janeiro 07, 2009

Regrets, I've had a few

É notório que quando Sinatra chegava a parte do seu clássico "My Way" (se nunca ouviu, vá a um karaoke. Como está previsto em decreto lei, não existe karaoke sem "My Way") onde lamentava os poucos arrependimentos da sua vida, estava a falar principalmente de Ava Gardner. Sinatra e Gardner, o seu grande amor, tiveram um casamento conturbado que terminou em divórcio amargo. Percebe-se a fascinação do cantor, além de linda Ava era esperta e, como era de se esperar, um tanto cruel. Quando soube que seu ex-marido tinha-se casado novamente com a então muito jovem e, digamos assim, menos desenvolvida Mia Farrow, comentou:

"Hah! I always knew Frank would wind up in bed with a boy."

ava_gardner___frank_sinatra.jpg


Tenho certeza que apenas certos problemas decorrentes da natureza linear do fluxo do tempo impediram que Charles Darwin passasse noitadas no karaoke no pub da aldeia de Downe (ver abaixo) a entornar whisky e oferecer aos vizinhos sua própria versão da música.

009.jpg

A sua inspiração seria não uma mulher, mas os eventos de 6 de janeiro de 1832. Darwin estava prestes a realizar um sonho de longa data: conhecer as Canárias. Seguiria os passos do seu herói Humboldt. Enfim veria a grande árvore-dragão. O Beagle avistou Tenerife ao raiar do dia. O mesmo Darwin que até agora se encontrava enfermo, a recusa-se a sair da sua cabine, registava agora no seu diário uma agitação constante, com frequentes visitas ao convés para examinar a ilha:

"Agora são cerca de 11 horas da manhã e eu preciso ver novamente este objecto da minha ambição, tão longamente desejado."

Photo9_DragonTree_Dixem.jpg

E logo a seguir, o desastre:

"Ó miséria, miséria- estavamos a preparar para largar âncora a 1/2 milha de Santa Cruz quando um barco se juntou a nós trazendo uma sentença de morte. O cônsul declarou que nos deviamos submeter a uma rigorosa quarentena de doze dias (...) foi logo decidido pelo Capitão que se içassem as velas e seguissemos viagem rumo as Ilhas de Cabo Verde."

A razão da quarentena imposta a todos os navios recém chegados da Inglaterra foi comunicada à tripulação do Beagle pelo vice-cônsul Britânico nas Canárias. As ilhas tinham recebido notícias de um surto de cólera na Inglaterra. Não havia que discutir, e Darwin ficou arrasado. O Capitão FitzRoy tomou nota do efeito da notícia no seu companheiro de viagem:

"Ter visto (o pico de Tenerife)- ter ancorarado e estado a ponto de desembarcar, e entretanto ser obrigado a ir embora sem a menor perspectiva de ver Tenerife de novo- foi para ele uma verdadeira calamidade."

Foi a segunda paragem sem ida a terra firme do Beagle a decepcionar Darwin, depois da Madeira. Ele já trabalhava como naturalista a bordo, colhendo peixes, algas e invertebrados marinhos. Mas Darwin ansiava mesmo era por passear pelas florestas tropicais. Quando teria finalmente a chance de descer daquele maldito barco?

Publicado por tentilhão às 12:43 PM | Comentários (0)

janeiro 04, 2009

O Beagle Avista Portugal

732px-Madeira_Ancient_Map2.jpg

A 4 de Janeiro de 1832, o HMS Beagle passou pela primeira vez por águas Portuguesas. Uma semana após ter finalmente zarpado de Devonport, o Beagle chegou à costa da Madeira, perto de Porto Santo. Entretanto o mau tempo que acompanhava a nau desde sua partida não permitiu que ela ancorasse. O mar agitado teve um efeito devastador sobre o jovem Charles Darwin, ele nem pode avistar a ilha:

“Eu estava tão doente que sequer me pude levantar para ver a Madeira quando estivemos a apenas 12 milhas de distância.” (Diário de bordo de Darwin).

