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junho 30, 2008

O ESTRANHO CASO DO CÃO QUE NÃO LATIU

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O brilhante detective de Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes, certa vez resolveu um crime utilizando uma ausência como evidência- neste caso a ausência do latido de um cão durante a noite. Holmes era muito bem qualificado para investigações nocturnas: para além de seus conhecidos poderes de observação e dedução, Doyle deu-nos uma personagem a consumir cocaína como Keith Richards em digressão pela América Andina…

Amanhã celebramos os 150 anos do anúncio público da mais importante descoberta científica do século XIX. Viram as notas nos jornais, os especiais na televisão, as edições comemorativas? Não se preocupe, o leitor não está a precisar de estimulantes, o problema não é da sua atenção. Este é o cão que não latiu na história da Biologia- a comunicação a Sociedade Lineana em Londres do princípio da Evolução por Seleção Natural foi tão ignorado na sua época como certamente o será amanhã. Esta semana o Blog vai debruçar-se sobre a história de Junho e Julho de 1858, com todos os elementos de um telefilme de primeira linha, um delírio palúdico na selva tropical, uma carta-bomba, um terrível dilema moral, a morte de um filho querido e muito mais.

Não mudem de canal.

Publicado por tentilhão às 10:21 AM | Comentários (0)

junho 23, 2008

FAIR PLAY

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Em homenagem ao espírito desportivo, e ao sentido de fair play que sempre prevalece nas taças europeias, o blog sugere-vos este artigo de Robin McKie no Guardian/Observer deste fim de semana, sobre a recta final da corrida Evolutiva do século XIX (vencedor, Charles Darwin, UK, 9s87).

Publicado por tentilhão às 10:37 AM | Comentários (0)

junho 20, 2008

FAMÍLIA (I)

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Desenho da descrição original do anfioxo, de Peter Pallas, 1778.


Muito barulho se tem feito na Zoologia ao longos dos anos em torno de um pequeno animal que passa a vida enterrado na areia do mar, pacificamente filtrando seus alimentos. Inicialmente classificado como um molusco, o anfioxo foi promovido ao nosso filo*, o dos Cordados, em virtude do seu cordão nervoso dorsal e notocorda**. O primeiro a reconhecer as afinidades dos anfioxos com os vertebrados foi Alexander Kowalevsky, em monografia submetida à Academia Imperial de São Petersburgo em 1866. O grupo dos anfioxos (os Cefalocordados) foi durante muito tempo considerado como o ramo mais próximo dos vertebrados na Evolução. O interesse solidificou-se definitivamente quando possíveis fósseis de Cefalocordados foram identificados em rochas do Cambriano, com mais de 500 milhões de anos de idade. Seriam possivelmente os primeiros Cordados. Uma ascenção meteórica para um bicho descrito por um investigador como "um filete de anchova palidamente animado". Até que entra em cena a Genómica...

Nos últimos ano alguns consórcios internacionais têm-se dedicado a sequenciar os genomas completos dos Cordados sem vértebras, numa tentativa de identificar os nossos parentes. A partir de 2002 a genética ligou intimamente os vertebrados a um grupo esquisito, os Urocordados (na figura abaixo, Tunicados). Animais marinhos que vivem em colonias sésseis, os urocordados mais parecem anémonas do mar do que qualquer outra coisa. Demonstrando uma certa tendência para usar os moluscos como uma espécie de "arquivo X" da classificação, Charles Darwin, entre outros, acreditava que os Urocordados pertenceriam a este grupo. Segundo o modelo actual, os tunicados teriam evoluido no seu estilo de vida sedentário tardiamente, no seu estado ancestral seriam um ser natatório, de vida livre. Não é tão improvável como soa- o estágio larval dos tunicados ainda guarda estas características.

