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março 30, 2008

VELHINHOS, MAS LIGEIROS

tuatara.jpgAo abrir a página de notícias da “Nature” online este fim-de-semana e dar de cara com uma manchete sobre “tua tara”, o blog pensou imediatamente se tratar, como seria normal, de uma matéria sobre a Sophie Marceau, um xilofone e muito, muito chocolate em calda. Ledo engano, e leve dislexia: o Tuatara do título é um réptil neozelandês, considerado um fóssil vivo, termo cunhado por Darwin na “Origem das Espécies”:

“(…) e é na água doce que encontramos algumas das formas mais anómalas conhecidas actualmente no mundo, como os Ornythorhynchus e Lepidosiren, que, como os fósseis, até certo ponto, ligam ordens hoje largamente separadas na escala natural. Estas formas anómalas podem quase serem chamadas de fósseis vivos (…)”

Os fósseis vivos incluem alguns animais exóticos e raros como o celacanto*, bem como alguns muito familiares, senão propriamente agradáveis, como as baratas.

As duas espécies de Tuatara, Sphenodon pundactus e Sphenodon guntheri, são as únicas que sobreviveram da Ordem Sphenodontia (do grego “sphenos”, cunha e “odon(t)”, dente), um grupo primitivo de répteis que prosperou em grande parte do planeta há 200 milhões de anos. Em algum momento há cerca de 100 milhões de anos, os Sphenodontia desapareceram da face da Terra- excepto da região que corresponde à actual Nova Zelândia. Não será mera coincidência que foi nesta mesma época que a Nova Zelândia se separou das massas terrestres circumdantes. De facto, o valor do isolamento para a sobrevivência da Tuatara está hoje novamente em triste evidência- a introdução de cães, gatos e ratos pelo homem, bem como o deflorestamento, levaram à extinção das duas espécies na ilha principal daquele país. Hoje as Tuatara sobrevivem na natureza apenas em comunidades isoladas em 32 pequenas ilhas. Entre as muitas características curiosas do género Sphenodon, certamente se destaca o seu terceiro olho, uma retina extra com ligação nervosa à glândula pineal, evidente nos indivíduos jovens. Sua função é desconhecida, mas como se sabe que a pineal actua na regulação dos chamados relógios biológicos, especula-se que o terceiro olho controle bio-ciclos diários, ou talvez dos períodos de hibernação.

Ora então como foram estes pacatos sobreviventes do Mezozóico parar em uma das páginas de notícias mais prestigiadas do mundo científico? O trabalho de David Lambert e seus colaboradores da Massey University, em Auckland na Nova Zelândia, fez uso de amostras de DNA extraídas de 33 óssos fósseis de Tuatara com até 8000 anos de idade e chegou a uma conclusão surpreendente: apesar de haver mantido a mesma aparência física ao longo de mais de 200 milhões de anos, a taxa de evolução molecular** do género é a mais alta medida até hoje. O resultado é ainda mais intrigante se considerarmos o ciclo de vida dos Sphenodon. A maturidade sexual é atingida em torno dos 15 anos de idade (dependendo da espécie), as fêmeas só se reproduzem em média uma vez a cada quatro anos- e quando o fazem demoram de 8-9 meses a porem os ovos, e estes ainda esperarão vários meses até chocarem (passada a longa espera os recém-chocados Tuatara ainda por cima correm grande risco de serem comidos pelos adultos, inclusive os próprios pais!). Junte-se a estabilidade da sua forma, a lentidão da sua reprodução e o seu metabolismo basal baixo***, e os Tuataras são os candidatos teóricos ideais para exibirem uma baixíssima taxa de evolução molecular. O que aconteceu? Ainda não sabemos- e muitos investigadores questionam as técnicas utilizadas neste trabalho, mas o blog estará de olho na notícia científica e antipodal.


* Os celacantos são peixes que se pensavam extintos há 80 milhões de anos atrás, até que alguns foram pescados no Oceano Índico em pleno século vinte.

** A taxa de evolução molecular é uma medida da substituição de bases (isto é, das “letras” do código genético) em função do tempo.