O contratempo deve ter custado a Darwin mais do que a sua primeira expedição naturalista da viagem. Alguns dias antes, a 23 de Dezembro, o seu diário regista que para matar o tempo antes do início da viagem (o Beagle esteve semanas ancorado em Devonport à espera de condições favoráveis), Darwin e dois companheiros de bordo, Sullivan e Bynoes, fizeram uma competição de tiro com espingarda. O prémio seria:

“(…) várias garrafas de vinho a serem pagas e bebidas nas ilhas Madeira.” (Diário de bordo de Darwin).

O diário não nos diz o resultado da competição. Mas sabemos que Charles esteve grande parte da sua juventude de arma em punho, e segundo todos os relatos era um excelente atirador.

O Beagle continuou viagem rumo a Tenerife, destino que Darwin aguardava com grande ansiedade, pois era lá que um de seus heróis, o explorador Alexander von Humboldt teve algumas de suas mais famosas aventuras. Darwin e seu mentor, Henslow, tinham mesmo feito planos para uma viagem às Canárias, e Charles passava horas a ler e reler Humboldt:

“(…) chego a casa e leio Humboldt: o meu entusiasmo é tão grande que mal consigo estar sentado (…) nunca estarei em paz até ver o pico de Tenerife e a grande árvore-dragão”
(Carta de Darwin a sua irmã Caroline, 28 de Abril, 1831).

Embora o convite para se juntar à tripulação do Beagle tivesse levado ao cancelamento dos seus planos com Henslow, Darwin tinha ainda o consolo de que as Canárias se encontravam no seu roteiro de viagem.

Publicado por tentilhão às 12:30 PM | Comentários (0)

outubro 17, 2008

DARWIN VAI AOS GALÁPAGOS

beagle_500px.jpg

O HMS Beagle na Terra do Fogo.

Como a Fundação Calouste Gulbenkian lançou esta semana o concurso Darwin regressa aos Galápagos, o blog examina as circunstâncias por detrás da viagem do jovem naturalista no Beagle.

No verão de 1831, Charles Darwin sonhava com uma viagem aos Trópicos. Entusiasmado com os livros do explorador Alexandre Humboldt, Darwin planeava uma visita ás Ilhas Canárias com seu mestre, Henslow.

Darwin daria a volta ao mundo, mas jamais poria os pés nas Canárias. Por intermédio de Henslow, receberia no final de Agosto uma carta do matemático George Peacock (leia o texto desta carta em inglês- a pontuação e sintáctica tentam seguir o original):


"Meu caro Senhor,

Eu recebi a carta de Henslow ontem a noite demasiado tarde para enviá-la pelo correio, uma circunstância da qual não me arrependo, já que me deu a oportunidade de ver o Capitão Beaufort no almirantado (é o Hidrógrafo) e lhe comunicar a oferta que tenho a fazer a vossa pessoa: ele aprova inteiramente a oferta e você pode considerar a situação como estando inteiramente a seu dispôr: confio que a aceitará visto que é uma oportunidade que não pode ser perdida e antecipo com grande interesse os benefícios que as nossas colecções de história natural receberão dos seus trabalhos

As circunstâncias são estas:

O Capitão Fitzroy (um sobrinho do Duque de Graftons) zarpa no fim de Setembro numa nau para mapear em primeira instância a Costa S.(ul) da Terra do Fogo, e depois visitará as Ilhas dos Mares do Sul e retornará por via do Arquipélago Indiano à Inglaterra: A expedição tem fins inteiramente científicos e o navio aguardará o tempo necessário para seus estudos de história natural (…): O Capitão Fitzroy é um oficial de espírito público e zeloso, bem disposto e muito amado pelos seus irmãos oficiais: ele foi com o Capitão Beechey e gastou 1500 libras trazendo e tomando conta da educação de 3 nativos da Patagónia: ele contratou do próprio bolso um artista por 200 libras por ano para ir com ele: pode então você ter a certeza de ter um companheiro agradável, com quem compartilhar todas as suas opiniões

O navio zarpa em torno do fim de Setembro e você não deve perder qualquer tempo em comunicar a sua aceitação ao Capitão Beaufort, Hidrógrafo do Almirantado, com quem tenho me correspondido muito sobre este tema, que sente como eu muito ansioso que embarque. Espero que outros compromissos não interfiram com isto

O Capitão dar-lhe-á o ponto de encontro e toda a informação necessária: eu devo recomendar que venha a Londres, para vê-lo e completar os seus acordos Eu partirei de Londres na segunda-feira: talvez você tenha a bondade de me escrever em Denton, Darlington, para dizer que irá.

