, mas estou tranquilo relativamente ao futuro; posso garantir-vos que o financiamento dos projectos e das actividades, através de generosas subvenções estatais, está garantido (os meus amigos no governo já me felicitaram pelo patriotismo fundacional). E há-de ainda sobrar algum para o Presidente do Conselho de Administração, que, naturalmente, serei eu.
Viver, meus caros leitores, não custa...

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Antologia poética (132)...

Improviso quase musical...

Entre harpas e cítaras
marés vagarosas
a tua voz ondula
fico à espera do movimento das águas
como se nelas devesses ter escrito
a partitura de um destino qualquer
enquanto afogo o olhar no horizonte
dos abismos que naufragas
braço a braço perna a perna
e canso-me de adiar no teu corpo
a harmonia.

Ademar
14.11.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Embaraços...

Talvez já vos tenha acontecido, entrardes no carro errado. A mim, acontece-me com alguma frequência (sobretudo, em postos de abastecimento). Ontem, por exemplo. Estava tão distraído com os títulos do Público que acabara de comprar na loja de conveniência que nem dei conta de que estava a entrar num carro que não era o meu. Continuei a ler, até que percebi que alguém queria entrar. Era o condutor do automóvel que eu invadira. Sorte a minha: ele tinha um ar simpático e compreensivo. Nem tive de explicar; ele limitou-se a perguntar, com um sorriso misericordioso, se eu não me importava de sair, para poder continuar viagem. O meu embaraço deve ter sido histórico. Olhei em volta e concluí, numa fracção de segundos, que, uma vez mais, entrara num carro que não me pertencia. Saí, desfiz-me em desculpas e afastei-me. Pergunto-me se será sintoma de genialidade (tardia) ou de Alzheimer...

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Dicionário das palavras que eu amo (42)...

FAMA - Durante muitos milénios, a FAMA foi póstuma. A guerra e a morte faziam a FAMA de muito poucos e numa área territorial muito restrita.Depois, a FAMA começou a confundir-se com a história. Só muito mais tarde, com a imprensa e a circulação da informação, a FAMA deixou de ser apenas póstuma. Hoje, com a globalização instantânea da informação, até um nascituro ou um recém-nascido é famoso. A televisão garante a FAMA a qualquer irrelevância. Por vezes, imagino-me regressado a uma idade sem livros, sem jornais, sem televisão, sem rádio, sem internet. Como viveríamos, se o nosso conhecimento não fosse além dos horizontes que os nossos olhos alcançassem?... De vez em quando, pelo menos, deveríamos, higienicamente, fazer esse exercício, para aprendermos a viver connosco e com aqueles que nos rodeiam.

INTIMIDADE - Concordo absolutamente com Borges: "Não aconselho ninguém a ser famoso; o melhor é ser secreto". O gozo da INTIMIDADE reclama discrição e pudor. É preciso entrarmos, silenciosamente, em nós para nos darmos conta. A exuberância das janelas e dos espelhos distrai-nos e diminui-nos.

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setembro 28, 2006

Antologia poética (131)...

Improviso sobre uma condição...

Confesso que errei
errei por todos os enganos e altares
a que me deixei conduzir
errei na crença estúpida
de que há igrejas humildes
sem deuses e sem cultos
e que há mestres que são messias
e messias que são mestres
errei no caminho da pregação
e nas suas margens também
e errei a medida da utopia
alimentando desmedidamente o mito devorador
não discuti a história
e os seus labirintos
e fui ingénuo mil vezes ingénuo
como só pode ser
quem se dilui na paixão embriagadora
errei talvez o tempo
e a condição.

Ademar
22.11.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Opus Dei...

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Sobre a Opus Dei, escrevia, em 1967, o seu fundador, Josemaria Escrivá de Balaguer:

"Somos uma pequena percentagem de sacerdotes, que exerceram antes uma profissão laical; um grande número de sacerdotes seculares de muitas dioceses do mundo (...); uma multidão de homens e mulheres - de várias nacionalidades, línguas e raças - que vivem do seu trabalho profissional, casados a maior parte, alguns solteiros, que participam com os seus concidadãos do dever grave de tornar mais humana e mais justa a sociedade temporal."
Salvo raríssimas perversões, não há instituição eclesial, política, social, cultural ou de qualquer outra natureza que não se proponha e não ostente os mais elevados propósitos civilizacionais. A Opus Dei não é excepção. Os seus membros aspiram, aliás modestamente, à santidade quotidiana. "O apostolado essencial da Opus Dei (escrevia ainda o seu fundador) é o que cada sócio realiza individualmente no lugar em que trabalha, com a sua família, entre os seus amigos. Uma actividade que não chama a atenção, que não é fácil de traduzir em estatísticas, mas que produz frutos de santidade em milhares de almas, que vão seguindo Cristo, silenciosa e eficazmente, no meio da actividade profissional de todos os dias."

Seria esta, talvez, a ambição genuína de Escrivá de Balaguer, que o franquismo e o ultramontanismo católico alimentaram, mas a Opus Dei que hoje conhecemos é uma coisa diversa, uma espécie de seita (mais ou menos secreta) que, através do mutualismo da influência e do compadrio, procura colocar os seus "servos" em posições estratégicas de domínio económico e social, para daí tirar vantagens políticas e catequéticas.

Raramente, os servidores da Opus Dei reconhecem, publicamente, a sua condição. Frequentam ou partilham discretamente as mesmas casas (algumas da própria seita), reúnem-se periodicamente, protegem-se, apoiam-se. Organizam-se e funcionam numa lógica de sociedade secreta, um pouco à imagem e semelhança das lojas maçónicas.

Aprendi com o tempo a identificar a espécie. Em geral, os servidores da Opus Dei têm uma vida muito reservada e esquiva, pouco dada a mundanices e exibições sociais. É muito pouco provável, por isso, que encontremos "militantes" da Obra nas revistas cor-de-rosa. Quando ocupam posições de algum destaque, dentro ou fora do Estado, é certo e sabido que hão-de procurar empregar e promover os "seus", reforçando assim o seu poder. Conheço algumas teias da Opus Dei e sei muito bem do que elas, grupalmente, são capazes...

Há uma forma relativamente simples de detectar a presença de um seguidor de Escrivá de Balaguer. Quando o leitor tiver dificuldade em perceber como é que alguém que não se distingue pela inteligência, nem pela competência profissional, conseguiu ascender ao exercício de um cargo de alguma relevância, o mais provável é que esteja perante um membro da Opus Dei.

Já conheci um ministro da educação (não vou dizer o nome) completamente destituído para a função. Só percebi por que chegara a ministro quando descobri que era membro da Opus Dei. Já conheci uma directora de serviço que só fazia disparates e se manteve, impunemente, no exercício do cargo durante vários anos. Vim depois a saber que era da Opus Dei.

Hoje, já nem concedo o benefício da dúvida. Quando vejo no governo ou na administração, pública ou privada, um incompetente poderoso e aparentemente inamovível, já sei que é da Opus Dei.

Vá por mim...

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O olhar no lugar da ausência...

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Gosto, especialmente, deste óleo sobre tela de "Dante" Gabriel Rossetti (1828-1882): The Day Dream (1880). Há, nele, uma intensidade que prende o olhar, uma quase perfeição de traços e tonalidades. A mulher confunde-se, magicamente, com a natureza e a natureza confunde-se, magicamente, com a mulher. Não conheço a poesia de Rossetti, mas este quadro convida a uma fulgurância de metáforas. Se tivesse de o rimar com um trecho musical, rimá-lo-ia talvez com o Adagio em Si menor (K 540), de Mozart. Fazei a experiência e vereis. Esta mulher não merece menos...

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Coragem...

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Há muitos anos que me venho insurgindo contra a presença de símbolos religiosos nas escolas públicas portuguesas. Já vi de tudo, para além dos tenebrosos crucifixos - inclusivamente, altares à Senhora de Fátima e a outras santinhas, com muitas velinhas em volta, que diariamente os alunos tinham a obrigação de iluminar. No Portugal rural e arcaico, ainda há muitas escolas públicas que não passam de sucursais da igreja paroquial mais próxima.
De acordo com uma informação veiculada ontem pelo DN, parece que a Direcção Regional de Educação do Norte decidiu, finalmente, fazer cumprir a Constituição, ordenando a retirada dos símbolos religiosos das escolas. Mais vale tarde do que nunca...
Claro que, na maior parte dos casos, os símbolos religiosos permanecerão nas escolas, porque os professores e os pais, incentivados pela padralhada, não acatarão a instrução ministerial. Tem sido sempre assim e continuará a ser. E o Ministério não reagirá, porque não quer comprar uma guerra religiosa com as "populações". Para o bem e para o mal, estamos em Portugal.
Mas releve-se, pelo menos, a coragem de quem assinou os ofícios clarificadores...

Novembro.2005

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Não dispareis sobre o pianista adolescente!...

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Domingos António será um pianista promissor. Pianistas promissores é o que há mais no planeta (até em Portugal). E ainda bem. Antes pianista do que vigarista...
Mas pianistas geniais, compositores ou não, são raros. Liszt, Chopin e Rachmaninoff, segundo todos os relatos, pertenceram à espécie. Rubinstein, Paderewski, Horowitz e Richter, também...
Dos vivos, prefiro não falar...
Domingos António supõe-se, narcisicamente, um predestinado. Ouvi-o hoje no "Pessoal e Transmissível", da FSF, não ao piano, mas ao blá-blá, e vomitei a presunção. O rapazinho devia ter um agente ou um tutor que o vetasse ao falatório, ainda por cima, numa língua que ele mal domina. Assaz modestamente, ele acha-se um "artista" genial e não tem dúvidas de que os terráqueos lhe estenderão, rapidamente, um tapete para a eternidade. Nasceu e viveu nos States, mas não tem saudades. Estudou na Rússia, mas abomina a Rússia e jura que jamais voltará. Vive em Portugal, um "país em desagregação", diz ele, e sonha emigrar para Espanha ou para parte nenhuma, onde, talvez, o façam príncipe ou rei.
Até pode ser que a genialidade lhe tenha batido à porta. Mas podia fazer um pouco mais por ela, antes de condenar às trevas os contemporâneos e passar tão diligentemente por idiota. É que há presunções nascidas no umbigo que piscam o olho ao diagnóstico da esquizofrenia...
E nem todos os esquizofrénicos alcançam, ao piano, a eternidade...

Novembro.2005

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Antologia poética (130)...

Improviso helénico...

De nós não sobra o que vemos
que os olhos velozes
não nos encomendam à eternidade
de nós sobram-nos apenas
as incertezas do que projectamos.

Ademar
28.11.2005

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Antologia poética (129)...

Improviso sobre as lágrimas de Marc Zoro... *

Olha-me bem na pele
sou da mesma cor de todos os olhos
eles é que não ouvem.

Ademar
29.11.2005

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* Jogava-se o Messina-Inter. Aos 65 minutos, o jogador costa-marfinense do Messina, Marc Zoro, farto de ser insultado e humilhado por adeptos do Inter, pega na bola e faz menção de abandonar o campo. Colegas das duas equipas acarinham-no e tentam demovê-lo. A fronteira entre a civilização e a barbárie continua a ser uma linha muito ténue na consciência e no carácter de todos nós. Não há lugar a distracções...

Direitos...


Os terroristas, toda a gente sabe, não têm direitos.
Por que não encarcerá-los, torturá-los e até matá-los discretamente?
Os noviços, todos as patentes sabem, não têm direitos.
Por que não praxá-los e humilhá-los?
Os pretos, todos os brancos sabem, não têm direitos.
Por que não insultá-los e espezinhá-los?
O poder alimenta-se de ser exercido.
A violência consagra-o.

Novembro.2005

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Antologia poética (128)...

Improviso sobre a impotência interior dos políticos...

A poesia
é a liturgia menos narcísica do eu
os políticos são poetas infinitamente frustrados
falam para fora simplesmente
porque o espelho lhes recusa o diálogo interior
quem tem palavras para se dizer
não precisa de auditórios.

Ademar
29.11.2005

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setembro 27, 2006

Antologia poética (127)...

Improviso sobre a ausência...

Quando as palavras começam a pesar-me
ausento-me delas
emigro em mim
e viajo noutras linguagens.

Ademar
05.10.2005

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Tributo a Piazzolla...

Piazzolla_Verano_Porte_a.jpg

Hoje regressei a Piazzolla, não ao bandoneon, mas ao violino de Piazzolla. A primeira vez, ainda criança ou adolescente, que contactei com o tango... foi pela voz de Carlos Gardel, que o meu pai ouvia solitariamente noites a fio, transportando-se não sei a que misteriosos passados. Nunca, nessa época, imaginei que o tango se dançasse - descobri-o muito mais tarde. O tango sempre foi para mim uma espécie de fado estranho ou estrangeiro. Desconhecia então que seriam vagamente primos...
Piazzolla reconciliou-me com o tango. Ninguém, até hoje, conseguiu reconciliar-me com o fado. Há uma parte de Portugal que eu sinto que não me pertence, que não me respeita...

Outubro.2005

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O Portugal desprezível (em dois andamentos)...

1
Cada vez compreendo melhor as pessoas que se refugiam nos livros e evitam o contágio da mesquinhez humana. A espécie a que pertencemos, de facto, não se recomenda. O egoísmo dos pequenos interesses comanda tudo. Queremos lá saber dos outros, dos direitos e das legítimas expectativas dos outros...O que importa é o proveito ou a vantagem que, individualmente, podemos retirar de cada circunstância. Somos sempre o centro do universo e o universo tem, por força, de girar à nossa volta, o Estado tem de nos dar o emprego ou o benefício a que nos achamos com direito. Quando o amiguismo não funciona, funciona a vingança da calúnia. Aqueles que, neste país, aspiram a um suplemento, mínimo que seja, de racionalidade, de ética e de decência têm, permanentemente, a ladrar-lhes aos calcanhares os que julgam que a medida do lixo é a medida de tudo e de todos. Devíamos viver na lama ou no pântano, para que ninguém se pudesse elevar acima do horizone da chafurdice. Seríamos todos desprezíveis, mas iguais na imundície. Ninguém se queixaria, ninguém reclamaria...
Mais insulto, menos insulto, mais canalhice, menos canalhice... já não tenho idade para dar o peditório da sordidez. Eles e elas, por mais que teimem, hão-de desistir ou cansar...

2
A sociedade, em Portugal, está dividida entre os "nossos" e os "outros". Os "nossos" são todos aqueles que temos o dever de favorecer: parentes, amigos, colegas, camaradas, companheiros de igreja ou de seita. As empresas públicas, a administração central, as câmaras municipais, até a banca estão a abarrotar dos "nossos". São tantos que pouco ou nada sobra para os "outros", os eternos deserdados da "cunha" e do compadrio. Faça-se uma auditoria no país e tire-se o retrato. A situação seria, certamente, ainda mais escandalosa e deprimente do que a imaginamos...
Era assim antes de Abril de 1974...e continua a ser.

Outubro.2005

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Antologia poética (126)...

Improviso sobre uma silhueta...

De vez em quando
imerjo no silêncio
e caverno-me de murmúrios
a noite é mais
do que este labirinto de vozes e luzes
em que apago
desabrigo-me nela
mergulhando discretamente
na invisibilidade do esquecimento.

Ademar
18.10.2005

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Antologia poética (125)...

Improviso para um poeta que não chegou a presidente...

Uma fresta um postigo uma janela
para uma varanda ampla
ou mesmo um terraço altivo
e o horizonte sempre na linha dos olhos
e da palavra
nesta masmorra cínica e ensimesmada
a que ainda chamamos Portugal
falta uma voz que nos areje
e respire por dentro
uma voz arrebatadora
antes que asfixiemos de vez no silêncio
de não acreditarmos em mais nada
e ninguém.

Ademar
20.10.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (124)...

Improviso para um Amigo....

Há quem assine por baixo
estando sempre por cima
do que assina
a comunhão que exalta
eleva-nos.

Ademar
23.10.2005

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Joaquim Fidalgo...

fidalgo.jpg
Conhecemo-nos no Expresso nos anos oitenta. Eu abandonei o jornalismo, em 84, para me dedicar exclusivamente ao ensino e à escrita: ele abandonaria o Expresso, pouco tempo depois, para fundar, com outros, o Público. Mais tarde, deixaria o jornalismo para se dedicar também ao ensino. Continua, porém, a colaborar com o Público, onde assina, todas as quartas-feiras, uma crónica do tamanho de uma coluna, intitulada genericamente "Crer para ver" . O Joaquim Fidalgo é um aristocrata da acutilância analítica. As suas crónicas raramente são chatas ou pretensiosas. Vai direito ao assunto, sem preliminares redundantes, e dispara certeiramente. Não me lembro de jamais ter lido alguma crónica do Joaquim que me desagradasse ou ferisse a inteligência (e já lá vão uns anitos). Não sei se é o cronista do Público mais lido, mas é, seguramente, ou devia ser, um dos mais respeitados e apreciados pelos leitores. É, pelo menos, um dos meus cronistas predilectos, no Público e fora dele. Por isso, destaco-o aqui e recomendo-o. Não há muitos como ele...

setembro 26, 2006

Lonjuras...

perto
é a condição
absolutamente não-paradoxal
da tua ausência que não se faz presença
não
não
é outra coisa
absolutamente minha
em mim não-gramatical
de um perto que é a condição
da tua ausência
e eu tiro-te tudo
até ao final da existência
ponho-te ser
e és
e eu estou perto
em mim

Ana Saraiva

Uma voz...

susanabaca1.jpg

Há vozes e músicas assim. Que apetece ouvir aternamente. Se não conheceis, procurai-a.

Heces

Esta tarde llueve, como nunca; y no
tengo ganas de vivir, corazón.
esta tarde es dulce. por qué no ha de ser?
viste gracia y pena; viste de mujer.
esta tarde en lima llueve. y yo recuerdo
las cavernas crueles de mi ingratitud;
mi bloque de hielo sobre su amapola,
más fuerte que su "no seas así!"
mis violentas flores negras, y bárbara
y enorme pedrada; y el trecho glacial.
y pondrá el silencio de su dignidad
con óleos quemantes el punto final.
por eso esta tarde, como nunca, voy
con este búho, con este corazón.
y otras pasan; y viéndome tan triste;
toman un poquito de ti
en la abrupta arruga de mi hondo dolor
esta tarde llueve, llueve mucho. ¡y no
tengo ganas de vivir, corazón!

Susana Baca

Antologia poética (124)...

Ainda no rasto de Franz Kafka...

Criança,
perguntavam-me se acreditava em Deus,
um só Deus
(assim maiusculizado).
Eu pensava para mim que não,
mas respondia que sim...
(Emprestava a voz
ao que todos esperavam que eu dissesse.)
Cidadão,
perguntam-me agora à porta da justiça dos homens
se juro dizer a Verdade,
toda a Verdade
(assim maiusculizada).
Eu penso para mim que a verdade tem muitas narrativas,
mas respondo que sim...
(Continuo a emprestar a voz
ao que todos esperam que eu diga.)
Nas igrejas e nos tribunais,
o sagrado não convoca a liberdade.
Profano-me para entrar.

Ademar
24.10.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (123)...

Improviso melancólico para um candidato-rei...

No Titanic (diz-se)
também foi assim
a música fingia o movimento
enganando a última verdade
de que se afundavam apenas.

Ademar
25.10.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

A primeira bofetada pedagógica...

O meu filho Henrique (7 anos) aprendeu há dias para que serve a escola: levou, pedagogicamente, uma bofetada. A primeira na vida. Espero que tenho sido a última.
O "professor" que o esbofeteou não apreciou que ele tivesse olhado para trás quando era suposto olhar para a frente. Não é o "professor" regular da turma: serve, ambulatoriamente, aos "apoios educativos" e deve ter alguma deficiência de carácter, porque só um deficiente de carácter bate assim numa criança.
Confesso que me repugna o método. Garanto, por isso, que o agressor há-de castigar a mão canalha que lhe escapou em direcção à cara do meu filho. Para que nunca mais volte a fugir-lhe.

Outubro.2005

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Antologia poética (122)...

Improviso em forma de azul sobre o kitsch à moda do porto...

Os azulejos historiados
convidam-me não sei
se ao porte do cavalo
se à pose do cavaleiro
estou dizem-me
na sala vip
da casa da música no porto
um imenso mausoléu de ausências
e imitações
e andarei eu a vida inteira
e todas as vidas que não chegarei a viver
a pagar isto às prestações
não cavalgo mais
abandono simplesmente as pernas
às escadas rolantes
e renuncio altivo ao beija-mão
é como se estivesse a ouvir-me
hei-de preferir sempre
outras alvenarias
(queria escrever azulejarias).

Ademar
27.10.2005

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Antologia poética (121)...

Improviso sobre a cegueira...

Há respostas em que entramos
pelo espelho adentro
e deixamos de nos ver
ou cegamos
há respostas
que só o silêncio alimenta.

Ademar
01.09.2005

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Silhueta de todas as manhãs...

chegas debaixo de uma chuva pequena e redonda
é quase o sol
que a noite não desfaz
nem desdiz
chego à manhã
amena
imune
amada

Ana Saraiva

Antologia poética (120)...

Improviso gramatical...

Hoje deixei-me inaugurar
por uma excentricidade
ataquei um verbo impessoal
e dominei-o
hei-de estrofar sobre o meu feito gramatical
finalmente venci a norma
fui muito mais do que eu.

Ademar
05.09.2005

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Cunhas, cunhas, cunhas...

Tenho um problema insolúvel com o país e esse problema chama-se, na linguagem que todos os portugueses entendem, cunha. Parece que é um tique socialmente congénito, de que jamais nos curaremos: quase toda a gente, em Portugal, acha que o Estado existe, em primeiríssimo lugar, para empregar os seus filhos, parentes, amigos, protegidos ou encomendados...
Abre-se um concurso e logo aparecem os abutres, os "influentes". Medem todos pela sua própria bitola e nem chegam a ficar ofendidos quando, sonoramente, os mandamos à merda. É nestas alturas que eu tenho a certeza de que a corrupção, em Portugal, está generalizada. Só pode estar. Os "influentes" acham que todas as decisões têm um preço e são determináveis por quem der mais ou tiver mais poder...
Dói-me dizer isto, mas, civicamente falando, os portugueses continuam a comportar-se, relativamente ao Estado, como negreiros e como chulos. Tenho vergonha por eles e tenho vergonha por mim. Isto não é uma nação - é uma expiação.

Setembro.2005

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Confissão melancólica...

Perguntam-me, por vezes, por que não escrevo sobre isto ou sobre aquilo. Respondo: ou porque não me apetece, ou porque entendo que não teria nada de, especialmente, interessante para dizer.
Sempre me irritaram as pessoas que têm opinião sobre tudo. Confesso com a virtuosa modéstia que fica tão bem nas fotografias: eu tenho opinião sobre quase nada. E hei-de morrer assim, à esquerda ou à direita das certezas que alimentam os altares...

Setembro.2005

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Antologia poética (119)...

Improviso sobre o sémen da palavra...

Jamais me recusei a ser engravidado
pela palavra
mas poucos e poucas
tiveram a arte e o engenho de me seduzir
violaram-me apenas
por isso hoje
com tanta descendência por aí
que já não reconheço
faço-me sempre acompanhar do preservativo
a palavra
já não há-de apanhar-me mais
desprevenido.

Ademar
07.09.2005

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Antologia poética (118)...

Improviso na forma de rasura...