*** Muitos cientistas acreditam que o ritmo metabólico elevado produz mais danos ao material genético, e por isso leva a uma maior ocorrência de mutações.


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março 26, 2008

NA FRONTEIRA DA CIÊNCIA

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DIA 26.03.08
18H
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN: AUDITÓRIO 2

Icebergs, neve e muitos pinguins: as razões do ano polar internacional
José Xavier
Centro de Ciências do Mar, Universidade do Algarve


Como é que os icebergs, a neve e os pinguins nos podem ajudar a compreender a importância das regiões polares em relação às alterações climáticas que estão a ocorrer no Planeta, é o foco desta palestra. Portugal foi um dos países envolvidos no início da exploração polar, logo no século XVI e, nos últimos trinta anos, um grupo de oito investigadores portugueses desenvolveram estudos científicos na Antárctica, em colaborações internacionais com vários países. Pela primeira vez na história, no entanto, Portugal está a participar no Ano Polar Internacional (API), um programa internacional científico e educacional sobre os pólos (consultar o site: http://anapolar.no.sapo.pt). Portugal assinará em breve o Tratado da Antárctica, que define que este continente seja devotado à ciência e à paz. A palestra de José Xavier focará os estudos científicos que estão a ser realizados por cientistas portugueses nos pólos, nas suas diferentes áreas – ciências atmosféricas, ciências biológicas, ciências da Terra e criosfera, ciências planetárias e astronomia. Ainda no âmbito do API, o comité Português para o Ano Polar Internacional e a Associação de Professores de Geografia, elaborou um projecto chamado LATITUDE60!, cujos principais objectivos são educar sobre as regiões polares, mostrar a importância determinante que estas regiões têm para a dinâmica e regulação climática do Planeta e apresentar a excelente ciência que os investigadores portugueses produzem nessas regiões.

José Xavier é biólogo marinho, com publicações em ecologia, conservação e gestão de recursos marinhos. Doutorou-se pela Universidade de Cambridge, Inglaterra, e é actualmente investigador no Centro de Ciências do Mar, Universidade do Algarve, e na British Antarctic Survey (Reino Unido). Faz investigação na Antárctica desde 1997. José Xavier é membro do Comité Português para o Ano Polar Internacional e coordenador nacional de três projectos chave do Ano Polar Internacional. Para além disto, representa Portugal na Cambridge Philosophical Society, Cephalopod International Advisory Council (CIAC), Association of Early Career Scientists (APECS), Youth Steering Committee for the International Polar Year (YSC) e Scientific Committee for Antarctic Research (SCAR).

Publicado por tentilhão às 11:27 AM | Comentários (0)

março 24, 2008

ADAM SEDGWICK

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A 22 de março de 1785 nascia em Yorkshire, na Inglaterra, Adam Sedgwick. Vindo de uma família de meios modestos, Sedgwick ocuparia a cadeira Woodwardiana de Geologia em Cambridge. Seguidor do Catastrofismo* de Georges Cuvier, Sedgwick estabeleu eras geológicas importantes, entre elas o Câmbrico** (o nome vem do Latin “Cambria”, que designava o País de Gales, onde Sedgwick descreveu o período). O Câmbrico representa o período de maior criação de diversidade na história do planeta- hoje sabemos que essencialmente todos os planos de organização dos animais multicelulares datam desta época- e no século XIX era considerado como sendo o início da vida, pois não se encontravam fósseis em estratos geológicos anteriores (ainda hoje são raros).

Darwin frequentou as palestras de Sedgwick em Cambridge, mas o mais importante foi a oportunidade que teve de passar um Verão com Sedgwick no País de Gales. Foi aí que o jovem Charles aprendeu a maior parte das técnicas de recolha de dados e observação geológica que aplicou durante a viagem do Beagle. Mestre e aluno permaneceram ligados, e Darwin enviou a Sedgwick a maior parte das amostras de rochas que coleccionou durante a viagem do Beagle***. Por sua vez, Sedgwick deu um importante impulso a carreira científica de Darwin ao ler parte das observações geológicas da viagem do Beagle numa sessão da Sociedade Geológica em Londres, enquanto Charles ainda estava em alto mar (Darwin foi admitido a Sociedade logo após seu retorno a Inglaterra).