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Relações possíveis dos vertebrados com seus parentes próximos (Henry Gee, "Nature", 2006)

A árvore da figura C acima foi fortalecida ésta semana com a publicação em artigo na última edição da "Nature" do genoma completo de uma espécie de anfioxo, Branchiostoma floridae. Os anfioxos seriam parentes distantes, mais próximos das estrelas do mar (equinodermes) do que de nós. Paradoxalmente, este distanciamento dos vertebrados (nós!) torna o anfioxo ainda mais interessante. Os autores do trabalho acreditam que o genoma do Branchiostoma guardaria inúmeras características do que seria o genoma do último ancestral comum de todos os Cordados. O blog voltará brevemente a este tema, numa série entitulada "Os Nossos Antepassados".


*Classificação taxonómica logo abaixo do Reino. Nós pertencemos ao Reino Animal, Filo Chordata, e dentro deste,à Classe Mammalia (mamíferos).
** A notocorda é uma espécie de "vara" rígida abaixo do cordão nervoso que serve de ponto de ligação aos músculos.

Publicado por tentilhão às 08:58 AM | Comentários (0)

junho 18, 2008

DARWINMANIA

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Hoje Olivia Judson no seu óptimo blog semanal de Biologia no New York Times pergunta, a propósito da grande algazarra mundial que está prestes a começar: esse tal Darwin, merece mesmo toda esta atenção?

Publicado por tentilhão às 02:52 PM | Comentários (0)

ENQUANTO ISTO, LÁ FORA

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Um pedaço do meteorito Murchison

Segundo o serviço de noticias da revista Science, investigadores europeus e norte-americanos, componentes fundamentais do DNA e RNA foram encontrados num meteorito. A Portuguesa Zita Martins, investigadora do Imperial College em Londres e autora principal do artigo relata que:

"Sabemos que meteoritos semelhantes ao Murchison, o que analisamos, estavam a trazer à Terra os blocos fundamentais da vida entre 3.8 e 4.5 bilhões de anos atrás."

O calhau em questão é um fragmento do meteorito Murchison, que assustou alguns cangurus quando caiu nas antípodas, perto da vila de Murchison em Victoria em Setembro de 1969. O meteorito desfez-se em vários pedaços, os maiores com quase 7 quilos, e já era alvo de atenção há muitos anos. Ainda em 1970, Kvenvolden e colaboradores comunicaram à Nature* a presença de alguns aminoácidos, os 'legos' usados para construir proteínas, no meteorito, e desde então vários relatos acusaram a presença de moléculas orgânicas complexas neste visitante do espaço sideral.


*"Evidence for extraterrestrial amino-acids and hydrocarbons in the Murchison meteorite". Nature 228 (5275): 923–926

Publicado por tentilhão às 10:44 AM | Comentários (0)

junho 16, 2008

DARWIN'S CANOPY (II)

A revista 'New Scientist' tem online um slideshow com algumas das propostas artísticas da competição Darwin’s Canopy, para pintar o tecto de uma galeria do Natural History Museum de Londres.

O vídeo é da empresa de design UnitedVisualArtists, que utilizou a evolução simulada na concepção de um escultura.

Publicado por tentilhão às 03:36 PM | Comentários (0)

junho 12, 2008

HISTÓRIA ESCRITA PELOS VENCEDORES

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Larry Gonik, "Cartoon History of the World".

Publicado por tentilhão às 07:04 PM | Comentários (0)

junho 11, 2008

MAR SALGADO

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O HMS Beagle no Cabo Horn, na visão do pintor John Chancellor.


A passagem navegável do Atlântico ao Pacífico contornando o extremo sul das Américas foi descoberta por Fernão de Magalhães em 1520. Desde então a literatura náutica tem acumulado relatos das tempestades, mares altos, correntes traiçoeiras e todos os tipos de desgraças que se abateram sobre os marinheiros que se aventuraram pelos Estreitos de Magalhães. Consta que ao ser informado que seria necessário permanecer na remota e inóspita região, o Capitão do HMS Beagle na sua primeira viagem à America do Sul, Pringle Stokes, achou que seria mais agradável simplesmente estoirar os miolos*.

