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maio 28, 2008

A PINT OF DARWIN / UMA CANECA A DARWIN

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maio 25, 2008

BISCOITINHOS DO BULLDOG (II)

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T.H Huxley deixou um enorme espólio de frases de efeito, recheio ideal para os biscoitinhos chineses da sorte. O blog traduzirá algumas periodicamente:

"It is the first duty of a hypothesis to be intelligible."

ou:

"O dever primeiro de uma hipótese é ser inteligível."

Publicado por tentilhão às 05:58 PM | Comentários (0)

maio 23, 2008

"HE THINKS LIKE NATURE"

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"Ele pensa como a Natureza", foi assim que um colega descreveu Saul Adler (1895-1966), um elogio díficil de superar para um cientista.


Nascido numa pequena cidade Russa no final do século XIX, o jovem Saul e sua família emigraram para Leeds, Inglaterra em 1900. Após concluir os estudos de Medicina, foi enviado pelo exército de Sua Majestade à Mesopotâmia, onde teve seu primeiro contacto com a medicina tropical. A Parasitologia tornou-se a sua especialidade, com ênfase na Leishmaniose, mas também com importantes contribuições para a malária, lepra e infecções de Theileria que dizimavam as vacas leiteiras importadas para a Palestina (desenvolveu uma vacina eficaz para a teileríase bovina). Por conta de uma febre que Adler descobriu ser transmitida por carraças do gênero Ornithodoros que infestavam ratos em cavernas, as incursões espeleológicas foram durante décadas proibidas aos soldados israelitas. Mais prosaicamente, os hamsters que hoje proliferam por lares e laboratórios descendem de uma fêmea trazida em 1930 da Síria por Adler. Diz uma lenda mais ou menos credível que durante a Segunda Guerra Mundial servia de “computador humano” às forças Aliadas- um google para doenças infecciosas numa guerra que alastrava pelo trópicos.

Adler era um notável poliglota, que dava seminários inclusivamente em português. Foi o primeiro a traduzir a “A Origem das Espécies” para o Hebraico. No entanto, Saul Adler não aparece na nossa história por esta curiosidade bibliográfica. Em 1959 ele propôs uma solução interessante para um dos mistérios recorrentes da Darwinologia: de que mal sofria Charles Darwin? Sabemos apenas que após a sua vigorosa juventude de caçador, explorador e naturalista, Darwin passou as últimas décadas em constante estado de convalescença. Retirou-se para a bucólica Down House em 1842 e lá permaneceu até sua morte em 1882. Em boa parte dos dias, conseguia trabalhar apenas duas ou três horas antes de ser vencido pela fadiga. Além do cansaço crônico, Darwin relatou uma impressionante litania de sintomas ao longo dos anos, vómitos, dores de cabeça, tremuras, palpitações cardíacas, etc… Acompanha esta lista a sua sombra, a lista de possíveis causas, entre elas o envenenamento por arsénico, depressão, “gota suprimida” e alergia aos pombos (no caso desta última é permitido aos leitores da “Origem das Espécies” um fugaz momento de schadenfreude).

A pista chave está nesta passagem do diário do Beagle, de 25 de Março, 1835:

“A noite sofri um ataque do Benchuca, uma espécie de Reduvius, o grande insecto negro dos Pampas. É intensamente enojante sentir insectos macios e sem asas, de uma polegada de comprimento, rastejando pelo nosso corpo. Antes de sugarem são bastante magros, mas a seguir incham com sangue (…)”

O visitante noturno de Charles hoje em dia é conhecido pelo nome científico Triatoma infestans, e sua fama, ou infâmia, na comunidade médica vem do facto de ser o vector do Mal de Chagas. A picada do insecto transmite o parasita Trypanossoma cruzii, que muitas vezes estabelece uma doença crónica, que pode durar várias décadas, consistente com muitos (mas não todos) dos sintomas de Darwin.

Publicado por tentilhão às 02:57 PM | Comentários (0)

maio 22, 2008

Laboratorio Chimico, Coimbra

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O Museu da Ciência recebeu o prémio Micheletti de Museu Europeu do Ano na área de ciência, tecnologia e indústria. Localizado nas belas instalações do antigo Laboratório Chimico da Universidade de Coimbra- edifício construído pelo Marquês de Pombal, num momento de pausa entre alimentar os vivos, enterrar os mortos, e expulsar os Jesuítas- o Museu passa por uma fase de intensa actividade.