Canso-me de rasurar
o excesso
estou sempre muito além
do que me autorizo
um dia
voltarei a mim
e passarei simplesmente
a dormir em paz
aspiro a ser a luz
de todas as sombras que me distraem.

Ademar
16.09.2005

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Antologia poética (117)...

Improviso sobre o tempo da amizade...

Não tenho amigos velhos
nem velhos amigos
todos os meus amigos
nasceram e morreram comigo
teremos sempre
a mesma idade.

Ademar
17.09.2005

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Antologia poética (116)...

Improviso erótico...

O teu movimento
ameaça sempre o meu desejo
enfeitiçando-o
se houvesse uma medida
para a exaltação do olhar
não te diria menos do que infinito.

Ademar
23.09.2005

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setembro 25, 2006

Improviso para gaguejar espantos...

Se eu ainda tivesse certezas
uma que fosse
diria o teu sorriso.

Ademar
25.09.2006

Antologia poética (115)...

Improviso necrológico...

Viveu de saúdes efémeras
morreu de doença prolongada.

Ademar
01.08.2005

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Antologia poética (114)...

Improviso a benefício dos afinadores...

Ofereço-me
instrumento e partitura
e fico à espera do arco
ou das mãos que me toquem
depois de eu me afinar
ninguém mais conhece
a exacta tensão das minhas cordas
sou de uma têmpera
resistente a todos os diapasões alheios
a sequência íntima da minha afinação
não vem nos manuais
interiormente
serei sempre um excesso de vozes.

Ademar
01.08.2005

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Regina Quintanilha...

advogada.jpg

14 de Novembro de 1913. O fotógrafo Vasques fixa para a posteridade o momento em que a primeira mulher a concluir o curso de direito em Portugal, Regina Quintanilha, se estreia no Tribunal da Boa-Hora (ignoro em que qualidade, porque as mulheres só passaram a poder exercer a advocacia no nosso país a partir de 1918). Alguns dias depois, a fotografia histórica (de que eu aproveitei um pormenor) faria a capa da edição de 24 de Novembro da revista Ilustração Portuguesa.
Filha da escritora Josefa Quintanilha, Regina nascera, em Bragança, em 1893 - tinha, portanto, apenas, 20 anos de idade, quando debutou no Tribunal da Boa-Hora. Mas só o simples facto de uma mulher ter conseguido, finalmente, penetrar um universo profissional que, até então, parecia destinado a monopólio dos homens - já é suficientemente admirável...
Deve notar-se que só em 1890 as raparigas tinham sido autorizadas a frequentar os liceus públicos e só em 1906 viria a ser criado o primeiro liceu feminino. Regina estudou em Bragança (incluindo, imagine-se, música!) até aos 16 anos e apenas rumou ao Porto, em 1909, para completar o secundário, ou seja, o sexto e sétimos anos do liceu. E um ano depois, já estava em condições de aceder à Universidade (que, por um triz, não lhe barrou a entrada)...
Ser mulher e ter nascido no interior mais remoto e esquecido de Portugal não impediram Regina de chegar à Universidade, de fazer em três anos o curso de direito e de continuar a aprender música (viria, ainda, a ser aluna de Viana da Mota).
Em 1913, terminada a licenciatura, Regina foi imediatamente convidada (com 20 anos!!!) para assumir as funções de reitora do Liceu Feminino, de Coimbra, que acabara de ser criado. Não aceitou: apesar de todas as dificuldades e entraves que ela sabia que a lei e os costumes lhe iriam colocar, Regina pretendia ser advogada e não abdicou da sua ambição profissional, que viria mais tarde a concretizar.
Talvez os genes, neste género de vocações, não tenham importância alguma, mas Regina da Glória Pinto de Magalhães Quintanilha de Sousa e Vasconcelos era descendente de um dos mais ilustres transmontanos de sempre: Fernão de Magalhães...
~

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Antologia poética (113)...

Improviso sobre a inveja de Marin Marais...

Não vi o filme
mas jamais escreverei como Marin Marais
as minhas palavras
não acompanham o trote dos violinos
nem a nocturna graciosidade das gambas
não corro atrás de virgens
que indolentemente me fogem
nem aspiro à tardia melancolia
das putas regeneradas
à sombra da virtude
a minha escrita é temerária
mas não escorre dos cordiformes
como mel derretido
sofro de imperfeições musicais
um pecado talvez próximo da surdez.

Ademar
02.08.2005

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Quatro meninas...

romanov.jpg

Não são quatro meninas de Velázquez, mas têm aspecto de lolitas. Em 1915, quando se ofereceram à objectiva do fotógrafo que eternizou as suas imagens, estavam a pouco mais de 3 anos de uma tragédia que poria fim às suas vidas, mas elas não sabiam. O destino, nesta altura, prometia-lhes rosas e incensos, maridos poderosos, títulos intermináveis e, porventura, janelas à medida para a iluminura da grande história. O conto de fadas, porém, procurara o cenário errado e a guerra cozinhava, laboriosamente, a desgraça destas quatro meninas...
Maria, Tatiana, Anastácia e Olga morreriam numa adega da Casa Ipatiev, em Ekaterimburgo, no dia 17 de Julho de 1918, trespassadas pelas balas de um pelotão de fuzilamento reunido à pressa durante a noite e os seus corpos seriam, seguidamente, cremados, para que deles não sobrasse rasto ou memória que os olhos retivessem.
A inocência tem sempre os dias contados...

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Antologia poética (112)...

Improviso ao jeito de Alexandre O'Neill...

Aposentei-me de mim
num banco de jardim
e rimei.

Ademar
05.08.2005

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As últimas prendas do "dia do pai"...

Sabiam que o pai estava muito doente e há já vários dias que não iam vê-lo ao hospital. Que importava? Era o dia do pai e, mesmo ignorando quando voltariam a estar com ele, inventaram e produziram na escola a "prenda" habitual. Mal elas sabiam que, nessa mesma manhã, o pai morria e já não iria poder abrir e agradecer as prendas do dia do pai.
Quando, algumas horas depois, reencontraram o pai morto, depositaram no fundo do caixão, ao lado do cadáver, as prendas (que continuavam embrulhadas) do dia do pai. Ninguém teve coragem de lhes dizer que o pai seria cremado e que as prendas... alguém as recolheria e guardaria, quando o caixão, finalmente, fosse aberto no forno crematório.
Um dia, quando forem adultas, a mãe, seguramente, devolver-lhes-á as últimas prendas do dia do pai. Provavelmente, ainda embrulhadas, como elas quiseram depositá-las no caixão.
Parece um enredo cinematográfico, mas não é. Estive hoje com as miúdas e com a mãe, que, tranquilamente, me contou a estória...
O Bruno tinha 36 anos e morreu fulminado por um cancro no pâncreas. Exactamente, como a minha mãe. Um dia, não sei há quantos anos atrás, encontraram-se nesta mesma casa. O Bruno não falava português, a minha mãe não falava francês. Sorriam apenas um para o outro. Soube hoje que falaram e se entenderam no dialecto da morte...

Agosto.2005

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Bilbao...

junkera2.jpg

Tirando o Guggenheim, Bilbao é mesmo um buraco - não deve haver, em Espanha, apesar de toda a história que a ilumina, cidade mais deprimente...
Digo, porém, e recomendo: Bilbao 00:00 h, de Kepa Junkera, é o mais eficaz antidepressivo que conheço...
Provai e dar-me-eis razão...

Agosto.2005

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Antologia poética (111)...

Improviso sobre o cansaço da memória...

Esta noite
apetece-me o esquecimento
viajar em direcção a um futuro
em que jamais me encontrarei
voar pela única fresta invisível
de ninguém estar à minha espera
e não voltar
partir assim incógnito de mim
sem malas sem mapas sem cartões de crédito
sem reservas de hotéis
sem planos de viagem
com a única companhia
da minha própria ausência
esta noite
apetece-me inventar um verbo
desamanhecer
fechar-me a porta por fora
e não atender sequer ao silêncio
não acordar outra vez com a luz
para a mesma memória de todos os dias.

Ademar
07.08.2005

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Antologia poética (110)...

Improviso para harpa e solidão...

Já me faltam cordas e afinação
vou-me sentindo um instrumento dispensável
talvez já ninguém consiga ler-me
serei talvez uma partitura indecifrável
esquisso de um projecto negado à eternidade
já não sei de mãos que me possam tocar
já não sei de batutas que me possam reger
terei sido harpa ou lira
cítara ou saltério
hoje confundo-me com a consola
e já nem me confio
como caixa de ressonância.

Ademar
08.08.2005

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Antologia poética (109)...

Improviso em forma de exílio...

Não tenho pátria
não tenho bairro
hei-de morrer
exilado
entre berços antigos
na mesma ausência de que nasci.

Ademar
09.08.2005

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Antologia poética (108)...

Improviso marítimo...

Talvez estejas ainda para nascer
aquela que prometia silêncios de rosas
em madrigais que pareciam roubados a Eugénio
e que passou muito ao largo desta ilha
sem janelas para o mar
vaivém esquecido
de que já ninguém esperava o regresso
senão talvez em ondas de espuma
vagando na direcção contrária
do pensamento.

Ademar
10.08.2005

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Diário em forma de silêncio (47)...

Quem se deixou, primeiro, fulminar? Quem caíu, primeiro, no seu próprio abismo? Tu, cavalheiro andante, que me deste o lugar, ou eu, que sorri (disseste-me depois) tão descaradamente para ti? Sim, confesso: fiquei curiosa. A tua gentileza parecia cinematográfica, quase a preto-e-branco, pré-histórica. Se bem te lembras, eu hesitei. Não sei quantas vezes. Tu, insistentemente, a ofereceres-me o lugar e eu a fazer trapézio, num pudor que me queimava as entranhas. Aquele era o único assento disponível e tu indicavas-me com o olhar (percebi mais tarde) uma espécie de destino. Algo em mim segredava que o teu convite era um laço. Naquele fim de tarde, tu sabes, eu deixei-me enlaçar. Digo: eu ofereci-me, descaradamente, ao teu laço. Sorrindo...

C.A.

setembro 24, 2006

Antologia poética (107)...

Improviso para uma leitora que esbarra na "abstracção" da minha poesia...

Quando começo a viagem do poema
desconstruo-me sempre
nunca sei que sentidos me esperam
na esquina das palavras
vou por aí
desvendando-me
talvez encontre algures um leitor
que me convide para um copo
no bar além da tal esquina
que nunca antes atravessara
ou talvez regresse sozinho ao espelho
como se nem tivesse chegado a partir
a viagem do poema
é sempre a incógnita
dos olhares que me acompanham
há dias em que saio de casa
e nem os cegos dão por mim.

Ademar
10.08.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

A verdade, por extenso...


"A realidade é a nossa verdade", diz um jovem publicista (cujo nome me escapou) a Bárbara Guimarães (esposa oficial da nação socialista), que visivelmente exulta com a extraordinária proclamação.
A facilidade com que certos jovens, elevados à condição de estrelas mediáticas, sobranceiramente, desdenham da sabedoria acumulada pela espécie humana em mais de dois milénios de esforçada filosofia - é algo que nunca deixará de me divertir.
Seja então a realidade a verdade deles. Que lhes faça muito bom proveito...

Agosto.2005

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Antologia poética (106)...

Improviso sobre o estado de ausência...

Só os arranhões me conduzem
à poesia
a perfeição
intemporaliza-me.

Ademar
16.08.2005

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Silêncios...

Perguntas-me mesmo o que proponho? Respondo-te assim: o mistério. A quase redundância do mistério. Dois silêncios que se cruzam, que começam a dialogar, estranhando-se, que gemem e que gritam. E que calam. E que sofrem. E que se prolongam muito para além do horizonte das grades mais próximas...
Dois silêncios algemados num quarto talvez escuro, iluminado apenas pelas luzes cósmicas da noite. Da infância. O teu corpo. O meu corpo. Duas interrogações circunstantes à procura de nenhuma resposta. No fim, apenas um agradecimento. Obrigado por teres vindo. Obrigada, eu.

Improviso para ouvir as marés...

Para não pesar de mais
eu tento sempre viajar com o mínimo indispensável
de mim
nos meus mastros
desfraldo apenas o vento.

Ademar
24.09.2006

Antologia poética (106)...

Improviso para um filho...

Habituei-me a ser conjugado por ti
dás-me muito mais do que a eternidade
nas palavras e nos sons que recuperas
para a noite
regressarei sempre contigo
depois de todas as madrugadas
que inventas
não sei se foi deus
mas tu existes.

Ademar
19.08.2005

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Antologia poética (105)...

Improviso sobre a saudade que partilho comigo...

Divido as mãos
por quem me alimenta
retalho-me em sentimentos
que raramente escrevo
reúno-me no fim de cada dia
em palavras como estas
para saber que existo
fora de mim
em todos aqueles
que me pensam.

Ademar
22.08.2005

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Antologia poética (104)...

Improviso umbilical...

Cresci por dentro do cordão umbilical
talvez por isso sofra da vertigem
de querer regressar sempre ao princípio
de mim.

Ademar
23.08.2005

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Amanhã...

Amanhã, o país continuará a arder e nós, ao espelho, com ele.
Amanhã, o candidato continuará a fingir que reflecte, cocegando a barriguinha.
Amanhã, continuarão a morrer as crianças do costume.
Amanhã, o presidente terá vontade de condecorar o homem do piano.
Amanhã, seremos todos felizes, até mesmo o Eduardinho.
E a música continuará a tocar por dentro da gente
Entre um corneto e uma banhoca.
Amanhã, continuaremos de férias.
Amanhã, aquela trupe de bombeiros voluntários continuará, no semáforo de todas as manhãs, a estender a rifa e o sorriso à caridade.
E eu terei vontade de lhes dizer, uma vez mais,
puta que vos pariu, ide acudir aos infernos!
Amanhã, continuarei a ficar por aqui e por ali
e a ser um bom rapaz.
Talvez, um pouco tímido até, como na canção...
Amanhã, como diria Keynes,
estaremos todos mortos.

23.Agosto.2005

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Antologia poética (103)...

Improviso para redizer "cretcheu"...

dikorpu.jpg

Imcompreensivelmente
vais dizer que é gralha
nunca bo levam a sério
mesmo quando nos embalam
numa língua de trapos
entre violinos e violoncelos emigrados
tenho céus distintos dos teus
no horizonte dos olhos
mas respiro o mesmo calor
dos enigmas
esse teu jeito tão antigo de dizer
cretcheu...

Ademar
24.08.2005

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Como náufragos em garrafas...

O que me diverte na actividade bloguística é saber-me lido por gente que eu não conheço, que, provavelmente, jamais conhecerei e que nunca dirá que me lê. Os náufragos da ficção romântica sempre despacharam mensagens mais ou menos desesperadas ou enigmáticas em garrafas vagabundas (nunca percebi por que naufragavam com garrafas). A blogosfera é isto: um imenso oceano de garrafas circulantes que procuram e encontram um leitor. Um único leitor, ainda que ocasional, é suficiente para dar sentido a um blogue...

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Pela livre circulação de pastores entre rebanhos...

papa.jpg

Manchete da edição de ontem do Inimigo Público. É uma pena que a realidade, neste caso, não acompanhe a ficção. Os pastores deviam circular livremente entre os rebanhos. Talvez a carneirada tresmalhasse. E o planeta ficasse um pouco mais respirável. Há deuses a menos para tão sanguinária concorrência...

Portas...

consinto que venhas
e que entres
mas desta vez, desculpa
terás de tirar um pouco menos do que roupa
na verdade, seria melhor
que já tivesses vindo
e que assim, agora
pudesse dormir nos braços das memórias
que arrancarei, mas apenas da tua pele
(guarda bem o que lhe está no fundo)
para depois partir no meu longo passeio
pela beleza de tudo o que encerrei
ainda vivo
e ainda quente

Ana Saraiva

setembro 23, 2006

Antologia poética (102)...

Improviso em forma de resposta...

Colecciono sombras
nem todas amáveis
acho-me por vezes
um deserto de luzes
ilumino-me para fora
escureço dentro.

Ademar
25.08.2005

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O perigo dos pareceres alcoolizados...

De acordo com a última edição da Grande Reportagem, um assessor (principal) da Ministra da Educação terá sido apanhado a conduzir com uma taxa de alcoolémia cinco vezes superior à máxima permitida por lei. Como a embriaguez não favorece, geralmente, os comportamentos mais avisados, o dito assessor (que a Grande Reportagem identifica) terá reagido mal à abordagem dos agentes da PSP e, pretendendo porventura coagi-los e amedrontá-los, exibiu, de imediato, o cartão de funcionário do governo. Foi detido e apresentado ao juiz de turno.
Para evitar que certos pareceres tresandem a álcool, eu sugeriria à Ministra da Educação que começasse a controlar a taxa de alcoolémia dos seus assessores, não apenas à saída do Ministério, mas sobretudo à entrada...

Agosto.2005

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Cunhas...

Em Portugal, é sempre assim: abre-se um concurso e chovem as cunhas.
A minha regra é: candidato "cunhado", candidato "banido".
Só posso respeitar os candidatos que acreditam em si próprios e acreditam na seriedade dos outros...


Agosto.2005

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Antologia poética (101)...

Improviso de leitor distraído...

Há páginas que não me fazem voltar atrás
exactamente como na vida.

Ademar
29.08.2005

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Antologia poética (100)...

Improviso sobre viagens impossíveis...

Há viagens que jamais faremos
desembarcamos em portos e aeroportos
que nos devolvem sempre aos lugares de origem
há destinos impossíveis
que requerem muito mais do que
visto e passaporte
se eu tivesse a omnisciência dos criadores de rotas
visitava-te.

Ademar
30.08.2005

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Diário em forma de silêncio (46)...

O impossível deve escrever-se, provavelmente, com os dedos das tuas mãos, que chovem sobre mim, como lágrimas tropicais. E que me tocam, num estranho e inesperado movimento de geminação com os meus. Há, agora, dedos a mais neste corpo que já desaprendera de ser harpa. Tento espreitar a partitura, mas já não consigo abrir os olhos. Deve ser do sono. Deve ser do sonho…

C.A.

Torna-viagem...

viladerei.jpg

A notícia é da edição de hoje do Sol. Comentários para quê? Talvez a Globo aproveite agora o enredo para mais uma novela...

Uma "síntese" iluminada...

Uma professora verdadeiramente "primária" escreveu na "síntese final" do registo de avaliação de um aluno: "aprende com facilidade, mas também se esquece com facilidade".
Eis todo um tratado de psicopedagogia...

Julho.2005

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Antologia poética (99)...

Improviso quase religioso...

Se me alcançasse na divindade
dir-te-ia
come do meu corpo
bebe do meu sangue
ou o contrário
que aos deuses tudo é permitido
estreitado à condição humana
convido-me simplesmente à antropofagia
como-te e bebo-te.

Ademar
04.07.2005

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Antologia poética (98)...

Improviso epidérmico...

Há dias em que cheiro melhor
quando a morte se ausenta de mim
devolvendo o meu corpo à infância
as crianças perfumam os sentidos da memória
depuram-na.

Ademar
05.07.2005

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Antologia poética (97)...

Improviso sobre a dieta...

Já houve um tempo
em que me faltavam as palavras
para o poema
hoje sobram-me
agora escrevo em processo de depuração
regresso ao esqueleto.

Ademar
06.07.2005

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Antologia poética (96)...

Improviso para um personagem...

maradentro1.jpg

Tenho o pensamento
na extremidade dos dedos das mãos
quando te aproximas
e o desejo
um pouco mais abaixo
mas tu não percebes
e eu não me alcanço
o amor é uma ponte
ao serviço dos pés
paralizado
morro do outro lado da margem
como eu queria tanto encontrar-te.

Ademar
07.07.2005

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Antologia poética (95)...

Improviso sobre o amor entre mulheres...

Há uma delicadeza de mãos
um silêncio serpenteante
uma quase graciosidade palmilhada entre nenúfares
no amor entre vestais que se entrepenetram
que as vestais não precisam de um pénis
para se fazerem penetrar
o prazer nelas dispensa a bárbara intrusão
na penumbra dos gestos que colam
só as mulheres ouvem as mulheres
digo
todos os homens que ouviram as mulheres
são lésbicos.

Ademar
08.07.2005

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Uma lição...

Nunca o tinha visto na loja, atrás do balcão. Ostentava uma t-shirt com a palavra SOCIOLOGIA estampada sobre um fundo negro. O rapaz era muito simpático e prestável e dava ares de estudante universitário. Não resisti a confirmar. Ele confirmou. Sim, estava no 3º ano de Sociologia, na Universidade do Minho. Trabalhava nas férias, para se sentir útil à sociedade e ganhar uns trocados. Fiz-lhe a pergunta inevitável, sempre que me cruzo com um estudante de sociologia: para quê?... Ele sorriu, flectiu os ombros e respondeu: não faço ideia, provavelmente, farei depois outro curso...
Insisti. Não acreditava que ele tivesse tirado à sorte, escolhera certamente sociologia por alguma razão, teria um objectivo. Sim, claro, respondeu ele, o que eu quero é dedicar-me à política. E pensei que sociologia seria útil...
Foi a minha vez de sorrir. E caí na ratoeira do paternalismo: se quer singrar na política, o curso é quase irrelevante. Meta-se num partido, não confie no destino...
Claro, disse ele. Já sou dirigente da JSD...
Esta juventude sabe-a toda...

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Antologia poética (94)...

Improviso sobre o princípio da dor...

Talvez a dor comece pelo incómodo
que não dói
haverá um princípio na dor
muito para além da sua causa
a dor começa no silêncio
é feminina
quase evasiva
como a chamada de atenção
de todas as mulheres.

Ademar
11.07.2005

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Evidência...

As certezas são feitas da mesma matéria-prima da incerteza...
Julho.2005

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Improviso para dizer os ciclos lunares...

Migraremos então
entre mãos e entre pés
do princípio ao fim
e em todos os sentidos inversos
águas tempestades insónias
e o tempo que foge
e o tempo que voa
com as asas do que fomos
o prodígio da nossa memória
o prodígio do nosso esquecimento
isso
de ser o berço frágil de tão raras marés.

Ademar
23.09.2006

setembro 22, 2006

Sobre a solidão ou sobre a vida...

Há pessoas que não sabem viver sozinhas. Há pessoas que aspiram a viver sozinhas. Há pessoas que só sabem viver sozinhas (só a solidão permite o grito). Os solitários, tenho para mim, são-no por força de um genes que ainda não foi catalogado. Pertenço, sei-o hoje, a uma família de solitários. Dou-me bem na solidão, não tenho medo da solidão. Fui educado nela e para ela. Hei-de, como todos, morrer sozinho. Um dia, não me encontrarão nos locais rotineiros. O mais provável é que tenha morrido. Discretamente.
A vida quer-se levada até ao fim com elegância... e a sobranceria possível. A morte é um diálogo interior que deve permanecer silencioso.

Julho.2005

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O concerto da aldrabice...