O Almirantado não está disposto a dar-lhe um salário, mas terá um cargo oficial e todas as acomodações: se entretanto um salário for preciso, estou inclinado a pensar que seria concedido

Creia-me, Meu caro Senhor, Verdadeiramente seu, Geo Peacock

Se está com Sedgwick, espero que lhe dê os meus melhores votos"

- Thiago Carvalho

Publicado por tentilhão às 11:36 AM | Comentários (0)

março 19, 2008

HMS Beagle, 18 de Março de 1835

“A mula surge-me sempre como um animal muito surpreendente. Que um híbrido possa possuir mais inteligência, determinação, afecto social e poder de resistência de muscular que qualquer um dos seus progenitores parece indicar que, aqui, a arte superou a natureza.”

- Darwin, em terra firme deixa Santiago do Chile rumo à Cordillera Andina, que atravessará a pé, a caminho da Argentina.

Publicado por tentilhão às 02:08 PM | Comentários (0)

março 03, 2008

Darwin na Bahia

carnav5.jpg
O HMS Beagle atravessou o Atlântico e atracou em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, a 28 de Fevereiro de 1832. Nosso herói não ficou indiferente à beleza dos seus arredores. A primeira impressão no seu diário de bordo exalta a cidade vista do seu porto:

“Seria difícil de imaginar, antes de contemplar a vista, qualquer coisa tão magnífica.”

Darwin se mostraria fascinado primeiro pela cidade, e depois pela natureza ao longo de sua estadia no Brasil. Mas não seria uma experiência inteiramente positiva. No Brasil ele teria ainda encontros marcantes com a escravidão. Como veremos mais adiante, a oposição de Darwin ao grande flagelo social da sua época foi imediata, inequívoca e visceral- seria a causa da sua primeira grande briga com o tempestuoso comandante do Beagle, o Capitão Robert FitzRoy.

A embarcação permanece no porto de Salvador até 18 de Março, dando a Darwin a oportunidade de conhecer outro fenómeno social brasileiro - o Carnaval naquele ano foi no início do mês. Charles parece ter encarado a festa mais como ameaça do que como diversão, e as breves entradas no seu diário tratam a folia bahiana como um percurso de obstáculos:

(Da entrada de 4 de Março)

“Hoje é o primeiro dia de Carnaval, mas Wickham, Sullivan* e eu não nos intimidámos e estávamos determinados a encarar seus perigos. Estes perigos consistem principalmente em sermos impiedosamente fusilados com bolas de cera cheias de água e molhados com esguichos de lata. Achámos muito difícil manter a nossa dignidade enquanto caminhávamos pelas ruas.”

* Companheiros de Darwin a bordo do HMS Beagle. Sobre Bartholomew James Sullivan, Tenente da Marinha Real, não sabemos grande coisa. Já John Clements Wickham, também Tenente durante a segunda viagem do Beagle (1831-1836, da qual participou Charles Darwin), seria depois promovido a Capitão e comandaria o Beagle na sua terceira expedição, que tinha como meta a confecção de uma carta hidrográfica do litoral australiano. Para os que acompanham o noticiário acerca de Timor e se perguntam como a cidade de Darwin, no norte da Austrália, onde estão baseados a maior parte dos jornalistas cobrindo aquela área do pacífico, veio a ter este nome, foram Wickham e John Lort Stokes (antigo companheiro de cabine de Darwin) que a batizaram, em homenagem ao seu antigo companheiro de viagem.