O prémio reconhece o excelente trabalho do biólogo Paulo Gama Mota, Director do Museu, e seus colaboradores. Instalações interactivas, actividades educativas (inclusivé nos fins de semana) e o restauro do próprio edifício são apenas algumas das razões para se visitar o Chimico.

Publicado por tentilhão às 02:47 PM | Comentários (0)

maio 20, 2008

PARA PERDER PESO (O Verão está a chegar!)

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A revista New Scientist publica uma lista de quatro orgãos (e um reflexo) vestigiais em seres humanos.

Publicado por tentilhão às 09:47 AM | Comentários (0)

maio 19, 2008

LEONARDO

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PALESTRA NO ÂMBITO DA EXPOSIÇÂO
LEONARDO DA VINCI – O GÉNIO
MUSEUS DA ESCOLA POLITÉCNICA:

Leonardo: a curiosidade infinita
Prof. João Caraça
Instituto Superior de Economia e Gestão


DIA 20.05.08
18H
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN: AUDITÓRIO 2


No âmbito da exposição “Leonardo da Vinci – O Génio, que abriu ao público no dia 14 de Março, no espaço do antigo Picadeiro do Colégio dos Nobres, nos Museus da Politécnica, em Lisboa, decorrerão no anfiteatro 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, uma série de palestras: Leonardo: a curiosidade infinita, a última palestra do ciclo, será apresentada pelo Prof. João Caraça no dia 20 de Maio às 18h.

A exposição, que contém dezenas de modelos em tamanho real, construídos a partir de desenhos de da Vinci, a par de outras peças inspiradas na vida e obra do pintor, estará aberta ao público de 14 de Março a 22 de Junho. Paralelamente à mostra, aberta sete dias na semana, das 10h00 às 20h00, haverá actividades pedagógicas para crianças dos 3 aos 13, de segunda a sexta, das 10h às 18h. As actividades pedagógicas podem ser marcadas através dos telefones, 21 392 18 08 / 83, ou por email, geral@museus.ul.pt

Leonardo da Vinci – o Génio, é patrocinada pelo Millennium BCP e promovida pela Grafinvest, esteve anteriormente patente no Palácio de Cristal, no Porto, sendo agora trazida a Lisboa pelo Museu de Ciência da Universidade de Lisboa.

Publicado por tentilhão às 08:58 AM | Comentários (0)

maio 18, 2008

JOHN STEVENS HENSLOW, RIP

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Carta de Darwin a Joseph Hooker, 18 de Maio de 1861:

Meu caro Hooker,

Fiquei muito contente ao saber que o pobre e velho Henslow está em repouso. Acredito plenamente que homem melhor jamais andou sobre a face da Terra. Que perda ele será para a sua paróquia! Eu posso bem crer o quanto vais sentir a sua falta (…) Quão gentil era ele comigo quando era estudante, convidando-me constantemente à sua casa e levando-me em longas caminhadas. Sinto-me agradecido ao pensar que na época aproveitei e apreciei plenamente a sua bondade (...)

Publicado por tentilhão às 02:45 PM | Comentários (0)

maio 16, 2008

DORMIR, TALVEZ SONHAR

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A crítica ao estilo de vida da preguiça começa com a sua primeira descrição por Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdes em 1526 no seu “História Geral e Natural das Índias Ocidentais”. Valdes, encarregado pela Coroa Espanhola de documentar as novas terras descobertas por Colombo, não hesita em afirmar não existir animal mais feio ou inútil que a simpática senhora que vemos aqui na foto (com sua cria pendurada). A bem da verdade, a reputação do próprio Valdes também não era assim grande coisa- de seu livro dizia Frei Bartolomeu de las Cazas: “contém quase tantas mentiras quanto palavras.”

As coisas não melhoraram com o passar do tempo, e as injúrias foram-se acumulando. Segundo os empregados dos Jardins Zoológicos, os bichos estavam o dia todo a dormir. Em média 16 horas por jornada estariam inconscientes.