Engana-se quem pensa que por ter publicado sua teoria da evolução das espécies por seleção natural tão tardiamente na vida, Darwin escapou das críticas de seu antigo mestre. Sedgwick teve uma vida longa e morreu aos 87 anos, em 1873. Por isso teve muito tempo para criticar publicamente as ideias de seu ex-aluno. Sedgwick já se opusera aos modelos de evolução antes, nomeadamente às propostas de Lamarck e aos “Vestígios da História Natural da Criação” de Chambers, e atacou duramente Darwin; em carta pessoal o antigo professor lhe disse que:

“Eu li o seu livro com mais dor do que prazer. Partes dele eu admirei imensamente, em certas partes eu ri até quase me magoar; outras partes eu li com absoluta tristeza, porque as achei inteiramente falsas e completamente enganosas- Desertaste- após iniciar com enorme carga somente de verdades físicas sólidas- o verdadeiro método da indução (…)”

Darwin já esperava um ataque de Sedgwick, e comentou (com alguma ironia) em carta a T.H. Huxley “Recebi uma gentil mas cortante carta do pobre querido velho Sedgwick, ‘que riu com meu livro até quase se magoar’” (Darwin para Huxley, 25 de Novembro de 1859). Para seu mentor e amigo, John Henslow, Darwin expressou uma mágoa mais profunda- a esta altura Sedgwick já havia difundido publicamente críticas à capacidade de Darwin como cientista: “Eu posso perfeitamente compreender que Sedgwick, ou qualquer um diga que a Seleção Natural não explica grandes classes de factos; mas isto é muito diferente de dizer que eu abandonei os princípios correctos da investigação científica.” (Darwin para Henslow, 18 de Maio de 1860).

Sedgwick faleceu no dia 27 de Janeiro de 1873, sem nunca ter mudado de opinião. Hoje o Museu Geológico da Universidade de Cambridge leva seu nome, e lá estão guardadas as amostras de rochas e minerais recolhidas por Darwin durante a viagem do HMS Beagle.


* O Catastrofismo era a vertente do pensamento Geológico segundo a qual a história da Terra se caracterizou por uma série de eventos catastróficos (como a enchente bíblica), que destruíram sequencialmente muitas forma de vida.
** 540-490 milhões de anos atrás.
*** Sedwick expressou sua admiração à família de Charles em uma carta onde dizia “Ele está se portando admiravelmente na América do Sul e já nos enviou uma coleção acima de todos os louvores (…)”

- Thiago Carvalho

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março 22, 2008

BELEZA NATURAL

Segmento do filme "The Pleasure of Finding Things Out", com Richard Feynman.

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março 20, 2008

ARTHUR C. CLARKE, 1917-1918

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Alguma coisa fascina Keir Dullea no filme "2001"

A NASA anunciou (o site é gratuito, mas exige registo) esta semana que moléculas orgânicas* foram encontradas na atmosfera de um planeta fora do nosso sistema solar. A molécular detectada, o metano, é dos compostos orgânicos mais simples- mas é excitante encontrá-la em um planeta onde anteriormente já havia sido detectada a presença de outro fundamento da vida, tal como a conhecemos, a água. Embora o planeta em si, que orbita um astro da constelação Vulpecula** (“raposinha”, em latim) tenha massa e temperatura ambas muito altas para ser um lugar aconchegante, a descoberta é um triunfo para o telescópio espacial Hubble, demonstrando a possibilidade de se obter dados químicos desta natureza a distâncias tão grandes (297 anos-luz).

Historicamente, os compostos orgânicos estão ligados à vida (daí seu nome), e acreditava-se mesmo ser necessário uma “vis vitalis” (força vital) para a sua formação. Há muito sabemos que os compostos orgânicos não dependem de seres vivos para a sua síntese- esta hipótese foi definitivamente refutada pelas experiências do químico alemão Friedrich Wohler, que em 1826 foi o primeiro a sintetizar um composto orgânico, a úrea, a partir de precursores inteiramente inorgânicos. Portanto esta descoberta não implica de modo algum que a NASA tenha encontrado ETs.