Desde há cerca de dez anos que, por dever de ofício, tenho que ler textos de professores (dos ensinos básico e secundário) e de educadores de infância: relatórios, testemunhos, propostas, actas, memorandos, documentos ditos de reflexão crítica. Um dia (que está, felizmente, cada vez mais próximo) porei fim a esta penitência e abandonarei alegremente o inferno de leitor, que passarei a outros.
Escreve-se e pensa-se muito mal, nas escolas do meu país. Sei que, ao dizer isto, vou ser crucificado na praça pública, acusado, pela enésima vez, de arrogante e presunçoso. Estou a marimbar-me. A formação dos nossos profesores é uma tragédia nacional, cuja responsabilidade só posso, genericamente, imputar às universidades e às escolas ditas superiores de educação.
Há dias, li alguns documentos escritos por uma professora formada numa ESE com 15 valores. Se eu publicasse aqui excertos desses documentos, o país ficaria (como eu fiquei) em estado de choque e perguntar-se-ia: como é possível?...
Infelizmente, é possível. Quem aspira hoje a ser professor em Portugal só não conseguirá um diploma se for completamente mentecapto. As universidades e as escolas ditas superiores de educação (saúdo daqui as raríssimas excepções!) passam e certificam quase toda a gente. É uma surda (e absurda) conspiração contra o país, cujo preço pagaremos por muitos e muitos anos. Desgraçadas das nossas crianças, desgraçados dos nossos filhos...
Quero dizer, para que conste, que também tenho encontrado profissionais de altíssima qualidade e de excelentíssima formação. Em geral, provêm todos das mesmas instituições. Mas o quadro geral é absolutamente deprimente. A maior parte das nossas universidades e escolas ditas superiores de educação deviam ser fechadas, para averiguações, pelo Ministério Público. Em nome do interesse nacional.

Julho.2005

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A redescoberta de Monsieur Hulot...

c_PlayTime.jpg

Não estou bem certo, mas acho que vi os grandes filmes de Jacques Tati no cinema antes do 25 de Abril, em Coimbra. Nunca mais os revi. Na semana passada, o Público distribuiu uma "caixa" com quatro desses filmes. Não resisti à tentação e comprei. E anteontem, mais de trinta anos depois, estive a rever Playtime (1967). Fiquei boquiaberto: é uma obra extraordinária. No diálogo frenético entre o linear e o circular, está lá tudo: a despersonalização da vida contemporânea, a massificação do ruído e dos rituais cosmopolitas, a compressão asfixiante do indivíduo, o silêncio interior, o tempo absurdo...
Tati, como Bergman ou Fellini, não é entendível na juventude. Há um cinema que antecipa a história, que é como quem diz, que antecipa a vida. Nós é que estamos sempre atrasados...

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Antologia poética (93)...

Improviso sobre um problema de autoria...

Começo sempre o poema
na primeira pessoa do singular
a gramática que uso
é muito antiga
tem exactamente a minha idade.

Ademar
14.07.2005

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Antologia poética (92)...

Improviso sobre a virgindade...

No género masculino
não tens amantes
retrospectivamente
tens apenas
pais tardios
em que te desvendas
criança intocada.

Ademar
16.07.2005

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Pátria nossa, pátria...zinha...

Somos pequeninos e estamos, há quase oitocentos anos, em promoção.
Promovemo-nos todos uns aos outros.
E odiamo-nos discretamente.

Julho.2005

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Uma caricatura de Fernando Pessoa...

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Não sei o que devo a Fernando Pessoa. Acho que, poeticamente, lhe devo quese tudo. Pessoa é, há mais de 30 anos, o meu poeta de cabeceira. Alberto Caeiro e Álvaro de Campos (sobretudo estes) são também, em parte, meus heterónimos. Acho que tenho escrito com eles e tenho escrito por eles. E jamais me envergonharei se alguém disser, um dia, que os meus pobres poemas parecem glosas de Pessoa. Seria uma honra e não uma ofensa...
Fernando Pessoa é um dos mais extraordinários poetas de sempre. Ponto final, parágrafo. Por isso me dói ainda tanto lembrar-me de que, um dia, ouvi um aluno meu do 12º ano dizer que odiava Pessoa. Os professores de Português que conduzem os alunos a odiar Pessoa deviam ser, sumariamente, despedidos e com justíssima causa.
Há dias, folheando a minha preciosa colecção da Ilustração, descobri uma raríssima caricatura de Pessoa, atribuída a Stuart Carvalhais. A revista está datada de 1 de Agosto de 1929. Pessoa morreria seis anos depois, em Novembro de 1935. Partilho-a convosco.

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Adela González-Campa...

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Os melómanos habituam-se, ao longo dos anos, a ver os nomes nas capas e nas bulas dos discos, perdão, dos cd's (ofereço a orelha ao correctivo dos puristas). Adela González-Campa é um nome que, até ontem, habitava o inconsciente da minha memória de melómano. Já tinha passado por ele, mas não o tinha fixado. Ontem, no concerto de Jordi Savall na Póvoa de Varzim, reconheci finalmente a figura. Afinal, há mesmo uma mulher, tocadora de castanholas, que dá pelo nome de Adela González-Campa e que integra uma das formações do Hespèrion XXI...
Há muitas formas de "ouver" um concerto de Música dita Antiga (os "antigos", mesmo na versão dos "modernos", estavam muito mais próximos dos deuses do que nós). Eu inclino-me aos pormenores. Ontem, fixei os sentidos na tocadora de castanholas, distantemente postada numa espécie de altar, erguido atrás de todos os instrumentistas e de todos os cantores. Mas era ela, discretamente, que marcava (reproduzo aqui o que li algures) a pulsação vital das peças que punham os ouvintes, mentalmente, a dançar.
Foi, para mim, um espanto. Como as castanholas, que me habituei a associar ao fandango, podem alinhavar o ritmo das violas da gamba, da harpa, da guitarra, do cravo, das vozes, das demais percussões, concorrendo na feérica tapeçaria dos sons...
O volume não faz a história. Frequentemente, é o mínimo que encaminha o destino. Devo a lição a Adela González-Campa. Onde quer que esteja, alguém que lhe diga que fiquei servo das suas castanholas...

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Antologia poética (91)...

Improviso fandangueiro...

Tenho a memória perdida
entre castanholas
quero dizer
entre duas mãos que me tocam
e me vibram
metaforicamente
sou aquele que transformas em sons
quando a harmonia entre nós
não precisa de partitura
o meu olhar
é o teu instrumento.

Ademar
20.07.2005

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Apontamento sobre um rosto...

vermeer.jpg

O rosto é um horizonte de interrogações. O enigma não está, apenas, no olhar, mesmo quando o olhar parece querer devorar-nos. Está também no sorriso, que nenhum sorriso repete a mesma luz. Está ainda na palidez e na ausência de artifícios, que até as sobrancelhas falham no rosto desta jovem. E na testa alta e no brinco, talvez, de pérola - talvez o mesmo brinco de pérola da outra tela de Vermeer, que o cinema recriou.
Ao primeiro olhar, desvio o olhar do horizonte que me procura. Há qualquer coisa de doentio neste rosto que me desconforta e desilude. Sinto um frio interior, enregelo por dentro, apetece-me passar à tela seguinte. Mas fico. Não resisto a olhar os olhos que me fixam. Parece que me desejam, mas não vislumbro, nem projecto desejo neles. É um olhar, diria, ingénuo ou casto, perverso mesmo, um olhar que não antecipa as consequências da arte da sedução ou da fuga, que convida e, ao mesmo tempo, repele. Não há verdade erótica neste olhar. Nem no sorriso que o prolonga. É tudo falso nesta tela, menos o enamoramento do pintor...

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setembro 21, 2006

Antologia poética (90)...

Improviso sobre uma tela de Degas...

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Violinizas-me
e eu continuo a dançar para ti
como se os meus pés
fossem a derradeira certeza do arco
que empunhas.

Ademar
21.07.2005

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Algoritmias...

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Jogo íntimo entre mulheres. A carta que prolonga os dedos de quem dá notícias e de quem as transporta. Vermeer tinha uma fixação por cartas. Deve ter esperado e desesperado por muitas. Mal ele sabia que a carta, um dia, perderia o mistério da surpresa e da intimidade física (as impressões digitais e os cheiros discretos que voavam distâncias). Hoje, as cartas não têm papel, nem sobrescrito, são imateriais como o amor ou a indiferença. Ou a matemática: algoritmizaram-se...
Até o verbo promete impotências...

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Antologia poética (89)...

Improviso sobre a precaridade...

Talvez haja amanhã
e talvez mesmo depois
e depois?
um dia
não terei mais amanhãs
para contar
desentendo-me do tempo
peço-te apenas que me existas
um dia de cada vez.

Ademar
22.07.2005

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As mães que morrem cedo são sempre as mais belas...

constanca.jpg

Esta foi a Constança, a avó materna que eu não cheguei a conhecer. Nasci e cresci na mesma casa onde ela, matriarcalmente, vivera e morrera e, talvez por isso, sempre me senti muito próximo dela. Mas o seu prematuro desaparecimento significou um verdadeiro terramoto familiar. Criança ainda, a minha mãe foi obrigada, em casa, a ocupar o lugar dela e viu, assim, a infância destruída muito cedo. Jamais viria a recuperar dessa terrível privação, que em parte transmitiria aos filhos...
Da avó Constança, nunca soube muita coisa. Casou duas vezes, teve, pelo menos, dez filhos, foi comerciante e fumava rapé. A minha mãe, nas raras vezes em que falava dela, exaltava sempre, invariavelmente, a sua beleza e a sua energia. Ao princípio, não compreendi o que ela me queria significar. Descobri-o mais tarde, já adulto, quando, finalmente, partilhou comigo uma espécie de tesouro iconográfico: a única fotografia da Constança que, avaramente, guardara e não mostrava a ninguém. As mãos que seguravam a fotografia (lembro-me bem) tremiam-lhe. Não vi lágrimas nos seus olhos, mas o silêncio que falava por ela conduziu-me ao entendimento do essencial, o essencial que sempre quisera transmitir-me, mas não por palavras: as mães que morrem cedo são sempre as mais belas...
A filha que eu nunca farei nascer tem, precisamente, o nome da minha avó materna. Há-de chamar-se Constança...

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Conversa de pé de orelha com Tony Blair...

Quase toda a gente tem ideias muito sábias e definitivas sobre o terrorismo.
Como tendo a ver o mundo ao contrário, digo: o terrorismo alimenta-se delas.

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Antologia poética (88)...

Improviso sobre Portugal...

O meu país tem ambiguidades e contradições
deixa-se chover no verão
e secar no inverno
hão-de governá-lo as cigarras
fingidas de formigas.

Ademar
26.07.2005

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A ocasião que faz o ladrão...

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Em 1752, morre em Madrid o pintor napolitano (ou talvez veneziano) Jacopo Amigoni. Na época, Amigoni era um artista relativamente apreciado, tinha obra espalhada pela Europa cosmopolita, sobretudo retratos e quadros históricos, mas também interiores no Covent Garden, que ajudara a decorar.
O quadro que reproduzo acima está datado de meados do século XVIII, entre 1750 e 1752. Provavelmente, terá sido um dos últimos, se não mesmo o último, de Amigoni.
Em 1752, estreia em Madrid, no Bom Retiro, a ópera Dido Abandonada, que Carlo Broschi Farinelli oferece, como prenda de aniversário, ao Rei de Espanha, Fernando VI.
Farinelli, il ragazzo, o famosíssimo sopranista italiano, vivia em Espanha desde 1737. Já contei aqui a sua estória extraordinária (dez anos seguidos a cantar, todas as noites, as mesmas quatro árias para Filipe V), não vou repeti-la. Sobre libretos "del tanto rinomato abbate" Pietro Metastasio (que Vivaldi, Haendel, Gluck, Pergolesi, Mozart, Scarlatti e tantos outros viriam a musicar ou já tinham musicado), o mais famoso castrado de todos os tempos produziu para os Reis de Espanha uma série de óperas ao estilo italiano que trouxeram a Madrid e ao Bom Retiro a nata do "bel canto" europeu do século XVIII, incluindo Teresa Castellini, a virtuosa soprano milanesa .
No quadro de Amigoni, estão todos. À esquerda, Metastasio. A seguir, Teresa Castellini e Farinelli, que supostamente segura na mão esquerda a partitura de uma canção dedicada à sua colega. O mais interessante é que à direita de Farinelli pode ver-se o próprio... Amigoni. O pintor não resistiu à tentação e à vaidade de se fazer incluir no estrado daqueles que a música imortalizaria. Amigoni teria, na altura, cerca de 70 anos. Não foi, certamente, com esta idade que se fez representar. Não há dúvida de que a ocasião faz o ladrão...

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Antologia poética (87)...

Improviso em forma de gato...

Penso ou sinto como os gatos
amanhã será outro dia
quero dizer
outra vida
não hei-de ficar nesta
eternamente.

Ademar
27.07.2005

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Tous les matins...

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Sou um compulsivo. Sou capaz de ouvir, semanas a fio, o mesmo cd. Sou capaz de amar, anos a fio, a mesma mulher. Sou capaz de vir aqui todos os dias e deixar um texto, mesmo imaginando que todos os leitores estão ausentes e ninguém me lê...
Nos últimos tempos, antes e depois do concerto na Póvoa de Varzim, só tenho ouvido Jordi Savall. Retirei das prateleiras todos os cd's que acumulara do virtuosíssimo gambista catalão e pus-me, de novo, a ouvir. Ainda não me cansei. A redescoberta de J. Savall tem sido, para mim, um deslumbramento. Já falei aqui de "Ostinato". Hoje, apetece-me sinalizar e recomendar-vos "Tous les matins du monde", a banda sonora do filme homónimo de Alain Corneau. Música de Marais, Colombe, Couperin, Lully. No violino, o absolutamente extraordinário Fabio Biondi, que ouvi no Rivoli há cerca de 3 anos atrás, com os Europa Galante.
Escrevo este apontamento, ouvindo, pela enésima vez, L'Arabesque, de Marin Marais. Lá fora, a noite chove intensamente. Reparai na quase divina contradição: eu brilho aqui para vós. Como se fora manhã...
"Tous les matins du monde"...

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Antologia poética (86)...

Improviso sobre a cobardia do voo...

Não sei quem me dará a mão
para morrer
não sei se precisarei de uma mão
ou de um poema
ou de uma música
ou simplesmente
de um corpo
em que repouse
uma última vez
os corpos que nos fogem
pedem asas
para não voar.

Ademar
28.07.2005

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António e Adriano...

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Hoje, muito poucos portugueses saberão quem foi António Correia de Oliveira (1879-1960) - só os que frequentaram a "escola primária" antes do 25 de Abril e esses já têm, pelo menos, 40 anos.
Hoje, a folhear o nº306 da Ilustração Portuguesa (de 1 de Janeiro de 1912), descobri a gravura que reproduzo acima. Ilustrava uma notícia sobre o lançamento do mais recente livro de poemas de António Correia de Oliveira, "Dizeres do Povo".
A apresentação da obra rezava assim (repare-se na carga adjectival):

"O novo e encantador livro do ilustre poeta António Correia de Oliveira chama-se Dizeres do Povo e são realmente adágios que andam nas bocas populares, que o poeta nele exprimiu, deixando-lhes as suas verdades, engastando-os na doçura simplista dos seus lindos versos. São algumas das belas quadras do novo trabalho do autor do "Auto do Fim do Dia", da "Raiz", das "Parábolas", da "Tentação de S. Frei Gil" e de outras obras primas que para esta página transcrevemos."

E seguem os "lindos versos" e as não menos "belas quadras" de "Dizeres do Povo"... Não resisti à tentação de ler os "poemas" de António Correia de Oliveira, transcritos na Ilustração Portuguesa. E os meus olhos pararam, abismados, no primeiro, há mais de 40 anos que não o lia (na minha meninice, todos o sabiam e diziam de cor):

- Quem tem filhos tem cadilhos,
Tem-nos quem os não tiver. -
Quem tem filhos ainda vive
Mesmo depois de morrer.

Esta quadrinha "popular" transporta-me, inexoravelmente, ao asfixiante microcosmos da escola salazarenta que, desde muito cedo, aprendi a odiar. "Quem tem filhos, tem cadilhos"... era o que os meus pais, invariavelmente, me diziam, sempre que eu, a cavalo da irreverência, ousava (ou simplesmente tentava) passar além da Taprobana do consentido.
Aprendi com eles, também, a odiar António Correia de Oliveira.
Pobre Adriano, que, durante tanto tempo, tiveste de carregar, indefeso, o pesadelo de tais apelidos...

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Antologia poética (85)...

Improviso quase nocturno...

Provavelmente
já não tenho amigos nocturnos
morreram todos
na idade em que os bares já não abrem
depois da meia-noite
fiquei a beber sozinho
numa esplanada sem horário
e sem destinos
e foi nela que me perdeste.

Ademar
30.07.2005

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O regresso à cabana...

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Portugal, hoje, chorou com a manchete do 24 Horas (que, de resto, esgota sumariamente a notícia)...
O paraíso fechou para inventário de cabanas.
Lembrai-vos? Amor e uma cabana...

setembro 20, 2006

Antologia poética (84)...

Improviso sobre a declinação das distâncias...

Fico sempre a um passo do esconderijo
onde guardas os segredos que não partilharás com ninguém
senão talvez noutras vidas noutras mortes
ficas sempre a um mão de me puxares para dentro de ti
nessa íntima geometria das distâncias imponderáveis
não há ponte sobre as nossas próprias margens.

Ademar
06.06.2005

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Antologia poética (83)...

Improviso sobre a voz de Lisa Gerrard...

Há vozes solitárias
que depositam em mim multidões impessoais
vozes serpentes
antiquíssimas
anteriores a todos os silêncios
a todas as origens
a todos os ecos
há vozes assim
que me apertam na garganta
que me antecipam a eternidade
que me antecipam à eternidade.

Ademar
07.06.2005

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Improviso elegíaco...

O corpo também esquece
por dentro e por fora da memória
já te disse dos aventais
que monumentam a castidade
da gélida congruência do calcário
e do granito
essa quase rigidez de aves empalhadas
e depois os ponteiros e os cinzéis
que lentamente nos desbastam
da pele em que viajávamos
e fica a história para contar
talvez aos netos
talvez a nós
éramos uma vez
deixámos de ser.

Ademar
20.09.2006

Antologia poética (82)...

Improviso sob a forma de prenda de aniversário...

vilarinho.jpg

Pode ser um rio
ou um pôr do sol
ou até uma ponte construída algures
sobre nenhures
pode ser uma estrela
cadente ou não
e pode ser a lua
ou o deserto
ou uma paisagem
sem gente lá dentro
apenas cenário
montes e vales
pode ser a noite
pode ser o lusco-fusco
pode ser uma manhã retardada
pode ser Veneza ou Verona
ou Saló de um Pasolini ausente
pode ser Trento das mil e uma reformas inúteis
pode ser Barcelona ou Córdoba
ou uma ilha encantada à procura de mapa
pode ser Picasso
ou Vivaldi
pode ser um par de algemas
pode ser um filme
pode ser uma ópera
pode ser um poema
cabe tudo na memória destes anos
até aquele bar sem nome
onde me disseste
que não querias mais
e depois quiseste.

Ademar
10.06.2005

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Antologia poética (81)...

Improviso para uma balada dos Tindersticks...

Sei como cantas e como gemes
mas nunca te vi dançar
sei como cheiras
e como transpiras
mas nunca te vi dançar
sei como te despes
e como te encobres
mas nunca te vi dançar
sei como choras e como gritas
mas nunca te vi dançar
sei como tocas
sei como foges
sei como finges
mas nunca te vi dançar
sei como andas e como hesitas
mas nunca te vi dançar
sei como falas
e como escreves
mas nunca te vi dançar
sei como beijas
e sei como lambes
mas nunca te vi dançar
sei como te expões
e como te escondes
mas nunca te vi dançar
há um olhar
uma ínfima centelha de desejo
que tu
ainda não viste nos meus olhos.

Ademar
10.06.2005

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Na pista de James Dean e de todos os amanhãs que hão-de cantar...

acunhal.jpg

A postura do corpo apolíneo, o olhar, o sorriso, a pose. O desafio, a sedução. "Rebel without a Cause", de Nicholas Ray. Jim Stark, aliás, James Dean. 1955. Não: Álvaro Cunhal, Praia das Maçãs. Data incerta. Talvez 1943. A Europa em guerra. O racionamento. A clandestinidade. O berço do mito, a lenda engravidada. Cunhal: o enigma.
Mas quem estaria por detrás da objectiva?...
Uma mulher, provavelmente. Pelo menos, no desejo dos olhos do fotografado...
Nenhum comunista, nos anos quarenta, sorriria assim para um homem.
Ainda perduravam os ecos do silêncio da morte de Federico García Lorca...

Junho.2005

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Antologia poética (80)...

Improviso sobre a morte...

A morte viaja sem visto nem passaporte
e faz-se transportar numa aeronave silenciosa
espreita a todas as portas e janelas
e deita-se em todas as camas
a morte tem alma de clandestina
e o seu corpo
é o corpo de todos os amantes
que a embalam.

Ademar
13.06.2005

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Antologia poética (79)...

Improviso em forma de destino...

Destas mãos escaparam
todos os poemas que já não foste
a tempo de alcançar
sobrámos nós.

Ademar
13.06.2005

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Antologia poética (78)...

Improviso sobre a depuração das palavras...

Depuro-me cada vez mais
nas palavras com que me invento
emagreço com elas
rejuvesneço
sinto-me regressar a um estádio
de pré-aprendizagem dos sentidos
como se as palavras
já tivessem deixado de me pertencer.

Ademar
13.06.2005

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Antologia poética (77)...

Improviso sobre o inesperado...

Toda a vida
as mesmas perguntas
as mesmas respostas
Beckett
Fin de Partie
1957
só o amor diverge
seja lá isso o que for
as mesmas perguntas
esperam sempre
respostas inéditas.

Ademar
14.06.2005

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Antologia poética (76)...

Improviso à janela...

As janelas interessam-me mais
pelo que mostram para dentro
as margens interiores dos olhos
correndo entre elas
eu vejo o mundo lá fora
exactamente
o mundo que não me pertence
mas a parte de mim
que me faz exterior a tudo.

Ademar
16.06.2005

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Antologia poética (75)...

Improviso sobre a cegueira da alma...

As evidências do corpo
desmentem todas as ilusões de eternidade
embriago a alma na metafísica
entre crenças e surtos poéticos
e fecho os olhos
para não ver.

Ademar
18.06.2006

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Diário em forma de silêncio (45)...

Se te pudesse pedir alguma coisa, pedir-te-ia que me esquecesses. Se pudesse pedir-te alguma coisa, pedir-te-ia que me desejasses sempre. Sou mulher, já sabes, e só nesta condição poderei dialogar contigo...

C.A.

Antologia poética (74)...

Improviso sobre a agenda da ausência...

Mesmo em greve
sempre te garanti os serviços mínimos
cumpro apenas o destino
há uma parte de mim
que estará sempre ao teu serviço.

Ademar
19.06.2005

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Antologia poética (73)...

Improviso com lágrimas...

Invisualmente
ofereço-me ao toque das tuas lágrimas
para não chorar comigo.

Ademar
20.06.2005

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Repugnância...

Um dia, estão nas direcções sindicais e na oposição e lideram, orgulhosamente, a "luta dos trabalhadores". No dia seguinte, saltam dos sindicatos para o governo e para os patamares mais elevados da administração e passam à "situação", fazendo, em inúmeros aspectos, o discurso inverso daquele que sempre lhes ouvíramos.
Já não tenho paciência para estes "sindicalistas" vira-casacas e lambe-botas, que estão sempre na crista da onda: ora dos sindicatos contra o poder, ora do poder contra os sindicatos.
Devo ter nascido no lado errado da ética e da decência...