Agora a equipe de Niels Rattenborg, do Instituto Max Planck de Ornitologia, resolveu tirar a questão a limpo: as preguiças no seu ambiente natural dormem o dia todo? A equipe aborda o problema de uma maneira pioneira, utilizando uma versão miniaturizada e portátil do leitor de EEG, o aparelho que mede as ondas cerebrais. Rattenborg e sua equipa foram ao Instituto de Investigação Tropical Smithsonian no Panamá, onde vestiram três fêmeas adultas da espécie Bradypus variegates com gorros contendo os mini-leitores. Depois libertaram-nas e cinco dias depois foram busca-las à selva.

Rattenborg comunica a conclusão do estudo na última edição da revista “Biology Letters”. As preguiças no mato dormem pouco mais de nove horas e meia por dia. Destas, à volta de duas horas são dedicadas ao sono REM- aquele no qual os olhos se mexem rapidamente debaixo das pálpebras, quando o blog esta a correr atrás da Nastassja Kinski e o Sócrates esta a voar num DC-10 da saudosa PanAm fumando Chesterfields sem filtro (na época recomendados por 9 entre 10 médicos). A explicação mais aceite para a discrepância destes números com os obtidos em cativeiro parece ser simples: o tédio. Engaiolodas, sem precisar de ir buscar comida ou fugir de predadores, as preguiças dormem.

Quando estão em sono REM, que sonham as preguiças? O trabalho nao especula, nem será este o novo desafio do grupo, que agora quer saber quanto tempo dormem os avestruzes in natura.

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maio 15, 2008

EVOLUÇÃO HUMANA

Publicado por tentilhão às 11:24 AM | Comentários (0)

maio 13, 2008

FRONTEIRAS DA CIÊNCIA

PALESTRA NO ÂMBITO DO PROGRAMA
NA FRONTEIRA DA CIÊNCIA
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN & CIÊNCIA VIVA

DIA 26.03.08
18H
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN: AUDITÓRIO 2

O papel revolucionário da nanotecnologia e das células estaminais na medicina regenerativa
Manuela Gomes
Instituto de Biotecnologia e Bioengenharia, Universidade do Minho

Quais as contribuições da engenharia de tecidos e da nanotecnologia para a medicina regenerativa? Os desenvolvimentos conseguidos em engenharia de tecidos, bem como em nanotecnologia, têm contribuído significativamente para desenvolver substitutos sintéticos para tecidos humanos. As células estaminais são células humanas ainda não-diferenciadas e podem por isso, potencialmente, ser induzidas a adquirir as propriedade de qualquer tecido humano. A Nanotecnologia é um campo da ciência e da tecnologia aplicada, no qual o controlo da matéria é efectuado ao nível molecular. A investigação na área de materiais micro e nanoestruturados para aplicações na Engenharia de Tecidos assentam na premissa que estes nanomateriais e nanoestruturas podem ser sintetizados e funcionalizados em dimensões semelhantes às dos constituintes dos tecidos a regenerar no corpo humano.


MANUELA GOMES licenciou-se em Engenharia Metalúrgica e de Materiais pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, obteve o Mestrado em Engenharia de Polímeros pela Universidade do Minho em 2001 e o Doutoramento, também por aquela Universidade, em 2005. O seu trabalho de doutoramento centrou-se no estudo e desenvolvimento de estratégias de Engenharia de Tecidos para regeneração óssea. Tendo participado na criação do Laboratório de Biomateriais do Departamento de Engenharia de Polímeros da Universidade do Minho, esteve ainda envolvida na formação da Rede de Excelência Europeia “EXPERTISSUES”, constituída por vinte parceiros internacionais. Para além de orientar alunos de Mestrado e de Doutoramento, Manuela Gomes foi duas vezes galardoada com o prémio da Sociedade Americana de Biomateriais, é autora de vinte e dois artigos publicados em revistas internacionais, de vários capítulos de livros e Professora Auxiliar Convidada no âmbito do programa MIT-Portugal. Presentemente, dedica a sua investigação ao estudo da funcionalidade in vivo e criopreservação de materiais obtidos por engenharia de tecidos, para regeneração de osso e cartilagem, utilizando células estaminais.

Publicado por tentilhão às 12:36 PM | Comentários (0)

maio 12, 2008

SELEÇÃO NATURAL (I)

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Tcheky Karyo (esq.) e Bart, no filme "O Urso" de Jean-Jacques Annaud.