Publicado por tentilhão às 12:04 PM | Comentários (1)

fevereiro 20, 2008

DO DIÁRIO DE VIAGEM BEAGLE / FROM THE DIARY OF THE HMS BEAGLE*

Portugal-1.pngNesta seção iremos acompanhar as viagens dos nossos protagonistas- no século XIX a viagem dos naturalistas aos confins dos respectivos Impérios era uma verdadeira experiência formativa- no caso de Charles Darwin a viagem de cinco anos no HMS Beagle foi o evento central da sua vida. Darwin guardou seus diários de bordo, que mais tarde organizou e publicou. O diário do Beagle foi um enorme sucesso de vendas, surpreendendo o próprio autor, e de lá tiraremos vários episódios para compartilhar com nossos leitores. Além do famoso diário do Beagle, vamos também passear com Thomas Huxley abordo do HMS Rattlesnake e Alred Russell Wallace pelos mares do sul da Ásia, entre outros.

Picture2.png

A 20 de Fervereiro de 1835, a HMS Beagle está ancorada no Chile, ao largo da Ilha Chiloe. Darwin está em terra firme, a dormitar num bosque, quando é acordado por um tremor de terra. O abalo dura cerca de dois minutos e Darwin descreve a impressão como a de alguém a fazer patinagem sobre gelo fino, quando o gelo afunda, sob o peso do patinador, à medida que este avança. No bosque, o sismo não tem consequências visíveis e, mesmo na cidade, onde estão FitzRoy, capitão do Beagle, e outros tripulantes, as casas, que são de madeira, abanam e estalam, fazendo os seus habitantes correr em pânico para as ruas, mas nenhum edifício cai por terra. O efeito do sismo na maré é descrito a Darwin por uma observadora que estava na praia: à altura do abalo a linha de água, então em baixa-mar, subiu rapidamente até ao nível de maré-cheia, voltando, logo depois, ao nível original. O efeito, constata Darwin, é visível na linha de areia molhada na praia.

De facto, resume Darwin, embora compreensivelmente capazes de provocar grande insegurança nos habitantes daquela região do Chile, os efeitos do terramoto não são impressionantes. Na realidade, a dimensão devastadora do sismo só se torna clara para Darwin, quando o Beagle ancora ao largo da Ilha de Quiriquina, dois dias mais tarde.

* Entrada bilingue

(continua)

British_flag.gifIn this section, we will follow our protagonists as they sail around the world. The XIXth century naturalist�s voyage was a rite of passage for many, if not most, of the leaders in the field that would one day be known as Evolution. Charles Darwin thought of his 5 years on board the HMS Beagle as the central experience of his life, and at the end of our trip we will surely agree. Darwin later adapted his diaries of this period in book form, and to his own surprise, the Beagle diary became a runaway bestseller. We will bring to our readers stories from this journey, as well as from other naturalists sailing under different guises to exotic lands. We will meet the young surgeon's mate on the HMS Rattlesnake, Thomas Huxley and check in on the malaria stricken Alfred Russell Wallace as his feverish dreams lead him to an interesting revelation. So let's raise the anchors and sail off to�

February 20th, 1835. The HMS Beagle has stopped in Chile, off the coast Chiloe Island. Darwin is on dry land, sleeping in the woods, when he is jarred awake by a tremor. The disturbance lasts about 2 minutes, and Darwin describes the sensation as akin to skating on thin ice as the ice sinks under the weight of the skater. In the woods, the sismic event has no visible consequences. Even in the nearby city, where Robert FitzRoy, Captain of the Beagle, and other crew members, the wooden houses creak and tremble, but none collapse. The effects on the sea were described to Darwin by an observer on the beach: at the time of the quake, the waterline, then at low tide, rapidly rose to a full tide level, and then with the same speed subsided back to normal.

Darwin sums up the effects of the tremor as provoking an understandably intense feeling of insecurity in the inhabitants, but did not then consider them of great real significance. The devasting dimension of the earthqua ke would oly be clear to him a couple of days later, when the Beagle anchors at Quiriquina Island.

(to be continued).

Publicado por tentilhão às 12:00 AM | Comentários (0)