Junho.2005

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Antologia poética (72)...

Improviso amoroso...

De vez em quando
regresso ao amor
uma palavra de apenas quatro letras
o universo todo
o único afinal
que principia e acaba em cada um de nós.

Ademar
20.06.2005

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Antologia poética (71)...

Improviso sobre a inveja da morte...

Faltam-me as palavras
para o diálogo mais antigo
projecto-me num silêncio labiríntico
sou uma agenda
de páginas em branco
escrevo apenas títulos
cono se quisesse calar interiormente
o eco da própria voz
tento pensar e dizer mais alto
e mais longe
para não me deixar enredar
na intriga da morte
que me inveja.

Ademar
27.06.2005

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Furacões inteligentes...

Parece que o Gordon, ao pressentir que se aproximava de Portugal, desviou inteligentemente a rota. Até os furacões já perceberam que Portugal não se recomenda...

Uma questão, apenas, de civilização...

ratzinger.jpg

Sou ateu. Não reconheço...papas. E Joseph Ratzinger não é, propriamente, o tipo de intelectual que me excita. Vejo nele, pelo contrário, a personificação do pior da herança do catolicismo. Mas, na actual "contenda" com os sectores mais teocráticos e fundamentalistas do islamismo, estou e estarei do lado dele. Não com motivações religiosas, mas civilizacionais. A liberdade de consciência e de expressão do pensamento, para mim, é a fonte de todas as liberdades. Por isso, se Ratzinger pedir desculpa pelo que afirmou há dias numa universidade alemã, considerá-lo-ei um pusilânime. Ainda que não esqueça e não possa respeitar o seu currículo como inquisidor...

setembro 19, 2006

Antologia poética (70)...

Improviso sobre cinzas...

E um dia
abre-se uma janela
e sem querer
voamos por ela
não há na morte
mistério algum
nem poesia
apenas cinzas
de palavras
temperadas no esquecimento.

Ademar
21.06.2005

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Antologia poética (69)...

Improviso quase jurídico...

Tenho duas versões para a minha vida
numa
morro logo
noutra
serei eterno
receio que a lei
a doutrina
e a jurisprudência
me recusem a eternidade
o direito está sempre à espreita
do sacrifício
para foder-me
(mal).

Ademar
22.06.2005

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Antologia poética (68)...

Improviso sobre "Di questa cetra in seno", de Gluck...

Para que me toquem
as palavras não precisam de arco
bastam-me os dedos da metáfora
em pizicato.

Ademar
22.06.2005

publicado em abnoxio2.blogs.sapo.pt

O fascínio pelas virtudes curativas do termómetro...

«Como cada vez mais professores têm consciência, o descalabro da educação em Portugal está ligado ao desaparecimento progressivo dos exames. Os exames são reguladores de todo o sistema educativo, instrumento estruturante de responsabilização e organização do trabalho escolar. (…) Não haverá mudança na educação em Portugal sem a instituição, durante um largo período, de um regime intensivo de exames. Em Portugal, em matéria de educação, a posição relativamente aos exames separa as águas».
Guilherme Valente (Público de 22.06.2005)

Cada um acredita no que quer. O editor Guilherme Valente descobriu que só há uma maneira de combater o “descalabro” da educação em Portugal: obrigar os alunos de todos os níveis e graus de ensino a fazer exames, exames, exames, exames. Presumo que nem as crianças do pré-escolar deveriam ser poupadas ao correctivo…

A lógica do argumentário é simples: mais exames, mais qualidade. A receita seria infalível e nem se percebe, garantida a sua extraordinária eficácia, por que não foi ainda aplicada em doses industriais…

A revelação é, aparentemente, tão entusiasmante que até o meu querido amigo Vital Moreira aderiu imediatamente ao postulado da salvação e transcreveu Guilherme Valente, sem comentários, no causa-nossa (blogspot.com).

Conviria, porém, que espreitássemos e interrogássemos a realidade, a “realidadezinha”, como, nas presentes circunstâncias, certamente, escreveria o Eça…

No ensino superior, nunca deixou de haver frequências e exames. Pelo postulado de Valente, devíamos ter um ensino superior de excelentíssima qualidade. Temos?..

No ensino secundário, os exames no 12º ano foram introduzidos há, pelo menos, uma década. Pelo postulado de Valente, o nosso ensino secundário devia, hoje, estar muito melhor do que há dez anos atrás. É o que dizem os indicadores?...

Antes do 25 de Abril, os alunos habituavam-se a fazer exames desde a escola primária. Pelo postulado de Valente, o nosso sistema de ensino, à data da revolução, devia ser um dos mais avançados do hemisfério ocidental. Era?...

Consenti que seja ainda um pouco mais perverso e cínico. Para obterem a carta e poderem conduzir, os portugueses têm de fazer dois exames: um, de código e outro, de condução. Pelo postulado de Valente, nós, portugueses, devíamos ser, ao volante, condutores competentíssimos. Somos?...

Esta crença acaciana e ingénua nas virtudes regeneradoras dos exames é uma crença que esbarra, como tantas outras, na parede da realidade. De resto, o descalabro de outros sistemas de ensino que sempre privilegiaram a avaliação externa das aprendizagens dos alunos aí está, também, a comprová-lo. Infelizmente, mais exames não é sinónimo de mais qualidade no ensino. Se fosse, (oh que maravilha!) tínhamos o problema resolvido…

Fazer exame é como medir a temperatura. O termómetro que regista a febre não dá o diagnóstico, nem prescreve a terapêutica: sinaliza apenas o estado febril. Guilherme Valente parece acreditar que a solução está no termómetro. Espero que ele, embriagado talvez com a forma do aparelho, não se esqueça, de vez em quando, de ir ao médico…

Junho.2005

recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Dicionário das palavras que eu amo (41)...

FURACÃO - A propósito do Gordon, uma querida amiga açoriana acaba de me enviar a seguinte mensagem (perdoa-me a inconfidência!): "Os furacões não são de fiar...Estragam-nos a vida e fogem como se nada fosse. Curiosamente, diz-se o mesmo dos continentais. As raparigas açorianas são alertadas desde muito cedo para evitarem os homens do continente." O grandioso Houaiss fala de FURACÃO (também) como "manifestação extremada de sentimentos". Muito devem sofrer os continentais, quando migrados nos Açores: talvez de incontinência passional...

A ponte resvaladiça da adolescência...

Quando eu era criança ou mais criança, julgava divisar uma linha de perpétua infelicidade nos olhares dos adultos. As crianças não compreendem os adultos, como os adultos, em geral, não compreendem as crianças. Porque os adultos que as crianças vêem não são os adultos em que elas gostariam de se transformar (as crianças sofrem os modelos sofredores...) e porque os adultos, frequentemente, sentem ciúmes das crianças ou uma dolorosa nostalgia do tempo em que foram (ou não chegaram a ser) crianças…

Guardo no meu telemóvel duas mensagens “poéticas” de uma amiga e colega que releio muitas vezes. Ela vai certamente compreender e perdoar-me que as divulgue aqui sem identificar a sua autoria.

Numa das mensagens, ela escrevia: “Onde está a poesia nesta Escola? Nas crianças. Onde estão as crianças? Nas crianças…”

Na outra mensagem, ela observava: “ A infância é uma erva daninha…Volta sempre a aparecer, apesar do zelo jardineiro dos adultos”.

A educação é, de facto, uma luta interminável contra a infância. No fundo, o que os pais e os professores mais desejam é que as crianças deixem de o ser. A autoridade do educador é infanticida. Mata-se a criança, para que dela possa, mais rapidamente, irromper e emergir o adulto, domesticável.

Mas os pais (e, em parte, os professores) vivem um terrível drama interior: quanto mais depressa matam a infância, mais depressa também matam a sua própria autoridade sobre os filhos e os alunos. A adolescência é o conflito, a perturbação, o ruído, a rebeldia. Por isso é que os adultos, em geral, temem e abominam a adolescência, porque a adolescência disputa permanentemente a ordem social e os poderes estabelecidos. Na família, na escola, na sociedade…

Há quem acredite que os seres humanos podem passar, directamente, da infância para a juventude (ou até mesmo para o estado adulto), sem atravessar a ponte resvaladiça da adolescência. É uma crença perversa e, profundamente, castradora, porque é na adolescência (estádio das grandes descobertas e, também, das grandes rupturas) que, verdadeiramente, nos socializamos.

E aqui reside, porventura, um dos maiores problemas da escola contemporânea: não saber lidar e dialogar com a adolescência. Ou agir como se a infância devesse ser eterna, no espírito e no corpo dos adolescentes, antes de a matarmos...

Junho.2005

recuperado de abnoxio2.blogs.sapo.pt

Antologia poética (67)...

Improviso para o Francisco e o Henrique...

Lê-me irmão as legendas
acrescenta-te aos meus olhos
dá-me a mão
e ajuda-me a atravessar
a ponte do conhecimento
para esse lado de mim
que só está ainda ao teu alcance.

Ademar
24.06.2005

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Saraband...

Bergman.jpg

A gravação que estou neste momento a ouvir da Suite para Violoncelo nº5 de Bach é de Pablo Casals e foi registada em 1939. Ingmar Bergman nasceu em 1918 e realizou Saraband em 2003, com Liv Ullmann (Marianne) e Erland Josephson (Johan). Não sei se é, verdadeiramente, o seu testamento, mas admito que só em circunstâncias muito excepcionais é que ele voltará a filmar. Saraband é um fabuloso e quase inultrapassável condensado da obra de Bergman. Eu ter-lhe-ia colocado um subtítulo: "a morte é muito fácil" (confissão no rasto de um sonho de Henrik confessado a Marianne).
Saraband é, porém, uma mentira. Não tem ritmo de dança, mas de evocação. Não mergulha no presente, mas no passado. É uma espécie de álbum fotográfico animado. O primeiro e o último quadro marcam o andamento do filme, a mesa enorme no centro da sala (ou da vida transformada em memória) onde se amontoam centenas de fotografias que Marianne, uma a uma, vai pescando para pontear a narrativa.
Para Bergman, a morte deve ser, de facto, muito fácil. Filmou-a em mais de 40 filmes, conhece-a de cor, não há ângulo que lhe escape, cenário que o possa já surpreender. A morte e, nos seus antípodas, o erotismo (magnificamente retratado em Saraband por Karin, a filha violoncelista de Henrik, o Édipo de Bergman).
Na minha escola ideal, os alunos estudariam Saraband. Está lá quase tudo o que é preciso aprender sobre a vida, entre Bach, Bruckner e Brahms...
Bergman, pois claro!

Junho.2005

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Antologia poética (66)...

Improviso sobre um violoncelo...

Entre as tuas coxas
asfixiando-me
seria eternamente violoncelo
o erotismo talvez tenha esta forma
de quatro cordas
para um arco
ou os inúmeros delicados dedos
das tuas mãos.

Ademar
27.06.2005

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Pulhítica...

gyurcsany.jpg

O sujeitinho da fotografia é o (ainda) primeiro-ministro húngaro, Ferenc Gyurcsany. Não conhecia? Deixe lá: até ontem, eu também não. Não conheço a Hungria e a política húngara passa-me completamente ao largo...
Mas fiquei ontem a admirá-lo um pouco. Reconheceu uma "qualidade" inerente à função que poucos políticos ousam admitir: que mentiu reiteradamente ao povo húngaro para ganhar eleições. Eu sei que todos os políticos, com mais jeito ou menos jeito, o fazem. Mas raramente o confessam. Este, ao menos, é um pulha com classe, um pulha honesto... Falo, claro, de... pulhítica...


setembro 18, 2006

Antologia poética (65)...

Improviso sobre a avareza das palavras...

Tenho uma bolsa de milagres
e um cofre antigo
onde guardo magias
ferramentas de ser criança
inutilidades quase
há dias
em que me distraio do tempo que sou
e me apetece brincar
aos alquimistas
se tivesse ainda palavras virgens
para me contar
fugiria com elas
e o mais longe de mim
pedir-me-ia em exílio.

Ademar
28.06.2005

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Antologia poética (64)...

Improviso abortado...

Nasço todos os dias
um dia abortarei.

Ademar
28.06.2005

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Diário em forma de silêncio (44)...

Já não sei que te diga. Tremo nas palavras, balbucio-me. Sei que me esperas, mas temo o que me espere. Não por ti, mas por mim. Falha-me a limpidez do teu desejo, a quase sobranceria do teu desejo. Nada esqueci. Recordo tudo como se tivesse acontecido no exacto momento em que escrevo. Continuo a resistir, nesse altar em que, um dia, me deitaste, ao feitiço das tuas mãos, dos teus lábios, da tua língua. Já tinha desaprendido a saudade de mergulhar contigo na mais antiga das tentações do "Cântico dos Cânticos". Agora, hesito. Sei que o próximo passo será definitivo. E continuo a ignorar se estou preparada para arriscar a viagem que me garantes. "Quem me dera que fosses meu irmão, amamentado aos seios de minha mãe, para que, encontrando-te fora, te pudesse beijar sem que ninguém me censurasse"...

C.A.

Antologia poética (63)...

Improviso lésbico...

Aprendi a conjugar as mulheres no feminino
explico
falo de mulheres que gostam de mulheres
e sobretudo
dessoutra espécie de mulheres
que jamais aspiraram a ser
como direi
homens
machos
mulheres que começam e terminam
na delicadeza original dos dedos das mãos
que delicadamente se infinitizam.

Ademar
01.06.2005

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Antologia poética (62)...

Improviso geracional, escrito sobre "Walk on by", de Isaac Hayes (1969)...

isaac.jpg

Li Marcuse
mas cheguei atrasado a Berkeley e a Nanterre
comecei por acreditar em Dubcek
mas Kafka reteve-me no aeroporto de todas as dúvidas
e já não apanhei a tempo
o avião para Praga
tentei ainda Woodstock (depois de ir à Lua)
mas a lotação estava esgotada
e quando finalmente
desci em Coimbra B
até o Alberto já tinha sido mobilizado
para a guerra colonial
e não fui além do Easy Rider
entre baladas de protesto
tenho andado sempre um passo atrás
da história que me destinaram
mas continuo a recusar a amnésia
com Walk on by.

Ademar
01.05.2005

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Nota confessional...

Só podemos responder pela semeadura. A colheita ultrapassa-nos sempre...

Já não me recordo quem me inspirou, se não fui eu próprio. Por onde tenho passado, institucionalmente falando, uma marca tento sempre deixar: nenhuma reunião começa (e tenho já milhares no cadastro), sem que se leia um poema ou partilhe uma música. É o preâmbulo, o intróito (palavra de que gosto).

Ateu, é o meu contributo para a paixão da liturgia das palavras e dos sons. Os "meus" alunos, os "meus" formandos, os "meus" colegas - todos foram "semeados" com poesia e com música. Não sei o que neles se colheu, mas continuo a acreditar que valeu a pena o esforço da semeadura...

Maio.2005

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Piscar de olho aos meus novos alunos...

Os meus alunos, como os meus filhos, são os melhores do mundo. Porque são eles que me ajudam a cumprir o destino (que escolhi e ninguém me impôs) de professor e de pai. Sem eles, seria necessariamente outra pessoa. Quero dizer: não seria eu.

Antologia poética (61)...

Improviso em forma de sumário para aulas inteligentes...

O conhecimento
como o sol
quando nasce
não é para todos
os apoderados distribuem-no
em doses turmais de noventa minutos
ou talvez mais
se os alunos não fossem sempre tão estúpidos
(tributo a Brecht)
talvez até não fossem precisas
aulas
aulas teóricas e práticas
aulas teórico-práticas e
aulas prático-teóricas
e aulas enfim para
esclarecimento de dúvidas
que o catálogo da misericórdia
ainda não está fechado
talvez até
não fossem precisos professores
em cima de estrados
a recitar apontamentos
que é como quem diz
dois tiros no porta-aviões e
um submarino ao fundo.

Ademar
02.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (60)...

Improviso ao jeito de Régio, para consolação de uns tantos confrades...

Uns dizem-me
avança pela esquerda
e eu avanço
outros gritam-me
segue pela direita
e eu sigo
outros ainda garantem-me
que sempre em frente
é que é o caminho
e eu arrisco
não há mapa nem guia que me sirva
volto sempre ao mesmo lugar
andei simplesmente em círculos
à volta de mim.

Ademar
03.05.2005

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Antologia poética (59)...

Improviso quase amoroso...

Há violinos acariciantes
que me arranham
exactamente como tu
violinos enrouquecidos
e quixotescos
que prometem aventuras desvairadas
em amores sem partitura
exactamente como tu
violinos verdadeiros
ou quase
como os que vimos em Cremona
no Stradivarius
como aquele
apócrifo
em que tocavas
quando ainda não tocavas para mim.

Ademar
04.05.2004

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Antologia poética (58)...

Improviso sobre o milagre da eternidade...

Há olhares que espreitam o silêncio
como se quisessem acrescentar-lhe uma aresta
a noite não convida à definição das formas
nem ao rigor das objectivas
a noite vagueia por aí
deixa-nos sempre um passo ou um gesto atrás
da fotografia
entro por ela e deixo-me estar
espero sempre o milagre da eternidade.

Ademar
05.05.2005

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Antologia poética (57)...

Improviso quase existencialista...

Sinto-me perseguido por um corpo
o mesmo que foge deste
de que me tento evadir
sou uma equação de improbabilidades
não me recomendo à literatura
nem à filosofia de cordel.

Ademar
09.05.2005

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setembro 17, 2006

Antologia poética (56)...

Improviso sobre a ansiedade...

Não há psicólogo que me valha
nos últimos dias
venho-me sentindo em estado de permanente ansiedade poética
as palavras não me aparecem
e empalidece a luz sobre os espelhos
que me aventurariam
sinto que esqueci a alma num congelador qualquer
(se rimasse este poema
rimá-lo-ia com mulher).

Ademar
09.05.2005

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Antologia poética (56)...

Improviso sobre a ansiedade...

Não há psicólogo que me valha
nos últimos dias
venho-me sentindo em estado de permanente ansiedade poética
as palavras não me aparecem
e empalidece a luz sobre os espelhos
que me aventurariam
sinto que esqueci a alma num congelador qualquer
(se rimasse este poema
rimá-lo-ia com mulher).

Ademar
09.05.2005

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Antologia poética (55)...

Improviso sobre um órgão...

Ouço há muitos anos o mesmo órgão
não creio mesmo que haja outro
para me transportar ao único deus
a que me confio
uma constelação de sons interiores
nenhures
entre Bach e Saint-Saens.

Ademar
10.05.2005

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Antologia poética (54)...

Improviso de género...

As fêmeas só sobrevivem em bando
na estreita intimidade dos laços
que vinculam as gémeas que dormem juntas
até à morte
a solidão que não chora
há-de ser sempre um privilégio
e o último refúgio dos machos.

Ademar
12.05.2005

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A corrupção de campanário...

Seria higiénico que se realizasse, neste país, uma grande auditoria às fontes de financiamento dos jornais locais e regionais.

Adianto as duas principais conclusões a que uma tal auditoria, seguramente, chegaria...

Há jornais que são, quase exclusivamente, suportados pelas câmaras municipais, ou seja, pelo erário público. São os jornais que, por baixo da mesa, arrebatam o exclusivo da publicidade municipal (e das empresas públicas que vivem na órbita das câmaras).

Esses jornais, normalmente, estão ligados ao partido político que controla as câmaras. Conheço casos em que o presidente do município é o próprio proprietário do jornal (directamente ou por interposta pessoa). Outros, em que o director do jornal é assessor ou avençado da Câmara ou do partido que a controla.

A promiscuidade é de tal ordem que, frequentemente, se torna difícil distinguir a fronteira que, nesses jornais, separa o jornalismo da propaganda. É o circuito da corrupção autárquica em letra de forma...

Podeis estar certos de que o impudor, em Portugal, não tem limites...

Maio.2005

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Antologia poética (53)...

Improviso sobre o "Cândido", de Voltaire...

Declaro-me optimista
sei que vivemos sempre
no pior dos mundos possíveis
amanhã
só poderá ser melhor.

Ademar
13.05.2005

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Pai e filho conversam sobre os mistérios da aprendizagem na escola "primária"...

Retrato de um dia na escola "primária". Eu... à conversa com o meu filho Henrique (7 anos, 1º ano de escolaridade)...

Então: o que é que aprendeste hoje na escola?
Sei lá...
Ok, vamos lá por partes. Língua portuguesa: o que é que aprendeste?
Escrevi a data.
Muito bem. O que é que escreveste?...
Braga, 16 de Maio de 2005.
Braga faz parte da data?...
Sei lá...
Então... por que é que escreveste?!...
A professora pôs no quadro.
Ah! e tu copiaste...
Claro. Que é que querias que eu fizesse?...
Nada, fizeste bem. Braga faz parte da data...
Achas?!...
Não faz?...
Claro que não. É onde nós estamos.
Ah!... E em matemática, o que é que tu aprendeste?
Eu?...
Sim, tu. O que é que aprendeste hoje em matemática?
Nada. Hoje não tivemos matemática...
Ah!... E em estudo do meio?
O quê?!...
Em estudo do meio: o que é que aprendeste?
Achas?!... Hoje só escrevi a data e fiz desenhos...
Desenhos?...
Desenhei o clima... Pus muitas nuvens a chover...

Monodocências...

13.05.2005

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Antologia poética (52)...

Improviso sobre a imperfeição...

A biblioteca privada da minha ignorância
tem lombadas a mais
as lombadas de todos os livros
que jamais escreverei
o pouco que sei
aprendi comigo.

Ademar
11.05.2005

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Antologia poética (51)...

Improviso sobre a esperança...

Esperança
tem muitas letras
diz-me o Henrique
eu respondo-lhe em silêncio
(convém não assustar a infância)
só mesmo em português
tem tantas.

Ademar
17.05.2005

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Maria Elisa: a ética do molusco... *

melisa.jpg

Quando Freitas do Amaral se candidatou à Presidência da República, Maria Elisa, a tiracolo de Proença de Carvalho, decidiu apoiá-lo. Estava no seu pleníssimo direito.
Cerca de 20 anos mais tarde, Freitas do Amaral, Ministro dos Negócios Estrangeiros, viria a aprovar uma medida de racionalização do pessoal das embaixadas que atingiu Maria Elisa, conselheira cultural em Londres.
Ninguém minimamente decente se atreveria a ligar os dois factos e a falar, neste contexto, de gratidão ou ingratidão. Não se apoia um candidato à presidência na mira de obter, futuramente, favores ou protecção pessoal.
Mas Maria Elisa já demonstrou que, eticamente, é um molusco. Repare-se no que ela diz ontem à Única, do Expresso:

Pergunta: Tendo em conta esse apoio no passado, sentiu, de alguma maneira, que Freitas do Amaral foi ingrato consigo? Porque ele foi o ministro que a tirou de Londres.
Resposta: Aprendi com a vida que a gratidão é um sentimento raro, ao qual eu sou muito fiel. Pessoas que, de algum modo, ajudamos ou apoiamos, são em geral as que nos tiram o tapete na primeira oportunidade. Aconteceu-me muitas vezes.

Maria Elisa, além de putativa cobradora de favores e favorzinhos, é muito pouco inteligente. A pergunta do Expresso era uma ratoeira (subtilíssima) e ela caíu nela...
Por favor, tirai-me este nojo da frente!...

* Foto da autoria de Pedro Ferreira.