A descoberta foi anunciada alguns dias após a morte do escritor Arthur C. Clarke . Clarke, que tinha 90 anos de idade, era um ícone da ficção-científica, e um dos mestres do género que mais se preocupava com a segunda metade do rótulo. Antes de se dedicar a escrita, Clarke participou do aperfeiçoamento do radar na Segunda Guerra Mundial, e foi o principal proponente da ideia do satélite (ou rede de satélites) de telecomunicação. Clarke era certamente mais famoso por sua visão de como a vida extra-terrestre teria nos afectado, popularizada mais ainda por Stanley Kubrick na versão cinematográfica de “2001: Uma Odisséia no Espaço”. As idéias de Clarke acerca da biologia eram muitas e variadas, algumas de uma criatividade verdadeiramente notável- como exemplo, recomendo aos leitores com tempo e google que leiam mais a respeito da vida quiral (chiral life).

Uma outra pessoa que expressou uma opinião positiva sobre a vida extra-terrestre, e sua possível viagem até nosso globo, foi um nosso antigo conhecido, Charles Darwin, mas esta história fica para mais tarde.

* Quimicamente os compostos orgânicos são definidos pela presença do átomo de carbono ligado covalentemente ao hidrogénio.

** Vulpecula pode ser mais obscura que Cassiopeia ou a Ursa Maior, mas já gozava de alguma fama na comunidade astrofísica. Foi lá que na década de 60 foi descrito o primeiro Pulsar.


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março 19, 2008

HMS Beagle, 18 de Março de 1835

“A mula surge-me sempre como um animal muito surpreendente. Que um híbrido possa possuir mais inteligência, determinação, afecto social e poder de resistência de muscular que qualquer um dos seus progenitores parece indicar que, aqui, a arte superou a natureza.”

- Darwin, em terra firme deixa Santiago do Chile rumo à Cordillera Andina, que atravessará a pé, a caminho da Argentina.

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março 16, 2008

POR UM PUNHADO DE DOLLARS

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Desencorajando predadores: versão Eastwood (esquerda) e versão equinoderme (larva em processo de brotamento- direita).

Eriçar os pêlos (mamíferos em geral), mostrar os dentes (os que os têm), emitir odores desagradáveis (gambás): cada bicho utiliza uma, ou várias, estratégias de defesa. Agora Dawn Vaughn e Richard Strathmann, dois biólogos da Universidade de Washington, no noroeste americano descrevem uma tentativa inteiramente nova de assustar predadores potenciais. O seu objecto de estudo é o “sand dollar”*, um Invertebrado marinho (mais precisamente, um Equinoderme, parente das estrelas e ouriços-do-mar), que ganhou este nome nos EUA por ser do tamanho da (raramente usada) moeda de um dólar, ou seja um pouco maior que a nossa peça de dois euros. Embora o adulto desta espécie, Dendraster excentricus, se encontre protegido por uma concha rígida, a larva deste equinoderme é macia e apetitosa para vários dos seus vizinhos.

Vaughn e Strathmann,na Edição de 14 de Março da revista “Science”, introduzem um sofisticado instrumento na sua investigação: o copo de “shots” de tequila. A experiência consiste basicamente em encher o copo não com o néctar mexicano, mas com água, larvas com 4 dias de idade e algas (alimento para estas últimas). A seguir, em alguns copos introduzem- não, ainda não é a tequila- muco de linguado. O linguado é um predador natural das larvas e o seu muco sinaliza a presença de perigo. A resposta das larvas à ameaça é bastante peculiar: elas se clonam e se dividem. A larva agora não é grande, mas é duas, e duas pequenas. A lógica desta defesa seria exatamente a inversa de se eriçar os pêlos para parecer maior, ao se reduzir de 300 mícrons para a metade, a larva se tornaria invisível, ou ao menos desinteressante, para o predador, além de dobrar as chances que algum indivíduo venha a sobreviver. Segundo disse ao
New York Times (o site é gratuito, mas exige registo) Dawn Vaughn, a autora principal do artigo, “É o primeiro caso conhecido de uma larva que se clona em resposta a sinais de predadores.”