Charles Darwin era o homem ideal para este desafio: sabemos pelas suas cartas e diários que esteve nauseado durante praticamente toda a expedição do Beagle. O jovem naturalista tinha passado uma estadia de vários meses em terra firme na Argentina, cavalgando pelas Pampas. Era uma época de guerras civis entre caudilhos (bem como uma sangrenta campanha de extermínio das populações indígenas), mas o conflito aparece nos escritos de Darwin principalmente como uma grande aventura. Além disso, Darwin fez descobertas científicas significativas, recolhendo animais, plantas e amostras geológicas inéditas. Como veremos mais a frente, a fauna fóssil, principalmente os mamíferos gigantes extintos que Darwin encontrou na Argentina teriam um importante papel na génese do seu pensamento evolutivo, e na argumentação apresentada na "Origem das Espécies".

Mas a missão do Capitão Robert Fitzroy e sua tripulação não era o avanço da História Natural. O objectivo principal do HMS Beagle era claro: mapear a passagem sul para o Pacífico. Durante a primeira aproximação ao Cabo, em 13 de Janeiro de 1834, o Beagle quase foi a pique por conta de uma tempestade. Segundo Fitzroy, a embarcação rolava nas ondas "como um barril". Apesar do susto, o único dano permanente foi a destruição de parte dos espécimes e escritos de Darwin: "Foi bom que todas as escotilhas estivessem bem seladas, e que nada pesado se pudesse soltar (...) Pouca água penetrou nos decks inferiores (...) embora as colecções do Senhor Darwin tenham sido muito danificadas."**

A embarcação, e sua recém adquirida acompanhante, a schooner Adventure, ainda fariam um pequeno desvio Atlântico para afirmar a soberânia de Sua Majestade sobre as ilhas Malvinas. Finalmente, a 11 de Junho de 1834, o Beagle chegou ao Oceano Pacífico. Darwin e o Beagle sobreviveram. Apesar dos muitos perigos enfrentados na volta ao mundo, ambos sucumbiriam à velhice muitos mais tarde, na sua Inglaterra nativa.

*Stokes não era própriamente um Favorito dos Deuses, ainda sobreviveu 12 dias com a bala alojada no cerébro até finalmente morrer de gangrena.

** Diário do Capitão FitzRoy, 13 de Janeiro de 1834.

Publicado por tentilhão às 02:42 PM | Comentários (0)

junho 09, 2008

GRANDE PENSADOR

Hoje o jornal "Público" oferece na sua coleção Grandes Pensadores, a seguir John Stuart Mill e antes de Karl Marx, um volume sobre Darwin. O livro inclui uma breve secção biográfica e uma análise das suas obras e idéias, ambos de autoria de Diego Gándara, e termina com os 6 primeiros capítulos da "Origem das Espécies" em português.


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Publicado por tentilhão às 09:19 AM | Comentários (0)

junho 07, 2008

DARWIN´S CANOPY

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Esta semana em Londres, o Museu de História Natural inaugurou a exposição "Darwin's Canopy" (Cobertura de Darwin). De 4 de Junho a 14 de Setembro o Museu apresenta ao público as propostas dos artistas seleccionados para competirem pelo privilégio de ilustrar o tecto de uma das suas galerias. Dentro dos 10 artistas escolhidos, estão dois vencedores do prémio Turner, o mais prestigioso da arte Britânica. O jornal “Times” compara o projecto à Capela Sistina do Vaticano, famosa obra de Miguel Angelo que apresenta uma tese anterior sobre a origem da espécie humana. No papel de patrono, préviamente exercido por Giuliano della Rovere (o Papa Júlio II), está o Director da Fundação Calouste Gulbenkian no Reinon Unido, Andrew Barnett (Calouste II?). O tecto do Museu de História Natural de Londres é parte de um conjunto de iniciativas que a Gulbenkian/UK patrocina na comemoração do Ano Darwin.