A pedagogia da batota...

ronny.jpg

Ostensivamente, empurrou a bola para a baliza do Sporting com a mão. As imagens da televisão são eloquentes. O árbitro principal, que até nem estava muito longe do local onde tudo se passou, não viu. Os árbitros assistentes, também não. Nem o quarto árbitro. Oito olhos não viram a trapaça. O treinador do Paços de Ferreira aplaudiu. Os colegas do trapaceiro celebraram a batota, quero dizer, o golo. Foram todos cúmplices na trapaça, na vigarice. Ronny, o batoteiro, é hoje um herói. Os portugueses, em geral, admiram e protegem os trapaceiros.
Num país em que a ética desportiva prevalecesse, Ronny seria severamente punido. Em Inglaterra, muito provavelmente, sê-lo-ia. Em Portugal, veremos. Ficarei atento...

setembro 16, 2006

Antologia poética (50)...

Improviso sobre uma metáfora...

Sinto-me numa espécie de palco-país
contracenando sempre com os suspeitos do costume
além cena
na obscura contingência do mediano esquecimento
há os que espreitam e assistem apenas
e os que mendigam (sem pedir)
a luz ébria dos holofotes
apetece-me por uma vez descer do argumento
e confundir-me com os olhares
que simplesmente pestanejam.

Ademar
17.05.2005

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Antologia poética (49)...

Improviso sobre o desaparecimento...

Padeço de uma esquizofrenia raríssima
que não vem sequer nos manuais de psiquiatria
navego à vista do meu próprio corpo
e raramente acosto
penso mesmo
que já não me pertenço
vou-me desintegrando longe
muito longe de mim.

Ademar
18.05.2005

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Antologia poética (48)...

Improviso sobre a verdade e a mentira...

Há verdades
que eu prefiro ignorar
há verdades que me magoam mais
do que a mentira
há mentiras
que não acrescentam nem retiram nada
à verdade do que somos
e do que queremos
e há verdades que nos esmagam
como insultos
verdades que derramam egoísmo
e violência
e que apenas nos pacificam
com o espelho moral do umbigo
quando a verdade me mata
prefiro sobreviver na mentira.

Ademar
19.05.2005

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Antologia poética (47)...

Improviso sobre uma confusão de sombras...

Hoje errei o destino
enganado na sombra
tomei-me por outro.

Ademar
20.05.2005

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Antologia poética (46)...

Improviso ao jeito de Granados...

Se eu te dissesse de mim por cordas
dir-te-ia talvez na forma de guitarra
não fora ela
o cofre da tua melancólica prisão.

Ademar
23.05.2005

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Antologia poética (45)...

Improviso sobre as mulheres...

Há mulheres
dentro das mulheres
mulheres longínquas intermináveis
que os dedos do olhar jamais alcançam
ou tocam
há mulheres labirinto
sem portas nem janelas
entramos nelas e é
como se nos perdêssemos para sempre
mulheres desafinadoras de bússulas
e de mistérios.

Ademar
24.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (44)...

Improviso sobre a arte do pecado...

Convivo mal com os anjos
o ensaio forçado das inocências
transporta-me sempre ao fascínio do inferno
degredo-me na contemplação embaraçada
dos excessos de virtude.

Ademar
25.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (43)...

Improviso sobre a última das viagens...

Tenho um sorriso sábio guardado
na forma de uma coruja
asas especiais para voar as noites
e coruscante de estrelas
uma constelação de almofadas mágicas
para dormir o mais longe que possa de mim
não sei o caminho de volta mas
faço-me sempre acompanhar
de uma pequena mala imaginária
pressinto-o no destino das minhas mãos
um dia voltarei finalmente
a ser criança.

Ademar
27.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (42)...

Improviso sobre um pêndulo...

Tenho um pêndulo algures no coração
ou no lugar dele ou da alma
um pêndulo que oscila diariamente
entre o bem e o mal
o certo e o errado
o amor e o ódio
o sonho e o pesadelo
a paz e a guerra
o passado e o futuro
não sei se tenho algures um pêndulo ou
se é ele que me tem a mim.

Ademar
31.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Prós e Contras...

Vi hoje, na RTP1, o spot promocional do próximo Prós e Contras, em que participará, pela enésima vez, a Ministra da Instrução Pública. Pergunta de lançamento do debate: "o que vai mudar na educação dos portugueses?"
Se é para procurar resposta para uma pergunta tão idiota e estapafúrdia, a RTP1 escusa de fazer o debate. Eu adianto já a resposta (e não cobro quaisquer honorários) : não vai mudar rigorosamente nada.

A grande entrevista do Sol! José Sócrates é homossexual? Mário Soares tem amantes? Maria Barroso poderia ser adúltera? O corpo do Primeiro-Ministro será bem feitinho? Santana tem cama certa? Tudo o que quis saber e nunca teve ninguém que lhe dissesse...

sol1.jpg

Maria Filomena Mónica, hoje por hoje, está convertida na tonta de serviço a toda a comunicação social portuguesa. O neófito Sol concede-lhe a página 2 do caderno principal: a página do escarro. Com fotografia de corpo inteiro da "madama", vestida de preto (como se impõe a todas as viúvas). Por ela fiquei a saber que se um tablóide, em Inglaterra, noticiasse que José Sócrates é homossexual e estivesse a mentir, levaria uma penalização tão brutal que poderia acabar na ruína. Infelizmente, a distinta socióloga não desvenda o mistério da suposta homossexualidade do Primeiro-Ministro. Acrescenta apenas que José Sócrates "tem filhos, é divorciado e parece que namora com Fernanda Câncio".
Com raios deste calibre, o Sol promete muito pouco...

setembro 15, 2006

Improviso para adormecer mais tarde...

Imprevistamente chegas
dizes
deixei o corpo lá fora
digo
já não me apetece sair de casa
para te procurar
intimaremos mesmo assim
há dias em que a cabeça
não precisa de mais um corpo
para adormecer.

Ademar
15.09.2006

Rubem Alves...

200px-Rubem_Alves_caricat.jpg

Na Wikipédia, encontrei hoje esta caricatura de Rubem Alves. E, acoplado ao respectivo verbete, descobri um texto que me põe a ridículo http://pt.wikipedia.org/wiki/Por_uma_educa%C3%A7%C3%A3o_rom%C3%A2ntica
Não me reconheço em nenhuma qualidade, muito menos, na de... educador. Tenho 3 filhos e não me orgulho do que fiz ou faço por eles. É tão pantanoso ser...educador. Temos sempre a sensação (ou a certeza) de que falhámos...
Rubem Alves faz hoje (quero dizer, "desfaz") 73 anos. É uma das melhores pessoas que eu conheço. E uma, das mais brilhantes.
Um dia, íamos a caminho de mais uma palestra (uma "fala", como ele diz)´. O Rubem quis saber para quem ia...falar. Adolescentes, disse eu. Centenas. Ele pareceu, momentaneamente, assustado. Adolescentes?!... Que é que vou dizer a adolescentes?!...Fiz de conta que não percebi o embaraço. Sugeri-lhe, apenas, que falasse de... sexo. Sexo?!...
Ele ficou calado e recolheu-se. Ok! falarei de sexo para os seus adolescentes!...E, mentalmente, ao som de Bach (a nossa companhia de sempre), começou a projectar a intervenção que faria dali a pouco...
Foi a palestra mais magistral que, até hoje, eu ouvi ao Rubem (e já temos a nossa conta de palestras!). Por sorte, tenho-a gravada em video e, um dia, poderá ser publicada. Durante uma hora, os adolescentes (300? 400? 500?) estiveram em estado de hipnose a ouvir o Rubem. E sabeis como ele introduziu a palestra sobre... sexo? Recordando a prodigiosa estória de "amor" (melhor diria: paixão) entre Abelardo e Heloísa. Século XII...Depois, faria uma incursão por "Nouvelle Héloise", de Jean-Jacques Rousseau, e, a meu pedido, remataria, fulgurantemente, com a estória dos três porquinhos...
Aplausos frenéticos! E ali estava um ilustre e sexagenário académico que, em menos de meia hora, fora capaz de, mentalmente, estruturar uma palestra (brilhante) para adolescentes sobre...sexo.
Ao longo da vida, vamos acumulando memórias. A memória dessa tarde em Ribeirão com o Rubem é uma daquelas memórias que só a morte apaga.
Parabéns, meu querido Amigo!


Uma fotografia, apenas...*

gnr.jpg

* Agradeço, publicamente, ao A.R. a gentileza da fotografia. Ainda que se tratasse de uma montagem, a Brigada de Trânsito, da GNR, ficaria linda de... descapotável!

Antologia poética (41)...

Improviso redundante sobre a ciência...

Pedi à ciência uma fórmula para a poesia
pedi à ciência uma fórmula para a música
pedi à ciência uma fórmula para a pintura
pedi à ciência uma fórmula para o teatro
pedi à ciência uma fórmula para a dança
pedi à ciência uma fórmula para o cinema
pedi à ciência uma fórmula para a educação
pedi à ciência uma fórmula para a economia
pedi à ciência uma fórmula para a democracia
pedi à ciência uma fórmula para o encantamento
pedi à ciência uma fórmula para o amor
pedi à ciência uma fórmula para o prazer
pedi à ciência uma fórmula para a amizade
pedi à ciência uma fórmula para a paz
pedi à ciência uma fórmula para a beleza
pedi à ciência uma fórmula para a alegria
pedi à ciência uma fórmula para a felicidade
pedi à ciência uma fórmula para a honradez
pedi à ciência uma fórmula para a justiça
pedi à ciência uma fórmula para a liberdade
pedi à ciência uma fórmula para a inteligência
pedi à ciência uma fórmula para o bom senso
pedi à ciência uma fórmula para a tranquilidade
pedi à ciência uma fórmula para a esperança
continuo à espera.

Ademar
30.05.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

setembro 14, 2006

Improviso gramatical egocêntrico...

Tu
és o pronome
a segunda pessoa do singular
depois de mim
é claro.

Ademar
14.09.2006

A espiral do desespero...

Medir a temperatura ou descrever os sintomas; fazer o diagnóstico; prescrever a terapêutica, aplicá-la e avaliar os seus resultados... quem não entende que tudo isto é diferente, envolve "discursos" e "registos de pensamento" distintos e não pode ser concretizado de uma forma mecânica e instantânea?...
Na educação e na ensinagem, porém, quase todos aspiram ao milagre da instantaneidade. Ou então defendem que basta enunciar os sintomas. O aluno não sabe ou não é capaz?... O diagnóstico é simples e imediato: não estudou o suficiente (sofre de… preguicite”). Raramente alguém se pergunta (pais, professores, escola no seu todo...) se é a verdadeira causa da "doença"...
Passa-se, descontraidamente, adiante e o diagnóstico e a terapêutica remetem para uma "solução", também ela, simples e imediata: mais do mesmo (mais “aulas”). E a "doença", naturalmente, agrava-se...
Será que ainda ninguém se deu conta de que esta espiral de irracionalidade só nos poderá conduzir ao desespero?

Abril.2005

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Dicionário das palavras que eu amo (40)...

BARATO (1) - Desde criança que ouço dizer que "o BARATO sai caro". Sentimentalmente falando, não contesto.

BARATO (2) - É uma das incongruências idiomáticas, na língua portuguesa, que mais me fascinam: "dar de BARATO". Ou se vende (ainda que "BARATO"), ou se dá. "Dar de BARATO" é uma contradição (uma estultícia) nos termos. Ninguém dá de...BARATO. Há palavras e expressões que nasceram, apenas, para ilustrar o carnaval...Os idiotas adoram dizer que... dão de BARATO...

BARATO (3) - O hífen confere-lhe...dignidade, quero dizer, substância: fala-BARATO. Na asserção popular mais corrente, quem fala muito (diz-se que "pelos cotovelos") é... fala-BARATO. Não é. Pode-se falar muito e...caro. Os professores, por exemplo, que "dão" aulas falam muito, mas, em geral, não passam de... fala-caros" (os alunos "ouvintes" raramente entendem o que eles dizem). Os fala-BARATOs não sofrem, propriamente, de verborreia - sofrem de outra patologia, mais ligada ao carácter. O fala-BARATO é o vulgar trapaceiro. Espécie que abunda na política, no futebol, no sindicalismo e actividades congéneres. Distinguem-se à distância...

BARATO (4) - Hoje (racionalidade económica!) descobri que a banda-larga é muito mais BARATa do que a banda-estreita. E troquei a Telecom e a Telepac pela Netcabo...Terei, por mês, mais 100 € para outros vícios...

Os raios do Sol...

A Impresa, de Pinto Balsemão, controla o Expresso e a SIC.
A RTP concorre com a SIC e o Sol (que nascerá, finalmente, no próximo sábado) propõe-se suplantar o Expresso em 6 meses.
Hoje, a RTP vendeu, em horário nobre, mais de meia hora de publicidade gratuita ao Sol. Entrevistado (perdão: grande-entrevistado) por Judite de Sousa, José António Saraiva, director do Sol, fez o que pôde (com a modéstia e o sentido das proporções que, há muito, o distinguem) para justificar a confiança da Opus Dei, perdão, do Millennium-Bcp, no seu... projecto.
E eu, accionista do Estado e (indirectamente) do canal público de televisão, descobri-me na patética condição de involuntário financiador do Sol e do Milennium-Bcp. Desculpai a pergunta idiota: isto também foi a votos nas últimas eleições legislativas?...

Memórias da Escola da Ponte (48)...

Era uma vez...

Os alunos tinham-me convidado para falar hoje, na Assembleia, do 25 de Abril. A mim e, naturalmente, ao Zé Pacheco. Era suposto que, uma vez mais, contássemos estórias "desse tempo" - tempo que, para eles, é história e, para nós, apenas, memória.
Não pensei mais no assunto, até que, depois de almoço, lá segui para a Assembleia, para falar do 25 de Abril. No caminho, apareceu-me uma ideia (as ideias aparecem-me, como os poemas). Pensei que o mais "eficaz" seria talvez "encenar" o 24 de Abril.
Quando me chamaram ao palco, avancei com "cara de poucos amigos" e disse-lhes mais ou menos o seguinte (cito-me de memória, porque não escrevera previamente o guião):
"Não vou falar do 25 de Abril, porque estou muito zangado convosco e vim aqui, muito rapidamente, transmitir-vos o que decidi. A partir de hoje, esta Assembleia vai ter que funcionar de uma forma muito diferente. A Mesa que vocês elegeram não tem condições para continuar a dirigir estas reuniões e vou demiti-la. A partir da próxima sessão, esta Assembleia passará a ser dirigida por uma Mesa que eu escolherei.
Mas há mais. A partir de hoje, só poderá participar nestas reuniões quem eu autorizar. E a ordem dos trabalhos serei eu a defini-la. A partir de agora, só falarão sobre aquilo que eu deixar. E nem todos poderão usar da palavra: só intervirão os meninos e as meninas que disserem o que eu quero ouvir. E quem falar sobre o que não deve, será expulso da Assembleia e castigado.
Mais: vou pedir à GNR que me ajude a impor a ordem. Os alunos que se portarem mal serão imediatamente conduzidos ao posto da GNR e levarão uma sova. Se a sova não for suficiente, serão detidos e ficarão na prisão o tempo que for necessário.
Para grandes males, grandes remédios! E fim de conversa..."
Fez-se na sala um silêncio sepulcral. Os meus colegas, apanhados de surpresa, tentavam conter a gargalhada. Os alunos mais velhos, também. Mas os mais novos não escondiam o pânico: eles julgavam que eu estava a falar a sério... E, mantendo o ar carrancudo, regressei à cadeira que ocupava.
O Zé captou o "embaraço" e, intervindo a seguir, explicou pedagogicamente o sentido da minha intervenção. Senti um enorme alívio na sala. E vários alunos confessaram, de imediato, que tinham acreditado mesmo que eu estava zangado e que iria fazer o que anunciara.
Acho que os alunos da Escola da Ponte que estavam hoje na Assembleia não precisarão jamais que alguém lhes explique por que houve, neste país, em 1974, um 25 de Abril...

30.Abril.2005

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Antologia poética (40)...

Improviso em forma de vingança...

Ocorreu-me hoje uma frase
a circunstância é a matéria-prima da alma
ter-me-ei vingado de Unamuno?

Ademar
28.04.2005

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Antologia poética (39)...

Improviso dedicado ao Fernando Alves, o meu antipolícia sinaleiro de todas as manhãs...

Tenho uma biblioteca de máscaras
uma mascaroteca
(palavra das arábias! )
cada máscara reúne a sabedoria possível
de muitos livros
todos
os que já se fecharam em mim
sou um espelhador de pessoas
(invento palavras para me libertar de estantes).

Ademar
27.04.2005

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Antologia poética (38)...

Improviso ao jeito de J.S. Bach, para quatro cordas e um arco...

Antecipavas uma multidão
e deparas-te apenas com um violoncelo
todas as vozes possíveis
em quatro cordas e um arco
deixas-te percorrer pelos dedos
que te tocam
e regressas finalmente à condição iluminada
de instrumento.

Ademar
26.04.2005

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Um testemunho (recorrente) sobre as reformas imbecis do ensino...

diario.jpg

Em 1902, o meu avô paterno, Veríssimo Augusto da Silva Guimarães, que não cheguei a conhecer, escrevia (transcrevo do seu "diário"):
"Está devidamente demonstrado que as actuais reformas com que tem sido invadido o ensino no nosso país, que estava em condições de se apresentar face a face ao das outras nações, para que não fosse escarnecido, como desgraçadamente acontece, constituem um verdadeiro precipício para os seus autores, porque dão o testemunho triste da imbecilidade e ignorância com que foram formuladas.
Não admira que a instrução seja cada vez mais vilipendiada, que o analfabetismo seja retido no lodaçal da vergonha, porque na mente desses homens não existe o cuidado de dissipar aquele foco epidémico que se propaga de geração em geração, mas tratam de dificultar energicamente o conhecimento de matérias úteis e indispensáveis a todo o indivíduo.
Não discutindo o programa agora adoptado no ensino secundário, que nenhum aperfeiçoamento trouxe ao anterior, porque rapazes, sei, terminaram o seu curso ignorando princípios que noutro tempo os mais cábulas não desconheciam e muito menos a reforma da Universidade, que (...)"

Mais adjectivo, menos adjectivo, este é o discurso sobre o estado do ensino em Portugal que, passado mais de um século, uma parte da nossa distinta "intelectualidade", brilhantemente acantonada nas páginas do Público, continua a glosar.
Em 1902, o meu avô escrevia já no mesmo registo catastrofista: cada geração saía da escola mais ignorante do que a precedente. Tem sido assim, na Europa, há, pelo menos, três mil anos (quase novecentos, na versão portuguesa)...
A recorrência do queixume dever-nos-ia fazer pensar. Será mesmo assim? A decadência do ensino não estará antes no espelho que projecta as nossas vaidades geracionais? Não teremos nós a tendência (a idade e o envelhecimento não perdoam) para pensar que os nossos filhos sabem sempre menos do que nós, com a mesma idade, sabíamos?...
Eu não desculpo a escola, mas acho que o problema dos sistemas educativos não está apenas, nem sobretudo, na escola. Está em nós...
Temos mais olhos do que barriga - e somos, estruturalmente, incapazes de pensar e de inovar, quando nos tiram da frente o espelho. Eu sei que a escola que temos não é uma inevitabilidade. É um produto de mil e um preconceitos e representações que afagam o nosso ego e reificam o passado no nosso olhar...

Abril.2005

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setembro 13, 2006

Diário em forma de silêncio (43)...

Já não sei por que nome me conheces, nem mesmo se me reconheces. Por vezes, sinto que já não te pertenço; outras, que te pertenço excessivamente. Haverá, talvez, mulheres a mais e a menos na tua vida. Umas, desistiram de te habitar. Outras, continuam à espera que lhes abras a porta. Ignoro em que condição me pensas. Desconfio que entre as duas: esse território impossível da saudade, em que, por fim, te perderás...

C.A.

Antologia poética (37)...

Improviso em forma de jazz...

Um standard
talvez tu e eu (entre parêntesis)
ou simplesmente
um piano vagabundo
espreguiçando.

Ademar
23.03.2005

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Antologia poética (36)...

Improviso redundante...

Se eu tivesse explicação
para a poesia
escrevia em prosa
o feitiço das palavras
passa-me ao largo
coloco-me apenas no lugar
onde elas me toquem.

Ademar
21.03.2005

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Antologia poética (35)...

Improviso quase marítimo...

Tenho a página em branco
para o poema nocturno que tarda
vou adiando-me
mergulho nas palavras
e não regresso à superfície
se me desses a mão
talvez me encontrasses
na onda de uma metáfora qualquer
e acostasses comigo
nesse areal de todos os esquecimentos.

Ademar
21.03.2005

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Antologia poética (34)...

Improviso erótico...

De vez em quando apetece-me a reciclagem
deposito-me num contentor
e fico à espera que me levem
para a incineradora mais próxima
sinto que adoeço do lixo acumulado
depuro-me no fogo.

Ademar
20.03.2005

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"Life is a video game"...

jogo.jpg

É cada vez mais difícil ser pai e educador...

Tenho a sorte de ter um filho adolescente que adora jogar futebol e que é capaz de trocar quase tudo pelo prazer de pontapear uma bola. Quando vejo os colegas dele fechados em casa a simular assaltos e a "matar polícias" em jogos de video, mais ainda me apetece alimentar a paixão do Francisco pelo futebol.

De vez em quando (a pressão dos pares, na adolescência, é terrível), o Francisco "namora" certos jogos de video. O último chamava-se "GTA San Andreas". Percebi que era o jogo da moda entre os colegas. Vi a "bula" e fiquei assustado. É um jogo que simula assaltos e assassinatos de polícias, numa cadeia verdadeiramente infernal de violência gratuita. A empresa que comercializa o jogo, farisaicamente, desaconselha a sua venda a menores de 18 anos. Não sei, francamente, se é uma estratégia de promoção do produto...

Hoje, no excelente "60 Minutos" da CBS, vi uma reportagem sobre um miúdo negro norte-americano, Devin Moore, que, inspirado num jogo de video chamado "Grand Thetf Auto" (que consumia obsessivamente), matou 3 polícias no espaço de um minuto. O miúdo limitou-se a transpor para a realidade um exercício que, diariamente, simulava na sua consola. Quando lhe perguntaram por que tinha feito aquilo, terá respondido tranquilamente: "life is a video game!".

Perguntei ao Francisco se conhecia o jogo. Ele não hesitou: "claro, é o jogo que tu não me deste no dia dos meus anos!". A ligação não me ocorrera: GTA=Grand Theft Auto...

Tenho a certeza de que, a esta hora, milhares de adolescentes em Portugal estão a jogar em suas casas (ou nas casas dos amiguinhos) o Grand Theft Auto, contando polícias mortos. A vida, para eles, de facto, não passa de um sinistro "video game"...

Março.2005

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setembro 12, 2006

Diário em forma de silêncio (42)...

As noites imaculadas esquecem depressa. Preferiria perder-me nos meus defeitos, ser lembrada, talvez, por eles. A perfeição cheira a morte - ninguém quer estar perto dela. Sinto que a minha noite não tem fim, que se prolonga por todas as manhãs, como se o sol jamais a interrompesse. Sim, perfeita (dizem): eu sou perfeita. E depois? Quem me devolverá as manhãs que despertam? Quem dirá, humanamente, que não presto? Quem me derrubará do altar em que apodreço?...
As minha mãos são as mais belas mãos que já viste, mas estão vazias. E doem, sabes, de insónias...