"A Teleologia implica que os orgãos de cada organismo são perfeitos e não podem ser melhorados; a teoria Darwiniana afirma simplesmente que estes orgãos funcionam suficientemente bem para fazer face aos competidores que o organismo encontra, mas admite a possibilidade de melhoria com duração indefinida."
-Thomas Henry Huxley.

Uma explicação concisa, sem dúvida. Mas eu lembro-me de ter ouvido isto pela primeira vez doutra forma:

Dois amigos caminhando pela floresta dão de caras com um Urso em estado de cólera, provavelmente uma Ursa a proteger a ninhada. Sob o olhar aterrorizado do seu colega, um dos caminhantes começa rapidamente a trocar as botas pelas sapatilhas de corrida.
O amigo estupefato diz: "Estás louco pá, nunca vais correr mais do que o Urso!?"
Ao que ouve a resposta: "Eu não tenho que correr mais do que o Urso..."

Publicado por tentilhão às 04:17 PM | Comentários (0)

maio 08, 2008

FESTA ESTRANHA COM GENTE ESQUISITA

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"Uma coisa de confecção imortal, não humana, com fronte de leão e cauda de serpente, uma cabra ao meio, e seu sopro libertava a terrível chama de fogo luminoso."*

Assim Homero nos apresenta na Ilíada a Quimera, criatura imaginária que aterrorizava a Antiguidade. "Bricolagens" do Reino Animal abundam nos relatos de diversas civilizações- os gregos também punham asas nos cavalos (para não falar de algumas senhoras com comportamentos digamos heterodoxos com touros e outros animais), os egípcios tinham a sua Esfinge e os Aztecas quando se depararam com os Conquistadores a cavalo concluíram logicamente que se tratava de centauros. Muitos relatos eram apoiados por "espécimes"- em geral qualquer coisa costurada a qualquer outra poderia ser encontrada pelo menos num bestiário medieval. Esqueletos de sereia não chegavam a rivalizar com pedaços da Cruz, mas talvez excedessem o número de omoplatas de São João Baptista.

Por isso, quando viajantes ingleses no apagar das luzes do século XVIII trouxeram não só relatos, mas também espécimes da bizarra fauna Australiana, foram recebidos com uma saudável dose de cepticismo. Três décadas mais tarde, Darwin testemunharia a sua veracidade com os próprios olhos durante a passagem do Beagle por New South Wales. Confrontado com o ornitorrinco, Darwin exclamou que um descrente ao ver tal coisa postularia que certamente dois "Criadores distintos" seriam necessários para explicar sua existência. Quase tão improvável como a Quimera, o ornitorrinco tem pêlo e produz leite como um mamífero qualquer, mas não possui mamilos. A característica anatómica mais saliente à primeira vista é o bico, de onde vem seu nome, literalmente "nariz de passáro". O seu modo de reprodução permaneceu um mistério durante muitos anos, pois o pequeno animal habita labirínticas tocas subterrâneas, até que em 1884 Wiliam Caldwell enviou um telegrama sucinto e definitivo: "Monotremos ovíparos, embriões meroblásticos". Ou seja, a espécie põe ovos, ao invés de dar à luz a prole viva**. Portanto ao esclarecer um mistério, Caldwell aprofundou outro: como classificar o ornitorrinco? Os detalhes ímpares acumularam-se, as patas com membranas entre os dígitos, tal como nas aves aquáticas, a capacidade de produzir veneno semlhante à dos répteis, etc, etc...

A revista "Nature" de hoje põe em cena uma verdadeira avalanche de novas informações descobertas a partir publicação da sequência do genoma do ornitorrinco. O trabalho de um consórcio liderado pelo Centro de Sequenciamento Genómico da Universidade Washington (Saint Louis, EUA) essencialmente mostra que na sua composição molecular, o ornitorrinco se assemelha a uma Quimera genética. As proteínas do seu leite, por exemplo, são codificadas por um grupo de genes que se assemelham ao seu correspondente em humanos e outros mamíferos. Já o seu ovo parece ser pelo menos em parte constituído pelo produto de um gene encontrado em galinhas. Outros traços marcantes, como seu cocktail de venenos, parecem ter evoluído independentemente nos ornitorrincos, e embora tenham semelhanças funcionais com os venenos reptilianos, representam um caso de evolução convergente.***

As conclusões iniciais são provocantes, mas como todas as sequências genómicas, a sua publicação marca o início de um programa de investigação, muito mais do que um término.