* NT: São as bolachas do mar.

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março 12, 2008

Magnânima república

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100 anos e alguns dias depois do regicídio que vitimou D. Carlos I e o seu filho D. Luís Filipe, chamamos a atenção para exposição D. Carlos I, Pioneiro na Investigação do Mar, no Aquário Vasco da Gama.

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março 11, 2008

Palavras, Sem Imagens

Fotos publicadas no jornal "Guardian" de hoje, premiadas no concurso Wellcome Image Awards 2008 (o link leva a slideshow com mais 13 imagens).

Imagem I: Foto de Dave McCarthy and Annie Cavanagh, aglomerado de células de um tumor de mama.

Imagem II: Foto de Dave McCarthy and Annie Cavanagh, mosca sobre cristais de açúcar.

Publicado por tentilhão às 10:23 AM | Comentários (0)

Imagem, Sem Palavras II

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Imagem, Sem Palavras I

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Publicado por tentilhão às 10:19 AM | Comentários (0)

março 10, 2008

Charles Darwin Superstar

man-is-but-a-wormR.jpgApesar de ter optado por viver longe da agitação intelectual de Londres, retirando-se para Down House, Charles Darwin era uma figura pública na Inglaterra Vitoriana. Como tal, Darwin era um alvo irresistível para os cartoonistas- a barba exuberante, as sobrancelhas grossas, um nariz de respeito… A imagem do grande naturalista era inevitavelmente transplantada para símios diversos. Uma conversa registada com um amigo indica que Darwin não se incomodava com esta atenção, pelo contrário, divertia-se com ela:

“Ah, a ‘Punch’ adoptou-me como tema? Eu guardo todas estas coisas. Viste-me na ‘Hornet’?”

“Punch” era a revista satírica mais popular da época (a publicação sobreviveu até 1992), e Darwin tornou-se um dos seus alvos regulares. Na figura vemos o cartoon de um dos mestres vitorianos, Edward Linley Sambourne, onde se lê na legenda “O homem não é senão um verme”, publicado na Punch no ano da morte de Darwin, 1882.

Para os leitores que querem conhecer o assunto mais a fundo, encontra-se disponível online (em formato PDF) um estudo da Doutora Janet Browne sobre o tema, Darwin in Caricature.

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março 07, 2008

Os 150 anos do MNHN na Politécnica (1858-2008)

O Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa inicia este fim-de-semana um ciclo de conferências em comemoração dos seus 150 anos. O MNHN, actualmente localizado na Politécnica, inaugura o ciclo olhando para seu passado: o Professor João Brigola (Universidade de Évora) falará sobre “O Museu Antes da Politécnica”.

Neste Domingo, 9 de Março, às 16:00h, no recém restaurado Laboratório Químico do MNHN (Rua Escola Politécnica, 58). Vale a pena chegar mais cedo para visitar as instalações do Museu.

Metro - estação do Rato (linha amarela)

Autocarros – 58, 773 (frente ao Museu), 92,727,790 (Príncipe Real), 706,74 (Largo do Rato).


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março 06, 2008

Em Homenagem (Tardia) ao Mau Tempo

andrewoverhead_tn.jpgJean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck (ufa!), é hoje lembrado principalmente como anedota em livros texto de Biologia- ouvimos o nome e imediatamente vemos a nossa frente um ancestral esfomeado da girafa, esticando ao máximo seu pescoço para alcançar suculentas folhas no alto de uma árvore. Na realidade Lamarck foi um botânico e zoólogo de grande talento, o maior especialista em invertebrados (termo que ele cunhou) de sua época.

A esta altura em geral inserimos uma análise de como um cientista veio a ser injustamente julgado e caricaturado com base em anacronismos, quase sempre por escribas que ignoram completamente a sua verdadeira obra. Infelizmente para Lamarck, este não foi o seu caso, tendo ele tido o especial desprazer de ser julgado e caricaturado ainda em vida. Quando publicou seu livro mais importante, “Filosofia Zoológica”, Lamarck já sofria de uma falta de credibilidade aos olhos dos seus leitores que nada tinha a ver com sua actuação na Biologia*.