C.A.

Antologia poética (33)...

Improviso (em prosa?) sobre um acordeão esquecido...

Há um instrumento musical em que sempre tropeço,
quando me levam pela mão a ouvi-lo: o acordeão.
Sento-me na soleira da porta da casa dos meus pais
fecho os olhos para fingir de cego
(ou fixo-os num ponto qualquer ausente em mim)
e toco.
Toco aquele velho e trôpego acordeão,
enquanto as beatas de mantilha negra
a caminho do ofício do terço (ou seria da verbena?)
deixam a moeda distraída no chapéu virado do avesso,
como agora a minha memória.
Os homens não levam a mão ao bolso.
A caridade é feminina.
E eu continuo a tocar para ninguém
o acordeão que me escorre dos dedos
(ou será da alma?).
Hei-de procurar-me lá:
na soleira da casa onde nasci.
Talvez me encontre
(ou a partitura)...

Ademar
15.03.2005

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Antologia poética (32)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (3)...

mulher3.jpeg

Há sempre em mim
uma criança que te espreita e procura
regresso no fim ao princípio de tudo
para que me acolhas e rejeites.

Ademar
18.03.2005

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Antologia poética (31)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (2)...

mulher2.jpeg

A metade da mulher que eu não reconheço
pertence à imaginação
é a parte que brinca
com a liquidez marítima dos meus olhos.

Ademar
18.03.2005

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Antologia poética (30)...

Improviso sobre um estudo de Malhoa (1)...

mulher1.jpeg

Não sei se saio do teu corpo
ou das vestes que o prolongam
escondo-me sempre atrás do desejo
para parecer ausente.

Ademar
18.03.2005

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Antologia poética (29)...

Improviso sobre a eutanásia...

Não quero que me mates
se fores capaz de entender a diferença
pedir-te-ei simplesmente
que me ajudes a morrer.

Ademar
25.03.2005

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Antologia poética (28)...

Improviso ao estilo de Manoel de Barros...

Hei-de crescer com as silvas
e morrer entre elas
predestinei-me para erva daninha.

Ademar
27.03.2005

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Saudade...

Francisco Lucas Pires... *

expresso.jpeg

A arrumar papéis antigos, parei nesta fotografia, estampada na edição do Expresso de 9 de Outubro de 1982. A memória recua quase 23 anos. O tempo devora-nos... Ao centro, na fotografia, o Francisco Lucas Pires, então Ministro da Cultura. Dez anos antes, fora meu professor, em Coimbra, de Direito Ultramarino ou Colonial, já não consigo lembrar-me sequer do nome exacto da cadeira. Creio que nem ele levava aquilo muito a sério. Aliás, era uma das facetas mais apelativas da personalidade do Francisco Lucas Pires, o distanciamento irónico com que se via ao espelho. Ele era, sempre, o primeiro a rir de si próprio... Na manhã do 25 de Abril, quando tudo era ainda incerteza, o Francisco Lucas Pires, ao contrário de outros, fez questão de ir à Faculdade e "marcar o ponto". Não deu "aula", quis apenas saudar e despedir-se dos alunos. Ele já tinha percebido que a revolução ia virar o país e a universidade do avesso (pelo menos, na epiderme) e que o ano lectivo, para ele, acabava ali. Na grelha curricular do curso de Direito à moda de Coimbra, havia duas disciplinas que, inexoravelmente, estavam predestinadas a morrer com o fascismo: Direito Ultramarino (ou Colonial) e Direito Corporativo (que, sublime ironia, o Vital Moreira chegara a "reger"!). Nessa manhã, eu não fui à Faculdade e não pude ouvir as despedidas do Francisco. Quase dez anos depois, no Pabe, conversámos sobre isso e, sobretudo, rimos muito sobre isso...
O Francisco Lucas Pires era, à sua maneira (muito especial), um homem de direita. Não acreditava excessivamente na bondade da espécie humana e torcia o nariz, politicamente, a todos os messianismos redentores. O convívio intelectual com Beckett, com Camus, com Sartre (que, tão frequentemente, citava nas aulas) e com os pensadores do existencialismo desviara-o do caminho das utopias e das receitas pronto-a-vestir para a salvação da humanidade. O seu antidogmatismo aproximava-o, porém, de uma certa esquerda liberal e estou convencido de que ele teria feito, politicamente, um percurso muito semelhante ao de Freitas do Amaral, se o coração, estupidamente, não lhe tivesse falhado naquela fatídica viagem de automóvel, em 1988. Hoje, dia em que os cristãos celebram a ressurreição de um messias, apeteceu-me evocar aqui a memória de um dos portugueses mais ilustres e brilhantes que tive a honra de conhecer: Francisco Lucas Pires. Não conheço, pessoalmente, o seu filho Jacinto. Tenho acompanhado, à distância, o seu percurso literário. Mas de uma coisa tenho a certeza: em tudo aquilo que ele escreve, de uma forma ou doutra, o pai (desculpa, Teresa, escrevê-lo assim!) está presente... Por isso, posso dizer que o Francisco não morreu...

27 de Março de 2005, dia de Páscoa

* publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

setembro 11, 2006

Diário em forma de silêncio (41)...

Não foi premeditado, nem sequer desejado e tu sabe-lo. Os estados de necessidade emocional explicam tudo, todos os turbilhões.Tu próprio, se bem te lembras, te encarregaras de escrever ou reescrever o destino. Sabias ou julgavas saber que, um dia, eu empreenderia a viagem de regresso. Envergonhadamente, como poderás imaginar. Distraindo as próprias sombras, tentando que ninguém percebesse, que ninguém descobrisse. Tu, sobre todos os demais. E logo tu... foste descobri-lo, nem sei como. Por vezes, julgo que tens mesmo um dom qualquer, que te permite antecipar o futuro (ou, pelo menos, adivinhar o presente). Eu não queria que continuasses a pensar-me assim tão frágil, tão imatura, tão inconsequente. Tão... (estou ainda a ouvir-te) adolescente. Talvez te tenha desiludido. Talvez me tenha desiludido. Desculpa! Apesar de tudo, eu sei que não merecias. Nem eu...

C.A.

Antologia poética (27)...

Improviso para desaprender o futuro...

Já nada peço ao espelho
distraí-me da eternidade
e o tempo corre agora para trás
entre imagens em que já não me revejo
desaprendo-me lentamente
de me espreitar no futuro.

Ademar
07.12.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Uma escola, um aluno...

tbouro.jpg

Há vinte anos atrás (não foi ontem) conheci em Terras de Bouro (talvez o mais belo concelho de Portugal continental) uma escola que tinha apenas um aluno. Não importa em que freguesia ou em que lugar. Havia um casebre que servia de escola primária, havia uma professora (que raramente lá punha os pés) e havia um rapazinho, que fazia de aluno. Quando visitei a “escola”, a professora já estava a faltar havia várias semanas (e não havia ninguém que estivesse disponível para a substituir). O miúdo, com quem conversei, vivia a poucos metros da escola e era, pareceu-me, muito vivo e inteligente. Não sei o que lhe aconteceu, escolarmente falando; terá completado o primeiro ciclo? Naquelas circunstâncias, não acredito. Hoje, provavelmente, será pastor ou terá emigrado, como a maioria dos terrabourenses. Se tivesse tido a sorte (ou o azar) de nascer e crescer no litoral, é muito possível que hoje fosse licenciado e estivesse no desemprego, como a maioria dos licenciados portugueses. Seria mais feliz? Poupo-vos à metafísica do salazarismo…
Naquela aldeia, não havia mais crianças. E os pais da criança que eu conheci já tinham “fechado a loja” da procriação. Coloquei o problema ao Presidente da Câmara, um dos autarcas mais extraordinários que eu conheci: não fazia sentido fechar aquela escola? Ele torceu-se todo, como se diz num certa gíria. Se aquela escola fechasse, o miúdo nunca mais frequentaria o sistema de ensino; os pais não o deixariam frequentar outra escola. Mal por mal, antes assim. Talvez aprendesse a ler e a escrever, talvez conseguisse terminar o 1º ciclo, talvez…
Digo isto para que se perceba o meu ponto de vista: a decisão de fechar uma escola “primária” (por falta de alunos ou de “condições”) será, sempre, neste país, uma decisão extremamente delicada e problemática. Uma decisão cuja bondade só caso a caso poderá ser aferida (e, mesmo assim, com muitos pontos de interrogação). Por isso é que me dói ver a Ministra da Educação falar do encerramento de mil e tal escolas “primárias” com uma ligeireza que chega a pisar as fronteiras da inconsciência. A senhora não conhece o país “real”, não conhece as populações e não conhece os autarcas. Em muitas localidades, fechar a “escola primária” significa atirar para fora do sistema de ensino muitas e muitas crianças. Eu sei que a Ministra, cuja recta intenção não ponho em causa, está convencida de que isto não sucederá. Chego a ter pena dela: ainda não percebeu que o país rural não é um teatro de fantoches, manipulável por despacho…

Antologia poética (26)...

Improviso sobre a gaguez do silêncio...

Perguntas-me pelo libreto
como se as árias que arrisco nesta descontínua partitura
já não fossem suficientes
para me cantar
digo-te
não tenho a paciência interior
dos maratonistas da alma
continuo fechado no quarto da infância
entre dicionários cromos e legos
a minha mãe ainda bate à porta
e zanga-se com a chave por dentro
continuo a improvisar os medos da infância
já escrevi e reescrevo aqui
hei-de morrer de inibições
ainda que te desiludas
negar-me-ei sempre o libreto
talvez eu sofra
de uma patologia estranha e quase arcaica
este silêncio sôfrego
e tantas vezes gaguejante.

Ademar
24.02.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Sobre a importância das pessoas...

As únicas pessoas importantes que eu reconheço são as pessoas que me importam. As outras são-me completamente indiferentes. Já vivi o suficiente para saber que a maior parte das pessoas que passam por importantes são tão vulgares e comuns como eu. Muitas até (perdoai-me a imodéstia) serão menos interessantes.
Quando eu era criança, julgava que as "pessoas importantes" tinham um halo qualquer sobre a cabeça e eram mais inteligentes, mais virtuosas e mais cultas do que as demais. Depois fui descobrindo que não era assim e que as "pessoas importantes", em geral, não tinham nada que as recomendasse à posteridade, a não ser o néon. A História está a abarrotar de "filhos da puta" (e que as "putas" me perdoem) que se julgaram ou foram julgados...importantes.
A minha vontade, hoje, de conhecer "pessoas importantes" é nula. Não lhes abriria a porta de minha casa, nem beberia um whisky com elas. Imaginai a lista dos indesejados...

Fevereiro.2005

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Elogio da saudade...

Acho que só há uma maneira de perceber a falta que certas pessoas nos fazem: estarmos longe delas e interrogarmos em nós o sentido da sua ausência. O hábito é corrosivo da saudade e sem saudade...as pessoas morrem.
O cancro da maior parte das relações é o hábito, que estiola a fantasia e torna irrelevante ou dispensável a necessidade do outro. As relações precisam de férias, como o corpo e a alma. Por isso é que eu digo que não há como o distanciamento físico para percebermos como os outros são ou não importantes para nós.
As pessoas que se pesam demasiado umas às outras não têm futuro entre si. O excesso de peso mata...

Fevereiro.2005

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

O direito de morrer...

A vida é um valor sagrado - ouvi dizer há pouco numa reportagem (aliás, excelente) sobre a eutanásia, que passou no jornal da noite da SIC.
O adjectivo é, obviamente, uma armadilha: "sagrado", no contexto da proposição, remete para uma alteridade qualquer, sabemos qual. A vida não pertenceria ao próprio, mas a outrem, o grande criador. E não pertencendo ao próprio, ninguém, nem o próprio, poderia dispor dela. Eis o argumentário de base de quem se opõe ao reconhecimento legal do direito à eutanásia e ao suicídio assistido (argumentário, porém, que não impede a maior parte dos estados americanos de continuar a aplicar, suponho que em nome de deus, a pena de morte).
Eu contraponho: a vida é um direito individual absoluto. Só o próprio pode dispor dela. Ponto final, parágrafo.
O mais é uma questão procedimental. Importante, certamente, porque a fronteira entre o homicídio e a eutanásia não pode ser equívoca. Mas os meios não diminuem, nem afectam os princípios. E o princípio é o direito de cada um a dispor da sua vida, que compreende o direito de pedir e obter ajuda para morrer.

26.02.2005

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Antologia poética (25)...

Improviso sobre a arte da caça...

A pele
arranhada dos tigres ausentes
(ou seria a alma da mobília?)
a floresta tem tantos silêncios felinos
os segredos é que ainda não estão
ao alcance de todos.

Ademar
30.03.2005

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A "monodocência" como crime educativo...

Como é que os professores (e os pais) podem mudar os professores? Dialogando, colaborando, exigindo, confrontando-se e avaliando-se.
A escola que hoje temos é, rigorosamente, o contrário da escola de que precisamos.
Cada professor considera-se o princípio e o fim da escola. Na sua sala de aula (ou "jaula"), ele não admite intromissões, nem parcerias, nem observações que possam questionar a sua sacrossanta "autonomia profissional". Que ninguém o confronte com as suas limitações científicas ou metodológicas, que ninguém o perturbe no exercício do ritual docente (que ele é capaz de repetir, monocordicamente, trinta e tal anos a fio, sem "contraditório", como se aspirasse à condição de monarca absoluto).
A triste e patogénica realidade do isolacionismo e umbiguismo docentes (que atravessa, deve dizer-se, todos os escalões do sistema de ensino, "superior" e "inferior") atinge as raias do paroxismo no 1º Ciclo, onde vigora esse extraordinário princípio civilizacional da "monodocência": um único professor para todas as áreas curriculares. Ele tem que dominar muito bem os métodos de iniciação à leitura e à escrita (e há tantos), ele tem que gostar de matemática (para poder cultivar nos alunos o gosto pela matemática), ele tem que saber um pouco de música (a educação musical faz parte do currículo), tem que dominar as técnicas de expressão plástica, etc, etc, etc. O princípio da monodocência assenta numa ficção e organiza-se na aldrabice. A esmagadora maioria dos professores "monodocentes" do 1º Ciclo é satisfatoriamente competente (quando é) numa área curricular - nas outras, faz o que pode (quando pode ou tem vontade de fazer). Donde resulta que a formação das nossas crianças, vítimas do regime da "monodocência", é, em geral, uma formação coxa e pobremente estruturada.
Percebe agora o leitor por que estamos tão mal situados no PISA e noutros estudos internacionais? A monodocência no 1º Ciclo é um crime educativo. Extingui-la, não resolverá, certamente, todos os nossos problemas, mas será um primeiro passo. Indispensável, para que outros passos possam ser dados...

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Improviso sobre todas as mulheres e nenhuma...

Uma mulher é
uma mulher
uma mulher
uma mulher
as mulheres choram
as mulheres gemem
as mulheres sangram
as mulheres não dormem
as mulheres desconhecem o plural
dos substantivos masculinos
e femininos
quando é o caso
as mulheres têm muito mais
do que duas pernas
e dois braços
quando sorriem
sorriem por todos os lábios
e os seus olhos perscrutam sempre
o invisível
mulheres-bruxas
mulheres-feiticeiras
mulheres-absolutas
como diria Herberto Helder
nesse poema contínuo
que nem a morte interromperá
mulheres que nunca jogam em serviço
mulheres que sonham
destinos sempre improváveis
que serpenteiam ausências
através do desejo dos homens
e das outras mulheres
quando é o caso
que silenciam e gritam
que seduzem e fogem
que abrigam e desabrigam
e nunca deixam de amar
mulheres servidas eternamente à poesia
porque só a poesia as serve
nessa fronteira intangível
das palavras que sabem tudo
dizendo nada.

Ademar
11.09.2006


setembro 10, 2006

Dicionário das palavras que eu amo (39)...

SINCERIDADE (1) – Não confundir com… espontaneidade. As crianças, em geral, são espontâneas e parecem sinceras, mas a sua sinceridade, muitas vezes, não passa de uma arma de arremesso dos adultos que as manipulam. SINCERIDADE não rima com crueldade, nem com preconceito. A criança branca que, na escola, diz que o seu colega preto é feio… está a ser sincera? Provavelmente, estará, mas a sua SINCERIDADE é-lhe estranha. E, de todo, não se recomenda…

SINCERO/A – No princípio, está o quê? O substantivo (sinceridade) ou o adjectivo (SINCERO/A)? E qual a origem etimológica de SINCERO/A? Popularmente, vale a versão fantasista: sine (sem) + “cera” (mancha). Nesta versão, SINCERO/A seria sinónimo de… imaculado/a (sem mancha). Os etimologistas, porém, não dão há muito para este peditório. SINCERO/A proviria, antes, de “sincerus”: “sim” (um só) + “cerus”(que cresce para a frente). A pessoa SINCERA só tem uma palavra e essa palavra exprime o que pensa. Daí a… qualidade (e a origem etimológica).

SINCERIDADE (2) – Os amantes gostam muito de se exigir… SINCERIDADE. Imagino, sempre, os seguintes diálogos de alcova: (ele para ela) “ Hoje, vi 3 mulheres muito mais atraentes e desejáveis do que tu”; (ela para ele) “ Lamento dizer-te, mas o Paulo tinha muito mais jeito e dava-me muito mais prazer do que tu”; (ele para ela) “Há vários dias que tenho vontade de te pôr os cornos”; (ela para ele) “Hoje, apeteceu-me aceitar o convite do Hugo para jantar”. Etc… Nenhuma relação amorosa resistiria por muito tempo à rotina benemérita da…SINCERIDADE…

Diário em forma de silêncio (40)...

Até talvez te desse a mão, se eu não soubesse, se não soubéssemos, aliás, que a usarias como porta de entrada em mim. E eu, alegremente, do lado de cá, a abri-la, para tu entrares. O problema seriam depois… as correntes de ar. Quando se abre uma porta, convém que todas as demais estejam fechadas…Entendes agora por que recuso a mão que me pedes? Há que arrumar, primeiro, a casa…

C.A.

Improviso para contar cadáveres...

Entre a morte e a ausência
que já mal distingo
vagueio neste labirinto de sombras
rastos vestígios sinais
pijamas que ainda cheiram
chinelos que ficaram órfãos de pés
toalhas de banho distraídas de corpos
que não voltarão aqui a humedecer
dizes
talvez o mel e as tostas integrais
a lingerie esquecida na gaveta dos acessórios
a máquina de filmar
com o desejo todo lá dentro
e as laranjas para o sumo que já ninguém bebe
e o haxixe que já ninguém fuma
e os lençóis e as almofadas que dormem finalmente
a indiferença
amanhã regressarei ao cemitério
para contar de novo os cadáveres
falta um.

Ademar
10.09.2006

Antologia poética (24)...

Improviso em forma de uivo...

Há quem se canse de latir em segredo
outros ladram para calar o silêncio das noites
desenhas-te na alma
o mapa das solidões animais.

Ademar
31.03.2005

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Antologia poética (23)...

Improviso sobre um desenho de Almada (2)...

almada2.jpg

Talvez não fosses tu quando mordesses
talvez não fosses tu quando arranhasses
talvez não fosses tu quando gemesses ou gritasses
talvez não fosses tu quando lambesses
talvez não fosses tu quando cheirasses
talvez não fosses tu quando saltasses e fugisses
talvez não fosses tu quando aninhasses
talvez não fosse tu quando escorresses
talvez não fosses tu quando montasses
talvez esse animal que trazes pela coleira
dependurado do instinto.

Ademar
28.03.2005

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Antologia poética (22)...

Improviso sobre um desenho de Almada (1)...

almada1.jpg

Não tenho medidas para a perfeição dos corpos
aprendi na catequese da intimidade
que todos os corpos são imperfeitos
porque neles projectamos sempre alguma ausência
gestos ou formas que não casam exactamente com o desejo
ou talvez mesmo o imperceptível o movimento
que arranha por dentro o olhar e nos cega.

Ademar
28.03.2005

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Eva e o elogio da castidade (Parte III)...

eva_longoria03.jpg

A A.M. deu-se ao trabalho de procurar a "prova do crime", que a fotografia de Eva Longoria que ontem publiquei aqui não passaria de uma grotesca montagem. E acaba de me enviar a imagem supostamente original de Eva que teria sido manipulada e adulterada pelos "criminosos". Não sou "expert" nestas matérias e admito tudo. Mas preferia, apesar de tudo, a mentira. A pilosidade da Eva do Génesis era um tratado de erotismo. Esta Eva assepticamente depilada é um convite à distracção do olhar...

Eva e o elogio da castidade (Parte II)...


A propósito de "Eva ou o elogio da castidade", enviaram-me uma fotografia mais recente (continuo a supor) de Eva Longoria, agora "produzidíssima".

longoria2.jpg

Imaginai que fazia um teste e vos perguntava qual das duas fotografias de Eva que, ontem e hoje, estampei aqui consideraríeis a mais apelativa ao olhar e a mais erótica. Tenho a certeza de que as mulheres tenderiam a eleger a segunda e os homens, a primeira.
Uma querida amiga sugeria-me ontem uma tese que jamais me ocorrera: as mulheres não se depilam para impressionar os homens, mas...as outras mulheres.
Faites vos jeux!...

setembro 09, 2006

Antologia poética (21)...

Improviso lesa-pátria...

Tenho Portugal atravessado algures em mim
entre o cansaço e a desilusão
pátria género indefinido
macho nas caravelas e fêmea
na vaga espera de todos os solstícios
este excesso de luz que nos cega
esta modorra de negreiros extintos
farsa quase milenar de mascarados
Portugal das cenas do ódio
e de todas as ceias de cardeais
Portugal dos pequeninos
e das mais belas aldeias moribundas
em concurso de sombras
e da padralhada de junqueiro
arena antiga de toureiros e fadistas
e barões ao balcão da mercearia
Portugal também ele exausto
quase tanto como nós.

Ademar
26.02.2005

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Eva ou o elogio da castidade...

Um amigo (da onça...) lançou-me hoje uma provocação: publicar e comentar esta fotografia.
evalongoria.jpg

Creio que é a primeira vez, em mais de dois anos de abnoxio, que publico a fotografia de uma mulher nua. Não sei em que site estará disponível, nem sei tão pouco se não se tratará de uma montagem. A mulher fotografada daria pelo nome de Eva Longoria e, segundo informações que entretanto recolhi, seria uma "actriz" que, ultimamente, tem dado nas vistas (o que, se resto, se compreende, dados os atributos que, sem pudor, evidenciava em tempos menos proeminentes).
O que me seduz nesta fotografia não é, propriamente, a beleza da mulher (discussões metafísicas em que, por regra, não entro), mas a ousadia de quem submete assim as suas mais íntimas e pujantes pilosidades à severidade intemporal de uma objectiva.
Hoje, são raríssimas as mulheres que não se depilam com ferocíssima abnegação. O ritual é deprimente. Parece que a natureza da espécie já não serve à espécie. O corpo feminino deveria fixar-se, para sempre, na puberdade. Todas as mulheres aspirariam a passar eternamente por pré-adolescentes. Pêlos, nem vê-los. Nem mesmo a cobrir ou a proteger as partes ditas pudendas (nunca percebi, aliás, o alcance do casto adjectivo)...
Daí a minha surpresa e até quase espanto perante esta fotografia (supunhamos) de Eva. Aparentemente, ela não esconde nada, oferece à objectiva, sem reservas nem truques de esteticista, a sua nudez mais íntima, não há pêlos a mais nem a menos no seu corpo: há, simplesmente, um corpo, que não finta, nem aldraba a natureza.
Eroticamente, é uma fotografia (uma verdade) que funciona. Pelo menos, a meus olhos, cansados de mulheres assepticamente peladas. Como galinhas em trânsito para o micro-ondas...