*Terrível mesmo é a tradução que o blog faz de um dos maiores clássicos da Literatura mundial. Em geral o blog tem medo mas não tem vergonha, neste caso é o contrário.

** Monotremata é a Ordem de mamíferos a qual pertencem os ornitorrincos. Meroblástico refere-se ao modo de divisão (ou clivagem) do embrião- que neste caso difere dos mamíferos restantes, holoblásticos.

*** Evolução Convergente: o desenvolvimento de características semelhantes por vias completamente independentes- pense nas asas dos passáros e dos morcegos.

Esta entrada é dedicada ao Dr. Pacheco Pereira, cujo blog cumpre hoje mais um ano, que parece ter um gosto especial por ornitorrincos.

Publicado por tentilhão às 12:22 PM | Comentários (0)

maio 07, 2008

COISAS QUE PERDEMOS PELO CAMINHO

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Barbourorula kalimantanensis

As ilusões, os cabelos, a juventude... e no caso de um pequeno anfíbio do Bornéu, os pulmões.

Dentre as questões que causavam confusão ao nosso patrono Charles Darwin, tinha especial lugar o desaparecimento de órgãos, pêlos, pigmentos e outras características. Como explicar este fenómeno pelo mecanismo da Selecção Natural? Após algum tempo a lutar com explicações para o conhecido caso do desaparecimento dos ohos em peixes e outros animais de caverna, Darwin finalmente atirou a toalha ao chão e apelou para o mecanismo Lamarckiano da herança de caracteres adquiridos- ou como era mais popularmente conhecido na época, os efeitos do uso e desuso.

Darwin escreve exasperadamente no capítulo V da "Origem das Espécies":

"É de conhecimento geral que muitos animais, pertencentes às mais diversas classes, que habitam as cavernas da Styria* e do Kentucky, são cegos. Em alguns dos caranguejos, o pedúnculo do olho permanece, mas o olho perdeu-se; o tripé do telescópio está lá, mas o telescópio com suas lentes já não. Como é difícil imaginar que os olhos, embora inúteis, poderiam ser de qualquer maneira injuriosos aos animais que vivem na escuridão, eu atribuo a sua perda inteiramente ao desuso."

Para atirar gasolina no fogo surgem agora David Bickford e os seus colegas na Universidade de Singapura a introduzirem nas páginas da revista "Current Biology" o primeiro caso de um sapo sem pulmões. A espécie, Barbourula kalimantanensis, foi descoberta nas montanhas do Bornéu, num habitat extremamente ameaçado pela actividade mineira e pelo desflorestamento. O pequeno batráquio respira através dos poros da pele, o que só e´possível devido à alta concentração de oxigénio no riacho onde vive, por isso é extremamente sensível a variações ambientais**.

O mecanismo do desaparecimento de estruturas persiste como tema de debate acirrado na comunidade científica. A explicação mais simples é a da neutralidade: como a maior parte das mutações que ocorrem tem efeito negativo, a Seleção Natural age como um editor permanente do genoma, eliminando erros a cada geração. Quando a Seleção deixa de operar- quando por exemplo se coloniza um ambiente sem luz, a pressão selectiva deixa de operar, e as mutações que afetam, por exemplo, o desenvolvimento dos olhos, acumulam-se sem correção.

Paradoxalmente, a descoberta de Bickford despertou interesse em muitos biólogos pela oportunidade que oferece para compreendermos melhor como evoluíram os pulmões quando os primeiros animais se aventuraram pelo meio terrestre.

* Região no sudeste da Áustria.
** Actualmente os anfíbios em geral estão em acelerado e preocupante declínio populacional.