De 1800-1810 Jean-Baptiste se aventurou pelo estudo do tempo, oferecendo previsões no seu “Anuário Meterológico”. Ainda hoje, com satélites a mapear correntes marinhas e massas de ar e supercomputadores integrando esta informação seria completamente impossível prever que dia vai chover algures no interior da França daqui a quatro meses… Ao final de uma década de maus conselhos deste género (infelizmente os anuários venderam bem) muita gente havia completamente perdido a paciência com as teorias de Lamarck. À frente deste pelotão de críticos estava a figura mais influente da França, um baixinho originário da Córsega, conhecido pela família e amigos pelo carinhoso apelido de Sua Majestade, O Imperador. Ao ser oferecido por Lamarck uma cópia da “Filosofia Zoológica”, Napoleão não só recusou a obra, como também publicamente ridicularizou seu autor. O blog encontrou diversas alusões ao evento, mas infelizmente nenhuma transcrição dos comentários de Bonaparte- apelamos aos nossos leitores: se tiverem conhecimento de uma fonte primária, envie-nos para post futuro, com os devidos agradecimentos.


* Já que mecionamos os anacronismos, Lamarck é talvez a primeira pessoa a quem podemos nos referir como “biólogo”, uma vez que foi ele que introduziu a palavra “Biologia”, em 1802.

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março 03, 2008

Darwin na Bahia

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O HMS Beagle atravessou o Atlântico e atracou em Salvador, na Bahia de Todos os Santos, a 28 de Fevereiro de 1832. Nosso herói não ficou indiferente à beleza dos seus arredores. A primeira impressão no seu diário de bordo exalta a cidade vista do seu porto:

“Seria difícil de imaginar, antes de contemplar a vista, qualquer coisa tão magnífica.”

Darwin se mostraria fascinado primeiro pela cidade, e depois pela natureza ao longo de sua estadia no Brasil. Mas não seria uma experiência inteiramente positiva. No Brasil ele teria ainda encontros marcantes com a escravidão. Como veremos mais adiante, a oposição de Darwin ao grande flagelo social da sua época foi imediata, inequívoca e visceral- seria a causa da sua primeira grande briga com o tempestuoso comandante do Beagle, o Capitão Robert FitzRoy.

A embarcação permanece no porto de Salvador até 18 de Março, dando a Darwin a oportunidade de conhecer outro fenómeno social brasileiro - o Carnaval naquele ano foi no início do mês. Charles parece ter encarado a festa mais como ameaça do que como diversão, e as breves entradas no seu diário tratam a folia bahiana como um percurso de obstáculos:

(Da entrada de 4 de Março)

“Hoje é o primeiro dia de Carnaval, mas Wickham, Sullivan* e eu não nos intimidámos e estávamos determinados a encarar seus perigos. Estes perigos consistem principalmente em sermos impiedosamente fusilados com bolas de cera cheias de água e molhados com esguichos de lata. Achámos muito difícil manter a nossa dignidade enquanto caminhávamos pelas ruas.”

* Companheiros de Darwin a bordo do HMS Beagle. Sobre Bartholomew James Sullivan, Tenente da Marinha Real, não sabemos grande coisa. Já John Clements Wickham, também Tenente durante a segunda viagem do Beagle (1831-1836, da qual participou Charles Darwin), seria depois promovido a Capitão e comandaria o Beagle na sua terceira expedição, que tinha como meta a confecção de uma carta hidrográfica do litoral australiano. Para os que acompanham o noticiário acerca de Timor e se perguntam como a cidade de Darwin, no norte da Austrália, onde estão baseados a maior parte dos jornalistas cobrindo aquela área do pacífico, veio a ter este nome, foram Wickham e John Lort Stokes (antigo companheiro de cabine de Darwin) que a batizaram, em homenagem ao seu antigo companheiro de viagem.

Publicado por tentilhão às 12:04 PM | Comentários (1)