Concorrência...

33 anos depois, o Expresso apareceu hoje com novo formato. Parece que a edição esgotou num ápice. Não por nenhuma notícia extraordinária que publicasse, mas porque, durante 8 semanas, a partir de hoje, irá oferecer aos leitores um "grande filme" em dvd (hoje, foi "Lost in Translation"). Ademais, está mais barato: agora custa 2.80€, em vez dos 3€ anteriores. É só vantagens...
Claro que nada disto é...inocente ou altruísta. A direcção do Expresso entendeu que bastariam 7 semanas de dvd's para "esvaziar" o impacto do próximo lançamento do Sol, de José António Saraiva. Ninguém vai trocar, gratuitamente, o Expresso pelo Sol. Só falta, agora, saber o que o Sol irá oferecer aos leitores. As crónicas em livro do espantoso director?... Preservativos?...Doses individuais de marijuana?... Posters de lolitas descascadas ou de Cristiano Ronaldo nos braços da namorada de serviço?...
Abençoada concorrência...

setembro 08, 2006

Antologia poética (20)...

Improviso sobre ninguém...

Às escondidas eternamente dos meus pais
venho há muitos anos do futuro
a dançar com alguém que desconheço
uma mulher (suspeito)
porque só as mulheres dançam assim
nos meus braços vazios
é em ti que eu me projecto em movimento
quando desejo ninguém.

Ademar
26.02.2005

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A percepção do labirinto...

Feliz ou infelizmente, não há máquinas para medir sentimentos. Por vezes, dava-me jeito que houvesse. É sempre muito difícil e, frequentemente, penoso avaliar o que sentimos, quando temos de tomar decisões que podem implicar rupturas relacionais e determinar mudanças significativas na nossa vida.
A memória e o desejo, que nem sempre nos conduzem na mesma direcção, são as paredes de um vastíssimo labirinto interior, em que tantas vezes nos sentimos perdidos. Conservar ou arriscar a mudança? Quando a opção envolve apenas uma pessoa, o labirinto parece não ter saída: todas as portas conduzem novamente para dentro.

Fevereiro.2005

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Antologia poética (19)...

Improviso para violoncelo e silêncio...

Há dias em que homossexualmente me basto
com as suites para violoncelo de
Johann Sebastian Bach
não preciso de mais
para antecipar a superior e feminina
musicalidade do silêncio que me espera
depois da última nota.

Ademar
27.02.2005

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"Ombra mai fu"...

platano.jpg

Frondi tenere e belle
del mio platano amato,
per voi risplenda il fato.
Tuoni, lampi, e procelle
non v'oltraggino mai la cara pace,
né giunga a profanarvi
austro rapace.
Ombra mai fu
di vegetabile
cara ed amabile
soave piú.

Quando, há já muitos anos, me comovi pela primeira vez (como ainda hoje continuo a comover-me) com "Ombra mai fu", a celebérrima ária de Xerxes, de Haendel, o meu fraco conhecimento do italiano levou-me a pensar que estaria a ouvir uma pungente declaração de amor a alguém distante ou perdido. Só mais tarde vim a perceber que se tratava de um hino a um plátano e que, todavia, a minha primeira impressão não estava errada... A solidez, a resistência, a altivez e a delicada beleza dos plátanos são, metaforicamente, convites ao entendimento do amor e à expressão da saudade...
Toda a minha vida, desde a infância, está, quase umbilicalmente, ligada a um plátano. Quando os meus olhos se cruzam com ele, quando, ainda hoje, procuro a protecção da sua sombra, sinto que pelo seu tronco, pelos seus braços, pelas suas folhas, cresce em direcção à luz a memória mais antiga que me aproxima da eternidade. Ele vigiou e protegeu todos aqueles que deram e dão ainda um sentido à minha existência: os meus avós maternos, os meus pais, os meus filhos, a minha irmã, os meus tios, os meus primos, as mulheres que mais preservaram na ilusão de me resgatar da solidão primitiva.
É um plátano único, que há-de sobreviver fisicamente a todos aqueles que acolheu e que ainda hoje, tantas vezes, distraidamente, o namoram com o olhar ou até com as lágrimas.
Se eu pudesse escolher, livremente, o lugar da minha sepultura, era debaixo dele, na Aveleda, que eu gostaria que me enterrassem. Ombra mai fu...

Fevereiro.2005

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Antologia poética (18)...

Improviso quase musical...

Não tenho batuta nem maestro que me dirija
quando as palavras descendo pelas mãos
me instrumentam
toco-me de ouvido
eu próprio sou a partitura das notas
que fixam os silêncios do meu corpo
que falam
viajo numa galáxia de vozes
entre mim e todos os outros.

Ademar
08.02.2005

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Antologia poética (17)...

Improviso sobre o regresso...

Com a alma de inverno
fui procurar-me na primavera e voltei
os olhos perfumados de camélias altivas
e as mãos nervosamente suspensas
sobre o tacto prometido
não sou predestinável a viagens impossíveis
tenho o treino e a teimosia dos navegadores solitários
que nunca recuam
perante os mais íntimos horizontes do medo.

Ademar
05.02.2005

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Como se não fossem mais do que exorcismos...

Pergunta-me um leitor "agnóstico" se os poemas que aparecem aqui identificados como "improvisos" são mesmo improvisos, ou seja, "repentinos", "súbitos", "espontâneos", escritos directamente na hora sobre o écran do computador. Claro que são. De resto, já não sei escrever poesia doutra forma. Normalmente, a poesia surpreende-me. Uma imagem, uma metáfora, um jogo de palavras... e o poema aparece. É uma espécie de exorcismo ou de milagre. No minuto anterior à escrita, ele não existia em parte nenhuma de mim. De repente, sem se fazer anunciar, escorre pelos meus dedos, como um suor interior. É o que me apaixona na poesia: a volatilidade e a imprevisível obstinação do acto criativo. Nunca sei donde venho; nunca sei para onde vou. No caminho, sobro eu.

Fevereiro.2005

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Antologia poética (16)...

Improviso sobre um abandono de camélias...

Tenho um quintal
plantado na saudade da infância
a que subia por uma estreita escada de granito
sofridamente talhada numa vertente de séculos
era lá que eu me esculpia solitário
entre nomes de coisas que pareciam sorrir
à lógica ainda refractária do meu entendimento
eu não sabia ainda de fronteiras marítimas
nem de caravelas galopantes
mas todos os meus sentidos costumavam dialogar em segredo
com o mistério das formas que me renasciam
interrogando a luz e o cheiro
daquelas corolas que a minha mãe
dizia exiladas do oriente
só muito mais tarde compreendi que as japoneiras
precisavam do silêncio dos meus olhos
para florir neste inverno.

Ademar
02.02.2005

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Improviso heterónimo...

Não me falta uma cama para adormecer
falta-me apenas uma almofada
com a forma talvez do teu corpo
e uma voz que secretamente me recorde
que deixei enfim de morrer.

Ademar
08.09.2006

Diário em forma de silêncio (39)...

A memória pode ter a consistência da névoa. Lembro-me de que me atraíste àquele hotel com "A Invenção do Amor", de Daniel Filipe. Já não sei o nome do hotel, mas recordo, como se tivesse sido ontem, que me esperavas à saída do elevador. Ainda não tinha ouvido a tua voz (incrível como aceitei, naquela tarde, encontrar-me contigo!) e foi a tua voz a dizer "A Invenção" que me despertou, finalmente, para a poesia. Devo-te esse milagre interior. Uma voz, está visto, pode mais do que mil currículos e programas escolares. Talvez, por isso, não tivesse querido ouvir-te mais. Porque sei o quanto a tua voz me enfeitiça. Prefiro continuar a lembrar-te assim, no meio da névoa. Esperando, talvez, que um dia voltes a esperar-me à saída de um elevador... Um andar, ainda, abaixo do céu...

C.A.

Um ruído na partitura...

titulo.jpg

Podia ser a abertura de uma novela de Truman Capote, até mesmo o título. O uxoricida de Santo Tirso sentava-se numa cadeira branca a entoar cânticos religiosos. Era um fanático da santinha da ladeira e, nos últimos tempos, só falava de religião, conta o repórter do Público. Ontem, deve ter chegado, finalmente, à fala com a santinha, não gostou muito do que ouviu, foi à cozinha, retirou da gaveta das armas brancas uma faca e vingou-se na mulher. Ele tem 76 anos: ela tinha 78. Consumado o homicídio, o cantor religioso apresentou-se numa esquadra de polícia, oferecendo-se, voluntariamente, à degola da justiça dos homens. O Público, misericordiosamente, estampa o nome e o cadastro familiar do homicida (só falta a fotografia). Deve ser uma exigência de estilo...

Antologia poética (15)...

Improviso ao jeito de Alexandre O'Neill...

Projectei o poema
a partir de quatro metáforas de garantida originalidade
todas elas tão pessoais
e intransmissíveis
(supus)
que seria improvável
para não dizer impossível
que alguém as tivesse usado antes
com as quatro metáforas
empreitei o poema
depois comovi-me ao espelho
(se o poema não comove o autor
é um poema falhado)
e
orgulhoso da obra prima
partilhei-a com o patologista de serviço
à urgência das literaturas
o diagnóstico foi fulminante
nenhuma das metáforas era original
e o poema não passava de um remendo trôpego
de alarvidades
sujeito-me agora
à expiação do copista intalentado
confesso e assino por baixo
esgotei o baú das metáforas
sobra-me apenas um destino honroso
mudar de ramo
(literário).

Ademar
24.01.2005

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Antologia poética (14)...

Improviso sobre a ruptura...


Sou um novelo de palavras
não sei onde me termino
evito os pontos finais
porque o futuro pode sempre começar
numa recusa
entre frases que não cheguei a ligar
um gesto suspenso sobre o pântano
uma rosa que não completou o feitiço
um livro que não saiu do cais
dos segredos impartilháveis
sou um novelo de palavras
e vivo enredado em mim
à espera talvez de um milagre
a derradeira metamorfose
o regresso à fonte de todos os inícios.

Ademar
30.01.2005

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Portugal...

Hei-de morrer assim, a rir do país. Portugal é, em permanência, uma anedota. Não o trocava por outro. Há quem diga que só há uma cura para todos os cancros: a gargalhada. Higienicamente, vou gargalhando...

Levanta-te e anda!...

Hoje, vi o fantasma de Souto Moura, o grande procurador, nas televisões. Eu julgava, tenho andado distraído, que a eminente criatura já tinha sido substituída. Parece que não, que continua à procura do carteiro do famoso envelope nono. Subjectivamente, Souto Moura é uma redundância. O mesmo já não direi da organização católica que, discretamente, o aconchega...
Este país é um imenso teatro de fantoches.
Digo isto, note-se, em abstracto: não estou a chamar de fantoche (Deus me livre!) ao Senhor Procurador Geral da República...
De resto, já toda a gente percebeu que ninguém (ninguém mesmo, nem a esposa) o... manipula.

Foder, fodido, foda-se!...

Excertos de escutas telefónicas, no âmbito do Apito Dourado, reproduzidas hoje no Público.
Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, referindo-se a vários árbitros: "Foda-se! Isso é tudo do Porto!"
Valentim, o famoso major das batatas, referindo-se a Luís Filipe Vieira: "Bem, o gajo está fodido!"
Vieira, falando para Valentim: "Ouça, é tudo para nos foder!"
Etc...
O Público, que sofre de pudor linguístico, não vai além do f inicial, a que acrescenta os pontinhos da praxe...
Como se os leitores vivessem nas nuvens e não estivessem fartos de saber que é assim que se fala em Portugal, muito especialmente, nos meandros do futebol. Vieira, hoje, em conferência de imprensa, falava de "fruta", referindo-se às prostitutas que alguns clubes, à guisa de sobremesa, serviriam aos árbitros.
É caso para dizer, uma vez mais, que os nossos machos da bola devem andar com défice de foda.
E ainda há quem os leve a sério...

Antologia poética (13) ...

Testamento apócrifo de Alexandre Magno, rei da Macedónia ...

De Aristóteles aprendi
que a natureza de cada um
é a sua máxima autoridade
e por isso a minha ambição
não se deteve diante de nenhuma fronteira
a eternidade que escutei em cada batalha
foi a única medida da razão
que a mim próprio me impus
persegui apenas um sonho
e a esse sonho sacrifiquei tudo e todos
menos a vaidade da grandeza que me prometera
não poupei traições nem desconfianças
mas fui magnânimo
com todos os cronistas de aquém e de além-mar
e os vencidos que se ofereceram à vassalagem
em troca do perdão
não vacilei diante dos inimigos
nem temi confrontos desiguais
e aceitei o preço mais alto da solidão
porque esse é o destino impartilhável
dos inventores de futuro
o poder construí-o sobre o mito da invencibilidade
e nem na morte abdiquei dele
digo
de mim
herança intransmissível
para que ninguém o diminuísse
o meu sonho teria que morrer comigo.

Ademar
15.12.2004

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Antologia poética (12)...

Improviso quase poético em forma de brinquedo...

Nem sempre o caminho
é voltar para trás
há esquinas em que apetece
enganar o destino
e seguir numa paralela
há poemas assim como crianças
escondidas debaixo da cama
para não serem vistas
eu tenho uma cama de pregos
por cima das palavras
em que me escondo.

Ademar
27.12.2004

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Improviso para provar sentimentos...

Tu
que enfeitiças sentimentos
ensina-me a sentir
e não me deixes morrer
desensinado de ti.

Ademar
08.09.2006

Pedido quase desesperado de ajuda...

Começou hoje a doer-me a alma. Entrei em pânico, porque não tenho antecedentes, nem sei se isto se trata ou tem cura. Fui às páginas amarelas; procurei por urgências, genéricos, cuidados intensivos, clínicas de dia e de noite... Nada. Fiz uma busca no google. Em vão. Liguei para as avarias. Recomendaram-me o 112. Liguei para o 112. Recomendaram-me as avarias. Consultei três psicólogas amigas. Julguei, pelo menos, que serviam para isto, para aliviar a alma da gente, quando dói. Brincaram. Todos os racionais (garantiram) sofrem, de vez em quando, da alma. Alguns, mesmo, (acrescentaram) toda a vida, incluindo a infância. Quero lá saber: o mal dos outros nunca me prestou conforto. É agora que me dói a alma, a mim, não à humanidade. Que farei com a consciência inesperada desta patologia?...
O meu maior problema nem é que a alma me doa. São, apenas, 21 gramas de sofrimento. É ignorar a causa. Tem que haver uma e eu não sei qual é. Temo ser eu. Daí talvez o pânico...
29.12.2004

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setembro 07, 2006

Dívida...

Devo esta prova de vida a três pessoas que considero meus amigos, ainda que nunca tenhamos filosofado, em grupo, sobre a amizade: a Alice, o Zé Manel e o Jorge. Foram eles que, em meia hora, me ajudaram hoje a perceber que eu podia, a partir do meu portátil, ligar-me à internet e ao universo e continuar a blogar, mesmo que, temporariamente, desarmado do meu PowerMac (que, aliás, eles me tinham vendido há quase dez anos). Há computadores assim, que são capazes de viver connosco, sem uma falha ou uma mágoa, durante uma década...
Conheci-os por volta de 1990, numa vulgaríssima operação comercial (em que eles eram os interessados em vender e eu, o interessado em comprar), e fiquei logo apaixonado. Pela sua delicadeza, pela sua simpatia, pela sua honestidade, pela sua... inteligência. Há empresas que nos fazem sentir em família, no aconchego da família. A DTÉ, a que eles dedicam as suas vidas, é uma empresa assim. Pequenina, mas imensa. Eu entro e sinto-me em casa. Não importa que já não nos víssemos há quase oito anos. É sempre uma festa. Falamos dos filhos, dos amigos comuns e do que cada um tem feito para honrar a vida. A Alice, que hoje tem 34 anos (e era uma miúda quando nos conhecemos), mostrou-me, vaidosa, fotografias da Bárbara e do Miguel. O Zé Manel falou-me do Pinhão e apresentou-me a Sofia, enfeitiçadora de bonecas. O Jorge quis saber coisas do abnoxio, que frequenta com regularidade. E eu contei as últimas do Francisco e do Henrique, que eles conhecem quase desde o berço. E da minha irmã e do meu cunhado, que também são... da casa. Não sei se eles ganham muito com clientes como eu. Mas sei que são sempre o porto mais seguro, quando preciso de ajuda. Para mim, eles são a Macintosh. E o Zé Manel... o meu deus informático. Fica aqui, muito parcialmente, paga a dívida...

A propósito da liturgia do pecado: um comentário...

Uma querida leitora brasileira presenteou-me com este comentário, que, com muito gosto, torno público.

"Abnoxio legível, foi possível percorrer os artigos dos dias passados, até tropeçar neste - O pecado... - e mergulhar nas minhas confusas divisões infantis entre os pecados original, venial e mortal!
O pecado original era de fácil compreensão: era aquele que recebíamos de herança ao nascermos, o que na juventude me parecia já uma coisa muito democrática. Ricos e pobres, senhores e escravos nasciam com igual cota de pecado original!
Mas, os veniais e os mortais, ah!, quantas noites de insônia me custaram.
A mim me parecia muito tênue a linha divisória entre os veniais e os mortais, estes simulando um pecado venial que teria sido promovido por mérito!
Um pecadito venial, se cometido com intenção, transformar-se-ia em mortal. E, segundo a freira das aulas de religião, quando se dormia com pecados mortais na consciência, dormia-se sobre a tampa do inferno.
Eu, do alto dos meus 6 anos, passava bom tempo acordada na cama, olhos abertos, repassando todo o meu dia para ver se não havia escapado ao meu controle algum venial que subitamente fosse guindado à categoria de "mortal". E, se isso ocorresse - pimba!!! - ao dormir, abrir-se-ia o tampo do inferno e para lá eu escorregaria, com cama e tudo!
Assim começou minha insônia.
Como vês, me privaram da vontade de cometer pecados cedo de mais!!! Talvez por isto meu imediato desejo de dizer-te que aceito, sim, acompanhar-te rumo à liturgia do pecado. Vamos lá!"

Obrigado, Adelina! Ainda havemos, um dia, de pecar, sobre a ausência do Atlântico...

Prova de vida...

Hoje, pela primeira vez, estou a "blogar" a partir do meu portátil. Não recomendo a experiência, mas a necessidade impõe o engenho. O meu Mac está, por horas, impraticável e, para me entender com o universo, só me restava mesmo esta alternativa. Eu sei que há quem procure, diariamente, sinais de vida do autor no abnoxio (para confirmar, pelo menos, que ainda não morri) e não podia frustrar (ou satisfazer) a expectativa dos meus amigos e dos meus leitores. De modo que aqui estou a marcar presença, antes que apareça o 112 para recolher o meu cadáver. Por enquanto, apenas putativo...

setembro 06, 2006

Improviso para evitar a urgência...

Dói-me a cabeça
na ponta das mãos
deve ser trovoada
lá fora ou cá dentro
hoje vou-me deitar
com santa bárbara.

Ademar
06.09.2006

Bruxedo...

Um bruxedo atacou o meu Mac. Primeiro, foi a desconfiguração deste blogue, que levou tantos leitores a "protestarem". Agora, é a impossibilidade de aceder à minha caixa de correio electrónico, alojada na telepac. Peço, por isso, aos leitores e aos amigos que, nos próximos dias (e enquanto eu não conseguir resolver o problema), me contactem através de um endereço alternativo: ademar.santos@sapo.pt. Tentarei estar atento e responder.

Deus (com dedicatória à própria)...

Mesmo para aqueles que acreditam num deus qualquer (não importa em que versão), deus é o grande ausente. Ele não está em lado algum, senão no íntimo mais íntimo de todos os crentes. É uma ideia, um conceito, uma emoção - que organiza e dá sentido à vida dos que acreditam, ao ponto, frequentemente, de os levar a matar e a morrer. Este deus do sangue, da vingança, do ajuste de contas é um deus celerado que projecta o pior da espécie humana. Mas há os deuses que inspiram a grande poesia, a grande música, a grande pintura, a arte que resistirá sempre à degradação dos tempos e dos costumes. Se eu acreditasse num deus qualquer, só seria capaz de acreditar num desses deuses. Quando ouço o Requiem, de Fauré, chego a ter pena de não acreditar. Deus também pode projector o melhor que há em nós. E algumas das melhores pessoas que eu conheço são crentes. É-o, por exemplo, a mulher que mais intensamente e mais desinteressadamente me ama. Sem que eu jamais tivesse podido corresponder-lhe. Ou tido, sequer, a oportunidade de lhe agradecer esse amor. Porque o amor agradece-se.

Guardador de balanças...

Não sei se a alma humana (mau grado a sua decantada imaterialidade) pesa 21 gramas. O que posso garantir é que há pessoas que pesam (e me pesam) muito mais...
Confesso que os meus olhos rejubilam com a quase imaterialidade, mas há muito que aprendi (sabedoria que de muito pouco me tem valido) que nem sempre as pessoas mais pesadas são as que me pesam mais. Caso para afirmar: os meus olhos não primam pela perspicácia, continuam a confundir volume com excesso de substância...
Definitivamente, não nasci para guardador de balanças...

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

A Mafalda que...

flor.jpg

A Mafalda habita o meu imaginário...
Escrevi e logo me arrependi: não, eu não!... Metáforas que se compram nas lojas de trezentos...Ele há tantas coisas que "habitam o nosso imaginário", já quase nem há lá espaço para a Mafalda...
O meu problema com as palavras. confesso, é que já não suporto as palavras que me cansam.
Acho que o meu imaginário vai resistindo, metaforicamente, a ser habitado.
Terei de cuidar da Mafalda, em mim, de outra forma...

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

setembro 05, 2006

Diário em forma de silêncio (38)...

Pisco-te o olho para que percebas que entendo. As mulheres percebem tudo. Se não percebem, intuem. E a intuição nas mulheres, já sabes, penetra e desvenda todos os segredos e todas as reservas. O bruxedo (sabíamo-lo) estava entre nós, no meio de nós. Estava e continuará a estar. Temos, talvez, uma tentação para cumprir. Com pretexto ou sem pretexto. Mas admiro a tua honestidade (ou ingenuidade). Não atrapalhaste os códigos para forçar o penhor do dedo mindinho. Respeitaste a minha liberdade. Eu não tinha a certeza de que o farias. Engrandeceste-te. E já não terás que me conduzir a Vilar de Perdizes. Prefiro continuar a sentir-me assim, embruxada...

C.A.

O elogio da tômbola escolar...

A uma semana, mais dia, menos dia, do início das "actividades lectivas", ainda há crianças neste país que não sabem que escola "primária" irão frequentar. Vi e ouvi hoje, nas televisões, um secretariozinho de estado (de resto, muito sorridente) confirmar a tômbola escolar. É para levar a sério... para rir ou para chorar? Politicamente falando, estou em vias de me ausentar de Portugal. Já não tenho idade para aturar parvoeiras: é farsa a mais!...
Estes governantes - nem os contratava para mulheres a dias...