Publicado por tentilhão às 03:22 PM | Comentários (0)

maio 05, 2008

Julgamento do Macaco

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Clarence Darrow (esq.) e William Jennings Bryan


5 de Maio, 1925: um jovem professor no liceu de Dayton, Tennessee recebe um mandado de captura. É o início de um dos mais célebres casos de tribunal da história Americana. Na versão canónica, a história que os biólogos contam às suas crianças na hora de ir para a cama: um inocente professor é martirizado pelas forças das trevas somente pelo crime de ensinar ciência. A realidade, como sempre, é mais complexa. O professor, John Thomas Scopes, não chegou a passar nenhuma noite preso, a sua fiança de 1000 dólares foi imediatamente paga pela organização que havia colocado no jornal “Chattanooga Times” um anúncio em busca de alguém disposto a violar a lei. Em jogo no tribunal não estava sua liberdade, apenas uma multa de US$ 100.

Alguns meses antes, um fazendeiro local, John Washington Butler ficou escandalizado com relatos sobre meninas e meninos que supostamente estariam a disputar a veracidade literal da Bíblia, chegando mesmo a responder torto aos pais! A culpa seria da nova e perigosa teoria da Evolução das espécies, parte do currículo de Biologia. Infelizmente além de lavrador, Butler era membro da Assembleia Legislativa do seu estado, e sua indignação encontrou expressão legal. O resultado foi a Lei Estadual # 185, conhecida como Acto Butler, aprovada por larga maioria e ratificado a contragosto pelo Governador:

“UM ACTO proibindo o ensino da Teoria da Evolução em todas as Universidades, Escolas Normais e todas as outras escolas públicas do Tennessee (…)

Secção 1: (…), Que será ilegal que qualquer professor em qualquer das Universidades, Escolas Normais e todas as outras escolas públicas do Estado (…) ensine qualquer teoria que negue a história da Criação Divina do homem ensinada na Bíblia (…)”

A reação foi imediata: a aprovação do Acto Butler foi votada a 21 de Março de 1925, e já a 4 de Maio a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) publica no “Chattanooga Times” um anúncio em que se dispõe a pagar os custos legais de um professor do estado que se voluntariasse a violar a lei. A pequena cidade de Dayton (população em 1925: 1800) passava por tempos difíceis- a principal empresa local, a companhia de minérios Dayton Coal and Iron faliu em 1913, e muitos abandonaram a cidade em busca de oportunidades (população em 1913: 3000). O grupo que se reunia regularmente na Drogaria Robinson viu na controvérsia uma oportunidade de reavivar Dayton atraindo a atenção nacional. John T. Scopes, professor de matemática e treinador da equipa de football americano do Liceu do condado foi convencido a confessar ter violado a lei. A ordem de prisão foi prontamente emitida e o grupo da Drogaria teve mais êxito do que poderia ter sonhado. A acusação foi confiada a William Jennings Bryan. Secretário de Estado (Ministro dos Negócios Estrangeiros) de Woodrow Wilson, candidato três vezes derrotado à Presidência dos Estados Unidos pelo partido Democrata e militante cristão; Bryan via no ensino da Evolução as sementes da decadência moral da nação. Para defender Scopes, a ACLU contratou Clarence Darrow, o mais célebre advogado de defesa do país.

O julgamento foi curto, afinal a culpa de Scopes nunca esteve em questão- ele violara a lei de propósito. No seu momento mais dramático, Clarence Darrow chamou como testemunha o seu oponente Bryan- na qualidade de testemunha especialista sobre a Bíblia. Entre insultos e gracejos mútuos, Darrow obtém de Bryan uma admissão de que ele próprio não considera o Génesis um relato factual da história da terra:

Darrow: Acha que a Terra foi criada em seis dias?
Bryan: Não em seis dias de 24 horas.
Darrow: Já descobriu onde Cain foi buscar a sua mulher?
Bryan: Deixo a sua busca para os agnósticos.
Darrow: Acha que o Sol foi criado no quarto dia?
Bryan: Sim.
Darrow: E tinham noite e manhã sem o Sol?
Bryan: Digo simplesmente que era um período.
Darrow: A Criação pode ter continuado por muito tempo?
Bryan: Pode ter continuado por milhões de anos.

Como era inevitável, Scopes foi condenado a pagar a multa (também paga pela ACLU). A esperança de levar o caso até o Supremo Tribunal para debater a sua constitucionalidade foi entretanto frustrada, quando o Tennessee reverteu a pena, mas apenas por um detalhe técnico. O Acto Butler perdurou como lei até 1967.


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