O Museu de História Natural de Londres é uma verdadeira jóia da arquitectura Victoriana. Concebido em estilo Gótico, inclusive com alguns simpáticos gárgulas, pelo arquitecto Alfred Waterhouse, a sua construção terminou em 1881. Foram ainda necessários mais de três meses em 1882 para transportar os espécimes das suas várias coleções zoológicas, botânicas, geológicas e outras, até ao Museu em South Kensington. Actualmente contém mais de 70 milhões de espécies, inclusive tesouros inexplorados. Em 2007 Michael Taylor, um aluno de doutoramento, descobriu no Museu uma nova espécie de dinosauro. Após 130 milhões de anos enterrado no solo, e mais de 100 anos esquecido numa prateleira, Xenoposeidon proneneukus, uma saurópode herbívoro com 20 metros de cumprimento*, foi descrito nas páginas de revista “Paleobiology”.

Uma vez coroado o vencedor, a obra será concluída até Fevereiro de 2009, quando o tecto será apresentado ao público durante as celebrações do aniversário de 200 anos de Charles Darwin.


* É giro imaginar um réptil do tamanho de um autocarro perdido numa prateleira (os museus tem móveis próprios, o blog já viu nas entranhas do American Museum of Natural History um enorme cangurú empalhado dentro de uma gaveta). Infelizmente não chegou a tanto: o investigador explica na sua webpage como re-criou o animal a partir de uma só vertebra.

Publicado por tentilhão às 11:33 AM | Comentários (0)

junho 05, 2008

CULTURA POPULAR II


A transição da Guiness ao Homer é muito natural.

Publicado por tentilhão às 02:57 PM | Comentários (0)

junho 04, 2008

EXPRESSÃO CORPORAL

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Karl Von Frisch recebeu um prémio Nobel em 1973 pela surpreendente descoberta de que as abelhas “conversam” através da dança. Frisch observou os comportamentos distintos que as abelhas usam para avisarem que encontraram comida, e depois para indicarem à colmeia a distância e a direcção da fonte de alimento. Agora uma colaboração entre investigadores na China, Australia e Alemanha, publicada num artigo na revista PLOS ONE*, revela um verdadeiro encontro de api-culturas.

A abelha asiática, Apis cerana cerana, e a abelha europeia, Apis mellifera ligustica, usam duas danças inteiramente diferentes, facto que não causa surpresa, por se tratar de duas espécies diferentes em continentes separados. Partindo desta observação relativamente banal, Songkun Su e seus colegas conceberam uma experiência simples no desenho mas fantástica no resultado: estabeleceram colmeias mistas, e observaram que as abelhas asiáticas aprendem a decodificar a linguagem dançante das europeias.

* Para os corajosos: o link vai para o artigo original ("East Learns from West: Asiatic Honeybees Can Understand Dance Language of European Honeybees"), ou seja, para o trabalho científico. Pelo lado positivo, as revistas PLOS seguem o modelo de acesso livre, ao contrário da maior parte das revistas científicas, com assinaturas a preços faustuosos.

Publicado por tentilhão às 10:18 AM | Comentários (0)

junho 01, 2008

VÁ LÁ CARLINHOS!

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O blog já mencionou as caricaturas de Darwin que surgiram na imprensa popular. Entretanto o cartoon mais antigo, que capturou perfeitamente o espírito de nosso herói, é provavelmente este, de autoria de um colega seu em Cambridge. Albert Way acompanhou muitas vezes Darwin nos seus passeios entomológicos. A prática era comum na época, mas a dedicação fervorosa de Darwin a colheita de besouros ainda assim impressionava- e assim temos este registo gráfico.

Darwin no seu registo escrito também não deixou dúvidas quanto a importância do seu hobby:

"Nenhuma actividade em Cambridge foi seguida com tanta vontade, ou me deu tanto prazer quanto colecionar besouros (...) Nenhum poeta se sentiu mais deliciado ao ver o seu primeiro poema publicado quanto eu me senti ao ver no 'Ilustrações dos Insectos Britânicos' de Stephens as palavras 'capturado por Charles Darwin, esq.'"

("Autobiografia")

Publicado por tentilhão às 04:22 PM | Comentários (0)