Improviso para servir de canoa...

Se não fosses mais do que caudal
eu seria canoa
se rumorejasses apenas
eu faria do silêncio
dialecto
e dir-te-ia palavras
inavegáveis
se não tivesses morrido
em tantas margens
milagrar-te-ia.

Ademar
05.09.2006

Sobre um diário...

Quando supomos que chegamos ao fim da estrada, não chegamos ao fim da estrada, mas apenas a uma esquina, a que se seguirão outras esquinas (ainda que possam parecer-nos encruzilhadas). Há sempre muitos mais caminhos e a terra é redonda: ou seja, voltamos sempre ao princípio de tudo, ao princípio de nós, de uma forma ou doutra.

Droga...

moffou.jpg

É uma droga autorizada. Mais: recomendada. "Moffou" (2002), de Salif Keita. Já escrevi no abnoxio sobre Yamore, a faixa que abre o cd. Um dueto em "brandura e calmaria" de Salif Keita com Cesaria Evora. Mas o álbum todo é uma embriaguez. Nunca sei se chore, se dance, se voe. E as vozes destas mulheres que dialogam com Keita parecem penetrar-me pelos ouvidos, pelos olhos, pelas mãos, por todos os sentidos da alma. Raio de bruxedo...
Para isto, não há tratamento. A dependência é completa e fatal.

setembro 04, 2006

Diário em forma de silêncio (37)...

Confiamos a alma a alguém - e a alma é-nos devolvida, diferente. Foi sempre assim, será sempre assim. Nunca chegamos como partimos. O meio é a paixão que nos atiça à mudança. Mesmo quando nos distraímos dela. Mesmo quando nos distraímos de nós.

C.A.

Improviso da cor do tijolo...

São códigos
quase metáforas
muito mais do que um problema de cor
ou de formato
talvez uma intriga de olhares
uma reserva de mãos
memórias de outras telas
quando quase tudo
ainda esperava por mim
lê-me bem nesse tijolo
e faz-me renascer.

Ademar
04.09.2006

Da doutrina à latrina...

Nasci e cresci no seio de uma família católica tradicionalíssima. Não tenho saudades do "embalo", nem desejo a tortura a ninguém.
Costumo dizer que, apesar de não ter frequentado jamais um seminário e não ter sido abusado sexualmente por nenhum bispo ou padre pedófilo, conheci as entranhas do catolicismo (da doutrina à latrina) e não gostei nada do que vi, do que li e do que ouvi.
Confesso que, mais de cinco décadas passadas sobre a ofensa do baptismo, ainda não recuperei completamente do pesadelo...

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Memórias da Escola da Ponte (47)...

"Metodologia de Trabalho de Projecto" (algumas notas provocatórias)...*

1
Se um aluno quer ou precisa de saber em que ano e contexto foi assassinada Inês de Castro, o que deve fazer? Um projecto de pesquisa e investigação ou uma simples consulta bibliográfica (por exemplo, do Dicionário de História de Portugal)?

Se um aluno quer ou precisa de saber como se conjuga o verbo "empatar", o que deve fazer? Um projecto de pesquisa e investigação ou uma simples consulta bibliográfica (por exemplo, de uma boa gramática)?

Perguntas análogas a estas (e relativas a todas as áreas e disciplinas curriculares) poderiam ser multiplicadas exponencialmente. A ideia de que só se aprende através de "projectos" é uma ideia pateta. O decisivo na aprendizagem é que o aluno queira (e esteja motivado para) saber - os caminhos para o conhecimento são múltiplos e variados. O trabalho de projecto é apenas um desses caminhos, seguramente, o mais exigente de todos...

Se a curiosidade (o desejo de descobrir e aprender) e a motivação são as alavancas da "construção" do conhecimento, pode colocar-se então a pergunta: como é que um aluno se motiva (e é motivável) para procurar o conhecimento que lhe faz falta, quando ele nem tem consciência disso?

Eis um excelente problema para um projecto de investigação/acção. Ou melhor: para muitos projectos...

2
Quando eu era estudante, "problemas" havia muitos, mas a "metodologia de trabalho de projecto" (ou de resolução de problemas) ainda não tinha sido inventada (espero que se perceba a ironia). E mesmo sem ter aprendido a trabalhar em "projecto", safei-me... Sócrates (ao que consta) também.
Hoje, parece que os estudantes não aprenderão nada, se, desde a mais tenra idade, não forem treinados a trabalhar em projecto...
Desconfio que esta obsessão "projectista" anda, nas escolas, a distrair os eminentes pedagogos da moda do prioritário. O prioritário, creio eu, é que os estudantes percebam o sentido de andar na escola, desenvolvam a curiosidade, não percam jamais a motivação para pesquisar e investigar, sejam cada vez mais autónomos e responsáveis e tenham condições para aprender mais e melhor. Como o poderão conseguir? Eis a pergunta fundamental a que os projectos educativos das escolas deverão dar resposta. É para isso, no essencial, que eles servem. O que os alunos deverão aprender – isso toda a gente sabe e, na dúvida, os programas curriculares resolvem.

3
O trabalho de projecto reclama a mobilização e o cruzamento de saberes, atitudes e competências que nem todos os "pedagogos" possuem ou desenvolveram, quanto mais os alunos...
Pretender que crianças que mal sabem ler, escrever ou calcular aprendam por "projectos" é uma imbecilidade pedagógica. A aproximação à metodologia de trabalho de projecto tem, por isso, de ser feita passo a passo, de uma forma segura e muito controlada pelos professores. Há patamares de autonomia que terão de ser previamente alcançados antes que os alunos possam tirar algum proveito do "trabalho de projecto". Que patamares serão esses? Eis outro excelente problema para um projecto de investigação/acção. Ou melhor: para muitos projectos...

* recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (11)...

Saudades de Veneza...

Quando quero fingir de mim
afivelo uma máscara.

Ademar
13.10.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (10)...

Improviso através das grades...

Memória cela
como fugir dela?...
como voltar?...
perdi a chave
para poder entrar em mim
e sair de mim
sempre que quiser.

Ademar
23.10.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

setembro 03, 2006

O pecado...

De vez em quando tenho vontade de pecar. O pecado atrai-me. Não sei se é a senilidade humana do papa que me impele ao pecado... Desconfio que sim, que o papa é hoje, no universo católico, o grande impelidor...
Sobra-me, claro, uma dúvida: não sei se o pecado a que aspiro é mortal, venial ou tão só...original.
Apetece-me pecar e é tudo...
Mas pergunto-me: haverá, neste mundo, ainda alguém disponível para a liturgia do pecado?...

recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (9)...

My moleskine...

Parece que estamos sempre de partida
para sítio nenhum
viajamos incógnitos no silêncio
entre todos os passados
e todos os futuros
e um dia finalmente
abandonamo-nos a descansar
no cais do esquecimento
chorando um a um
como fazem os náufragos
todos os navios que nos adiaram.

Ademar
18.10.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Improviso de escárnio e bem-dizer...

Esbarro sempre
senhora
na metafísica
uma prima da noite aliás
diagnosticou-me há muito a deficiência
défice congénito de glamour
parece que eu devia usar jeans
(escreve-se assim?)
e camisas largonas
diz ela
estampadas à maneira
percebi
com este magro q.i.
que sou completamente destituído
de maneiras
a Caras não vai decerto
com a minha
de resto senhora
acumulo deficiências
nasci no norte
vivo no norte
e não vou a festas
(festas é em casa
dizia a minha mãe)
para tacanho e provinciano
(está a ver?)
não me falta nada
tenho menos serventia
do que um preservativo furado
as melhores pilas da nação
já se sabe
estão em Lisboa
ou em trânsito para o Algarve
e eu perdi-me da minha
agora
já só uso os dedos das mãos
(quando não me atrapalham)
para blogar poesia.

Ademar
03.09.2006

Quousque tandem?...

Maria-Filomena-Monica.jpg

Hoje, na Pública, Filomena Mónica considera "O Sentimento de um Ocidental", de Cesário Verde, "o mais genial poema escrito durante o Século XIX". Linhas antes confessara que "jamais apreciara poesia" (supõe-se que até descobrir Cesário). Estes "intelectuais" e "académicos" portugueses que peroram, majestaticamente, sobre tudo e sobre nada são uma anedota. Filomena, então, bate todas as escalas da pusilanimidade. E o país mediático (não confundir com o país letrado) continua a prestar-lhe vassalagem e a achar-lhe muita graça.
"Ó gélida mulher bizarramente estranha"!... *

* Verso de Cesário Verde, retirado do poema "Frígida" (1875).

Diário em forma de silêncio (36)...

Eras tu, quase sempre, que conduzias as minhas mãos. Não que eu precisasse de que me ensinasses o caminho, mas, apenas, porque não queria caminhar na ausência ou distracção dos teus olhos. Eu sabia que o movimento subtil das minhas mãos enfeitiçava e enternecia o teu desejo, refinando-o. E tudo no meu corpo, como sabes, exigia a delicadeza dos teus gestos, quando entravas por mim. Por isso, deixava tranquilamente que me conduzisses. E até que me castigasses. Eu era o teu brinquedo. E deixava-me brincar...

C.A.

Dicionário das palavras eu amo (38)...

CASTIDADE - Eis uma palavra de que gosto sem gostar: soa-me bem, sabe-me mal. Suponho que nunca a usei poeticamente. Todas as abstinências são doenças da alma. Máscaras que o corpo tece, para se negar. Como se fosse necessário abdicar de uma parte do que somos para nos salvarmos (ou perdermos). Sinónimos correntes de CASTIDADE (recorro, uma vez mais, ao Houaiss): candidez, candideza, candura, honestidade, honra, ignorância, inocência, pureza, puridade, respeitabilidade, temperança, virginalidade, virgindade, virtude. Reparai no género de todas elas. Prazer, claro, só podia mesmo ser masculino...

Dicionário das palavras que eu amo (37)...

TESÃO - Durante muitos séculos, "por supuesto", só os machos tinham. Por isso, a substância, digo, o substantivo, passou aos dicionários como "masculino" (apesar do íntimo parentesco com a feminina "tensão"). Quando eu nasci, nenhuma mulher admitia ter TESÃO (e, se tinha, guardava-o para confessar ao padre, na penumbra do confessionário). Depois que o diabo inventou a pílula, o TESÃO começou, lentamente, a mudar de género e a perder o rigor (gramatical). Tanto, que o inevitável Houaiss já admite hoje a alternativa feminina, que o uso coloquial vulgarizou: a TESÃO. Mistérios que a língua tece...

CLITÓRIS - Há substantivos que, aparentemente, têm o género trocado. CLITÓRIS, atente-se no absurdo gramatical, é masculino. Talvez para que nenhuma mulher duvide de que o CLITÓRIS é da mesma natureza e em tudo semelhante ao PÉNIS, como já no século XVIII lembrava o anatomista dinamarquês Thomas Bartholin: "pela posição, substância, composição, repleção de espíritos e erecção". Depois da pílula (repare-se na subtileza do género), o CLITÓRIS é a grande invenção do século XX. E terá, seguramente, o destino (gramatical) do tesão: mais tarde ou mais cedo, efeminizar-se-á.

ORGASMO - Substantivo (ainda) masculino. Ver CLITÓRIS.

setembro 02, 2006

Antologia poética (8)...

Escrito sobre o "Agnus Dei", de Frank Martin

Há palavras que se anunciam e me despertam
e outras que sem bater à porta entram por mim adentro
sorrateiramente
adoentando-me
Sou em estado de palavras
Não sei donde venho
ignoro todas as origens que me transportam
Por isso
peço apenas hospedagem ou internamento a mim próprio
e ofereço-me às palavras
para sobreviver com elas.

Ademar
10.Julho.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (7)...

Escrito sobre "Christmas Music from Aquitanian Monasteries" (12th century)

Moro na cidade de baixo
esquecido do rumo de outras cidades
Nem campos nem desertos
É daqui que vejo tudo o que sobra para os meus olhos
a rigorosa incontinência dos gestos das pessoas comuns
que já não aspiram a altares na embriaguês dos desejos
e os caminhos circulares dos que ainda procuram as pontes
que nunca existiram
Nem florestas nem praias
Na cidade de baixo
já não há vestígios das sete portas
e a esfinge sou eu.

Ademar
11.Julho.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Embaraço antigo...

Chega uma amiga e diz: Tenho lido o teu blogue.
E conta-me de outros amigos (comuns ou não) que têm, diz ela, o mesmo hábito de ler-me.
Fico embaraçado. Escrevo sempre na convicção de que ninguém me lê.
De resto, ele há tantos blogues...por que haveriam logo de espreitar este?
Há exercícios de higiene íntima que não se recomendam ao voyeurismo...
Preferia-me solitário, no terminal do aeroporto de mim mesmo...

22.09.2004

Recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt

Explicação...

Alguns leitores (antigos e mais recentes) têm comentado o "novo" abnoxio, mas os seus comentários não estão ainda disponíveis para consulta geral. O problema é que, tendo eu o privilégio de "autorizar" a publicação dos comentários (e de mandar para o lixo o que é...lixo), ainda não aprendi a fazê-lo nesta plataforma. De modo que eu leio os comentários, mas, por ora, ninguém mais os lê, porque eu não sei "publicá-los". Já pedi ajuda para resolver o problema e espero, muito brevemente, reparar esta falha, que até pode parecer (não o sendo) indelicadeza.
É com muito gosto, naturalmente, que leio os vossos comentários.

Para não se dizer que nunca falei da Albânia...

Alguém disse (terei sido eu?) que a grande riqueza da Albânia é a sua atávica pobreza. A gente chega aos portos de Itália e espreita para o outro lado do Adriático, à procura da mítica Albânia, essa Albânia que um paranóico (Enver Hoxha) converteu, por muitos anos, num autêntico sarcófago político, cultural e social, em nome do... comunismo.

edi_rama_conference.jpg

O sujeito da fotografia dá pelo nome artístico de Edi Rama. Digo "artístico" e digo bem, porque o homem já foi "rapper" (em Paris) e é pintor (relativamente estimável). Filho do escultor "oficial" do regime comunista, Edi Rama é, há alguns anos, o presidente da câmara de Tirana, a capital da Albânia. Num país estrangulado pelas máfias, não sei se Edi Rama se recomenda aos melhores princípios da ética republicana. Mas a revolução cromática que ele "impôs" em Tirana é quase um poema épico. Ouvi-o hoje (e vi as transformações que ele operou na cidade) e fiquei apaixonado. Nunca imaginei que, através da cor, fosse possível inverter o destino trágico de uma comunidade.
Pela primeira vez, fiquei com vontade de atravessar o Adriático...

Antologia poética (6)...

Iniciação...

Não cobiço nem disputo os teus olhos
não estou sequer à espera que me deixes ver através dos teus olhos
nem sei tão pouco se quero ver o que vêem e do modo como vêem os teus olhos
Nada do que possas ver me levará a ver e a pensar contigo
se eu não for capaz de aprender a ver pelos meus olhos e a pensar comigo
Não me digas como se caminha e por onde é o caminho
deixa-me simplesmente acompanhar-te quando eu quiser
Se o caminho dos teus passos estiver iluminado
pela mais cintilante das estrelas que espreitam as noites e os dias
mesmo que tu me percas e eu te perca
algures na caminhada certamente nos reencontraremos
Não me expliques como deverei ser
quando um dia as circunstâncias quiserem que eu me encontre
no espaço e no tempo de condições que tu entendes e dominas
Semeia-te como és e oferece-te simplesmente à colheita de todas as horas
Não me prendas as mãos
não faças delas instrumento dócil de inspirações que ainda não vivi
Deixa-me arriscar o barro talvez impróprio
na oficina onde ganham forma e paixão todos os sonhos que antecipam o futuro
E não me obrigues a ler os livros que eu ainda não adivinhei
nem queiras que eu saiba o que ainda não sou capaz de interrogar
Protege-me das incursões obrigatórias que sufocam o prazer da descoberta
e com o silêncio (intimamente sábio) das tuas palavras e dos teus gestos
ajuda-me serenamente a ler e a escrever a minha própria vida.

Ademar
Junho.2000

publicado em "Descansando do Futuro (Reserva de Intimidade)", Asa, 2003

Antologia poética (5)...

Improviso sobre outra imagem...

ylgif2.jpg

Na memória das imagens que me interrogam
respondo-te com a antiguidade
de um tempo que me precede
Semicerro os olhos e desenho as tuas formas
numa espécie de neblina pré-histórica
Desconhecerei eternamente a idade que nos pertence.

Ademar
Setembro.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (4)...

Improviso sobre uma imagem...

anima.jpg

Aprender as mãos e os ouvidos
aprender o gesto e o corpo
aprender os cheiros e os sabores
aprender o silêncio
aprender o movimento
aprender os sentidos do olhar
e voltar sempre ao princípio de tudo.

Ademar
Setembro.2004


publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Memória de tempos castos... *

Em Setembro de 1923, o general sedicioso Miguel Primo de Rivera (pai de José António, o futuro fundador da Falange, de tão infausta memória) usurpa o poder em Espanha e converte-se numa espécie de Mussolini ibérico ("nickname", aliás, com que o rei Afonso XIII, em privado, o mimosearia). Como é sabido, o exemplo de Primo de Rivera transpirou a fronteira e chegou, rapidamente, a Portugal, inspirando os golpistas do 28 de Maio à moda de Braga.
Em Setembro de 1923 (ele há coincidências...), as professoras primárias de Cuenca (Castilla La Mancha) assumiam, contratualmente, o seguinte compromisso "profissional"...

Contrato de maestras - 1923

Este es un acuerdo entre la señorita ...................., maestra, y el Consejo de Educación de la Escuela .................... por la cual la señorita .................... acuerda impartir clases por un periodo de ocho meses a partir del .................... de septiembre de 1923. El Consejo de Educación acuerda pagar a la señorita .................... la cantidad de (*75) mensuales.

La señorita .................... acuerda:

1.- No casarse. Este contrato queda automáticamente anulado y sin efecto si la maestra se casa.
2.- No andar en compañía de hombres.
3.- Estar en su casa entre las 8:00 de la tarde y las 6:00 de la mañana, a menos que sea atender en función escolar.
4.- No pasearse por heladerías del centro de la ciudad.
5.- No abandonar la ciudad bajo ningún concepto sin permiso del presidente del Consejo de Delegados.
6.- No fumar cigarrillos. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encontrara a la maestra fumando.
7.- No beber cerveza, vino ni whisky. Este contrato quedará automáticamente anulado y sin efecto si se encuentra a la maestra bebiendo cerveza, vino o whisky.
8.- No viajar en coche o automóvil con ningún hombre excepto su hermano o su padre.
9.- No vestir ropas de colores brillantes.
10.- No teñirse el pelo.
11-. Usar al menos dos enaguas.
12.- No usar vestidos que quedes a más de cinco centímetros por encima de los tobillos.
13.- Mantener limpia el aula.
a) Barrer el suelo al menos una vez al día.
b) Fregar el suelo del aula al menos una vez a la semana con agua caliente.
c) Limpiar la pizarra al menos una vez al día.
d) Encender el fuego a las 7:00, de modo que la habitación esté caliente a las 8:00, cuando lleguen los niños.
14.- No usar polvos faciales, no maquillarse ni pintarse los labios.

* Agradeço ao A.R. a sugestão deste "post". A propósito, convirá lembrar que, durante o salazarismo, as professoras primárias portuguesas assumiam um compromisso "profissional" muito semelhante ao exposto.

Diário em forma de silêncio (35)...

A fronteira da neurose, em mim, como sabes, é muito ténue. Que procurei nos homens a que me confiei? A confirmação (a pergunta, de ressonâncias psicanalíticas, quase me repugna) do lado destrutivo do impulso erótico? Percebi, por eles, que era diferente das outras. Era-me estranho o pudor, esse pudor que as mulheres, pelos vistos, cultivam, como ingrediente talvez de sedução. Eu nunca soube de culpas ou estratégias defensivas de género. Há uma mulher em mim que, provavelmente, nunca o foi. Talvez o isolamento (ou algum abuso precoce, que continuo a recalcar) me tenha, de facto, conduzido à desaprendizagem do pudor. Acompanhei-te em tudo. Acompanhei-vos em tudo. E, se não fui mais longe... foi, apenas, porque as sombras projectadas no interior de nós (há um terriório comum em que habitamos) delineavam uma fronteira invisível que não estaríamos e, provavelmente, jamais estaremos em condição de ultrapassar. Talvez Freud, afinal, tivesse razão...

C.A.

setembro 01, 2006

Antologia poética (3)...

Memória de uma voz...

Nat King Cole

Uma voz pode ser
interpretando mesmo a ausência
todo o centro de gravidade
da nostalgia.

Ademar
02.06.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (2)...

Poema ao estilo de Serge Gainsbourg...

Nunca disse je-teme
(assim mesmo, à portuguesa)
Preferi sempre a linguagem gestual
que não consente tradutor
(antes de me especializar em braille).

Ademar
11.08.2004

publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt

Antologia poética (1)...

Escrito sobre o Adagietto da 5ª Sinfonia de Malher
(interpretado por The Uri Caine Ensemble)

Estou delicadamente construído sobre uma rede de canais
De todas as margens que hesito
saem pontes que me projectam para os outros lados de mim
Distraio-me
para perder sempre
a última carreira do vaporetto.

Ademar
22.06.2004

(publicado em abnoxio.blogs.sapo.pt)

Um filme que recomendo...

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No título original, "Prendimi l'Anima". Em português, "A Complexidade da Alma". Um filme de Roberto Faenza, sobre um argumento de Gianni Arduini. Para amantes e curiosos da psicanálise. Sabina Spielrein foi paciente, depois amante e, mais tarde, discípula de Jung. Judia russa, morreu (com a filha Renata) às mãos dos nazis, em 1942. Nos primórdios da revolução, fundara em Moscovo uma escola libertária, a Escola Branca, que chegou a ser frequentada, discretamente, por um dos filhos de Estaline. Escola que, mais tarde, o próprio Estaline mandaria encerrarr. O filme de Faenza não é, propriamente, uma obra prima, mas vale pela história que retira da penumbra do esquecimento. Sabina, como Salomé, foi uma mulher extraordinária, uma das primeiras baluartes da psicanálise. Inclino-me, comovido, perante a memória do seu exemplo de coragem e de ousadia.

Dicionário das palavras que eu amo (36)...

PRELIMINAR - Tenho uma relação erótica com as palavras (com o resto, naturalmente, também). Uma das muitas palavras que me excitam não tem género. Refiro-me ao adjectivo PRELIMINAR. Limen, liminis: a soleira da porta. Algum conhecimento do latim ajuda a estas divagações. PRELIMINAR é, digamos, tudo o que antecede o passo de franquer a soleira da porta, para entrar. Não basta, pois, a intenção: o PRELIMINAR supõe a acção intencional, dirigida claramente ao objectivo. Quer-se chegar à porta e franqueá-la, mas o caminho para lá chegar é tão ou mais importante que o acto da própria chegada. Muitas vezes, o caminho não é uma recta linear, mas quase um labirinto.
Quem ignora a matriz identitária das palavras e dos conceitos que as palavras invocam - ignora, porventura, o essencial. Os PRELIMINARes, digo eu, são o supra-sumo da própria vida. No sexo e em tudo o mais que vale a pena.
(Recuperado de abnoxio.blogs.sapo.pt)